Liturgia das horas

Sum√°rio

Introdução

1 Desenvolvimento Histórico

2.1 A oração das horas no Novo Testamento

2.1.1 Jesus orava e recomendava a oração incessante

2.1.2 Oração das horas na Igreja Apostólica

2.2 A evolução do Ofício Divino do séc. II ao séc. V         

2.3 O Ofício Divino da Idade Média ao Vaticano II

3 Estrutura e elementos do rito da Liturgia das Horas

4 Simbolismo e Teologia da Liturgia das Horas

5 Pastoral

Considera√ß√Ķes conclusivas

Referências

Introdução

A Liturgia das Horas √© uma das v√°rias formas de ora√ß√£o da Igreja, que visa santificar o dia inteiro atrav√©s da ora√ß√£o ininterrupta. Composta por hinos, salmos, c√Ęnticos, ant√≠fonas, leituras b√≠blicas e textos de grandes escritores eclesi√°sticos e documentos do Magist√©rio, ela √© rezada em horas determinadas: Horas Maiores: Laudes (ao amanhecer) e V√©speras (ao entardecer); Horas Menores: Ter√ßa (√† metade da manh√£), Sexta (ao meio-dia), Nona (√† metade da tarde) e Completas (antes do repouso noturno). Assim sendo, j√° se pode perceber que seu simbolismo √© c√≥smico e que, por causa dos diferentes fusos hor√°rios das diversas regi√Ķes do nosso planeta, a cada hora a Terra √© banhada por uma onda de ora√ß√£o. Essas horas t√™m tamb√©m um valor simb√≥lico-sacramental, uma vez que remetem a determinados eventos importantes na vida de Jesus de Nazar√© e dos Ap√≥stolos, portanto, um car√°ter salv√≠fico (cf. AUG√Č, 2005, p. 230).

A Liturgia das Horas, como j√° sugere o pr√≥prio nome, insere-se na din√Ęmica ritual e teol√≥gica do espa√ßo e do tempo lit√ļrgicos. Essa din√Ęmica, por sua vez, enra√≠za-se no fato da encarna√ß√£o do Verbo eterno do Pai, Jesus Cristo. De fato, com a encarna√ß√£o do Verbo, Deus irrompe na hist√≥ria humana e, de modo indel√©vel, se une √† humanidade assumindo a nossa carne na pessoa de Jesus de Nazar√©. O Eterno entra no espa√ßo e no tempo e, com esse fato, transforma o kr√≥nos em Kair√≥s, ou seja, em tempo de salva√ß√£o.

Contudo, essa din√Ęmica da encarna√ß√£o do Verbo eterno recebe sua luz do Mist√©rio Pascal de Cristo. De fato, no centro de toda a vida da Igreja ‚Äď estrutura, culto, a√ß√£o apost√≥lica, espiritualidade, teologia, √©tica etc. ‚Äď est√° a P√°scoa do Cristo. Disso se conclui que a Liturgia das Horas √© um tipo de ora√ß√£o essencialmente pascal, todas as horas referem-se ao Mist√©rio Pascal de Cristo. Ali√°s, √© esse √ļltimo que est√° no centro, n√£o s√≥ da Liturgia das Horas, mas de toda a vida lit√ļrgica da Igreja.

1 Desenvolvimento histórico
2.1 A oração das horas no Novo Testamento

Certamente aqui não é nossa intenção encontrar a estrutura da Liturgia das Horas, conforme a conhecemos hoje ou o mais próximo disso, mas simplesmente encontrar as raízes bíblicas do costume da Igreja de rezar em horas determinadas, algo que sempre esteve presente na sua vida desde os seus primórdios. A Liturgia das Horas, embora tenha suas raízes na oração de Jesus e dos seus santos Apóstolos que, por sua vez, seguiam os costumes de sua religião, o judaísmo, conheceu um longo e profundo desenvolvimento ao longo da história da Igreja, o que veremos a seguir.

2.1.1 Jesus orava e recomendava a oração incessante

Nos evangelhos podemos encontrar informa√ß√Ķes sobre a ora√ß√£o de Jesus. Ele, seguindo os costumes da religi√£o de seus pais, o juda√≠smo, observava as suas prescri√ß√Ķes lit√ļrgicas al√©m de se dirigir a Deus na intimidade ao Pai. Assim sendo, Jesus, desde a inf√Ęncia, na companhia de seus pais, frequentava anualmente o templo nas grandes festas pascais (cf. Lc 2,41), e tamb√©m na idade adulta (cf. Jo 2,13-14). Costumava frequentar a sinagoga em dia de s√°bado (cf. Mt 12,9; Mc 3,1; Lc 4,16). Afastava-se sozinho para rezar em lugares desertos (cf. Lc 5,16) e, √†s vezes, √† noite (Mc 1,35). A ora√ß√£o era um h√°bito na vida de Jesus; o evangelista Lucas cita v√°rias vezes a ora√ß√£o de Jesus (cf. 5,16; 6,12; 9,18.28-29 passim); e nesses momentos ele se dirigia a Deus na intimidade filial (cf. Lc 10,21; 22,42; 23,43.46; Jo 11,41-42; 17,1).

A prática da oração de Jesus não se restringia a ele, pois ensinava seus discípulos a orar (cf. Mt 6,5-13); e recomendava vivamente aos seus discípulos a oração incessante (Lc 18,1-7; 21,36)). Ensinava-lhes, além da oração pessoal, a oração comunitária (Mt 18,19-20).

Al√©m disso, sabemos que os evangelhos n√£o s√£o a biografia de Jesus, sen√£o uma cristologia das comunidades dos seus redatores. Portanto, √© de se imaginar que as ora√ß√Ķes que os evangelistas atribuem a Jesus s√£o tamb√©m as ora√ß√Ķes praticadas pelas comunidades, no seio das quais surgiram esses tratados baseados nas experi√™ncias que elas fizeram do encontro com Jesus de Nazar√©.

2.1.2 Oração das horas na Igreja Apostólica

Entretanto, os outros escritos neotestament√°rios ‚Äď al√©m dos quatro evangelhos ‚Äď nos d√£o informa√ß√Ķes sobre a ora√ß√£o das primeiras comunidades crist√£s. Podemos ver Pedro e Jo√£o subirem ao Templo para a ora√ß√£o das tr√™s horas da tarde (At 3,1), isto √©, a hora nona. Mas, ao que tudo indica, tamb√©m toda a comunidade da Igreja nascente tinha o costume da ora√ß√£o incessante. De fato, ‚Äúeles eram ass√≠duos ao ensinamento dos ap√≥stolos e √† comunh√£o fraterna, √† fra√ß√£o do p√£o e √†s ora√ß√Ķes‚ÄĚ (At 2,42); tamb√©m ‚Äúde comum acordo iam diariamente ao Templo com assiduidade: partiam o p√£o em casa, tomando o alimento com alegria e simplicidade de cora√ß√£o‚ÄĚ (At 2,46). O ap√≥stolo Tiago recomenda √† sua comunidade: ‚ÄúAlgum de v√≥s est√° sofrendo? reze‚ÄĚ ‚Äď aqui se trata da ora√ß√£o pessoal, mas logo a seguir se refere √† ora√ß√£o da Igreja (TEB, nota vers√£o): ‚ÄúAlgum de v√≥s est√° doente? Mande chamar os anci√£os da Igreja e estes orem‚ÄĚ (Tg 5,14).

2.2 A evolução do Ofício Divino do séc. II ao séc. V         

Esse h√°bito da ora√ß√£o pessoal e comunit√°ria incessante passar√° √†s comunidades p√≥s-apost√≥licas e acompanhar√° a Igreja ao longo de toda a sua hist√≥ria, at√© os nossos dias. J√° no final do s√©c. I ou in√≠cio do s√©c. II, na Didach√®, cap√≠tulo IX, recomenda-se rezar a ora√ß√£o do Pai Nosso tr√™s vezes ao dia. No norte da √Āfrica, onde muito cedo se formaram fervorosas e bem estruturadas comunidades crist√£s, temos o testemunho de Clemente Alexandrino (Stromata); tamb√©m temos informa√ß√Ķes do primeiro escritor eclesi√°stico de l√≠ngua latina de que se tem not√≠cia, Tertuliano (De oratione; De ieiuno), passando por Cipriano (De oratione dominica) a Agostinho de Hipona (Sermones ad competenti).

Atribu√≠da a Hip√≥lito de Roma, temos tamb√©m a Traditio Apost√≥lica (in√≠cio do s√©c. III) que nos d√° informa√ß√Ķes das horas de ora√ß√£o: ao amanhecer antes de come√ßar qualquer atividade (esta hora na Igreja); √† hora ter√ßa, √† hora sexta e √† hora nona, onde quer que esteja; antes do repouso noturno; e, por fim, √† meia-noite. No final do s√©c. IV, a peregrina Eg√©ria, que passou tr√™s anos na Palestina, d√° informa√ß√Ķes sobre a liturgia de Jerusal√©m, especialmente, sobre as ora√ß√Ķes das horas na Igreja da An√°stasis: Vig√≠lia (monges, virgens e leigos) entoam hinos, salmos, aos quais se responde com ant√≠fonas; depois que chegam dois ou tr√™s presb√≠teros e os di√°conos, d√°-se in√≠cio √† ora√ß√£o da manh√£. O bispo chega com seus presb√≠teros e reza uma ora√ß√£o e d√° a b√™n√ß√£o aos que indicam seus nomes, por detr√°s das grades que fecham a gruta do t√ļmulo onde o corpo de Cristo foi depositado. Depois voltam a se reunir no mesmo lugar √† hora sexta e nona; √† d√©cima hora se faz o lucern√°rio, as V√©speras (SCh, 2002, p. 239-241); n√£o menciona uma ora√ß√£o noturna, mas nas p√°ginas seguintes relata os of√≠cios solenes da Epifania, os quarenta dias que a seguem e os of√≠cios das festas pascais: Quaresma, Semana Santa, P√°scoa, Oitava at√© Pentecostes (SCh, 2002, p. 251-305).

A partir dessa √©poca, isto √©, s√©c. IV, come√ßam as primeiras tentativas de se organizar a ora√ß√£o das horas. Os autores costumam distinguir dois caminhos: um primeiro seguiria numa dire√ß√£o que chamamos Of√≠cio Catedral, e um segundo numa outra dire√ß√£o que chamamos Of√≠cio Mon√°stico. O Of√≠cio Catedral ‚Äď tamb√©m o paroquial ‚Äď j√° era constitu√≠do das Horas Maiores ‚Äď Laudes e V√©speras ‚Äď sendo as Laudes precedidas de uma vig√≠lia aos domingos e dias festivos. O Of√≠cio Mon√°stico, al√©m dessas duas Horas Maiores, se constitu√≠a de tr√™s horas diurnas, Ter√ßa, Sexta e Nona, e mais a Primeira e Completas. Al√©m disso, os monges institucionalizaram as vig√≠lias de ora√ß√£o como of√≠cio cotidiano, uma vez que o seu ideal era o de recitar integralmente o Salt√©rio (cf. LEIKAN, 2000, p. 48).

Digna de nota √© a presen√ßa do Salmo 62 nas Laudes e do Salmo 140 nas V√©speras em todas as Igrejas j√° desde o s√©c. IV, segundo o testemunho de Eus√©bio de Cesareia (Coment√°rio ao Salmo 140 e 142), Jo√£o Cris√≥stomo (Catequeses batismais) e das Constituitiones Apostolorum. Esse √ļltimo documento (fins do s√©c. IV ou in√≠cios do V) j√° registra a presen√ßa do Nunc dimittis (Lc 2,29-32) no of√≠cio vespertino.

2.3 O Ofício Divino da Idade Média ao Vaticano II

Entretanto, o Of√≠cio mon√°stico desenvolveu-se de tal forma que acabou influenciando o Of√≠cio catedral. Para al√©m do surgimento de novas l√≠nguas e o uso cada vez mais restrito do latim, outras raz√Ķes ‚Äď que n√£o vem ao caso serem expostas aqui ‚Äď fizeram com que o povo n√£o tivesse mais acesso √† liturgia em geral, passando o of√≠cio a ser de ‚Äúm√£o de obra especializada‚ÄĚ, ou seja, do clero e dos monges. A partir do s√©c. IX, em muitas Igrejas locais, impunha-se ao clero a obriga√ß√£o de recitar o of√≠cio, ent√£o, fortemente influenciado pelo Of√≠cio mon√°stico que, por sua vez, previa mais horas e textos mais longos: ao longo do curso de uma semana, recitava-se todo o salt√©rio e, em um ano, lia-se toda ou quase toda a B√≠blia, e mais os hinos, c√Ęnticos, ant√≠fonas, respons√≥rios etc.

Aqui n√£o se pode deixar de mencionar a Regra de S√£o Bento que, principalmente por obra de Carlos Magno, se imp√īs em quase todos os mosteiros do Ocidente. Na Regula Monasteriorum Sancti Benedicti Abbatis prescrevem-se sete ora√ß√Ķes das horas por dia citando o Salmo 118,164: ‚ÄúEu vos louvo sete vezes cada dia‚ÄĚ (Cap. XVI). Essas horas s√£o: Laudes, Prima, Ter√ßa, Sexta, Nona, V√©speras e Completas.

Para a Hora Noturna, durante o Inverno (in√≠cio de novembro at√© a Pascoa), s√£o previstos 6 salmos precedidos do vers√≠culo ‚ÄúAbre, Senhor, os meus l√°bios e minha boca anunciar√° o vosso louvor‚ÄĚ, ao qual segue o Salmo 3, o Gl√≥ria, o Salmo 94 com ant√≠fona, seis salmos com ant√≠fonas, tr√™s leituras b√≠blicas com respons√≥rio, mais 6 salmos com aleluia, leitura do Ap√≥stolo, e conclui-se com a s√ļplica lit√Ęnica, ou seja, Kyrie eleison (Cap. IX). A Hora Noturna √© rezada na metade da noite por causa do Salmo 118,62: ‚ÄúAlta noite eu me levanto e vos dou gra√ßas‚ÄĚ. Para o restante do ano, por causa da brevidade das noites, se faz apenas uma leitura do Antigo Testamento, permanecendo todo o resto como no per√≠odo de Inverno (Cap. X). Aos domingos, por√©m, leem-se quatro leituras com respons√≥rio depois dos seis primeiros salmos e mais quatro depois dos outros seis salmos; tr√™s c√Ęnticos do Antigo Testamento com Aleluia; mais quatro leituras com respons√≥rio, Te Deum laudamus, leitura do Evangelho, Te decet laus e b√™n√ß√£o final (Cap. XI).

As laudes, por sua vez, se compunham do Salmo 66 com ant√≠fona, seguido do Salmo 50 com Aleluia, o Salmo 117 e 62, o Benedictus, ‚ÄúLaudes‚ÄĚ, uma leitura do Apocalipse, com respons√≥rio, hino ambrosiano, um vers√≠culo, c√Ęntico evang√©lico e se conclu√≠am com a litania (Cap. XII). Para as demais horas, as composi√ß√Ķes s√£o as seguintes: Prima: tr√™s salmos com um √ļnico Gl√≥ria, hino, depois o vers√≠culo Deus, in adiuntorium meu…, tr√™s salmos, uma leitura, um vers√≠culo, Kyrie eleison e conclus√£o; a Ter√ßa, a Sexta e a Nona, o Of√≠cio segue a mesma ordem para as tr√™s: vers√≠culo, o hino pr√≥prio da hora, tr√™s salmos, as leituras, o Kyrie eleison e as preces finais (Cap. XVII). Aqui se recomenda que, se a comunidade for numerosa, recitem-se os salmos com ant√≠fona.

As V√©speras se comp√Ķem de quatro salmos com as ant√≠fonas, a leitura, respons√≥rio, hino, vers√≠culo, c√Ęntico evang√©lico, a prece lit√Ęnica e se concluem com o Pai Nosso. Nas Completas, se recitam os tr√™s salmos seguidamente sem ant√≠fona, o hino, uma √ļnica leitura, o vers√≠culo, o Kyrie eleison e se concluem com a b√™n√ß√£o (Cap. XVII).

Da influ√™ncia das regras dos mosteiros romanos no Of√≠cio catedral surgir√° uma esp√©cie de Of√≠cio mon√°stico-eclesi√°stico; uma dessas novas regras ser√° adotada pelo papa e os seus curiais a partir dos finais do s√©c. X ou in√≠cio do s√©c. XI, o que ficou conhecido como Brevi√°rio da C√ļria romana (cf. RAFFA, 2004, p. 655). Na primeira metade do s√©c. XIII, S√£o Francisco de Assis adotar√° esse Of√≠cio para sua ordem, o que, por sua vez, contribuir√° para sua grande difus√£o em quase todo o Ocidente, se tornando a forma predominante (cf. RAFFA, 2004).

Na reforma tridentina do Brevi√°rio Romano, Pio V, com a bula Quod a nobis (1568), reduziu o n√ļmero de salmos, mas introduziu o Of√≠cio de Santa Maria no S√°bado; reduziu ainda os textos hagiogr√°ficos. A bula n√£o contempla os leigos, quando elenca os grupos de pessoas que est√£o obrigadas a rezar o of√≠cio, e compromete o simbolismo das horas ao prever a recita√ß√£o privadamente, chega mesmo a equipar√°-la √† comunit√°ria com a consequente recita√ß√£o na hora que se pudesse. Doravante, o Brevi√°rio de Pio V ser√° praticamente a √ļnica regra em toda a Igreja do Ocidente. Uma nova reforma s√≥ viria j√° no s√©c. XX, por obra de Pio X, com a bula Divino afflatu: reduziu o n√ļmero de salmos em todas as horas, mas manteve a recita√ß√£o do salt√©rio no curso de uma semana fazendo uma nova distribui√ß√£o dos salmos. Pio X fez essa reforma tendo em vista, sobretudo, as exig√™ncias do trabalho pastoral do clero.

Da reforma promovida pelo Vaticano II surge a Liturgia das Horas de Paulo VI, promulgada em 1¬ļ de novembro de 1970, a que usamos hoje. As grandes novidades aqui s√£o: distribui√ß√£o dos salmos em quatro semanas (cf. SC 91); a supress√£o da Hora Prima (SC 89); a possibilidade de a hora chamada Matinas ser recitada a qualquer hora do dia, embora conserve no coro a √≠ndole de louvor noturno, e reduz-se o n√ļmero de salmos, mas prop√Ķe leituras mais longas; para as chamadas Horas Menores, a saber, Ter√ßa, Sexta e Nona, pode-se escolher uma delas fora do coro (SC 90) e, por fim, o uso da l√≠ngua vern√°cula (SC 101). Recomenda-se ainda devolver fidelidade hist√≥rica aos mart√≠rios ou √†s vidas dos Santos (SC 92) e que ‚Äúsejam retiradas ou mudadas aquelas coisas que sabem a mitologia ou s√£o menos condizentes com a piedade crist√£‚ÄĚ (SC 93).

3 Estrutura e elementos do rito da Liturgia das Horas

A Instru√ß√£o Geral sobre a Liturgia das Horas (IGLH), no Cap√≠tulo II, muito apropriadamente, apresenta o rito com o t√≠tulo ‚ÄúA santifica√ß√£o do dia ou as diversas Horas do Of√≠cio Divino‚ÄĚ. S√£o sete os momentos de ora√ß√£o (cf. Sl 118,164): Of√≠cio das Leituras, Laudes, tr√™s Horas M√©dias, V√©speras e Completas. A Introdu√ß√£o do Of√≠cio √©, na primeira hora rezada (Laudes ou Of√≠cio da Leituras), o Invitat√≥rio ‚ÄúAbri os meus l√°bios, √≥ Senhor. E minha boca anunciar√° o vosso louvor‚ÄĚ, com o que ‚Äúos fi√©is s√£o convidados cada dia a cantar os louvores de Deus e a escutar sua voz…‚ÄĚ (ILGH 34); segue-se o Sl 94(95), que pode ser substitu√≠do pelos salmos 99(100), 66(67) ou 23(24) com suas respectivas ant√≠fonas. O salmo de abertura √© rezado de forma responsorial, ou seja, a ant√≠fona se comporta como um refr√£o, mas, se for rezado individualmente, basta dizer a ant√≠fona no seu in√≠cio e seu fim.

A hora chamada ‚ÄúMatinas‚ÄĚ comparece na Liturgia das Horas de Paulo VI sob o t√≠tulo ‚ÄúOf√≠cio das Leituras‚ÄĚ que, como prev√™ a Sacrosanctum Concilium ‚Äď j√° o mencionamos mais acima ‚Äď pode ser rezado a qualquer hora do dia, embora conserve seu car√°ter de ora√ß√£o noturna (cf. SC 89; ILGH 57). Quando se abre o Of√≠cio, reza-se no in√≠cio o Invitat√≥rio, como dito no par√°grafo anterior. Diferentemente da salmodia do ordin√°rio do rito, o Salmo Invitat√≥rio √© recitado de forma responsorial, ou seja, a ant√≠fona se comporta como um refr√£o, e o mesmo se diga para as outras op√ß√Ķes de salmos previstos para esta hora. Quando o Of√≠cio das Leituras n√£o abre o of√≠cio cotidiano, ele √© aberto como as demais horas, ou seja, vers√≠culo de abertura e, logo em seguida o Hino. A salmodia, como nas demais horas, √© composta de tr√™s salmos com as ant√≠fonas correspondentes; a isso segue o vers√≠culo, que faz a transi√ß√£o da salmodia para a escuta da Palavra de Deus. De fato, logo a seguir se l√™ uma leitura b√≠blica seguida de seu respons√≥rio. A segunda leitura √© tomada das obras dos Santos Padres ou de outros escritores eclesi√°sticos. Aos domingos, dias de solenidade ou festa, entoa-se o Te Deum. O Of√≠cio √© encerrado com a Ora√ß√£o Conclusiva e o ‚ÄúBendigamos ao Senhor. Gra√ßas a Deus‚ÄĚ.

As Horas Maiores, ou seja, Laudes e V√©speras, s√£o abertas com o vers√≠culo introdut√≥rio ‚ÄúVinde, √≥ Deus, em meu aux√≠lio. Socorrei-me sem demora‚ÄĚ. As Laudes, por√©m, se forem a primeira ora√ß√£o do dia, s√£o abertas com o Invitat√≥rio, seguido do Gl√≥ria ao Pai, o hino pr√≥prio da hora, a salmodia com as respectivas ant√≠fonas com Aleluia ‚Äď exceto no tempo da Quaresma ‚Äď ditas no in√≠cio e no fim, neste √ļltimo caso, s√£o precedidas do Gl√≥ria ao Pai… Segue-se a recita√ß√£o do hino, dos dois salmos, entre os quais, recita-se um c√Ęntico do Antigo Testamento, cada qual destes tr√™s elementos com suas respectivas ant√≠fonas no in√≠cio e no final. Em prosseguimento, se l√™ a leitura breve com seu respons√≥rio ‚Äď caso seja oportuno, pode-se fazer uma homilia ou um breve tempo de sil√™ncio antes do respons√≥rio; essa leitura pode ser substitu√≠da por uma mais longa escolhida √† vontade. Ent√£o recita-se o C√Ęntico evang√©lico Bendictus ‚Äď O Messias e o seu precursor (Lc 1,68-79) ‚Äď com a sua ant√≠fona. Seguem as preces para consagrar o dia e o trabalho a Deus; a ora√ß√£o do Pai Nosso e, concluindo a of√≠cio, a ora√ß√£o conclusiva e a despedida.

As V√©speras t√™m uma estrutura muito semelhante. Nunca se abrem com o Invitat√≥rio porque n√£o √© a primeira ora√ß√£o do dia. O Hino √© o pr√≥prio dessa hora e outra diferen√ßa est√° na salmodia, ou seja, em vez de se rezar um c√Ęntico do Antigo Testamento, como nas Laudes, reza-se um do Novo Testamento. Outra diferen√ßa ainda est√° no C√Ęntico evang√©lico: aqui se recita o Magnificat. Tudo o mais √© feito como nas Laudes, evidentemente com os conte√ļdos pr√≥prios de cada hora. Observe-se aqui que nos s√°bados n√£o h√° V√©speras porque, nesta hora, rezam-se as primeiras V√©speras do domingo, que √© sempre solenidade; exce√ß√£o a isto que acabamos de dizer √© o S√°bado Santo, porque n√£o se rezam as primeiras V√©speras do Domingo de P√°scoa que n√£o pode ter outra ora√ß√£o antes da grande Vig√≠lia Pascal.

As Horas M√©dias t√™m uma estrutura bem mais simples: abertura como as Horas Maiores ‚Äď nunca o vers√≠culo ‚ÄúAbre meus l√°bios, Senhor…‚ÄĚ ‚Äď; o hino pr√≥prio de cada hora; salmodia ‚Äď quando se rezam as tr√™s horas, somente uma usa os salmos distribu√≠dos no Salt√©rio com suas ant√≠fonas, para as outras duas tomam-se dos Salmos Complementares, os assim chamados ‚ÄúSalmos Graduais‚ÄĚ; leitura breve com seu respons√≥rio, ora√ß√£o conclusiva e despedida: ‚ÄúBendigamos ao Senhor. Gra√ßas a Deus‚ÄĚ. Observe-se que nestas tr√™s horas n√£o se faz men√ß√£o da mem√≥ria dos Santos.

Antes do repouso noturno, a Igreja convida seus fi√©is a elevarem suas mentes a Deus, em ritmo de ora√ß√£o. Para tanto, recitam-se as Completas que, como o pr√≥prio nome sugere, conclui o of√≠cio cotidiano. De todas as horas, as Completas s√£o as mais simples e breves em sua estrutura. Esta hora antes do repouso noturno √© iniciada como as demais horas, ‚Äď exceto a primeira ora√ß√£o do dia, isto √©, Of√≠cio das Leituras ou Laudes ‚Äď, continua com o Hino, a salmodia composta de apenas um salmo, salvo quando s√£o rezadas depois das primeiras v√©speras dos domingos e solenidades, quando se rezam os salmos 4 e 133(134). Depois da salmodia se faz a Leitura Breve com o respons√≥rio ‚ÄúSenhor em vossas m√£os entrego meu esp√≠rito… V√≥s sois o Deus fiel que salvastes vosso povo. Gl√≥ria ao Pai…‚ÄĚ; logo em seguida entoa-se o Nunc Dimittis, o C√Ęntico de Sime√£o (Lc 2,29-32), com sua ant√≠fona. Essa hora termina com a Ora√ß√£o Conclusiva seguida da b√™n√ß√£o ‚ÄúO Senhor todo-poderoso nos conceda uma noite tranquila e, no fim da vida, uma morte santa‚ÄĚ; e, por fim, reza-se uma das ant√≠fonas de Nossa Senhora propostas na Liturgia das Horas.

Antes de passarmos ao pr√≥ximo ponto √© √ļtil lembrar que a Liturgia das Horas segue o Ano Lit√ļrgico e o Calend√°rio Romano. Deste modo, o conte√ļdo eucol√≥gico varia de acordo com o teor teol√≥gico de cada tempo (Advento, Natal, Quaresma, P√°scoa e Tempo Comum) ‚Äď eis porque n√£o se diz o Aleluia no final das ant√≠fonas na Quaresma ‚Äď; e do mesmo modo celebram-se as solenidades, as festas e a mem√≥ria dos Santos.

4 Simbolismo e teologia da Liturgia das Horas

Nas √ļltimas d√©cadas, se verifica uma forte tend√™ncia de fazer teologia da liturgia em geral e de suas celebra√ß√Ķes ‚Äúa partir da Lex Orandi‚ÄĚ[1], ou seja, comentar a teologia dos sacramentos e demais celebra√ß√Ķes lit√ļrgicas a partir, principalmente, do rito e de seus conte√ļdos. Para a Liturgia das Horas n√£o poderia ser diferente, tendo em vista a riqueza simb√≥lica e espiritual de suas diversas horas.

Muito √ļtil para a sua compreens√£o √© come√ßar pela nomenclatura. ‚ÄúLiturgia das Horas‚ÄĚ √© um t√≠tulo surgido em 1959 e √© muito apropriado, porque expressa a finalidade dessa ora√ß√£o da Igreja, a saber, a santifica√ß√£o do curso do dia, em que o fiel se santifica ‚Äď no rito bizantino se diz ‚Äúrel√≥gio‚ÄĚ pelo mesmo motivo. ‚ÄúOf√≠cio Divino‚ÄĚ, usado ainda hoje ao lado de Liturgia das Horas, este termo foi usado outrora para designar todo ato de culto e, depois, para designar a celebra√ß√£o lit√ļrgica da Igreja, mas parece que visa tamb√©m acenar para o car√°ter obrigat√≥rio, can√īnico, (Officium, dever) de sua recita√ß√£o (cf. RAFFA, 2004, p. 652). ‚ÄúBrevi√°rio‚ÄĚ parece-nos um tanto pobre para designar t√£o rica express√£o lit√ļrgica da Igreja, uma vez que foi usado para designar compila√ß√£o, abrevia√ß√£o etc. dos diversos livros lit√ļrgicos usados para a ora√ß√£o das horas na Idade M√©dia. Ainda ao longo da hist√≥ria da liturgia foram usados os seguintes nomes: cursus, preces horariae, opus Dei, horae canonicae (cf. RAFFA, 2004, p. 652).

Originalmente, o Oficio das Leituras ‚Äď na Sacrassanctum Concilium ainda se usa a express√£o ‚ÄúMatinas‚ÄĚ ‚Äď tem car√°ter noturno. Rezava-se na metade da noite, sobretudo nos mosteiros, uma refer√™ncia ao Salmo 118(119),62. O simbolismo dessa hora √© o das ‚Äútrevas‚ÄĚ, das quais Cristo nos arrancou. Podemos encontrar um exemplo no hino ‚ÄúA noite escura apaga‚ÄĚ. J√° na primeira estrofe se diz: ‚ÄúA noite escura apaga da treva toda cor…‚ÄĚ sugerindo que as trevas nos impedem a vis√£o f√≠sica, met√°fora da vis√£o beat√≠fica. E segue ‚ÄúJuiz dos cora√ß√Ķes a v√≥s nosso louvor‚ÄĚ sugerindo que o nosso louvor ao Cristo √© incessante.

Isso que acabamos de dizer parece ser refor√ßado pela par√°bola das ‚Äúdez virgens‚ÄĚ (Mt 25,1-10), que se insere num quadro liter√°rio de teor marcadamente escatol√≥gico: a vinda do Filho do Homem (Mt 24,26-35); desconhecimento do dia do ju√≠zo final (Mt 24,36-51); os talentos (Mt 25,14-30); o ju√≠zo final (Mt 25,31-46). O simbolismo das l√Ęmpadas com √≥leo suficiente para serem acesas √† chegada do esposo sugere n√£o s√≥ uma atitude de vigiar (cf. Mt 24,42), mas sobretudo o estar preparado para a ‚Äúhora‚ÄĚ.

As Laudes t√™m um simbolismo natural, o sol, pelo fato de serem rezadas √†s primeiras luzes. O sol, ‚Äúo astro nascente‚ÄĚ, de fato, √© uma refer√™ncia b√≠blica ao Messias (para indicar o descendente de Davi: Jr 23,5; Zc 3,8; 6,12; o verbo correspondente para indicar o do astro messi√Ęnico: Nm 24,17; cf. Ml 3,20; Mt 2,2; Lc 1,78). O sol, portanto, a luz, √© um simbolismo j√° presente tanto no Antigo como no Novo Testamento, aqui especialmente na literatura joanina:

Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem enviado por Deus; o seu nome era João.  Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por ele. Ele não era a luz, mas devia dar testemunho da luz. O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem (Jo 1,4-9).

Jo√£o volta a insistir neste simbolismo: ‚ÄúNovamente Jesus lhes dirigiu a palavra: ‚ÄėEu sou a luz do mundo. Aquele que vem em meu seguimento n√£o andar√° nas trevas; ele ter√° a luz que conduz √† vida‚Äô‚ÄĚ (Jo 8,12); e mais adiante escreve: ‚Äúpor quanto tempo eu estiver no mundo, eu sou a luz do mundo‚ÄĚ (Jo 9,5); e ainda:

Jesus lhes respondeu:

A luz ainda está entre vós por pouco tempo. Caminhai enquanto tendes a luz, para que as trevas não se apoderem de vós; pois quem caminha nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes a luz, crede na luz, para vos tornardes filhos da      luz. (Jo 12,35-36)

E mais: ‚ÄúEu, a luz, vim ao mundo a fim de que todo aquele que cr√™ em mim n√£o pere√ßa nas trevas‚ÄĚ (Jo 12,46). Notemos que, em todos esses vers√≠culos, Jesus se autoidentifica com a luz, s√≠mbolo da salva√ß√£o, enquanto √† treva √© identificado o pecado, o n√£o estar e andar na presen√ßa de Deus.

Contudo, Jo√£o n√£o √© o √ļnico a usar o simbolismo da luz aplicado ao Cristo e √† salva√ß√£o que Ele nos alcan√ßou em seu mist√©rio pascal. Podemos tamb√©m encontrar esse simbolismo nos escritos paulinos: ‚ÄúDai gra√ßas ao Pai que vos permitiu partilhar da heran√ßa dos santos da luz. Ele nos arrancou do poder das trevas e nos transferiu para o reino do Filho do seu amor‚ÄĚ (Cl 1,12-13; cf. 1Ts 5,5; Hb 6,4; 10,32).

Robert Taft observa que o simbolismo da luz, ao ser aplicado aos que vivem em Cristo (Ef 5 e 1Jo 1,5-7; 2,8-11), tem uma dimensão moral e comunitária, bem como observa que o livro do Apocalipse é concluído com um belo hino que faz referência à luz do Cordeiro na Cidade Santa da Jerusalém celeste (Ap 21,22-26) (TAFT, 2000, p. 157).

Mas vejamos agora como esse tema da luz, no seu simbolismo natural, o sol, aparece no rito das Laudes, com uma clara refer√™ncia √† ressurrei√ß√£o de Jesus. De in√≠cio, observemos que este tema √© constante nessa hora por causa do hino Benedictus, tamb√©m conhecido como ‚ÄúCanto de Zacarias‚ÄĚ. No hino do Advento, proposto para essa hora, podemos ler: ‚ÄúEm meio √† treva escura, ressoa clara voz. Os sonhos maus se afastem, refulja o Cristo em n√≥s. Despertem os que dormem feridos de pecado. Um novo sol j√° brilha, o mal vai ser tirado‚ÄĚ. No hino proposto para o tempo de Natal, o sol aparece como marcador da dura√ß√£o do louvor, mas n√£o √© aplicado ao Cristo tampouco √† sua a√ß√£o salvadora. Para o tempo da Quaresma, curiosamente o simbolismo da luz/sol n√£o aparece no hino proposto para o domingo, o dia do sol, mas est√° no hino proposto para os dias da semana: ‚Äú√ď Cristo, sol de justi√ßa, brilhai nas trevas da mente. Com for√ßa e luz, reparai a cria√ß√£o novamente‚ÄĚ. No hino das Laudes da Semana Santa, o tema √© mais ligado aos mist√©rios da paix√£o de Cristo e n√£o faz refer√™ncia ao simbolismo luz/sol. Para os domingos de P√°scoa, por√©m, o simbolismo aparece sob a imagem da ‚Äúrutilante aurora‚ÄĚ e, para os dias da semana, o simbolismo luz/sol aparece mais explicitamente: ‚ÄúA fiel Jerusal√©m canta um hino triunfal, celebrando, jubilosa, Jesus Cristo, a Luz pascal‚ÄĚ.

Nas solenidades que ocorrem fora do Tempo Pascal, o tema vai aparecer no hino das Laudes da Sant√≠ssima Trindade e √© igualmente atribu√≠do √† Trindade: ‚Äú√ď Trindade, num s√≥lio supremo que brilhais, num intenso fulgor‚ÄĚ;¬† e ao Filho: ‚ÄúEsplendor e espelho da luz sois, √≥ Filho, que irm√£os nos chamais‚ÄĚ; e o Esp√≠rito Santo: ‚ÄúPiedade e amor, fogo ardente, branda luz, poderoso clar√£o, renovai nossa mente, √≥ Esp√≠rito, e aquecei o fiel cora√ß√£o‚ÄĚ. Na solenidade do Sagrado Cora√ß√£o de Jesus, esse simbolismo aparece na quinta estrofe do hino das Laudes: ‚ÄúFicai conosco, Senhor, nova manh√£ que fulgura e vence as trevas da noite, trazendo ao mundo a do√ßura‚ÄĚ. Esta estrofe deixa claro que nas Laudes se celebram a presen√ßa do Cristo-Luz entre os fi√©is e a vit√≥ria de Cristo sobre as trevas do pecado e da morte.

Muitos são os exemplos que aqui poderíamos citar, mas estes nos bastam para percebermos que o tema luz/sol, em oposição à treva, é central no ofício das Laudes. Esta centralidade do simbolismo do sol, para além de nos remeter à ressurreição de Jesus, nos lembra uma das grandes maravilhas da criação, fonte de luz e calor, de vida de alimento, o que nos leva ao louvor e ação de graças (cf. TAFT, 2000, p. 158) por tantos dons recebidos da bondade do Senhor.

Contudo h√° outros elementos na estrutura das Laudes, que nos proporcionam o seu conte√ļdo teol√≥gico. O primeiro desses elementos √© a santifica√ß√£o do per√≠odo da manh√£, mas, antes de iniciar qualquer atividade do dia, o fiel √© convidado a voltar a sua mente para o Senhor (cf. IGLH 38). Assim, o crist√£o estar√° seguindo o conselho de Paulo quando diz ‚ÄúPortanto, quer v√≥s comais quer bebais ou fa√ßais qualquer outra coisa, fazei tudo para a gl√≥ria de Deus‚ÄĚ (1Cor 10,31), ou seja, toda a sua jornada bem como todas as suas atividades temporais ser√£o feitas diante e para a gl√≥ria de Deus.

As V√©speras e as Laudes s√£o chamadas de Horas Maiores. As V√©speras, por√©m, s√£o celebradas ao despontar do entardecer. Como nas Laudes, o simbolismo central √© o tema da luz em oposi√ß√£o √† treva. Ao p√īr-do-sol, acendem-se as l√Ęmpadas; isto significa a luz de Cristo que treva alguma pode vencer. Para al√©m de evocar as trevas da paix√£o de Cristo, as V√©speras nos fazem meditar sobre a transitoriedade da nossa vida e de toda Cria√ß√£o. Isto que acabamos de dizer nos abre para a dimens√£o escatol√≥gica da ora√ß√£o vespertina, uma vez que tal transitoriedade da vida deve nos abrir para a esperan√ßa da vida eterna. Outros grandes temas que aparecem neste of√≠cio s√£o a a√ß√£o de gra√ßas pelos benef√≠cios recebidos, o trabalho realizado e o bem que pudemos fazer ao longo do dia. Contudo, o tema das trevas nos faz recordar a nossa condi√ß√£o pecadora e, por isso, nos leva ao arrependimento e pedido de perd√£o pelos pecados que, porventura, tenhamos cometido. Ainda o tema da treva nos convida a pedir prote√ß√£o divina contra os perigos que ela oferece.

Vimos que, nas Laudes, o simbolismo sol/luz, em oposi√ß√£o √† treva, nos recorda a salva√ß√£o em oposi√ß√£o ao mal e ao pecado em v√°rias passagens b√≠blicas. Algo semelhante acontece nas V√©speras, por exemplo, no hino proposto para estas horas at√© o dia 16 de dezembro no Tempo do Advento, o simbolismo luz (reden√ß√£o) versus trevas (pecado) aparece explicitamente: ‚ÄúEterna luz dos homens, dos astros Criador, ouvi as nossas preces, de todos Redentor‚ÄĚ (1¬™ estrofe); ‚ÄúSe a sombra do pecado a tudo escurecia, Esposo, v√≥s sa√≠stes do seio de Maria‚ÄĚ (3¬™ estrofe). Ap√≥s o dia 16 at√© as v√©speras do Natal, o hino proposto liga o tema da luz, na sua forma verbal ‚Äúiluminar‚ÄĚ √† concep√ß√£o virginal de Maria por obra do Esp√≠rito Santo. No tempo do Natal at√© a Epifania, Jesus √© ‚ÄúDo Pai luz e esplendor‚ÄĚ (2¬™ estrofe).

No tempo da Quarema, o hino de V√©speras tamb√©m n√£o traz o tema da luz, mas nos dias da semana sim: ‚ÄúA abstin√™ncia quaresmal v√≥s consagrastes, √≥ Jesus, pelo jejum e pela prece, nos conduzis da treva √† luz‚ÄĚ. Aqui notemos, entretanto, que o simbolismo treva e luz √© aplicado ao pecado (treva) e √† salva√ß√£o (luz), ou seja, a luz √© simbolismo da a√ß√£o salvadora de Cristo e treva da a√ß√£o pecaminosa da humanidade. Para o Tempo Comum, tomemos como exemplo o hino das primeiras V√©speras do domingo da primeira semana: ‚Äú√ď Deus, autor de tudo, que a terra e o c√©u guiais, de luz vestis o dia, √† noite o sono dais‚ÄĚ (1¬™ estrofe); ‚ÄúSenhor vos damos gra√ßas no ocaso deste dia. A noite vem caindo, mas vosso amor nos guia‚ÄĚ (3¬™ estrofe); ‚ÄúE assim, chegando a noite, com grande escurid√£o, a f√©, em meio √†s trevas, espalhe o seu clar√£o‚ÄĚ (5¬™ estrofe). Aqui tampouco o simbolismo da luz √© aplicado ao Cristo, mas os termos luz, dia, noite, ocaso, escurid√£o, trevas e clar√£o indicam a origem da luz em Deus e sua difus√£o em meio √†s trevas como obra da f√©. Al√©m de indicar com muita precis√£o a hora do of√≠cio de V√©speras, celebra a confian√ßa da f√© na luz divina para atravessar a escurid√£o da noite, met√°fora do pecado e da morte.

Nas segundas V√©speras do primeiro domingo, se celebra o Deus da cria√ß√£o e da autoria dos tempos: ‚ÄúCriador generoso da luz, que criastes a luz para o dia, com os primeiros raios da luz, sua origem o mundo inicia‚ÄĚ (1¬™ estrofe); ‚ÄúV√≥s chamastes de ‚Äėdia‚Äô o decurso da manh√£ luminosa ao poente. Eis que as trevas j√° descem √† terra: escutai nossa prece, clemente‚ÄĚ. Em seguida aparecem os temas do arrependimento e do perd√£o pelos pecados cometidos ao longo do dia: ‚ÄúPara que sob o peso dos crimes nossa mente n√£o fique oprimida, e, esquecendo as coisas eternas, n√£o se exclua do pr√™mio da vida‚ÄĚ (3¬™ estrofe); ‚ÄúSempre √† porta celeste batendo, alcancemos o pr√™mio da vida, evitemos do mal o cont√°gio e curemos da culpa a ferida‚ÄĚ (4¬™ estrofe).

As Horas Menores ou Hora Média, a saber Terça (às nove horas), Sexta (ao meio-dia) e Nona (às quinze horas), têm um caráter simbólico-sacramental, pelo fato de fazerem referência aos momentos chave do mistério de Cristo e da ação apostólica dos Doze (cf. IGLH 75). Seu intuito é que os cristãos interrompam suas atividades e orem para a santificação do dia e de suas próprias atividades. Mas vejamos como os temas ligados ao mistério da paixão de Cristo aparecem no rito, especificamente, nos hinos dessas três horas.

Na Ora√ß√£o das Nove Horas, o hino proposto para o Tempo de Quarema √© exemplar, porque confirma o que acabamos de dizer no par√°grafo precedente. A primeira estrofe √© um louvor √†s tr√™s virtudes teologais, dons que nos s√£o oferecidos pelos m√©ritos da paix√£o de Cristo: ‚ÄúNa f√© em Deus, por quem vivemos, na esperan√ßa do que cremos, no dom da santa caridade, de Cristo as gl√≥rias entoemos‚ÄĚ. A confirma√ß√£o do que acabamos de fazer bem como a refer√™ncia √† paix√£o de Cristo aparecem na estrofe seguinte: ‚ÄúAo sacrif√≠cio da Paix√£o na hora ter√ßa conduzido, Jesus levando a cruz √†s costas, arranca √†s trevas o perdido‚ÄĚ. Essa refer√™ncia √† reden√ß√£o sobressai mais nitidamente na terceira estrofe: ‚ÄúV√≥s nos livrastes do decreto duma total condena√ß√£o; do mundo mau livrai o povo, fruto da vossa reden√ß√£o‚ÄĚ.

Na Ora√ß√£o das Doze Horas a refer√™ncia √† paix√£o de Cristo j√° aparece de modo expl√≠cito na primeira estrofe: ‚ÄúNa mesma hora em que Jesus, o Cristo, sofreu a sede, sobre a cruz pregado, conceda a sede de justi√ßa e gra√ßa a quem celebra o seu louvor sagrado‚ÄĚ. A estrofe seguinte √© importante pelo fato de veicular a Liturgia das Horas ao sacramento da eucaristia: ‚ÄúAo mesmo tempo ele nos seja a fome e o P√£o divino que a si mesmo d√°; seja o pecado para n√≥s fastio, s√≥ no bem possa o nosso gozo estar‚ÄĚ. Aqui se concebe a eucaristia como sacramento do sacrif√≠cio de Jesus.

A Ora√ß√£o das Quinze Horas, por sua vez, usa do simbolismo num√©rico para evocar o mist√©rio da morte redentora de Cristo: ‚ÄúO n√ļmero sagrado, tr√™s vezes tr√™s das horas, abrindo um novo espa√ßo, nos chama √† prece, agora. Ao nome de Jesus, perd√£o seu povo implora‚ÄĚ (1¬™ estrofe). A terceira estrofe celebra a vit√≥ria da cruz sobre a morte e o retorno da luz ap√≥s as densas trevas, uma clara refer√™ncia √† ressurrei√ß√£o de Cristo: ‚ÄúAgora morre a morte, vencida pela cruz; ap√≥s as trevas densas, serena, volta a luz; o horror do mal se quebra, nas mentes Deus reluz‚ÄĚ.

5 Pastoral da Liturgia da Horas

A liturgia em geral, j√° bem antes do final do primeiro mil√™nio e devido a v√°rios fatores, deixou de ser acess√≠vel ao povo crist√£o, j√° o dissemos, tornando-se ‚Äúof√≠cio‚ÄĚ de ‚Äúm√£o de obra especializada‚ÄĚ, isto √©, monges e clero. √Ä eucaristia o povo assistia, mas n√£o participava; ia √† missa apenas para ver o ‚Äúmilagre eucar√≠stico‚ÄĚ. O famoso Decreto de Graciano (1140-1150) deixa muito clara a distin√ß√£o entre os ‚Äúespirituais‚ÄĚ (os monges e o clero), classe destinada ao of√≠cio divino, e os ‚Äúcarnais‚ÄĚ, aqueles que se casam e podem depositar suas oferendas no altar, pagar os d√≠zimos… (THION, 2005, p. 342). Uma situa√ß√£o que perdurou na Igreja Cat√≥lica at√© o Conc√≠lio Vaticano II. Isso j√° aponta para o desafio de uma mudan√ßa de mentalidade, consolidada por s√©culos de hist√≥ria. Para agravar esse desvio, a Igreja precisa lidar com a quest√£o do estilo de vida moderno, que deixa as pessoas cada vez mais sem tempo para cuidar de sua vida pessoal e, aqui, a dimens√£o espiritual √© a mais prejudicada.

Algumas iniciativas t√™m sido tomadas: o reconhecimento oficial da Igreja que a liturgia √© culto p√ļblico, inclusive a Liturgia da Horas:

O exemplo e o preceito do Senhor e dos Ap√≥stolos de orar sempre e com insist√™ncia n√£o devem ser considerados como regra meramente legal, mas derivam da ess√™ncia √≠ntima da pr√≥pria Igreja, que √© comunidade e deve expressar seu car√°ter comunit√°rio tamb√©m ao orar. Mas a ora√ß√£o da comunidade tem dignidade especial, j√° que o pr√≥prio Cristo disse: ‚ÄúOnde dois ou tr√™s estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles‚ÄĚ (Mt 18,20). (IGLH 9)

E mais adiante se reconhece que ‚ÄúA Liturgia das Horas, como as demais a√ß√Ķes lit√ļrgicas, n√£o √© a√ß√£o particular, mas algo que pertence a todo o Corpo da Igreja e o manifesta e atinge‚ÄĚ (IGLH 20), seguindo um princ√≠pio vital estabelecido pelo Vaticano II (SC 26). Al√©m disso, reconhece que a Liturgia das Horas √© √°pice e fonte da atividade pastoral (IGLH 18), algo sobre o qual os leigos v√™m assumindo cada vez mais sua responsabilidade. Contudo a participa√ß√£o dos leigos na ora√ß√£o das horas √© ainda muito t√≠mida.

Com relação à linguagem, no Brasil, há três décadas surgiu o Ofício Divino das Comunidades, porém a participação do povo continua tímida[2]. No conjunto da América Latina, difundiu-se também a prática da Leitura Orante, ligada não tanto à Liturgia das Horas, mas à prática, também monástica, da Lectio Divina. Urge, contudo, que tais iniciativas sejam aprofundadas por peritos em liturgia e lideranças comunitárias, sem os quais qualquer reflexão teológico-pastoral fica comprometida, e por pastores verdadeiramente comprometidos com as comunidades cristãs.

Contudo, adverte-se que seria totalmente ilus√≥rio esperar do crist√£o contempor√Ęneo um grau de comprometimento semelhante ao dos crist√£os dos primeiros s√©culos da vida da Igreja. Contudo, √© neste mundo, atrav√©s de avan√ßos tecnol√≥gicos gigantescos que oferecem √†s pessoas divers√Ķes de todo o tipo, que a Igreja continua sendo enviada a anunciar, testemunhar e celebrar o Evangelho de Cristo.[3]

Considera√ß√Ķes conclusivas

Ao longo do texto, procuramos conceituar, mostrar a evolução histórica, apresentar a teologia simbólica e os desafios pastorais da Liturgia das Horas. Com isso, esperamos ter conseguido mostrar o verdadeiro espírito dessa forma de oração da Igreja, que lhe é essencial. Chegamos à conclusão de que se trata de algo verdadeiramente evangélico e vital para o caminho dos cristãos, apesar de todas as suas vicissitudes. Uma vez que é o exercício sacerdotal de Cristo que une a si sua dileta Esposa, a Igreja, sob a ação do Espírito Santo, a Liturgia das Horas conserva sua força de santificar o ser humano e consagrar o tempo e todas as atividades humanas ao Deus da vida, banhando o mundo, a cada hora, com uma onda de Oração.

Marco Antonio Morais Lima, SJ. Universidade Católica de Pernambuco. Texto original português. Submetido: 15/11/2021. Aprovado: 15/12/2021. Publicado: 30/12/2021.

 Referências

AUG√Č, M. Liturgia. Hist√≥ria, celebra√ß√£o, teologia, espiritualidade. S√£o Paulo: Paulinas, 2005.

CONC√ćLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Constitui√ß√£o sobre a sagrada liturgia. Petr√≥polis: Vozes, 1968.

CONGREGAÇÃO DO CULTO DIVINO E DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas/Paulus, 1995.

LEIKAM, R. M. La Liturgia delle Ore nei primi quattro secoli. In: CHUPUNGCO, A. J. Scientia Liturgica. Manuale di liturgia V. Casale Monferrato: Piemme, 2000. p. 90-130.

RAFFA, V. Liturgia das Horas. In; SARTORE, D.; TRIACCA, A. M. Dicion√°rio de Liturgia. S√£o Paulo: Paulus, 2004. p. 651-670.

TAFT, R. F. Teologia della Liturgia delle Ore. In: CHUPUNGCO, A. J. Scientia Liturgica. Manuale di liturgia V. Casale Monferrato: Piemme, 2000. p. 150-165.

[1] Veja-se a este respeito a breve, por√©m profunda, exposi√ß√£o de TABORDA, F. O Memorial da P√°scoa do Senhor. Ensaios lit√ļrgico-teol√≥gicos sobre a eucaristia. S√£o Paulo: Loyola, 2009, p. 21-37.

[2] Sobre o Ofício Divino das Comunidades, veja-se o verbete nesta mesma Enciclopédia.

[3] Muito se investiu nos √ļltimos anos na cria√ß√£o de aplicativos, que disponibilizam, em formato digital, o conjunto da Liturgia das Horas. Outros formatos, ligados √† Leitura Orante, tamb√©m est√£o dispon√≠veis, como Lecionaltas, Passo a Rezar, Prayer walking etc.