As cinco conferências gerais do episcopado latino-americano

As cinco Conferências gerais do Episcopado Latino-americano

Sum√°rio

Introdução

1 Conferência do Rio

2 Conferência de Medellín

3 Conferência de Puebla

4 Conferência de Santo Domingo

5 Conferência de Aparecida

Conclus√£o

Referências

Introdução

A Igreja cat√≥lica da Am√©rica Latina conheceu uma importante evolu√ß√£o desde a funda√ß√£o do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), deixando de ser, progressivamente, ‚ÄúIgreja espelho‚ÄĚ para tornar-se ‚ÄúIgreja fonte‚ÄĚ, como dizia Henrique Cl√°udio de Lima Vaz referindo-se ao Brasil, o que tamb√©m pode ser aplicado a todo o continente (VAZ, 1968, p. 17-22). Nesse processo, as confer√™ncias do episcopado da regi√£o foram fundamentais. No come√ßo, na confer√™ncia do Rio de Janeiro, em 1965, o foco de aten√ß√£o estava mais voltado para o centro romano. Por√©m, a partir de Medell√≠n, em 1968, houve uma verdadeira virada, que afetou n√£o apenas o catolicismo latino-americano e caribenho, mas tamb√©m, principalmente com o pontificado de Francisco, o conjunto da Igreja cat√≥lica. O presente texto prop√Ķe uma s√≠ntese dos eixos principais de cada uma das cinco confer√™ncias[1].

1 Conferência do Rio

A primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-americano foi convocada por Pio XII e aconteceu no Rio de Janeiro, em 1955. Ele próprio assim o expressa:

Pareceu-nos oportuno, recolhendo ademais o voto que Nos apresentou o Episcopado da América Latina, que a Hierarquia Latino-americana se reunisse para realizar o estudo aprofundado dos problemas e dos meios mais aptos para resolvê-los, com essa prontidão e plenitude que as necessidades exigem (PIO XII, 1955).

O mais not√°vel dessa Confer√™ncia foi, sem d√ļvida, o acordo de cria√ß√£o do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM): ‚ÄúA Confer√™ncia Geral do Episcopado Latino-americano aprovou, por unanimidade, pedir, e atentamente pede √† Santa S√© Apost√≥lica, a cria√ß√£o de um Conselho Episcopal Latino-americano‚ÄĚ (DR 97). A miss√£o que lhe √© atribu√≠da √© preparar as Confer√™ncias Gerais do Episcopado, al√©m do exerc√≠cio da pastoral org√Ęnica atrav√©s de cinco subsecretariados (DR 97)[2].

Porém, também deve-se destacar que os bispos, instruídos pelos mais carismáticos, realmente se encontraram como bispos da Pátria Grande e debateram os temas.

A maior limita√ß√£o, contudo, foi que tanto o presidente da Confer√™ncia como seu ajudante foram italianos eleitos pelo papa, que tamb√©m foi quem deu o tom, o enfoque e a tem√°tica. A carta que lhes enviou antes das sess√Ķes foi quase literalmente a guia para a Declara√ß√£o inicial e para as Conclus√Ķes. Assim o reconhecem os pr√≥prios bispos: ‚Äúas important√≠ssimas Letras Apost√≥licas ‚ÄėAd Ecclesiam Christi‚Äô [que] constitu√≠ram para n√≥s a ‚ÄėMagna Carta‚Äô nos trabalhos e nas conclus√Ķes da Confer√™ncia‚ÄĚ (DR, Declara√ß√£o). No entanto, isso n√£o deve ser visto como uma inger√™ncia, porque os bispos estavam de acordo em que eles eram, digamos, os bra√ßos do papa.

As necessidades, segundo o papa e os bispos, eram, primeiramente, as da institui√ß√£o eclesi√°stica. Assim o testemunham na Declara√ß√£o e o repetiram no documento conclusivo: ‚Äúa Confer√™ncia teve como objetivo central de seus trabalhos o problema fundamental que aflige nossas na√ß√Ķes, a saber: a escassez de sacerdotes‚ÄĚ. Qualificam-no como ‚Äúa necessidade mais urgente da Am√©rica Latina‚ÄĚ. Por isso, a insist√™ncia na promo√ß√£o de voca√ß√Ķes e na sua prepara√ß√£o nos semin√°rios, assim como, de modo mais geral, na instru√ß√£o religiosa. O valor da doutrina crist√£ n√£o poderia ser mais enaltecido:

A Santa Igreja, por disposição de Deus, é a depositária da doutrina cristã que, fundando-se nos princípios eternos e indestrutíveis da verdade divina, dá a solução a todos aqueles problemas que tocam, direta ou indiretamente, a vida espiritual e moral do homem, para que este realize plenamente sua condição de filho de Deus e se torne digno das promessas do Céu (DR, Declaração).

Esse valor da doutrina e da institui√ß√£o eclesi√°stica, que √© sua deposit√°ria, √© t√£o grande que, ao recomendar o que chamam de ‚Äúas Sagradas Letras‚ÄĚ, insistem em que √© preciso faz√™-lo ‚Äúdestacando os textos mais importantes e fundamentais, como os relativos √† Primazia de Pedro, √† infalibilidade do Magist√©rio Eclesi√°stico, ao valor da Tradi√ß√£o etc.‚ÄĚ (DR 72). Como se percebe, a B√≠blia e principalmente os Evangelhos n√£o s√£o a narra√ß√£o de um acontecimento salv√≠fico, proclamado para que nos integremos a ele, mas um repert√≥rio de textos que ratificam a sacralidade e a autoridade da institui√ß√£o eclesi√°stica.

A partir dessa absolutização da instituição eclesiástica, o Papa e posteriormente os bispos se referem aos inimigos. Citemos o Papa:

Muitos s√£o, desgra√ßadamente, os ataques de astutos inimigos e, para rejeit√°-los, √© necess√°ria en√©rgica vigil√Ęncia: como os enganos ma√ß√īnicos, a propaganda protestante, as diversas formas do laicismo, de supersti√ß√£o e de espiritismo, que quanto mais grave √© a ignor√Ęncia das coisas divinas e mais adormecida a vida crist√£ tanto mais facilmente se difundem, ocupando o lugar da verdadeira F√© e satisfazendo enganosamente as √Ęnsias do povo sedento de Deus. A elas se acrescentam as perversas doutrinas dos que, sob o falso pretexto de justi√ßa social e de melhorar as condi√ß√Ķes de vida das classes mais humildes, tendem a arrancar da alma o inestim√°vel tesouro da religi√£o (PIO XII, 1955).

Por isso, para vencê-los, insistem tanto na difusão da doutrina e da moral católicas.

Tendo em conta a escassez de sacerdotes, animam os leigos que ‚Äúmilitam em uma ou outra organiza√ß√£o de apostolado, com plena submiss√£o √†s diretrizes e disposi√ß√Ķes dos Romanos Pont√≠fices e da Sagrada Hierarquia‚ÄĚ (PIO XII, 1955). Reconhecem que

o apostolado, mesmo sendo missão própria do sacerdote, não é exclusiva dele, mas também compete a eles, por seu próprio caráter de cristãos, sempre sob a obediência dos Bispos e dos Párocos e dentro das formas e ofícios que não são privativos do ministério sacerdotal (DR 43).

Seu conte√ļdo √© absolutamente eclesioc√™ntrico:

além de um esforço contínuo por conservar e defender inteiramente a fé católica, deve ser um apostolado missionário de conquista para a dilatação do reino de Cristo em todos os setores e ambientes, particularmente onde não possa chegar a ação direta do sacerdote (DR 46).

No entanto, queremos destacar que, apesar de tanta intervenção, reconhecem o que posteriormente será enfatizado no Vaticano II: a missão lhes compete a eles como cristãos, ou seja, pelo batismo.

A problem√°tica social √© sublinhada pelo papa por sua √≠ntima rela√ß√£o com a vida religiosa: ‚Äúo campo social: tema que √© merecedor da maior considera√ß√£o em todos os povos, mas nas Na√ß√Ķes Latino-americanas h√° motivos particulares para reclamar a solicitude pastoral da Sagrada Hierarquia, j√° que se trata de quest√£o intimamente ligada com a vida religiosa‚ÄĚ (PIO XII, 1955). Os bispos, na mesma sintonia, insistiram que o disc√≠pulo de Cristo deve ver tal problem√°tica como um dever moral. A situa√ß√£o √© vista fundamentalmente a partir da perspectiva do subdesenvolvimento: ‚Äúmuitos de seus habitantes ‚Äď especialmente entre os trabalhadores do campo e da cidade ‚Äď ainda vivem numa situa√ß√£o angustiante‚ÄĚ (DR, Declara√ß√£o). Por isso, a eleva√ß√£o das classes necessitadas acontecer√° com o progresso e colaborar para que ele aconte√ßa √© um dever moral para o crist√£o:

O pensamento cristão, de acordo com os ensinamentos pontifícios, contempla como elemento importantíssimo a elevação das classes necessitadas, cuja realização enérgica e generosa surge para todo discípulo de Cristo não somente como um progresso temporal, mas como o cumprimento de um dever moral (DR, Declaração).

Essa eleva√ß√£o, tratando-se do ind√≠gena, √© entendida como passar da barb√°rie √† civiliza√ß√£o: ‚Äúum trabalho perseverante para que o ‚Äė√≠ndio‚Äô se incorpore com honra no seio da verdadeira civiliza√ß√£o‚ÄĚ (DR, Declara√ß√£o). Como se percebe, identificam a cultura ocidental com a cultura e, consequentemente, as culturas ind√≠genas como barb√°rie.

Concretizando um poco mais, referem-se √† justi√ßa social, que implica chegar √† harmonia entre o capital e o trabalho: ‚Äúsolucionar esses problemas, procurando, principalmente, estabelecer a harmonia crist√£ entre o capital e o trabalho‚ÄĚ (DR 80). A a√ß√£o da Igreja deveria orientar-se fundamentalmente para impregnar o mundo econ√īmico com sua doutrina e com o esp√≠rito de harmonia que a anima: ‚Äúa presen√ßa ativa da Igreja √© requerida, a fim de influir no mundo econ√īmico-social, orientando-o com a luz de sua doutrina e animando-o com seu esp√≠rito‚ÄĚ (DR, Declara√ß√£o).

Seguindo o Papa, referem-se especificamente √† ‚Äúassist√™ncia espiritual aos emigrantes‚ÄĚ (PIO XII, 1955).

N√£o h√° alus√£o √†s causas dessa situa√ß√£o de falta do essencial para as maiorias, nem ‚Äď est√° claro ‚Äď nenhuma den√ļncia. Pareceria que a difus√£o da doutrina crist√£ e o cumprimento do dever moral seriam suficientes para conseguir um desenvolvimento que basicamente solucionaria o problema. Por isso, Fernando Torres Londo√Īo, depois de uma an√°lise precisa, na qual reconhece tudo que h√° de positivo, conclui que essa primeira Confer√™ncia,

por seu esp√≠rito, pela tem√°tica que tratou e pelas conclus√Ķes √†s quais chegou, situa-se na mesma trajet√≥ria do Concilio Plen√°rio Latino-americano de 1899. A Primeira Confer√™ncia mostra uma Igreja que ainda se pensa e se concebe em fun√ß√£o dela mesma e de suas estruturas clericais (LONDO√ĎO, 1995).

2 Conferência de Medellín

Para entender Medell√≠n, √© necess√°rio compreender seu modo de produ√ß√£o. √Ä primeira vista, pareceria que se recolher num semin√°rio, no centro de um bosque, n√£o ajudaria a assumir a realidade, mas o isolamento provocou que o grupo como tal surgisse: os bispos, os peritos e os observadores se compenetraram nas eucaristias e nas confer√™ncias iniciais, nos grupos de trabalho e na partilha das comidas e do descanso, de maneira que todos se deixaram conquistar pelo tema e o enfocaram a partir de um mesmo esp√≠rito. Assim, as diferen√ßas, na maior parte dos casos, chegaram a ser internas e todos se abriram para contribuir com o melhor de cada um para a elabora√ß√£o conjunta. ‚ÄúAo longo de duas semanas, uns 250 participantes da assembleia, cardeais, bispos, observadores, religiosos e leigos homens e mulheres, partilharam tudo: o trabalho, a mesa e a liturgia‚ÄĚ (SCATENA, 2019, p. 14). Por isso, com exce√ß√£o de dois cap√≠tulos (o da pastoral popular e o das elites), o restante possui uma unidade org√Ęnica muito dif√≠cil de se alcan√ßar em documentos elaborados em grupo. Por essa raz√£o, ‚Äúnessa experi√™ncia, se imp√īs a mem√≥ria de muitos dos protagonistas, a ideia de uma efus√£o palp√°vel do Esp√≠rito de Pentecostes, como depois disse o argentino Pironio‚ÄĚ (SCATENA, 2019, p. 12). Ou como ponderou o cardeal Land√°zuri em seu discurso de encerramento:

O novo Pentecostes do qual várias vezes falamos a respeito dessa reunião é a grande ideia, o grande acontecimento. A consciência profética, que nesses dias se despertou e se vivificou, é a nova luz para a igreja, o novo Pentecostes para a Pátria Grande. Um novo Pentecostes que aconteceu no mesmo momento em que a igreja latino-americana decidiu encarar a nova realidade latino-americana em vez de olhar para si mesma (SCATENA, 2019, p. 27-28).

De fato, o t√≠tulo da Confer√™ncia foi: ‚ÄúA Igreja na atual transforma√ß√£o da Am√©rica Latina √† luz do concilio‚ÄĚ, ou seja, o tema n√£o foi ela mesma, mas a Am√©rica Latina. A Igreja foi o sujeito que discernia ‚Äď sendo parte certamente do tema ‚Äď e os bispos foram capazes de interpretar profeticamente a transforma√ß√£o que estava acontecendo, tanto no social, no econ√īmico e no pol√≠tico, como no antropol√≥gico, tanto nas elites desenvolvimentistas, como nos professionais solid√°rios e no povo. Como contemplavam a transforma√ß√£o em curso a partir de Jesus de Nazar√©, olhavam-na n√£o de cima, mas a partir do povo, de sua inser√ß√£o solid√°ria nele e, por isso, a partir da escolha de um modo de vida atento ao indispens√°vel. Essa perspectiva foi t√£o decisiva que a op√ß√£o pelos pobres se tornou um eixo transversal e a perspectiva para ver e julgar a realidade e a a√ß√£o da Igreja, refletindo-se principalmente na considera√ß√£o dos pobres como sujeitos na sociedade (DM 2,27) e na Igreja, e tamb√©m no compromisso dos bispos de estarem pr√≥ximos dos pobres e, at√© certo ponto, serem pobres (DM 14: A pobreza da Igreja).

A metodologia de Medell√≠n √© ver, julgar e agir, mas tendo presente a intera√ß√£o das tr√™s fases. As pessoas que redigiram os documentos j√° estavam numa a√ß√£o pastoral. A ela chegaram por uma vis√£o e tomada de posi√ß√£o crist√£s e √© a partir da√≠ que contemplam a situa√ß√£o. Esse √© o ponto de partida dos inspiradores documentos de Medell√≠n. Eles os relan√ßam sobre a Igreja e a opini√£o p√ļblica de uma maneira mais objetiva: come√ßando com a vis√£o da realidade, iluminando-a com a revela√ß√£o crist√£ e propondo os compromissos que derivam da consci√™ncia do que Deus nos exige para responder a essa situa√ß√£o. √Č claro que os que n√£o partilham a op√ß√£o, tamb√©m n√£o partilhar√£o sua vis√£o de continente, ainda que n√£o rejeitem os dados.

Os documentos veem a situa√ß√£o da Am√©rica Latina atrav√©s de indicadores que a descrevem e de vetores que indicam suas linhas de for√ßa. Os indicadores comp√Ķem uma situa√ß√£o de subdesenvolvimento. J√° os vetores das for√ßas sociais mais organizadas v√£o em duas dire√ß√Ķes: uma moderniza√ß√£o desenvolvimentista e uma revolu√ß√£o estrutural. Entretanto, sem coincidir com nenhuma delas, est√° a conscientiza√ß√£o e a mobiliza√ß√£o das massas populares por melhores condi√ß√Ķes de vida, pela supera√ß√£o de opress√Ķes injustas e por uma maior personaliza√ß√£o e socializa√ß√£o.

Os documentos incluem quatro diagn√≥sticos gerais do estado da Am√©rica Latina e de sua din√Ęmica, que caracterizam certeiramente os aspectos mais decisivos do quadro latino-americano. Tamb√©m cont√™m uma tipologia dos atores sociais organizados (DM 7,5-8). Al√©m disso, descrevem a situa√ß√£o da fam√≠lia (DM 3,1-3), da educa√ß√£o (DM 4,2-6), da juventude (DM 5,1-3,9) e do impacto dos meios de comunica√ß√£o (DM 16,1-2.6). Mas, principalmente no documento sobre a Paz, desenvolvem uma vis√£o estrutural do subcontinente. Concentram-se, em primeiro lugar, nas tens√Ķes entre as classes: marginalidade e frustra√ß√Ķes crescentes, desigualdades excessivas, opress√£o e repress√£o. Caracterizam o dom√≠nio das classes altas sobre as demais como colonialismo interno, e preveem que ser√° dif√≠cil manter a paz pela insensibilidade dos ‚Äúde cima‚ÄĚ, a crescente conscientiza√ß√£o dos ‚Äúde baixo‚ÄĚ e o interesse dos revolucion√°rios em exacerbar as contradi√ß√Ķes.

Posteriormente, caracterizam como neocolonialismo a situa√ß√£o de depend√™ncia em rela√ß√£o √†s corpora√ß√Ķes transnacionais e ao capital financeiro mundializado, denominando-a imperialismo internacional do dinheiro. A distor√ß√£o do com√©rcio internacional, a fuga de dividendos e capitais econ√īmicos e humanos, a evas√£o de impostos, o endividamento progressivo e o intervencionismo pol√≠tico e at√© militar seriam os √≠ndices mais decisivos. Por √ļltimo, referem-se √†s tens√Ķes entre os pa√≠ses latino-americanos e √† corrida armamentista.

Os bispos distanciam-se dos que promovem revolu√ß√Ķes armadas como via para superar essa situa√ß√£o. Mesmo reconhecendo a nobreza de suas motiva√ß√Ķes, insistem que as consequ√™ncias ser√£o um agravamento da situa√ß√£o (DM 2,15.19). Acusam os que se op√Ķem √†s necess√°rias reformas de serem os causantes das revolu√ß√Ķes do desespero que podem sobrevir (DM 2,17). Prop√Ķem o desenvolvimento integral. Colocam o amor como a grande for√ßa libertadora da injusti√ßa e da opress√£o e inspiradora da justi√ßa social, entendida como concep√ß√£o de vida e como impulso para o desenvolvimento integral (DM 1,5). Entendem o desenvolvimento integral como a passagem de condi√ß√Ķes de vida menos humanas a condi√ß√Ķes mais humanas:

A passagem da mis√©ria para a posse do necess√°rio, a vit√≥ria sobre as calamidades sociais, a amplia√ß√£o dos conhecimentos, a aquisi√ß√£o da cultura […], o aumento na considera√ß√£o da dignidade dos demais, a orienta√ß√£o para o esp√≠rito de pobreza, a coopera√ß√£o no bem comum, a vontade de paz, […] a f√© […] e a unidade na caridade de Cristo, que nos chama a todos a participar como filhos na vida de Deus vivo, Pai de todos os homens (DM Introdu√ß√£o,6; cf. DM 2,14a).

Esse processo requer mudan√ßas tanto estruturais como pessoais. A situa√ß√£o ‚Äúexige transforma√ß√Ķes globais, audazes, urgentes e profundamente renovadoras‚ÄĚ (DM 2,16). Isso implica vencer o temor aos ‚Äúsacrif√≠cios e riscos pessoais que implica toda a√ß√£o audaciosa e realmente eficaz‚ÄĚ (DM 2,17). O risco aumenta pela oposi√ß√£o dos que det√™m esse poder injusto e opressor. Por isso, falam da ‚Äúenergia forte e pac√≠fica das obras construtivas‚ÄĚ (DM 2,19). S√£o as que se mencionam nos documentos sobre a fam√≠lia, a educa√ß√£o, a juventude e os leigos. Tamb√©m s√£o aquelas propostas nos documentos sobre Justi√ßa e sobre Paz, de car√°ter mais global, ou seja, cidad√£o e pol√≠tico, com sua inevit√°vel dimens√£o econ√īmica.

Como a América Latina se considerava um continente católico, como os governantes se entendiam como tais, e igualmente o faziam as forças vitais do continente, dizendo-se ambos representantes de povos católicos, esse diagnóstico lhes resultou intolerável. Empreenderam, então, uma campanha virulenta de perseguição ideológica contra bispos e teólogos identificados com essa linha, acusando-os de comunistas.

A raz√£o de ser e a inspira√ß√£o de base desse documento, e tamb√©m sua justifica√ß√£o crist√£, √© que Jesus se encarnou na humanidade. Por ele, que se fez n√£o somente um de n√≥s, mas especificamente nosso Irm√£o, Deus se ‚Äúlan√ßou √† sorte‚ÄĚ com a humanidade. Por sua vez, a humanidade n√£o pode se entender adequadamente sem a refer√™ncia a ele, n√£o unicamente como Criador, mas tamb√©m como Pai, atrav√©s de seu Filho √ļnico, que se fez para sempre nosso Irm√£o e precisamente como pobre e, portanto, a partir dos pobres. Por isso, ‚Äútodo ‚Äėcrescimento em humanidade‚Äô capacita-nos a ‚Äėreproduzir a imagem do Filho, para que ele seja o primog√™nito entre muitos irm√£os‚Äô‚ÄĚ (DM 4,9)

Essa unidade entre cristianismo e humanidade é o que o documento sobre a Catequese insiste que deva ser ressaltado:

Sem cair em confus√Ķes ou em identifica√ß√Ķes simplistas, deve-se expressar sempre a unidade profunda que existe entre o plano divino de salva√ß√£o, realizado em Cristo, e as aspira√ß√Ķes do homem; entre a hist√≥ria da salva√ß√£o e a hist√≥ria humana; entre a Igreja, povo de Deus, e as comunidades temporais; entre a a√ß√£o reveladora de Deus e a experi√™ncia do homem; entre os dons e carismas sobrenaturais e os valores humanos. (DM 8,4).

Por isso, ao contemplar essa situa√ß√£o a partir de dentro, os bispos a qualificam como ‚Äúviol√™ncia institucionalizada‚ÄĚ (DM 2,16) que constitui uma situa√ß√£o de pecado (DM 2,1). Com efeito,

A paz com Deus √© o fundamento √ļltimo da paz interior e da paz social. Por isso mesmo, onde a paz social n√£o existe, onde h√° injusti√ßas, desigualdades sociais, pol√≠ticas, econ√īmicas e culturais, rejeita-se o dom da paz do Senhor; mais ainda, rejeita-se o pr√≥prio Senhor (DM 2,14 c).

Como se percebe, não se trata de uma análise meramente social nem de um juízo meramente político, mas de uma tomada de posição fundamentalmente cristã.

Por isso, a alternativa deve ser trabalhar para que o ser humano assuma sua dignidade e responsabilidade e, assim, se empenhe em transformar as estruturas que impedem a vida e a humanidade de se desenvolverem:

A originalidade da mensagem crist√£ n√£o consiste tanto na afirma√ß√£o da necessidade de uma mudan√ßa de estruturas, quanto na insist√™ncia que devemos p√īr na convers√£o do homem. N√£o teremos um continente novo, sem novas e renovadas estruturas, mas sobretudo n√£o haver√° continente novo sem homens novos, que √† luz do Evangelho saibam ser verdadeiramente livres e respons√°veis (DM 1,3).

O que mais caracteriza o Documento √© seu car√°ter respons√°vel (TRIGO, 2018, p. 33-57): atribuem √† Igreja, da qual s√£o respons√°veis, o equivalente ao que apontam para a sociedade e, em ambos os campos, est√£o dispostos a coloc√°-lo em pr√°tica, tanto como dirigentes quanto como cidad√£os e membros do povo de Deus (DM Introdu√ß√£o 3). Antes de mais nada, exortam os privilegiados (DM 2,17), os passivos (DM 2,18) e os violentos (DM 2,19), assim como os crist√£os, a assumirem sua responsabilidade e promoverem a paz trabalhando pela justi√ßa (DM 2,14.16.22). Nessa dire√ß√£o, devem encaminhar-se as diversas express√Ķes da pastoral (DM 2,24), nossas escolas, semin√°rios e universidades (DM 2,25), a espiritualidade dos leigos (DM 10,17) e a tarefa do bispo (DM 15,17).

A alternativa tem que começar por uma mudança pessoal (DM 1,3), que é, simultaneamente, personalização e coesão fraterna (DM Introdução 4) e conscientização da realidade (DM 2,7). A isso são exortados os educadores (DM 4,8; 5,14), o que, cristãmente falando, é uma conversão (DM Mensagem; DM 14,17; 6,8.15). Por isso, os bispos dizem que lhes corresponde educar as consciências em todos esses aspectos (DM 2,20-21) e também fomentar os hábitos comunitários em vistas à colaboração (DM 1,17). Essa consciência crítica da realidade é fundamental para os cristãos (DM 1,6) e, por isso, parte ineludível da catequese (DM 1,17), uma vez que, para conhecer a Deus, é preciso conhecer o ser humano e em Jesus de Nazaré se manifesta o mistério humano (DM Introdução 1). Essa participação tem que chegar à política como exercício de caridade (DM 1,16).

A proposta de uma educa√ß√£o personalizante (DM 4,4.8.11) se expressa para a Igreja como necessidade de colocar em marcha uma catequese integral (DM 8,1.6). Prop√Ķem que sejam participativas tanto a sociedade (DM 7,21;5,1; 2,15;1,7;4,12; 1,12.16) como a Igreja (DM 15,3.6; 5,13,14; 11,16.19). √Ä necessidade de que a sociedade se reestruture a partir das comunidades de base (DM 2,14.27) corresponde a de que a Igreja o fa√ßa a partir das comunidades crist√£s de base (DM 15,10.13;8,10;6,14). Ocorre tamb√©m correspond√™ncia entre a proposta de planifica√ß√£o participativa para a sociedade (DM 1,15;7,21) e a da pastoral de conjunto (org√Ęnica) para a Igreja (DM 15,5.9.23; 9,13; 15,10). Essa mesma correspond√™ncia podemos observar entre as express√Ķes societ√°rias segundo as diversas culturas (DM 4,3;5,11) e a incultura√ß√£o da pastoral (DM 8,15; 6,1; 8,8; 9,7.10-11).

Uma correspondência especialmente relevante e significativa é a que acontece entre a exigência de que as elites cedam seus privilégios em favor dos de baixo (DM 14,10; 2,5.17) e a decisão da instituição eclesiástica de mudança de destinatário privilegiado, de condição social e de situação (DM 14,9.11.15.16).

Se consideramos bem o que foi a primeira confer√™ncia episcopal, ser√° f√°cil compreender o assombro diante dessas conclus√Ķes de Medell√≠n, tanto entre os meios de comunica√ß√£o e os intelectuais e, de forma mais geral, entre as elites latino-americanas, como na c√ļria vaticana e na cristandade do Ocidente e do terceiro mundo. Tal surpresa se notou principalmente na maior parte da institui√ß√£o eclesi√°stica latino-americana e dos cat√≥licos clericalizados, que, em sua maioria, n√£o tinham tomado conhecimento da novidade do Vaticano II ou n√£o se abriram a ela e, por isso, n√£o puderam aceitar o que era, na verdade, sua recep√ß√£o criativamente fiel.

O pressuposto de todos eles era que, no episcopado latino-americano, n√£o havia sujeito com s√£ autonomia, com qualidade crist√£ e perspic√°cia hist√≥rica. Por isso, n√£o se via de onde havia sa√≠do o documento de Medell√≠n. Parecia-lhes imposs√≠vel que refletisse o pensar e o sentir, a posi√ß√£o vital e o discernimento dos bispos latino-americanos. Por essa raz√£o, √© especialmente digno de men√ß√£o que o papa Pablo VI, que tinha presidido a inaugura√ß√£o da confer√™ncia, lhe desse um voto de confian√ßa e aprovasse suas conclus√Ķes antes de l√™-las.

3 Conferência de Puebla

Essa desconfian√ßa da c√ļria romana em rela√ß√£o ao rumo que o episcopado latino-americano estava tomando se expressou institucionalmente quando interveio no CELAM, em 1972, impondo, por meio do n√ļncio, a L√≥pez Trujillo como secret√°rio (COMBLIN, 2011, p. 147). Ele preparou o documento de trabalho para Puebla e tamb√©m prop√īs coordenar a reuni√£o. Entretanto, o presidente da assembleia, Lorscheider, submeteu o assunto a vota√ß√£o e a assembleia rejeitou ambas as medidas. Ainda que o discurso inicial do Papa imp√īs, em alguma medida, os temas de Jesus Cristo, o ser humano e a Igreja, a assembleia trabalhou com liberdade e referendou Medell√≠n em v√°rios textos (DP 12, 15, 25, 96, 142, 235, 260, 462, 480, 550, 590, 648, 1134, 1165, 1247). No entanto, nem todas as orienta√ß√Ķes seguiram essa linha. Por isso, podemos considerar o documento como um compromisso entre as diversas correntes (TRIGO, 1979, p. 98-107).

A proposta da minoria consistia em contrastar o radical substrato cat√≥lico da cultura latino-americana e o secularismo da adveniente cultura universal e em optar por uma moderniza√ß√£o sem secularismo. O documento, por√©m, insiste de modo contundente no fato escandaloso de que ‚Äúem povos de f√© crist√£ enraizada se impuseram estruturas geradoras de injusti√ßa‚ÄĚ, o que √© ‚Äúsinal acusador de que a f√© n√£o teve a for√ßa necess√°ria para penetrar os crit√©rios e as decis√Ķes dos setores respons√°veis da lideran√ßa‚ÄĚ (DP 437).

Para come√ßar pelo m√©todo, Puebla assume o m√©todo ver, jugar e agir, utilizado em Medell√≠n: come√ßa com a vis√£o pastoral da realidade latino-americana, continua com os des√≠gnios de Deus sobre a realidade da Am√©rica Latina, prossegue com os centros, os agentes e os meios de evangelizar, e finaliza com as op√ß√Ķes e a√ß√Ķes preferenciais. Para p√īr em marcha as conclus√Ķes da assembleia, prop√Ķe um processo de participa√ß√£o educando ‚Äúnuma metodologia de an√°lise da realidade, para depois refletir sobre essa realidade do ponto de vista do Evangelho, optar pelos objetivos e meios mais aptos, e seu uso mais racional na a√ß√£o evangelizadora‚ÄĚ (DP 1307).

A fundamentação teológica do método é que a salvação acontece na história, mas a história não é epifania de Deus. Assim sendo,

para que tudo isso se fa√ßa de acordo com o esp√≠rito de Cristo, devemos exercitar-nos no discernimento das situa√ß√Ķes e dos chamados concretos que o Senhor faz em cada tempo. Isto exige atitude de convers√£o e de abertura e s√©rio compromisso com aquilo que foi reconhecido como autenticamente evang√©lico (DP 338).

√Č por essa raz√£o que colocam como primeira op√ß√£o pastoral a pr√≥pria convers√£o da Igreja, que concretizam muito pertinentemente (DP 973-975).

Para Puebla, a primeira causa de todos os problemas √© o sistema econ√īmico imperante, que n√£o considera o ser humano como centro da sociedade e, por isso, n√£o se interessa em alcan√ßar uma sociedade justa (DP 64, 129). Em fun√ß√£o disso, o efeito desse sistema √© a polariza√ß√£o crescente entre ricos e pobres (DP 1, 28, 30, 38, 47, 129, 138, 494, 542, 778, 1135, 1207-1209, 1264). Como em Medell√≠n, os bispos qualificam essa situa√ß√£o como ‚Äúde pecado‚ÄĚ (DP 28, 70, 73, 281, 452, 487, 509, 1032) e prop√Ķem tamb√©m a ‚Äúconvers√£o pessoal e mudan√ßas profundas de estruturas‚ÄĚ (DP 30; cf. DP 436-438 et passim).

O enfoque de Puebla estaria nas culturas e nas ideologias. Como tend√™ncia hist√≥rica dizem: ‚Äúa programa√ß√£o da vida social corresponder√° cada dia mais aos modelos buscados pela tecnocracia, sem correspond√™ncia com os anseios de uma ordem internacional mais justa‚ÄĚ (DP 129). Ela utilizar√° os mass media: eles ‚Äúir√£o programando cada vez mais a vida do homem e da sociedade‚ÄĚ (DP 128; cf. DP 1072-1073). Puebla capta o deslocamento da cultura tradicional latino-americana para o que chama de ‚Äúadveniente cultura universal‚ÄĚ, que, impulsionada pelas grandes pot√™ncias, ‚Äúpretende ser universal. Os povos, as culturas particulares, os diversos grupos humanos s√£o convidados, e mais ainda, obrigados a integrar-se nela‚ÄĚ (DP 421). ‚ÄúA Igreja n√£o aceita aquela instrumenta√ß√£o da universalidade que equivale √† unifica√ß√£o da humanidade mediante uma injusta e lesante supremacia e dom√≠nio de uns povos ou setores sociais sobre outros povos e setores‚ÄĚ (DP 427). Contudo, reconhece que essa cultura permeou tudo, de tal maneira que ‚Äúse pode falar, com raz√£o, de uma nova √©poca da hist√≥ria humana (GS 54)‚ÄĚ (DP 393).

Em rela√ß√£o √†s ideologias, os bispos se referem ao liberalismo capitalista (DP 47, 437, 452), ao coletivismo marxista (DP 48, 437, 543) e √† Seguran√ßa Nacional (DP 49, 547-549). Como vis√Ķes inadequadas do ser humano, mencionam a determinista (DP 308-309, 335), a psicologista (DP 310), a economicista (DP 311-313), a consumista (DP 311), a liberal (DP 312), a coletivista (DP 313), a estatista (DP 314), a cientista (DP 315).

Insistem nos direitos humanos e na dignidade absoluta da pessoa humana. Ressaltam o n√£o reconhecimento dessa dignidade (e, portanto, a viola√ß√£o massiva de seus direitos), a fundamenta√ß√£o desses direitos e da apresenta√ß√£o positiva a respeito do que significa tal dignidade, al√©m de explicitarem o que fazer para salvaguard√°-la e foment√°-la. Por isso, denunciam o que nega mais radicalmente a pessoa, isto √©, as idolatrias da nossa √©poca: o dinheiro e o poder, combinados, que atuam buscando expandir-se e que, por essa raz√£o, instrumentalizam todo o resto (DP 493-501). ‚Äú√Č urgente libertar a nossos povos do √≠dolo do poder absoluto para conseguir uma conviv√™ncia social em justi√ßa e liberdade‚ÄĚ (DP 502). Por essa raz√£o, o documento insiste no direito prim√°rio da humanidade aos bens da terra, direito ao qual est√£o subordinados o da propriedade privada e o do livre com√©rcio (DP 492, 542, 747, 1224, 1281).

Essa evangeliza√ß√£o tem que penetrar nas culturas. Os bispos optam por duas dire√ß√Ķes complementares: a evangeliza√ß√£o da cultura que foi forjada na Am√©rica Latina nestes cinco s√©culos, por meio da evangeliza√ß√£o da religiosidade popular, que √© seu manancial mais profundo, e dos povos, que s√£o seus portadores; e, simultaneamente, a evangeliza√ß√£o da adveniente cultura universal pela evangeliza√ß√£o dos construtores da sociedade pluralista que se est√° forjando nos nossos dias. Contudo, insistem complementarmente em que os pobres tamb√©m s√£o sujeitos evangelizadores:

O compromisso com os pobres e oprimidos e o surgimento das Comunidades de Base ajudaram a Igreja a descobrir o potencial evangelizador dos pobres, enquanto estes a interpelam constantemente, chamando-a à conversão e porque muitos deles realizam em sua vida os valores evangélicos de solidariedade, serviço, simplicidade e disponibilidade para acolher o dom de Deus (DP 1147).

Al√©m disso, a op√ß√£o pelos pobres n√£o √© apenas um dos cap√≠tulos do documento, mas um eixo transversal que o atravessa completamente (TRIGO, 1979, p. 108-111). Por isso, esse √© o aspecto de Puebla que possui maior transcend√™ncia hist√≥rica, e que, sendo assumido pela Igreja latino-americana, foi proposto repetidamente pelo Papa Jo√£o Paulo II √† Igreja universal. Em Puebla, essa op√ß√£o √© t√£o crucial que a podemos considerar, juntamente com a apresenta√ß√£o de Jesus de Nazar√©, como o que dinamiza, estrutura e unifica todo o documento. √Č particularmente pertinente sua fundamenta√ß√£o teol√≥gica: Deus toma sua defesa e os ama, porque ‚Äúcriados √† imagem e semelhan√ßa de Deus para serem seus filhos, esta imagem est√° obscurecida e tamb√©m escarnecida‚ÄĚ (DP 1142). E pede que olhemos para rostos muito concretos que a pobreza generalizada toma entre n√≥s (DP 32-39), para que reconhe√ßamos neles ‚Äúas fei√ß√Ķes sofredoras de Cristo, o Senhor, que nos questiona e interpela‚ÄĚ (DP 31). Por isso, ‚Äúo servi√ßo dos pobres √© a medida privilegiada, embora n√£o exclusiva, de nosso seguimento de Cristo‚ÄĚ (DP 1145). Cristo, que em todo o documento √© inequivocamente Jesus de Nazar√©, que ‚Äúnasceu e viveu pobre no meio de seu povo de Israel, compadeceu-se das multid√Ķes e fez o bem a todos‚ÄĚ (DP 190).

A medida da integralidade da op√ß√£o pelos pobres √© a pobreza evang√©lica que √© ‚Äúexigida a todos os crist√£os‚ÄĚ (DP 1148) e se caracteriza por tr√™s elementos: atitude de abertura confiada em Deus; uma vida simples, s√≥bria e austera, que afaste a tenta√ß√£o da gan√Ęncia e do orgulho; e a comunica√ß√£o de bens materiais e espirituais com os pobres (DP 1149-1150). Para os bispos, ‚Äúesta pobreza √© um desafio ao materialismo e abre as portas a solu√ß√Ķes alternativas da sociedade de consumo‚ÄĚ (DP 1152). Os bispos se alegram ao ver que muitos de seus filhos n√£o pobres vivem essa pobreza crist√£ (DP 1151).

A partir da liberdade que d√° a pobreza evang√©lica, t√™m sentido as propostas que se esbo√ßam: a condena√ß√£o da pobreza antievang√©lica √† qual est√° submetida a maioria da Am√©rica Latina, o esfor√ßo por conhecer cada vez mais os mecanismos que causam essa trag√©dia e denunci√°-los, a soma de esfor√ßos com os que lutam por desenraiz√°-la e criar um mundo mais justo e humano, o apoio aos trabalhadores que querem ser tratados como livres e respons√°veis e participar nas decis√Ķes que concernem suas vidas, a defesa do direito a que criem suas pr√≥prias organiza√ß√Ķes (Cf. DM 2,27), e o respeito e apoio √†s culturas ind√≠genas (DP 1159-1164).

A partir dessa op√ß√£o, compreende-se sua mensagem aos construtores da sociedade pluralista. Destacamos dois elementos: o primeiro diz respeito √† defesa do sal√°rio dos trabalhadores, do direito a organizar-se e participar nas empresas, e do direito mais geral a uma pol√≠tica econ√īmica que n√£o se dirija √† redu√ß√£o do emprego; o segundo refere-se √† justi√ßa no ponto espec√≠fico dos contratos, al√©m de sua legalidade, aborda-se o ponto mais gen√©rico da destina√ß√£o prim√°ria dos recursos da terra para a humanidade como magnitude real, como sujeito coletivo, a que est√° subordinada a propriedade privada.

O serviço do povo de Deus aos povos é a evangelização. Ela

d√° a conhecer Jesus como o Senhor que nos revela o Pai e nos comunica seu Esp√≠rito. Ela chama-nos √† convers√£o que √© reconcilia√ß√£o e vida nova, leva-nos √† comunh√£o com o Pai que nos torna filhos e irm√£os. Faz brotar, pela caridade derramada em nossos cora√ß√Ķes, frutos de justi√ßa, perd√£o, respeito, dignidade e paz no mundo (DP 352).

O documento insiste no bin√īmio de comunh√£o e participa√ß√£o, tanto como estrutura da Igreja como miss√£o que tem que levar ao mundo. O motivo √© que o Reino ‚Äúse realiza de certo modo onde quer que Deus esteja reinando mediante sua gra√ßa, seu amor, vencendo o pecado e ajudando os homens a crescerem at√© conseguir a grande comunh√£o que lhes √© oferecida em Cristo‚ÄĚ (DP 226). O des√≠gnio de Deus √© que os seres humanos construam a comunh√£o ‚Äúem toda a sua vida‚ÄĚ, inclusive ‚Äúna sua dimens√£o econ√īmica, social e pol√≠tica‚ÄĚ (DP 215). Essa comunh√£o, que √© a mais genu√≠na produ√ß√£o humana, na perspectiva do plano transcendente, √© ‚Äúproduzida pelo Pai, o Filho e Esp√≠rito Santo‚ÄĚ, porque ‚Äú√© a comunica√ß√£o de sua pr√≥pria comunh√£o trinit√°ria‚ÄĚ (DP 215). Por isso, as formas de comunh√£o

humana, nos seus diversos √Ęmbitos, ‚Äús√£o animadas pela gra√ßa, prim√≠cias dela‚ÄĚ (DP 218). No entanto,

o pecado, força de ruptura, há de impedir constantemente o crescimento no amor e a comunhão tanto a partir do coração dos homens, como a partir das diversas estruturas por eles criadas, nas quais o pecado de seus autores imprimiu sua marca destruidora. Neste sentido, a situação de miséria, marginalidade, injustiça e corrupção, que fere nosso Continente, exige do Povo de Deus e de cada cristão um autêntico heroísmo com seu compromisso evangelizador, a fim de poder superar semelhantes obstáculos (DP 281).

O Evangelho nos deve ensinar, em face das realidades em que vivemos imersos, que não se pode atualmente na América Latina amar de verdade o irmão nem portanto a Deus, sem que o homem se comprometa em nível pessoal e, em muitos casos, até em nível estrutural, com o serviço e promoção dos grupos humanos e dos estratos sociais mais pobres e humilhados, arcando com todas as consequências que se seguem (DP 327).

Nisso consiste a sacramentalidade da Igreja: em ser sinal credível de comunhão. Por isso,

cada comunidade eclesial deveria esforçar-se por constituir para o Continente exemplo de modo de convivência onde consigam unir-se a liberdade e a solidariedade, onde a autoridade se exerça com o espírito do Bom Pastor, onde se viva uma atitude diferente diante da riqueza, onde se ensaiem formas de organização e estruturas de participação, capazes de abrir caminho para um tipo mais humano de sociedade (DP 273).

Para que formem parte desse sinal, os pastores est√£o a servi√ßo da Fam√≠lia de Deus como irm√£os: ‚ÄúS√£o irm√£os chamados a cuidar da vida que o Esp√≠rito suscita, livremente, nos demais irm√£os. √Č dever dos pastores respeitarem esta vida, acolh√™-la, orient√°-la e promov√™-la, ainda que tenha nascido independentemente da iniciativa deles‚ÄĚ (DP 249).

4 Conferência de Santo Domingo

Esta confer√™ncia foi celebrada no quinto centen√°rio do ‚Äúdescobrimento‚ÄĚ. O mais l√≥gico teria sido realizar um discernimento desses cinco s√©culos, da atua√ß√£o do cristianismo neles e fazer propostas para fortalecer o bom e superar o ruim. Entretanto, o Vaticano interveio de modo que, no n√≠vel estrutural, n√£o foi uma confer√™ncia do episcopado, uma vez que mais da metade dos presentes n√£o foram eleitos pelos bispos, foi descartado o documento de trabalho, os que a presidiram vieram de Roma e de l√° tamb√©m veio a normativa e, principalmente, porque n√£o se admitiu a reda√ß√£o global do que os grupos de trabalho elaboraram e que, com exce√ß√£o dos doutrinais, estavam na linha de Medell√≠n e Puebla e avan√ßavam nessa dire√ß√£o. Tampouco se admitiu o m√©todo ver, julgar, agir, que foi substitu√≠do por uma doutrina pr√©-conciliar sobre Jesus Cristo e a Igreja. Por pouco a assembleia n√£o descartou tudo. Por fim, por√©m, reestruturou-se o que foi poss√≠vel e o resultado foi satisfat√≥rio para a maioria, considerando que os cap√≠tulos sobre a promo√ß√£o humana e a cultura crist√£ pareciam canais adequados para a pastoral.

Além disso, não foram favoráveis nem a separação entre o local de alojamento e o lugar de trabalho, nem a hospedagem do episcopado em hotéis luxuosos, que continuaram funcionando como tais. Nesse sentido, foi o mais oposto a Medellín.

O tema foi ‚Äúimpulsionar, com novo ardor, uma Nova Evangeliza√ß√£o que se projete num maior compromisso pela promo√ß√£o integral do homem e impregne com a luz do Evangelho as culturas dos povos latino-americanos‚ÄĚ (DSD 1). A primeira parte, ‚ÄúJesus Cristo, evangelho do Pai‚ÄĚ, infelizmente, n√£o recolhe a riqueza do conhecimento vivo de Jesus de Nazar√© pela leitura orante feita nas comunidades, uma das grandes riquezas do cristianismo latino-americano que se expressou em Medell√≠n e em Puebla. Nem sequer diz que foi entregue ao procurador romano para que fosse crucificado como subversivo, pelas autoridades religiosas, especialmente a aristocracia sacerdotal, que ressentia sua lideran√ßa com o povo, o que minava seu car√°cter institucional; ‚Äútodo mundo vai atr√°s dele‚ÄĚ (Jo 12,19).¬† O que se prop√Ķe √©

Provocar nos cat√≥licos a ades√£o pessoal a Cristo e √† Igreja pelo an√ļncio do Senhor ressuscitado; desenvolver uma catequese que instrua devidamente o povo, explicando o mist√©rio da Igreja, sacramento de salva√ß√£o e comunh√£o, a media√ß√£o da Virgem Maria e dos santos e a miss√£o da hierarquia (DSD 142).

Como se v√™, substitui-se a Jesus de Nazar√© pelo ressuscitado e a catequese, em vez de se centrar no seguimento de Jesus, restringe-se √† Igreja, √† hierarquia e √† devo√ß√£o a Maria. Por isso, no documento, a liturgia n√£o √© a celebra√ß√£o da fidelidade no seguimento de Jesus na vida hist√≥rica, mas a fonte e o centro, a ser aplicado √† vida (DSD 34-35). O doutrinarismo √© tal que chegam a afirmar que os ‚Äúvalores, crit√©rios, condutas e atitudes‚ÄĚ da religiosidade popular, que ‚Äúconstituem a sabedoria de nosso povo‚ÄĚ, ‚Äúnascem do dogma cat√≥lico‚ÄĚ (DSD 36).

No entanto, existem muitos textos resgat√°veis: a necessidade de uma

nova evangeliza√ß√£o surge na Am√©rica Latina como resposta aos problemas que apresentados pela realidade de um continente no qual se d√° um div√≥rcio entre f√© e vida, a ponto de produzir clamorosas situa√ß√Ķes de injusti√ßa, desigualdade social e viol√™ncia. Implica enfrentar a grandiosa tarefa de infundir energias ao cristianismo da Am√©rica Latina (DSD 24).

Os bispos afirmam que ‚Äúo conte√ļdo da Nova Evangeliza√ß√£o √© Jesus Cristo‚ÄĚ (DSD 27). Novas situa√ß√Ķes exigem novos caminhos. N√£o pode faltar ‚Äúo testemunho e o encontro pessoal, a presen√ßa do crist√£o em todo o humano, assim como a confian√ßa no an√ļncio salvador de Jesus‚ÄĚ (DSD 29). O cristianismo e a Igreja t√™m ‚Äúde inculturar-se mais no modo de ser e de viver de nossas culturas. (…) Assim, a Nova Evangeliza√ß√£o continuar√° na linha da encarna√ß√£o do Verbo‚ÄĚ (DSD 30).

A proclama√ß√£o evang√©lica e a catequese devem ‚Äúnutrir-se da Palavra de Deus lida e interpretada na Igreja e celebrada na comunidade‚ÄĚ (DSD 33). Realiza-se:

‚Äúdifundindo seu testemunho vivo sobretudo com a vida de f√© e caridade‚ÄĚ (LG 12). O testemunho de vida crist√£ √© a primeira e insubstitu√≠vel forma de evangeliza√ß√£o, como o fez presente vigorosamente Jesus em v√°rias ocasi√Ķes (cf. Mt 7,21-23; 25,31-46; Lc 10,37; 19,1-10) e o ensinaram tamb√©m os ap√≥stolos (cf. Tg 2,14-18). (DSD 33)

Nessa nova evangeliza√ß√£o, pedem ‚Äúque os batizados n√£o evangelizados sejam os principais destinat√°rios da Nova Evangeliza√ß√£o. Esta s√≥ ser√° efetivamente levada a cabo se os leigos, conscientes do seu batismo, responderem ao chamado de Cristo a que se convertam em protagonistas da Nova Evangeliza√ß√£o‚ÄĚ (DSD 97). Por isso, deve-se ‚Äúevitar que os leigos reduzam sua a√ß√£o ao √Ęmbito intraeclesial, impulsionando-os a penetrar os ambientes socioculturais e a serem eles os protagonistas da transforma√ß√£o da sociedade √† luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja‚ÄĚ (DSD 98). ‚ÄúUma linha priorit√°ria de nossa pastoral, fruto desta IV Confer√™ncia, h√° de ser a de uma Igreja na qual os fi√©is crist√£os leigos sejam protagonistas‚ÄĚ (DSD 103).

Já insistimos em que o que dizem sobre a promoção humana é fundamentalmente pertinente. Em primeiro lugar, afirmam que

os direitos humanos s√£o violados n√£o s√≥ pelo terrorismo, repress√£o, assass√≠nios, mas tamb√©m pela exist√™ncia de condi√ß√Ķes de extrema pobreza e de estruturas econ√īmicas injustas que originam grandes desigualdades. A intoler√Ęncia pol√≠tica e o indiferentismo diante da situa√ß√£o de empobrecimento generalizado mostram desprezo pela vida humana concreta que n√£o podemos calar (DSD 167).

Especificam-no convincentemente:

O crescente empobrecimento a que est√£o submetidos milh√Ķes de irm√£os nossos, que chega a intoler√°veis extremos de mis√©ria, √© o mais devastador e humilhante flagelo que vive a Am√©rica Latina e Caribe. Assim o denunciamos tanto em Medell√≠n como em Puebla e hoje voltamos a faz√™-lo com preocupa√ß√£o e ang√ļstia. As estat√≠sticas mostram com eloqu√™ncia que na √ļltima d√©cada as situa√ß√Ķes de pobreza cresceram tanto em n√ļmeros absolutos como em relativos. A n√≥s, pastores, comove-nos at√© as entranhas ver continuamente a multid√£o de homens e mulheres, crian√ßas e jovens e anci√£os que sofrem o insuport√°vel peso da mis√©ria assim como diversas formas de exclus√£o social, √©tnica e cultural; s√£o pessoas humanas concretas e irredut√≠veis, que veem seus horizontes cada vez mais fechados e sua dignidade desconhecida.

Vemos o empobrecimento de nosso povo n√£o s√≥ como um fen√īmeno econ√īmico e social, registrado e quantificado pelas ci√™ncias sociais. N√≥s o vemos dentro da experi√™ncia de muita gente com quem compartilhamos, como pastores, sua luta cotidiana pela vida.

A pol√≠tica de corte neoliberal que predomina hoje na Am√©rica Latina e no Caribe aprofunda ainda mais as consequ√™ncias negativas destes mecanismos. Ao desregular indiscriminadamente o mercado, eliminar partes importantes da legisla√ß√£o trabalhista e despedir empregados, ao reduzir os gastos sociais que protegiam as fam√≠lias dos trabalhadores, foram aumentando ainda mais as dist√Ęncias na sociedade (DSD 179).

Por isso, afirmam que ‚Äúdescobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor (cf. Mt 25,31-46) √© algo que desafia todos os crist√£os a uma profunda convers√£o pessoal e eclesial‚ÄĚ (DSD 178). O texto especifica esses rostos.

A conclusão é:

Assumir com decisão renovada a evangélica opção preferencial pelos pobres, seguindo o exemplo e as palavras do Senhor Jesus, com plena confiança em Deus, austeridade de vida e partilha de bens. […]

Corrigir atitudes e comportamentos pessoais e comunitários, bem como as estruturas e métodos pastorais, a fim de que não afastem os pobres, mas que propiciem a proximidade e a partilha com eles.

Promover a participação social junto ao Estado, pleiteando leis que defendam os direitos dos pobres (DSD 180).

Referem-se concretamente √† realidade do trabalho (DSD 186), avaliam-na crist√£mente e prop√Ķem desafios e linhas pastorais consonantes (DSD 182-185). Igualmente o fazem sobre as migra√ß√Ķes (DSD 186-189) e em rela√ß√£o √† ordem democr√°tica (DSD 190-193). Destacamos:

Corrigir atitudes e comportamentos pessoais e comunitários, bem como as estruturas e métodos pastorais, a fim de que não afastem os pobres, mas que propiciem a proximidade e a partilha com eles. Promover a participação social junto ao Estado, pleiteando leis que defendam os direitos dos pobres (DSD 180).

Tamb√©m sobre a nova ordem econ√īmica (DSD 194-203), destacamos:

Fomentar a busca e implementa√ß√£o de modelos socioecon√īmicos que conjuguem a livre iniciativa, a criatividade de pessoas e grupos, a fun√ß√£o moderadora do Estado, sem deixar de dar aten√ß√£o especial aos setores mais necessitados. Tudo isto, orientado para a realiza√ß√£o de economia da solidariedade e da participa√ß√£o, expressa em diversas formas de propriedade (DSD 201).

Da mesma forma, em relação à integração latino-americana (DSD 204-209), ressaltamos o horizonte:

Todos sentimos a urgência de integrar o disperso e de unir esforços para que a interdependência se torne solidariedade e esta possa transformar-se em fraternidade […] A Igreja tem consciência de seu singular protagonismo e de seu papel orientador quanto à formação de uma mentalidade de pertença à humanidade e ao fomento de uma cultura solidária e de reconciliação (DSD 204).

Também nos parece pertinente o que se diz sobre a família, ainda que não partilhemos a insistência de que todo ato sexual deve estar aberto à procriação (DSD 210-227).

O tratamento da cultura padece do mesmo problema de enfoque que em Puebla, j√° que, de algum modo, pretende identificar os sinais de identidade cat√≥lica, presentes massivamente no continente, com sua condi√ß√£o de evangelizado. Tampouco concordo com a pretens√£o de que exista ou possa existir uma cultura crist√£ (DSD 229). A evangeliza√ß√£o da cultura se apoia, sem d√ļvida, em elementos positivos, mas nunca corrigir√° totalmente os negativos estruturais. Al√©m disso, n√£o concordo que a incultura√ß√£o do evangelho consista em introduzir valores (DSD 230): √© demasiadamente et√©reo.

Coincido com a import√Ęncia da catequese, mas estou de acordo com o paradoxo de que coexistem ‚Äúum desconhecimento da doutrina ao lado de viv√™ncias cat√≥licas enraizadas nos princ√≠pios do Evangelho‚ÄĚ (DSD 247). Insistem, e √© pertinente faz√™-lo, em ‚Äúapresentar a vida moral como seguimento de Cristo‚ÄĚ (DSD 239). Entretanto, por isso mesmo, √© uma debilidade que, ao apresentar Jesus, omitam a sua vida concreta.

√Č valiosa a indica√ß√£o sobre o que significa a evangeliza√ß√£o da cultura negra:

Conscientes do problema da marginaliza√ß√£o e do racismo que pesa sobre a popula√ß√£o negra, a Igreja, na sua miss√£o evangelizadora, quer participar dos seus sofrimentos e acompanh√°-los em suas leg√≠timas aspira√ß√Ķes em busca de uma vida mais justa e digna para todos (249).

O mesmo se aplicas às culturas indígenas:

Contribuir eficazmente para deter e erradicar as políticas tendentes a fazer desaparecer as culturas autóctones como meios de forçada integração; ou, pelo contrário, políticas que queiram manter os indígenas isolados e marginalizados da realidade nacional (DSD 251).

Ao se referirem √† evangeliza√ß√£o das culturas modernas, os bispos assinalam, desde o in√≠cio, a ‚Äúincoer√™ncia entre os valores do povo, inspirados em princ√≠pios crist√£os, e as estruturas sociais geradoras de injusti√ßas, que impedem o exerc√≠cio dos direitos humanos‚ÄĚ (DSD 253).

A caracterização da cidade e da pastoral proposta para ela revela a falta de uma compreensão mais profunda de sua realidade e de adaptação a ela (DSD 255-262).

‚ÄúA educa√ß√£o crist√£ desenvolve e assegura a cada crist√£o a sua vida de f√© e faz com que verdadeiramente nele sua vida seja Cristo‚ÄĚ (DSD 264) Afirma-se o que acontece ou o que gostar√≠amos que acontecesse? Isso est√° sequer cogitado no que se chama educa√ß√£o cat√≥lica?

O que é afirmado sobre a educação cristã é tão pertinente que seria bom que ao menos fosse considerado nos processos de iniciação cristã:

a educação cristã se funda numa verdadeira antropologia cristã que significa a abertura do homem para Deus como Criador e Pai, para os outros como seus irmãos, e para o mundo como aquilo que lhe foi entregue para potenciar suas virtualidades, e não para exercer sobre ele domínio despótico que destrua a natureza (DSD 264).

Os desafios da realidade est√£o bem definidos:

a realidade latino-americana nos interpela pela exclus√£o de muita gente da educa√ß√£o escolar, mesmo a b√°sica, pelo grande analfabetismo que existe em v√°rios dos nossos pa√≠ses; interpelados pela crise da fam√≠lia, a primeira educadora, pelo div√≥rcio existente entre o Evangelho e a cultura; pelas diferen√ßas sociais e econ√īmicas que fazem com que para muitos seja dispendiosa a educa√ß√£o cat√≥lica, especialmente nos n√≠veis superiores. Interpela-nos tamb√©m a educa√ß√£o informal que se recebe atrav√©s de tantos comunicadores n√£o propriamente crist√£os, p. ex., televis√£o (DSD 267).

Há uma consciência muito realista da direção da demanda:

Geralmente nos pedem, com base em crit√©rios secularistas, que eduquemos o homem t√©cnico, o homem apto para dominar seu mundo e viver num interc√Ęmbio de bens produzidos sob certas normas pol√≠ticas; as m√≠nimas. Esta realidade nos interpela fortemente para podermos ser conscientes de todos os valores que est√£o nela e pod√™-los recapitular em Cristo (DSD 266).

√Č poss√≠vel, ou se tem que discernir o que sim e o que n√£o? Por isso, pedem um di√°logo com o homem t√©cnico e com o humanismo crist√£o, de modo que se chegue √† sabedoria crist√£ (DSD 268).

A fundamenta√ß√£o antropol√≥gica na qual se baseia o tratamento sobre a comunica√ß√£o √© certeira: ‚ÄúCada pessoa e cada grupo humano desenvolve sua identidade no encontro com os outros (alteridade)‚ÄĚ (DSD 279).

O problema é bem definido:

Damo-nos conta do desenvolvimento da ind√ļstria da comunica√ß√£o na Am√©rica Latina e no Caribe que mostra o crescimento de grupos econ√īmicos e pol√≠ticos que concentram cada vez mais em poucas m√£os e com enorme poder a propriedade dos diversos meios e chegam a manipular a comunica√ß√£o, impondo uma cultura que estimula o hedonismo e o consumismo e atropela nossas culturas com os seus valores e identidades.

Vemos como a publicidade frequentemente introduz falsas expectativas e cria necessidades fictícias; vemos também como especialmente na programação televisiva sobejam a violência e a pornografia, que penetram agressivamente no seio das famílias (DSD 280).

O que se diz sobre comunicação social e a cultura é suficiente, ainda que se reconheça que está apenas começando (DSD 275-286).

Recapitulando: ‚Äúnos comprometemos a trabalhar em: 1. Uma Nova Evangeliza√ß√£o de nossos povos. 2. Uma promo√ß√£o integral dos povos latino-americanos e caribenhos. 3. Uma Evangeliza√ß√£o inculturada‚ÄĚ (DSD 292). S√£o os tr√™s temas propostos pelo Papa e assumidos pela Confer√™ncia.

5 Conferência de Aparecida

O t√≠tulo da Confer√™ncia de Aparecida (2007) √© ‚ÄúDisc√≠pulos e Mission√°rios de Jesus Cristo, para que nEle nossos povos tenham vida‚ÄĚ, um t√≠tulo que expressa adequadamente nosso ser crist√£o.

O documento gira ao redor da vida e o sujeito que a promove √© o coletivo dos disc√≠pulos mission√°rios, ainda que o sujeito transcendente seja Jesus Cristo. A primeira parte, ‚ÄúA vida de nossos povos hoje‚ÄĚ, se apresenta como o olhar dos disc√≠pulos mission√°rios sobre a realidade; a segunda, ‚ÄúA vida de Jesus Cristo nos disc√≠pulos mission√°rios‚ÄĚ, desenvolve sua voca√ß√£o √† santidade, sua comunh√£o na Igreja e seu itiner√°rio formativo; e a terceira, ‚ÄúA vida de Jesus Cristo para nossos povos‚ÄĚ, se refere √† sua miss√£o de servi√ßo em favor da vida, da promo√ß√£o da dignidade humana, especialmente dos pobres, dos que sofrem e particularmente da fam√≠lia e seus membros de diferentes idades e responsabilidades, concluindo com um cap√≠tulo sobre a evangeliza√ß√£o da cultura.

O objetivo de Aparecida √© ‚Äúrepensar profundamente e relan√ßar com fidelidade e aud√°cia sua miss√£o nas novas circunst√Ęncias latino-americanas e mundiais‚ÄĚ (DAp 11). A necessidade desse relan√ßamento deriva da novidade da √©poca, que exige evangeliz√°-la e inculturar nela o Evangelho. Por isso, o documento dedicar√° muitas p√°ginas √† sua caracteriza√ß√£o como oportunidade e risco para a vida humana, e para a qualidade humana dessa vida e, mais especificamente, para a f√© crist√£. Por√©m, para os bispos, √© tamb√©m imprescind√≠vel uma nova evangeliza√ß√£o fundante pela situa√ß√£o do catolicismo na nossa regi√£o. De fato, o documento reconhece que, na vida cotidiana da Igreja, ‚Äúaparentemente tudo procede com normalidade, mas na realidade a f√© vai desgastando-se e diluindo-se em mesquinhez‚ÄĚ (DAp 12). Por isso, √© imprescind√≠vel um ‚Äúacontecimento fundante‚ÄĚ, que esteja ligado a um ‚Äúencontro vivificante com Cristo‚ÄĚ (DAp 13).

Esse acontecimento diz respeito, de um modo ou outro, a todos os cat√≥licos: ‚ÄúA todos nos toca recome√ßar a partir de Cristo, reconhecendo que n√£o se come√ßa a ser crist√£o por uma decis√£o √©tica ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que d√° um novo horizonte √† vida e, com isso, uma orienta√ß√£o decisiva‚ÄĚ (DAp 12). Portanto, a revitaliza√ß√£o do catolicismo ‚Äún√£o depende tanto de grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que encarnem essa tradi√ß√£o e novidade, como disc√≠pulos de Jesus Cristo e mission√°rios de seu Reino‚ÄĚ (DAp 11).

A partir desse objetivo, o documento afirma que foi escrito em continuidade com as Confer√™ncias anteriores (DAp 9, 16, 369, 396, 402, 446, 526), j√° que elas tamb√©m tiveram o mesmo objetivo de atualizar o Evangelho nas suas pr√≥prias circunst√Ęncias, tendo em vista contribuir para que os povos latino-americanos tenham vida humana segundo a humanidade de Jesus Cristo.

Queremos salientar a import√Ęncia de conectar o encontro com Jesus de Nazar√© com a entrega ao seu Reino. Uma entrega a Jesus que prescinda da tarefa do Reino n√£o √© entrega a ele, mas a um Cristo que inventamos, uma vez que ele rejeitou a proposta de Pedro de ficar no Tabor contemplando-o (Mc 9,5-8) ou a da Madalena de permanecer desfrutando de sua pessoa ressuscitada (Jo 20,16-18) e os enviou a prosseguir a miss√£o que o Pai lhe havia encomendado (Jo 20,21). Assim, o encontro com Jesus n√£o pode ser concebido como estar devotamente com ele (nisso consiste o pietismo), mas como o seguimento de sua miss√£o com seu mesmo Esp√≠rito (DAp 129-153).

O m√©todo √© partir do olhar crente sobre a realidade para ver nela a passagem de Deus e o que se op√Ķe ao mundo fraterno das filhas e filhos de Deus, isto √©, ao Reino que Jesus veio instaurar, ou, dito com outras palavras, ouvindo os sinais dos tempos:

Os povos da Am√©rica Latina e do Caribe vivem hoje uma realidade marcada por grandes mudan√ßas que afetam profundamente suas vidas. Como disc√≠pulos de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados a discernir os ‚Äėsinais dos tempos‚Äô, √† luz do Esp√≠rito Santo, para nos colocar a servi√ßo do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e ‚Äėpara que a tenham em plenitude‚Äô (Jo 10, 10) (DAp 33; cf. DAp 366).

Por isso, o método adotado, em continuidade com as conferências anteriores, é o ver, julgar e agir:

Este método nos permite articular, de modo sistemático, a perspectiva cristã de ver a realidade; a assunção de critérios que provêm da fé e da razão para seu discernimento e valorização com sentido crítico; e, em consequência, a projeção do agir como discípulos missionários de Jesus Cristo (DAp 19).

A razão dessa sequência é que para fazer o equivalente do que ele fez na sua situação, que significa segui-lo (cf. DAp 139), não só é necessário conhecer seu modo de lidar com sua realidade, mas também com a nossa situação atual.

Parece bastante acertado que o tema seja a vida, j√° que, na Am√©rica Latina, a vida √© amea√ßada e ultrajada de m√ļltiplos modos. Por outra parte, existe, na nossa regi√£o, um desejo ineg√°vel de vida realmente humana. Al√©m do mais, para isso Jesus veio ao mundo: para que tiv√©ssemos vida e, inclusive, para nos dar vida com sua vida (DAp 347-364).

√Č decisivo que os crist√£os tenhamos que ser disc√≠pulos, porque, como o documento reconhece com grande realismo, ‚Äúse muitas das estruturas atuais geram pobreza, em parte √© devido √† falta de fidelidade a compromissos evang√©licos de muitos crist√£os com especiais responsabilidades pol√≠ticas, econ√īmicas e culturais‚ÄĚ (DAp 501). Tamb√©m √© um acerto unir a condi√ß√£o de disc√≠pulos √† de enviados, porque Jesus escolheu disc√≠pulos para que participassem de sua miss√£o. Se os teve a seu lado, foi para que, na conviv√™ncia, se impregnassem por conaturalidade (cf. DAp 336) de sua mentalidade, suas atitudes e seu modo de se relacionar. √Č tamb√©m destac√°vel que n√£o proponha a miss√£o como a maquin√°ria das empresas para vender seus produtos, mas como um acontecimento ‚Äúque precisa passar de pessoa a pessoa, de casa em casa, de comunidade a comunidade [‚Ķ], sobretudo entre as casas das periferias urbanas e do interior [‚Ķ], procurando dialogar com todos em esp√≠rito de compreens√£o e de delicada caridade.‚ÄĚ E continua citando o Papa Bento XVI: ‚Äúse as pessoas encontradas est√£o em situa√ß√£o de pobreza, √© necess√°rio ajud√°-las, como faziam as primeiras comunidades crist√£s, praticando a solidariedade, para que se sintam amadas de verdade‚ÄĚ (DAp 550).

O documento especifica os lugares onde nos encontramos com Jesus de Nazaré: em primeiro lugar, nos evangelhos (DAp 247, 255), também na comunidade (DAp 256), notadamente nos pobres (DAp 257), na religião do povo (DAp 258-265) e, certamente, na Ceia do Senhor (DAp 251).

A partir desse encontro personalizado com Jesus de Nazar√©, passa-se de uma Igreja clericalizada a outra, na qual todos s√£o sujeitos que se edificam mutuamente e participam ativamente na miss√£o (DAp 154, 156, 159, 162). O documento exp√Ķe os lugares de comunh√£o para a miss√£o: a par√≥quia como comunidade de comunidades, as comunidades eclesiais de base e outras pequenas comunidades, e as confer√™ncias episcopais; em seguida, analisa como cada uma das voca√ß√Ķes na Igreja contribuem para a comunh√£o.

O documento assinala que essa miss√£o, por sua entrega aos pobres e a defesa deles, ocasionou m√°rtires, um texto que era esperado desde Puebla:

Seu empenho a favor dos mais pobres e sua luta pela dignidade de cada ser humano tem ocasionado, em muitos casos, a perseguição e inclusive a morte de alguns de seus membros, os quais consideramos testemunhas da fé. Queremos recordar o testemunho corajoso de nossos santos e santas, e aqueles que, inclusive sem terem sido canonizados, viveram com radicalidade o Evangelho e ofereceram sua vida por Cristo, pela Igreja e por seu povo (DAp 98).

O documento tematiza a rela√ß√£o entre Jesus e os pobres de modo paradigm√°tico: ‚Äús√£o chamados a contemplar, nos rostos sofredores de seus irm√£os, o rosto de Cristo que nos chama a servi-lo‚ÄĚ (DAp 393). A raz√£o √© que ‚Äútudo o que tenha rela√ß√£o com Cristo, tem rela√ß√£o com os pobres, e tudo o que est√° relacionado com os pobres clama por Jesus Cristo‚ÄĚ (DAp 393). Desse modo, temos que dedicar tempo aos pobres como amigos e procurar que eles sejam sujeitos de sua liberta√ß√£o (DAp 394). Por isso, assim como Jesus viveu e prop√īs a reciprocidade de dons,

os discípulos e missionários de Cristo promovem uma cultura do compartilhar em todos os níveis em contraposição à cultura dominante de acumulação egoísta, assumindo com seriedade a virtude da pobreza como estilo de vida sóbrio para ir ao encontro e ajudar as necessidades dos irmãos que vivem na indigência (DAp 540).

Os próprios pobres são também motivados pelos bispos a isso (DAp 257, 265).

Por essa raz√£o, prop√Ķem una globaliza√ß√£o alternativa, ‚Äúque se fundamenta no evangelho da justi√ßa, da solidariedade e do destino universal dos bens, e que supere a l√≥gica utilitarista e individualista, que n√£o submete os poderes econ√īmicos e tecnol√≥gicos a crit√©rios √©ticos‚ÄĚ (DAp 474; Cf. DAp 64); ‚Äúnovas estruturas que promovam uma aut√™ntica conviv√™ncia humana, que impe√ßam a prepot√™ncia de alguns e facilitem o di√°logo construtivo para os necess√°rios consensos sociais‚ÄĚ (DAp 384). Para possibilit√°-lo, prop√Ķem

apoiar a participação da sociedade civil para a reorientação e consequente reabilitação ética da política […], a criação de oportunidades para todos, a luta contra a corrupção, a vigência dos direitos do trabalho e sindicais […], promover uma justa regulação da economia, das finanças e do comércio mundial (DAp 406).

Para que tudo isso seja poss√≠vel, deve-se superar a divis√£o entre o p√ļblico e o privado, t√≠pica da modernidade, que pode declarar esses temas como assunto de cada um, sem transcend√™ncia. Pelo contr√°rio,

quanta disciplina de integridade moral necessitamos, entendendo essa disciplina no sentido cristão do autodomínio para fazer o bem, para ser servidor da verdade e do desenvolvimento de nossas tarefas sem nos deixar corromper por favores, interesses e vantagens. São necessárias muita força e muita perseverança para conservar a honestidade que deve surgir de uma nova educação que rompa o círculo vicioso da corrupção imperante (DAp 507).

Conclus√£o

√Č preciso assinalar, no entanto, a limita√ß√£o do documento de Aparecida. Al√©m do horizonte que, como em Puebla, e ainda mais em Santo Domingo, concebe a salva√ß√£o na hist√≥ria e a celebra nos sacramentos, principalmente na Ceia do Senhor, tamb√©m afloram outros dois horizontes incompat√≠veis: a teologia dos mist√©rios e una vers√£o um tanto fundamentalista da teologia kerigmatica. √Č necess√°rio dizer que os textos mais prof√©ticos foram sistematicamente suprimidos pelos que tinham o controle final da reda√ß√£o (por exemplo, o que dizem das CEBs nos n. 193-195 da vers√£o original aprovada pela assembleia e o que ficou nos n. 178-180 da vers√£o definitiva). Isso porque os que promovem afirma√ß√Ķes mais piedosas e transcendentalizadas s√£o os que vivem mais adaptados a essa ordem social. Ambos remetem a Jesus de Nazar√©, mas uns se restringem mais a seu mist√©rio (por isso a abund√Ęncia de cita√ß√Ķes de Jo√£o) e s√£o propensos a linguagens doxol√≥gicas, muito abundantes nesse documento, j√° que, para eles, o contato prim√°rio com Cristo √© o culto. Outros, por sua parte, insistem que o mist√©rio de Jesus reluz na sua hist√≥ria (por isso remetem aos sin√≥ticos), nessa hist√≥ria deve-se descobrir seu sentido e, ao continu√°-la, entra-se em comunh√£o com ele.

Os dois grupos valorizam a missa e gostam dela, mas os primeiros a entendem como o encontro fontal do qual vivem, e os segundos como a celebra√ß√£o vivificante e comprometedora do seguimento na vida. Para os primeiros, o Reino se identifica com a pessoa de Jesus. Isso tem duas consequ√™ncias: a primeira √© que o acontecimento do reino √© um acontecimento intraeclesial, cuja porta √© o batismo e cujo alimento √© a Palavra e os sacramentos (por exemplo, DAp 382); a segunda, que a miss√£o consistir√° em p√īr em contato com Jesus, para que se integrem √† Igreja, na qual est√° a salva√ß√£o. Para os segundos, Jesus √© certamente interno ao Reino, mas a raz√£o √© que nele e s√≥ nele somos filhos de Deus e irm√£os de todos os seres humanos (por exemplo, DAp 139, 361).

O objetivo desse texto é ajudar na compreensão do documento que foi produzido como um compromisso por esses dois grupos e, por fim, favorecer a compreensão da Igreja Latino-americana para nos situar conscientemente nela segundo o dom recebido.

Pedro Trigo, SJ. Facultad de teología de la Universidad Católica Andrés Bello, Caracas, Venezuela. Texto original espanhol.

Referências

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[1] Theologica Latinoamericana j√° publicou o verbere ‚ÄúAs Confer√™ncias do Conselho Episcopal Latino-Ameriano‚ÄĚ, texto de Sandra Arenas, com uma vis√£o geral do conjunto das Confer√™ncias e dos temas tratados. O presente verbete enriquece o anterior, oferecendo outra chave de leitura.

[2] Dussel, na sua análise dessa Conferência, centra-se principalmente em como, a partir dela, começa a organização da Igreja latino-americana em todos os campos e a partir de si mesma (DUSSEL, 1964, p. 186-190).