Arte Crist√£

Sum√°rio

Introdução

1 A arte na vida humana

2 A arte cristã (aspectos históricos)

3 A arte cristã na esteira do Concílio Vaticano II

Referências

Falar de arte n√£o √© tarefa f√°cil. Mesmo restrita ao √Ęmbito da ‚ÄúArte crist√£‚ÄĚ, a empreitada n√£o deixa de ser desafiadora, dada a amplitude e a complexidade do tema em si. Nossa proposta √© modesta. Limitamo-nos a tecer alguns apontamentos em torno da rela√ß√£o arte-liturgia e vice-versa, a partir de tr√™s pontos: a arte na vida humana; a arte crist√£ (aspectos hist√≥ricos); a arte crist√£ na esteira do Conc√≠lio Vaticano II.

1 A arte na vida humana

Pode-se afirmar que, desde tempos muito remotos, a arte est√° intimamente ligada √† vida humana. Ela se expressa sob diferentes formas de linguagem: visuais (pintura, desenho, gravura…), musicais (ritmo, melodia, harmonia…), perform√°ticas (dan√ßa, teatro, m√°gica, m√≠mica…) etc. Ali√°s, h√° uma rela√ß√£o, quase que simbi√≥tica, do ser humano com a arte:

O ser humano sempre necessitar√° da arte para resolver essa sua limita√ß√£o natural para encontrar aquela parte do real e de si mesmo que sua imagina√ß√£o lhe diz ainda n√£o ter sido conhecida.¬†A fun√ß√£o da arte √© recriar para a experi√™ncia de cada indiv√≠duo a plenitude daquilo que ele n√£o √©, isto √©, a experi√™ncia da humanidade em geral. E ela o faz de maneira m√°gica e l√ļdica, mostrando a realidade como algo que pode ser transformado, dominado, manipulado como um brinquedo. […] O nosso ‚Äúeu‚ÄĚ limitado sofre uma amplia√ß√£o maravilhosa pela experi√™ncia de uma obra de arte. E muitas vezes, nesse processo de identifica√ß√£o, deixamos de ser meras testemunhas da cria√ß√£o e passamos a ser tamb√©m um pouco criadores daquelas obras que estendem os nossos horizontes e nos elevam acima da superf√≠cie a que estamos pegados (CARMO, 2021).

A arte tamb√©m ocupa lugar privilegiado no √Ęmbito religioso. Ela √© parte integrante de a√ß√Ķes simb√≥lico-rituais, pr√≥prias de cada cultura. No cristianismo, por exemplo, houve uma amistosa interatividade entre arte e liturgia.

No caso t√≠pico europeu, acabou por ser o cristianismo o principal contexto dessa rela√ß√£o, com a not√°vel elabora√ß√£o de arte para a liturgia, num servi√ßo que chega √† fus√£o quase completa: as grandes obras de arquitetura, da pintura, da poesia, da m√ļsica foram, em grande parte, obras para a liturgia, o que pressupunha na sua pr√≥pria elabora√ß√£o ‚Äď e tamb√©m na recep√ß√£o e configura√ß√£o ‚ÄĒ a sua integra√ß√£o ritual (DUQUE, 2018, p. 26).

O papa Jo√£o Paulo II, na c√©lebre Carta aos artistas, nos recorda que a arte de inspira√ß√£o crist√£ come√ßou em surdina, ditada pela necessidade que os crentes tinham de elaborar sinais para exprimir, com base na Escritura, os mist√©rios da f√© e, simultaneamente, de arranjar um ‚Äúc√≥digo simb√≥lico‚ÄĚ para se reconhecerem e identificarem, especialmente nos tempos dif√≠ceis das persegui√ß√Ķes. A t√≠tulo de exemplo, ele cita os ‚Äúprimeiros vest√≠gios de uma arte pict√≥rica e pl√°stica: o peixe, os p√£es, o pastor‚ÄĚ (JO√ÉO PAULO II, 1999, n. 7). N√£o por acaso, tais imagens ilustravam paredes dos lugares onde os primeiros crist√£os se reuniam para celebrar o memorial da P√°scoa de Cristo (a liturgia). Assim como toda arte, essa ‚Äúarte crist√£‚ÄĚ √© portadora de densidade simb√≥lica, capaz de expressar e atingir o ser humano em sua totalidade, constituindo, assim, numa esp√©cie de suporte e ve√≠culo nos quais est√£o presentes capacidades cognitivas, vis√Ķes de mundo, cren√ßas, imagina√ß√£o, hist√≥ria, afetividade, t√©cnica, corporeidade, espiritualidade, f√©. E mais:

√Č linguagem simb√≥lica, interpretativa, e interpelativa de cuja for√ßa o ser humano pode emergir como hermeneuta de si, do mundo, das coisas que ultrapassam ao que pode ser diretamente apreens√≠vel pelos sentidos ou codificado na frieza da objetividade puramente racional expressa em aparato l√≥gico conceitual (VILHENA, M. A., 2015, p. 36).

Essas (e outras poss√≠veis) dimens√Ķes que encerram a linguagem simb√≥lica se aplicam √† a√ß√£o lit√ļrgica. Gra√ßas √† ‚Äúarte‚ÄĚ do rito, os fi√©is t√™m livre acesso √†quela ‚Äúbeleza t√£o antiga e t√£o nova‚ÄĚ que √© o mist√©rio do pr√≥prio Deus, revelado em Jesus Cristo.

2 A arte cristã (aspectos históricos)

Conforme aludido na introdução deste texto, também aqui a abordagem se limitará a alguns apontamentos de caráter geral, tendo como base a relação arte-liturgia e vice-versa.

a) No primeiro milênio

A partir do edito de Constantino (ano 313), a arte tornou-se um canal privilegiado de manifesta√ß√£o da f√©. No √Ęmbito da arquitetura, aqueles simples espa√ßos (‚ÄúIgreja das casas‚ÄĚ) onde os crist√£os se reuniam para as celebra√ß√Ķes lit√ļrgicas foram, gradativamente, substitu√≠dos por suntuosas bas√≠licas (‚Äúcasas da Igreja‚ÄĚ), √† moda das bas√≠licas imperiais.

Esse modelo foi escolhido pela sua praticidade: a abside configurou-se como lugar perfeito para a c√°tedra do bispo e para o banco semicircular do presbit√©rio; no come√ßo da nave principal, instalou-se o bema com o amb√£o e, em Roma, o altar foi colocado nas imedia√ß√Ķes da abside, entre o clero e o povo (SILVA, J. P., 2022, p. 132).

Nesses amplos espa√ßos, desenvolveram-se, de forma concomitante, as artes pict√≥ricas, esculturais e musicais. No limiar do s√©culo VIII, a liturgia romana atingira sua forma plena, devidamente compilada em livros lit√ļrgicos (sacrament√°rios, lecion√°rios, antifon√°rios…). O ‚ÄúCanto gregoriano‚ÄĚ, por sua vez, tamb√©m se encontrava plenamente estruturado e, assim como toda a liturgia romana, √© exportado para o imp√©rio franco-germ√Ęnico. Esse canto, com o passar dos s√©culos, se tornar√° a express√£o musical t√≠pica da f√© da Igreja, celebrada nas a√ß√Ķes lit√ļrgicas. Se, por um lado, h√° de se admirar a beleza desses templos, com sua m√ļsica altamente sofisticada, por outro, esse novo formato (‚Äúcasas da Igreja‚ÄĚ) favoreceu o clericalismo e o distanciamento progressivo dos fi√©is leigos, no que tange √† participa√ß√£o na a√ß√£o lit√ļrgica.

No √Ęmbito do imp√©rio bizantino, entre os s√©culos VIII e IX, a Igreja teve de lutar contra alguns imperadores e bispos que apoiaram o chamado ‚Äúmovimento iconoclasta‚ÄĚ. Esse movimento repudiava o uso e a venera√ß√£o de imagens (√≠cones). Foi um per√≠odo conturbado e at√© de viol√™ncia extrema, incluindo ex√≠lios, pris√Ķes, torturas e mortes. Apoiados em textos do Antigo Testamento e em ‚Äúideologias‚ÄĚ surgidas no juda√≠smo e islamismo de ent√£o, os iconoclastas recha√ßavam qualquer representa√ß√£o imag√©tica de Cristo, da Virgem Maria e dos santos. Na opini√£o deles, isso configurava idolatria. Os iconoclastas chegaram √† inusitada conclus√£o de que o √ļnico √≠cone de Cristo √© a eucaristia (esp√©cies eucar√≠sticas); tamb√©m repudiavam a venera√ß√£o de rel√≠quias dos santos.

Diversos s√≠nodos e at√© conc√≠lios discutiram esse tema. O mais not√°vel foi o Conc√≠lio Ecum√™nico de Niceia II, em 789. Nele, estabeleceu-se a legitimidade das imagens e de seu culto, gra√ßas ao aux√≠lio de s√≥lidos argumentos teol√≥gicos. O eixo axial dessa teologia foi o mist√©rio da Encarna√ß√£o do Verbo. Jo√£o Paulo II, na Carta Apost√≥lica Duodecimum Saeculum ‚ÄĒ por ocasi√£o do XII centen√°rio do referido Conc√≠lio ‚ÄĒ, assim se expressa:

A iconografia de Cristo implica, portanto, toda a f√© na realidade da Encarna√ß√£o e no seu significado inexaur√≠vel para a Igreja e para o mundo. Se a Igreja costuma p√ī-la em pr√°tica, f√°-lo porque est√° convencida que o Deus revelado em Jesus Cristo resgatou realmente e santificou a carne e o inteiro mundo sens√≠vel, ou seja, o homem com os seus cinco sentidos, a fim de lhe permitir renovar-se constantemente ‚Äú√† imagem d‚ÄôAquele que o criou‚ÄĚ (Cl¬†3,10). (JO√ÉO PAULO II, 1987, n. 9).

Reconhecendo a import√Ęncia da arte iconogr√°fica, bem como sua redescoberta em tempos atuais, o ent√£o Papa encoraja os fi√©is a uma efetiva venera√ß√£o dessa arte milenar, nestes termos:

A redescoberta do √≠cone crist√£o ajudar√° tamb√©m a tomar consci√™ncia da urg√™ncia de reagir contra os efeitos despersonalizadores, e √†s vezes degradantes, das m√ļltiplas imagens que condicionam a nossa vida, na publicidade e nos ‚Äúmass-media‚ÄĚ; trata-se de fato de uma imagem que faz chegar at√© n√≥s o olhar de um Outro invis√≠vel e que nos d√° acesso √† realidade do mundo espiritual e escatol√≥gico (JO√ÉO PAULO II, 1987, n. 11).

b) No segundo milênio

No segundo mil√™nio, a arte crist√£, sobretudo no Ocidente, se expandiu de forma vertiginosa. No √Ęmbito da arquitetura, emergiram estilos marcantes nos edif√≠cios das igrejas e abadias como, por exemplo, o rom√Ęnico, o g√≥tico, o cl√°ssico, o barroco. A pintura e a escultura atingiram elevados graus de perfei√ß√£o t√©cnica e est√©tica, a ponto de n√£o mais necessitar, a priori, dos espa√ßos sagrados e de sua vincula√ß√£o com a f√©. A ‚Äúm√ļsica sacra‚ÄĚ ‚ÄĒ que se limitava, basicamente, ao canto mon√≥dico, de uso exclusivo nas a√ß√Ķes lit√ļrgicas ‚ÄĒ, aos poucos, ganhou formas e contornos diversos. Ao lado do ‚Äúcantoch√£o‚ÄĚ (mon√≥dico), desenvolveram-se sofisticados tecidos polif√īnicos (de duas ou mais vozes), al√©m do uso, cada vez mais frequente, de instrumentos musicais. Tudo isso contribuiu para que essa m√ļsica ultrapassasse os limites do √Ęmbito lit√ļrgico. N√£o por acaso, a ‚ÄúMissa‚ÄĚ (Kyrie, Gl√≥ria, Credo, Sanctus-Benedictus, Agnus Dei) se converteu numa esp√©cie de forma musical, ao lado da su√≠te, da sonata, da sinfonia etc., e passou a ser executada tamb√©m em teatros. Ao longo do segundo mil√™nio, destacaram-se grandes nomes, como: Palestrina, Orlando de Lasso, Victoria (polifonia cl√°ssica); Haendel, Bach, Vivaldi (barroco); Haydn, Mozart (classicismo); Beethoven, Schubert, Berlioz, Listz, Verdi (romantismo).

Ao contr√°rio do Ocidente, a arte crist√£ oriental n√£o se deixou ‚Äúcontaminar‚ÄĚ por pensamentos e/ou ideologias est√©ticas, surgidas fora do √Ęmbito eclesial. A arte iconogr√°fica, por exemplo, manteve-se fiel aos c√Ęnones teol√≥gico-lit√ļrgico-espirituais, elaborados pela ortodoxia bizantina. O crit√©rio basilar dessa arte √© a n√£o reprodu√ß√£o da natureza como tal (naturalismo/realismo), mas a representa√ß√£o de uma imagem transfigurada pela interioridade espiritual. No √≠cone, tudo √© prenhe de simbolismo: cores, vestes, express√Ķes corporais (m√£os, rosto, olhos, nariz, ouvidos, boca…), ou seja, nada √© subjetivo. ‚ÄúO √≠cone, visto com os olhos do cora√ß√£o iluminados pela f√©, nos abre para a realidade invis√≠vel, para o mundo do Esp√≠rito, para a economia divina, para o mist√©rio crist√£o na sua totalidade ultraterrena. √Č lugar teol√≥gico, antes, ‚Äėteologia visual‚Äô‚ÄĚ (DONADEO, 1996, p. 20). Tamb√©m a ‚Äúm√ļsica sacra bizantina‚ÄĚ manteve, ao longo dos s√©culos, suas principais caracter√≠sticas, a saber: √© essencialmente vocal e monof√īnica; √© modal (estruturada nos oito modos gregos); privilegia o sentido teol√≥gico-lit√ļrgico do texto e/ou palavras.

3 A arte cristã na esteira do Concílio Vaticano II

A breve mensagem do papa Paulo VI, dirigida aos artistas, por ocasião do encerramento do Concílio Vaticano II, resume, de forma magistral, a empatia pelo diálogo entre Igreja e cultura, com reflexos imediatos no campo da arte e a consequente reverência aos seus artífices:

Para todos v√≥s, artistas, que sois prisioneiros da beleza e que trabalhais para ela: poetas e letrados, pintores, escultores, arquitetos, m√ļsicos, homens do teatro, cineastas […].

Desde há muito que a Igreja se aliou convosco. Vós tendes edificado e decorado os seus templos, celebrado os seus dogmas, enriquecido a sua Liturgia. Tendes ajudado a Igreja a traduzir a sua divina mensagem na linguagem das formas e das figuras, a tornar perceptível o mundo invisível.

Hoje como ontem, a Igreja tem necessidade de vós e volta-se para vós. E diz-vos pela nossa voz: não permitais que se rompa uma aliança entre todas fecunda. Não vos recuseis a colocar o vosso talento ao serviço da verdade divina. Não fecheis o vosso espírito ao sopro do Espírito Santo.

O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para n√£o cair no desespero. A beleza, como a verdade, √© a que traz alegria ao cora√ß√£o dos homens, √© este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gera√ß√Ķes e as faz comungar na admira√ß√£o. E isto por vossas m√£os.

Que estas m√£os sejam puras e desinteressadas. Lembrai-vos de que sois os guardi√Ķes da beleza no mundo: que isso baste para vos afastar dos gostos ef√™meros e sem valor aut√™ntico, para vos libertar da procura de express√Ķes estranhas ou indecorosas.

Sede sempre e em toda a parte dignos do vosso ideal, e sereis dignos da Igreja, que, pela nossa voz, vos dirige neste dia a sua mensagem de amizade, de salvação, de graça e de bênção.

Essa mensagem deve, necessariamente, ser lida √† luz das Constitui√ß√Ķes e Decretos do pr√≥prio Conc√≠lio, sobretudo as Constitui√ß√Ķes Gaudium et Spes (GS) e Sacrosanctum Concilium (SC), e o Decreto Inter Mirifica (IM).

Na Gaudium et Spes, por exemplo se diz:

A literatura e as artes s√£o tamb√©m, segundo a maneira que lhes √© pr√≥pria, de grande import√Ęncia para a vida da Igreja. Procuram elas dar express√£o √† natureza do homem, aos seus problemas e √† experi√™ncia das suas tentativas para conhecer-se e aperfei√ßoar-se a si mesmo e ao mundo; e tentam identificar a sua situa√ß√£o na hist√≥ria e no universo, dar a conhecer as suas mis√©rias e alegrias, necessidades e energias, e desvendar um futuro melhor. Conseguem assim elevar a vida humana, que exprimem sob muito diferentes formas, segundo os tempos e lugares.

Por conseguinte, deve-se trabalhar para que os artistas sintam-se compreendidos, na sua atividade, pela Igreja e que, gozando de uma conveniente liberdade, tenham mais facilidade de contatos com a comunidade crist√£. A Igreja deve tamb√©m reconhecer as novas formas art√≠sticas, que, segundo o g√™nio pr√≥prio das v√°rias na√ß√Ķes e regi√Ķes, se adaptam √†s exig√™ncias dos nossos contempor√Ęneos. Sejam admitidas nos templos quando, com linguagem conveniente e conforme as exig√™ncias lit√ļrgicas, levantam o esp√≠rito a Deus (GS, n. 62).

Por sua vez, a Sacrosanctum Concilium afirma:

Entre as mais nobres atividades do espírito humano estão, de pleno direito, e muito especialmente a arte religiosa e o seu mais alto cimo, que é a arte sacra. Elas tendem, por natureza, a exprimir de algum modo, nas obras saídas das mãos do homem, a infinita beleza de Deus, e estarão mais orientadas para o louvor e glória de Deus se não tiverem outro fim senão o de conduzir piamente e o mais eficazmente possível, através das suas obras, o espírito do homem até Deus.

√Č esta a raz√£o por que a santa m√£e Igreja amou sempre as belas artes, formou artistas e nunca deixou de procurar o contributo delas, procurando que os objetos atinentes ao culto fossem dignos, decorosos e belos, verdadeiros sinais e s√≠mbolos do sobrenatural. A Igreja julgou-se sempre no direito de ser como que o seu √°rbitro, escolhendo entre as obras dos artistas as que estavam de acordo com a f√©, a piedade e as orienta√ß√Ķes vener√°veis da tradi√ß√£o e que melhor pudessem servir ao culto […].

A Igreja nunca considerou um estilo como pr√≥prio seu, mas aceitou os estilos de todas as √©pocas, segundo a √≠ndole e condi√ß√£o dos povos e as exig√™ncias dos v√°rios ritos, criando deste modo, no decorrer dos s√©culos, um tesouro art√≠stico que deve ser conservado cuidadosamente. Seja tamb√©m cultivada livremente na Igreja a arte do nosso tempo, a arte de todos os povos e regi√Ķes, desde que sirva com a devida rever√™ncia e a devida honra √†s exig√™ncias dos edif√≠cios e ritos sagrados. Assim poder√° ela unir a sua voz ao admir√°vel c√Ęntico de gl√≥ria que grandes homens elevaram √† f√© cat√≥lica em s√©culos passados (SC, n. 122-123).

A Inter Mirifica, enfim, afirma:

Uma segunda quest√£o se p√Ķe sobre as rela√ß√Ķes que medeiam entre os chamados direitos da arte e as normas da lei moral. Dado que, n√£o raras vezes, as controv√©rsias que surgem sobre esse tema t√™m a sua origem em falsas doutrinas sobre √©tica e est√©tica, o Conc√≠lio proclama que a primazia da ordem moral objetiva h√° de ser aceita por todos, porque √© a √ļnica que supera e coerentemente ordena todas as demais ordens humanas, por mais dignas que sejam, sem excluir a arte. Na realidade, s√≥ a ordem moral atinge, em toda a sua natureza, o homem, criatura racional de Deus e chamado ao sobrenatural; quando tal ordem moral se observa √≠ntegra e fielmente, condu-lo √† perfei√ß√£o e bem-aventuran√ßa plena (IM, n. 6).

Essa amostra de textos conciliares deixa entrever que a Igreja sempre demonstrou apre√ßo pela arte e seus art√≠fices. N√£o por acaso, Jo√£o Paulo II, na mencionada Carta aos artistas, afirmou categoricamente que a Igreja tem necessidade da arte para transmitir a mensagem que Cristo lhe confiou, pois ela (a arte) torna percept√≠vel o mundo do esp√≠rito, do invis√≠vel, de Deus. E conclui dizendo: ‚ÄúA arte possui uma capacidade muito pr√≥pria de captar os diversos aspectos da mensagem, traduzindo-os em cores, formas, sons que estimulam a intui√ß√£o de quem os v√™ e ouve‚ÄĚ (JO√ÉO PAULO II, 1999, n. 12). Vale ressaltar, em contrapartida, que essa atitude de rever√™ncia da parte da Igreja n√£o a isenta da constante vigil√Ęncia de se exercer um ju√≠zo cr√≠tico, frente a determinadas express√Ķes art√≠sticas que possam legitimar posturas anti√©ticas, contr√°rias ao Evangelho, como a injusti√ßa, a xenofobia, a discrimina√ß√£o sexual, a exclus√£o social etc.

A Igreja do Ocidente n√£o elegeu um estilo espec√≠fico de arte para si, mas aceitou estilos de diversas √©pocas. As Sagradas Escrituras e a Liturgia desempenharam papel decisivo no processo de discernimento quanto ao que se deve acatar ou rejeitar. Mais do que nunca, esse princ√≠pio milenar se imp√Ķe nos tempos atuais, marcados pela pluralidade de estilos e experimentos, por vezes carregados de excessivas doses de um ‚Äúsubjetivismo personalista‚ÄĚ, que ostenta formas individualizadas, surpreendentes, herm√©ticas e at√© ofensivas √† f√© crist√£. Juan Plazaola acrescenta a tal subjetivismo outras caracter√≠sticas da sensibilidade art√≠stica contempor√Ęnea, a saber (cf. PLAZAOLA, 2006, p. 22-31):

a) O essencialismo: Busca pelo essencial. Uma rea√ß√£o contr√°ria a express√Ķes art√≠sticas do passado, caracterizadas pelo excesso de detalhes e adere√ßos. O desafio consiste na manuten√ß√£o do justo equil√≠brio est√©tico, para n√£o se descambar no minimalismo;

b) A sinceridade: Rejei√ß√£o a simulacros. Prefer√™ncia por elementos reais e n√£o fict√≠cios, como, por exemplo, a utiliza√ß√£o de materiais falsos que imitem pedra, madeira, luz etc. Essa ‚Äúsinceridade‚ÄĚ, no labor criador, √© fundamental para a arte vinculada ao culto crist√£o.

c) Um funcionalismo moderado: √Ä beleza est√©tica se busca agregar a funcionalidade (sagrada) da arte. Aqui, um desafio se imp√Ķe, sobretudo no √Ęmbito da arquitetura: n√£o se deixar levar pela onda do mero ‚Äúconforto‚ÄĚ, reduzindo o ‚Äúfuncionalismo‚ÄĚ a algo meramente est√©tico-pr√°tico.

d) A economia e sobriedade: Quando aplicada diretamente √† arte crist√£, esta caracter√≠stica coincide com a recomenda√ß√£o dada pelo Conc√≠lio Vaticano: ‚ÄúCuidem os Ordin√°rios que, promovendo e incentivando a arte verdadeiramente sacra, visem antes √† nobre beleza que √† mera suntuosidade. O que se h√° de entender tamb√©m das vestes sagradas e dos ornamentos‚ÄĚ (SC, n. 124). Contudo, vale o alerta de que essa ‚Äúnobre simplicidade‚ÄĚ n√£o deva ser confundida com o artificial e banal.

e) A pureza: Esta caracter√≠stica possui estreita rela√ß√£o com a anterior. ‚ÄúPureza‚ÄĚ, aqui, n√£o significa ‚Äúfrieza‚ÄĚ, ‚Äúcerebralismo‚ÄĚ…, muito comuns em movimentos art√≠sticos do s√©culo XX como, por exemplo, o cubismo.

Pureza √© respeitar a aur√©ola sagrada que as coisas intactas criadas por Deus parecem irradiar. […] Felizmente, parece que hoje estamos recuperando, no Ocidente, o ‚Äúdom da aten√ß√£o‚ÄĚ frente aos objetos elementares e puros da Cria√ß√£o. E nas coisas criadas por m√£os humanas, preferimos tamb√©m a simplicidade e a integralidade (PLAZAOLA, 2006, p. 29).

Em suma, todo e qualquer ju√≠zo emitido sobre a arte e seus art√≠fices √©, at√© certo ponto, incompleto e parcial. O ‚Äúmist√©rio‚ÄĚ da arte n√£o permite enquadr√°-la em categorias por vezes subjetivas e reducionistas. A prop√≥sito dessa quest√£o, J. Plazaola pondera:

A hist√≥ria prova que as obras de arte sacra que sobrevivem e que continuam deleitando e inspirando, ao longo dos s√©culos posteriores, s√£o precisamente as que revelam n√£o s√≥ aspectos universais da natureza humana, os atributos da divindade e da santidade, mas tamb√©m a aut√™ntica forma de ser e as exig√™ncias espirituais de seu tempo. E essa fidelidade ao esp√≠rito de uma √©poca n√£o √© incompat√≠vel com a ‚Äúperdurabilidade‚ÄĚ da obra (PLAZAOLA, 2006, p. 21).

√Ä luz da f√©, toda express√£o art√≠stica ‚ÄĒ sobretudo aquela que enaltece a dignidade humana e a beleza da obra do Criador ‚ÄĒ manifesta o mist√©rio de Deus: ‚ÄúCom amorosa condescend√™ncia, o Artista divino transmite uma centelha de sua sabedoria transcendente ao artista humano, chamando-o a partilhar seu poder criador‚ÄĚ (JO√ÉO PAULO II, 1999, n. 1).

Joaquim Fonseca, OFM. ISTA, FAJE. Texto enviado no dia 30/9/2023; aprovado dia 30/11/2023; postado dia 31/12/2023. Texto original português.

Referências

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