Ofício Divino das Comunidades

Sum√°rio

1 Como tudo começou

2 Breve história da Liturgia das Horas

2.1 Origens

2.2 A reforma da Liturgia das Horas

3 Da Liturgia das Horas ao Ofício Divino das Comunidades

3.1 Alguns princípios norteadores

3.2 A sacramentalidade do Ofício Divino das Comunidades

3.3. A santificação do tempo

3.4. O lucern√°rio

3.5 Oração da Igreja

4 Uma palavra final

Referências

1 Como tudo começou

A reforma da Liturgia das Horas empreendida pela Igreja cumpriu a importante tarefa de recuperar o sentido eclesial da oração, seu caráter celebrativo, e a mais genuína tradição de associar a oração, pelas horas do dia, ao mistério pascal (cf. IGLH, p.33.38-39). Contudo, é consenso que a versão oficial do Ofício Divino no rito romano manteve características predominantemente clericais e monásticas (TAFT, 1999, p.303-305; JOIN-LAMBERT, 2009, p.83-90; p.99-100). No Brasil, a sua versão traduzida tardou a chegar na capilaridade do tecido eclesial, dificultando ainda mais a recepção do ofício reformado no período pós-conciliar (LIMA, 2011, p.31-34). Mas as dificuldades converteram-se em oportunidade, pois iniciou-se um processo genuíno de recepção a partir da experiência de oração dos fiéis.

Encontram-se registros na CNBB, que datam de 1986, sobre a formação de um grupo que se encarregaria de elaborar uma proposta alternativa e popular de Ofício, visando a participação dos fiéis na Oração da Igreja. Mas a ideia de um ofício divino popular começou bem antes, na década de 1970, por iniciativa de Geraldo Leite Bastos, presbítero da arquidiocese de Olinda e Recife, então pároco da Comunidade de Ponte dos Carvalhos, na periferia do Recife. Padre Geraldo havia iniciado uma prática diária de oração, sob o impulso do Concílio Vaticano II. Em 1987, em uma entrevista, ele fala dessa experiência:

H√° 17 anos, n√≥s, da comunidade de Ponte dos Carvalhos, j√° cant√°vamos o Of√≠cio. Eu deixei escrito no Livro de Tombo da par√≥quia o in√≠cio de quando come√ßamos a fazer uma ora√ß√£o diferente da missa. Acho que a nossa experi√™ncia come√ßou por dois motivos: primeiro porque a missa tinha se tornado um tanto formal. Era necess√°rio encontrar um outro jeito de rezar que n√£o fosse s√≥ missa. (…) Outro motivo foi o contato com os irm√£os de Taiz√©, que haviam chegado a Olinda. Participei diversas vezes com eles e notei que tinham uma experi√™ncia de ora√ß√£o diferente do Mosteiro de S√£o Bento. Comecei a pensar que o povo poderia rezar o Of√≠cio. Naqueles tempos dif√≠ceis da Igreja, muitas vezes eu ficava at√© de madrugada rezando um Of√≠cio mal rezado, lendo aquela salmodia toda… Isso me levou a imaginar um brevi√°rio simplificado, popular, de modo que eu, que tinha tanta dificuldade de rezar sozinho, encontrasse um jeito de rezar essa ora√ß√£o com o povo. (LEITE BASTOS, 1988, p.56)

¬†Nesse tempo, a Igreja do Brasil vivia o impulso da recep√ß√£o do Conc√≠lio Vaticano II, assumida, sobretudo, pela confer√™ncia do episcopado latino-americano, em Medell√≠n. Sentia-se, nesse contexto, a necessidade de uma refer√™ncia de ora√ß√£o que melhor correspondesse √† experi√™ncia das Comunidades Eclesiais de Base, que emergiam como express√£o concreta da Igreja povo de Deus. Atentas aos princ√≠pios e proposi√ß√Ķes conciliares, as CEBs queriam aprofundar o caminho aberto pela piedade popular que custodiou tesouros da tradi√ß√£o como o Of√≠cio parvo da Bem-aventurada Virgem Maria e o costume de rezar em determinadas horas do dia.

Mais tarde, em 1986, o padre Marcelo Barros, ent√£o prior do mosteiro da Anuncia√ß√£o em Goi√°s, assessor das Comunidades de Base, reuniu um grupo de pessoas para elaborar um Of√≠cio Divino acess√≠vel √†s comunidades. Tomou como inspira√ß√£o a experi√™ncia do padre Geraldo Leite e como refer√™ncia imediata a Liturgia das Horas reformada pelo Conc√≠lio Vaticano II, que j√° estava traduzida desde 1971. Al√©m disso, foi decisiva nesse processo a conviv√™ncia com a pequena comunidade do mosteiro da Anuncia√ß√£o, como lugar de experimentar a celebra√ß√£o do Of√≠cio com a participa√ß√£o dos vizinhos. Em dezembro de 1988, foi publicada a primeira edi√ß√£o do Of√≠cio Divino das Comunidades (ODC), que, em 2018, completou 30 anos com sua terceira edi√ß√£o, ocasi√£o em que j√° somava 21 reimpress√Ķes.

Trata-se de uma experiência nascida no Brasil, em contexto de recepção do Concílio Vaticano II na América Latina, à luz das Conferências Latino-americanas de Medellín e Puebla. Embora o ODC tenha sido adotado em assembleias da Pastoral da Juventude e outros movimentos eclesiais, no contexto de América Latina, não existem iniciativas similares ao ODC em outros países do Continente.

2 Breve história da Liturgia das Horas

2.1 Origens

O Of√≠cio Divino √© uma concretiza√ß√£o da tradi√ß√£o que remonta aos in√≠cios da Igreja. Nos Atos dos Ap√≥stolos, encontramse alus√Ķes de uma pr√°tica de ora√ß√£o nas horas do dia, em continuidade com o ritmo di√°rio da ora√ß√£o judaica. No s√©culo IV, esse tipo de liturgia havia alcan√ßado estabilidade: laudes e v√©speras eram celebradas diariamente, em comunidade (ELBERTI, 2011, p.166). Segundo Et√©ria, a peregrina que relatou a liturgia em Jerusal√©m nesse mesmo s√©culo, tratava-se de uma pr√°tica di√°ria, ligada √†s horas, sobretudo ao entardecer e ao amanhecer, em mem√≥ria do crucificado-ressuscitado. Contava-se com a participa√ß√£o do povo, homens e mulheres e at√© crian√ßas. Era uma liturgia expressiva, n√£o s√≥ com salmos e hinos, mas com gestos e s√≠mbolos, de maneira simples e popular (cf. ET√ČRIA, 1977, n.24,1-7). Esse modelo de of√≠cio celebrado nas catedrais, com toda a densidade b√≠blica e teol√≥gica, simples e acess√≠vel ao povo, tendia a alimentar a vida do crist√£o comum.

Contudo, com o tempo, a ora√ß√£o da Igreja sofreu um encolhimento at√© o ponto de restringir-se a uma determinada parcela do povo de Deus, o que ocorreu por v√°rios motivos, como a fixa√ß√£o do latim como l√≠ngua lit√ļrgica, a multiplica√ß√£o das horas em alguns contextos, a complica√ß√£o e satura√ß√£o dos ritos, que excluiu o povo da participa√ß√£o e da compreens√£o das palavras. Segundo Pietro Sorci, a causa principal do desaparecimento da ora√ß√£o hor√°ria se deve √† eucaristiza√ß√£o (celebra√ß√£o de missas cotidianas e, √†s vezes, de mais de uma; ocorr√™ncia de horas santas de adora√ß√£o ao Sant√≠ssimo) e a tudo o que a ela diz respeito (clericaliza√ß√£o, eclesiologia de eleitos, sacramentaliza√ß√£o), em detrimento da evangeliza√ß√£o, incluindo a insuficiente forma√ß√£o nos semin√°rios. Al√©m disso, o apagamento dessa forma de ora√ß√£o tamb√©m se deveu √† recita√ß√£o individual imposta ao clero, que deixou de reunir o povo para celebrar comunitariamente o Of√≠cio (SORCI apud PEREIRA SILVA, 2015, p.15).

Essa realidade trouxe para o Of√≠cio Divino consequ√™ncias celebrativas, como o empobrecimento da gestualidade, a transforma√ß√£o do que era express√£o de gratuidade em peso, infligido pela ‚Äúobriga√ß√£o‚ÄĚ. A desconex√£o com a hora, j√° que, a recita√ß√£o da ora√ß√£o era muitas vezes, feita em qualquer momento do dia, levou a uma diminui√ß√£o do car√°ter pascal do Of√≠cio. Nos ambientes mon√°sticos, ao contr√°rio, o Of√≠cio manteve seu estilo comunit√°rio, ligado √†s horas e ao ano lit√ļrgico, mas em latim e com acr√©scimos requeridos pela condi√ß√£o da vida mon√°stica. Dessa forma, o que era simples e popular tornou-se complexo e com sobrecarga de elementos, com salmos, hinos, leituras, litanias, of√≠cios di√°rios em honra da Virgem Maria e dos defuntos, entre outros.

O povo, em sua grande maioria entregue, muitas vezes, √† pr√≥pria sorte, sem qualquer oportunidade de uma verdadeira inicia√ß√£o √† f√© e de celebra√ß√£o do mist√©rio, buscou criativamente nas devo√ß√Ķes o alimento da f√© crist√£ como atesta o Diret√≥rio sobre liturgia e piedade popular:

Do século VII até a metade do século XV, determina-se e acentua-se, progressivamente, a diferenciação entre liturgia e piedade popular, até se criar um dualismo celebrativo: paralelamente à liturgia, oficiada em latim, desenvolve-se uma piedade popular comunitária, que se expressa em língua vernácula. (CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO, 2003, n.29)

Em rela√ß√£o ao Of√≠cio, o ros√°rio, com 150 Ave-Marias, substitui os 150 salmos; o Angelus, rezado tr√™s vezes ao dia, ocupa as horas do Of√≠cio; o Of√≠cio de Nossa Senhora re√ļne os hinos de todas as horas do Of√≠cio da M√£e do Senhor e √© rezado numa hora s√≥, imitando o clero na desconex√£o com a hora.

2.2 A reforma da Liturgia das Horas

O prop√≥sito da reforma do Conc√≠lio Vaticano II a respeito do Of√≠cio Divino foi o de fazer essa pr√°tica voltar √† condi√ß√£o de ‚Äúora√ß√£o p√ļblica e comum do povo de Deus‚ÄĚ (IGLH, n.1), recuperando sua dimens√£o de a√ß√£o comunit√°ria, ora√ß√£o de Cristo ao Pai e ora√ß√£o da Igreja com Cristo (e a Cristo, segundo santo Agostinho), fazendo mem√≥ria da sua p√°scoa. Al√©m disso, o Conc√≠lio mudou a linguagem rubricista e clerical da Liturgia das Horas para uma linguagem eclesial e pascal, gratuita e espiritual.

Destacamos, a seguir, quatro aspectos da reforma.

O Of√≠cio Divino √© liturgia. Como toda a liturgia, o Of√≠cio Divino √© uma a√ß√£o ritual, comunit√°ria, eclesial, e n√£o uma a√ß√£o particular (cf. SC n.26). Trata-se, de uma lit-URGIA (lit = povo; urgia = a√ß√£o, of√≠cio, trabalho): a√ß√£o do povo e a√ß√£o de Deus (divina) a servi√ßo do povo. √Č a√ß√£o lit√ļrgica como qualquer outra. Nela, os mesmos elementos que fazem parte das demais celebra√ß√Ķes da Igreja (hinos, salmos, leituras b√≠blicas, sil√™ncio, ora√ß√Ķes, m√ļsica, gestos simb√≥licos) foram organizados levando em conta a sua peculiaridade: a mem√≥ria do mist√©rio pascal ligado √†s horas no ritmo di√°rio, articulando-se tamb√©m com o ritmo semanal e anual.

O povo como sujeito. O Conc√≠lio Vaticano II quis devolver a todo o povo o direito de celebrar o Of√≠cio Divino, embora tenha ficado mais no √Ęmbito do clero e da vida consagrada. Mas recomendou que os leigos ‚Äúrecitem o Of√≠cio Divino, quer juntamente com os sacerdotes, quer reunidos entre si, e at√© cada um em particular‚ÄĚ (SC n.100). A Instru√ß√£o Geral sobre a Liturgia das Horas enfatiza que ‚Äúo louvor da Igreja n√£o √© reservado aos cl√©rigos e monges, nem por sua origem, nem por sua natureza, mas pertence a toda comunidade crist√£‚ÄĚ (IGLH n.270). O Of√≠cio Divino √© a√ß√£o lit√ļrgica se o povo se torna sujeito orante, no exerc√≠cio do sacerd√≥cio batismal oferecendo o sacrif√≠cio de louvor (cf. GARCIA, 2015, p.78).

A verdade das horas. A reforma do Conc√≠lio Vaticano II chamou a aten√ß√£o para a finalidade espec√≠fica do Of√≠cio Divino: ‚Äúconsagrar, pelo louvor a Deus, o curso diurno e noturno do tempo‚ÄĚ (SC n.84). Enfatizou a verdade das horas (SC n.94), destacando, como horas principais, Laudes, rezadas ao chegar a luz do dia, em mem√≥ria da ressurrei√ß√£o de Jesus, e V√©speras, celebradas ao p√īr-do-sol, hora que lembra a √ļltima Ceia de Jesus e a cruz (Lc 22,53). A Liturgia das Horas √© a Ora√ß√£o da Igreja, unida ao Cristo em sua ora√ß√£o de louvor, a√ß√£o de gra√ßas e intercess√£o, fazendo mem√≥ria da sua p√°scoa.

Foi o pr√≥prio Salvador quem vinculou o nosso tempo √† reden√ß√£o: ‚ÄúHoje se cumpriu esta palavra das Escrituras‚ÄĚ (Lc 4,21), em outras palavras, hoje a Palavra proclamada transforma o tempo em liberta√ß√£o e gra√ßa (cf. GARCIA, 2015, p.77). Na Liturgia das Horas, a palavra de Deus pronunciada, proclamada, ouvida, vivida e atualizada, interpreta o tempo como kair√≥s, evento de salva√ß√£o, tempo favor√°vel, memorial da nova alian√ßa (cf. GARCIA, 2015, p.72). H√°, no ato de celebrar, uma profunda rela√ß√£o entre as horas de Jesus e as horas da comunidade que ora, entre a sua paix√£o e as marcas da paix√£o que as pessoas trazem em seus corpos (cf. SC n.12; 2Cor 4,10-11).

Fonte de piedade. A inten√ß√£o da reforma do Of√≠cio Divino foi a de torn√°-lo fonte de piedade e alimento da ora√ß√£o pessoal (SC n.90). A liturgia das horas √© express√£o de alian√ßa e, consequentemente, fonte de transforma√ß√£o pascal. √Č glorifica√ß√£o e santifica√ß√£o. Por isso √© determinante que participemos com inteireza e acompanhemos com a mente [e o cora√ß√£o] as palavras [e os gestos], e cooperemos com a gra√ßa divina para n√£o a recebermos em v√£o (cf. SC n.11 e 90).

Apesar desses avan√ßos, a liturgia das horas se manteve bastante ‚Äúmon√°stica‚ÄĚ em sua forma. H√° quem diga que dos pontos fracos da reforma lit√ļrgica o mais evidente √© a reforma da Liturgia das Horas. No movimento de volta √†s fontes, a reforma n√£o conseguiu restaurar a simplicidade e a ritualidade da pr√°tica primitiva do Of√≠cio das Catedrais, com toda a riqueza de minist√©rios, de s√≠mbolos e ritos, celebrada com a participa√ß√£o do povo, como observado acima. A reforma levou mais em conta o clero e a vida consagrada do que o povo. Al√©m disso, devido ao peso hist√≥rico da obriga√ß√£o, na pr√°tica, h√° dificuldade em passar da recita√ß√£o √† celebra√ß√£o. A vers√£o brasileira da Liturgia das Horas (LH) √© primorosa do ponto de vista da tradu√ß√£o, sobretudo dos salmos, adaptados ao canto. Mas carrega em si esses limites da edi√ß√£o t√≠pica, como o fato, inclusive, de n√£o ter avan√ßado em dire√ß√£o √† incultura√ß√£o, t√£o desejada pelo pr√≥prio Conc√≠lio (cf. SC n.37-40).

3 Da Liturgia das Horas ao Ofício Divino das Comunidades

3.1 Alguns princípios norteadores

O Ofício Divino das Comunidades (ODC), tomando como referência imediata para a sua elaboração a Liturgia das Horas renovada, buscou oferecer ao povo uma versão popular da tradição de oração da Igreja.

De um lado, foi fiel √† Liturgia das Horas (LH), porque obedeceu a mesma estrutura, a mesma teologia e a mesma sequ√™ncia ritual. Como na LH, toda a elabora√ß√£o ritual do ODC se destina a expressar o mist√©rio do crucificado-ressuscitado nas horas do dia, seguindo o ritmo di√°rio, semanal e anual, com hinos, salmos, c√Ęnticos b√≠blicos, preces e ora√ß√Ķes.

De outro lado, tomando como ponto de partida a experiência eclesial do Brasil, o ODC foi capaz de deixar de lado o que pesa na estrutura da Liturgia das Horas e ousou ser criativo na medida em que incorporou elementos novos: o jeito novo de celebrar das Comunidades Eclesiais de Base e o anseio de oração do catolicismo popular.

N√£o se trata de propor √†s comunidades o of√≠cio tal qual no Rito Romano, mesmo simplificado ou abreviado. Trata-se de um estilo brasileiro novo no campo mais amplo da fam√≠lia lit√ļrgica romana. N√£o bastaria tamb√©m repetir ou publicar as costumeiras ora√ß√Ķes e c√Ęnticos da religi√£o popular, ou mesmo dos encontros de ora√ß√£o dos grupos da caminhada. O Of√≠cio Divino das Comunidades quer ser uma s√≠ntese real e inteligente, fiel √† grande tradi√ß√£o lit√ļrgica e √† sensibilidade e cultura do nosso povo (BARROS, 1988, p.30).

Da tradi√ß√£o eclesial latino-americana, o ODC herdou a Recorda√ß√£o da Vida, que √© express√£o mais sens√≠vel da rela√ß√£o entre a liturgia e a vida. Segundo Libanio, as liturgias que emergiram no cen√°rio de Igreja de Medell√≠n respondem ao desafio de vincular liturgia com pr√°xis libertadora ‚Äúsem quebrar a coluna vertebral da gratuidade, da liberdade e da beleza contemplativa‚ÄĚ (LIBANIO, 2001, p.107-108). O Of√≠cio come√ßa sem nenhum coment√°rio, com uma invoca√ß√£o de Deus e convite ao louvor. S√≥ ent√£o, quem preside convida os participantes a trazerem experi√™ncias que marcaram suas vidas.

A vida, os acontecimentos de cada dia, as pessoas, suas ang√ļstias e esperan√ßas, suas tristezas e alegrias, as conquistas e revezes da caminhada, as lembran√ßas marcantes da hist√≥ria, da comunidade, das Igrejas e dos povos, os pr√≥prios fen√īmenos da natureza s√£o sinais de Deus para quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir. Por a√≠ come√ßa a nossa escuta da Palavra de Deus. Recordar a vida, traz√™-la de volta ao cora√ß√£o, partilhar lembran√ßas e preocupa√ß√Ķes, √© ajudar a tornar a ora√ß√£o verdadeira (ODC, 2018, p.11).

Mas a vida est√° latente em todo o of√≠cio: na linguagem das ora√ß√Ķes e das preces, nos salmos, nos hinos da caminhada, na mem√≥ria dos m√°rtires defensores da vida em nosso continente. Cabe lembrar, ainda, o cuidado com a dimens√£o ecum√™nica no ODC, expresso em elementos como o Pai-nosso ecum√™nico, os hinos das Igrejas irm√£s, a inclus√£o de imagens de Deus (de ternura, bondoso, compassivo).

O grande m√©rito do Of√≠cio das Comunidades √© que ele conseguiu viabilizar, na pr√°tica, o que a Liturgia das Horas prop√Ķe: que o of√≠cio, como qualquer outra a√ß√£o lit√ļrgica, n√£o √© a√ß√£o particular, mas a√ß√£o comunit√°ria, celebra√ß√£o.

Nas culturas populares brasileiras, o jeito para dar a cada ofício um caráter mais celebrativo, é integrar todo o corpo e o universo que nos cerca na oração. Na Bíblia os salmos contêm muitas atitudes corporais de oração, como voltar-se para a montanha, elevar o olhar e as mãos, se curvar, se ajoelhar, caminhar em procissão (BARROS, 1994, p. 30).

Mesmo sem que estivesse determinado por escrito, a pr√°tica foi criando um estilo de celebrar que prima pela valoriza√ß√£o do espa√ßo, do canto, dos minist√©rios, dos gestos (acender velas, reunir-se ao redor do amb√£o para a escuta do evangelho, ofertar incenso…). Tudo para conduzir ao sil√™ncio e favorecer a participa√ß√£o externa e interna, consciente e frutuosa. Nesse sentido, a grande p√©rola no ODC √© o lucern√°rio na vig√≠lia dos domingos e solenidades. Esse rito que, nas comunidades das origens, pertencia ao Of√≠cio cotidiano das V√©speras, foi colocado na abertura do Of√≠cio de Vig√≠lia, enfatizando o domingo como p√°scoa semanal, em analogia com o rito da luz na vig√≠lia pascal.

A respeito da intera√ß√£o com o catolicismo popular, o ODC √© um exemplo bem-sucedido da ‚Äúm√ļtua fecunda√ß√£o‚ÄĚ entre liturgia e piedade popular, t√£o desejada pela reforma lit√ļrgica (cf. SC n.13) e t√£o evocada pelos documentos do CELAM e da CNBB (CNBB, 1984, p.30). O trabalho n√£o consistiu tanto em agregar elementos externos do catolicismo popular, mas em fazer com que o Of√≠cio corresponda √† ‚Äúpiedade‚ÄĚ‚Äô do povo, ao seu ‚Äúanseio de ora√ß√£o e de vida crist√£‚ÄĚ, √† ‚Äúsede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar‚ÄĚ (cf. Evangelii Nuntiandi, n48). Destaca-se, nessa sintonia com a piedade popular, o estilo orante, a forma de repeti√ß√£o nos cantos, sobretudo nas aberturas, a linguagem simples e afetuosa, a aus√™ncia de coment√°rios, o que facilita a participa√ß√£o e estabelece uma rela√ß√£o amorosa, de alian√ßa entre Deus e o seu povo.

3.2 A sacramentalidade do Ofício Divino das Comunidades

O Conc√≠lio Vaticano II apresenta toda a liturgia ‚Äď n√£o somente os sete sacramentos ‚Äď como evento sacramental, em que Jesus Cristo se faz presente, no exerc√≠cio do seu sacerd√≥cio, para glorificar o Pai e santificar a humanidade.

No artigo 7 da Constitui√ß√£o lit√ļrgica entre os sinais sens√≠veis que significam e que realizam o que significam, est√° a assembleia que ora e salmodia, porque nela Cristo se faz presente e age com a for√ßa do seu Esp√≠rito. Podemos dizer que a assembleia reunida, o tempo, a m√ļsica, os salmos e c√Ęnticos, a ora√ß√£o, os gestos e as palavras, s√£o sinais sens√≠veis que atingem a corporeidade dos participantes, evocam o mist√©rio invis√≠vel de Jesus Cristo e pelo agir do Esp√≠rito realizam a transforma√ß√£o pascal.

3.3 A santificação do tempo

Tomemos a categoria tempo, t√£o importante para a compreens√£o da liturgia hor√°ria do Of√≠cio Divino. Nas Escrituras, os termos chronos, kair√≥s e ai√īn relacionam respectivamente o tempo da vida humana em curso, o tempo da atua√ß√£o de Deus na hist√≥ria da humanidade e o tempo humano como intercess√£o entre o dado hist√≥rico e o seu sentido escatol√≥gico. Em todas as acep√ß√Ķes, o tempo √© uma no√ß√£o fortemente identificada ao ser humano (AUG√Č, 2019, p.36-38). De tal modo que a no√ß√£o de santifica√ß√£o de tempo, outra coisa n√£o diz, sen√£o a santifica√ß√£o do pr√≥prio ser humano pela sua inser√ß√£o memorial na pr√≥pria experi√™ncia temporal do Verbo encarnado, a hist√≥ria da salva√ß√£o. O tempo √© santificado pela Liturgia das Horas porque, juntamente com o Ano Lit√ļrgico, ela contribui para dar novo sentido ao tempo da vida humana (PINELL, 2005, p.216).

O tempo como sinal sens√≠vel torna-se mais evidente no amanhecer e no entardecer por causa da incid√™ncia da luz. Esses momentos foram estabelecidos como mem√≥ria e renova√ß√£o da alian√ßa. Sem a palavra, a luz n√£o significa; sem a luz, o verbo n√£o se faz vis√≠vel (cf. GARCIA, 2015, p.150). A palavra narra o mist√©rio pascal de Cristo e da Igreja, na luz que ilumina o escuro da noite, ou no sol que clareia o amanhecer. A palavra invis√≠vel, mas aud√≠vel nos salmos, nas leituras, nos hinos, nas ora√ß√Ķes, interpreta o sinal sens√≠vel, tornando vis√≠vel o Verbo (cf. GARCIA, 2015, p.72). Por isso, o cuidado com a verdade da hora √© condi√ß√£o para que a Palavra possa interpretar a luz.

3.4 O lucern√°rio

O rito do lucern√°rio, na vig√≠lia do domingo e das festas maiores, comp√Ķe-se da abertura e do hino lucernar. O of√≠cio de vig√≠lia come√ßa no escuro, em sil√™ncio. Entoa-se, a meia voz, um refr√£o meditativo, para despertar no cora√ß√£o o anseio pelo Deus vivo. Como de costume, sem qualquer coment√°rio, quem preside se levanta e come√ßa os versos da Abertura, que a assembleia repete:

‚Äst¬† Venham, √≥ na√ß√Ķes, ao Senhor cantar! (bis)

Ao Deus do universo, venham festejar! (bis)

‚Äst¬† Seu amor por n√≥s, firme para sempre! (bis)

Sua fidelidade dura eternamente. (bis)

Acendem-se velas

‚Äst¬† Para ti, Senhor, toda noite √© dia. (bis)

A escurid√£o mais densa logo se alumia. (bis)

‚Äst √Čs a luz do mundo, √©s a luz da vida! (bis)]

Cristo Jesus resplende: és nossa alegria! (bis)

Oferta-se incenso ou ervas cheirosas

‚Äst¬† Suba nosso incenso a ti, √≥ Senhor! (bis)

Este louvor pascal, oferta de amor. (bis)

‚Äst¬† Nossas m√£os orantes para os c√©us subindo! (bis)

Cheguem como oferenda ao som deste hino! (bis)

‚Äst¬† Gl√≥ria ao Pai e ao Filho e ao Santo Esp√≠rito. (bis)

Glória à Trindade Santa, glória ao Deus bendito. (bis)

‚Äst¬† Aleluia, irm√£s, aleluia, irm√£os! (bis)

Povo de sacerdotes, a Deus louvação. (bis)

¬†As primeiras palavras da abertura s√£o convoca√ß√£o para o louvor, com versos do salmo 117. Nestas palavras ouvimos o pr√≥prio Cristo chamando a comunidade a participar de sua ora√ß√£o ao Pai, como tantas vezes ele fez em sua vida terrena (cf. Mc 6,30-31). Tra√ßamos o sinal da cruz sobre o corpo no primeiro verso, recordando o nosso batismo, pelo qual Cristo nos associa ao seu mist√©rio pascal e √† sua ora√ß√£o. O canto da abertura continua, com palavras que se juntam ao gesto do acendimento do c√≠rio e das velas para narrar a vit√≥ria da luz sobre as trevas que correspondem √†s afli√ß√Ķes do povo. A fun√ß√£o da ora√ß√£o das horas √© gritar, √© colocar sob o olhar de Deus o que acontece no mundo. Deus escuta o clamor, olha o cora√ß√£o dos que sofrem, e desce para salvar (cf. Ex 3,7-8).

Um recipiente com brasas acesas está colocado sobre ao altar. Ainda na escuridão, mas agora iluminada com as chamas acesas na mão da assembleia, faz-se a oferta do incenso, sinal do sacrifício espiritual do povo sacerdotal, acompanhada dos versos cantados.

Terminada a abertura, quem preside, convida os participantes a trazerem as mem√≥rias que identificam as luzes do caminho ou as noites que persistem…

Em seguida, entoa-se o hino ‚ÄúLuz Radiante‚ÄĚ. Este hino, mais antigo que o Gl√≥ria, remonta ao s√©culo II e √© citado por S√£o Bas√≠lio (BAS√ćLIO, 2003, p.403). No ODC (p.265), a vers√£o √© de Reginaldo Veloso, em forma responsorial, para garantir a participa√ß√£o da assembleia por meio de um refr√£o que se repete a cada estrofe.

Luz radiante, luz de alegria,

luz da glória, Cristo Jesus

‚Äď√Čs do Pai imortal e feliz

o clar√£o que em tudo reluz!

‚Äď Quando o sol vai chegando ao ocaso

avistamos da noite a luz!

‚Äď N√≥s cantamos o Pai e o Filho

e o Divino que nos conduz!

‚Äď Tu mereces o canto mais puro,

ó Senhor da vida, és a luz!

‚Äď Tua gl√≥ria, √≥ Filho de Deus,

o universo todo seduz!

‚Äď Cante o c√©u, cante a terra e os mares,

a vitória, a glória da cruz!

As palavras do hino continuam a narrar o mist√©rio manifestado nas luzes que rompem o escuro. Fazem com que a assembleia reconhe√ßa, nessa imagem da noite iluminada, a presen√ßa do Cristo Ressuscitado, a quem o hino se dirige. Diante do dia que morre, a comunidade crente contempla a luz que n√£o morre. O texto identifica no ‚Äúclar√£o do Pai que tudo reluz‚ÄĚ, o filho unig√™nito que procede do Pai, que √© fonte da vida. O canto mais puro √© devotado ao Cristo, Senhor da vida, que seduz o universo com sua gl√≥ria, pela qual o c√©u, a terra e os mares entoam o seu cantar.

A efic√°cia sup√Ķe a consci√™ncia da assembleia de estar inserida em um evento de salva√ß√£o, no qual o Cristo, pela atua√ß√£o do Esp√≠rito, realiza nela o mist√©rio da sua p√°scoa. Ao transformar o tempo em kair√≥s, realiza-se, na Igreja, a passagem da morte √† vida. Afinal, o fim √ļltimo da liturgia √© a santifica√ß√£o (SC n.10 e 33). Assim, pouco a pouco, cada pessoa √© levada √† supera√ß√£o de tudo o que √© velho para alcan√ßar a estatura da ‚Äúcriatura nova‚ÄĚ em Cristo.

3.5 Oração da Igreja

Reunir-se para rezar √© uma a√ß√£o primordial e uma exig√™ncia vital da comunidade crist√£. Quando os pais da Igreja enfatizam a import√Ęncia da assembleia crist√£ n√£o pensam somente na eucaristia, mas tamb√©m em outros momentos comuns de ora√ß√£o e de louvor.

O artigo 83 da Sacrosanctum Concilio faz uma afirmação que retoma a LH como parte estruturante de toda a liturgia da Igreja:

Jesus Cristo une a si toda a humanidade e a associa ao seu c√Ęntico de louvor. E continua exercendo este sacerd√≥cio, na Igreja, que louva o Senhor sem cessar e intercede pela salva√ß√£o do mundo, n√£o s√≥ com a celebra√ß√£o da Eucaristia, mas de v√°rios outros modos, especialmente pelo Of√≠cio Divino.

¬†O artigo 84 diz que nesta ora√ß√£o ‚ÄúCristo se dirige ao Pai, mediante o seu corpo‚ÄĚ. Ou seja, esta ora√ß√£o pertence a todo o corpo de Cristo. A ora√ß√£o da comunidade e de cada pessoa que ora √© sacramento da ora√ß√£o de Cristo. Ele √© o mediador da nova alian√ßa, por ele a humanidade tem acesso ao Pai. O Pai sempre escuta a voz do Filho (Jo 11,42). ‚Äú√Č necess√°rio, pois, que ao celebrarmos o Of√≠cio Divino, reconhe√ßamos o eco de nossas vozes na voz do Cristo, e a sua em n√≥s‚ÄĚ (PAULO VI, 1971, n.20).

Um dos m√©ritos do ODC √© justamente o de proporcionar que o povo das comunidades tenha acesso √† ora√ß√£o que lhe pertence e possa participar ativa, consciente e frutuosamente. N√£o s√≥, mas tem desencadeado um processo de aprender a rezar com a Igreja, de descobrir os salmos como escola de ora√ß√£o, de reconhecer neles a voz de Cristo e de fazer da ora√ß√£o uma experi√™ncia de gratuidade e amorosa alian√ßa. √Č algo que n√£o se d√° automaticamente. √Č necess√°rio aprender.

S√£o Bento oferece uma ‚Äúregra de ouro‚ÄĚ, que a Sacrosanctum Concilium assumiu e aplicou a toda a Igreja: Que a mente concorde com a voz‚ÄĚ (SC n.90; RB n.19). A mente ‚Äún√£o equivale somente √† raz√£o, mas √† pessoa interior com seu conhecimento, sua vontade e seu sentimento. √Č quase id√™ntica a cora√ß√£o, especialmente a parte dominante da alma (cf. GR√úN, 2019, p.30-31). A voz refere-se √† manifesta√ß√£o do Esp√≠rito, √© a voz de Deus que devemos ouvir. O cora√ß√£o deve estar em sintonia com a voz (cf. GR√úN, 2019, p.30-31).

Pensemos no salmo.

O critério geral de escolha de um salmo no ofício é a hora. A pessoa não escolhe o salmo, ele é oferecido. Tomemos o salmo 30(29) no ofício da tarde (ODC, p.52).

Cai a tarde, vem a noite

a tristeza, o pranto a dor,

de manh√£ renasce o sol,

novo dia alegria.

1. Senhor, grandes coisas direi eu de ti,

Porque me livraste e n√£o permitiste

Que os maus rissem, fazendo pouco de mim

2. Senhor, eu por ti clamei e me curaste;

Minha vida, do lugar onde os mortos residem,

Só tu me tiraste e me libertaste!

3. Cantai, santos todos, dai glória ao Senhor!

Sua raiva é um momento e logo acabou;

Bondade, toda a vida perdura o amor!

4. Seguro, eu dizia: Jamais tremerei!

Favor, me cobriste de honra e poder.

Teu rosto escondeste e eu me apavorei…

5. Piedade a meu Deus eu estou a implorar…

Vantagem, por acaso, na morte haver√°?…

O p√≥ dos meus ossos ir√° te louvar?!…

6. Senhor, piedade, vem me socorrer!

Minha dor e meu pranto mudaste em prazer;

Teu nome para sempre eu irei bendizer!

O salmo está aí, com uma letra em versão popular em perfeita simbiose com a melodia. Tudo nele aponta para o final de um dia de trabalho e de luta. Fala da tristeza da noite que chega, mas promete a luz de um novo dia: Cai a tarde, vem a noite, a tristeza, o pranto a dor, de manhã renasce o sol, novo dia alegria. Ao cantar as estrofes, a pessoa encontra a expressão da sua gratidão pelo dia que passou, pelas lutas superadas, pela firmeza apesar das dificuldades. A gratidão que já está no seu coração, às vezes sufocada pelo cansaço, é despertada pelas palavras do salmo. A pessoa se identifica com o salmo como se ela própria o tivesse gerado (cf. CASSIANO, 2003, p.984).

Ao encontrar no salmo a express√£o da pr√≥pria a√ß√£o de gra√ßas, une-se √† a√ß√£o de gra√ßas do Filho, que fez de toda a sua vida uma oferta de louvor. Como n√£o escutar a voz de Cristo quando se canta: Minha vida, do lugar onde os mortos residem, S√≥ tu me tiraste e me libertaste (estrofe 2). A√≠ a voz do orante e a voz de Cristo se faz uma s√≥ voz. Portanto ‚Äún√£o sou eu que fa√ßo algo com a palavra, mas √© a palavra que faz algo comigo‚ÄĚ (GR√úN, 2019, p.32), a palavra que √© Cristo, muda a voz de quem salmodia na sua pr√≥pria voz, o Esp√≠rito que renova todas as coisas o transforma naquilo que est√° rezando.

4 Uma palavra final

No atual cen√°rio de Igreja, de modo geral, a missa, pr√≥pria do domingo, que por tradi√ß√£o √© o √°pice de todas as a√ß√Ķes lit√ļrgicas, parece ter se tornado a √ļnica celebra√ß√£o da Igreja: repetida todos os dias, em todo lugar e, muitas vezes, de qualquer jeito, quando n√£o instrumentalizada para fins duvidosos. Ao lado da missa, est√° o ter√ßo, a devo√ß√£o aos santos, a adora√ß√£o ao Sant√≠ssimo, sem falar da avalanche de pr√°ticas de um catolicismo conservador, que nada tem a ver com a piedade popular. A pr√≥pria celebra√ß√£o da Palavra n√£o se configura como parte org√Ęnica da liturgia da Igreja, ocupando no m√°ximo um lugar de supl√™ncia (por falta de padre). O Of√≠cio Divino sequer aparece nos planejamentos pastorais das Igrejas e par√≥quias. E bem que poderia ser uma alternativa de celebra√ß√£o da comunidade crist√£, a mais imediata depois da missa. O Of√≠cio das Comunidades se oferece como uma fonte no caminho, enraizada na tradi√ß√£o dos pais e m√£es da Igreja, com um jeito bem brasileiro, e fiel √† eclesiologia latino-americana. N√£o se imp√Ķe como obriga√ß√£o, ou como forma exclusiva, mas se oferece na gratuidade para as comunidades que vivem a f√© em meio √†s lutas de cada dia e anseiam por alimentar sua vida espiritual.

Penha Carpanedo, PDDM. Texto original português. Postado em fevereiro de 2020.

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