Eclesiologia Ecumênica

Sum√°rio

Introdução

1 O pluralismo eclesial: enriquecimento e desafios para a Igreja una

2 Urgências e tarefas de uma eclesiologia ecumênica

3 Percursos de uma eclesiologia ecumênica

4 Igreja ecumênica, em que sentido?

4.1 Horizonte bíblico 

4.2 Horizonte teológico

4.3 Horizonte mission√°rio/pastoral

5 Discernimento e hermenêutica da comunhão

5.1 Modelos de unidade

5.2 Visibilidade da comunh√£o

Conclus√£o

Referências

Introdução

A compreens√£o e a elabora√ß√£o de uma eclesiologia ecum√™nica t√™m por raiz a rela√ß√£o intr√≠nseca entre igreja e ecumenismo, entendendo este conceito como via para a unidade crist√£, um chamado e imperativo do Senhor para seus disc√≠pulos e disc√≠pulas: ‚ÄúQue todos sejam um, para que o mundo creia‚ÄĚ (Jo 17,21). Aqui, o ecum√™nico invoca o eclesial como territ√≥rio pr√≥prio, com seus sujeitos e v√≠nculos pr√≥prios. Assim, h√° uma ‚Äúrela√ß√£o de identidade‚ÄĚ entre igreja e ecumenismo: ‚Äúo ecum√™nico, como condi√ß√£o e express√£o da comunh√£o, √© elemento estruturante da identidade da igreja‚ÄĚ (WOLFF, 2007, p. 44). A igreja √© entendida como koinonia (comunh√£o) na f√© apost√≥lica professando a unidade como uma de suas qualidades essenciais (notae ecclesiae). Entretanto, a divis√£o crist√£ perdura, agravada por inimizades, ofensas e posturas proselitistas que contradizem a comunh√£o. Essas divis√Ķes sinalizam o pecado individual e coletivo dos membros da igreja, dificultando tamb√©m a voca√ß√£o √† santidade.

Para sanar tal situa√ß√£o, o Esp√≠rito Santo suscita a ‚Äúcomunh√£o … a convers√£o e a renova√ß√£o‚ÄĚ da igreja (UR n. 6-7; CMI, 1998, n. 39). E pelo mover do Esp√≠rito, art√≠fice da comunh√£o (1Cor 12,13; Ef 4,3,), as igrejas buscam a reconcilia√ß√£o entre si, numa unidade n√£o s√≥ no plano intra mas tamb√©m inter-eclesial, como extens√£o vis√≠vel e espiritual do Corpo de Cristo no mundo (Ef 4,12-13; 1Cor 12,12-13). Neste sentido, o ecumenismo refere-se √† Igreja una como um meio se refere ao fim. E¬†vem exercido como um servi√ßo eclesial pela ora√ß√£o, o testemunho comum, a coopera√ß√£o pr√°tica e o di√°logo met√≥dico desenvolvido em f√≥runs, comiss√Ķes e conselhos de Igrejas. Assim, ‚Äúo que define a igreja‚ÄĚ tamb√©m ‚Äúdefine o ecumenismo‚ÄĚ (VON SINNER, 2011, p. 67) no sentido de promo√ß√£o da unidade crist√£. Esse fato justifica a necessidade, e a urg√™ncia, de uma eclesiologia ecum√™nica.

1 O pluralismo eclesial: enriquecimento e desafios para a Igreja una

O pluralismo eclesial resulta de compreens√Ķes distintas do Evangelho, que d√£o origem a diferentes espiritualidades, doutrinas, institui√ß√Ķes e projetos de miss√£o que configuram as diversas tradi√ß√Ķes eclesiais. Em si mesmo, isso √© leg√≠timo pois a dinamicidade da mensagem do Evangelho est√° livre de qualquer tentativa de interpreta√ß√£o totalizante, de modo que a f√© crist√£ √© sempre compreendida a partir das interpela√ß√Ķes que os diferentes contextos apresentam para a viv√™ncia do Evangelho. O Vaticano II reconhece o valor da diversidade que se expressa ‚Äúnas v√°rias formas de vida espiritual e de disciplina, como na diversidade de ritos lit√ļrgicos e at√© mesmo na elabora√ß√£o teol√≥gica da verdade revelada‚ÄĚ (UR 4). Na dire√ß√£o conciliar, o papa Francisco afirma:

O Esp√≠rito Santo faz a ‚Äúdiversidade‚ÄĚ na Igreja… E esta diversidade √© deveras t√£o rica, t√£o bonita. Mas depois, o mesmo Esp√≠rito faz a unidade, e assim a Igreja √© una na diversidade… Ele faz ambas as coisas: faz a diversidade dos carismas e depois a harmonia dos carismas … ‚ÄúO Esp√≠rito Santo, Ele √© a harmonia‚ÄĚ, porque faz esta unidade harmoniosa na diversidade. (FRANCISCO, 2014)

E assim surgem as v√°rias igrejas locais, como inst√Ęncias de comunh√£o na f√©, onde o Evangelho √© ouvido, os sacramentos s√£o celebrados e se vive a fraterna conc√≥rdia entre os membros da ‚Äúcongrega√ß√£o dos santos‚ÄĚ, o povo de Deus. As diferentes tradi√ß√Ķes eclesiais centram a igreja local na eucaristia (CD 11; F√Č E ORDEM, 2015, n. 42-43) e na supervis√£o dos pastores (F√Č E ORDEM, 2015, n. 52-53). Cada igreja local vive a ‚Äúsolicitude para com a igreja universal‚ÄĚ e forma uma comunh√£o universal, a catholica, communio de igrejas num corpus ecclesiarum (F√Č E ORDEM, 2015, n.31-32).

Contudo, controv√©rsias doutrinais na hist√≥ria do cristianismo separaram diferentes tradi√ß√Ķes eclesiais, dividindo o corpo crist√£o, de modo que o pluralismo eclesial levanta a quest√£o sobre a verdade da igreja, ou como ser igreja verdadeira (BURMANN, 2018). Assim foi no s√©culo V, com as disputas sobre o dogma cristol√≥gico e o surgimento das igrejas copta, arm√™nia e eg√≠pcia; no s√©culo XI, com a quest√£o do filioque e a divis√£o entre Oriente e Ocidente; na Reforma protestante do s√©culo XVI e, atualmente, com um tipo de pentecostalismo que vai al√©m da afirma√ß√£o da pentecostalidade eclesial, fragmentando ainda mais o corpo crist√£o. Ent√£o, a pluralidade n√£o mais √© acolhida e reconhecida como enriquecimento da igreja una. Cada tradi√ß√£o eclesial afirma-se numa normatividade exclusiva para a compreens√£o e a viv√™ncia do kerigma, com diverg√™ncias na doutrina, na organiza√ß√£o institucional, na espiritualidade e na pr√°tica pastoral. Tal diverg√™ncia √© mais do que express√£o de um posicionamento hermen√™utico diferenciado do Evangelho. Trata-se de uma divis√£o que n√£o permite √†s Igrejas se reconhecerem mutuamente na mesma f√© e como membros do mesmo corpo.

2 Urgências e tarefas de uma eclesiologia ecumênica

A supera√ß√£o dessa divis√£o justifica, e exige, uma eclesiologia ecum√™nica. Nenhuma tradi√ß√£o eclesial expressa sozinha a igreja em sua perfei√ß√£o ou plenitude como Corpo de Cristo. Isso requer disponibilidade para acolher express√Ķes pluriformes do Evangelho, com uma releitura do pluralismo eclesial que identifique elementos que convergem para a comunh√£o: ‚ÄúEsse √© o desafio para a eclesiologia ecum√™nica, que s√≥ √© poss√≠vel se, enraizada em uma tradi√ß√£o particular, souber colher a realidade da Igreja que se encontra para al√©m da pr√≥pria tradi√ß√£o‚ÄĚ (WOLFF, 2007. p. 31).¬† A consci√™ncia eclesial ecum√™nica torna-se, ent√£o, um imperativo para situar as igrejas no atual mundo plural com esp√≠rito de di√°logo e coopera√ß√£o. Explicita a ‚Äúcultura do encontro‚ÄĚ e a sinodalidade como ‚Äúcaminhar juntos‚ÄĚ no discernimento do Evangelho. Isso implica o esfor√ßo para, de um lado, assumir juntos as fontes da f√© eclesial, b√≠blica e patr√≠stica. De outro lado, exige atualizar o ser e o agir da Igreja ao tempo atual, evitando agregar novos elementos divisionistas.

Desse modo, s√£o estabelecidas as tarefas de uma eclesiologia ecum√™nica: 1) explorar no interior do pluralismo eclesial as possibilidades de encontro e de di√°logo, percebendo tal pluralismo como ‚Äúamplitude de possibilidades da percep√ß√£o da f√© em Jesus Cristo e das experi√™ncias eclesiais cab√≠veis nas Escrituras‚ÄĚ (WOLFF, 2007, p. 31); 2) reinterpretar os pressupostos (hist√≥ricos, socioculturais e teol√≥gicos) que em outros tempos e circunst√Ęncias causaram e sustentaram as divis√Ķes entre as igrejas, verificando sua pertin√™ncia ou n√£o na atualidade (RUGGIERI, 2000, p. 14); ¬†3) interpretar em perspectiva ecum√™nica os elementos b√≠blicos, patr√≠sticos, as orienta√ß√Ķes normativas das lideran√ßas eclesi√°sticas e as viv√™ncias das comunidades, desenvolvendo sistematicamente a concep√ß√£o de igreja na perspectiva da comunh√£o intereclesial.

Essas tarefas refor√ßam a import√Ęncia de dois procedimentos da parte das confiss√Ķes crist√£s, com vistas a uma eclesiologia ecum√™nica: a) examinar e aprofundar a autoconsci√™ncia eclesial √† luz do imperativo ‚Äúsejam um‚ÄĚ (Jo 17,21); b) examinar e explicitar uma compreens√£o de igreja de tal modo comprometida com a unidade que valorize o di√°logo ecum√™nico como locus teol√≥gico e metodol√≥gico da eclesiologia.

A realiza√ß√£o de tais tarefas impele as igrejas ao exerc√≠cio da escuta m√ļtua e do testemunho comum, caminhando juntas numa din√Ęmica sinodal. Essa abertura √†s outras denomina√ß√Ķes requer o olhar da f√© sobre a eclesialidade da comunidade com a qual se dialoga, para discernir os modos como a Igreja de Cristo a√≠ se realiza, suas caracter√≠sticas e √™nfases. Dentre os crit√©rios para isso est√° a disponibilidade das igrejas para colocarem-se ‚Äúsob o mesmo Cristo‚ÄĚ (COMISS√ÉO INTERNACIONAL CAT√ďLICA-LUTERANA, 1986) e seu Evangelho. As raz√Ķes particulares das tradi√ß√Ķes eclesi√°sticas n√£o devem ser o fator determinante das rela√ß√Ķes intereclesiais. O determinante √© o Evangelho, ele tem for√ßa unitiva, de modo que √© preciso ter ‚Äúa palavra de Deus como sinal ecum√™nico da igreja‚ÄĚ (SCHWAMBACH, 2018). Por conseguinte, uma eclesiologia ecum√™nica requer das igrejas o compromisso para o encontro, o conhecimento m√ļtuo, o di√°logo perseverante, o discernimento hist√≥rico e teol√≥gico, que possibilitam mirar √† unidade como dom do Esp√≠rito Santo. Ao dialogarem com disposi√ß√£o teologal e atitude de servi√ßo √† comunh√£o, as igrejas exercitam as condi√ß√Ķes para receber e fazer frutificar esse dom.

3 Percursos de uma eclesiologia ecumênica

No √Ęmbito cat√≥lico, as ra√≠zes para uma renova√ß√£o da eclesiologia com positivas implica√ß√Ķes ecum√™nicas est√£o ainda no s√©culo XIX, com Adam Mohler (1796-1838) e John H. Newmann (1801-1890), os quais favoreceram para que o tema da unidade se situasse para al√©m do √Ęmbito jur√≠dico, desenvolvendo uma eclesiologia no horizonte do mist√©rio que enfatiza a interioridade e a sacramentalidade das estruturas e institui√ß√Ķes eclesiais (MOHLER, 1996; 2018), e uma no√ß√£o de santidade e historicidade que supera o tom apolog√©tico conflitivo (NEWMAN, 1994; 2005). Mas a primeira proposta de uma eclesiologia em perspectiva ecum√™nica no catolicismo √© de Y. Congar (1937), dire√ß√£o na qual seguem te√≥logos da estatura de J. Danielou, K. Rahner, H. von Balthasar, entre outros, embora n√£o tenham focado no tema. Mais recentemente, temos L. Sartori (1969), J. M. Tillard (1987), W. Kasper (1988), H. Kung (1992), G. Cereti (1997), para citar alguns. Mas √© no √Ęmbito do protestantismo que a eclesiologia ecum√™nica se desenvolve com mais for√ßa, como vemos em luteranos como Oscar Cullmann (1986) e W. Pannemberg (2009); no meio reformado, com John H. Leith (2015); J. Moltmann, com v√°rias contribui√ß√Ķes ecum√™nicas como a teologia da esperan√ßa (1967), da cria√ß√£o (1985), da Trindade (1981) e a pneumatologia; Lukas Vischer (1981); dos anglicanos lembremos James H. Garrisson (2011), o ‚ÄúRelat√≥rio de Virg√≠nia‚ÄĚ, da Comiss√£o Inter-Anglicana de Teologia e Doutrina (1996); Jaci Maraschin (1995); e da tradi√ß√£o ortodoxa, destacamos a pneumatologia de Evdokimov e a teologia de J. D. Zisioulas (2003). H√° tamb√©m significativos trabalhos conjuntos para uma eclesiologia ecum√™nica (FRIES; RAHNER, 1987).

Merece destaque o resultado eclesiol√≥gico do trabalho das comiss√Ķes de di√°logo, tanto bilaterais (cat√≥lico-luterana, anglicano-metodista, luterano-reformada etc.), quanto multilaterais (Conselhos de Igrejas). √Ä medida que essas comiss√Ķes trabalham e publicam seus resultados, cresce a percep√ß√£o de que o mist√©rio da igreja deve ser explicitado ecumenicamente. Desse di√°logo emergem elementos que possibilitam te√≥logos/as de diferentes igrejas sistematizarem uma compreens√£o eclesiol√≥gica comum. Uma inst√Ęncia apropriada a esta tarefa √© a Comiss√£o F√© e Ordem, ou seja, a comiss√£o teol√≥gica do Conselho Mundial de Igrejas, da qual destacam-se os trabalhos Batismo, Eucaristia e Minist√©rios (1982); Rumo √† partilha da f√© comum (1998), e Igreja: uma vis√£o ecum√™nica (2015).

Os Relat√≥rios e Declara√ß√Ķes Finais dos trabalhos das comiss√Ķes de di√°logo mostram a import√Ęncia da documenta√ß√£o hist√≥rica e da releitura das fontes confessionais, iluminadas por s√≥lido estudo b√≠blico, teol√≥gico e pastoral no trato das respectivas eclesiologias. As √™nfases eclesiol√≥gicas distintas, antes que impedimento, s√£o um convite ao di√°logo e uma oportunidade de discernimento, como atesta Kasper (2009, p. 643):

O abundante material relativo √† Igreja (tratado nas Comiss√Ķes bilaterais) demonstra que a quest√£o da eclesiologia est√° no centro do di√°logo ecum√™nico. No campo eclesiol√≥gico deu-se um significativo passo avante a partir da firme disposi√ß√£o de superar muitos mal-entendidos e lacunas: se reconhece que os Di√°logos revisitaram e resolveram certas controv√©rsias e certos conflitos hist√≥ricos. Em muitas quest√Ķes examinadas, se alcan√ßou uma ampla compreens√£o comum quanto √† natureza e √† miss√£o da Igreja. Est√° claro que os participantes desse Di√°logo n√£o se encontram mais na situa√ß√£o em que estavam no s√©culo XVI, nem do per√≠odo sucessivo, caracterizado por pol√™micas e controv√©rsias. (KASPER, 2009, p. 643)

Isso demonstra a postura honesta e respons√°vel dos participantes do di√°logo, dispostos a indagar-se mutuamente:

Como essas √™nfases eclesiol√≥gicas surgiram e se desenvolveram, nas denomina√ß√Ķes? Essa diversidade de vis√Ķes compromete a comunh√£o, ou oferece chances de enriquec√™-la? As antigas controv√©rsias t√™m hoje algum sentido ou h√° como resolv√™-las? Em que medida essas distin√ß√Ķes podem ser complementares? √Č poss√≠vel colher, das √™nfases confessionais, uma eclesiologia fundamental comum, que ilumine o di√°logo no presente e no futuro? (F√Č E ORDEM, 2015, p. 18)

A resposta a tais quest√Ķes precisa afirmar o ecumenismo como princ√≠pio formal na compreens√£o da igreja, um paradigma eclesiol√≥gico. Ent√£o a eclesiologia ecum√™nica adquire um estatuto pr√≥prio. A perspectiva ecum√™nica da igreja tem, assim, um car√°ter e uma fun√ß√£o acad√™mica: √© uma investiga√ß√£o sobre o mist√©rio da igreja utilizando as fontes, o m√©todo e o instrumental hermen√™uticos adequados para garantir a plausibilidade de nesse mist√©rio se encontrarem diferentes tradi√ß√Ķes eclesiais. Ela quer expressar a veracidade da igreja com a maior profundidade e amplitude poss√≠vel, relacionando diversas tradi√ß√Ķes pr√°ticas e concep√ß√Ķes te√≥ricas do ser eclesial, identificando diverg√™ncias e consensos nessas tradi√ß√Ķes e discernindo as verdades da igreja na perspectiva da comunh√£o no √ļnico Evangelho.

4 Igreja ecumênica, em que sentido?

Cabe esclarecer em que sentido se pode falar de eclesiologia ecum√™nica, bem como esclarecer o que essa n√£o seja. Partindo da nega√ß√£o, n√£o se trata da soma material das eclesiologias vigentes, nem da sua sobreposi√ß√£o como andares de um pr√©dio, de composi√ß√£o fixa, cujas conex√Ķes se ocultam na estrutura im√≥vel. Tamb√©m n√£o seria uma eclesiologia exclusivamente espiritual, projetada na futura conc√≥rdia celeste dos crentes, sem compromissos com a realiza√ß√£o vis√≠vel da unidade batismal, congregacional, ministerial e mission√°ria. Sem esses v√≠nculos e rela√ß√Ķes, a igreja seria reduzida a uma fic√ß√£o ou simboliza√ß√£o sem efeito, pois as estruturas paralelas e fixas podem servir como suporte para a interconex√£o e a partilha entre os sujeitos, mas por si n√£o bastam para realizar a unidade dos crist√£os, porque esta unidade implica a din√Ęmica simult√Ęnea de ser ‚Äúmembros do Corpo de Cristo‚ÄĚ e ‚Äúmembros uns dos outros‚ÄĚ (1Cor 12,27 e Rm 12,5). E isso requer que as conex√Ķes sejam vis√≠veis, n√£o s√≥ ocultas; e din√Ęmicas, n√£o r√≠gidas; num equil√≠brio entre os elementos estruturais e os espirituais. Paulo fala de ‚Äúarticula√ß√Ķes‚ÄĚ em ‚Äúcrescimento, construindo-se no amor, gra√ßas √† atua√ß√£o de cada membro‚ÄĚ (Ef 4,16); e Pedro diz que o Edif√≠cio-Igreja √© feito de ‚Äúpedras vivas‚ÄĚ (1Pd 2,5). A comunh√£o espiritual se d√° por elementos testemunhais vis√≠veis, sinodais, ministeriais e sacramentais, numa unidade org√Ęnica, vital, multiforme, din√Ęmica e fecunda do Corpo de Cristo (Rm 12; Ef 4,11-13) ‚Äď ilustrada tamb√©m por Jo√£o na analogia eclesiol√≥gica da videira (Jo 15,1-8).

Ent√£o, em sentido positivo, a eclesiologia ecum√™nica parte do compromisso de cada denomina√ß√£o crist√£ para com a unidade plena da Igreja de Cristo na hist√≥ria humana, n√£o s√≥ pela realiza√ß√£o da Igreja Una no √Ęmbito de sua comunidade e/ou fam√≠lia confessional, mas tamb√©m na comunh√£o progressiva com as demais comunidades e/ou fam√≠lias confessionais. Os horizontes dessa eclesiologia j√° alcan√ßaram importantes consensos, com destaque para os que se seguem.

4.1. Horizonte bíblico  

H√° consensos na¬† concep√ß√£o b√≠blica da igreja como: Povo de Deus ‚Äď ‚ÄúO povo que formei para mim dever√° anunciar o meu louvor‚ÄĚ (Is 43,21); santu√°rio onde Deus habita ‚Äď ‚Äúhabitarei no meio dos israelitas‚ÄĚ (Ex 29, 45ss; Lv 26,11ss), como ‚Äútemplo santo do Deus vivo‚ÄĚ (1 Cor 3,16; Ef 2,20; Ap 11,1); templo do Esp√≠rito ‚Äď ‚Äúcasa espiritual‚ÄĚ (1Pe 2,5), povo consagrado pelo Esp√≠rito Santo (Tt 3,5; Ef 1,13); Corpo de Cristo formado por muitos membros (1Cor 12,12.27; Rm 12, 4-5). A Igreja se faz o Povo universal, sujeito hist√≥rico-escatol√≥gico, regenerado no batismo e reunido na ekkles√≠a tou Theou (1Tm 3,15), as assembleias e/ou tradi√ß√Ķes eclesiais que lhe d√£o corpo, movimento, estrutura e visibilidade, tendo Jesus Cristo por Cabe√ßa (Col 1,18). Justamente pelo fato de a Igreja ser a realiza√ß√£o concreta do Povo de Deus, na oikoumene das l√≠nguas e na√ß√Ķes (At 2,6), na koinonia de dons e minist√©rios (Ef 1,11-13), n√£o poder√° descuidar da unidade, sob risco de trair o Evangelho e frustrar sua pr√≥pria voca√ß√£o.

4.2. Horizonte teológico

O amplo consenso bíblico possibilita significativas convergências teológicas na concepção da igreja e a busca de consensos sobre as divergências que persistem. Destacamos:

a) Mist√©rica e institucional: essa adjetiva√ß√£o √© aceita por praticamente todas as denomina√ß√Ķes em di√°logo, ao professarem a Igreja como realidade querida por Deus e express√£o do agir salvador de Cristo, na for√ßa do Esp√≠rito Santo. O mist√©rio trinit√°rio se mostra na igreja desde a Alian√ßa com o Povo de Israel, fundada no tempo por Jesus Cristo e manifestada pelo Esp√≠rito Santo no Pentecostes. Unida a Cristo como corpo e esposa, a igreja atravessa os s√©culos como sinal do Reino de Deus, at√© sua consuma√ß√£o escatol√≥gica (Rm 12; Ef 5, 31-32). A igreja √© mist√©rio (mysterion) em analogia e participa√ß√£o no mist√©rio pascal de Cristo; e institui√ß√£o, pois realiza-se no tempo como povo e assembleia vis√≠vel, dotada de of√≠cios e minist√©rios (particularmente a supervis√£o episcopal), com estruturas de comunh√£o, participa√ß√£o e miss√£o, para bem cumprir o an√ļncio do Evangelho confiado pelo Senhor (Mt 28,19). Ela √©, assim, sacramento do Reino de Deus (LG 1.5.48)

b) Ontol√≥gica ou funcional: aqui as igrejas expressam distin√ß√Ķes entre uma eclesiologia mais mist√©rico-sacramental e uma eclesiologia mais kerigm√°tico-testemunhal. As tradi√ß√Ķes Ortodoxas, Orientais, Cat√≥lica Romana, Anglicana e, em certa medida, as Metodistas de governo episcopal, compreendem a igreja como meio de gra√ßa em sentido objetivo, associando a congrega√ß√£o terrena, o Corpo hist√≥rico, √†quela celeste, o Corpo glorioso do Ressuscitado. Atribuem uma densidade ontol√≥gica √† igreja, n√£o por autorrefer√™ncia, mas por sua identidade com o Corpo de Cristo, mediador da salva√ß√£o. Outras tradi√ß√Ķes, como a Luterana e a Reformada-Presbiteriana, insistem menos na ontologia, mas professam a sacramentalidade da igreja em virtude da gra√ßa divina que age pelo an√ļncio do Evangelho, pelo batismo e pela ceia memorial do Senhor, ministrados corretamente segundo a vontade de Jesus. Desse modo, h√° uma comunh√£o espiritual entre todos os batizados nas diferentes confiss√Ķes, partilhando a mesma gra√ßa e o mesmo chamado a fazer parte do Reino de Deus, embora se re√ļnam em assembleias distintas. J√° outras tradi√ß√Ķes, como Batistas, Menonitas, Metodistas de Santidade e, a seu modo, os Pentecostais, atribuem √† igreja um valor mais funcional do que ontol√≥gico: a igreja √© a congrega√ß√£o reunida, localmente definida; como evento da Palavra de Deus naquele tempo-espa√ßo, como obra da gra√ßa para com os crentes ali congregados. A √™nfase √© mais funcional, valorizando o kerigma, a prega√ß√£o e as ministra√ß√Ķes pelas quais a igreja comunica a gra√ßa de Jesus Cristo ao cora√ß√£o dos crentes ‚Äď de quem se espera uma resposta √† altura do chamado, com santidade e testemunho.

c) As notas da igreja: com base nos elementos acima, √© poss√≠vel trabalhar ecumenicamente as notae ecclesiae ‚Äď unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade. As igrejas professam essas notas no Credo niceno-constantinopolitano, como propriedades dadas por Cristo √† sua igreja, que permitem o seu reconhecimento na hist√≥ria como igreja querida por Deus. Mas n√£o existe consenso no entendimento do modo de realizar cada nota nas tradi√ß√Ķes eclesiais. E ‚Äúo objetivo m√ļtuo do chamado √† unidade vis√≠vel significa necessariamente que cada igreja deve reconhecer as demais como express√Ķes verdadeiras do que o Credo chama ‚Äėa Igreja uma, santa, cat√≥lica e apost√≥lica‚Äô‚ÄĚ (F√Č E ORDEM, 2015, p. 11). Assim, o di√°logo deve prosseguir na afirma√ß√£o conjunta da igreja em suas caracter√≠sticas essenciais: a) una em sua constitui√ß√£o √≠ntima porque um s√≥ √© o Cristo que a constitui como seu Corpo, um s√≥ √© o Evangelho pregado, uma s√≥ √© a miss√£o. E essa unidade precisa assumir forma na ordem temporal da igreja, como o povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Esp√≠rito Santo, em vista da consuma√ß√£o escatol√≥gica. b) santa, que se fundamenta no fato de a igreja ter sido ‚Äúseparada‚ÄĚ para Deus Uno e Trino, e com ele se relacionar no servi√ßo/culto. E precisa ganhar forma hist√≥rica no testemunho da santidade de Deus ao mundo atual, o que se expressa no comportamento de seus membros. c) cat√≥lica, no sentido que a f√© da igreja √© ‚Äúuniversal‚ÄĚ, significando ‚Äútoda abrangente‚ÄĚ, ‚Äúplena‚ÄĚ. Assim, a igreja n√£o est√° exclusivamente presente em uma √ļnica tradi√ß√£o eclesial, nem √© superioridade num√©rica, mas uma realidade espiritual e qualitativa, como plenitude dos bens da salva√ß√£o e da fidelidade √† totalidade de vida redimida trazida por Jesus Cristo. d) apost√≥lica, pela fidelidade aos ensinamentos transmitidos pelos ap√≥stolos de que Jesus √© ‚Äúo Cristo, o Filho do Deus vivo‚ÄĚ (Mt 16,16; Lc 9, 20), fundamento ou a ‚Äúrocha‚ÄĚ sobre a qual se constr√≥i a comunidade de f√© (Mt 7,24-25).

O desafio √© uma eclesiologia ecum√™nica capaz de expressar consenso nessas propriedades da igreja, com justificativa hist√≥rica e teol√≥gica consistentes. √Č preciso mostrar como unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade se implicam mutuamente e concorrem para a realiza√ß√£o plena da igreja na qual diferentes tradi√ß√Ķes crist√£s possam se sentir membros em p√© de igualdade.

4.3 Horizonte mission√°rio/pastoral

A igreja tem consci√™ncia que a miss√£o que recebeu de Jesus √© evangelizar. E ‚Äúevangelizar √© tornar o Reino de Deus presente no mundo‚ÄĚ (EG n. 176). O horizonte e objetivo da miss√£o s√£o anunciar o Reino de Deus que se faz presente na hist√≥ria, transformando as situa√ß√Ķes que contradizem o Evangelho que as igrejas acreditam e anunciam. Trata-se do Evangelho da ‚Äúvida em abund√Ęncia‚ÄĚ (Jo 10,10) vivido por rela√ß√Ķes de fraternidade, solidariedade e pr√°tica da justi√ßa. A miss√£o situa a igreja no mundo em que vivemos, a encarna nas vicissitudes e nas alegrias humanas (GS n. 1). Por isso, a atividade mission√°ria da igreja vai al√©m da ideia de salvar almas, busca a salva√ß√£o integral da pessoa: corpo, esp√≠rito, mundo, cosmos e tempo. Neste sentido, f√© e sociedade/cultura/economia/pol√≠tica e quest√Ķes ecol√≥gicas interagem na miss√£o da igreja. E destas, as quest√Ķes ecol√≥gicas merecem particular aten√ß√£o (COLET, 2017). Mantendo suas especificidades, esses √Ęmbitos se complementam, pois todos dizem respeito √† vida. E miss√£o √© fortalecer a vida em sentido amplo, contextualizada socioculturalmente e ecologicamente.

O ecumenismo √© mission√°rio, nasceu e se desenvolve em contexto de miss√£o, de modo que a eclesiologia ecum√™nica √© tamb√©m mission√°ria. A miss√£o que Jesus confia aos disc√≠pulos (Mt, 28,19; Mc 16,15) n√£o √© exclusividade de uma √ļnica denomina√ß√£o, mas de todas as pessoas que nele creem. E as igrejas em di√°logo s√£o chamadas a discernirem juntas as interpela√ß√Ķes que o mundo atual apresenta para a viv√™ncia da f√© crist√£. Isso exige delas a capacidade para desenvolverem projetos comuns e anunciarem o √ļnico Evangelho. Para tanto, faz-se necess√°rio o abandono de toda pretens√£o de exclusividade no espa√ßo em que cada igreja se encontra, reconhecendo o valor da miss√£o que outras igrejas ali tamb√©m realizam, e colocando-se √† disposi√ß√£o para trabalhos conjuntos. A miss√£o precisa ser ecum√™nica.

Portanto, a miss√£o/pastoral √© outro importante horizonte da eclesiologia ecum√™nica. O di√°logo e a coopera√ß√£o na miss√£o criam significativas possibilidades de di√°logo sobre quest√Ķes eclesiol√≥gicas, progredindo nas converg√™ncias e nos consensos sobre a igreja, sua natureza e fim. E assim se realiza a unidade da Igreja de Cristo no mundo: o testemunho comum do Evangelho ‚Äúpara que o mundo creia‚ÄĚ (Jo 17, 21).

5 Discernimento e hermenêutica da comunhão

A eclesiologia ecum√™nica exige o desenvolvimento da hermen√™utica da comunh√£o como a que melhor penetra na profundidade do mist√©rio de Deus Uno e Trino, e √† luz desse mist√©rio compreende-se a verdade da igreja. ¬†As tradi√ß√Ķes particulares assumem um sentido universal quando isso acontece. Assim, as igrejas podem discernir juntas sobre o modelo de unidade/comunh√£o poss√≠vel entre elas, e os elementos que d√£o visibilidade √† unidade/comunh√£o.

5.1 Modelos de unidade

A eclesiologia ecum√™nica tem como escopo identificar e justificar os elementos que afirmam a koinonia como constitutiva da natureza, identidade e miss√£o da igreja.¬† O di√°logo at√© agora realizado j√° possibilita identificar propostas nessa dire√ß√£o, formando quatro principais modelos: 1) unidade org√Ęnica: √©, talvez, a mais antiga proposta de F√© e Constitui√ß√£o (Edimburgo, 1937) como uni√£o de organismos eclesiais. Por esse modelo, as igrejas seriam convidadas a renunciarem a elementos identit√°rios para se fundirem ‚Äúem um √ļnico corpo‚ÄĚ (COMISS√ÉO INTERNACIONAL CAT√ďLICA-LUTERANA, 1994, n. 17), sendo a unidade ‚Äúum organismo vivente‚ÄĚ (F√Č E ORDEM, 2005, cap. VI) com uma estrutura organizacional homog√™nea, uniforme; 2) em cada lugar: proposta da III Assembleia Geral do CMI (Nova Delhi, 1961), compreendendo a unidade como a m√ļtua aceita√ß√£o entre igrejas locais, onde os crist√£os s√£o batizados, ouvem a Palavra, celebram os sacramentos e s√£o orientados por seus pastores na viv√™ncia da f√© em Cristo; 3) associa√ß√£o corporativa: afirma a possibilidade de comunidades eclesiais diferentes formarem uma comunh√£o de f√© e de vida sem perderem autonomia e especificidades em suas teologias e religiosidades de valor permanente para a f√© apost√≥lica. Entre as igrejas se estabeleceria um ‚Äúacordo substancial sobre quest√Ķes de f√© e de uma comum constitui√ß√£o do episcopado segundo a concep√ß√£o da igreja primitiva‚ÄĚ (COMISS√ÉO INTERNACIONAL CAT√ďLICA-ANGLICANA, 1994, n. 136); 4) comunidade conciliar: proposta na V Assembleia do CMI (Nairobi ‚Äď 1975), pela qual cada igreja possui em comunh√£o com as demais a plenitude da catolicidade e o testemunho da mesma f√© apost√≥lica. Numa ‚Äúcomunh√£o conciliar‚ÄĚ, a diversidade identit√°ria n√£o √© cancelada e n√£o √© empecilho para a comunh√£o (CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, 2001, rela√ß√£o da II se√ß√£o, n. 7), que acontece no batismo, na eucaristia, na aceita√ß√£o m√ļtua de membros e ministros, na profiss√£o do Evangelho e no servi√ßo ao mundo. √Č uma ‚Äúcomunh√£o conciliar de igrejas locais, entre si efetivamente unidas‚ÄĚ (CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, 2001, rela√ß√£o da II se√ß√£o, n. 4), tendo como estrutura vinculante reuni√Ķes conciliares convocadas segundo as exig√™ncias da realiza√ß√£o da voca√ß√£o comum, encontros de car√°ter representativo, como interc√Ęmbio permanente de informa√ß√Ķes, projetos e experi√™ncias; 5) unidade numa diversidade reconciliada: a unidade em Cristo n√£o acontece ‚Äúapesar‚ÄĚ da diversidade ou ‚Äúcontra‚ÄĚ ela, mas com e na diversidade (CULLMANN, 1986). Consideram-se leg√≠timas as v√°rias formas dos patrim√īnios confessionais pertencentes √† riqueza da vida de toda a igreja, exigindo de cada tradi√ß√£o eclesial um ‚Äúencontro aberto com a heran√ßa dos outros‚ÄĚ, permitindo a vis√£o de uma unidade que tem a caracter√≠stica de ser uma ‚Äúdiversidade reconciliada‚ÄĚ (COMISS√ÉO INTERNACIONAL CAT√ďLICA-LUTERANA, 1994, n. 32). O papa Francisco tem explicitado reiteradamente essa compreens√£o de comunh√£o eclesial com a imagem do poliedro (EG n. 236). E no Brasil, te√≥logos ecum√™nicos a expressam como ‚Äúunidade plural‚ÄĚ (WOLFF, 2007, p. 223-235).

5.2 Visibilidade da comunh√£o

A comunh√£o eclesial precisa ser vis√≠vel, possibilitando que os elementos teol√≥gicos acima verificados tenham incid√™ncia na organiza√ß√£o da vida eclesial. A Comiss√£o de F√© e Ordem, no Documento BEM (1982), apresentou de modo sistem√°tico os fundamentos e as converg√™ncias sobre o batismo, a eucaristia e os minist√©rios como centrais na visibilidade da comunh√£o. Al√©m disso, ponderou a linguagem e as pr√°ticas lit√ļrgicas; examinou as formas de exerc√≠cio ministerial, especialmente a episkop√™ (supervis√£o); esclareceu as diferentes concep√ß√Ķes sacramentais da ordem e da ceia, ora divergentes, ora complementares; e revelou a consist√™ncia dos elementos teol√≥gico-lit√ļrgicos partilhados pelas igrejas, como suporte para posteriores resolu√ß√Ķes e consensos eclesiol√≥gicos. Em 1998, F√© e Ordem publicou o documento Natureza e finalidade da Igreja e, em 2005, aprofundou esse tema em Natureza e miss√£o da Igreja. Note-se que a passagem, nos t√≠tulos, de ‚Äúfinalidade‚ÄĚ para ‚Äúmiss√£o‚ÄĚ reflete uma espec√≠fica abordagem teol√≥gica e paradigm√°tica: o mist√©rio e o agir da Igreja n√£o se definem de modo autorreferido, mas em rela√ß√£o ao des√≠gnio salvador de Deus Trino para a humanidade e a Cria√ß√£o, de modo que a missio ecclesiae sinaliza e serve √† missio Dei. Com tal escopo, o di√°logo avan√ßou de 2006 a 2012, resultando no documento A Igreja: para uma vis√£o ecum√™nica (F√Č E CONSTITUI√á√ÉO, 2015).

Essa ‚Äúvis√£o‚ÄĚ comum requer elementos estruturais e institucionais que efetivamente visibilizem a comunh√£o. Desses elementos, os minist√©rios ordenados apresentam particular complexidade para uma eclesiologia ecum√™nica. Em todas as igrejas existe um minist√©rio espec√≠fico, pastoral, ordenado, que se distingue do minist√©rio ou sacerd√≥cio comum dos fi√©is, embora essa distin√ß√£o n√£o seja compreendida ou explicitada de igual modo. Diverg√™ncias sobre o minist√©rio ordenado se manifestam principalmente na concep√ß√£o teol√≥gica de sua natureza sacramental, a sua estrutura (hier√°rquica ou n√£o), compet√™ncias pastorais e jur√≠dicas, a sucess√£o apost√≥lica, o sujeito do minist√©rio ordenado (homem ou mulher): ‚ÄúAs particularidades dessas orienta√ß√Ķes garantem as particularidades eclesiol√≥gica das diferentes tradi√ß√Ķes (eclesiais), pois minist√©rio e igreja se implicam mutuamente‚ÄĚ (WOLFF, 2018, p. 310).

De qualquer modo, todas as igrejas entendem que seus minist√©rios eclesi√°sticos est√£o enraizados na miss√£o que Cristo deu √† sua igreja para pregar o Evangelho (Mt 28,19; Mc 16,15;). Essa miss√£o procede do batismo, de modo que todas as pessoas batizadas a t√™m. Mas ela √© exercida de um modo particular nas ordens eclesi√°sticas pelo servi√ßo √† comunidade atrav√©s da proclama√ß√£o da Palavra, da celebra√ß√£o do culto e da administra√ß√£o dos sacramentos. Pela relev√Ęncia de tal miss√£o, cat√≥licos e ortodoxos a entendem procedente do sacramento da ordem, e n√£o apenas do batismo. Nesse sentido, o minist√©rio ordenado comp√Ķe uma hierarquia de governo e de refer√™ncia para a comunh√£o. E aqui ganha particular import√Ęncia o di√°logo ecum√™nico sobre o minist√©rio da episkop√© e o minist√©rio petrino, o que diz respeito, em √ļltima inst√Ęncia, ao tema da autoridade na igreja.

Conclus√£o

A eclesiologia ecum√™nica √© uma exig√™ncia da pr√≥pria igreja. Em sua natureza de comunh√£o, a igreja ser√° plenamente realizada se forem ampliadas as fronteiras institucionais e doutrinais para al√©m de uma tradi√ß√£o eclesial, acolhendo na comunh√£o outras formas de ser igreja. A ecumenicidade da igreja n√£o √© um teolog√ļmeno, uma abstra√ß√£o ou uma mera especula√ß√£o eclesiol√≥gica. √Č uma forma privilegiada de explicitar a natureza, identidade e miss√£o da igreja como comunh√£o. Trata-se de uma comunh√£o plural, unidade na diversidade, pela qual a igreja se enriquece pelos diferentes dons e carismas que o Esp√≠rito concede √†s confiss√Ķes eclesiais, que juntas buscam dar ao mundo um testemunho convincente da mesma f√© em Cristo e no seu Evangelho do Reino.

Elias Wolff. Programa de Pós-Graduação em Teologia РPUCPR. Texto original em português. Enviado em 30/08/2022; aprovado em 30/10/2022; publicado em 30/12/2022.

Referências 

BURMANN, Claudir. Pluralismo eclesial e ecumenismo: quem é Igreja verdadeira? Caminhos de Diálogo, ano 6, n. 9, p. 169-175, jul./dez. 2018.

CERETI, Giovanni. Per una eclesiologia ecumenica. Bologna: EDB, 1997.

COLET, Raquel de F√°tima. Da laudato √† communio: interpela√ß√Ķes da ecologia integral para a eclesiologia ecum√™nica. Caminhos de Di√°logo, ano 5, n. 7, p. 35-42, jan./dez. 2017.

COMISS√ÉO F√Č E ORDEM. A Igreja. Uma vis√£o ecum√™nica. S√£o Paulo: ASTE, 2015.¬†

COMISS√ÉO F√Č E ORDEM. Batismo, Eucaristia, Minist√©rio. 3.ed. Bras√≠lia: CONIC; S√£o Paulo: ASTE, 2001.

COMISS√ÉO F√Č E ORDEM. La natura e lo scopo della Chiesa (1998). In: CERETI, Giovanni; PUGLISI, James F. (eds.). Enchiridion Oecumenicum. v. 7. Bologna: EDB, 2006, p. 1469-1517.

COMISS√ÉO F√Č E ORDEM. Vers le partage de la foi commune. Paris: Cerf, 1998.

COMISS√ÉO F√Č E ORDEM. Rapporto della II Conferenza. In: ROSSO, Stefano; TURCO, Emilia (Orgs.). Enchiridion Oecumenicum. v. 6. Bologna: EDB, 2005, p. 439-630.

COMISS√ÉO CAT√ďLICA-ANGLICANA, Rapporto finale ‚Äď Windsor 1981. Conclus√£o.¬† In: CERETI, Giovanni; VOICU, Sever J. (Orgs.), Enchiridion Oecumenicum. v. 1. Bologna: EDB, 1994, p. 86-90.

COMISS√ÉO INTER-ANGLICANA DE TEOLOGIA E DOUTRINA. Relat√≥rio de Virg√≠nia, 1996. In: CENTRO DE ESTUDOS ANGLICANOS (CEA). Reflex√Ķes n. 9, 2002.

COMISS√ÉO INTERNACIONAL CAT√ďLICA-LUTERANA. L¬īunit√† davanti a noi – 1984. In: CERETI, Giovanni; VOICU, Sever J. (Orgs.). Enchiridion Oecumenicum. v. 1. Bologna: EDB, 1994, p.1548-1709.

COMISS√ÉO INTERNACIONAL CAT√ďLICA-LUTERANA. Todos sob um mesmo Cristo ‚Äď Declara√ß√£o comum sobre a Confiss√£o de Augsburgo ‚Äď 1980. In: CERETI, Giovanni; VOICU, Sever J. (Orgs.). Enchiridion Oecumenicum. v. 1. Bologna: EDB, 1986, p. 1405-1433.

CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS. Rapporto II Assemblea. In: ROSSO, Stefano; TURCO, Emilia (Orgs.). Enchiridion Oecumenicum. v. 5. Bologna: EDB, 2001, p. 199-341.

CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS. Rapporto della V Assemblea (Nairobi, 1975). In: ROSSO, Stefano; TURCO, Emilia (Orgs.). Enchiridion Oecumenicum. v. 5. Bologna: EDB, 2001, p. 587-790.

CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS. Rapporto della VI Assemblea. In: ROSSO, Stefano; TURCO, Emilia (Orgs.). Enchiridion Oecumenicum. v. 5. Bologna: EDB, 2001, p. 791-1028.

CULLMANN, Oscar. L’unité par la diversité. Paris:  Cerf, 1986.

EVDOKIMOV, Paul. O Espírito Santo na Tradição Ortodoxa. São Paulo: Ave Maria, 1996.

FRANCISCO. Discurso na “Igreja Pentecostal da Reconciliação
Caserta‚ÄĚ (28 jul. 2014).¬† Dispon√≠vel em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2014/july/documents/papa-francesco_20140728_caserta-pastore-traettino.html. ¬†Acesso em: 12 set 2022.

FRANCISCO. Evangelii gaudium. S√£o Paulo: Paulinas, 2013.

FRIES, Hans.; RAHNER, Karl.  La Union de Las Iglesias. Una Posibilidad Real. Madrid: Herder, 1987.

HARRISON, James H. Christian Union: a historical study. St. Louis: Christian Publishing Company, 1906; SCM e-Prints, 2011.

KASPER, Walter. Raccogliere i frutti: aspetti fondamentali della fede cristiana nel dialogo ecumenico. Il Regno Documenti n. 19, p. 585-664, 2009.

LEITH, John H. A Tradição Reformada: uma maneira de ser a comunidade cristã. São Paulo: Pendão Real, 1996.

MARASCHIN, Jaci Correia. A Inclusividade Anglicana. Estandarte Crist√£o ‚Äď Jornal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, n. 1733, mar./abr./mai. 1995.

MOHLER, Johan Adam. Unity in the Church. Or the Principle of Catholicism:¬†Presented in the Spirit of the Church Fathers of the First Three Centuries (T√ľbingen, 1825). Washington: Catholic University of America Press, 1996.

MOHLER, Johan Adam. Symbolism (Symbolik): Exposition of the Doctrinal Differences between catholics and protestants as evidenced by their symbolical writings. Whashington: The Hoya, 2018.

MOLTMANN,¬† J√ľrgen.¬† Theological¬† Proposals¬† towards¬† the¬† Resolution¬† of¬† the¬† Filioque Controversy. In¬†: VISCHER, Lukas. Spirit of God, Spirit of Christ: Ecumenical Reflexions on the Filioque Controversy. Geneva:¬† World Council of Churches, 1981, p. 164-173.

MOLTMANN,¬† J√ľrgen. Theology of Hope. Translated by James W. Leitch. New York/Evanston: Harper & Row, 1967.

MOLTMANN,¬† J√ľrgen. The Trinity and the Kingdom: The Doctrine of God. Translated by Margaret Kohl. San Francisco: Harper & Row, 1981.

MOLTMANN,¬† J√ľrgen. God in Creation: An Ecological Doctrine of Creation. Translated by Margaret Kohl. San Francisco: Harper and Row, 1985.

NEWMANN, John Henri. Apologia Pro Vita Sua (1864). New York: Dover Publications, 2005.

NEWMANN, John Henri. An Essay on the Development of Christian Doctrine (1878). Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1994.

RUGGIERI, Giuseppe. Alle radici della divisione. In: ¬†RUGGIERI, Giuseppe et al. (Orgs.). Alle Radici della Divisione ‚Äď Una rilettura dei grandi scismi storici. Ancora, 2000.

SCHWAMBACH, Claus. A palavra de Deus como sinal ecumênico da Igreja (nota ecclesiae) na ótica de Martim Lutero. Caminhos de Diálogo, ano 6, n. 9, p. 110-133, jul./dez. 2018.

VISCHER, Lukas. Spirit of God, Spirit of Christ: Ecumenical Reflexions on the Filioque Controversy. Geneva:  World Council of Churches, 1981.

WOLFF, Elias. A unidade da Igreja. Ensaio de eclesiologia ecumênica. São Paulo: Paulus, 2007.

WOLFF, Elias. Caminhos do Ecumenismo no Brasil. História, teologia, pastoral. São Paulo: Paulus; Paulinas / São Leopoldo: Sinodal, 2018.

VON SINNER, Rudolf. Eclesiologia ecum√™nica: possibilidades e limites. Revista Teocomunica√ß√£o, v. 41, n¬ļ 1, p. 55-68, jan./jun. 2011.

ZIZIOULAS, Ioannes D. El ser eclesial: persona, comunión, Iglesia. Salamanca: Sígueme, 2003.