C√Ęnon da sagrada escritura

Sum√°rio

Introdução

1 Etimologia, definição e pressupostos

2 O c√Ęnon do Antigo Testamento

2.1 C√Ęnon do Antigo Testamento antes do evento Cristo

2.2 Após o evento Cristo por judeus não cristãos

2.3 Após o evento Cristo por cristãos

3 O c√Ęnon do Novo Testamento

3.1 Reconhecimento dos escritos crist√£os como sagrados

3.2 A evolução das listas de textos sagrados cristãos

Conclus√£o

Referências

Introdução

O c√Ęnon da Escritura √© um tema tradicionalmente abordado pela Teologia Fundamental e comp√Ķe assunto cl√°ssico desse tratado teol√≥gico. Sua abordagem pressup√Ķe a do verbete Inspira√ß√£o e inerr√Ęncia. De fato, o estudo do c√Ęnon vincula-se ao estudo do conceito teol√≥gico de inspira√ß√£o. Cronologicamente a inspira√ß√£o da Escritura veio antes da elabora√ß√£o do c√Ęnon b√≠blico, que est√°, portanto, vinculado √† inspira√ß√£o dos livros por ele reconhecidos (O‚ÄôCOLLINS, 1991, p.292). Encontram-se no c√Ęnon aqueles escritos que tiveram Deus como autor, isto √©, que foram divinamente inspirados (GIBERT; THEOBALD, 2007, p.39). Est√£o fora dele aqueles escritos que, apesar de seu valor espiritual ou hist√≥rico, n√£o s√£o inspirados, n√£o tiveram Deus como autor.

Ap√≥s an√°lise da etimologia da palavra ‚Äúc√Ęnon‚ÄĚ, de sua defini√ß√£o como conceito teol√≥gico e da explicita√ß√£o de seus pressupostos, ser√° estudado o c√Ęnon b√≠blico do Antigo e do Novo Testamento.

1 Etimologia, definição e pressupostos

A Sagrada Escritura foi redigida por in√ļmeros autores humanos ao longo da hist√≥ria do antigo Israel at√© o s√©culo¬†I depois de Cristo. Tais autores compuseram livros que, embora constituam a √ļnica Sagrada Escritura, eram distinguidos entre si j√° na √©poca da origem de cada um. Os diversos livros foram sendo acolhidos como refer√™ncia de f√© por comunidades de crentes seja no antigo Israel, seja no cristianismo. Isso deu-se primeiramente pelo uso, especialmente em √Ęmbito lit√ļrgico. S√≥ posteriormente o acolhimento passou a ser expresso mediante a elabora√ß√£o formal de listas de escritos. A palavra grega para designar uma lista de escritos desse tipo √© őļőĪőĹŌéőĹ (kan√≥n) na sua acep√ß√£o derivada que significa ‚Äúregra‚ÄĚ ou ‚Äúnorma‚ÄĚ. Em sentido pr√≥prio, tal termo designava uma vara-padr√£o utilizada por um pedreiro ou carpinteiro para medir espa√ßos. Trata-se de um voc√°bulo pr√≥ximo e relacionado a outro termo grego antigo, őļő¨őĹőĹőĪ (k√°nna), que significava ‚Äújunco‚ÄĚ. Na origem remota desse voc√°bulo est√° o idioma sum√©rio, que entraria em l√≠nguas sem√≠ticas com a raiz Qnh (PERANI, 2000, p.390), a qual nessa forma haveria de influenciar l√≠nguas como o ac√°dio, o ugar√≠tico, o antigo hebraico e o √°rabe (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1035). Em nossa l√≠ngua, por translitera√ß√£o, existem com o mesmo sentido as formas ‚Äúc√Ęnon‚ÄĚ e ‚Äúc√Ęnone‚ÄĚ.

Em Teologia, o c√Ęnon √© a lista completa dos livros que comp√Ķem a B√≠blia e que constituem ‚Äúregra‚ÄĚ ou ‚Äúnorma‚ÄĚ para a f√©. Os escritos sagrados, tanto os que foram produzidos no tempo dos ap√≥stolos como os que eles receberam de sua heran√ßa judaica, comp√Ķem uma lista que se encontra fechada e que foi formalizada posteriormente no tempo dos ap√≥stolos. A lista completa dos livros √© tamb√©m um reconhecimento de que os demais escritos que ali n√£o se encontram n√£o possuem autoria divina. Por terem neles reconhecida a exclusiva origem divina, os Escritos Sagrados servem aos fi√©is de maneira inigual√°vel como guia e instru√ß√£o no encontro com Jesus Cristo vivo que √© a Palavra ‚Äď Verbum ‚Äď por excel√™ncia de Deus e que dialoga ‚Äď real e n√£o simbolicamente ‚Äď com os fi√©is de cada gera√ß√£o crist√£. Por isso a lista desses livros √© ‚Äúregra‚ÄĚ e ‚Äúnorma‚ÄĚ para a f√©. Os livros que se encontram no c√Ęnon da Sagrada Escritura t√™m para a f√© e a vida das pessoas uma autoridade exigente a ser reconhecida de modo definitivo (CAMPENHAUSEN, 1971, p.6).

O primeiro pressuposto do c√Ęnon da Escritura √© a revela√ß√£o divina. Tal elemento constitui fundamento hermen√™utico no acesso feito pela comunidade de f√© aos livros que est√£o no c√Ęnon (AUWERS; DE JONGE, 2003, p.lxxxi). A exist√™ncia do c√Ęnon tem como pressuposto a recep√ß√£o, por parte da comunidade de f√©, daquele processo personalista da revela√ß√£o do ‚ÄúAlgu√©m‚ÄĚ divino verificado em Israel, tendo Cristo como √°pice, processo esse que, como evento vivo, transcende e est√° al√©m do ‚Äúalgo‚ÄĚ que √© a B√≠blia. A ado√ß√£o, feita com tal pressuposto, de uma determinada lista de livros como medida-padr√£o foi resultado da consci√™ncia, por parte da comunidade de f√©, do vivo processo revelativo no qual Deus revelava sobretudo a si mesmo ao longo da hist√≥ria do antigo Israel e que atingiu a m√°xima profundidade poss√≠vel no evento de Jesus Cristo.

O c√Ęnon, a lista completa de livros que comp√Ķem a Sagrada Escritura, n√£o aparece no conte√ļdo de nenhum dos livros da B√≠blia. Por isso, o segundo pressuposto do c√Ęnon √© a autoridade revelativa extrab√≠blica que o estabeleceu. A decis√£o que reconheceu a lista de livros inspirados n√£o √© ela mesma garantida pelo carisma da inspira√ß√£o b√≠blica (GIBERT; THEOBALD, 2007, p.50).

A elabora√ß√£o de um c√Ęnon com esse s√©rio reconhecimento de f√© representou historicamente um processo complexo, cuja considera√ß√£o fica facilitada ao se examinarem separadamente os processos de reconhecimento das duas grandes partes da B√≠blia: Antigo e Novo Testamento.

2 O c√Ęnon do Antigo Testamento

A Igreja cat√≥lica romana e v√°rias Igrejas ortodoxas reconhecem o c√Ęnon do Antigo Testamento com 46 livros. As Igrejas reformadas e o juda√≠smo o aceitam uma vers√£o encurtada de 39 livros, nesse caso dispostos em sequ√™ncias diferentes e tamb√©m agrupados diferentemente. A diferen√ßa de sete obras entre o c√Ęnon de 46 livros e o de 39 verifica-se pelo reconhecimento ou rejei√ß√£o como textos inspirados dos livros de Tobias, Judite, 1¬†Macabeus, 2¬†Macabeus, Sabedoria, Eclesi√°stico (Sir√°cida) e Baruc, mais partes dos livros de Daniel (Dn 3,24-90; 13-14) e de Ester. Nesse √ļltimo, tal parte reconhecida ou rejeitada corresponde, segundo a numera√ß√£o da Vulgata, a Est 10,4-16,24. Contudo na numera√ß√£o da Nova Vulgata essa parte aparece fracionada como: Est 1,1a-1k; 3,13a-13h; 3,15a-15i; 4,17a-17kk; 5,2a-2p; 8,12a-12cc; 9,19a; 10,3a-3k. Os sete livros em quest√£o, mais essas partes dos livros de Daniel e Ester, s√£o denominados pelos cat√≥licos de deuterocan√īnicos e pelos protestantes de ap√≥crifos.

Uma tese cl√°ssica para explicar a diferen√ßa entre o c√Ęnon de 46 livros e o de 39 foi lan√ßada por Herbert Ryle em 1892 na obra The Canon of the Old Testament. Segundo Ryle, no final do s√©culo I¬†dC j√° existiriam no juda√≠smo duas listas oficiais de livros sagrados. A primeira, o c√Ęnon veterotestament√°rio de 46 livros, seria pr√©-crist√£ do s√©culo II¬†aC. Tratar-se-ia do c√Ęnon de Alexandria, que se encontra na B√≠blia dos Setenta ou Septuaginta. A segunda, o c√Ęnon veterotestament√°rio de 39 livros, s√≥ teria sido fechada por judeus n√£o crist√£os ap√≥s o evento de Jesus Cristo. Tratar-se-ia do c√Ęnon palestinense, com apenas livros em hebraico, estabelecido por rabinos na cidade de J√Ęmnia ap√≥s a destrui√ß√£o do Templo de Jerusal√©m em 70 dC. Praticamente todos os detalhes da tese de Ryle foram submetidos a s√©rias cr√≠ticas e modifica√ß√Ķes (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1037). O estudo mais acurado da forma√ß√£o do c√Ęnon do Antigo Testamento reparte-se em tr√™s fases: 1) antes do evento Cristo; 2) ap√≥s Cristo, mas fora da f√© crist√£; 3) por crist√£os.

2.1 O c√Ęnon do Antigo Testamento antes do evento Cristo

J√° antes de Jesus Cristo houve esfor√ßos por parte do povo hebreu em estabelecer alguma cole√ß√£o de escritos denominada Sagrada Escritura. A mais antiga defini√ß√£o de um c√Ęnon √© fornecida pelo antigo tradutor grego do Eclesi√°stico (Sir√°cida), originalmente redigido em hebraico (MANNUCCI, 1983, p.191). Em 130 aC, aquele venerando tradutor menciona por tr√™s vezes no pr√≥logo do livro os tr√™s grupos ou categorias da divis√£o can√īnica da B√≠blia hebraica: ‚Äúa Lei, os Profetas e os outros Escritos‚ÄĚ, ou ainda na forma ‚ÄúLei, Profetas e os outros livros‚ÄĚ (Eclo, pr√≥logo). Conhecia-se ent√£o essa divis√£o tripartite sem, contudo, que as tr√™s categorias j√° se encontrassem fechadas quanto ao elenco das obras que as compunham (SCHNIEDEWIND, 2011, p.260).

O primeiro grupo era a Lei (Tor√°) ou Pentateuco, que estava definida pelo menos desde o tempo de Esdras (Esd 7,25-26), por volta de 420 ou 400¬†aC, embora em grande parte j√° se encontrasse redigida antes do ex√≠lio na Babil√īnia em 597¬†aC (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1037). O estudo dos manuscritos antigos mostra que tais textos da B√≠blia hebraica em uso no per√≠odo do Segundo Templo de Jerusal√©m (entre 520¬†aC e 70¬†dC) nem sempre s√£o absolutamente id√™nticos ao posterior texto massor√©tico, havendo por vezes proximidade maior com o texto grego da B√≠blia dos Setenta e com o Pentateuco samaritano.

O segundo grupo era aquele que o tradutor grego do Eclesi√°stico chama de ‚ÄúProfetas‚ÄĚ (Nebi‚Äôim). Essa categoria inclui o que o juda√≠smo designa de ‚Äúprofetas anteriores‚ÄĚ e os modernos chamam de ‚Äúobra deuteronomista de hist√≥ria‚ÄĚ: os livros de Josu√©, Ju√≠zes, 1-2¬†Samuel e 1-2¬†Reis (MANNUCCI, 1983, p.191). Trata-se de uma cole√ß√£o de natureza pr√©-ex√≠lica. Nos Nebi‚Äôim inclu√≠a-se tamb√©m aquilo que o juda√≠smo designa de ‚Äúprofetas posteriores‚ÄĚ: Isa√≠as, Jeremias, Ezequiel e os ‚ÄúDoze profetas‚ÄĚ. Esses √ļltimos englobam aquilo que os crist√£os designam de ‚Äúprofetas menores‚ÄĚ com a exce√ß√£o de Baruc. Os ‚ÄúProfetas‚ÄĚ como um todo, compostos pelos textos como hoje conhecemos, compunham um c√Ęnon bem assente pelo menos desde o tempo em que o original hebraico do livro do Eclesi√°stico (n√£o o pr√≥logo grego escrito posteriormente pelo tradutor) foi redigido, por volta de 180¬†aC (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1037).

O terceiro grupo era aquele dos ‚ÄúEscritos‚ÄĚ (Ketubim). Essa categoria refere-se a um conjunto cujo conte√ļdo na √©poca pr√©-crist√£ √© dif√≠cil de definir com exatid√£o, e √© a que causa mais celeumas no que diz respeito √† sua fixa√ß√£o (MANNUCCI, 1983, p.191). A tese cl√°ssica de Herbert Ryle, proposta em 1892, sustentava que a tradu√ß√£o grega denominada B√≠blia dos Setenta refletiria um c√Ęnon judaico alexandrino mais longo, estabelecido antes do evento de Jesus Cristo. Segundo Ryle, esse c√Ęnon alexandrino compreenderia os livros deuterocan√īnicos junto com os ‚ÄúEscritos‚ÄĚ ¬†pouco tempo e se a lista original de seus livros estivesse dispon√≠vel. Contudo a tese de Ryle precisa ser alterada devido ao longo tempo requerido para a tradu√ß√£o da Septuaginta, somado ao fato que a rela√ß√£o exata dos livros que a compunham na √©poca pr√©-crist√£ n√£o pode ser determinada com exatid√£o (MANNUCCI, 1983, p.192). A imprecis√£o das refer√™ncias aos ‚ÄúEscritos‚ÄĚ no juda√≠smo at√© mesmo no s√©culo I¬†dC √© um sinal a mais de que, nesse √Ęmbito, o c√Ęnon dos ‚ÄúEscritos‚ÄĚ n√£o estava definido com rigor antes do evento de Jesus Cristo (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1039).

2.2 Após o evento Cristo por judeus não cristãos

Ap√≥s o evento de Jesus Cristo, judeus n√£o crist√£os continuaram a organizar a cole√ß√£o de textos sagrados. Especialistas sugerem que a hostilidade aos crist√£os teria representado est√≠mulo a esse trabalho de defini√ß√£o do c√Ęnon judaico ap√≥s Cristo. Outros sugerem que o impulso para a defini√ß√£o teria provindo das disputas internas no juda√≠smo entre fariseus e seitas judaicas de tend√™ncia apocal√≠ptica como a de Qumran (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1040).

A descoberta dos manuscritos do Mar Morto a partir de 1947 permitiu lan√ßar um olhar acurado √† situa√ß√£o do c√Ęnon do Antigo Testamento por volta do ano 70¬†dC, quando aqueles manuscritos foram ali escondidos. ‚ÄúA biblioteca de Qumran d√° a impress√£o de uma certa seletividade, mas dificilmente de uma precisa distin√ß√£o entre um c√Ęnon fechado e os demais textos‚ÄĚ (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1041). Encontram-se em Qumran tanto a Lei como os Profetas e os Escritos, faltando o livro de Ester. H√° in√ļmeros livros extracan√īnicos. Dos deuterocan√īnicos est√£o presentes parte de Baruc, assim como Tobias e Eclesi√°stico. Sobre esse √ļltimo, foi ainda descoberto em 1964 nas ru√≠nas da fortaleza de Massada um rolo em hebraico, o que indica sua grande import√Ęncia para aqueles judeus (MANNUCCI, 1983, p.194).

No final do s√©culo I¬†dC, o historiador Fl√°vio Josefo manifestava que os judeus da √©poca possu√≠am livros sagrados tidos como tal devido a sua origem divina (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1039). Josefo √© testemunho de que, nessa altura, havia um c√Ęnon judaico acolhido com venera√ß√£o, mas que este ainda n√£o se encontrava definido com absoluta precis√£o (MANNUCCI, 1983, p.193).

A afirma√ß√£o da tese cl√°ssica de Herbert Ryle de que um c√Ęnon judaico palestinense mais curto (correspondente ao atual c√Ęnon de 39 livros) teria sido fixado por rabinos em J√Ęmnia ap√≥s 70 dC tamb√©m precisa ser alterada. Em J√Ęmnia funcionou de fato uma escola destinada ao estudo da Tor√°, e ali rabinos tinham fun√ß√Ķes diretivas dentro da comunidade judaica. Contudo n√£o aconteceu ali um s√≠nodo de rabinos, um ‚Äúconc√≠lio de J√Ęmnia‚ÄĚ (THEOBALD, 1990, p.140). Tampouco h√° evid√™ncias de que tenha sido ali elaborada uma lista de livros sagrados (MANNUCCI, 1983, p.195). A posi√ß√£o atualmente mais segura √© a de que, at√© o final do s√©culo II¬†dC, em √Ęmbito judaico, n√£o foi estabelecido nenhum c√Ęnon equivalente aos 39 livros do atual c√Ęnon veterotestament√°rio abreviado e que exclu√≠sse escritos em grego (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1040). Al√©m do mais, a hip√≥tese da origem grega dos deuterocan√īnicos ficou comprometida ao se demonstrar que parte relevante deles havia sido redigida originalmente em hebraico e que a maioria dessas obras havia sido aceita por uma parcela dos judeus palestinenses n√£o crist√£os (AUWERS; DE JONGE, 2003, p.xviii).

Desse modo, a fixa√ß√£o do c√Ęnon por judeus n√£o crist√£os n√£o se verificou at√© o in√≠cio do s√©culo II dC (PERANI, 2000, p.399). O motivo √ļltimo para que o juda√≠smo n√£o crist√£o limitasse seu c√Ęnon apenas aos livros mais antigos pode ter sido o embate com os crist√£os, com o prop√≥sito de estabelecer uma contraposi√ß√£o judaico-palestinense mais efetiva √† empreitada dos crist√£os que ao longo do s√©culo II¬†dC assumiram um c√Ęnon mais amplo com base na vers√£o grega da B√≠blia dos Setenta (MANNUCCI, 1983, p.195).

2.3 Após o evento Cristo por cristãos

Esfor√ßos para definir a lista dos livros sagrados pr√©-crist√£os passaram a ser feitos por parte dos crist√£os, tanto de origem judaica como pag√£. Eles utilizavam nesse trabalho o evento de Jesus como chave de leitura, o que conduzia a uma inflex√£o hermen√™utica (GIBERT; THEOBALD, 2007, p.18). Para eles, ‚Äúo fato constitu√≠do por Cristo [era¬†…] como uma chave escrita no in√≠cio da partitura e que determina tudo‚ÄĚ (LOHFINK, 1964, p.172). Uma passagem do Evangelho de Jo√£o ‚Äď ‚ÄúExaminais as Escrituras, pensando ter nelas a vida eterna, e s√£o elas que d√£o testemunho de mim‚ÄĚ (Jo 5,39) ‚Äď reflete apropriadamente essa √≥tica dos antigos crist√£os ao considerarem a Lei, os Profetas e os Escritos.

Manifesta-se desde essa mais remota origem o paradigma personalista de revela√ß√£o com o qual os crist√£os dos primeiros s√©culos concebiam a autocomunica√ß√£o de Deus e interpretavam os Livros Sagrados. Para eles, a Palavra de Deus por excel√™ncia era Jesus Cristo, Christus praesens ‚Äď Cristo presente ‚Äď na vida das comunidades e dos fi√©is. Em rela√ß√£o a Ele, qualquer Livro Sagrado era apenas analogicamente referido como Palavra de Deus. A Sagrada Escritura como Palavra de Deus anal√≥gica encontrava-se totalmente subordinada √†quele que √© a Palavra de Deus em sentido estrito e rigoroso, a segunda pessoa divina invocada nas aclama√ß√Ķes ao ‚ÄúPai, Filho e Esp√≠rito Santo‚ÄĚ. Estava-se ali longe do paradigma coisificado de revela√ß√£o que, no segundo mil√™nio, predominaria no cristianismo em geral e traria consigo a preocupa√ß√£o de determinar as letras exatas, a grafia e a fraseologia do texto b√≠blico, quando este passaria tardiamente a ser compreendido como imenso dep√≥sito de palavras divinamente reveladas.

At√© o final do s√©culo¬†II, n√£o h√° entre os crist√£os um c√Ęnon veterotestament√°rio exato e universalmente acolhido. A partir da√≠, paralelamente √† progressiva fixa√ß√£o do c√Ęnon hebraico entre os judeus n√£o crist√£os, os crist√£os foram tomando duas vias no estabelecimento do c√Ęnon do AT (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1042). De um lado, isso se deu por repercuss√£o oposta, incluindo-se no AT tanto os livros protocan√īnicos como os deuterocan√īnicos com base na B√≠blia dos Setenta. Um exemplo √© Justino M√°rtir, que n√£o tinha origem judaica. Ele afirmava que se deve ter como parte da Sagrada Escritura tudo aquilo que se encontra em grego na B√≠blia dos Setenta, mesmo aquilo que os judeus n√£o crist√£os exclu√≠am (Dialogus cum Thryphone, n.71). Or√≠genes, conforme o relato de Eus√©bio de Cesareia, inclu√≠a na lista de livros sagrados os deuterocan√īnicos Ester e 1-2¬†Macabeus (Historiae Ecclesiasticae VI, 25). O C√≥dice Vaticano, manuscrito da B√≠blia grega do in√≠cio do s√©culo¬†IV, apresenta os livros de Tobias, Judite, Baruc, Eclesi√°stico e Sabedoria. O C√≥dice Sina√≠tico, da metade do s√©culo¬†IV, √© fragment√°rio em rela√ß√£o ao Antigo Testamento, mas inclui os deuterocan√īnicos livros de Tobias, Judite, 1¬†Macabeus, Eclesi√°stico e Sabedoria.

De outro lado, em √Ęmbitos crist√£os que viviam em contato com comunidades judaicas n√£o crist√£s, verificou-se por vezes uma repercuss√£o em sintonia. Nesses ambientes, encaminhou-se para uma concep√ß√£o abreviada do c√Ęnon do AT na qual um dos crit√©rios era a presumida originalidade em l√≠ngua hebraica do livro. Melit√£o, judeu convertido ao cristianismo e bispo de Sardes, forneceu no final do s√©culo¬†II o primeiro c√Ęnon veterotestament√°rio crist√£o que conhecemos, ainda mais restrito que o c√Ęnon abreviado de 39 livros por excluir o livro de Ester. A descri√ß√£o a respeito de Melit√£o √© fornecida por Eus√©bio de Cesareia na Hist√≥ria Eclesi√°stica, na qual a lista vem reproduzida (Historiae Ecclesiasticae IV, 26). Autores crist√£os entre o s√©culo¬†IV e in√≠cio do s√©culo¬†V, como Cirilo de Jerusal√©m, Atan√°sio e Jer√īnimo, favorecem o c√Ęnon abreviado, mas de uma maneira que precisa ser matizada. Cirilo de Jerusal√©m (EB¬†9) e Atan√°sio (EB 14) elencam o c√Ęnon abreviado, mas incluem o deuterocan√īnico Baruc. Jer√īnimo cita muitas vezes os livros deuterocan√īnicos, o que mostra o valor que esses livros tinham para ele (MANNUCCI, 1983, p.197). Jer√īnimo, al√©m disso, comenta no pref√°cio da tradu√ß√£o do livro de Tobias: ‚ÄúJulgo ser melhor desagradar √† decis√£o dos fariseus e servir ao que foi determinado pelos bispos‚ÄĚ (Praefatio in Tobiam, c.25).

As determina√ß√Ķes dos bispos aludidas por Jer√īnimo haviam sido tomadas em diversos conc√≠lios e refletiam o sensus fidelium do per√≠odo. Na maior parte das vezes, iam na dire√ß√£o de um c√Ęnon longo. Em 360¬†dC, o s√≠nodo de Laodiceia promulgou uma s√©rie de decretos. No √ļltimo deles, de n√ļmero 60, o s√≠nodo definiu um c√Ęnon abreviado, mas que, diferentemente de Melit√£o, inclu√≠a o livro de Ester e tamb√©m o deuterocan√īnico livro de Baruc (EB¬†11). O exame hist√≥rico lan√ßa hoje d√ļvidas sobre a autenticidade desse sexag√©simo decreto de Laodiceia (GONZAGA, 2019, p.90). Pouco depois, em 382, o S√≠nodo de Roma definiu com o Decretum Damasi um c√Ęnon longo com os deuterocan√īnicos, mas sem Ester nem Baruc (DH¬†179). Ainda no final do s√©culo¬†IV, a tradu√ß√£o da Vulgata comissionada pelo Papa D√Ęmaso a Jer√īnimo traz todos os deuterocan√īnicos.

Contemporaneamente, na √Āfrica, os s√≠nodos de Hipona, em 393, e de Cartago, em 397 (DH¬†186) e 419 (GONZAGA, 2019, p.180), seguiram a linha da Vulgata, mas n√£o mencionam o livro de Baruc. Essa era a posi√ß√£o de Agostinho, cuja autoridade contribuiu decididamente para determinar as discuss√Ķes a respeito do c√Ęnon no √Ęmbito ocidental (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1036). Agostinho enumera as obras do c√Ęnon com os livros deuterocan√īnicos sem Baruc (AGOSTINHO, De doctrina christiana II, 8,13). A mesma linha de aceita√ß√£o dessas obras no seio do AT manifesta-se em 405 na carta do Papa Inoc√™ncio¬†I a Exup√©rio, bispo de Toulouse, na Fran√ßa. Sobre os profetas, a carta de Inoc√™ncio¬†I fala genericamente de ‚Äúdezesseis livros dos profetas‚ÄĚ, o que parece excluir Baruc e incluir unicamente Isa√≠as, Jeremias, Ezequiel, Daniel e os doze profetas menores (DH¬†213). Em aproximadamente 495, o Decretum Gelasii elenca no AT os deuterocan√īnicos, tamb√©m com a exce√ß√£o de Baruc (EB¬†26).

Nos √ļltimos s√©culos do primeiro mil√™nio, verificou-se no cristianismo uma mudan√ßa na compreens√£o do paradigma de revela√ß√£o, a qual ter√° efeitos na considera√ß√£o do c√Ęnon b√≠blico. Passa-se do paradigma personalista de revela√ß√£o para o paradigma coisificado. Agora, seguindo o paradigma coisificado de revela√ß√£o, esta era concebida como o resultado da transmiss√£o de um imenso conjunto de palavras (algo) de origem divina que se encontraria dispon√≠vel como revela√ß√£o aos fi√©is no tempo antes da morte. Tal era o paradigma de revela√ß√£o, por exemplo, da Teologia escol√°stica. Essa mudan√ßa na concep√ß√£o de revela√ß√£o acarretar√° transforma√ß√Ķes na compreens√£o do c√Ęnon b√≠blico. Mais do que encontrar de modo vivo Aquele que √© a Palavra de Deus por excel√™ncia, Cristo, mediante a fiel orienta√ß√£o do registro da revela√ß√£o na Sagrada Escritura, entraria em vigor a preocupa√ß√£o de esclarecer rigorosamente os livros, em suas letras, grafias e fraseologias exatas que comporiam o dep√≥sito de palavras divinamente reveladas.

A respeito do c√Ęnon b√≠blico, um marco no segundo mil√™nio foi o padre cat√≥lico ingl√™s John Wycliffe. Em 1378, ele afirmou o princ√≠pio da sufici√™ncia revelativa da Sagrada Escritura (WYCLIFFE, 1905, p.181; 1906, p.131). Concebido segundo os moldes do paradigma coisificado de revela√ß√£o, esse princ√≠pio da sufici√™ncia revelativa da B√≠blia (ou sola Scriptura, como seria posteriormente chamado) rejeitava como revela√ß√£o divina qualquer outra coisa que n√£o estivesse na B√≠blia. Com isso em mente, Wycliffe empreendeu a primeira tradu√ß√£o da B√≠blia (a partir da Vulgata) para o ingl√™s com o prop√≥sito de tornar a revela√ß√£o divina mais acess√≠vel. Sua tradu√ß√£o inclu√≠a no AT os deuterocan√īnicos, mas no pr√≥logo trazia apenas a lista do c√Ęnon abreviado de 39 livros, com a afirma√ß√£o de que qualquer livro do AT al√©m daqueles deveria ser tido como ap√≥crifo.

John Wycliffe n√£o se deu conta da incoer√™ncia l√≥gica de que tais ju√≠zos sobre o c√Ęnon extrapolam o princ√≠pio da sufici√™ncia revelativa da B√≠blia, ou sola Scriptura. J√° que o pr√≥prio texto sagrado n√£o traz em nenhum de seus livros o elenco dos t√≠tulos que devem fazer parte da B√≠blia, quem sustenta a exclus√£o de qualquer livro da categoria de Escritura Sagrada vale-se de uma autoridade revelativa que n√£o se encontra na B√≠blia, mas fora dela.

Nos s√©culos posteriores, a discuss√£o sobre o c√Ęnon do AT estaria novamente reaberta (46 livros ou 39?), mas agora acoplada ‚Äď mesmo que de maneira logicamente incoerente ‚Äď a um argumento t√≠pico do paradigma coisificado de revela√ß√£o: o da revela√ß√£o como sola Scriptura. No s√©culo XVI, as ideias de John Wycliffe ganhariam vigor com Martinho Lutero. O pensamento de Lutero era motivado, entre outros elementos, pela ideia da sufici√™ncia da B√≠blia como revela√ß√£o divina. Com o objetivo de tornar essa revela√ß√£o divina mais acess√≠vel, Martinho Lutero publicou em Wittenberg a B√≠blia traduzida para o alem√£o. A primeira edi√ß√£o do conjunto completo dos livros b√≠blicos aconteceu em 1534, embora impress√Ķes contendo partes da B√≠blia tivessem sido feitas nos anos anteriores.

Na B√≠blia de Lutero, os sete livros deuterocan√īnicos mais os trechos deuterocan√īnicos de Daniel e Ester encontravam-se deslocados de posi√ß√£o, agrupados e colocados como ap√™ndice numa se√ß√£o intermedi√°ria entre o Antigo e o Novo Testamento. Tais escritos eram ali designados como apocrypha, ao que se seguia a explica√ß√£o que se tratava de escritos que n√£o eram iguais √† Sagrada Escritura, mas que ainda assim eram √ļteis e apropriados para leitura (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1042). Posteriormente, tal ap√™ndice passou a ser exclu√≠do das edi√ß√Ķes protestantes da B√≠blia. Na Reforma, o c√Ęnon abreviado aparece detalhadamente expresso como lista de 39 livros em confiss√Ķes nacionais como a Confessio Fidei Gallicana, de 1559, a Confessio Belgica, de 1561, a Confessio Anglicana, de 1563, e a Confiss√£o de F√© de Westminster, de 1646.

Em 1546 o Conc√≠lio de Trento tratou da quest√£o do c√Ęnon b√≠blico. Na ocasi√£o, ele promulgou sua decis√£o a favor do c√Ęnon veterotestament√°rio longo. O Conc√≠lio de Trento, contudo, manteve o mesmo paradigma coisificado de revela√ß√£o que, caracter√≠stico da Escol√°stica, assinalavam tamb√©m John Wycliffe e os reformadores do s√©culo¬†XVI. O texto do decreto apresenta o elenco dos livros que comp√Ķem o c√Ęnon longo do AT com todos os deuterocan√īnicos (DH¬†1502).

Ao aceitar o c√Ęnon longo, Trento parece ter preservado a aut√™ntica mem√≥ria do tempo das origens crist√£s, enquanto que os outros grupos crist√£os [reformados], numa tentativa de retornar ao cristianismo primitivo, contentaram-se com o c√Ęnon abreviado dos judeus [n√£o crist√£os] que, se pesquisadores protestantes como A. C. Sundberg e J. P. Lewis estiverem corretos, havia sido cria√ß√£o de um per√≠odo posterior. (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1042)

Cerca de tr√™s s√©culos depois, em 1870, o Conc√≠lio Vaticano¬†I confirmaria a decis√£o do Conc√≠lio de Trento a respeito do c√Ęnon longo (DH¬†3006 e 3029). Em 1965, o Conc√≠lio Vaticano¬†II teria como pac√≠fica a decis√£o de Trento a respeito do c√Ęnon do AT e por isso n√£o viu necessidade de explicitar seu conte√ļdo. Tendo, entretanto, deixado de lado a concep√ß√£o de revela√ß√£o divina coisificada, o Vaticano¬†II resgatou, na Constitui√ß√£o Dei Verbum, o paradigma personalista de revela√ß√£o caracter√≠stico do ‚Äúdep√≥sito da f√©‚ÄĚ, isto √©, do pr√≥prio Cristo e dos ap√≥stolos, assim como da Igreja nos primeiros s√©culos da era crist√£. Tendo agora novamente essa concep√ß√£o personalista de revela√ß√£o em mente, o Vaticano¬†II alude ao fato de que o texto sagrado redigido na Antiguidade n√£o traz em si o elenco dos livros do c√Ęnon b√≠blico e que, para determinar tal elenco, √© inevit√°vel valer-se de uma autoridade revelativa viva que n√£o se encontra na Sagrada Escritura, mas fora dela: ‚Äúmediante a Tradi√ß√£o, a Igreja conhece o c√Ęnon inteiro dos livros sagrados […¬†pois] Deus, que outrora falou, dialoga sem interrup√ß√£o com a esposa do seu amado Filho‚ÄĚ (Dei Verbum n.8).

3 O c√Ęnon do Novo Testamento

As primeiras comunidades crist√£s tinham escritos que consideravam sagrados, recebidos de sua heran√ßa judaica. Na sua hermen√™utica desses escritos, valiam-se da chave de leitura proporcionada pelo evento da vida, morte e ressurrei√ß√£o de Cristo. Gradualmente essas primeiras comunidades passaram a redigir seus pr√≥prios textos √† luz do evento de Jesus Cristo. A defini√ß√£o de um c√Ęnon desses novos escritos significou a escolha de alguns e a exclus√£o de outros. H√° s√©culos o cristianismo em geral ‚Äď ortodoxo, cat√≥lico e reformado ‚Äď reconhece o c√Ęnon de 27 livros do Novo Testamento: quatro evangelhos mais Atos dos Ap√≥stolos, catorze cartas espec√≠ficas no corpus paulinum, sete cartas cat√≥licas ou universais (de Tiago, Pedro, Jo√£o e Judas) e o Apocalipse de Jo√£o. Houve um processo fora da Sagrada Escritura cujo resultado ‚Äď o c√Ęnon ‚Äď n√£o foi redigido por nenhum dos hagi√≥grafos e n√£o se encontra no interior de nenhum dos livros da B√≠blia. A hist√≥ria desse processo nos seis primeiros s√©culos da era crist√£ √© complexa. Uma hip√≥tese simplista deve ser exclu√≠da por ter sido demonstrada falsa: a de que no princ√≠pio teria havido uma fase de reconhecimento pac√≠fico dos 27 livros, mas que teria sido seguida de um per√≠odo de d√ļvidas, para enfim ter-se de novo retornado ao reconhecimento inicial (MANNUCCI, 1983, p.205).

3.1 Reconhecimento dos escritos crist√£os como sagrados

O substantivo grego őīőĻőĪőłŠĹĶőļő∑ (diath√©ke) pode ser traduzido como ‚Äúalian√ßa‚ÄĚ ou ‚Äútestamento‚ÄĚ, e őļőĪőĻőĹŠĹī (kain√©) √© o adjetivo ‚Äúnova‚ÄĚ. A kain√© diath√©ke (Nova Alian√ßa ou Novo Testamento) √© uma f√≥rmula importante utilizada pelos crist√£os desde o in√≠cio para se referirem ao acontecimento revelativo total que se manifestou no evento de Jesus Cristo. Nos primeiros s√©culos a express√£o ‚ÄúNova Alian√ßa‚ÄĚ ou ‚ÄúNovo Testamento‚ÄĚ possu√≠a envergadura mais vasta do que a designa√ß√£o dos 27 livros do c√Ęnon do NT, e significavam o evento da vida, morte e ressurrei√ß√£o de Cristo. Por exemplo, Paulo fala de sua atividade mission√°ria dizendo ser ‚Äúcapaz de exercer o minist√©rio da Nova Alian√ßa [kain√© diath√©ke]‚ÄĚ (2Cor 3,6), referindo-se com essa express√£o √† realidade ampla manifestada no evento de Jesus Cristo. Em seguida, ele recorda o acontecimento revelativo do antigo Israel e a Alian√ßa mosaica registrados nos livros que comp√Ķem a Tor√°: ‚ÄúAt√© o dia de hoje, quando [os israelitas] leem o Antigo Testamento [palai√° diath√©ke, no sentido de Antiga Alian√ßa¬†…]‚ÄĚ (2Cor 3,14). Nessa passagem, a express√£o ‚ÄúAntigo Testamento‚ÄĚ ou ‚ÄúAntiga Alian√ßa‚ÄĚ √© um ‚Äútermo para designar a Lei [que] foi inventado por Paulo para sublinhar o car√°ter ultrapassado da revela√ß√£o feita a Mois√©s‚ÄĚ (MURPHY-O‚ÄôCONNOR, 1990, p.820).

Na exposi√ß√£o paulina, a realidade designada como nova (a Nova Alian√ßa ou Novo Testamento na passagem de 2Cor 3,6) situa a reflex√£o sobre a palai√° diath√©ke (Antiga Alian√ßa ou Antigo Testamento) no mesmo horizonte amplo de compreens√£o do termo diath√©ke. Do ponto de vista da exatid√£o das fontes, seria um anacronismo pensar que Paulo tivesse ali como impl√≠cita uma ‚Äúcoisa‚ÄĚ, a lista dos 27 livros que depois seria designada de Novo Testamento.

O horizonte mais amplo de compreens√£o da express√£o ‚ÄúNovo Testamento‚ÄĚ deve ser mantido ao se considerar a elabora√ß√£o do c√Ęnon neotestament√°rio pois manteve-se nos tempos em que esse foi sendo formado. Na √©poca patr√≠stica, um autor que utiliza o horizonte mais amplo de kain√© diath√©ke √© Ireneu de Lyon, em 180 dC na obra Adversus Haereses. No quarto e √ļltimo livro dessa obra, o bispo de Lyon aborda frequentemente o tema das duas Alian√ßas. Em Ireneu, a refer√™ncia √†s duas Alian√ßas n√£o √© equivalente ao uso que hoje fazemos das f√≥rmulas ‚ÄúAntigo Testamento‚ÄĚ e ‚ÄúNovo Testamento‚ÄĚ. Ele se refere aos eventos das duas Alian√ßas ‚Äď aquela do antigo Israel e a nova em Cristo ‚Äď manifestadas na hist√≥ria do povo hebreu. N√£o se sustenta, portanto, a tese de que Ireneu teria inventado a f√≥rmula ‚ÄúNovo Testamento‚ÄĚ para se referir √† lista dos escritos crist√£os reconhecidos como sagrados.

J√° em meados do s√©culo¬†II h√° atesta√ß√Ķes de que escritos redigidos por crist√£os eram reconhecidos como sagrados. H√°, nas obras de Justino M√°rtir, indica√ß√Ķes claras do reconhecimento de escritos crist√£os na mesma categoria de sagrados em que se encontravam os escritos judaicos pr√©-crist√£os (MANNUCCI, 1983, p.203). Ao falar de textos crist√£os, ele faz refer√™ncia a um conjunto denominado ‚ÄúMem√≥rias dos Ap√≥stolos‚ÄĚ em cujo t√≠tulo o genitivo indica a autoria (FIALOVA, 2016, p.169, 171). Tais ‚ÄúMem√≥rias‚ÄĚ eram compostas pelos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e Jo√£o (FIALOVA, 2016, p.173). Justino comenta que essas ‚ÄúMem√≥rias dos Ap√≥stolos‚ÄĚ s√£o ‚Äúchamadas de Evangelhos‚ÄĚ (Apologia¬†I, 66).

A indica√ß√£o do reconhecimento da natureza sagrada desses escritos encontra-se na sequ√™ncia. Justino relata que, no ‚Äúdia do Sol‚ÄĚ, primeiro dia da semana, os crist√£os da cidade e do campo reuniam-se e faziam ‚Äúa leitura das Mem√≥rias dos Ap√≥stolos e dos Escritos dos Profetas‚ÄĚ (Apologia¬†I, 67). Depois dessas leituras, eram partilhados o p√£o e o vinho eucar√≠sticos pelo presidente da celebra√ß√£o e feitas a√ß√Ķes de gra√ßas. Em Justino, v√™-se que as ‚ÄúMem√≥rias dos Ap√≥stolos‚ÄĚ ou ‚ÄúEvangelhos‚ÄĚ tinham o mesmo car√°ter sagrado das Escrituras Sagradas que haviam sido recebidas do antigo Israel (FIALOVA, 2016, p.177).

3.2 A evolução das listas de textos sagrados cristãos

A lista mais antiga de textos sagrados cristãos atualmente conhecida é o Fragmento de Muratori. O documento representa o uso, no final do século II em Roma, dos escritos cristãos reconhecidos ali como Escritura Sagrada (MANNUCCI, 1983, p.204). Trata-se de um pedaço de manuscrito em latim do século VII no qual faltam a parte inicial e final. A crítica textual indica que foi traduzido de um original grego. Data-se o Fragmento de Muratori no final do século II porque ele se refere a Pio, bispo de Roma de 140 a 155, como sendo recente. Críticos na linha de Albert Sundberg mantêm que o original do Fragmento de Muratori seria apenas do século IV, mas os argumentos não se sustentam (AUWERS; DE JONGE, 2003, p.315). A parte inicial do documento está perdida e ele não fala dos evangelhos de Mateus e Marcos, mas Lucas e João são mencionados nas primeiras linhas como terceiro e quarto evangelhos. Além dos quatro evangelhos e dos Atos dos Apóstolos, a lista afirma que devem ser aceitas as treze cartas paulinas, a Primeira e Segunda Carta de João, a Carta de Judas e o Apocalipse de João. O documento relata que deve ser acolhido um Apocalipse de Pedro, mas ressalta que alguns em Roma o rejeitam. O Fragmento de Muratori não menciona a Carta aos Hebreus, a Carta de Tiago, a Primeira e Segunda Carta de Pedro nem a Terceira Carta de João, e indica alguns livros que não devem ser lidos na Igreja entre os quais o Pastor de Hermas (EB 1-7).

Somente a partir do s√©culo¬†IV √© que chegar√° at√© n√≥s uma consistente diversidade de testemunhos a respeito do c√Ęnon do NT. No in√≠cio desse s√©culo, Eus√©bio de Cesareia relata a lista que teria sido reconhecida por Or√≠genes na primeira metade do s√©culo¬†III (MANNUCCI, 1983, p.204). Est√£o ali presentes os quatro evangelhos e Atos dos Ap√≥stolos, a Carta aos Hebreus, o Apocalipse, a Primeira e a Segunda Carta de Pedro (mas lan√ßando d√ļvidas sobre a segunda), tr√™s Cartas de Jo√£o (lan√ßando d√ļvidas sobre as duas √ļltimas) e um n√ļmero indeterminado de cartas de Paulo. N√£o se fala da Carta de Tiago nem da Carta de Judas (Historiae Ecclesiasticae VI, 25).

Em outra parte de sua obra, Eus√©bio aborda o assunto dos livros crist√£os que seriam fidedignos referindo-se a eles como ‚Äúlivros do Novo Testamento‚ÄĚ (Historiae Ecclesiasticae III, 25). Ele basicamente repete o elenco acima que era reconhecido por Or√≠genes (MANNUCCI, 1983, p.204). A diferen√ßa √© que agora, falando por si, Eus√©bio comenta que a Carta de Tiago e a Carta de Judas est√£o tamb√©m na categoria de duvidosas. Atesta, por√©m, que ambas estavam sendo empregadas regularmente em diversas Igrejas (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1051). Al√©m disso, alerta para uma terceira categoria de livros que, n√£o obstante piedosos, n√£o tinham origem no √Ęmbito dos ap√≥stolos, como Atos de Paulo, Pastor de Hermas, Apocalipse de Pedro, Carta de Barnab√© e as Institui√ß√Ķes dos Ap√≥stolos. Enumera, por fim, uma quarta categoria de obras que se afastavam grosseiramente da ortodoxia e que por isso deviam ser repudiadas. Nessa categoria, ele incluiu uma s√©rie de escritos que, recebendo o nome de ‚ÄúEvangelhos‚ÄĚ, eram erroneamente atribu√≠dos a Pedro, Tom√©, Matias e Andr√© e divulgados por crist√£os her√©ticos (Historiae Ecclesiasticae III, 25).

Contempor√Ęnea a essas listas √© aquela de Cirilo de Jerusal√©m, aproximadamente do ano 350, na qual ele enumera os livros crist√£os que eram lidos na Igreja. Ele acautela que apenas quatro s√£o os evangelhos leg√≠timos. Os demais escritos com esse nome, como o Evangelho de Tom√©, disfar√ßando-se ‚Äúcom a tinta externa e o perfume do nome de evangelho, enganam as almas dos mais ing√™nuos‚ÄĚ (EB¬†10). Cirilo prossegue e elenca entre os demais textos leg√≠timos os Atos dos Ap√≥stolos, a Carta de Tiago, a Segunda e a Terceira Carta de Pedro, as tr√™s Cartas de Jo√£o, a Carta de Judas e quatorze cartas paulinas (estas sem especifica√ß√£o individual). N√£o menciona o Apocalipse (EB¬†10). Uma lista igual a essa √© aquela elaborada em 360 pelo Conc√≠lio de Laodiceia, que silencia sobre o Apocalipse de Jo√£o. O c√Ęnon de Laodiceia especifica uma a uma as catorze cartas paulinas (EB¬†13).

Outros testemunhos relevantes são do mesmo arco de tempo ao longo do século IV. O Códice Vaticano apresenta um corpus paulinum no qual faltam a Primeira e Segunda Carta a Timóteo, a Carta a Tito e a Carta a Filêmon, além de também não apresentar o livro do Apocalipse. O Códice Sinaítico, por sua vez, apresenta os 27 livros do NT mais a Carta de Barnabé e o Pastor de Hermas.

Al√©m dos c√≥dices com o efetivo texto b√≠blico, h√° o testemunho fornecido por listas nominais de livros b√≠blicos sem o texto deles. Uma delas √© o C√Ęnon de Mommsem. Theodor Mommsen publicou, em 1890, a descoberta de uma lista esticom√©trica dos livros b√≠blicos utilizada por copistas africanos na metade do s√©culo IV para calcular o pre√ßo de um exemplar da B√≠blia crist√£ (AUWERS; DE JONGE, 2003, p.154). O C√Ęnon de Mommsen nada fala da Carta aos Hebreus, de Tiago e de Judas.

Na segunda metade do s√©culo¬†IV, encontra-se em Atan√°sio de Alexandria e nos S√≠nodos de Roma, Hipona e Cartago uma concord√Ęncia a respeito do elenco de 27 livros de origem crist√£ a serem lidos nas atividades lit√ļrgicas (MANNUCCI, 1983, p.204). A Carta 39 de Atan√°sio, escrita em 367, define um c√Ęnon detalhado do NT (EB¬†15). O S√≠nodo de Roma, em 382, com o Decretum Damasi, manifesta um c√Ęnon pormenorizado id√™ntico. Ele consta dos quatro evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e Jo√£o, dos Atos dos Ap√≥stolos, as catorze cartas paulinas identificadas uma a uma e com a Carta aos Hebreus, o Apocalipse de Jo√£o, Primeira e Segunda Carta de Pedro, uma Carta de Tiago, as tr√™s Cartas de Jo√£o e uma Carta de Judas (DH¬†180). A ordem das cartas cat√≥licas ou universais (de Tiago, Pedro, Jo√£o e Judas) segue a ordem dos ap√≥stolos elencada por Paulo em Gl 2,9 ‚Äď onde Tiago, Pedro e Jo√£o, nessa sequ√™ncia, s√£o referidos como ‚Äúas colunas da Igreja‚ÄĚ ‚Äď, sendo a carta do ap√≥stolo Judas Tadeu inserida depois (AUWERS; DE JONGE, 2003, p.574). O S√≠nodo de Hipona, em 393, estabelece o mesmo elenco de livros (EB¬†17), que o 3o S√≠nodo de Cartago, em 397, repete √† letra (DH¬†186).

Outros exemplos seguem-se ao longo do s√©culo¬†V. Em 405, a carta do Papa Inoc√™ncio¬†I a Exup√©rio, bispo de Toulouse, al√©m de elencar os 27 livros do c√Ęnon do NT, p√Ķe de sobreaviso contra escritos n√£o genu√≠nos que circulavam com os nomes de ap√≥stolos como Matias, Tiago Menor, Pedro, Jo√£o e Tom√© (DH¬†213). O C√≥dice Alexandrino, da primeira metade do s√©culo¬†V, apresenta os 27 livros do NT mais a Primeira e Segunda Carta de Clemente de Roma (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1050). No final do s√©culo¬†V, o Decretum Gelasii menciona um a um os 27 livros do NT (EB 27).

Ao longo do s√©culo¬†IV as Igrejas latinas e gregas se encaminhavam, portanto, a um processo de aceita√ß√£o do c√Ęnon neotestament√°rio de 27 livros. Nesses √Ęmbitos, tal aceita√ß√£o estaria consumada no final desse per√≠odo (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1050). Tal n√£o era, entretanto, a situa√ß√£o das Igrejas na S√≠ria, que usavam um c√Ęnon de 17 livros. Neste, os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e Jo√£o eram substitu√≠dos pelo Diat√©ssaron de Taciano, que compunha numa √ļnica obra a harmoniza√ß√£o dos quatro evangelhos. Faziam-se tamb√©m presentes os Atos dos Ap√≥stolos e um corpus paulinum de 15 obras, com a Carta aos Hebreus e uma Terceira Carta aos Cor√≠ntios. S√≥ ao longo do s√©culo¬†V foi que as Igrejas na S√≠ria substitu√≠ram o Diat√©ssaron pelos quatro evangelhos, suprimiram a Terceira Carta aos Cor√≠ntios e recuperaram a Carta de Tiago, a Primeira Carta de Pedro e a Primeira Carta de¬†Jo√£o, mas permaneceram sem a Segunda Carta de Pedro, a Segunda e a Terceira Carta de¬†Jo√£o, a Carta de Judas e o Apocalipse. Em situa√ß√£o an√°loga estava a Igreja de Antioquia (MANNUCCI, 1983, p.205). A Igreja Copta tinha um c√Ęnon que inclu√≠a a Primeira e a Segunda Carta de Clemente de Roma, como no C√≥dice Alexandrino. A Igreja Et√≠ope tinha essas duas cartas e mais oito decretos, num total de 35 livros. ‚ÄúEssas considera√ß√Ķes devem deixar claro para o estudante o quanto se est√° generalizando ao se falar de um c√Ęnon neotestament√°rio na Igreja dos primeiros s√©culos‚ÄĚ (BROWN;¬†COLLINS, 1990, p.1051).

No segundo mil√™nio, com o predom√≠nio do modelo coisificante de revela√ß√£o, j√° se atesta o c√Ęnon como √© conhecido hoje. Essa √© a situa√ß√£o em 1441, no Conc√≠lio de Floren√ßa, que elenca o c√Ęnon do NT com 27 livros (DH¬†1335). No Conc√≠lio de Trento (1546), esta lista foi retomada e confirmada (DH¬†1503), o mesmo se dando no Vaticano I (1870), que ratifica o c√Ęnon de Trento, mas sem enumerar os livros individuais (DH¬†3006 e 3029). Algo parecido se deu em 1965, no Conc√≠lio Vaticano¬†II (Dei Verbum n. 20).

O √Ęmbito da Reforma protestante geralmente manteve o c√Ęnon do NT com 27 livros. A B√≠blia de Lutero traduzida para o alem√£o e publicada integralmente em 1534 elenca e traz esses 27 livros. Na Inglaterra, a edi√ß√£o da B√≠blia em ingl√™s autorizada pelo rei Henrique¬†VIII, em 1539, intitulada a Grande B√≠blia, tinha o n√ļmero e a sequ√™ncia hoje usuais para o NT. Esse procedimento continua hoje em dia, quando uma t√≠pica edi√ß√£o da B√≠blia protestante traz na mesma ordem os mesmos 27 livros do NT de uma B√≠blia cat√≥lica. A diferen√ßa est√° na √≥tica utilizada para acessar os textos do c√Ęnon. Na Reforma, tal √≥tica √© o paradigma coisificado de revela√ß√£o em que esta √© compreendida como sola Scriptura. A √ļnica revela√ß√£o divina que se encontra dispon√≠vel ao fiel antes de sua morte √© o texto b√≠blico que o leitor tem diante de si, como um imenso dep√≥sito de palavras divinamente reveladas.

Conclus√£o

A revela√ß√£o judaico-crist√£, desde sua mais remota origem, teve o car√°ter do paradigma personalista, segundo o qual o que √© revelado √©, sobretudo, Algu√©m que na plenitude daquele processo revelativo mostrou-se na pessoa de Jesus de Nazar√©. Esse era o paradigma de revela√ß√£o do pr√≥prio Cristo e dos ap√≥stolos. √Č esse Algu√©m ‚Äď Christus praesens, Cristo presente ‚Äď que continua se revelando posteriormente e no tempo atual, embora o que de si venha agora a mostrar j√° tenha sido revelado anteriormente no tempo da revela√ß√£o fundamental. A Sagrada Escritura definida em base a um c√Ęnon √© o registro dessa revela√ß√£o fundamental culminada em Cristo. Ela √© o registro que guia e orienta com seguran√ßa o encontro atual com o pr√≥prio Cristo vivo. Incertezas eventuais sobre alguns de seus trechos n√£o dep√Ķem contra seu car√°ter sagrado. Antes, atestam que a B√≠blia, enquanto Palavra de Deus subordinada, encontra-se numa rela√ß√£o de total depend√™ncia em rela√ß√£o √†quele Algu√©m que √© a Palavra de Deus por excel√™ncia, Jesus de Nazar√©.

O estudo do c√Ęnon da Sagrada Escritura ganha em qualidade ao ser deixado de lado o paradigma coisificado de revela√ß√£o, segundo o qual aquilo que Deus teria feito passar do √Ęmbito divino para o humano seriam palavras exatas contendo seus textos revelados em uma precisa grafia e fraseologia. Ainda que o estudo dos manuscritos antigos demonstre que os textos da Sagrada Escritura n√£o sofreram mudan√ßas fundamentais desde a Antiguidade, ele demonstra tamb√©m que havia diferentes vers√Ķes dos textos sagrados utilizadas pelos judeus no per√≠odo do Segundo Templo (entre 520¬†aC e 70¬†dC), bem como entre os crist√£os do primeiro s√©culo. Os textos daquela √©poca nem sempre s√£o absolutamente id√™nticos a textos posteriores como o texto massor√©tico e os pergaminhos gregos. Alguns s√£o mais pr√≥ximos do texto grego presente na B√≠blia dos Setenta, e mesmo do Pentateuco samaritano. Tais diferen√ßas, longe de serem tidas como erros, falsifica√ß√Ķes ou inven√ß√Ķes de copistas ou tradutores, apenas indicam a inadequa√ß√£o do paradigma coisificado de revela√ß√£o. √Č a concep√ß√£o plasmada por tal paradigma ‚Äď que n√£o era aquele de Cristo e dos ap√≥stolos ‚Äď que exigiria um absoluto rigor de letras, grafias e fraseologias determinadas pelo c√Ęnon de livros sagrados.

C√©sar Andrade Alves SJ. Faculdade Jesu√≠ta de Filosofia e Teologia ‚Äď Belo Horizonte, Brasil. Texto original em portugu√™s.

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