Lugar teológico

Sum√°rio

1 Express√£o

1.1 Melchor Cano

1.2 Renovação conciliar

1.3 América Latina

2 Relev√Ęncia teol√≥gica

2.1 Epistemologia teológica

2.2 Renovação da teologia

3 Status quaestionis

Referências

1 A express√£o

A express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ tem uma longa tradi√ß√£o na teologia e ganhou muita relev√Ęncia no contexto da renova√ß√£o teol√≥gica (p√≥s)conciliar, particularmente na teologia da liberta√ß√£o latino-americana. Essa relev√Ęncia foi tamanha que acabou extrapolando seu campo sem√Ęntico tradicional, embora essa muta√ß√£o/amplia√ß√£o sem√Ęntica nem sempre tenha sido explicitamente tematizada e assimilada, nem muito menos formulada de modo adequado e suficiente. E isso n√£o deixa de gerar ambiguidades e tens√Ķes te√≥ricas que produzem ou contribuem para incompreens√Ķes, acusa√ß√Ķes e at√© condena√ß√Ķes teol√≥gicas. Da√≠ a import√Ęncia de come√ßarmos nosso estudo retomando o sentido cl√°ssico dessa express√£o com Melchor Cano e os novos sentidos que ela foi adquirindo no contexto da renova√ß√£o conciliar e latino-americana da teologia.

1.1 Melchor Cano

O sentido cl√°ssico da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ na teologia cat√≥lico-romana est√° ligado √† obra do te√≥logo dominicano Melchor Cano De locis theologicis (1563). Inserida no contexto de crise da escol√°stica decadente e da reforma protestante, bem como dos intentos de renova√ß√£o teol√≥gica em curso, a obra de Cano aparece como fruto maduro da reforma teol√≥gica preconizada e desenvolvida pela Escola de Salamanca (BELDA PLANS, 2000) e ‚Äúconstitui possivelmente a obra metodol√≥gica mais importante da teologia moderna‚ÄĚ (BELDA PLANS, 2006, p. XCI). Ela teve uma influ√™ncia decisiva na renova√ß√£o da teologia escol√°stica e no movimento da contrarreforma, desencadeado sobretudo a partir do Conc√≠lio de Trento.

Cano n√£o foi o √ļnico nem sequer o primeiro te√≥logo a tratar desse assunto. Tampouco sua compreens√£o e abordagem do tema eram as √ļnicas e as mais comuns em sua √©poca. J√° em 1521, Philipp Melanchthon, o grande te√≥logo sistem√°tico da reforma, havia publicado Loci communes (MELANCHTHON, 1993), onde trata dos ‚Äúlugares comuns‚ÄĚ ou ‚Äútemas fundamentais‚ÄĚ da doutrina crist√£. Assim como toda ci√™ncia tem certos ‚Äúpontos fundamentais‚ÄĚ que abarcam e resumem a totalidade dessa ci√™ncia e ao mesmo tempo funcionam como objetivo ou meta que a direciona e a corrige, diz ele, tamb√©m a teologia tem seus ‚Äúlugares comuns‚ÄĚ sobre os quais est√° constru√≠da e dos quais depende (MELANCHTHON, 1993, n. 0,1-4). O pr√≥prio Cano se refere a essa concep√ß√£o no in√≠cio de sua obra, ao explicar que n√£o pretende disputar sobre os chamados ‚Äúlugares comuns‚ÄĚ que tratam de ‚Äúqualquer mat√©ria‚ÄĚ ou dos ‚Äútemas principiais‚ÄĚ da teologia (justifica√ß√£o, gra√ßa, pecado, f√© e outras quest√Ķes do g√™nero), ‚Äúcomo fizeram muitos dos nossos e, entre os luteranos, Felipe Melanchthon e Calvino‚ÄĚ (CANO, 2006, p. 8-9).

Inspirado em Tom√°s de Aquino (STh I, q.1, a.8), Cano parte da distin√ß√£o entre ‚Äúargumentos de raz√£o‚ÄĚ e ‚Äúargumentos de autoridade‚ÄĚ e da afirma√ß√£o do primado da autoridade sobre a raz√£o na teologia (CANO, 2006, p. 7-8). E, baseando-se nos T√≥picos de Arist√≥teles, compreende e prop√Ķe os ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ, n√£o como ‚Äúlugares comuns‚ÄĚ, mas como ‚Äúfontes‚ÄĚ ou ‚Äúdomic√≠lios‚ÄĚ de argumentos teol√≥gicos:

Assim como Arist√≥teles prop√īs em seus T√≥picos uns lugares-comuns como sedes e sinais de argumentos, de onde se pudesse extrair toda argumenta√ß√£o para qualquer classe de disputa, de maneira an√°loga, n√≥s propomos tamb√©m certos lugares pr√≥prios da teologia como domic√≠lios de todos os argumentos teol√≥gicos, de onde os te√≥logos podem sacar seus argumentos ou para provar ou para refutar (CANO, 2006, p. 9).

Embora reconhecendo que n√£o haja consenso quanto ao ‚Äún√ļmero‚ÄĚ, Cano estabelece dez lugares teol√≥gicos: autoridade da Sagrada Escritura, autoridade das Tradi√ß√Ķes de Cristo e dos Ap√≥stolos, autoridade da Igreja Cat√≥lica, autoridade dos Conc√≠lios, autoridade da Igreja Romana, autoridade dos Santos Padres, autoridade dos Te√≥logos Escol√°sticos e dos Canonistas, Raz√£o Natural, autoridade dos Fil√≥sofos e autoridade da Hist√≥ria Humana (CANO, 2006, p. 9-10). Os argumentos que se extraem dos sete primeiros lugares s√£o argumentos ‚Äúinteiramente pr√≥prios‚ÄĚ da teologia, enquanto os que se extraem dos tr√™s √ļltimos lugares s√£o argumentos ‚Äúadscritos e como que mendigados do alheio‚ÄĚ (CANO, 2006, p. 10). Dos dez lugares teol√≥gicos, diz o te√≥logo salmantino, ‚Äúos dois primeiros cont√™m os ‚Äėprinc√≠pios pr√≥prios e leg√≠timos‚Äô da teologia, enquanto os tr√™s √ļltimos cont√™m os ‚Äėprinc√≠pios externos e alheios‚Äô, pois os cinco intermedi√°rios cont√™m ou a interpreta√ß√£o dos princ√≠pios pr√≥prios ou essas conclus√Ķes que nasceram e sa√≠ram deles‚ÄĚ (CANO, 2006, p. 692).

Por mais que essa concep√ß√£o de ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ j√° tenha sido esbo√ßada por Tom√°s de Aquino (CANO, 2006, p. 679) e retomada por te√≥logos contempor√Ęneos a Cano, como Francisco de Vit√≥ria, Domingo de Soto e Bartolomeu de Carranza (BELDA PLANS, 2006, p. LXVII), ‚Äúat√© o momento ningu√©m havia se proposto a escrever um tratado cient√≠fico completo e refletido sobre os loci theologici como o m√©todo pr√≥prio de argumenta√ß√£o em teologia‚ÄĚ (BELDA PLANS, 2006, p. LXVII). O pr√≥prio Cano chega a dizer explicitamente: ‚ÄúNem Santo Tom√°s nem nenhum outro ‚Äď que eu saiba ‚Äď intentou explicar o m√©todo para fazer uso dos lugares mesmos‚ÄĚ (CANO, 2006, p. 679).

1.2 Renovação conciliar

A obra de Melchor Cano exerceu um papel fundamental no contexto da contrarreforma cat√≥lica: frente ao princ√≠pio sola Scriptura, da obra de Melanchthon (Loci communes), propunha dez ‚Äúfontes‚ÄĚ ou ‚Äúdomic√≠lios‚ÄĚ de argumentos teol√≥gicos (De locis theologicis). Paradoxalmente, ela foi sendo submetida pelo mesmo contexto e esp√≠rito de contrarreforma a um reducionismo magisterial, que culminou no que se convencionou chamar ‚Äúteologia do Denzinger‚ÄĚ ou ‚Äúteologia de enc√≠clica‚ÄĚ. O confronto com o biblicismo (protestante) desembocou n√£o raras vezes numa esp√©cie de papismo (romano). A supera√ß√£o desse reducionismo teol√≥gico, preparada por uma s√©rie de movimentos de renova√ß√£o eclesial (LIBANIO, 2005, p. 21-48), que culminaram no Conc√≠lio Vaticano II, implicou numa retomada e atualiza√ß√£o dos v√°rios lugares teol√≥gicos e acabou produzindo uma amplia√ß√£o e tens√£o sem√Ęnticas na pr√≥pria express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ.

Uma das contribui√ß√Ķes mais importantes e mais destacadas do Conc√≠lio Vaticano II para a renova√ß√£o da teologia cat√≥lica foi a retomada das v√°rias fontes da teologia. Isso foi se dando atrav√©s dos movimentos de renova√ß√£o eclesial (‚Äúvolta √†s fontes‚ÄĚ) que culminaram no Conc√≠lio Vaticano II e aparece explicitamente no Decreto Optatam Totius sobre a forma√ß√£o sacerdotal (OT 16). Como bem afirma Joseph Ratzinger, ‚Äúo conc√≠lio muito contribuiu para que se alargassem os horizontes teol√≥gicos e para que na Igreja toda se passasse para al√©m de uma ‚Äėteologia de enc√≠clica‚Äô‚ÄĚ, isto √©, ‚Äúum tipo de teologia que se restringia cada vez mais a escutar e analisar as declara√ß√Ķes e os documentos papais‚ÄĚ (RATZINGER, 1974, p. 267). De fato, diz ele, a) ‚Äúo conc√≠lio conseguiu que a teologia voltasse novamente a considerar todas as fontes e em toda a sua integridade‚ÄĚ; b) ‚Äúmostrou tamb√©m que a teologia n√£o deve considerar todas as fontes apenas atrav√©s do filtro da interpreta√ß√£o do magist√©rio dos √ļltimos cem anos, mas deve ler e procurar compreend√™-las como s√£o em si mesmas‚ÄĚ; c) ‚Äúexpressou, inclusive, o desejo de n√£o dar aten√ß√£o apenas √† tradi√ß√£o cat√≥lica, como de estudar tamb√©m seriamente o desenvolvimento da teologia de outras Igrejas e de outras denomina√ß√Ķes crist√£s‚ÄĚ; e) ‚Äúconsiderou de import√Ęncia a aten√ß√£o que deve ser dada aos problemas do homem de hoje‚ÄĚ (RATZINGER, 1974, p. 267). A indica√ß√£o e valoriza√ß√£o das diversas fontes da teologia, o acr√©scimo de novas fontes e a compreens√£o atual dessas v√°rias fontes significaram uma verdadeira retomada e atualiza√ß√£o dos cl√°ssicos ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ, mesmo quando Cano e sua obra n√£o s√£o explicitamente referidos.

Mas, al√©m de retomar, atualizar e at√© ampliar as ‚Äúfontes‚ÄĚ ou os ‚Äúdomic√≠lios‚ÄĚ de argumentos teol√≥gicos, a renova√ß√£o conciliar da teologia acabou extrapolando o sentido cl√°ssico da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ. A insist√™ncia no car√°ter hist√≥rico da revela√ß√£o (DV), na Igreja como sacramento de salva√ß√£o (LG), na liturgia como fonte e cume da vida crist√£ (SC), na import√Ęncia dos ‚Äúsinais dos tempos‚ÄĚ (GS), no ecumenismo como obra do Esp√≠rito (UR), nas ‚Äúsementes do Verbo‚ÄĚ presentes nas culturas e religi√Ķes (AG, NA), dentre outros temas, levou √† percep√ß√£o da densidade e do valor epistemol√≥gicos dessas realidades. E isso foi sendo expresso, de modo um tanto espont√Ęneo, em termos de novos lugares teol√≥gicos‚ÄĚ. Vai se tornando muito comum falar da Igreja, da liturgia, do ‚Äúmundo ou dos sinais dos tempos como ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ (SCHILLEBEECX, 1968, 189-92; TABORDA, 2009, p. 31-37; GUTI√ČRREZ, 2000, p. 63, 69; RITO, 1998, p. 123-128; WICKS, 1999, p. 22; H√úNERMANN, 2014, p. 263-291), como se fosse uma mera amplia√ß√£o das ‚Äúfontes‚ÄĚ ou dos ‚Äúdomic√≠lios‚ÄĚ de argumentos teol√≥gicos. Curiosamente, poucos percebem que a express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ j√° n√£o se refere aqui, como na obra de Cano, a ‚Äúfontes‚ÄĚ ou ‚Äúdomic√≠lios‚ÄĚ de argumentos teol√≥gicos, mas a realidades teologais, nas quais Deus se faz presente de um modo muito particular (densidade teologal) e pode ser encontrado e mais bem conhecido (densidade teol√≥gica). A express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ j√° n√£o significa aqui uma esp√©cie de ‚Äú√°reas de documenta√ß√£o‚ÄĚ (WICKS, 1999, p. 20), mas se refere a realidades ou acontecimentos. Como bem adverte Max Seckler, n√£o se pode falar de ‚Äúatualidade‚ÄĚ, de ‚Äúliturgia‚ÄĚ ou de ‚ÄúIgreja‚ÄĚ como novos ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ no sentido de Melchor Cano (SECKLER, 1987, p. 44, nota 11).

Importa destacar aqui que a renova√ß√£o conciliar da teologia n√£o apenas retoma, atualiza e amplia os ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ como fontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos, mas, extrapolando esse sentido cl√°ssico, usa a express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ para se referir tamb√©m a realidades teologais. E importa tamb√©m chamar aten√ß√£o para o fato curioso de que essa nova acep√ß√£o da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ (realidades ou acontecimentos teologais) tenha sido tomada e continue sendo tomada em grande medida ainda hoje no sentido de Cano (fontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos).

1.3 América Latina

A teologia da liberta√ß√£o nasce no contexto da renova√ß√£o conciliar da Igreja e, mais concretamente, no contexto da ‚Äúrecep√ß√£o criativa‚ÄĚ do Conc√≠lio na Am√©rica Latina. Ela √© fruto e express√£o do processo de renova√ß√£o eclesial latino-americana, que tem na Confer√™ncia de Medell√≠n (1968) um marco hist√≥rico fundamental.

Fiel √† intui√ß√£o e ao prop√≥sito originais de Jo√£o XXIII, de abertura, di√°logo e coopera√ß√£o da Igreja como o mundo, que encontram na Constitui√ß√£o Pastoral Gaudium et Spes e sua incipiente teologia dos ‚Äúsinais dos tempos‚ÄĚ sua melhor express√£o, Medell√≠n inaugura uma nova etapa na vida da Igreja do continente, marcada por uma aut√™ntica inser√ß√£o na realidade latino-americana e por um compromisso cada vez mais intenso com os pobres e marginalizados e suas lutas por liberta√ß√£o.

Isso j√° aparece explicitamente no Tema da Confer√™ncia: ‚ÄúPresen√ßa da Igreja na atual transforma√ß√£o da Am√©rica Latina‚ÄĚ. E √© afirmado com muita for√ßa na Introdu√ß√£o do Documento Final: a) come√ßa dizendo que ‚Äúa Igreja latino-americana, reunida na II Confer√™ncia Geral de seu Episcopado, situou no centro de sua aten√ß√£o o homem deste continente que vive um momento decisivo de seu processo hist√≥rico‚ÄĚ; b) fala do ‚Äúmomento hist√≥rico‚ÄĚ vivido na Am√©rica Latina (anseio de emancipa√ß√£o e de liberta√ß√£o) como um ‚Äúevidente signo do Esp√≠rito‚ÄĚ; c) termina reafirmando que toda ‚Äúreflex√£o [da confer√™ncia] orientou-se para a busca de forma de presen√ßa mais intensa e renovada da Igreja na atual transforma√ß√£o da Am√©rica Latina‚ÄĚ (CELAM, 1987, p. 5-8).

Essa perspectiva da Confer√™ncia de Medell√≠n, que ser√° decisiva para a recep√ß√£o do Conc√≠lio na Am√©rica Latina, diferente de sua recep√ß√£o em outros continentes, ajuda a compreender o sentido e a import√Ęncia da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ na teologia latino-americana. √Č verdade que essa teologia reproduz aquela ambiguidade e tens√£o sem√Ęnticas evocadas no item anterior. √Č comum usar a express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ para se referir tanto √†s fontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos (Melchor Cano), quanto a realidades ou acontecimentos teologais (renova√ß√£o conciliar). Mas, na linha aberta pela renova√ß√£o conciliar e desenvolvendo uma intui√ß√£o j√° presente no Conc√≠lio (LG 8), vai insistir sobretudo na tese dos pobres e marginalizados como lugar teol√≥gico ou mesmo como lugar teol√≥gico fundamental (contribui√ß√£o pr√≥pria e peculiar) (ELLACURIA, 2000, p. 139-161; SOBRINO, 1996, p. 42-61; SUSIN, 2008, p. 151-180; AQUINO J√öNIOR, 2010, p. 265-318; 2017, p. 97-116; COSTADOAT, 2015, p. 179-202; 2018, p. 19-40).

√Č verdade que ‚Äúo uso da terminologia dos ‚Äėlugares teol√≥gicos‚Äô √© err√°tico entre os te√≥logos da liberta√ß√£o‚ÄĚ (COSTADOAT, 2018, p. 34). √Č verdade tamb√©m que essa express√£o, com raras exce√ß√Ķes, √© mais afirmada que problematizada, como se fosse algo evidente e tranquilo. E √© verdade ainda que n√£o se alcan√ßou um n√≠vel de elabora√ß√£o que supere as ambiguidades te√≥rico-teol√≥gicas e favore√ßa um consenso mais amplo sobre a tese dos pobres e marginalizados como lugar teol√≥gico. Em todo caso, conv√©m destacar aqui dois aspectos da reflex√£o teol√≥gica desenvolvida na Am√©rica Latina que permitem e favorecem uma elabora√ß√£o mais ampla, mais precisa e mais convincente da afirma√ß√£o dos pobres e marginalizados como ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ.

Antes de tudo, √© preciso advertir e insistir que a express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ n√£o √© tomada aqui no sentido cl√°ssico de ‚Äúfontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ, mas, na nova acep√ß√£o que adquiriu no contexto da renova√ß√£o conciliar da teologia, como ‚Äúrealidades ou acontecimentos teologais‚ÄĚ. N√£o se trata, portanto, de ‚Äútextos‚ÄĚ (de onde se extraem argumentos teol√≥gicos), mas de ‚Äúrealidades‚ÄĚ (nas quais Deus est√° presente e pode ser mais bem conhecido) (SOBRINO, 1996, p. 48; SUSIN, 2008, p. 170; AQUINO J√öNIOR, 2010, p. 287s). Isso √© fundamental para se compreender adequadamente em que sentido se fala dos pobres e marginalizados como ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ. E ser√° fundamental para se estabelecer adequadamente o estatuto teol√≥gico dessa afirma√ß√£o no contexto mais amplo da epistemologia teol√≥gica como um todo.

Mas √© igualmente importante indicar, ainda que em grandes linhas e em forma de teses, como se entende a afirma√ß√£o dos ‚Äúpobres e marginalizados como lugar teol√≥gico‚ÄĚ. Embora se possa recorrer aqui a muitos autores, os elementos fundamentais dessa reflex√£o foram esbo√ßados de modo sistem√°tico por Ignacio Ellacur√≠a, por mais que se possa discutir os termos de sua formula√ß√£o e se deva avan√ßar em sua elabora√ß√£o. Para ele, ‚Äúos pobres s√£o lugar teol√≥gico enquanto constituem a m√°xima e escandalosa presen√ßa prof√©tica e apocal√≠ptica do Deus crist√£o e, consequentemente, o lugar privilegiado da pr√°xis e da reflex√£o crist√£‚ÄĚ (ELLACUR√ćA, 2000, p. 148). Ao mesmo tempo em que indica v√°rias raz√Ķes que justificam essa afirma√ß√£o, Ellacur√≠a destaca distintos aspectos ou matizes nela implicados: 1) s√£o ‚Äúo lugar onde o Deus de Jesus se manifesta de modo especial‚ÄĚ; 2) s√£o ‚Äúo lugar mais apto para a viv√™ncia da f√© em Jesus e para a correspondente pr√°xis do seguimento‚ÄĚ; 3) s√£o ‚Äúo lugar mais pr√≥prio para fazer a reflex√£o sobre a f√©, para fazer teologia crist√£‚ÄĚ (ELLACURIA, 2000, p. 149-153). Em s√≠ntese: s√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ enquanto lugar da revela√ß√£o e, consequentemente, lugar da f√© e da teologia. Esses tr√™s aspectos precisam ser tomados em sua irredutibilidade e inseparabilidade.

2 Relev√Ęncia teol√≥gica

A express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ est√° muito ligada √† problem√°tica da epistemologia teol√≥gica. E, tanto no seu desenvolvimento com Melchor Cano no √©culo XVI, como no contexto da renova√ß√£o conciliar e latino-americana no s√©culo XX, desempenhou um papel fundamental na renova√ß√£o da teologia. Nesse sentido, conv√©m situar a problem√°tica do ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ no contexto mais amplo da epistemologia teol√≥gica e destacar sua import√Ęncia nos processos de renova√ß√£o da teologia.

2.1 Epistemologia teológica

Por mais que a quest√£o dos ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ seja decisiva para a compreens√£o e elabora√ß√£o dos diversos temas ou conte√ļdos da teologia, sua tematiza√ß√£o e seu desenvolvimento est√£o sempre ligados √† problem√°tica da epistemologia teol√≥gica: seja no sentido mais fundamental dos seus pressupostos te√≥ricos (no√ß√£o, possibilidades e limites do conhecimento teol√≥gico), seja no sentido mais operativo de seu desenvolvimento concreto (elementos, passos, procedimentos). Est√° em jogo aqui a problem√°tica do m√©todo teol√≥gico no seu duplo aspecto de pressupostos te√≥ricos (m√©todo fundamental) e de procedimentos operativos (m√©todo concreto). E isso se pode verificar sem maiores dificuldades na hist√≥ria da teologia, particularmente naqueles contextos espec√≠ficos a que nos referimos no item anterior, nos quais a express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ desempenha um papel fundamental na problematiza√ß√£o e compreens√£o do fazer teol√≥gico.

a. Melchor Cano

S√≥ se pode compreender adequadamente a obra de Cano De locis theologicis no contexto de crise e busca de renova√ß√£o teol√≥gica do s√©culo XVI. Por mais que se deva destacar sua transcend√™ncia hist√≥rica, n√£o se pode jamais perder de vista seu contexto e seu prop√≥sito originais. Cano ‚Äúteve a perspic√°cia e a genialidade de recolher com toda seriedade essa preocupa√ß√£o geracional acerca da reforma e do m√©todo da teologia e dar-lhe uma solu√ß√£o cient√≠fica profunda e acabada‚ÄĚ (BELDA PLANS, 2006, p. LXVII).

O pr√≥prio Cano fala explicitamente disso no Pr√≥logo Geral, ao apresentar como motiva√ß√£o e prop√≥sito fundamentais de sua obra o desejo de articular a ‚Äúerudi√ß√£o dos antigos‚ÄĚ (‚Äúabund√Ęncia de conte√ļdo‚ÄĚ) como a ‚Äúclareza dos modernos‚ÄĚ (‚Äúordem, disposi√ß√£o e clareza‚ÄĚ), tomando de uns ‚Äúcomo que a mat√©ria‚ÄĚ e de outros ‚Äúcomo que a forma‚ÄĚ da disserta√ß√£o para ‚Äúexortar na s√£ doutrina‚ÄĚ e para ‚Äúarguir a quem a contradiga‚ÄĚ: ‚ÄúO desejo de explicar isso moveu-me inteiramente a propor uma discuss√£o sobre os lugares teol√≥gicos‚ÄĚ (CANO, 2002, p. 3).

Nessa discuss√£o, Cano √© influenciado pela no√ß√£o de teologia de Tom√°s de Aquino e pela no√ß√£o aristot√©lica de t√≥picos/lugares que recebeu do ambiente humanista e mais concretamente de Rodolfo Agr√≠cola. De Tom√°s, como se pode verificar no primeiro livro ou cap√≠tulo da obra (CANO, 2006, p. 7-10), tomou a compreens√£o de teologia como ci√™ncia que ‚Äúprocede de princ√≠pios conhecidos √† luz de uma ci√™ncia superior‚ÄĚ (STh I, q. 2), seu modo de argumenta√ß√£o (raz√£o e autoridade, primado da autoridade) e o uso dos v√°rios tipos de argumentos (estranhos e prov√°veis, pr√≥prios e certos, pr√≥prios, mas prov√°veis) (STh I, q. 1, a. 8). Dos humanistas, tomou uma forma did√°tica de expor a doutrina crist√£: ‚Äúordem, disposi√ß√£o e clareza‚ÄĚ (CANO, 2006, p. 3) e, particularmente, a no√ß√£o aristot√©lica de lugares/sedes de argumentos (CANO, 2006, p. 9). Essa dupla inspira√ß√£o/influ√™ncia confere √† no√ß√£o de ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ de Cano tanto um car√°ter de ‚Äújazidas de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ, quanto um car√°ter de ‚Äúinst√Ęncias autoritativas de argumenta√ß√£o teol√≥gica‚ÄĚ (KASPER, 2012, p. 88). E a insere explicitamente no contexto da problem√°tica da epistemologia teol√≥gica, seja no que se refere √† no√ß√£o de teologia, seja no que se refere ao modo concreto de proceder na elabora√ß√£o e exposi√ß√£o da doutrina crist√£.

b. Renovação conciliar e latino-americana

Assim como não se pode compreender a reflexão de Cano sobre os lugares teológicos fora do contexto de crise e de renovação teológica do século XVI, tampouco se pode compreender a retomada dessa problemática e os novos desenvolvimentos que ela adquire ao longo do século XX sem considerar o processo intenso de renovação teológica que culmina no Concílio Vaticano II e seus desdobramentos no processo de recepção conciliar, particularmente na Igreja latino-americana.

De fato, a express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ reaparece com for√ßa e ganha bastante relev√Ęncia no s√©culo XX no contexto de um novo processo de renova√ß√£o teol√≥gica (t√£o intenso e fecundo como o que se deu no s√©culo XVI) e, mais uma vez, aparece profundamente ligada √† problem√°tica do fazer teol√≥gico: seja no sentido cl√°ssico de fontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos, seja num sentido novo de realidades ou acontecimentos teologais. Em ambos os casos est√° sempre ligada a uma compreens√£o de teologia e do fazer teol√≥gico, por mais que isso nem sempre seja tematizado e explicitado e por mais que esse duplo sentido da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ produza ambiguidade e tens√£o te√≥rico-teol√≥gicas, levando a um uso err√°tico da express√£o.

Por um lado, a express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ aparece na acep√ß√£o cl√°ssica de ‚Äúfontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ, no duplo sentido de ‚Äújazidas de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ e de ‚Äúinst√Ęncias autoritativas de argumenta√ß√£o teol√≥gica‚ÄĚ (KASPER, 2012, p. 88). Essa concep√ß√£o √© fruto da genialidade de Cano no seu esfor√ßo de articular a sabedoria dos antigos e a concep√ß√£o de teologia de Tom√°s com a forma ordenada e clara de exposi√ß√£o dos humanistas. A novidade aqui consiste na retomada das v√°rias fontes de argumentos teol√≥gicos e mesmo em sua amplia√ß√£o, bem como na nova compreens√£o dessas fontes, possibilitada pela ‚Äúvolta √†s fontes‚ÄĚ dos movimentos de renova√ß√£o eclesial e pelo estado atual dos estudos dessas fontes. Ela se reflete tanto na orienta√ß√£o conciliar para a forma√ß√£o teol√≥gica (OT 16), quanto no modo de exposi√ß√£o dos v√°rios temas teol√≥gicos no per√≠odo p√≥s-conciliar: Escritura, padres, magist√©rio, teologia.

Por outro lado, a express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ aparece num sentido novo e bem diferente (n√£o contr√°rio!) do sentido cl√°ssico, referindo-se n√£o a ‚Äúfontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ, mas a ‚Äúrealidades ou acontecimentos teologais‚ÄĚ, nos quais Deus se faz presente e pode ser encontrado e mais bem conhecido. Isso pressup√Ķe e/ou implica uma nova concep√ß√£o de teologia e do teologizar, nem sempre tematizada e assimilada, nem muito menos elaborada de modo adequado e suficiente. A complexidade e relev√Ęncia epistemol√≥gicas dessa quest√£o se mostram particularmente nos debates acerca do estatuto teol√≥gico-epistemol√≥gico dos ‚Äúsinais dos tempos‚ÄĚ e sobretudo dos pobres e marginalizados como lugar teol√≥gico (BOFF, 1979; H√úNERMANN, 2014; AZCUY-GARCIA-SCHICKENDANTZ, 2017; SCHICKENDANTZ, 2018, p. 133-158). N√£o √© poss√≠vel entrar aqui nesse debate, mas apenas situ√°-lo no √Ęmbito da epistemologia teol√≥gica, seja no sentido mais fundamental da concep√ß√£o de teologia, seja no sentido mais operacional do fazer teol√≥gico.

Importa, aqui, em todo caso, insistir no car√°ter estritamente epistemol√≥gico da problem√°tica dos lugares teol√≥gicos. E importa tamb√©m chamar a aten√ß√£o para os sentidos e usos da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ (fontes de argumentos teol√≥gicos e realidades teologais) e para a diferen√ßa e tens√£o epistemol√≥gicas implicadas nesses diferentes sentidos e usos da express√£o (compreens√£o de teologia e do fazer teol√≥gico).

2.2 Renovação da teologia

A discuss√£o sobre os lugares teol√≥gicos desempenhou um papel fundamental nos processos de renova√ß√£o da teologia. Foi assim no s√©culo XVI com Melchor Cano. Foi assim no s√©culo XX com a teologia conciliar e latino-americana. Dois momentos particularmente criativos e fecundos de renova√ß√£o da teologia cat√≥lico-romana. Embora j√° se tenha insistido nesse texto na import√Ęncia dessa problem√°tica nos processos de renova√ß√£o da teologia, ao apresentar os diferentes sentidos da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ ao longo da hist√≥ria, conv√©m voltar a essa quest√£o, explicitando em que sentindo ou de que modo a discuss√£o sobre os lugares teol√≥gicos n√£o √© apenas um t√≥pico de epistemologia teol√≥gica, mas um fator de renova√ß√£o teol√≥gica.

N√£o se pode esquecer que a obra de Cano se insere no contexto mais amplo de busca de renova√ß√£o da teologia no s√©culo XVI e, mais concretamente, no esfor√ßo de reforma teol√≥gica preconizada e desenvolvida pela Escola da Salamanca, da qual Cano √© herdeiro e express√£o por excel√™ncia: ‚Äúum exerc√≠cio vigoroso da teologia positiva e especulativa ao mesmo tempo, com grande profiss√£o no manejo da primeira, mas sem omitir o nervo especulativo‚ÄĚ e um ‚Äúcuidado extraordin√°rio pela forma liter√°ria latina, pr√≥prio da cultura humanista da √©poca‚ÄĚ (BELDA PLANS, 2006, p. XXXIII). A obra de Cano representa o auge desse processo de reforma teol√≥gica e ter√° uma influ√™ncia decisiva na renova√ß√£o da teologia escol√°stica no contexto do humanismo renascentista. Al√©m do mais, no contexto da reforma e da contrarreforma, sua obra ser√° muito importante para explicitar e fundamentar a teologia cat√≥lico-romana. Enquanto Melanchthon, de acordo com o princ√≠pio da sola scriptura, sistematiza e prop√Ķe uma dogm√°tica crist√£ a partir dos temas ou pontos principais da Escritura (lugares comuns); Cano sistematiza e fundamenta o m√©todo da teologia a partir dos v√°rios lugares onde se podem encontrar os argumentos teol√≥gicos (lugares teol√≥gicos). Tudo isso mostra a import√Ęncia fundamental da problem√°tica dos ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ na renova√ß√£o da teologia no s√©culo XVI.

Tampouco se pode desconsiderar a import√Ęncia fundamental da problem√°tica dos lugares teol√≥gicos na renova√ß√£o conciliar e latino-americana da teologia no s√©culo XX. Seja no sentido da retomada, amplia√ß√£o e atualiza√ß√£o (compreens√£o e uso) das v√°rias ‚Äúfontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ, frente ao reducionismo magisterial do que se convencionou chamar ‚Äúteologia do Denzinger‚ÄĚ ou ‚Äúteologia de enc√≠clica‚ÄĚ; seja, sobretudo, no sentido novo e revolucion√°rio de ‚Äúrealidades ou acontecimentos teologais‚ÄĚ, com os desconcertos e as transforma√ß√Ķes epistemol√≥gicas que isso implica. Mais que mera retomada e atualiza√ß√£o da teologia de Cano, isso significou uma crise e uma transforma√ß√£o da pr√≥pria concep√ß√£o de teologia, por mais que o estatuto te√≥rico dessa nova concep√ß√£o de teologia continue uma quest√£o aberta e disputada. De uma forma ou de outra, a problem√°tica dos lugares teol√≥gicos reaparece inserida num processo mais amplo de renova√ß√£o teol√≥gica, ao mesmo tempo √© fator decisivo em seu desenvolvimento. A teologia (p√≥s)conciliar como um todo e a teologia latino-americana em particular s√£o testemunhas da import√Ęncia fundamental da retomada das v√°rias fontes de argumentos teol√≥gicos e do enfrentamento das realidades teologais para a renova√ß√£o da teologia cat√≥lica no s√©culo XX. Provavelmente, o processo de renova√ß√£o teol√≥gica mais fecundo e intenso da teologia cat√≥lica depois do s√©culo de ouro da teologia espanhola.

Transforma√ß√Ķes profundas nas ci√™ncias em geral e na teologia em particular n√£o √© algo muito comum e frequente. Em geral, a teologia vai retomando e reelaborando temas/problemas antigos e abordando quest√Ķes novas, mas dendro de uma compreens√£o consolidada e amplamente compartilhada de teologia e do fazer teol√≥gico, sem maiores novidades. Raramente acontecem crises e, sobretudo, mudan√ßas mais profundas que tocam no pr√≥prio estatuto te√≥rico da teologia e do fazer teol√≥gico, como as que se deram nos primeiros s√©culos com os Padres da Igreja, no s√©culo XIII com Tom√°s de Aquino, no s√©culo XVI com Melchor Cano e no s√©culo XX, com a renova√ß√£o conciliar e a teologia latino-americana da liberta√ß√£o. S√£o, com seus limites e suas ambiguidades, os per√≠odos mais fecundos e criativos da teologia. No caso concreto da renova√ß√£o teol√≥gica nos s√©culos XVI e XX, como foi indicado, a problem√°tica dos ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ ocupa um lugar e desempenha um papel fundamentais. E isso n√£o obstante sua ambiguidade sem√Ęntico-epistemol√≥gica e o car√°ter inconcluso e aberto desse debate.

3 Status quaestionis

Antes de tudo, √© preciso reconhecer e destacar a import√Ęncia fundamental da discuss√£o sobre os ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ: seja no que se refere √† problem√°tica mais ampla da epistemologia teol√≥gica (no√ß√£o de teologia e do fazer teol√≥gico); seja no que se refere aos processos de renova√ß√£o da teologia no s√©culo XVI, com Melchor Cano (di√°logo com o humanismo renascentista e alternativa ao reducionismo da sola scriptura), e no s√©culo XX ,com a teologia conciliar e latino-americana (supera√ß√£o do reducionismo magisterial das ‚Äúfontes de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ, reconhecimento e valoriza√ß√£o teol√≥gica de ‚Äúrealidades ou acontecimentos teologais‚ÄĚ, densidade teologal e teol√≥gica dos pobres e marginalizados). Esse estudo sobre os v√°rios sentidos e usos da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ e sua relev√Ęncia teol√≥gica n√£o deixa d√ļvidas sobre a import√Ęncia dessa problem√°tica para a teologia e o fazer teol√≥gico.

Mas √© preciso reconhecer tamb√©m uma ambiguidade e tens√£o sem√Ęntico-epistemol√≥gicas na compreens√£o e no uso da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ: sem√Ęntica, na medida em que a express√£o √© tomada tanto no sentido de ‚Äúfontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ, quanto no sentido de ‚Äúrealidades ou acontecimentos teologais‚ÄĚ; epistemol√≥gica, na medida em que esses diferentes sentidos e usos da express√£o pressup√Ķem e/ou implicam uma determinada compreens√£o de teologia (aristot√©lico-tom√°sica, hermen√™utica, momento da pr√°xis).

Muitos autores, infelizmente, parecem n√£o atentar para essa problem√°tica. Falam da liturgia, da Igreja, dos sinais dos tempos e dos pobres como novos lugares teol√≥gicos, no sentido de mera amplia√ß√£o do n√ļmero dos lugares teol√≥gicos indicados por Cano. N√£o se d√£o conta de aqui j√° n√£o se trata de fontes ou domic√≠lios de ‚Äúargumentos teol√≥gicos‚ÄĚ, mas de ‚Äúrealidades teologais‚ÄĚ, nas quais Deus se faz presente e pode ser encontrado e mais bem conhecido. Tampouco percebem que esses diferentes sentidos e usos da express√£o est√£o ligados (pressup√Ķem e/ou implicam) a diferentes concep√ß√Ķes de saber: a concep√ß√£o aristot√©lico-tom√°sica de ci√™ncia que condiciona e determina a reflex√£o de Cano sobre os lugares teol√≥gicos √© muito diferente das concep√ß√Ķes de saber e de ci√™ncia implicadas na compreens√£o de realidades teologais como lugar teol√≥gico.

Mesmo quando se intui ou se percebe certa ambiguidade e tens√£o te√≥ricas na compress√£o e no uso da express√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ, n√£o se consegue avan√ßar muito numa elabora√ß√£o te√≥rica que tome em s√©rio as diferen√ßas, tens√Ķes e rupturas implicadas nessa problem√°tica. Um exemplo bastante emblem√°tico aqui pode ser a reflex√£o do grande te√≥logo alem√£o Peter H√ľnermann. Ele n√£o s√≥ reconhece que o Conc√≠lio Vaticano II representa uma ‚Äúvirada na teologia do s√©culo XX‚ÄĚ e que essa virada tem a ver com a ‚Äúirrup√ß√£o do pensamento hist√≥rico‚ÄĚ (H√úNERMANN, 2014, p. 41-70), mas se esfor√ßa por explicitar e fundamentar o estatuto te√≥rico-teol√≥gico das realidades ou dos acontecimentos hist√≥ricos. O problema √© que, ao fazer isso, apela para a doutrina dos ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ de Cano, como se bastasse um ‚Äúnovo acesso‚ÄĚ aos lugares j√° indicados e uma atualiza√ß√£o da lista dos ‚Äúlugares pr√≥prios‚ÄĚ e dos ‚Äúlugares alheios‚ÄĚ (H√úNERMANN, 2014, 260-291). A reflex√£o de Carlos Schickendantz parece ir na mesma dire√ß√£o, ao tomar, com H√ľnermann como refer√™ncia, a obra de Cano e (propor) tratar os sinais dos tempos e os pobres como ‚Äúlugares pr√≥prios‚ÄĚ da teologia (SCHICKENDANTZ, 2017, p. 33-69; 2018, p. 153-154).

N√£o obstante o m√©rito indiscut√≠vel de buscar explicitar e fundamentar a densidade teol√≥gica dessas realidades, esses intentos terminam fracassando ao n√£o tomar em s√©rio a diferen√ßa te√≥rico-epistemol√≥gica entre ‚Äúfontes ou domic√≠lios de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ e ‚Äúrealidades ou acontecimentos teologais‚ÄĚ. Ao formular a problem√°tica, na linha de Melchor Cano, em termos de determina√ß√£o da ‚Äúautoridade‚ÄĚ das ‚Äúinst√Ęncias de testemunho da f√©‚ÄĚ (H√úNERMANN, 2014, p. 272) ou de ‚Äúreflex√Ķes acerca da ‚Äėfor√ßa argumentativa‚Äô da hist√≥rica humana na teologia‚ÄĚ (SCHICKENDANTZ, 2014, p. 157, 159), os dois te√≥logos parecem n√£o perceber ou, em todo caso, n√£o tomar em s√©rio, como bem indica Max Seckler, que atualidade, liturgia, Igreja, sinais dos tempos n√£o s√£o ‚Äúlugar teol√≥gico‚ÄĚ no sentido de Cano (SECKLER, 1987, p. 44, nota 11) e, portanto, n√£o podem ser enquadrados em seu sistema de pensamento como se fossem mera amplia√ß√£o ou atualiza√ß√£o da lista de ‚Äúfontes ou domic√≠lio de argumentos teol√≥gicos‚ÄĚ estabelecida por ele no s√©culo XVI.

Tudo isso nos leva a concluir que, n√£o obstante a import√Ęncia e relev√Ęncia fundamentais da problem√°tica dos ‚Äúlugares teol√≥gicos‚ÄĚ para a teologia e o fazer teol√≥gico, estamos diante uma quest√£o ‚Äúinconclusa‚ÄĚ (SCHICKENDANTZ, 2014, p. 159, 161) e aberta que exige maiores desenvolvimentos ou memo novas abordagens em vista de uma elabora√ß√£o mais precisa, mais profunda e mais ampla.

Francisco de Aquino J√ļnior (Faculdade Cat√≥lica de Fortaleza e Universidade Cat√≥lica de Pernambuco). Texto enviado em 30/05/2023; aprovado: 30/10/2023; postado: 31/12/2023. Original portugu√™s

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