Catolicismo contempor√Ęneo

Sum√°rio

1 Revolução francesa e a Igreja católica

1.1 Revolução inspirada no iluminismo

2 Catolicismo e o processo de restauração (1814-1846)

2.1 Restauração, um conceito

2.2 Estratégia agressiva contra a modernidade

3 Catolicismo e o combate ao liberalismo (1846-1878)

4 Quest√£o social e o catolicismo

4.1 Le√£o XIII (1878-1903) e a quest√£o social

4.2 Rerum Novarum (1891)

5 Condenação do modernismo e as reformas intereclesiais

5.1 Contra o modernismo

5.2 Reformas intereclesiais

6 Movimentos de renovação

7 Catolicismo e as Grandes Guerras

7.1 Período entre Guerras

7.2 Pio XII: pastoral, teologia e a 2ª Guerra Mundial

8 Transição e renovação, o papa cristão

8.1 Jo√£o XXIII (1958-1963)

8.2 Vaticano II (1962-1965) e sua relação com a modernidade

8.3 Paulo VI, reformador e incompreendido (1963-1978)

9 O santo criticado e seu continuador

9.1 Jo√£o Paulo II (1978-2005)

9.2 Bento XVI (2005-2013)

10 O retorno ao Cristianismo: Francisco

11 Referências Bibliográficas

1 Revolução francesa e a Igreja católica

1.1 Revolução inspirada no iluminismo

Na transi√ß√£o dos s√©culos XVIII-XIX, a sociedade europeia entra no enorme palco de transforma√ß√Ķes impulsionado pelas revolu√ß√Ķes iluminista (pensamento), francesa (social burguesa) e industrial (econ√īmica capitalista). O iluminismo, no ‚Äús√©culo das luzes‚ÄĚ (XVIII), rompe com o determinismo religioso, imprime for√ßa incondicional na a√ß√£o cr√≠tica da raz√£o, questiona a obedi√™ncia submissa, organiza o saber criando m√©todos de pesquisa, critica autoridade e poder. Suas cr√≠ticas n√£o pouparam a Igreja cat√≥lica: abismo social entre alto e baixo clero, indiferen√ßa diante das dificuldades do povo. A revolu√ß√£o social francesa afetou todo o Ocidente, deixando profundas marcas no catolicismo. A luta est√° alicer√ßada nos resultados da sociedade medieval (clero, nobreza, artes√£os) e a sociedade industrial (burguesia e trabalhadores). A revolu√ß√£o econ√īmica provoca mudan√ßas no sistema de produ√ß√£o, o capitalismo explora as riquezas naturais, se beneficia do avan√ßo cient√≠fico, mas o progresso porta consigo consequ√™ncias grav√≠ssimas para a sociedade. Dentre elas, a explora√ß√£o humana: longas jornadas de trabalho, √™xodo rural, fim dos artes√£os, divis√£o social do trabalho, concentra√ß√Ķes urbanas, precariedade nas condi√ß√Ķes de vida, prostitui√ß√£o, alcoolismo, criminalidade, epidemias e uma imensid√£o de despossu√≠dos.

A Revolu√ß√£o francesa foi um acontecimento inesperado para a Igreja cat√≥lica, gestado no ber√ßo do iluminismo. No seu desdobramento se sucederam outras revolu√ß√Ķes at√© a ditadura militar de Napole√£o Bonaparte. O s√©culo XIX inicia, para a Igreja, com um novo pontificado, Pio VII (1800-1823). Ap√≥s v√°rias tratativas, o papa assina, juntamente com Napole√£o, a Concordata (1801). O documento √© uma tentativa de recuperar as rela√ß√Ķes diplom√°ticas entre ambos Estados. Assim, a Igreja renunciava aos bens expropriados e aceitava que a remunera√ß√£o do clero fosse efetuada pelo Estado franc√™s. Bonaparte, secretamente, acrescentou √† Concordata 77 ‚Äėartigos org√Ęnicos‚Äô, que aboliam em parte as conquistas da mesma. O protesto do papa n√£o surtiu efeito, e Pio VII ainda sofreria outras humilha√ß√Ķes por parte de Napole√£o, que em 1808 ordenou a ocupa√ß√£o de Roma e do Estado Pontif√≠cio. O papa excomunga Napole√£o e este faz Pio VII prisioneiro em Fontainebleau, sendo pressionado a abdicar o Estado Pontif√≠cio. Com a queda de Napole√£o, na sequ√™ncia da campanha da R√ļssia (1812) e da batalha de Leipzig (1813), e de tropas aliadas terem invadido Paris (1814), a reordena√ß√£o da Europa pode ser empreendida pelo Congresso de Viena (1814-1815).

No in√≠cio do s√©culo XIX, o papado parecia atravessar um dos momentos mais dif√≠ceis da era moderna. Pio VI havia morrido (1799) s√≥ e abandonado, prisioneiro da Revolu√ß√£o francesa. O episcopalismo parecia que triunfaria, sendo o sistema papal e a infalibilidade, segundo alguns autores alem√£es e franceses, quest√Ķes antiquadas e sem import√Ęncia hist√≥rica. Nenhum outro acontecimento hist√≥rico contribuiu tanto para o triunfo do papado no Vaticano I (1869-70) como a Revolu√ß√£o francesa. Com Pio VII realiza-se a reorganiza√ß√£o da Igreja francesa (1801), e 36 bispos que viviam fora da Fran√ßa foram depostos, demonstrando, apesar de tudo, que o papado possu√≠a poder. Este foi um passo para o ultramontanismo.

2 Catolicismo e o processo de restauração (1814-1846)

2.1 Restauração, um conceito

Com o t√©rmino da Revolu√ß√£o francesa e do per√≠odo napole√īnico, a Europa estava em situa√ß√£o pol√≠tica, cultural e religiosa de total desordem. Era fundamental, pensavam a institui√ß√£o religiosa e v√°rios membros da sociedade, restabelecer a ordem restaurando os princ√≠pios da autoridade, da religi√£o e da moral, assim como eram no Antigo Regime.

2.2 Estratégia agressiva contra a modernidade

O programa de restauração é evidente no pontificado do papa Leão XII (1823-1829). Sua preocupação era recuperar tudo o que a secularização e a revolução haviam destruído. A intenção nunca foi a de adaptar a Igreja às exigências dos novos tempos, mas uma restauração aos tempos anteriores. Seu sucessor, Pio VIII (1829-1830), não era um papa de objetivos diferentes. Sua ação era defensiva da Igreja e da fé católica, defender dos erros daquelas doutrinas, segundo ele mentirosas e perversas, que atacavam a fé. A educação deveria estar nas mãos da religião católica. Era evidente que este pontificado ficaria numa escala de transição. A grande reviravolta viria com seu sucessor.

A rea√ß√£o agressiva da institui√ß√£o cat√≥lica contra a modernidade n√£o tardaria. Greg√≥rio XVI (1831-1846), o novo papa, realizou um pontificado dentro de uma linha program√°tica da situa√ß√£o cultural e pol√≠tica de seu tempo. A cultura era dominada pelo iluminismo, anticlericalismo, ma√ßonaria e pelo elemento antirreligioso, enquanto na pol√≠tica oficial predominava a restaura√ß√£o. Neste contexto, o papa publica a enc√≠clica Mirari vos (1832). Entre as tem√°ticas tratadas, em termos dur√≠ssimos, est√£o as duas fontes do mal: liberdade de imprensa e o indiferentismo religioso. Na mentalidade da cristandade medieval e da sociedade perfeita reinantes, o papa n√£o consegue constatar nenhum sinal positivo em seu tempo e, por sua vez, n√£o identifica as situa√ß√Ķes preocupantes dentro da institui√ß√£o religiosa que necessitam de transforma√ß√£o. A ideia de renova√ß√£o da Igreja √© rejeitada, considerada um ultraje. Condena as ferrovias, pontes, energia el√©trica. Tudo √© sinal da modernidade e, por consequ√™ncia, erros que devem ser condenados. O modelo de Igreja da cristandade prevalecer√° durante todo o s√©culo XIX.

Um aspecto significativo deste per√≠odo foi a vitalidade da a√ß√£o mission√°ria da Igreja atrav√©s de muitas comunidades religiosas e um interessante florescimento de novas congrega√ß√Ķes, sobretudo no campo da educa√ß√£o, da assist√™ncia aos enfermos e empenho mission√°rio. As contradi√ß√Ķes da hist√≥ria se sucedem no decorrer do s√©culo XIX. Se, por um lado, um segmento da institui√ß√£o constr√≥i um embate com a modernidade, outros setores se veem dentro de uma febre mission√°ria, de funda√ß√£o de congrega√ß√Ķes dedicadas exclusivamente √†s miss√Ķes, assim como de prepara√ß√£o para as futuras igrejas locais.

3 Catolicismo e o combate ao liberalismo (1846-1878)

O final do pontificado de Greg√≥rio XVI foi para os romanos uma liberta√ß√£o. O papa e o seu secret√°rio de Estado, cardeal Lambruschini, n√£o eram amados e seu governo foi considerado tir√Ęnico e obscurantista. Todos esperavam um novo papa capaz de enfrentar, de maneira diplom√°tica, a situa√ß√£o social e pol√≠tica. Eleito Pio IX (1846-1878), os liberais e democratas constru√≠ram a imagem do papa liberal, embora depois tenha sido acusado de inimigo da liberdade de consci√™ncia e de culto e de promover uma Igreja hostil √† sociedade moderna. Defendia a plena independ√™ncia do papa e da Igreja em rela√ß√£o ao Estado, opositor combativo do galicanismo. Se, por um lado, os anticlericais se tornaram grandiosos inimigos do papa, especialmente a partir da segunda metade do s√©culo XIX, por outro lado, os ultramontanos cultuavam t√£o exageradamente o papa que atribu√≠am a ele o t√≠tulo de ‚ÄúGrande‚ÄĚ. S√£o tr√™s os pontos fundamentais de seu pontificado: proclama√ß√£o do dogma da Imaculada Concei√ß√£o (1854); publica√ß√£o da enc√≠clica Quanta Cura e seu anexo Sylabus (1864); e o Conc√≠lio Vaticano I (1869-70).

Pio IX n√£o aceitava o regime constitucional, n√£o somente por entender que n√£o era apto para a Igreja, mas porque o julgava ruim em si mesmo. Enorme era sua avers√£o aos cat√≥licos liberais. O auge de sua pol√≠tica antiliberal se d√° com a publica√ß√£o da Quanta Cura e Sylabus. A enc√≠clica tem por objetivo apontar os ‚Äúerros modernos‚ÄĚ que colocam a f√© da Igreja em perigo e demonstrar sua supera√ß√£o, afirmando a autoridade da Igreja, fundamentada na autoridade divina. Esses erros, decorrentes da emerg√™ncia das filosofias modernas como teorias de um novo estado de esp√≠rito, distorcem a consci√™ncia humana e a consci√™ncia eclesial. Perderam-se os valores morais e o car√°ter sacral da sociedade atual. Os erros modernos em destaque s√£o o naturalismo e o pante√≠smo, o liberalismo, o comunismo e o socialismo, a dissocia√ß√£o entre Igreja e Estado. O anexo √† enc√≠clica, o Sylabus, √© uma rela√ß√£o de 80 erros da modernidade que j√° haviam sido expostos e condenados em documentos anteriores. O documento √© publicado no momento em que h√° disson√Ęncia entre os cat√≥licos. Al√©m das motiva√ß√Ķes da sociedade para elencar estes erros, o papa analisa de maneira negativa os cat√≥licos que estavam abertos ao di√°logo com a sociedade moderna, democr√°ticos, progressistas, constitucionais. Contudo, os papistas, tradicionalistas e ultramontanos, estavam demasiadamente cultuando o passado.

As críticas de Pio IX objetivavam salvaguardar a fé da Igreja e a própria autoridade da Igreja na sociedade moderna. Sua apologética, incluindo o dogma da Imaculada Conceição, realçou a postura da Igreja em defender-se da modernidade e em afirmar sua identidade, construída no Concílio de Trento (1545-63). As críticas serviram também para apontar os maximalismos tanto dos defensores quanto dos opositores da modernidade. Essa apologética possibilitou estabelecer um clima necessário para buscar o equilíbrio na relação entre Igreja e Estado, fé e razão.

Na festa da Imaculada de 1869, foi aberto o Conc√≠lio Vaticano I, que se organizou com um objetivo principal: completar e confirmar a obra de exposi√ß√£o doutrinal anterior contra o racionalismo te√≥rico e pr√°tico do s√©culo XIX. Duas constitui√ß√Ķes foram aprovadas, uma sobre a f√© cat√≥lica e outra sobre o papel do Romano Pont√≠fice e sua autoridade doutrinal. Em julho de 1870, a guerra franco-prussiana obrigou a suspens√£o do Vaticano I, que nunca mais foi reaberto. Tamb√©m em 1870, o Estado Pontif√≠cio foi anexado oficialmente ao territ√≥rio italiano, situa√ß√£o t√£o conflitiva que o papa excomungou o rei Vittorio Emanuelle e se refugiou em sua resid√™ncia, o Quirinal. Pio IX n√£o autorizava os italianos a serem candidatos ou votarem nas elei√ß√Ķes. Essa situa√ß√£o durou mais de trinta anos. Estava iniciada a Quest√£o romana (1870-1929).

Apesar das polêmicas historiográficas, o papa João Paulo II solicitou a continuidade do processo de beatificação de Pio IX, que ocorreu, juntamente com a do papa João XXIII, em 3 de setembro do ano 2000.

4 Quest√£o social e o catolicismo

4.1 Le√£o XIII (1878-1903) e a quest√£o social

Esse pontificado conseguiu alcan√ßar um prest√≠gio n√£o obtido em tempos anteriores. A conjuntura final do s√©culo XIX coincidiu com um conjunto de mudan√ßas radicais no campo pol√≠tico, econ√īmico, social e cient√≠fico. Em 1892, o papa orienta os franceses a aceitar a Rep√ļblica, significando o final, para o mundo cat√≥lico, da cristandade. Seu magist√©rio tratou de diversos assuntos de grande import√Ęncia naquele contexto, da vida religiosa √† social. A sociedade estava dividida pelo conflito entre o capital e o trabalho: eis a quest√£o social. Essa preocupa√ß√£o social havia come√ßado na segunda metade do s√©culo XIX, quando em diversos pa√≠ses foram fundadas associa√ß√Ķes e c√≠rculos em favor dos oper√°rios. Le√£o XIII publicar√° um emblem√°tico documento que tratou de maneira objetiva a quest√£o oper√°ria e social: a enc√≠clica Rerum Novarum.

4.2 Rerum Novarum (1891)

A enc√≠clica conferiu √† Igreja cat√≥lica uma esp√©cie de carta de cidadania. Sem d√ļvida, a enc√≠clica foi para a a√ß√£o social crist√£ aquilo que foi o ‚ÄúManifesto do Partido Comunista‚ÄĚ e o ‚ÄúCapital‚ÄĚ, de Karl Marx, para a a√ß√£o socialista. O documento trata da quest√£o oper√°ria, contendo os princ√≠pios b√°sicos da Doutrina Social da Igreja, que ser√£o retomados, aprofundados e aplicados em sucessivos documentos e pronunciamentos do Magist√©rio. Essa enc√≠clica √© o primeiro texto do magist√©rio eclesi√°stico a estudar seriamente o problema social ocasionado pela industrializa√ß√£o. O texto, ao mesmo tempo, condenava o liberalismo e o socialismo, mas reconhecia o direito natural √† propriedade e sublinhava o valor social, atribu√≠a ao Estado o papel de promotor do bem comum, da prosperidade p√ļblica e da privada, superando o absolutismo social do Estado liberal, e reconhecia ao oper√°rio o direito a um sal√°rio justo. Condenava a luta de classes e aceitava o direito do oper√°rio associar-se para defender seus interesses.

A enc√≠clica foi publicada 44 anos depois do aparecimento do ‚ÄėManifesto‚Äô de Marx, e aparentemente n√£o foi t√£o importante para o movimento de emancipa√ß√£o dos oper√°rios. Muitas vezes utiliza uma linguagem abstrata, sem analisar a situa√ß√£o real criada pelo capitalismo e tamb√©m n√£o apresenta uma an√°lise estrutural das causas da mis√©ria da classe oper√°ria. Apesar dessas e outras lacunas, o documento representa uma importante postura na hist√≥ria da Igreja cat√≥lica.

Essas mudan√ßas na postura da Igreja produziram tamb√©m dificuldades: n√£o foram poucas as pessoas que pediam a convers√£o de Le√£o XIII, que o consideravam entregue √†s teses marxistas. A outra face da moeda √© que em pa√≠ses como a Fran√ßa, B√©lgica e It√°lia nasceu um movimento que se denominou democrata crist√£o, unindo as aspira√ß√Ķes apost√≥licas, a vontade de reformas sociais e uma preocupa√ß√£o pol√≠tica, n√£o sempre clara, mas favor√°vel √† democracia.

5 Condenação do modernismo e reformas intereclesiais

5.1 Contra o modernismo

O modernismo e sua consequente crise tiveram in√≠cio nos tempos de Le√£o XIII, mas seu ponto fulcral se deu no pontificado de Pio X (1903-1914). Esse movimento surge em ambiente universit√°rio liberal. Elaborou um pensamento que consistia na aplica√ß√£o dos m√©todos modernos de investiga√ß√£o cient√≠fica √† teologia. O objetivo era abrir o cristianismo √†s exig√™ncias filos√≥ficas e hist√≥ricas da sociedade contempor√Ęnea. Uma tentativa de acolher o pensamento modernista foi realizada na obra filos√≥fica de Maurice Blondel, L‚ÄôAction (1893).

As ideias do modernismo foram aplicadas √† teologia e √† Sagrada Escritura. As proposi√ß√Ķes aplicadas no campo eclesiol√≥gico tendiam a reduzir a Igreja a uma forma democr√°tica. O modernismo foi a tentativa de conciliar a Igreja cat√≥lica com os resultados conseguidos pela cr√≠tica hist√≥rica. Neste sentido, a Igreja n√£o √© hierarquia, mas √© origin√°ria da consci√™ncia coletiva, nascida n√£o da vontade divina, mas da necessidade. Gerada de baixo para cima. As proposi√ß√Ķes modernistas foram censuradas pela Igreja, mas encontraram ades√£o na medida que afastavam-se do projeto de cristandade. Alguns representantes do modernismo tiveram suas obras submetidas ao Index. Alguns se reconciliaram com a Igreja e outros foram excomungados. Dois dos protagonistas s√£o o padre franc√™s Alfred Loisy (1857-1940) e o jesu√≠ta ingl√™s George Tyrrell (1861-1909). O primeiro foi excomungado, interpretava em sentido escatol√≥gico a prega√ß√£o de Jesus; negava a imutabilidade e o valor objetivo dos dogmas; reduzia o valor da autoridade eclesi√°stica, pregava total separa√ß√£o entre a f√© e a hist√≥ria. O segundo afirmava que se poderia ficar no catolicismo sob condi√ß√£o de distinguir entre a f√© viva e a teologia morta, entre a Igreja real e a autoridade que a governa. Foi expulso da Companhia de Jesus e n√£o foi aceito em nenhuma diocese. Mais tarde, foi decretada sua exclus√£o aos sacramentos, mas n√£o a excomunh√£o.

Atrav√©s da enc√≠clica Pascendi Dominici Gregis e do decreto Lamentabili (1907), Pio X apresenta uma forte condena√ß√£o ao modernismo, reprimindo a reconcilia√ß√£o da doutrina crist√£ com a ci√™ncia e o conhecimento moderno. Foi realizada uma ca√ßa formal √† heresia dos te√≥logos reformistas, de maneira especial a exegetas e historiadores. S√£o exclu√≠das do ensinamento as obras de Lagrange, Funk, Delehaye, Duchesne. Em 1910, √© imposto aos professores de semin√°rios o juramento antimodernista. S√£o realizadas visitas apost√≥licas nos semin√°rios italianos, resultando em relat√≥rios √†s vezes duros por parte dos visitadores. Um dos avaliados nestas visitas foi √āngelo Roncalli, futuro Jo√£o XXIII.

5.2 Reformas intereclesiais 

O papa Sarto foi um dos grandes reformadores da Igreja.¬† √Č de sua iniciativa a organiza√ß√£o legislativa da Igreja atrav√©s do C√≥digo de Direito Can√īnico. Sua apresenta√ß√£o final realizou-se em 1917, no pontificado de Bento XV. Outras reformas aconteceram na catequese e na liturgia. Organizou um catecismo da doutrina crist√£. Na liturgia, lan√ßou documentos sobre a m√ļsica sacra (restaura√ß√£o do canto gregoriano), brevi√°rio (harmoniza√ß√£o do brevi√°rio e ano lit√ļrgico) e sobre a eucaristia (comunh√£o frequente e idade para primeira eucaristia). Pio X foi canonizado por Pio XII em 1954.

6 Movimentos de renovação

Os movimentos b√≠blico, lit√ļrgico e ecum√™nico foram a porta de entrada do sujeito moderno na Igreja. Surgem no s√©culo XIX e deslancham no s√©culo XX. Os albores do Vaticano II tamb√©m tem sua gesta√ß√£o nesses movimentos.¬† O movimento ecum√™nico, por exemplo, nasceu fora da Igreja cat√≥lica. Em Edimburgo (Esc√≥cia), em 1910, mission√°rios protestantes organizaram uma confer√™ncia para estudar as possibilidades e os meios de uni√£o, em vistas de uma √ļnica evangeliza√ß√£o crist√£. Nascia o movimento ecum√™nico. Em 1960, no pontificado de Jo√£o XXIII, foi criado o Secretariado para a Uni√£o dos Crist√£os, presidido pelo cardeal jesu√≠ta alem√£o Augustin Bea. O movimento nasce no mundo protestante por raz√Ķes de evangeliza√ß√£o e assume relev√Ęncia na Igreja cat√≥lica √† medida que os te√≥logos desposam tal projeto.

7 Catolicismo e as grandes Guerras

Numa linha intermedi√°ria e de grande import√Ęncia hist√≥rica para a compreens√£o da modernidade est√° o pontificado de Bento XV (1914-1922). O papa envolveu-se na media√ß√£o com a 1¬™ Guerra Mundial, mas sem sucesso. O caos global da Guerra (1914-1918) tornou evidente que os principais valores da modernidade estavam em crise: a absolutiza√ß√£o moderna da raz√£o, do progresso, da na√ß√£o e da ind√ļstria. A total cren√ßa na raz√£o, no progresso, no nacionalismo, no capitalismo e no socialismo fracassara. A Europa estava pagando um pre√ßo alto com os movimentos reacion√°rios do fascismo, nazismo e comunismo. Esses movimentos idealizavam, de uma maneira moderna, a ra√ßa, a classe e seus l√≠deres impediram uma ordem mundial nova e melhor.

A 1ª Guerra colocou em marcha a revolução global que se tornaria explícita após a 2ª Guerra Mundial: a mudança do paradigma eurocêntrico de modernidade, que tinha uma marca colonialista, imperialista e capitalista. O novo paradigma, que começara a se desenvolver, da pós-modernidade seria global, policêntrico e de orientação ecumênica. A Igreja católica reconhecera isto somente em parte, e um pouco tarde.

7.1 Período entre Guerras

O sentido do pontificado de Pio XI (1922-1939), no entre guerras, deve ser compreendido dentro dos acontecimentos pol√≠ticos de seu tempo: uma humanidade oprimida pelos totalitarismos gerados pela sociedade de massa, as profundas diferen√ßas ideol√≥gicas que tornaram, particularmente durante a guerra civil, os valores crist√£os e a Igreja hostilizados e perseguidos. O desenrolar deste pontificado acontece durante a dramaticidade de grandes eventos que marcam o mundo contempor√Ęneo: fascismo, nazismo e totalitarismo stalinista. Todo este contexto justificava, de certo modo, sua pol√≠tica concordat√°ria realizada na It√°lia atrav√©s dos Pactos Lateranenses (1929). O desenvolvimento de suas atividades ser√° explicitado atrav√©s das enc√≠clicas: Non abbiamo bisogno (1931), Quadragesimo anno (1931), Mit brennender Sorge (1937), e, em seguida, a condena√ß√£o do comunismo ateu na Divini Redemptoris (1937).

A A√ß√£o Cat√≥lica (movimento de leigos), organizada neste pontificado, est√° na base da prepara√ß√£o do Conc√≠lio Vaticano II. Apesar desta inten√ß√£o inicial, os leigos da A√ß√£o Cat√≥lica levaram os colegiais (JEC), os universit√°rios (JUC), os oper√°rios (JOC, ACO), o mundo rural (JAC) e pessoas dos meios independentes (JIC) a inserirem-se nos seus ambientes espec√≠ficos, a tal ponto que eles trouxeram para dentro da Igreja toda a problem√°tica e reflex√£o moderna que em tais situa√ß√Ķes se vivia. Essa atua√ß√£o do laicato no mundo, seu engajamento, assumindo compromissos pol√≠ticos, levou a uma maior participa√ß√£o dentro da Igreja, requerendo maior forma√ß√£o espiritual e teol√≥gica.¬† √Č a√≠ que esse laicato se defronta com os problemas da modernidade. Os grandes pensadores Yves Congar, Jacques Maritain e Emmanuel Mounier desenvolveram reflex√Ķes teol√≥gicas sobre a presen√ßa do leigo crist√£o na Igreja e no mundo. Toda essa mentalidade estava caracterizada pelos sinais da modernidade.

Diante das medidas fascistas baixadas na It√°lia, em junho de 1938, e tamb√©m porque na Alemanha o problema judaico ia se agravando, Pio XI confiou ao padre jesu√≠ta americano John La Farge a tarefa de preparar um texto sobre a unidade do g√™nero humano, destinada a condenar em especial o racismo e o antissemitismo. O esbo√ßo do texto chegou √†s m√£os do papa somente no final de 1938. O papa estava doente e em seguida morreria, a enc√≠clica jamais foi publicada. No Brasil a enc√≠clica (e um longo coment√°rio) foi publicada pela Editora Vozes com o t√≠tulo ‚ÄúA enc√≠clica escondida de Pio XI‚ÄĚ.

7.2 Pio XII: pastoral, teologia e a 2ª Guerra Mundial

Pio XII (1939-1958) fazia ressurgir o projeto de uma civiliza√ß√£o crist√£. Eug√™nio Pacelli, que havia sido n√ļncio em Munique, teve um pontificado de extremos. Isto se explica pelo not√°vel contraste entre sua figura e orienta√ß√£o e as de seu sucessor Jo√£o XXIII (o papa do s√©culo). Representava a encarna√ß√£o do papado em toda a sua dignidade e superioridade. Herdara de seu antecessor uma Igreja fortemente centralizada. As atividades desse papa foram adquirindo outro tom diante, principalmente, de suas rela√ß√Ķes com a Alemanha e o nazismo. Nesse sentido, seu pontificado foi extremamente criticado por uns, que afirmavam a aus√™ncia de manifesta√ß√Ķes p√ļblicas do papa na quest√£o judaica do holocausto, e defendido por outros, que diziam que o papa estava realizando tudo o que estava a seu alcance por vias diplom√°ticas.

O magist√©rio de Pio XII poder√° ser compreendido atrav√©s de suas mensagens, discursos e enc√≠clicas. Seu pontificado pode ser considerado o √ļltimo da era antimoderna medieval. Teve diversos aspectos autorit√°rios: rejeitou as doutrinas evolucionistas, existencialistas, historicistas e suas infiltra√ß√Ķes na teologia cat√≥lica foram de grande impacto, como as censuras aos estudiosos Maritain, Congar, Chenu, De Lubac, Mazzolari, Milani e os padres oper√°rios franceses.

A situa√ß√£o mundial e mesmo, em muitos aspectos, o interior da Igreja respiravam um ar desejoso de novidades. Pio XII via de forma positiva as reformas, mas sua atitude tendia para uma prud√™ncia exagerada. Sua preocupa√ß√£o cada vez maior com uma Igreja envolvida num mundo de agita√ß√Ķes e tens√Ķes revolucion√°rias explica, em parte, porque come√ßou a concentrar o governo em suas m√£os. Eugenio Pacelli via na exposi√ß√£o da doutrina da Igreja em face dos muitos problemas do mundo moderno sua miss√£o mais importante. Publicou grande n√ļmero de enc√≠clicas. As principais foram Mystici Corporis (1950) e Humani Generis (1950). A primeira trata da identidade e ordenamento da Igreja, com franco combate √† nova teologia. A segunda determina a posi√ß√£o do pont√≠fice a respeito da moderna teoria evolucionista, contendo recusa a algumas hip√≥teses da escola de Teilhard de Chardin (sem citar nomes). Uma especial aten√ß√£o dispensou √† quest√£o sobre Maria. Em 1950, proclamou o dogma da Assun√ß√£o de Nossa Senhora.

8 Transição e renovação, o papa cristão

8.1 Jo√£o XXIII (1958-1963)

O pontificado de Jo√£o XXIII se caracterizou por uma eclesiologia prof√©tica e sua pastoralidade em continuidade √† tradi√ß√£o da Igreja. Seus primeiros gestos pastorais indicavam uma nova orienta√ß√£o para a Igreja. Em 1959, anunciou tr√™s acontecimentos eclesiais: S√≠nodo Diocesano de Roma, revis√£o do C√≥digo de Direito Can√īnico e um Conc√≠lio, o Vaticano II. Seu pontificado de aggiornamento marcou uma mudan√ßa de dire√ß√£o devido √† sua intui√ß√£o na convoca√ß√£o do Conc√≠lio.

√āngelo Giuseppe Roncalli nasceu no povoado de Sotto il Monte na prov√≠ncia de B√©rgamo, It√°lia, no dia 25 de novembro de 1881, de fam√≠lia pobre de camponeses. O jovem Roncalli estudou os dois primeiros anos de teologia no semin√°rio de B√©rgamo, sendo admitido no ano de 1896 na ordem franciscana secular, onde professou as regras em maio de 1897. Com uma bolsa de estudos que ganhou de sua diocese, foi aluno do Pontif√≠cio Semin√°rio Romano, onde recebeu a ordena√ß√£o sacerdotal em agosto de 1904 – Roma. No ano de 1905, foi nomeado secret√°rio do bispo de B√©rgamo, D. Giacomo Radini Tedeschi, o que lhe possibilitou fazer in√ļmeras viagens, visitas pastorais e colaborar com m√ļltiplas iniciativas apost√≥licas como s√≠nodos, reda√ß√£o de boletim diocesano e obras sociais. Colaborou com o jornal cat√≥lico da diocese de B√©rgamo e foi assistente da A√ß√£o Cat√≥lica Feminina. Foi como professor no semin√°rio da mesma diocese que aprofundou seus estudos sobre tr√™s pregadores cat√≥licos:¬† S√£o Francisco de Sales, S√£o Greg√≥rio Barbarigo (na ocasi√£o era beato e depois foi canonizado pelo pr√≥prio Roncalli em 1960), e S√£o Carlos Borromeu, de quem publicou as Atas das visitas realizadas na diocese de B√©rgamo no ano de 1575. Ap√≥s a morte do bispo de sua diocese, em 1914, do qual foi secret√°rio, o padre Roncalli prosseguiu seu minist√©rio sacerdotal na diocese, onde pretendia permanecer.

Em 1915, Roncalli foi à guerra defender seu país, pois nos anos de seminarista em Roma havia prestado um ano de serviço militar. Roncalli foi convocado como sargento sanitário e nomeado capelão militar dos soldados feridos que regressavam da linha de combate, quando a Itália, após o Tratado de Londres de 26 de abril de 1915 renunciou ao acordo com a Tríplice Aliança, entrando na guerra.

A segunda fase de sua vida teve in√≠cio em 1921, com sua convoca√ß√£o, pelo papa Bento XV (1914-1922), para integrar o Conselho das Obras Pontif√≠cias para a Propaga√ß√£o da F√©, da qual foi presidente, fun√ß√£o que o obrigou a percorrer in√ļmeras dioceses italianas organizando c√≠rculos mission√°rios. Essa fase romana e a vida aparentemente tranquila de presb√≠tero n√£o duraram muito tempo. No papado de Pio XI (1922-1938), o padre do pequeno vilarejo de Sotto il Monte foi elevado ao episcopado em 1925 e nomeado como Visitador Apost√≥lico para a Bulg√°ria. Em 1934, foi nomeado para a fun√ß√£o de Delegado Apost√≥lico na Turquia e Gr√©cia e, ao mesmo tempo, administrador do Vicariato Apost√≥lico de Istambul, onde se destacou no di√°logo com os mu√ßulmanos e os ortodoxos.

Em 1944, Pio XII nomeou Roncalli para ser N√ļncio Apost√≥lico em Paris. Sua nomea√ß√£o teve a interven√ß√£o direta do pr√≥-secret√°rio de Estado, Mons. Montini. Aos cinquenta e tr√™s anos de idade, Roncalli foi al√ßado a cardeal e dois anos mais tarde patriarca de Veneza. Aos setenta e sete anos chegou ao conclave e foi eleito papa Jo√£o XXIII. Sua enc√≠clica Pacem in terris (1963) foi o √ļltimo ato de um pontificado t√£o breve, mas intenso, din√Ęmico e incisivo.

A morte do papa no dia 3 de junho de 1963 ‚Äď Dia de Pentecostes ‚Äď foi recebida com grande como√ß√£o em v√°rias partes do mundo cat√≥lico. Impressionante esse momento, diferente de outros tempos, em que homens e mulheres de todos os pa√≠ses e de todas as religi√Ķes choraram a sua morte. Jo√£o XXIII foi canonizado em abril de 2014, pelo papa Francisco.

8.2 Vaticano II (1962-1965) e sua relação com a modernidade

Em 11 de outubro de 1962, Jo√£o XXIII abriu a primeiro per√≠odo do Conc√≠lio. O texto de abertura √© de fundamental import√Ęncia (Gaudet Mater Ecclesia) e exerceu profunda influ√™ncia na reda√ß√£o de todos os documentos conciliares. Tr√™s pontos merecem destaque. Em primeiro lugar, o papa dirige-se aos profetas que anunciam apenas desgra√ßas, vendo no mundo moderno somente decl√≠nio e cat√°strofes, comportando-se como se n√£o aprendessem nada da hist√≥ria. Em segundo lugar, o ponto central do Conc√≠lio. N√£o ser√° somente uma discuss√£o de um ou outro artigo da doutrina fundamental da Igreja, repetindo e proclamando o ensino dos padres e dos te√≥logos antigos e modernos, pois sup√Ķe que isso j√° seja bem presente e familiar. Para isso, n√£o haveria necessidade de um Conc√≠lio. Trata-se de uma renovada, com serena e tranquila ades√£o a todo o ensino da Igreja. Em terceiro lugar, a Igreja sempre se op√īs aos erros; muitas vezes at√© condenou com maior severidade. A Igreja, agora, levando por meio do Conc√≠lio o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se m√£e amorosa de todos, benigna, paciente e cheia de miseric√≥rdia com seus filhos dela separados.

O Vaticano II promulgou dezesseis constitui√ß√Ķes, decretos e declara√ß√Ķes. H√° um consenso de que a constitui√ß√£o dogm√°tica Lumen Gentium e a constitui√ß√£o pastoral Gaudium et spes sejam o eixo do Conc√≠lio. A Igreja teve coragem de olhar para o seu passado, refletir e criar uma rela√ß√£o nova no presente. A continuidade do di√°logo e de todos os frutos que ele gerou continuam acontecendo.

O evento conciliar teve duas grandes personalidades √† sua frente: Jo√£o XXIII, que morreu ap√≥s o primeiro per√≠odo do Conc√≠lio, aos 82 anos, e Paulo VI (1963-1978), que o substituiu. Montini (Paulo VI ‚Äď beatificado em 2014 pelo papa Francisco) tomou a s√©rio sua grande tarefa de continuidade do Conc√≠lio, evidentemente com uma t√īnica diferente. Roncalli (Jo√£o XXIII) era pastor e Montini era personagem da C√ļria. Nesse sentido, a an√°lise do p√≥s-Conc√≠lio merece uma reflex√£o sobre os avan√ßos e os retrocessos dentro do pr√≥prio evento conciliar. Apesar das concess√Ķes sobre a reforma da liturgia, a renova√ß√£o da Igreja cat√≥lica e o di√°logo ecum√™nico com as outras Igrejas Crist√£s, desejado por Jo√£o XXIII, o Conc√≠lio n√£o teve um avan√ßo, mas sim uma estabilidade. Historicamente era muito cedo, apesar da janela aberta, para perceber na pr√°tica cotidiana rela√ß√Ķes de transforma√ß√Ķes absolutas, abrindo a janela, portas, limpando o grande p√≥ dos m√≥veis e, principalmente, dos seus interiores. J√° era um grande passo para o di√°logo com a modernidade. Algumas vezes tornou-se, novamente, mon√≥logo.

8.3 Paulo VI, reformador e incompreendido (1963-1978)

O papa Paulo VI, Giovanni Battista Montini, nasceu em Concesio, pr√≥ximo √† Brescia, no ano de 1897. De fam√≠lia abastada, sua m√£e, muito cat√≥lica, era presidente da Associa√ß√£o Cat√≥lica Feminina de Brescia; o pai era doutor em direito, escritor e fundador do di√°rio ‚ÄúIl cittadino de Brescia‚ÄĚ, foi presidente da Uni√£o Eleitoral Cat√≥lica de Brescia e deputado no parlamento pelo Partido Popular, do qual era um dos fundadores. Ordenado sacerdote em 1920, Montini estudou direito eclesi√°stico na Universidade Gregoriana (Roma) e ap√≥s um exame de admiss√£o tornou-se professor por um curto per√≠odo.

Depois de seus trabalhos na Secretaria de Estado da Santa S√©, Montini foi nomeado arcebispo de Mil√£o. No per√≠odo de seu arcebispado em Mil√£o (1955-1963), aproximou-se dos oper√°rios, e das reivindica√ß√Ķes da esquerda, que atuavam na sua arquidiocese, e tamb√©m n√£o se esqueceu dos que estavam afastados da Igreja. Um dos eventos de maior import√Ęncia que realizou em Mil√£o foi a Miss√£o de Mil√£o (5-24 de novembro de 1957). Foi um enorme trabalho pastoral que envolveu toda a imensa cidade. Preparada durante dois anos, participaram 500 agentes de pastoral, dois cardeais, 24 bispos, e foram realizadas sete mil interven√ß√Ķes e palestras nas igrejas, estabelecimentos industriais, entidades culturais. O tema central de todas as prega√ß√Ķes foi Deus Pai. O arcebispo Montini participou diretamente dessas atividades atrav√©s do r√°dio, escritos e confer√™ncias. Procurou implantar uma reforma pastoral favorecendo a renova√ß√£o da liturgia e promovendo a constru√ß√£o de novas igrejas. Consagrou 72 igrejas no per√≠odo em que permaneceu em Mil√£o. No momento de sua elei√ß√£o pontif√≠cia, outras 19 igrejas estavam em constru√ß√£o.

No dia seguinte √† sua elei√ß√£o, Paulo VI anunciava, atrav√©s de uma mensagem radiof√īnica, a sua inten√ß√£o de continuar o Conc√≠lio. Coordenou os tr√™s per√≠odos seguintes do Vaticano II.

Da Am√©rica Latina, o papa recebeu den√ļncias da situa√ß√£o aviltante das popula√ß√Ķes empobrecidas, que viviam em situa√ß√£o miser√°vel e em grande parte debaixo de regimes ditatoriais funestos, apoiados pelo capitalismo ‚Äúdemocr√°tico‚ÄĚ americano. O papa n√£o ficou imune a essa situa√ß√£o, lan√ßando a enc√≠clica Populorum Progressio (1967), que provocou grande debate nos meios eclesiais e fora dele, principalmente entre os conservadores da C√ļria, que achavam que o papa havia excedido em suas coloca√ß√Ķes √† esquerda, como, por exemplo, quando citou e questionou a supremacia da propriedade privada em detrimento dos direitos coletivos.

O papa publicou outras enc√≠clicas, mas a que causou maiores discuss√Ķes foi a Humanae vitae (1968). A enc√≠clica tratava de um assunto altamente complexo para a sociedade: o controle de natalidade.¬† Nunca uma enc√≠clica provocou tantas pol√™micas externas e internas. O texto trata da tem√°tica da sexualidade humana. A afirma√ß√£o √© que a sexualidade deve ser vista n√£o como prazer animalesco. A incompreens√£o do documento √©, sobretudo, devido a uma leitura redutiva da enc√≠clica, levando em considera√ß√£o a quest√£o da proibi√ß√£o da p√≠lula e ignorando outra parte altamente positiva: a fun√ß√£o criativa da sexualidade, n√£o s√≥ biol√≥gica, mas personal√≠stica.

Em Jerusal√©m (1964), abra√ßou com o patriarca Anten√°goras o di√°logo com todos os crist√£os. No Congresso Eucar√≠stico de Bombaim (√ćndia ‚Äď 1964), marcou presen√ßa no encontro com os fi√©is cat√≥licos. Discursou na ONU (1965) diante de 117 delegados de diversos pa√≠ses, marcando assim o di√°logo com a sociedade. Celebrou missa em F√°tima, Portugal, em 1967, comemorando os 50 anos da apari√ß√£o de Maria aos pastorzinhos. No Congresso Eucar√≠stico de Bogot√° (1968), abriu a II Confer√™ncia do Episcopado Latino-americano de Medell√≠n, um encontro com os pobres do ent√£o terceiro mundo. No encontro de ora√ß√£o no Congresso Ecum√™nico das Igrejas em Genebra (1969), abra√ßa todos os irm√£os crist√£os de outras denomina√ß√Ķes.

A quest√£o da colegialidade foi, para Paulo VI, fundamental, por estar ligada a outra que o preocupava, o ecumenismo. A essas quest√Ķes internas se junta a grande quest√£o que na atualidade ainda √© de enorme import√Ęncia e com a qual a institui√ß√£o religiosa tem dificuldade de lidar: o di√°logo com a sociedade. Para encaminhar estas quest√Ķes tratadas no Vaticano II, o papa tinha consci√™ncia que dentro da institui√ß√£o havia dois polos opostos, em alta conflituosidade: novidade e tradi√ß√£o, verdade e caridade, historicidade e perman√™ncia, autoridade e liberdade, poder e fraternidade, superioridade e humildade, separa√ß√£o do mundo e unidade com o mundo. Paulo VI tamb√©m tinha plena consci√™ncia que deveria conciliar esses bin√īmios. Ainda importante destacar que esse pontificado teve in√≠cio dentro de um per√≠odo conciliar e sua continuidade dif√≠cil nos primeiros anos de um p√≥s-Conc√≠lio.

Paulo VI faleceu no dia 6 de agosto de 1978 em Castel Gandolfo, com 81 anos de idade. Foi sepultado na cripta da Basílica São Pedro, numa tumba humilde, como ele mesmo pediu em seu testamento.

9 O santo criticado e seu continuador

9.1 Jo√£o Paulo II (1978-2005)

Karol Wojtyla, o papa Jo√£o Paulo II, eleito em 1978 ap√≥s a morte repentina de Jo√£o Paulo I, com 33 dias de pontificado, recebeu a heran√ßa espiritual deixada por Paulo VI e o esp√≠rito pastoral do Vaticano II. Seu longo pontificado (1978-2005) √© marcado por diversos fatores, um deles √© o religioso. Incrementando esse car√°ter religioso, o papa prop√īs uma Nova Evangeliza√ß√£o. Escreveu 14 enc√≠clicas (3 sociais) e outros documentos e catequeses. O C√≥digo de Direito Can√īnico (1983) e o Catecismo da Igreja Cat√≥lica foram o auge de um processo iniciado e enriquecido neste pontificado. Apresentou duras cr√≠ticas ao sistema totalit√°rio comunista e ao capitalismo. Incentivou o ecumenismo e o di√°logo inter-religioso. Visitou 114 pa√≠ses, arrebanhando multid√Ķes. O jubileu, no ano 2000, foi uma grandiosa celebra√ß√£o e incentivo √† nova evangeliza√ß√£o.

O pontificado de Wojtyla tamb√©m sofreu cr√≠ticas, como as do jesu√≠ta brasileiro Jo√£o Batista Lib√Ęnio (2005) sobre o C√≥digo e o Catecismo, e se referem √†s pontes que n√£o criaram na continuidade ao Vaticano II. V√°rios te√≥logos apresentaram suas observa√ß√Ķes sobre o S√≠nodo Extraordin√°rio de 1985, convocado para avaliar o Vaticano II, mas visto, por√©m, como um retorno ao pr√©-conc√≠lio. Jo√£o Paulo II √© criticado, apesar da afirma√ß√£o da colegialidade, pela centraliza√ß√£o, que tinha como pilar a C√ļria Romana, com uma eclesiologia hier√°rquica, desfavorecendo a concretiza√ß√£o da Igreja Povo de Deus. S√£o questionadas as restri√ß√Ķes feitas √†s mulheres nos diversos n√≠veis ministeriais e a condena√ß√£o de in√ļmeros te√≥logos. Renasce um autoritarismo e clericalismo durante o pontificado, ao contr√°rio das diretrizes do Vaticano II.

O papa enfrentou diversos sofrimentos particulares relativos √† sua sa√ļde, inclusive um atentado em 1981 em plena Pra√ßa S√£o Pedro. Sua sa√ļde passou por muitos momentos de dificuldade, levando a um sofrimento geral dos fi√©is nos √ļltimos anos de seu pontificado. Uma multid√£o acompanhou o seu longo vel√≥rio em Roma e pedia que fosse feito santo imediatamente. Sua canoniza√ß√£o ocorreu em 2014, juntamente com Jo√£o XXIII.

9.2 Bento XVI (2005-2013)

O sucessor de Jo√£o Paulo II foi seu bra√ßo direito na C√ļria Romana, o prefeito da Congrega√ß√£o para a Doutrina da F√©, o cardeal alem√£o Joseph Ratzinger. A escolha feita no conclave foi recebida com in√ļmeras reservas em √Ęmbitos eclesi√°sticos. Enfrentou diversas dificuldades e passar√° para a hist√≥ria como o papa te√≥logo e o que renunciou.

No dia 11 de fevereiro de 2013, na Cidade do Vaticano, na sala do Consist√≥rio, Bento XVI presidiu um consist√≥rio p√ļblico para a canoniza√ß√£o de beatos. Em seguida, continuou lendo uma breve declara√ß√£o em latim que levava a sua assinatura e a data do dia anterior, na qual anunciava sua decis√£o de renunciar ao pontificado por motivos de idade, comunicando que a S√© de Pedro ficaria vacante a partir das 20 horas do dia 28 de fevereiro. A declara√ß√£o consta de 22 linhas, linhas destinadas a mudar a hist√≥ria da Igreja. Sua ren√ļncia √© um grande gesto, que se tornar√° revolucion√°rio. Bento XVI trouxe o papado para os tempos modernos.

Seu pontificado foi extremamente dif√≠cil. Carregado de obst√°culos, ataques, crises, esc√Ęndalos (pedofilia) e tens√Ķes no governo da C√ļria romana, carreirismo, lutas internas. Seus poucos anos de pontificado foram marcados por outras situa√ß√Ķes pol√™micas: relacionamento com os bispos lefebvrianos; a autoriza√ß√£o da missa em latim atrav√©s do Motu Proprio Summorum Pontificum (2007), trazendo √† tona a ora√ß√£o pela convers√£o dos judeus; as discuss√Ķes sobre as hermen√™uticas do Vaticano II; o discurso em Regensburg (Alemanha 2006); o caso Richard Williamson, da Fraternidade S√£o Pio X, excomungado por Jo√£o Paulo II e reabilitado pelo papa Ratzinger; as notifica√ß√Ķes da Congrega√ß√£o da Doutrina da F√© para v√°rios te√≥logos. Dentre eles est√£o: Roger Haight, Jon Sobrino, Jacques Dupuis, Peter Phan, Torres Queiruga, Jos√© Ant√īnio Pagola.

¬†Alguns projetos iniciados por Bento XVI foram paralisados, da ‚Äúreforma da reforma‚ÄĚ da liturgia √† rela√ß√£o com os lefebvrianos, passando pelo di√°logo ecum√™nico. O caso Vatileaks, no √ļltimo ano do pontificado, trouxe √† tona uma complexa realidade, certamente n√£o limitada somente √† trai√ß√£o do mordomo Paolo Gabriele, entregando documentos sigilosos a terceiros n√£o autorizados, que foram depois publicados. Essa √© a conjuntura em que o papa Bento XVI renuncia e, ao mesmo tempo, √© o cen√°rio de crise em que √© eleito Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco. Sua elei√ß√£o (2013) parece evocar aquela vis√£o de oito s√©culos atr√°s: ‚ÄúVai Francisco, e restaura a minha Igreja em ru√≠nas‚ÄĚ. Sua miss√£o, outorgada pelos seus cardeais eleitores, √© a de mudar a arranhada imagem da Igreja.

10 O retorno ao Cristianismo: Francisco

¬†Eleito em 2013, Francisco √© o primeiro papa jesu√≠ta e latino-americano (Argentina) em 20 s√©culos da Igreja cat√≥lica. Seu nome √© um programa de pontificado: proximidade com os pobres e compromisso de renova√ß√£o da Igreja. O cardeal Bergoglio nasceu em 1936, no bairro de Flores, cora√ß√£o de Buenos Aires. Em 1957, entra para a Companhia de Jesus. Seus anos de estudo de teologia e filosofia se deram na Argentina e no Chile. Em dezembro de 1969, foi ordenado padre. N√£o √© poss√≠vel defini-lo como um grande carreirista, foi prior provincial dos jesu√≠tas na Argentina de 1973 a 1979. Entre 1980 e 1986, foi reitor da Faculdade de Teologia em San Miguel. No ano de 1992, foi nomeado bispo auxiliar da arquidiocese de Buenos Aires, guiada pelo ent√£o cardeal Ant√īnio Quarracino. A partir de 1998, com a morte de Quarracino, Bergoglio ser√° o novo arcebispo de Buenos Aires. Foi criado cardeal por Jo√£o Paulo II em 2001. Na tarde de 13 de mar√ßo de 2013, na Capela Sistina, cidade do Vaticano, √†s 16h30, na quarta vota√ß√£o, √© eleito o novo papa. Francisco ter√° pela frente uma miss√£o imensa, n√£o s√≥ pelo servi√ßo em si, mas pelas enormes dificuldades que a institui√ß√£o vive neste contexto. S√£o desafios que o papa jesu√≠ta sabe bem; √© importante plantar a semente, mas n√£o √© necess√°rio colher os frutos no tempo presente. Afirma Francisco: ‚Äúdesconfio das decis√Ķes tomadas de modo repentino‚ÄĚ (SPADARO, 2013, p.11). Nesse primeiro ano de pontificado, foi lan√ßada a enc√≠clica Lumen Fidei, iniciada por Bento XVI.

Em tempos de neoliberalismo, nada √© t√£o atual quanto elaborar ensinamentos sociais em situa√ß√Ķes sempre novas e a√≠ anunci√°-los prof√©tica e criticamente. O papa Francisco, preocupado com a tarefa incompleta do Vaticano II e em andamento, afirma que o mandamento n√£o matar p√Ķe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim, hoje, devemos dizer ‚Äún√£o √† economia da exclus√£o e da desigualdade social‚ÄĚ (Evangelii Gaudium n.53). A exorta√ß√£o apost√≥lica do papa, Evangelii Gaudium, publicada em 2013, j√° causou enorme debate mundo afora. De um lado, muitos analisam o documento como um grande passo na quest√£o social, mas, por outro lado, empres√°rios, especialmente americanos, ficaram extremamente descontentes com as cr√≠ticas feitas ao capitalismo. Cr√≠ticas que Jo√£o Paulo II j√° havia realizado. Na exorta√ß√£o, Francisco denuncia que ‚Äúo ser humano √© considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lan√ßar fora‚ÄĚ (EG n.53). Portanto, √© uma declara√ß√£o e, ao mesmo tempo, uma necessidade de atualizar o Vaticano II, valorizando a dignidade da pessoa e dizendo, sem medos, um enorme n√£o √† sacraliza√ß√£o do mercado. N√£o a um dinheiro que governa ao inv√©s de servir.

O que o papa est√° realizando foi um sonho de Jo√£o XXIII, ou seja, que a Igreja sa√≠sse do Vaticano II e ficasse bem pr√≥xima dos pobres, de modo que esses se sentissem em casa no seu seio, mas, no acervo documental do Conc√≠lio, os pobres se perdem. Os empobrecidos n√£o podem sair da √≥tica de uma Igreja que segue as inspira√ß√Ķes do Vaticano II. Este tema √© evangelicamente sempre atual, embora muitas vezes tenha sido silenciado na sociedade e mesmo no interior da Igreja, em determinados setores eclesi√°sticos.

O papa tem demonstrado sua capacidade de se relacionar com os judeus, os isl√Ęmicos e com outros de diversas denomina√ß√Ķes religiosas, na perspectiva de uma eclesiologia mission√°ria: Igreja em sa√≠da, voltada para a sociedade e a servi√ßo da humanidade. Igreja que saiba escutar e realizar a urgente encultura√ß√£o da f√©, encultura√ß√£o que foi obstaculizada nos √ļltimos anos pela centraliza√ß√£o.

Um evento hist√≥rico e emblem√°tico do in√≠cio de seu pontificado foi a celebra√ß√£o da XXVIII Jornada Mundial da Juventude (julho de 2013), no Rio de Janeiro ‚Äď Brasil. Seus discursos, homilias, gestos e a presen√ßa imensa de fi√©is revelaram o relacionamento que j√° marca esse pontificado: pr√≥ximo do povo, n√£o s√≥ no discurso mas tamb√©m em uma sadia rebeldia diante de sua seguran√ßa pessoal. Visitou periferias da cidade maravilhosa e celebrou no Santu√°rio de Aparecida do Norte, em S√£o Paulo. Encontrou com argentinos na Catedral de S√£o Sebasti√£o no Rio de Janeiro. Por onde passou deixou um sinal diferente do bispo de Roma, no caminho de Assis em busca de reformas da Igreja e de uma Igreja mission√°ria. Nesse mesmo ano visitou ainda, na It√°lia, Cagliari, Assis e a emblem√°tica ida a Lampedusa e seu pronunciamento diante da trag√©dia global da imigra√ß√£o e das in√ļmeras mortes no mar, especialmente o naufr√°gio de africanos.

O papa visitou, em 2014, a Turquia, Tirana (Alb√Ęnia), o Parlamento Europeu, a Coreia do Sul e a Terra Santa. Na It√°lia, realizou visitas em 2014: Redipuglia, Caserta, Campobasso e Boiano, Isernia-Vesafro e Cassano allo Jonio. Convocou e participou do S√≠nodo Extraordin√°rio sobre a Fam√≠lia em 2014, que teve sua continuidade e t√©rmino em outubro de 2015. Em 2015, visitou as Filipinas, onde mais de 6 milh√Ķes de pessoas compareceram √† missa realizada em Manila, e o Sri Lanka; Equador, Bol√≠via, Paraguai, B√≥snia, Cuba e Estados Unidos e a Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas (ONU). E ainda ¬†em novembro visitou o Qu√™nia, Uganda e Rep√ļblica Centro Africana. Na It√°lia, j√° visitou, em 2015, Prato, Floren√ßa, Turim, Pomp√©ia e N√°poles.

‚ÄúQuando insisto na fronteira, de modo particular, refiro-me √† necessidade de o homem da cultura estar inserido no contexto em que opera e sobre o qual reflete. Est√° sempre √† espreita o perigo de viver em um laborat√≥rio‚ÄĚ e ainda continua Francisco afirmando que ‚Äúnossa f√© n√£o √© uma f√©-laborat√≥rio, mas uma f√©-caminho, uma f√© hist√≥rica. Deus revelou-Se como hist√≥ria, n√£o como um comp√™ndio de verdades abstratas‚Ķ√© preciso viver na fronteira‚ÄĚ (SPADARO, 2013, p.33-4).

Em outra enc√≠clica de 2015, Laudato Si‚Äô ‚Äď ‚ÄúLouvado Sejas, sobre o cuidado da casa comum‚ÄĚ, o papa oferece uma grandiosa reflex√£o para os debates sobre a tem√°tica da ecologia integral. O texto apresenta uma an√°lise do que est√° acontecendo no planeta (polui√ß√£o, clima, √°gua, biodiversidade, deteriora√ß√£o da vida e degrada√ß√£o social). Em seguida, trata da Cria√ß√£o e aborda a quest√£o da raiz humana da crise ecol√≥gica. √Č, sem d√ļvida, um documento do magist√©rio que apresenta enorme contribui√ß√£o e cr√≠ticas ao sistema econ√īmico gerador das crises da integralidade ecol√≥gica.

Na sua bula Misericordiae Vultus (2015), convida para a realização do Ano Santo do Jubileu extraordinário da Misericórdia a ser realizado entre 8 de dezembro de 2015 (festa da Imaculada Conceição) e 20 de novembro de 2016 (festa de Cristo Rei).

Ney de Souza, PUC São Paulo

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