A Eucaristia

Sum√°rio

1 Realidade atual da eucaristia

2 Valorização do magistério

3 Sacramento principal

4 Nomes

5 A doutrina fundamental

5.1 Institu√≠da por Cristo na √ļltima ceia

5.2 Memorial da ceia

5.3 Memorial do sacrifício

5.4 A presença real de Cristo

5.5 Transubstanciação

5.6 A questão das espécies e a fórmula essencial

6 A eucaristia e a Igreja

7 A celebração, em síntese

Referências

1 Realidade atual da eucaristia

A eucaristia, como principal celebra√ß√£o lit√ļrgica da Igreja, sofre nestes tempos as mesmas tens√Ķes e contradi√ß√Ķes que a f√© crist√£ nas sociedades contempor√Ęneas. N√£o √© estranho, porque celebra, precisamente, a f√© em Jesus Cristo, morto e ressuscitado na vida atual da humanidade e de cada crente. A liturgia √© sens√≠vel √†s mudan√ßas no mundo e na Igreja, porque n√£o se celebra em espa√ßos e tempos abstratos, mas nos contextos humanos, culturais e eclesiais concretos de cada crente e de cada comunidade. Em geral, pode-se dizer que, na √ļltima d√©cada, um grande n√ļmero de cat√≥licos deixou de participar da eucaristia dominical e de praticar a vida sacramental. Em geral, s√£o aqueles cuja rela√ß√£o com a Igreja se baseava sobretudo na recep√ß√£o dos sacramentos e na participa√ß√£o nos funerais e nas grandes festas crist√£s do ano lit√ļrgico ou dos santu√°rios. As comunidades eclesiais de base, capelas de bairros mais homog√™neos ou setores rurais, por outro lado, tendem a manter uma pr√°xis celebrativa mais viva e regular. Mas tamb√©m, muito frequentemente, t√™m se ressentido do distanciamento dos jovens e da dificuldade de engajar leigos e leigas nos v√°rios pap√©is lit√ļrgicos ligados √† eucaristia: coros, leitores, ac√≥litos. A crise resultante dos abusos de poder, consci√™ncia e sexuais de membros do clero, que nos √ļltimos anos foi amplamente divulgada e afetou fortemente a Igreja em muitos pa√≠ses do continente, tem sido um fator que, para muitos cat√≥licos com uma perten√ßa mais fr√°gil √† Igreja e/ou uma forma√ß√£o mais superficial, os leva a cessar praticamente toda a participa√ß√£o nela, a come√ßar pela eucaristia dominical.

Certamente, a realidade da celebra√ß√£o da eucaristia √© muito vasta e diversa para ser resumida ou generalizada em poucas linhas. De um lado, existem comunidades com celebra√ß√Ķes muito vivas e participativas, e de outro, igrejas onde o n√ļmero de fi√©is que v√£o √† missa dominical diminuiu drasticamente, enquanto a idade m√©dia dos participantes aumentou com a mesma radicalidade. Os planos pastorais diocesanos, o carisma dos p√°rocos ou dos sacerdotes que presidem a eucaristia, a forma√ß√£o dos leigos e das leigas e a tradi√ß√£o da Igreja local s√£o determinantes para a qualidade da vida lit√ļrgica e, em particular, das celebra√ß√Ķes eucar√≠sticas. As grandes diferen√ßas nestes aspectos tamb√©m determinam, em grande parte, as diferen√ßas na qualidade, participa√ß√£o e vivacidade das missas.

Este olhar realista, que n√£o pretende ser pessimista, √© necess√°rio no in√≠cio de um tratamento doutrinal da eucaristia, pois n√≥s, cat√≥licos, colocamos este sacramento no lugar mais alto da vida lit√ļrgica da Igreja e n√£o deixamos de proclamar sua centralidade e import√Ęncia. Para muitos pode parecer que essas afirma√ß√Ķes n√£o correspondem √† realidade no momento e, para falar a verdade, n√£o estariam errados. Por outro lado, pode a Igreja renunciar a afirmar e ensinar a import√Ęncia e a centralidade da eucaristia, sem com isso afetar o pr√≥prio cerne da sua pr√°xis lit√ļrgico-sacramental?

2 Valorização do magistério

O magist√©rio da Igreja continua a colocar a eucaristia em um lugar eminente na sua pr√°tica cultual. O Catecismo da Igreja Cat√≥lica (CEC) reafirma que a eucaristia √© “a fonte e o √°pice de toda a vida crist√£”, citando a Lumen Gentium n.11 (CEC n.1324); que “cont√©m todo o bem espiritual da Igreja, isto √©, o pr√≥prio Cristo, nossa P√°scoa”, citando Presbyterorum ordinis n.5 (CEC n.1325), e termina afirmando que “a eucaristia √© o comp√™ndio e a soma da nossa f√©” (CEC n.1327).

Anteriormente, a constitui√ß√£o sobre a liturgia do Conc√≠lio Vaticano II, a Sacrosanctum Concilium (SC), afirmava que a liturgia, da qual a eucaristia √© a express√£o m√°xima, √© ‚Äúo √°pice a que tende a atividade da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte da qual emana toda a sua for√ßa‚ÄĚ (SC n.10).

O papa S√£o Jo√£o Paulo II dedicou importantes p√°ginas √† eucaristia no seu magist√©rio, dentre as quais se destaca a sua √ļltima carta enc√≠clica, em 2003, Ecclesia de Eucharistia (EdE). Nela h√° passagens testemunhais de grande profundidade, como a que diz: ‚ÄúAqui (na eucaristia) est√° o tesouro da Igreja, o cora√ß√£o do mundo, o penhor do fim a que todo homem, ainda que inconscientemente , aspira. Um grande mist√©rio, que certamente nos ultrapassa e p√Ķe √† prova a capacidade¬† de nossa mente de ir al√©m das apar√™ncias‚ÄĚ (EdE n.59).

Também o papa emérito Bento XVI escreveu sobre a eucaristia. Particularmente importante é a sua exortação apostólica Sacramentum caritatis (SC), de 2007, na qual integra a reflexão do Sínodo dos Bispos de 2005, cujo tema foi precisamente a eucaristia.

O magist√©rio do papa Francisco, por sua vez, oferece um grande n√ļmero de catequeses, homilias e frases sobre a eucaristia. Na catequese de 8 de novembro de 2017, Francisco recorda o antigo e impressionante epis√≥dio dos m√°rtires da Abit√≠nia:

N√£o podemos esquecer o grande n√ļmero de crist√£os que, no mundo inteiro, em dois mil anos de hist√≥ria, resistiram at√© √† morte para defender a Eucaristia; e quantos, ainda hoje, arriscam a vida para participar na Missa dominical. No ano de 304, durante as persegui√ß√Ķes de Diocleciano, um grupo de crist√£os, do norte de √Āfrica, foram surpreendidos a celebrar a Missa numa casa e foram aprisionados. O proc√īnsul romano, no interrogat√≥rio, perguntou-lhes por que o fizeram, sabendo que era absolutamente proibido. E eles responderam: ‚ÄúSem o domingo n√£o podemos viver‚ÄĚ, que significava: se n√£o podemos celebrar a Eucaristia, n√£o podemos viver, a nossa vida crist√£ morreria. Com efeito, Jesus disse aos seus disc√≠pulos: ‚Äúse n√£o comerdes a carne do Filho do homem, e n√£o beberdes o seu sangue, n√£o tereis vida em v√≥s mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no √ļltimo dia‚ÄĚ (Jo¬†6, 53-54). Aqueles crist√£os do norte de √Āfrica foram assassinados porque celebravam a Eucaristia. Deixaram o testemunho de que se pode renunciar √† vida terrena pela Eucaristia, porque ela nos d√° a vida eterna, tornando-nos part√≠cipes da vit√≥ria de Cristo sobre a morte. Um testemunho que nos interpela a todos e exige uma resposta acerca do que significa para cada um de n√≥s participar no Sacrif√≠cio da Missa e aproximarmo-nos da Mesa do Senhor. (FRANCISCO, 2017)¬†

A pergunta do Papa Francisco é chave em nossos dias: o que a eucaristia significa para nós hoje? Se houve momentos em que não era necessário fazer tal pergunta, não são estes que se vive. Certamente, para apreciar a eucaristia não basta saber mais sobre ela. Se o conhecimento não está em conexão vital com toda a vida de fé, é de pouca utilidade. Pode nos tornar mais sábios, mas não ajuda celebrar melhor nossa fé. A eucaristia é, antes de tudo, uma experiência. Uma experiência celebrativa, festiva, que nasce da gratuidade de ser cristão. Podemos saber muito sobre ela, mas para que adquira seu sentido pleno como sacramento da Igreja, deve ser experimentada, vivida e celebrada na comunidade dos fiéis. Dessa perspectiva, tenta-se aqui sintetizar sua doutrina fundamental.

3 Sacramento principal

A liturgia e os minist√©rios da Igreja s√£o orientados para a eucaristia. “Os outros sacramentos”, afirma o CEC n.1324, “assim como todos os minist√©rios eclesiais e obras de apostolado, est√£o unidos √† eucaristia e a ela s√£o ordenados”. Sua centralidade na Igreja Cat√≥lica √© clara e est√° bem fundamentada na pr√°xis e na doutrina de sua hist√≥ria. Por isso √© necess√°rio conhecer esses fundamentos nestes tempos em que a forma√ß√£o catequ√©tica da Igreja costuma ser fraca e escassa.

A eucaristia √© o principal dos sete sacramentos. No mundo sacramental, est√° ordenada com o conjunto dos sacramentos da inicia√ß√£o crist√£, juntamente com o batismo e a crisma. A tr√≠ade batismo-crisma-eucaristia foi, durante os primeiros s√©culos do cristianismo, a porta de entrada para a comunidade crist√£, como uma celebra√ß√£o sacramental √ļnica e simult√Ęnea, da qual a eucaristia era o ponto culminante. Muito tarde na hist√≥ria da Igreja, apenas no in√≠cio do s√©culo XX, generalizou-se o costume de antecipar a eucaristia aos mais novos, alterando assim a ordem tradicional em que eram ministrados os sacramentos de inicia√ß√£o: 1-batismo, 2-crisma e 3-eucaristia; para uma nova: 1-batismo, 2-eucaristia e 3-crisma. Mas j√° antes, na Igreja latina, a crisma havia sido separada do batismo no momento da administra√ß√£o. A raz√£o √© que, no Ocidente, ao contr√°rio das comunidades do Oriente crist√£o, o bispo (e n√£o o sacerdote) foi institu√≠do como ministro ordin√°rio (hoje o chamamos original) da confirma√ß√£o. Os padres batizavam os rec√©m-nascidos e somente quando o bispo visitava a localidade, ou quando crian√ßas ou jovens podiam ir √† s√© episcopal, eles podiam ser crismados. E muitas vezes anos se passavam entre os dois sacramentos. Mas mesmo assim, a eucaristia era recebida pela primeira vez apenas na crisma, preservando assim a ordem tradicional: 1-batismo, 2-crisma e 3-eucaristia e, portanto, se preservava o sinal concreto da eucaristia¬† como culmin√Ęncia da inicia√ß√£o crist√£.

Hoje se considera importante recuperar a unidade destes tr√™s sacramentos, teol√≥gica e pastoralmente vinculados e interdependentes. J√° que nas igrejas latinas essa unidade n√£o pode ser temporal ‚Äď o costume e certas vantagens pastorais de administrar a primeira eucaristia primeiro e depois a crisma est√£o muito arraigados ‚Äď tenta-se que seja pelo menos catequ√©tica e liturgicamente clara: na forma√ß√£o e no ritual. Considerar a eucaristia como o ponto culminante da inicia√ß√£o crist√£ s√≥ pode ser afirmado teoricamente, pois o sinal estabelece como ponto culminante (pelo menos temporalmente) o sacramento da crisma.

O batismo e a confirma√ß√£o imprimem car√°ter, ou seja, s√£o sacramentos que s√≥ s√£o recebidos uma vez na vida, pois deixam uma marca espiritual indel√©vel em quem os recebeu. A eucaristia, por sua vez, √© o sacramento do caminho crist√£o: √© recebida quantas vezes forem necess√°rias, como alimento para viver a uni√£o pessoal com Cristo e o discipulado. √Č o sacramento do viajante, do peregrino que deseja viver a sua f√© no seguimento e na fidelidade √† miss√£o confiada. Na homilia do Corpus Christi de 2015, o papa Francisco afirmou que ‚Äúa eucaristia n√£o √© uma recompensa para os bons, mas uma for√ßa para os fracos; para os pecadores √© o perd√£o, o vi√°tico que nos ajuda a andar, a caminhar‚ÄĚ. Imagem profunda e realista: a comunh√£o eucar√≠stica n√£o pode ser recompensa pelos m√©ritos que um crist√£o possui, mas √© precisamente o alimento de que necessita na sua fragilidade e vulnerabilidade para viver e testemunhar a sua f√© no complexo mundo de hoje.

4 Nomes

A eucaristia recebeu v√°rios nomes ao longo da hist√≥ria. Cada um deles destaca algum aspecto de seu conte√ļdo teol√≥gico ou de sua forma celebrativa. A CEC os lista de forma mais completa nos n√ļmeros 1328 a 1332. Tr√™s deles s√£o particularmente importantes:

Fra√ß√£o do p√£o. Esta express√£o encontra-se em Atos 2, 42-46, no contexto da descri√ß√£o da primeira comunidade crist√£, e em Atos 20, 7-11, em um contexto que pode ser chamado de lit√ļrgico, de uma assembleia no ‚Äúprimeiro dia da semana” (Domingo, Dia do Senhor), com longa palestra (homilia) de S√£o Paulo. A express√£o fra√ß√£o do p√£o refere-se diretamente a uma a√ß√£o pr√≥pria da eucaristia, como √© a de partir o p√£o para distribu√≠-lo, mas tem suas ra√≠zes em um costume judaico muito mais antigo: o do pai de fam√≠lia que, depois de aben√ßoar a mesa, partia e repartia o p√£o para os seus. Na refei√ß√£o da P√°scoa judaica, que √© o antecedente imediato da eucaristia, este gesto era particularmente significativo.

Ceia do senhor. Em 1Cor 11,20, S√£o Paulo usa esta express√£o para distinguir a ceia fraterna que precedeu a ‚ÄúCeia do Senhor‚ÄĚ (a eucaristia) nas primeiras comunidades crist√£s. Na comunidade de Corinto, as ceias anteriores eram palco de excessos e desprezo pelos mais pobres, o que motiva a cr√≠tica de Paulo. Apesar de n√£o se reproduzir na pr√≥pria Ceia do Senhor, sua proximidade com ela deve torn√°-los coerentes com o esp√≠rito crist√£o de fraternidade, solidariedade e apre√ßo pelos mais pobres.

Eucaristia. Este nome encontra-se, na sua forma verbal, dar gra√ßas, em Lc 22,19: “Pegou o p√£o, deu gra√ßas (…)” e em 1Cor 11,24: “Pegou o p√£o, agradeceu e partiu-o (…)‚ÄĚ. Bem pr√≥ximo est√° o termo aben√ßoar, utilizado em Mc 14,22 e Mt 26,26: ‚ÄúEle tomou o p√£o, aben√ßoou-o (…)‚ÄĚ. Dado que a a√ß√£o de gra√ßas e a b√™n√ß√£o s√£o a√ß√Ķes inerentes √† liturgia crist√£, e que se manifestam com particular clareza na eucaristia, este √© o termo que a liturgia atual tem privilegiado sobre os demais.

Missa? Embora a express√£o ‚Äúmissa‚ÄĚ continue a ser usada em linguagem coloquial e pastoral em portugu√™s, espanhol e outras l√≠nguas, √© um termo que deixou de ser usado em linguagem teol√≥gica devido √† sua escassa rela√ß√£o com qualquer aspecto central da eucaristia. Sua origem est√° na Idade M√©dia, na f√≥rmula de despedida dos fi√©is no final da eucaristia: ‚ÄúIte, missa est‚ÄĚ (literalmente, ‚Äúvai, foi enviado‚ÄĚ, referindo-se implicitamente √† celebra√ß√£o). A partir da√≠, por meton√≠mia, a eucaristia passou a ser chamada de “missa”.

5 A doutrina fundamental

5.1 Institu√≠da por Cristo na √ļltima ceia

A tradi√ß√£o crist√£, baseada no Novo Testamento, afirma que a eucaristia foi institu√≠da por Jesus Cristo na ceia que ele celebrou com seus ap√≥stolos na noite anterior √† sua paix√£o. Os textos fundamentais s√£o Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-25. Transmitem, com pequenas varia√ß√Ķes, o relato da institui√ß√£o que at√© hoje constitui a parte central das Ora√ß√Ķes eucar√≠sticas. Tamb√©m √© fundamental Jo 13,1-15, que relata o lava-p√©s que Jesus fez durante a ceia, considerado um sinal cujo conte√ļdo e significado s√£o paralelos e an√°logos ao da fra√ß√£o do p√£o: a entrega radical de sua vida ao servi√ßo da humanidade. Diz que o Senhor, tendo amado os seus, amou-os at√© o fim. Sabendo que chegara a hora de deixar este mundo para voltar para seu Pai, durante o jantar, ele lavou os p√©s dos ap√≥stolos e deixou-lhes o mandamento do amor como miss√£o. √Č o mesmo conte√ļdo da oferta do p√£o partido e do vinho repartido, sinais da entrega radical de Jesus aos seus, que os seus disc√≠pulos devem imitar em sua mem√≥ria.

Na ceia, Jesus deu √† P√°scoa, a principal festa judaica, seu ‚Äúsignificado definitivo‚ÄĚ (CEC n.1340). “O nosso Salvador, na √ļltima Ceia, na noite em que foi entregue, instituiu o sacrif√≠cio eucar√≠stico, (…) banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de gra√ßa e nos √© concedido o penhor da gl√≥ria futura‚ÄĚ (SC n.47).

Para lhes deixar um penhor desse amor, para nunca se afastar dos seus e torn√°-los participantes de sua P√°scoa, instituiu a eucaristia como memorial de sua morte e ressurrei√ß√£o e ordenou a seus ap√≥stolos (‚Äúaqueles que constitu√≠a os sacerdotes do Novo Testamento‚ÄĚ, Conc√≠lio de Trento, Denziger-H√ľnermann (DH), n.1740) para fazerem o mesmo ‚Äúem sua mem√≥ria‚ÄĚ (Lc 22,19 e 1Cor 11,24). Eucaristia e sacerd√≥cio ministerial s√£o dois temas que a tradi√ß√£o cat√≥lica manteve essencialmente ligados.

Ao falar da institui√ß√£o da eucaristia, √© necess√°rio referir-se √† compreens√£o contempor√Ęnea de “institui√ß√£o”: n√£o √© apenas o momento fundante de um sacramento, mas sobretudo a vontade de Jesus de salvar por meio de certos sinais rituais em que Ele mesmo continua a agir por meio do Esp√≠rito Santo, atrav√©s de ministros que o fazem em seu nome e em seu lugar. Ou seja, a institui√ß√£o n√£o √© apenas uma a√ß√£o do passado hist√≥rico, mas um efeito permanente dela, cada vez que o sacramento ‚Äď neste caso, a eucaristia ‚Äď √© celebrado novamente: ali est√° Jesus Cristo, agora ressuscitado e glorioso, presidindo cada assembleia que celebra sua f√©.

5.2 Memorial da Ceia

A eucaristia √© ‚Äúmemorial‚ÄĚ: ‚ÄúFazei isto em mem√≥ria (comemora√ß√£o) de mim‚ÄĚ. Este conceito √© fundamental na compreens√£o sacramental contempor√Ęnea. Permite-nos compreender melhor o mist√©rio da presen√ßa e atualiza√ß√£o da obra salv√≠fica de Cristo na liturgia, e especialmente na eucaristia. N√£o √© uma mera mem√≥ria subjetiva individual, mas uma a√ß√£o ritual e eclesial que torna atual e presente a for√ßa libertadora das a√ß√Ķes de Jesus. A eucaristia √©, portanto, o memorial do mist√©rio pascal de Cristo: n√£o s√≥ evoca ou recorda, mas tamb√©m traz, de algum modo, para o aqui e agora, a obra de salva√ß√£o realizada pela sua vida, morte e ressurrei√ß√£o. Essa obra torna-se presente e atual atrav√©s da a√ß√£o lit√ļrgica celebrada pela Igreja.

Os ritos e as palavras constituem a ‚Äúmat√©ria-prima‚ÄĚ do mundo sacramental crist√£o e, em particular, da eucaristia. Esses ritos, que s√£o a√ß√Ķes simb√≥licas realizadas pelos fi√©is em lugares e com objetos significativos, e acompanhados por palavras igualmente significativas, faladas ou cantadas, s√£o os elementos b√°sicos de toda celebra√ß√£o lit√ļrgica. Na hist√≥ria da eucaristia, o √Ęmbito significativo estendeu-se, para al√©m dos ritos e das palavras, ao pr√©dio em que √© celebrada, cujo centro visual e ritual √© ocupado pelo altar, acompanhado do amb√£o da Palavra, a outros lugares significativos dentro dele (pia batismal, sacr√°rio, sede, lugar de penit√™ncia, imagens), e para a vestimenta dos ministros. Todos estes sinais s√£o elementos que ‚Äúfalam‚ÄĚ, comunicando um sentido que ultrapassa a mera compreens√£o racional e envolve todo o ser daqueles que formam a assembleia que celebra a sua f√©. No “pr√©dio-igreja” √© realizada a “Ceia do Senhor”, que em sua forma ritual evoca a ceia de Jesus com seus disc√≠pulos antes de sua paix√£o e morte. A mesa (alimento) e a palavra (comunica√ß√£o) tamb√©m s√£o os elementos centrais de toda ceia de conv√≠vio.

A eucaristia √© memorial da √ļnica ceia hist√≥rica que Jesus celebrou com seus disc√≠pulos antes de padecer. Tanto a √ļltima ceia narrada pelos Evangelhos, como tamb√©m a paix√£o, morte e ressurrei√ß√£o de Jesus, ocorridas imediatamente depois, ocorreram apenas uma vez na hist√≥ria (ephapax). O que foi dado temporalmente se deu uma vez por todas, sacramentalmente, pela obra do Esp√≠rito Santo, pode ser realizado ‚Äúem mem√≥ria sua‚ÄĚ todas as vezes e em qualquer lugar que um grupo de crist√£os queira celebrar sua f√©, ‚Äúat√© que Ele venha‚ÄĚ (1Cor 11,26), atualizando hic et nunc (aqui e agora) a salva√ß√£o ocorrida no mist√©rio pascal. Assim, cada eucaristia na hist√≥ria participa, sacramentalmente, na √ļnica ceia do passado temporal por obra do Esp√≠rito Santo. Cada eucaristia √© um memorial ou comemora√ß√£o da √ļltima ceia.

5.3 Memorial do sacrifício

SC n. 47 afirma: ‚ÄúO nosso Salvador instituiu na √ļltima Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrif√≠cio eucar√≠stico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos s√©culos, at√© Ele voltar, o sacrif√≠cio da cruz (…)”.

Assim como √© um memorial da ceia, a eucaristia √© tamb√©m um memorial do √ļnico sacrif√≠cio hist√≥rico de Cristo na cruz. Isso √© comumente expresso simplesmente dizendo que a eucaristia √© sacrif√≠cio. Mas essa express√£o pode suscitar interpreta√ß√Ķes equivocadas. Tal como acontece com a ceia, quando se diz que a eucaristia √© sacrif√≠cio, n√£o se afirma em sentido hist√≥rico, pois historicamente Jesus morreu uma s√≥ vez na cruz, mas em sentido sacramental ou memorial: a eucaristia √© o “sacramento do sacrif√≠cio (da cruz)”. No entanto, isso n√£o explica por que ou em que sentido a pr√≥pria cruz, ou seja, a morte hist√≥rica de Jesus Cristo crucificado, √© um sacrif√≠cio. O livro b√≠blico que desenvolve essa ideia √© a carta aos Hebreus (Hb 7,26-27; 10,1-14), afirmando que Cristo √© o √ļnico sacerdote que oferece um √ļnico sacrif√≠cio (oferecendo-se na cruz), uma vez e para todos. Ou seja, o sacrif√≠cio √© feito por Jesus se oferecendo. Da√≠ a express√£o que ele √© ‚Äúsacerdote, v√≠tima e altar‚ÄĚ. Fora da B√≠blia, a Didaqu√™, escrita contempor√Ęnea aos √ļltimos livros do Novo Testamento, √© a primeira escrita que fala da eucaristia como um “sacrif√≠cio”.

A eucaristia n√£o √© “sacrif√≠cio” no sentido usual da palavra, isto √©, uma oferta feita a Deus para atrair algum favor, expiar uma falta ou purificar-se. O Deus de Jesus Cristo n√£o precisa de sangue ou sacrif√≠cios humanos ‚Äď como a terr√≠vel tortura e morte na cruz ‚Äď para amar e favorecer seu povo. Jesus n√£o se ofereceu como sacrif√≠cio nesse sentido. O ‚Äúcordeiro de Deus‚ÄĚ, Jesus Cristo, que evoca aquele cordeiro sacrificado em cada P√°scoa judaica para ser comido em fam√≠lia, recordando a refei√ß√£o r√°pida de cordeiro assado, p√£o sem fermento e verduras amargas antes de partir para o √™xodo, n√£o pode ser entendido como uma oferenda apresentado pelo ser humano como um sacrif√≠cio a Deus, para apazigu√°-lo ou obter favores.

Por outro lado, a cr√≠tica prof√©tica do Antigo Testamento j√° havia alertado que os sacrif√≠cios sangrentos (de animais sacrificados de maneiras diferentes) n√£o agradam a Deus se n√£o implicam uma vida di√°ria coerente com a adora√ß√£o. “Eu quero miseric√≥rdia, n√£o sacrif√≠cios”, diz Oseias 6,6, profetizando contra a adora√ß√£o vazia. E Isa√≠as diz: ‚ÄúEstou farto de holocaustos de carneiros‚Ķ e o sangue de touros e bodes n√£o me agrada. (…) Buscar o que √© justo, dar seus direitos aos oprimidos, fazer justi√ßa aos √≥rf√£os, defender a causa da vi√ļva ‚ÄĚ(Is 1,11,17). Um sacrif√≠cio ‚Äúespiritual‚ÄĚ, isto √©, ora√ß√£o crente e amor ao pr√≥ximo, agrada mais a Deus do que sacrif√≠cios materiais de animais.

O que Jesus fez foi dar a sua vida por amor extremo, radical, pela humanidade, coroando assim uma vida e um ministério de serviço humilde à humanidade, representado no lava-pés que o Evangelho segundo João coloca no lugar da Ceia do Senhor. Jesus não queria morrer da maneira que vislumbrava: daí a sua oração pungente no jardim do Getsêmani. A sua entrega à vontade do Pai é consequência de uma missão entregue à missão de dar vida, que com a sua morte teria a sua expressão máxima, a ressurreição dos mortos. Só nesse sentido pode-se dizer que a morte de Cristo foi um sacrifício. Toda a sua vida foi ser pão partido/corpo entregue e vinho/sangue derramado por seu próximo. No sacrifício da cruz culmina uma atitude permanente de Jesus, que ele entendeu como essencial na missão confiada pelo Pai: o despojo de si mesmo assumindo a condição de escravo (Fl 2,6-8), servindo a humanidade até a entrega voluntária da própria vida.

O caráter sacrificial da eucaristia, sempre afirmado pela doutrina da Igreja Católica, com extrema força depois que Lutero e a Reforma do século XVI o negaram, deve ser entendido como uma participação memorial na entrega voluntária e extrema de sua vida, aceita por Jesus Cristo como consequência da sua missão no mundo. Ao mesmo tempo, e daí o verdadeiro sentido da apresentação das ofertas na celebração da eucaristia, a assembleia atualiza o sentido sacrificial da sua própria vida cristã, ou seja, oferece-se como instrumento do amor de Deus pela humanidade, e está empenhada em perpetuar a missão de Cristo de anunciar e fazer presente o Reino de Deus no mundo.

A eucaristia é sacrifício neste horizonte. Na medida em que é um dom recebido de Deus, a eucaristia é memorial do seu amor extremo e, na medida em que é oferta a Deus, é sacrifício: não para obter algo dele, mas para dar a própria vida por seu Reino, como Jesus.

5.4 A presença real de Cristo

A Igreja sempre afirmou que, nas esp√©cies “eucaristizadas” do p√£o e do vinho, Cristo est√° presente. A base b√≠blica fundamental s√£o as palavras de Jesus nas hist√≥rias da institui√ß√£o: “Este √© o meu corpo … este √© o meu sangue” (Mt 26,26-28). A f√© na presen√ßa de Cristo na celebra√ß√£o e nas esp√©cies eucar√≠sticas est√° presente desde o in√≠cio da forma√ß√£o da liturgia crist√£.

Veio então, no desenvolvimento histórico da eucaristia, a veneração das espécies, principalmente do pão, quando sobravam pedaços após a celebração. Eram conservados com respeito para serem distribuídos aos enfermos ou impossibilitados de participar da eucaristia e, posteriormente, passaram a ser objeto de devoção e mantidos em sacrários ou tabernáculos feitos especialmente para esse fim. Finalmente, em paralelo com a perda do sentido de comunhão eucarística, quando ninguém ou muito poucos já se aproximavam para comungar, a adoração do pão consagrado desenvolveu-se mais intensamente como uma liturgia própria e independente da celebração da eucaristia, e a construção dos altares barrocos, que muitas vezes exaltavam a guarda para a adoração em exuberantes retábulos que ocupavam toda a largura e altura da abside das igrejas.

A presença de Cristo na eucaristia é firme doutrina da Igreja Católica, que também as grandes igrejas reformadas partilham, embora com nuances diferentes na sua interpretação. O Concílio de Trento formulou dogmaticamente esta afirmação dizendo que sob as espécies consagradas o próprio Cristo, vivo e glorioso, está presente de maneira verdadeira, real e substancial, com seu Corpo, seu Sangue, sua alma e sua divindade (DH n.1640, 1651) .

No entanto, a presen√ßa real de Cristo na eucaristia nunca foi f√°cil de entender racionalmente; menos ainda para a mentalidade t√©cnico-cient√≠fica contempor√Ęnea. Percebe-se com muita clareza, como acontece com todas as verdades crist√£s fundamentais, que √© somente pela f√© que pode ser aceita. A pergunta sobre como isso pode acontecer sempre acompanhou os crist√£os.

5.5 A transubstanciação

Foi a permanente dificuldade em compreender racionalmente a afirma√ß√£o de que o p√£o e o vinho consagrados s√£o o corpo e o sangue de Cristo ‚Äď quando o bom senso e a evid√™ncia dos sentidos da vis√£o, olfato, paladar e tato dizem que s√≥ h√° p√£o e vinho ‚Äď que levou, j√° no final da Idade M√©dia, a complexas reflex√Ķes e √°rduas discuss√Ķes sobre como ocorre a mudan√ßa nas esp√©cies. O resultado foi a teoria finalmente aceita pela Igreja Cat√≥lica: a doutrina da transubstancia√ß√£o (DH n.1642).

Segundo ela, no relato da institui√ß√£o, ocorre a transubstancia√ß√£o do p√£o e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo. A doutrina explica que ocorre uma mudan√ßa de subst√Ęncia, ou de ess√™ncia, do p√£o e do vinho, que se tornam Corpo e Sangue de Cristo, mas sem mudar seus acidentes de p√£o e vinho (apar√™ncia, peso, cor, sabor, cheiro e textura), de modo que, embora mantenham as caracter√≠sticas do p√£o e do vinho, mudaram de ess√™ncia, sendo agora, verdadeiramente, a do Corpo e Sangue de Cristo.

A doutrina da transubstancia√ß√£o continua a ser uma explica√ß√£o plaus√≠vel de como se d√° a transforma√ß√£o do p√£o e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, mas tem sido complementada ou ampliada por outras contribui√ß√Ķes na contemporaneidade, que criticam sua concentra√ß√£o no que acontece com a esp√©cie sem considerar um fator essencial da eucaristia: seu significado e sua finalidade; isto √©, eles afirmam que a doutrina da transubstancia√ß√£o considera as esp√©cies estaticamente e postulam que a transforma√ß√£o das esp√©cies deve ser entendida de forma din√Ęmica e de acordo com o significado do sacramento da eucaristia: alimento espiritual, for√ßa para a vida eclesial. Da√≠ os nomes dessas teorias: transignifica√ß√£o e transfinaliza√ß√£o.

Especialmente interessante √© a segunda, pois Jesus, na √ļltima ceia, n√£o se limitou a dizer: “Este √© o meu Corpo, este √© o meu Sangue”; em vez disso, ele fez os gestos e pronunciou essas palavras com um prop√≥sito: para distribuir aquela comida e aquela bebida entre os comensais e serem tamb√©m consumidas por eles. Quer dizer: √† afirma√ß√£o de que este p√£o √© o seu Corpo e que o vinho √© o seu Sangue, o seu consumo na ceia festiva e fraterna pertence teol√≥gica e ritualmente, como uma √ļnica a√ß√£o lit√ļrgica. E, ainda mais, este consumo visa alimentar a vida interior e a fidelidade ao seguimento de Cristo por parte de quem o faz, n√£o s√≥ individualmente, mas como Igreja, Corpo de Cristo. N√£o basta considerar a transubstancia√ß√£o em si, sem faz√™-la juntamente com sua finalidade. √Č por isso que n√£o poderia haver uma eucaristia em que apenas o sacerdote celebrante comungasse, visto que √© celebrada para a comunh√£o eucar√≠stica, embora parte das esp√©cies sejam preservadas para serem distribu√≠das posteriormente ou para a adora√ß√£o eucar√≠stica.

5.6 A questão das espécies e a fórmula essencial

P√£o de farinha de trigo feito na hora e vinho natural, de uva, n√£o corrompido, s√£o a “mat√©ria” do sacramento. Um pouco de √°gua deve ser misturada ao vinho. O C√≥digo de Direito Can√īnico especifica que ‚Äú segundo a antiga tradi√ß√£o da Igreja latina, o sacerdote utilize o p√£o √°zimo, onde quer que celebre‚ÄĚ (CIC n.926 ¬ß1). O p√£o √°zimo √© o p√£o feito sem fermento. Os ritos orientais geralmente usam p√£o fermentado para a eucaristia.

A comunh√£o, de acordo com a Introdu√ß√£o √† √ļltima edi√ß√£o do Missal Romano (2002), pode ser oferecida em muitas ocasi√Ķes nas duas esp√©cies (com p√£o e vinho), mais do que no passado. Mas a comunh√£o segue v√°lida sob a esp√©cie √ļnica do p√£o e, se necess√°rio, quando algu√©m n√£o est√° em condi√ß√Ķes de engolir s√≥lidos, sob a √ļnica esp√©cie do vinho. Mais que a validade, a verdade do sinal aconselha comungar habitualmente sob as duas esp√©cies, uma vez que isso foi feito pelo Senhor na √ļltima ceia e assim se fez durante s√©culos em todas as comunidades crist√£s.

Todos os sacramentos t√™m uma f√≥rmula essencial, a cuja proclama√ß√£o est√° ligada a sua validade e que tradicionalmente √© muito cuidada pela Igreja. Na eucaristia, esta f√≥rmula √© considerada a Ora√ß√£o eucar√≠stica completa, desde o di√°logo antes do Pref√°cio √† doxologia com o Am√©m final. O cerne da ora√ß√£o √© constitu√≠do pelo relato da institui√ß√£o, que n√£o corresponde literalmente a nenhum dos relatos b√≠blicos mencionados acima (Mt, Mc, Lc e 1Cor), mas cont√©m o essencial deles: ‚ÄúPeguem e comam todos dele, porque este √© o meu Corpo, que ser√° entregue por voc√™s. / Tomem e bebam todos dele, porque este √© o c√°lice do meu Sangue, Sangue da nova e eterna alian√ßa, que se derramar√° por voc√™s e por muitos para remiss√£o dos pecados. Fa√ßam isso em mem√≥ria de mim.”

6 A eucaristia e a Igreja

S√£o Paulo afirma que os crist√£os s√£o o corpo de Cristo e Cristo a sua cabe√ßa (1Cor 12,13-30). Esta imagem tem uma express√£o particularmente intensa na celebra√ß√£o da eucaristia. Nela os fi√©is se re√ļnem como “assembleia” e se identificam como “igreja” de Cristo (igreja deriva do grego ecclesia, que originalmente significa assembleia). Cada vez que celebram a eucaristia, os crist√£os se constituem uma comunidade de disc√≠pulos que continua a miss√£o de Jesus na hist√≥ria. Celebram juntos em seu nome e ‚Äúem sua mem√≥ria‚ÄĚ, presididos pelo pr√≥prio Cristo, presente no ministro (SC n.7) e na pr√≥pria assembleia, que √© o seu Corpo.

Toda a liturgia, e de modo muito especial a eucaristia, √© “exerc√≠cio do sacerd√≥cio de Cristo”, segundo a express√£o de SC n.7. Aqui est√° a raiz teol√≥gica da participa√ß√£o ativa que a reforma do Vaticano II promoveu na liturgia. Todo o Cristo, isto √©, Cabe√ßa e Corpo, exerce seu sacerd√≥cio na celebra√ß√£o da eucaristia. Portanto, n√£o √© o sacerdote ministro sozinho ou isolado, mas ele juntamente com toda a assembleia, que pelo batismo se constituiu em “povo sacerdotal” (1Pe 2,9), e cada homem ou mulher batizados, em “sacerdotes, profetas e reis‚ÄĚ (Ritual do Batismo, ora√ß√£o da un√ß√£o com crisma), que os torna protagonistas da liturgia pela sua participa√ß√£o ativa, plena, consciente e fecunda (SC n.48). A eucaristia, cada vez que √© celebrada, √© uma express√£o de toda a Igreja, um sinal hist√≥rico da Igreja celeste.

A participa√ß√£o ativa dos fi√©is na liturgia foi uma das grandes conquistas do Conc√≠lio Vaticano II. Desde ent√£o, se quis que os crist√£os n√£o assistissem √† eucaristia como estranhos e mudos espectadores, mas, conscientes de que na eucaristia h√° um encontro com Jesus Cristo vivo e, ao mesmo tempo, compreendendo-o tanto quanto poss√≠vel, dela participem pela intimidade da f√©, pelos ritos e ora√ß√Ķes, servi√ßos e minist√©rios, can√ß√Ķes e gestos simb√≥licos, na riqueza da celebra√ß√£o. A renova√ß√£o dos ritos, dos textos e dos cantos, e especialmente os esfor√ßos de incultura√ß√£o t√™m facilitado este prop√≥sito, embora hoje, como j√° foi referido, a eucaristia sofra outras amea√ßas das nossas sociedades secularizadas.

A Igreja se alimenta da eucaristia: dela vive porque é o sacramento do caminho, da peregrinação cristã pelas luzes e sombras da vida e da história, continuando a missão de Jesus Cristo, para a plenitude do Reino. A relação entre a eucaristia e a Igreja enfatiza particularmente a dimensão soteriológica (relativa à salvação) e a dimensão escatológica (relativa ao fim dos tempos), que também estão intimamente ligadas entre si. Quando celebra a eucaristia, a Igreja é uma Igreja que experimenta a salvação e se nutre para ser libertadora e, ao mesmo tempo, participando antecipadamente na liturgia celeste (SC n.8), é uma Igreja da esperança.

Isso n√£o significa que a vida dos crist√£os se reduza √† eucaristia; significa antes que, sendo a eucaristia o √°pice e a fonte (LG n.11) da vida da Igreja, √© o momento em que toda a nossa vida √© oferecida a Deus e dele recebe for√ßa para continuar o seu caminho. A eucaristia sup√Ķe a vida e √© para a vida, assim como sup√Ķe a f√© e deve fortalec√™-la. Todos os sacramentos alimentam a vida crist√£, mas a eucaristia o faz de uma forma √ļnica, como encontro do crente no centro da sua f√©: Jesus Cristo morreu e ressuscitou para que todos tenham ‚Äúvida em abund√Ęncia‚ÄĚ (Jo 10,10).

A participação ativa na celebração da eucaristia é um sinal de maturidade dos cristãos. Responder os diálogos com o ministro que preside, cantar no coro, saudar os vizinhos no rito da paz e, sobretudo, comungar são parte integrante de uma boa celebração da eucaristia. São um sinal visível de que não é uma simples festa humana, mas um encontro pessoal e eclesial com Cristo ressuscitado e vivo na humanidade.

7 A celebração, em síntese

A liturgia da eucaristia desenvolve-se segundo uma estrutura fundamental que se formou e consolidou desde muito cedo e que se conserva at√© hoje. Compreende dois grandes momentos que formam uma unidade b√°sica, ‚Äúum √ļnico ato de culto‚ÄĚ (SC n.56): a liturgia da Palavra e a liturgia eucar√≠stica. A elas est√£o associados os dois principais centros significativos do espa√ßo lit√ļrgico: o altar e o amb√£o, que devem ser sempre √ļnicos. √Č assim que falamos das ‚Äúduas mesas‚ÄĚ: a da palavra e a da eucaristia. Essas duas grandes partes s√£o enquadradas nos ritos iniciais e nos ritos finais. Ao primeiro pertencem o ato penitencial e o canto de Gl√≥ria; ao segundo, a b√™n√ß√£o final que envia a assembleia para vivenciar o que foi celebrado.

A reforma lit√ļrgica do Conc√≠lio Vaticano II enfatizou de forma marcante a import√Ęncia da Sagrada Escritura na eucaristia e em toda a liturgia da Igreja. Para isso enriqueceu o ciclo anual anterior, que se repetia a cada ano e oferecia muito menos passagens b√≠blicas e muita repeti√ß√£o de algumas delas, planejando um ciclo de tr√™s anos para os domingos e dois para as missas da semana (feriais), com uma riqueza muito maior de passagens b√≠blicas cujo crit√©rio de sele√ß√£o e distribui√ß√£o foi que quem celebra a eucaristia todos os domingos, nos tr√™s anos, tenha uma vis√£o global de toda a Sagrada Escritura. Os ciclos dominicais (ou “anos”) eram chamados de A, B e C, e cada um deles recebia a leitura de um Evangelho: Mateus para o ciclo A, Marcos e Jo√£o para o ciclo B e Lucas para o C. Para a eucaristia dominical, estabeleceram-se ainda leituras do Antigo e do Novo Testamento.

Para as eucaristias feriais foi estabelecido um ciclo de dois anos, denominado I (anos √≠mpares) e II (anos pares), em que o Evangelho se repete todos os anos, mas a primeira leitura √© diferente em anos √≠mpares e pares. Tanto em quantidade como sobretudo em qualidade (crit√©rios de sele√ß√£o dos textos), a B√≠blia tem, desde a reforma lit√ļrgica do Conc√≠lio Vaticano II, uma presen√ßa digna do seu estatuto de ‚Äúmesa da Palavra‚ÄĚ, parte essencial da eucaristia e n√£o mera prepara√ß√£o para a comunh√£o. Em rela√ß√£o √† riqueza b√≠blica, que deve ser lida e acolhida como palavra viva, isto √©, como ilumina√ß√£o da realidade da assembleia celebrante, a reforma pede aos sacerdotes que fa√ßam uma homilia todos os domingos e, com sorte, em cada eucaristia, e que seja baseada na proclama√ß√£o da Palavra de Deus.

A celebra√ß√£o da eucaristia n√£o foi e n√£o pode ser est√°tica. Mantendo o cerne testemunhado pela B√≠blia, especialmente todo o Novo Testamento e a primeira pr√°xis crist√£, carrega o destino de tudo o que √© humano: se desenvolve, se adapta, muda ao longo da hist√≥ria. A esclerose de suas normas ou a inflexibilidade para adapt√°-las √†s culturas e aos grupos humanos s√≥ a alienou do Povo de Deus, que precisa celebrar sua f√© e sempre encontrar uma maneira de faz√™-lo. Que esta forma mantenha sempre a eucaristia em primeiro lugar, √© tarefa permanente da Igreja ser fiel a Jesus, que nos pediu que¬† fiz√©ssemos isso “em sua mem√≥ria”.

Guillermo Rosas, SSCC. Pontificia Universidad Católica de Chile. Texto original espanhol. Postado em 30 de dezembro de 2020.

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