Liturgia e Catequese

Sum√°rio

Introdução

1 Liturgia e catequese nos primeiros séculos do cristianismo

2 Liturgia e catequese nos documentos recentes da Igreja

3 Interação liturgia e catequese: principais desafios

4 Mistagogia: caminho de interação liturgia-catequese

Conclus√£o

Referências

Introdução

O mist√©rio pascal √© o cora√ß√£o do cristianismo. A explicita√ß√£o de sua grandeza e relev√Ęncia em nossa vida √© a grande tarefa da liturgia e tamb√©m da catequese. Ambas as dimens√Ķes da vida da Igreja, por caminhos diferentes e essencialmente complementares, auxiliam o crist√£o no amadurecimento de sua f√© e na sua tradu√ß√£o concreta, frente aos desafios do cotidiano.

A catequese sem a liturgia se esvazia da dimens√£o mistag√≥gica e se reduz a um conjunto de ensinamentos te√≥ricos sobre Deus, sobre a Igreja e sobre a vida crist√£, bem articulados na sua forma, mas pouco capazes de dar algum significado mais profundo √† vida do catequizando. Por outro lado, a liturgia sem a catequese √© carente daquela compreens√£o necess√°ria √† acolhida e viv√™ncia ritual, que facilita o mergulho no mist√©rio celebrado e toca o cora√ß√£o do fiel celebrante. Bem articuladas, no entanto, em constante intera√ß√£o, liturgia e catequese conduzem o crist√£o a celebrar com consci√™ncia e piedade os ritos crist√£os, como preconizava a Sacrosanctum Concilium (SC, n. 14.19), bem como a considerar os conte√ļdos nos quais se cr√™ sempre orientados √† celebra√ß√£o da f√©, da qual a liturgia √© epifania.

Tendo como refer√™ncia essa intera√ß√£o entre liturgia e catequese, o presente texto, ap√≥s um breve sobrevoo sobre como essa rela√ß√£o se deu nos primeiros s√©culos do cristianismo, apresenta, em seguida, as perspectivas abertas pelos documentes recentes da Igreja sobre essa intera√ß√£o, indicando, num terceiro momento, os principais desafios enfrentados e apontando o caminho da mistagogia como aquele que melhor pode articular essas duas dimens√Ķes constitutivas da vida e da a√ß√£o evangelizadora da Igreja.

1 Liturgia e catequese nos primeiros séculos do cristianismo

Os primeiros séculos do cristianismo testemunham a riqueza da interação entre liturgia e catequese, bem atestada no antigo princípio lex orandi lex credendi, que expressa bem o quanto liturgia e catequese se interpenetram e concorrem para modelar o coração e a consciência do cristão na perspectiva de uma fé bem vivida. Desde o início, foi em torno da mesa eucarística e da Palavra que os seguidores de Jesus foram consolidando sua identidade cristã e se fortalecendo para o testemunho da fé, como nos relata o livro dos Atos dos Apóstolos:

Perseveravam eles na doutrina dos ap√≥stolos, na reuni√£o em comum, na fra√ß√£o do p√£o e nas ora√ß√Ķes […]. Unidos de cora√ß√£o, frequentavam todos os dias o templo. Partiam o p√£o nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de cora√ß√£o, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. (At 2,42.44.46-47)

Pode-se lembrar, ainda, a import√Ęncia da catequese associada √† liturgia no cristianismo primitivo, evocando aqui as figuras dos chamados Santos Padres (sec. III-VII), cujas prega√ß√Ķes, quase sempre brotadas de contextos celebrativos, iluminavam a caminhada dos fi√©is crist√£os e dos catec√ļmenos. Foram grandes mistagogos, que conduziam as pessoas √† experi√™ncia do mist√©rio de Deus, da sua gra√ßa que salva, por um caminho mediado pela espiritualidade, pela contempla√ß√£o dos sinais sagrados, sempre iluminados pela Palavra de Deus. Desse modo, celebrando a f√© no ressuscitado, a Palavra era continuamente aprofundada e transmitida.

No entanto, mudan√ßas hist√≥ricas impactaram fortemente o cristianismo a partir do s√©culo IV e, com o advento da chamada cristandade, liturgia e catequese foram se distanciando uma da outra. A liturgia foi se transformando em ritualismo, com excessiva preocupa√ß√£o com os seus aspectos exteriores e com foco sacramentalista. Quanto aos conte√ļdos da f√© crist√£, esses foram se diluindo nos elementos que compunham a cristandade, nas defini√ß√Ķes dogm√°ticas dos grandes conc√≠lios e, a partir do s√©culo X, nas obras que tinham por finalidade sistematizar a teologia e os catecismos. Percebem-se, desde ent√£o, pontos n√£o s√≥ de distanciamento entre essas duas dimens√Ķes fundamentais da vida da Igreja, como tamb√©m conflitos significativos (PAIVA, 2020, p. 42).

Foi o Concílio Vaticano II, com seus movimentos preparatórios, que lançou novas luzes sobre a vida da Igreja, de uma maneira geral, e sobre a liturgia, de modo particular. Embora os padres conciliares não tenham produzido nenhum documento específico sobre a catequese, sua inspiração e novos paradigmas pastorais surtiram e continuam surtindo efeitos renovadores também nessa seara da educação da fé. Muitos textos preciosos vêm sendo produzidos pelo Magistério, desde aquele dos papas e dicastérios romanos até os documentos das conferências episcopais, todos eles apontando para a urgência de se resgatar a preciosa interação entre a liturgia e a catequese, como acena, por exemplo, o Diretório para a Catequese (DPC), de 2020:

A liturgia √© uma das fontes essenciais e indispens√°veis da catequese e da Igreja, n√£o s√≥ porque a partir da liturgia a catequese pode colher conte√ļdos, linguagens, gestos e palavras da f√©, mas sobretudo porque elas pertencem reciprocamente uma √† outra no pr√≥prio ato de crer. (DPC, n. 95)

2 Liturgia e catequese nos documentos recentes da Igreja

Alguns documentos do Conc√≠lio Vaticano II, mesmo que com acenos, oferecem importantes contribui√ß√Ķes para pensarmos a m√ļtua rela√ß√£o entre a liturgia e a catequese. O decreto Christus Dominus, sobre a a√ß√£o pastoral dos bispos, ao pedir aos pastores solicitude pela catequese, faz quest√£o de afirmar que a liturgia √© uma de suas fontes essenciais:

preocupem-se com a instru√ß√£o catequ√©tica, que tem por fim tornar viva, expl√≠cita e operosa a f√© ilustrada pela doutrina, seja administrada com diligente cuidado quer √†s crian√ßas e adolescentes, quer aos jovens e mesmo adultos […] Essa instru√ß√£o se baseie na Sagrada Escritura, na tradi√ß√£o, na liturgia, no magist√©rio e na vida da Igreja. (CD n. 14)

A declara√ß√£o sobre a educa√ß√£o crist√£, intitulada Gravissimum Educationis, ao definir os objetivos da catequese, afirma que ela ‚Äúilumina e fortifica a f√©, nutre a vida segundo o esp√≠rito de Cristo, leva a uma participa√ß√£o consciente e ativa no mist√©rio lit√ļrgico e desperta para a atividade apost√≥lica‚ÄĚ (GE n. 4).

Nos campos da liturgia e da catequese, especificamente, o Conc√≠lio Vaticano II desencadeou um processo fecundo e cont√≠nuo de mudan√ßas. S√≠nodos, semin√°rios, diret√≥rios lit√ļrgicos e catequ√©ticos, encontros de forma√ß√£o de agentes, muito material produzido, tudo isso criou um clima favor√°vel para a necess√°ria renova√ß√£o. Dignas de lembran√ßa s√£o a VI Semana Internacional de Catequese (1968), realizada em Medell√≠n, a publica√ß√£o do Diret√≥rio Geral Catequ√©tico, em Roma (1971), a publica√ß√£o do documento Evangelii Nuntiandi (1976), pelo papa Paulo VI, sobre a evangeliza√ß√£o, e a exorta√ß√£o apost√≥lica Catechesi Tradendae, em 1979, pelo papa Jo√£o Paulo II.

Nesse √ļltimo documento, o papa ressalta a necess√°ria e intr√≠nseca liga√ß√£o entre catequese e liturgia, afirmando claramente:

A catequese est√° intrinsecamente ligada com toda a a√ß√£o lit√ļrgica e sacramental, porque √© nos sacramentos, e sobretudo na Eucaristia, que Cristo Jesus age em plenitude para a transforma√ß√£o dos homens. […] A catequese leva necessariamente aos sacramentos da f√©. Por outro lado, uma aut√™ntica pr√°tica dos sacramentos tem for√ßosamente um aspecto catequ√©tico. Por outras palavras, a vida sacramental se empobrece e bem depressa se torna um ritualismo oco, se ela n√£o estiver fundada num conhecimento s√©rio do que significam os sacramentos. E a catequese intelectualiza-se, se n√£o haurir vida numa pr√°tica sacramental. (CT n. 23)

No Brasil, o grande marco na dimens√£o catequ√©tica foi o documento 26 da Confer√™ncia Nacional dos Bispos, Catequese Renovada: orienta√ß√Ķes e conte√ļdo. Seu impacto mudou a rota da caminhada da catequese, al√©m de tocar profundamente em outras dimens√Ķes da vida pastoral da Igreja. O pr√≥prio nome j√° anunciava sua inten√ß√£o: renovar a pr√°tica catequ√©tica, a partir de dentro, oferecendo princ√≠pios, orienta√ß√Ķes e conte√ļdo que sustentassem esse processo de mudan√ßa.

Dois n√ļmeros desse documento, em especial, refletem a importante intera√ß√£o entre liturgia e catequese. No n√ļmero 89, podemos ler:

N√£o s√≥ pela riqueza de seu conte√ļdo b√≠blico, mas pela sua natureza de s√≠ntese e cume de toda a vida crist√£, a liturgia √© fonte inesgot√°vel de catequese. Nela, encontram-se a a√ß√£o santificadora de Deus e a express√£o orante da f√© da comunidade. As celebra√ß√Ķes lit√ļrgicas, com a riqueza de suas palavras e a√ß√Ķes, mensagens e sinais, podem ser consideradas uma ‚Äúcatequese em ato‚ÄĚ. Mas, por sua vez, para serem bem compreendidas e participadas, as celebra√ß√Ķes lit√ļrgicas ou sacramentais exigem uma catequese de prepara√ß√£o ou inicia√ß√£o. (CNBB, 1983, n. 89)

E o n√ļmero seguinte acrescenta:

A Liturgia, com sua peculiar organiza√ß√£o do tempo (domingos, per√≠odos lit√ļrgicos como Advento, Natal, Quaresma, P√°scoa etc.) pode e deve ser ocasi√£o privilegiada de catequese, abrindo novas perspectivas para o crescimento da f√©, por meio das ora√ß√Ķes, reflex√£o, imita√ß√£o dos santos, e descoberta n√£o s√≥ intelectual, mas tamb√©m sens√≠vel e est√©tica dos valores e das express√Ķes da vida crist√£. (CNBB, 1983, n. 90)

No ano de 1997, foi publicado pela Sagrada Congrega√ß√£o para o Clero o Diret√≥rio Geral para a Catequese (DGC), mostrando significativa sensibilidade √† tem√°tica da intera√ß√£o liturgia e catequese, dando √™nfase √† necessidade de uma catequese lit√ļrgica como forma de iniciar os catequizandos √† vida celebrativa. Nele podemos ler:

A catequese lit√ļrgica, que prepara aos sacramentos e favorece uma compreens√£o e uma experi√™ncia mais profunda da liturgia. Ela explica o conte√ļdo das ora√ß√Ķes, o sentido dos gestos e dos sinais, educa √† participa√ß√£o ativa, √† contempla√ß√£o e ao sil√™ncio. Deve ser considerada como ‚Äúuma eminente forma de catequese‚ÄĚ (DGC, n. 71).

O documento 84 da Confer√™ncia Nacional dos Bispos do Brasil, Diret√≥rio Nacional de Catequese (DNC), dedicou v√°rios n√ļmeros ao tema liturgia e catequese, sempre reafirmando a m√ļtua depend√™ncia dessas duas dimens√Ķes da a√ß√£o pastoral da Igreja. Considera, primeiramente, a liturgia como fonte da catequese, e cita a proclama√ß√£o da Palavra, a homilia, as ora√ß√Ķes, os ritos sacramentais, a viv√™ncia do ano lit√ļrgico e as festas como momentos de educa√ß√£o e de crescimento na f√©. Sem titubear, afirma que ‚Äúos aut√™nticos itiner√°rios catequ√©ticos s√£o aqueles que incluem em seu processo o momento celebrativo como componente essencial da experi√™ncia religiosa crist√£‚ÄĚ (DNC, n. 118).

Logo a seguir, o mesmo Diret√≥rio ressalta a urg√™ncia de uma catequese lit√ļrgica, dizendo que ‚Äú√© tarefa fundamental da catequese iniciar eficazmente os catec√ļmenos e catequizandos nos sinais lit√ļrgicos e por meio deles introduzi-los no Mist√©rio Pascal‚ÄĚ (DNC, n. 120). Assim, aponta como miss√£o da catequese preparar o crist√£o √† inicia√ß√£o sacramental e ajud√°-lo a viver como bom crist√£o mediante ora√ß√Ķes, gestos e sinais, sil√™ncio, contempla√ß√£o, presen√ßa de Maria e dos santos, escuta da Palavra etc. (DNC, n. 120).

Digna de men√ß√£o aqui √© a Exorta√ß√£o Apost√≥lica Evangelii Gaudium (EG), do papa Francisco. Ao refletir a respeito da necessidade de uma catequese querigm√°tica e mistag√≥gica, ele prop√Ķe a valoriza√ß√£o dos s√≠mbolos lit√ļrgicos da inicia√ß√£o crist√£ e uma catequese centrada na Palavra, mas que n√£o descuide ‚Äúde uma ambienta√ß√£o adequada e de uma motiva√ß√£o atraente, do uso de s√≠mbolos eloquentes‚ÄĚ (EG, n. 166), reafirmando a tradicional via pulchritudinis, caminho da beleza que faz resplandecer no cora√ß√£o do homem a verdade e a bondade do ressuscitado (DGC, n. 167).

Mais recentemente, o documento 107 da CNBB, Inicia√ß√£o √† vida crist√£: itiner√°rio para formar disc√≠pulos mission√°rios (IVC), em contexto mais catecumenal, voltou a insistir nessa intera√ß√£o entre catequese e liturgia, afirmando que ‚Äúos processos de Inicia√ß√£o se fundamentam na Sagrada Escritura e na liturgia, educam para a escuta da Palavra e para a ora√ß√£o pessoal, mediante a leitura orante, evidenciando uma estreita rela√ß√£o entre B√≠blia, catequese e liturgia‚ÄĚ (IVC, n. 66). E continua: ‚ÄúTal resgate do esp√≠rito catecumenal implica o compromisso de reatar a parceria e a uni√£o entre liturgia e catequese que, ao longo dos s√©culos, ficaram comprometidas‚ÄĚ (IVC, n. 74).

O Diret√≥rio para a Catequese (DC), do Pontif√≠cio Conselho para a Promo√ß√£o da Nova Evangeliza√ß√£o, publicado em 2020, ao tratar das fontes da catequese, dedica preciosos n√ļmeros √† liturgia (DC, n. 95-98), al√©m de outras afirma√ß√Ķes importantes, ao longo de todo o texto: a necess√°ria intera√ß√£o da liturgia com a catequese; a liturgia como lugar privilegiado da catequese do povo de Deus, conservando-se o car√°ter celebrativo da liturgia; a urg√™ncia de um itiner√°rio mistag√≥gico na catequese, que leve √† interpreta√ß√£o dos ritos √† luz dos eventos salv√≠ficos, introduza ao sentido dos sinais lit√ļrgicos e apresente o significado dos ritos para a vida crist√£ em todas as suas dimens√Ķes; a import√Ęncia da participa√ß√£o dos catequizandos na liturgia dominical e nas festas do ano lit√ļrgico.

3 Interação liturgia e catequese: principais desafios

A fecunda intera√ß√£o da liturgia com a catequese est√° garantida nos documentos da Igreja e muito bem enraizada na sua tradi√ß√£o. No dia a dia, em grande parte das comunidades eclesiais, entretanto, ainda h√° muito o que fazer. ¬†‚ÄúNa situa√ß√£o atual n√£o faltam aspectos problem√°ticos e pontos de atrito, seja no √Ęmbito da reflex√£o catequ√©tica e lit√ļrgica, seja no terreno da pr√°tica pastoral‚ÄĚ (ALBERICH, 2004, p. 305).

Um dos grandes desafios diz respeito a uma pr√°xis catequ√©tica que n√£o inicia de fato √† liturgia. N√£o obstante a boa vontade dos catequistas e alguns passos j√° dados nesse sentido, ainda √© incipiente a forma√ß√£o lit√ļrgica no √Ęmbito da catequese e limitada √† concep√ß√£o de ‚Äúcelebrar‚ÄĚ com os catequizandos. Fala-se muito sobre a import√Ęncia da liturgia, mas ainda se celebra pouco. E n√£o √© poss√≠vel iniciar algu√©m √† ritualidade apenas com discursos. E quando se celebra, √© clara a dificuldade do catequista em articular f√©, vida, Palavra de Deus, s√≠mbolos, gestos, enfim, aqueles elementos que constituem sobremaneira o rito crist√£o. Essa dificuldade h√° tempos foi apontada pelo Diret√≥rio Geral da Catequese, quando chamou a aten√ß√£o:

Muitas vezes […] a pr√°tica catequ√©tica apresenta uma liga√ß√£o d√©bil e fragmentada com a liturgia: limitada aten√ß√£o aos sinais e ritos lit√ļrgicos, pouca valoriza√ß√£o das fontes lit√ļrgicas, roteiros catequ√©ticos com pouca ou nenhuma rela√ß√£o com o ano lit√ļrgico, presen√ßa secund√°ria de celebra√ß√Ķes nos itiner√°rios da catequese. (DGC, n. 30)

Alberich √© do parecer que as dimens√Ķes antropol√≥gica e experiencial, aquelas que tratam das quest√Ķes do homem e suas experi√™ncias de vida, de caridade e de servi√ßo, obviamente importantes na catequese, acabaram por ofuscar a centralidade da experi√™ncia lit√ļrgica no crescimento da f√© (ALBERICH, 2004, p. 306). Assim, podemos falar de uma catequese desfocada da viv√™ncia lit√ļrgica ou que tem essa apenas como um ap√™ndice dos seus processos.

Outro desafio n√£o menos preocupante √© a instrumentaliza√ß√£o da liturgia com finalidade did√°tica e pedag√≥gica para satisfazer √† necessidade de explicar os ritos para crian√ßas e jovens. Essas pr√°ticas desconsideram a natureza da liturgia, essencialmente celebrativa e mistag√≥gica, impondo-lhe linguagem e metodologia estranhas √† sua pr√≥pria ess√™ncia, transformando a celebra√ß√£o em uma ‚Äúaula‚ÄĚ mais animada sobre a missa, por exemplo. Al√©m de n√£o iniciar de fato √† din√Ęmica celebrativa da f√©, pois n√£o se respeita a estrutura mistag√≥gica e psicol√≥gica pr√≥pria do rito, causa resist√™ncia e certo aborrecimento √†s assembleias e n√£o permite que se encantem pela dimens√£o contemplativa e orante da f√©. ¬†

As defici√™ncias no modo de celebrar, tanto da parte das assembleias como de muitos de seus ministros, incluindo os ordenados, constituem tamb√©m mais um importante desafio para se consolidar essa t√£o importante rela√ß√£o da liturgia com a catequese. N√£o podemos desconsiderar que a liturgia √© a principal transmissora da f√© da Igreja, uma verdadeira catequese em ato. Sendo assim, o fato de participar de uma celebra√ß√£o deveria ser uma maneira privilegiada de recep√ß√£o e acolhida da f√© transmitida pela profundidade e riqueza dos ritos constitu√≠dos bimilenarmente pela Igreja. Perpassados pela Palavra, os ritos lit√ļrgicos comunicam, em si mesmos e na sua viv√™ncia concreta, a mais genu√≠na f√© da Igreja, centralizada no mist√©rio pascal de Jesus Cristo. Desse modo, a assembleia apreende e compreende a sua f√© √† medida que faz o rito acontecer em sua vida. A liturgia celebrada de modo relapso, improvisado ou atropelada pelo voluntarismo de seus ministros cria dificuldades para que dela se depreenda uma aut√™ntica educa√ß√£o da f√© crist√£.

Outros desafios ainda podem ser enumerados, como uma vis√£o sacramentalizadora da catequese, a t√≠mida presen√ßa do ano lit√ļrgico nos processos catequ√©ticos, o subjetivismo aliado √† ignor√Ęncia da teologia lit√ļrgica por parte de muitos leigos e ministros ordenados, a falta de prepara√ß√£o dos catequistas para fazer intercambiar as duas dimens√Ķes da liturgia e da catequese na sua viv√™ncia, pr√°tica pastoral e testemunho de vida etc.

4 Mistagogia: caminho de interação da liturgia com catequese

Pensar a intera√ß√£o liturgia e catequese toca diretamente na tem√°tica da mistagogia, t√£o cara √† tradi√ß√£o e √† espiritualidade do cristianismo. Na verdade, desde o juda√≠smo, j√° se evidencia o m√©todo mistag√≥gico como via privilegiada de educa√ß√£o da f√© das novas gera√ß√Ķes e reafirma√ß√£o da f√© para aqueles j√° iniciados. Um dos melhores exemplos disso n√≥s podemos encontrar na celebra√ß√£o anual da P√°scoa dos judeus. A prescri√ß√£o contida no livro do √äxodo sempre ressoava soberana para eles:

Quando tiverdes entrado na terra que o Senhor vos dar√°, conforme prometeu, observai este rito. Ent√£o os vossos filhos perguntar√£o: ‚ÄúQue significa este rito?‚ÄĚ. Respondereis: ‚Äú√Č o sacrif√≠cio da P√°scoa do Senhor, que passou ao lado das casas dos israelitas no Egito‚ÄĚ. (Ex 12,25-27)

‚ÄúQue significa este rito?‚ÄĚ era a pergunta reservada ritualmente ao mais novo. N√£o se trata apenas de formalidade ritual, mas de algo essencial. Na resposta a essa quest√£o estava o conte√ļdo que sustentava e dava sentido ao rito da P√°scoa. E ao responder, o mais velho da fam√≠lia fazia a mem√≥ria dos feitos libertadores de Deus em favor de seu povo, garantido historicidade ao rito, inserindo-o em uma hist√≥ria de salva√ß√£o continuada em suas vidas. ‚ÄúQue significa este rito?‚ÄĚ era a pergunta que os catec√ļmenos e ne√≥fitos do cristianismo primitivo faziam, buscando compreender a f√© que estavam abra√ßando. Da resposta dependia a eloqu√™ncia do rito em suas vidas. Sem a resposta, o rito permaneceria mudo e inexpressivo (BOSELLI, 2014, p. 29). A resposta vinha com as catequeses mistag√≥gicas dos Santos Padres, que, partindo da Palavra, uniam Antigo e Novo Testamento e ajudavam os fi√©is a mergulharem no cora√ß√£o do mist√©rio pascal. ‚ÄúQue significa este rito?‚ÄĚ √© a pergunta que hoje e sempre ecoar√° na Igreja da parte dos crist√£os e dos n√£o crist√£os, procurando algum sentido nas a√ß√Ķes lit√ļrgicas, isto √©, buscando haurir da ritualidade alguma catequese que lhes ajude a desvelar ou, ao menos, acolher o mist√©rio celebrado.

A constitui√ß√£o Sacrosanctum Concilium ocupou-se de resgatar a centralidade do mist√©rio pascal na a√ß√£o lit√ļrgica e de mostrar sua incid√™ncia sobre toda a ritualidade da Igreja. Procurou libertar a liturgia de sua concep√ß√£o exteriorizada, vista apenas como cerim√īnia, chamando a aten√ß√£o para sua ess√™ncia. Definiu-a como o culto perfeito que o Cristo total, cabe√ßa e membros, presta ao Pai, no Esp√≠rito Santo, por meio de ritos e preces. Ela √© o cume e a fonte da vida da Igreja (SC n. 7.10.48). Per ritus et preces: √© desse modo que a Igreja, povo de Deus, reconhece o crucificado ressuscitado e o d√° a conhecer na media√ß√£o dos sinais sagrados, palavras, gestos, sil√™ncio, ora√ß√Ķes… E, ao congregar suas assembleias para seus ritos, ela transmite a sua f√© em Cristo. Os eventos salv√≠ficos, presentes e atualizados em cada celebra√ß√£o, fundamentam e legitimam os ritos, libertando-os da magia e da ilus√£o (BOSELLI, 2014, p. 29). Desse modo, √© por meio dos sinais que tocam os sentidos, feito pontes que v√£o do cora√ß√£o dos crist√£os ao cora√ß√£o do pr√≥prio Deus, que se chega ao Sentido por excel√™ncia, o pr√≥prio Senhor ressuscitado. Mas, para bem transitar por essas pontes, cabe √† Igreja iniciar seus fi√©is ao universo lit√ļrgico e √† sua rica linguagem. Boselli, parafraseando S√£o Jer√īnimo, que dizia ‚ÄúIgnoratio Scripturarum, ignoratio Christi est‚ÄĚ, ousa dizer: ‚Äúignoratio liturgiae, ignoratio Christi est‚ÄĚ, isto √©, n√£o conhecer a liturgia significa n√£o conhecer Cristo (BOSELLI, 2014, p. 32).

Uma catequese mistag√≥gica √© aquela que leva a um aprofundamento e a uma maior consci√™ncia do mist√©rio que, para n√≥s, √© ‚ÄúCristo, esperan√ßa da gl√≥ria‚ÄĚ (Cl 1,27). Ela se apresenta como a √ļnica possibilidade de libertar o catequizando de uma rela√ß√£o te√≥rica com Deus, ajudando-o a mergulhar na sua gra√ßa e a experiment√°-lo como seu Senhor e sua vida. De acordo como o documento 107 da Confer√™ncia Nacional dos Bispos do Brasil, √© impens√°vel um processo catequ√©tico que desconsidere o alt√≠ssimo valor do elemento mistag√≥gico, e esse passa necessariamente pela liturgia, √† qual coube, desde o in√≠cio do cristianismo, em plena intera√ß√£o com a catequese, a miss√£o de iniciar na f√©
(Doc. 107, n. 70).

O Diret√≥rio para a Catequese oferece alguns elementos essenciais para que se percorra um itiner√°rio mistag√≥gico na catequese o que, ao nosso ver, muito contribuiria para uma aproxima√ß√£o mais eficaz entre a liturgia e a catequese: a intepreta√ß√£o dos ritos √† luz dos eventos salv√≠ficos, relendo a vida de Jesus, a partir do Antigo Testamento; a introdu√ß√£o ao sentido dos sinais lit√ļrgicos, educando a sensibilidade dos fi√©is √† linguagem dos sinais e dos gestos que, unidos √† Palavra, constituem o rito; e a apresenta√ß√£o do significado dos ritos para a vida crist√£ em todas as suas dimens√Ķes (DPC, n. 98).

Conclus√£o

Percorremos um r√°pido, mas denso caminho, procurando mostrar, mais do que a import√Ęncia, a urg√™ncia de buscarmos alternativas para fazer interagir as dimens√Ķes lit√ļrgica e catequ√©tica em nossa pr√°tica pastoral. Vimos como os recentes documentos da Igreja apontam o enriquecimento m√ļtuo dessas duas dimens√Ķes, quando se consegue essa intera√ß√£o, bem como os desafios para que ela efetivamente aconte√ßa. Terminamos por considerar como uma poss√≠vel resposta eficaz uma catequese mais mistag√≥gica, que d√™ conta de inserir o catequizando na experi√™ncia do encontro com Cristo e de aprofundar sua f√© nas media√ß√Ķes dos sinais e ritos sagrados, sempre iluminados pela Palavra de Deus.

O que est√° em jogo √© a necessidade de reconstruir a unidade da experi√™ncia da f√©, sem reducionismo de nenhuma de suas dimens√Ķes, mas procurando conceb√™-la na sua globalidade. Isto exige articular liturgia, catequese e vida crist√£. Se concordamos com a Igreja quando afirma que a sagrada liturgia constitui o ‚Äúcume e a fonte da vida da Igreja‚ÄĚ (SC, n. 10), ela se constitui como verdadeiro locus theologicus, tendo sempre uma fun√ß√£o catequ√©tica para todo o povo de Deus, na riqueza e efic√°cia de seus ritos. Para que toda essa for√ßa seja experimentada com proveito, requer-se da catequese o cuidado proped√™utico de iniciar crian√ßas, jovens e adultos ao universo lit√ļrgico, menos pelo que fala e mais pelo que faz, recorrendo ao rico patrim√īnio que a liturgia oferece para tornar poss√≠vel ao crist√£o o acesso ao mist√©rio de f√© por ela professado e continuamente celebrado.

Vanildo de Paiva. Presbítero da Arquidiocese de Pouso Alegre, Minas Gerais (Brasil). Mestre em psicologia e professor na Faculdade Católica de Pouso Alegre. Texto original português. Enviado: 30/07/2022; aprovado: 30/10/2022; Publicado: 30/12/2022.

Referências

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