Graça

Sum√°rio

Introdução

1 Experiência antropológica da graça

2 O termo graça em perspectiva bíblica

2.1 No Antigo Testamento

2.2 No Novo Testamento

3 Outros termos bíblicos para a realidade da graça

4 A graça como acontecimento: o Reino de Deus em Jesus Cristo

4.1 Um acontecimento

4.2 O acontecer do Reino na pessoa e ministério de Jesus, inseparáveis do seu Espírito

4.3 Uma nova situa√ß√£o gerada por novas rela√ß√Ķes

4.4 Gratuidade, liberdade, perd√£o

4.5 Oração

4.6 Presente e futuro

4.7 Cruz

4.8 Atração e plenificação do Reino pelo Espírito

5 A graça como vida nova

5.1 O testemunho paulino

5.2 A entrada no dinamismo do Reino

5.3 Uma narrativa paradigm√°tica: ‚Äúa tua f√© te salvou‚ÄĚ

5.4 Justifica√ß√£o ‚Äď dom e resposta na vida nova

5.5 Universalidade e integralidade da vida nova

5.6 Libertação e liberdade na vida nova

5.7 A oração na vida nova

5.8 Regenera√ß√£o das rela√ß√Ķes fundamentais ‚Äď o conte√ļdo da vida nova

6 A graça como segredo de salvação

6.1 Um segredo de salvação presente no humano

6.2 Um segredo de salvação presente na história e nas culturas

6.3 Um segredo de salvação presente no cosmo

7 Dinamismos da graça: encarnatório-kenótico, trinitário e sacramental

7.1 Dinamismo encarnatório e kenótico

7.2 Dinamismo trinit√°rio

7.3 Dinamismo sacramental

Conclus√£o

Referências

Introdução

A palavra gra√ßa, tal como √© utilizada na linguagem crist√£, designa os m√ļltiplos aspectos ‚Äď diferentes, mas entrela√ßados ‚Äď da realidade nova e salv√≠fica, vinda de Deus, por e em Jesus Cristo, no Esp√≠rito, que permeia a humanidade, a hist√≥ria e toda a cria√ß√£o, atuando e transformando-as por dentro e oferecendo-lhes um futuro novo. Esta realidade de Deus, simultaneamente, possibilita √† humanidade acolh√™-la, experiment√°-la, viv√™-la e compartilh√°-la; a toda a cria√ß√£o, possibilita ser recebida e comunicada.

A realidade da gra√ßa pretende aqui ser tratada em sentido b√≠blico, din√Ęmico, libertador, integrado e relacional. O seguinte esquema, em sete pontos, norteia a abordagem:

  1. Experiência antropológica da graça
  2. O termo graça em perspectiva bíblica
  3. Outros termos bíblicos para a realidade da graça
  4. A graça como acontecimento: o Reino de Deus em Jesus Cristo
  5. A graça como vida nova
  6. A graça como segredo de salvação no humano, na história, nas culturas e no cosmo
  7. Dinamismos da graça: encarnatório, kenótico, trinitário e sacramental
1 Experiência antropológica da graça

Na raiz da reflex√£o teol√≥gica sobre a gra√ßa h√° uma experi√™ncia antropol√≥gica simples, corporal e po√©tica de gratuidade, graciosidade e gratid√£o que possibilita a forma√ß√£o dos sentidos da linguagem da gra√ßa (SEGUNDO, 1977, p. 6-9). Tal experi√™ncia se d√° mediante atitudes marcadas por jovialidade, flexibilidade, abertura, reconhecimento do dom e dom gratuito de si. √Č percebida no contato com o que √© desmedido, criativo, surpreendente e encantador. Nas rela√ß√Ķes humanas e sociais, faz-se sentir quando se ultrapassa a troca justa, predeterminada, necess√°ria e dedut√≠vel. No Evangelho de Lucas, Jesus ressalta este sentido, ao perguntar: ‚Äúse amais os que vos amam, que gratid√£o mereceis?‚ÄĚ e ‚Äúse fazeis o bem aos que vo-lo fazem, que gratid√£o mereceis?‚ÄĚ (Lc 6,32-33).

A percep√ß√£o antropol√≥gica e universal da realidade gratuita, que ultrapassa medidas, surpreende e encanta, possibilita compreender melhor por que a palavra gra√ßa √© utilizada teologicamente, para expressar a benevol√™ncia e miseric√≥rdia de Deus e os bens que dele brotam. Especialmente, designa o maior bem: a realidade nova trazida gratuitamente por Cristo, gra√ßa em pessoa. Para a f√© crist√£, o car√°ter do gratuito, gracioso, abundante e encantador presente na exist√™ncia profunda do humano e do mundo √© conferido pelo pr√≥prio Deus (SEGUNDO, 1977, p. 13). √Č ele quem possibilita esta experi√™ncia, capacita a cr√≠tica √† vida negada, convida √† acolhida concreta e pr√°tica da novidade de vida, porque ele, Deus, √© sua fonte.

2 O termo graça em perspectiva bíblica

A reflex√£o crist√£ sobre a gra√ßa de Deus em Jesus Cristo √© preparada por um h√ļmus b√≠blico abrangente, composto por termos que ressaltam o car√°ter gratuito, misericordioso e benevolente de Deus em sua rela√ß√£o com a humanidade, com seu povo e com o mundo criado.

2.1 No Antigo Testamento

No Antigo Testamento, os principais termos hebraicos equivalentes √† gra√ßa s√£o Šł•en e Šł•esed. O termo Šł•en indica a benevol√™ncia e favor de Deus que, em sentido literal, inclina-se em dire√ß√£o ao miser√°vel (da raiz Šł•anan, que significa inclinar o olhar), gerando express√Ķes como ‚Äúencontrar ‚Äėgra√ßa‚Äô aos olhos do Senhor‚ÄĚ (Gn 6,8; Ex 33,12-17); gozar do favor (Ex 3,21; 11,3). O voc√°bulo Šł•esed designa a miseric√≥rdia, o amor, a amizade, a bondade e a fidelidade generosa de Deus √† sua alian√ßa. Este termo √© associado a emet, que ressalta a firmeza, fidelidade, veracidade e lealdade de Deus √† promessa realizada; e a raŠł•amim, compaix√£o e ternura divinas, ades√£o cordial e mesmo visceral aos que s√£o por ele amados. S√£o voc√°bulos encontrados tanto em conjunto, como em Ex 34,6-7 (BAUMGARTNER, 1982, p. 36) e no Salmo 77(76), 9-10 (FLICK; ALSZEGHY, 1964, p.19), quanto em numerosas composi√ß√Ķes entre eles, como termos equivalentes. Esta constela√ß√£o sem√Ęntica expressa o pr√≥prio Deus em sua fidelidade a si mesmo, √† alian√ßa por ele estabelecida com o seu povo e ao seu des√≠gnio de vida e liberta√ß√£o em rela√ß√£o a esse povo, apesar da recusa e ruptura humanas em rela√ß√£o a Deus. Qualifica o amor divino, gratuito e misericordioso.

Associada a esses termos, encontra-se a express√£o todah, ou celebrar, agradecer e louvar o Senhor por suas miseric√≥rdias (SESBO√ú√Č, 2010, p. 230). A alian√ßa de Deus com o seu povo comporta um encontro da miseric√≥rdia de Deus com o acolhimento agradecido e ativo desta miseric√≥rdia, resposta ao amor divino (Dt 5,10; 7,9.12). Neste sentido, a gra√ßa implica ‚Äúatitude de alian√ßa‚ÄĚ (KONINGS, 2000, p.91) entre Deus e o povo.

Na Septuaginta, os voc√°bulos principais que significam a gra√ßa como dom gratuito, benevolente e misericordioso de Deus foram traduzidos pelos termos charis, tradu√ß√£o grega de Šł•en, e eleos, tradu√ß√£o grega de Šł•esed (SESBO√ú√Č, 2010, p. 230).

A literatura sapiencial tardia agregou outros sentidos ao termo charis. De particular import√Ęncia para o significado crist√£o √© a associa√ß√£o da gra√ßa com a sabedoria criadora de Deus (Sb 8,21). Deus cria pela sabedoria e justi√ßa (Pr 3,19; 8,20-31) e estas s√£o identificadas com a Lei e a Torah (Sr 24,23) (SESBO√ú√Č, 2010, p. 231). O termo √© tamb√©m associado ao encanto e graciosidade da virtude (Pr 1,9; 3,22), indica benef√≠cio divino concedido ao justo (Sb 3,14) e a pr√≥pria justi√ßa, vista como recompensa concedida aos eleitos (Sb 3,9), tamb√©m na vida futura (Sb 4,14-15) (BAUMGARTNER, 1982, p. 36).

A constela√ß√£o sem√Ęntica, vista acima, constitui o h√ļmus para o uso da express√£o no Novo Testamento.

2.2 No Novo Testamento

No NT, a palavra charis traz o sentido veterotestament√°rio mais abrangente visto acima e encontra o seu centro na salva√ß√£o em Jesus Cristo (SESBO√ú√Č, 2010, p. 230). A palavra latina gratia (gra√ßa) traduz o grego charis.

√Č de notar que o termo n√£o aparece nenhuma vez nos Evangelhos de Marcos e Mateus, poucas vezes em Jo√£o (tr√™s vezes no Pr√≥logo), sendo mais frequente em Lucas (oito vezes) e Atos dos Ap√≥stolos (dezessete vezes). Nas ep√≠stolas de S√£o Paulo, torna-se express√£o central e √© citada mais de uma centena de vezes (BAUMGARTNER, 1982, p. 32).

Na teologia paulina, a benevolência e o amor de Deus estão associados ao dom de Cristo e à vida nova instaurada por ele (LADARIA, 1997, p. 145-147). A graça significa:

* o pr√≥prio Jesus Cristo; as f√≥rmulas de sauda√ß√£o: ‚Äúque a gra√ßa de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco!‚ÄĚ (Rm 16,20 cf. 1Cor 16,23; 2Cor 13,13 e outras), podem significar ‚Äúa gra√ßa que √© Jesus Cristo‚ÄĚ, a demonstrar que ‚Äúo amor e o favor de Deus aos homens adquirem, em Jesus, um rosto concreto‚ÄĚ (LADARIA, 1997, p. 146);

* o novo √Ęmbito em que se encontra e vive a pessoa incorporada a Cristo (estar na gra√ßa √© estar em Cristo, cf. Rm 5,2), √Ęmbito em que √© possibilitada uma vida nova (Rm 6,1.4), vivida na gratuidade do amor de Deus e na verdadeira liberdade (‚Äún√£o estais debaixo da Lei, mas sob a gra√ßa‚ÄĚ, Rm 6,14; cf. Gl 1,6; 5,4), no Esp√≠rito (Gl 5,18; 2Cor 3,17);

* o poder paradoxal de Deus em Cristo, que inverte a √≥tica comum e torna a pessoa forte em sua fraqueza (‚ÄúBasta-te a minha gra√ßa, pois √© na fraqueza que a for√ßa manifesta todo o seu poder‚ÄĚ, 2Cor 12,9);

* o evento instaurador de redenção e transformação; a graça concedida em Jesus é radical e mais forte que o mal; em Cristo se obtém a redenção dos pecados (Ef 1,6s); graças a ela o cristão se incorpora ao próprio Cristo, pela fé (Ef 2,5-8);

* a obra de Cristo em perspectiva cósmica e universal (Ef 1,3ss);

* o próprio Cristo enquanto revelação e a epifania do amor de Deus aos homens e mulheres (nas cartas pastorais, em Tt 2,11s; 3,4-7);

* o dom particular da miss√£o e do apostolado, recebido por Paulo, de que ele n√£o √© pessoalmente digno (Rm 1,5 ‚Äď ‚Äúpor quem recebemos a gra√ßa e a miss√£o de pregar‚ÄĚ; cf. Rm 12,3; Gl 1,15).

3 Outros termos bíblicos para a realidade da graça

Os Evangelhos encontram outras formas de expressar o dom de Deus em Jesus Cristo, a transforma√ß√£o que ele suscita no ser humano e no mundo e os caminhos concretos da sua acolhida, a julgar pela escassez do termo gra√ßa na reda√ß√£o desses livros. Na teologia joanina, por exemplo, a no√ß√£o de amor-√°gape acentua a gratuidade e a miseric√≥rdia de Deus e seus efeitos no amor entre irm√£os (BAUMGARTNER, 1982, p. 32). A ideia de vida e de luz traduzem a novidade e miss√£o de Jesus e a participa√ß√£o nelas: ‚ÄúEu vim para que tenham a vida‚ÄĚ (Jo 10,10); ‚ÄúEu sou o caminho, a verdade e a vida‚ÄĚ (Jo 14,6) (LADARIA, 2007, p. 104; BAUMGARTEN, 1982, p. 57). Nos Evangelhos sin√≥pticos, o termo que corresponde √† ideia joanina de ‚Äúvida eterna‚ÄĚ √© a realidade do Reino de Deus (KONINGS, 2000, p. 131).

A teologia latino-americana privilegia a no√ß√£o de Reino de Deus como central para a aproxima√ß√£o ao sentido da gra√ßa de Deus. O termo n√£o apenas desenvolve aspectos paulinos importantes do tema da gra√ßa, como poderiam ser o dom do Esp√≠rito ou a transforma√ß√£o interior da pessoa. A no√ß√£o de Reino de Deus vai al√©m disso. Ela √© princ√≠pio hermen√™utico para se compreender a realidade da gra√ßa divina que se autocomunica em Jesus Cristo, faz-se hist√≥ria concreta, manifesta o sentido profundo da vida comum e no mundo, instaura um ju√≠zo das situa√ß√Ķes que matam a vida, marginalizam irm√£os e manipulam a religi√£o, convoca a uma vida nova baseada em novas rela√ß√Ķes com Deus, com os demais, consigo mesmo e com a natureza, forma a comunidade crist√£ e conduz, pelo Esp√≠rito, a um futuro novo. A partir do acontecimento do Reino de Deus instaurado por Jesus se conhece em que consiste o evento salv√≠fico de Cristo e a participa√ß√£o nele.

4 A graça como acontecimento: o Reino de Deus em Jesus Cristo

O Reinado de Deus em Jesus Cristo √© acontecimento da gra√ßa de Deus, narrado nos Evangelhos sin√≥pticos. Alguns aspectos o caracterizam e manifestam a l√≥gica da a√ß√£o salv√≠fica de Deus, seus efeitos no humano, nas rela√ß√Ķes e na hist√≥ria.

4.1 Um acontecimento

A gra√ßa de Deus revelou-se, com a irrup√ß√£o do Reino de Deus em Jesus Cristo, um acontecimento novo, sens√≠vel, libertador, desenvolvido na hist√≥ria e aberto ao futuro escatol√≥gico. O Reino de Deus refaz a pr√≥pria no√ß√£o de Deus, do mundo criado e da vida humana, pois traduz o envolvimento radical de Deus com estas realidades, atrav√©s de Jesus Cristo, Filho de Deus (Mc 1,2). Ao mesmo tempo, instaura esperan√ßas escatol√≥gicas de plenitude, em continuidade aos acontecimentos ‚Äúdaqueles dias‚ÄĚ (Mc 1,9; 16,7). Ao acontecer, a gra√ßa de Deus em Jesus Cristo suscita e exige acolhida e resposta humanas ‚Äď tamb√©m hist√≥ricas e marcadas pela concretude. Dom de Deus e resposta humana, que pela liberdade pode ser de abertura, indiferen√ßa ou rejei√ß√£o, n√£o se separam. Na diversidade de respostas se encontram a vida nova ‚Äď acolhida da gra√ßa ‚Äď ou o afastamento dela.

O Reino de Deus acontece quando Deus reina em Jesus Cristo ‚Äď por isso √© reinado de Deus, dom√≠nio de Deus. Evento marcado por dinamismo. Deus, em Jesus Cristo, √© aquele que age, presen√ßa atuante que modifica a hist√≥ria, altera uma ordem de coisas. N√£o √© movimento ascendente, c√ļltico ou confessional. √Č movimento descendente que se faz hist√≥ria. Tamb√©m n√£o √© conceito a ser apreendido intelectualmente, mas sim realidade hist√≥rica e concreta segundo a vontade de Deus (SOBRINO, 1982, p. 131-155).

4.2 O acontecer do Reino na pessoa e ministério de Jesus, inseparáveis do seu Espírito

A pessoa de Jesus, ‚Äúo salvador‚ÄĚ (Lc 2,11) e a globalidade do seu minist√©rio, centrado no Reino de Deus, narram o acontecer da gra√ßa. Desde o in√≠cio a gra√ßa de Deus est√° com ele (Lc 2,40.52); seu testemunho √© uma ‚Äúmensagem da gra√ßa‚ÄĚ (Lc 4,22). E ainda, a bondade e benignidade de Deus se fazem bondade e benignidade em Jesus Cristo, salva√ß√£o presente de Deus, encarnada e feita hist√≥ria (BOFF, 1985, p. 21).

O ‚ÄúEvangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus‚ÄĚ √© o ‚ÄúEvangelho de Deus‚ÄĚ (Mc 1,1.14.15), a novidade benfazeja vinda de Deus, por Cristo, que n√£o se separa do seu Esp√≠rito. A pessoa de Jesus pressup√Ķe o agir do Esp√≠rito de Deus, como se v√™ desde a anuncia√ß√£o (Lc 1,35) at√© a promessa do Esp√≠rito pelo Ressuscitado (Lc 24,49), passando pelo in√≠cio de sua vida p√ļblica (Mt 3,16-17; 4,1; Lc 4,1.14) e atua√ß√£o como Messias servidor (Lc 4,18-19; 7,22; Mt 12,28; Lc 10,21). Na partida de Jesus, h√° a efus√£o, transmiss√£o e comunica√ß√£o do Esp√≠rito (Jo 19,30; 20,22), princ√≠pio vital do Cristo ressuscitado (At 2,32-33) que possibilita a f√© (At 2,22; 5,30-32) e o amor concreto (1Cor 13), em seguimento daquele que passou a vida fazendo o bem (At 10,38).

4.3 Uma nova situa√ß√£o gerada por novas rela√ß√Ķes

O Reino inaugura uma nova situa√ß√£o, em que a rela√ß√£o com Deus e entre as pessoas √© restaurada pela mensagem, atua√ß√£o e pela pr√≥pria pessoa de Jesus. Deus √© chamado de Pai-Abb√°, pr√≥ximo e cheio de miseric√≥rdia, e Jesus o apresenta como Pai de todos, ‚Äúnosso‚ÄĚ. A rela√ß√£o de Jesus com o Pai √© de entrega e confian√ßa, acolhida de sua vontade. Amor concreto, justi√ßa e paz caracterizam as rela√ß√Ķes humanas no Reino (Mt 5,3-12; Mt 6,9-15). O dom do Reino se estende a todos, que s√£o chamados a regenerar suas rela√ß√Ķes e seu agir segundo as rela√ß√Ķes e o agir de Jesus. A atua√ß√£o de Jesus suscita a resposta de convers√£o e f√©, convida √† vida segundo a vontade do Pai (Mt 12,50), anima a ouvir e colocar em pr√°tica sua palavra (Lc 11,28). Todos s√£o chamados a se incorporar a esta nova fam√≠lia escatol√≥gica que tem Deus como Pai de todos, e Jesus como irm√£o.

As novas rela√ß√Ķes do Reino s√£o chamadas a acontecer em todas as dimens√Ķes da vida, como a pessoal (Mt 6,21-23), familiar (Mt 19,13-15; 21,28-30), comunit√°ria (Mt 7,5; 18,21), profissional (Lc 19,8), sociopol√≠tica (Mt 6,24; 25,35s; Mc 10,42-45), ecol√≥gica (Mt 6,26.28), religiosa (Mt 7,21) etc. Acontecem em todos os espa√ßos f√≠sicos ‚Äď assim, Jesus atuava nas barcas, √†s margens do lago, nas casas, nas cidades, nos caminhos e n√£o apenas nas sinagogas. Em todas as circunst√Ęncias, quer no sil√™ncio dos lugares desertos, quer nos eventos festivos, Jesus convoca √† nova forma de ser, relacionar-se e atuar. Jesus relacionou-se com todo tipo de pessoas, abriu-se aos que n√£o o seguiam, mas faziam o bem (Mc 9,38-41), amou os inimigos.

4.4 Gratuidade, liberdade, perd√£o

O Reino √© dom do amor do Pai (Lc 12,32; 22,29; Mt 25,34; Mc 4,26-29), um acontecimento da gra√ßa de Deus e n√£o do esfor√ßo humano ou de suas realiza√ß√Ķes hist√≥ricas. Trata-se de um amor incondicionado, que atinge todos, iniciando pelos que nada possuem, nada t√™m a oferecer, enchendo suas vidas de amor e perspectivas, ao mesmo tempo em que interpela os que colocam o cora√ß√£o em seus bens ou no mero cumprimento das leis religiosas. Os destinat√°rios principais evidenciam a gratuidade do Reino (GARCIA RUBIO, 2010, p. 39-45): pobres (Lc 6,20; 4,18; Mt 11,5); crian√ßas, grupo marginalizado (Mt 10, 14-16); pequeninos (Mt 11,25-26); doentes, vistos como castigados por suas faltas (Jo 9,2); inimigos (Lc 7,36; 23,34); pecadores (Mt 9,13).

O Reino √© acontecimento de liberdade que implica op√ß√Ķes e decis√Ķes (GARCIA RUBIO, 2010, p. 54-74). Jesus age de maneira surpreendente diante da Lei, do s√°bado e das normas religiosas (Mc 2,1-27; 7,1-23), e convida os disc√≠pulos √† mesma atitude livre (Mc 2,19). A liberdade de Jesus se estende ao uso das riquezas (Mt 6,24) e ao tratamento sem preconceitos de grupos marginalizados, como as mulheres e samaritanos. No Reino de Deus, as realidades da Lei, do s√°bado, das normas religiosas, da riqueza e outras estruturas humanas est√£o a servi√ßo da vida e da comunh√£o, do humano e da humaniza√ß√£o. ¬†A pr√≥pria liberdade √© sinal do Reino. A liberdade para o amor e o servi√ßo √©, em Jesus, radical e vai ‚Äúat√© o extremo‚ÄĚ (Jo 13,1).

O perdão dos pecados é um acontecimento de graça que marca o ministério de Jesus (TOLENTINO, 2018, p. 143-155). Os atos de Jesus (Lc 15,1-2) representam a mesma atitude que, nas parábolas da misericórdia, são próprias do Pai (Lc 15,7.10.24.32). Numa inflexão inesperada, Jesus supera a ideia do pecador aplicada a determinados grupos (publicanos e prostitutas). Para ele, toda confiança na autossuficiência arrogante, mesmo sob o manto protetor da religião ou da Lei, torna a pessoa pecadora e carente da graça de Deus. Neste sentido, reconhecer-se carente (Lc 18,9-14), abrir-se à ação transformadora de Deus mediante o encontro com Jesus e buscá-lo torna-se o paradigma da pessoa de fé (Lc 7,36-50).

4.5 Oração

A oração de Jesus é central no acontecimento do Reino e, para os seus seguidores, é paradigmática (Mt 6,9-15) (GARCIA RUBIO, 2010, p. 81-88). Trata-se de uma relação dialógica com aquele que ele chama de Abbá-Pai, e manifesta uma atitude fundamental de confiança e entrega ao Pai, que os discípulos são igualmente chamados a cultivar. A oração constante de Jesus (Lc 5,16) é vivida em conexão com os acontecimentos de sua vida, fato que os Evangelhos narram abundantemente, e revela o dinamismo da relação entre Jesus e o Pai (Lc 3,21; 4,1; Mc 1,35; Lc 5,16; Mt 14,23; Lc 6,12; Lc 9,18; Lc 9,28-29; Lc 11,1; Mt 26,36-44 e par; Mc 15,34; Mt 27,46; Lc 23,34.46; Jo 11,41; Jo 17,1-26).

4.6 Presente e futuro

O Reino de Deus acontece no dinamismo do tempo presente com o futuro. No ‚Äúj√° e ainda n√£o‚ÄĚ. J√° est√° acontecendo (Lc 17,21; Mt 12,28; Lc 4,18-21). E √© tamb√©m futuro escatol√≥gico (Mc 9,1; Lc 13,28). Neste dinamismo, o presente, mesmo em sua ambiguidade e incompletude, inaugura a plenitude futura; o futuro penetra e esclarece o presente como tempo de decis√£o para alcan√ßar o Reino (GARCIA RUBIO, 2010, p. 48-49).

4.7 Cruz

O acontecimento da gra√ßa passa pela cruz. A morte de Jesus na cruz constitui a culmin√Ęncia de uma vida de entrega ao Pai e aos irm√£os, n√£o isenta de conflitos de todos os tipos, inclusive pol√≠ticos e religiosos. Est√° em conex√£o com a orienta√ß√£o de toda a sua vida de amor, caracterizado pelo servi√ßo, n√£o sujei√ß√£o e n√£o domina√ß√£o dos irm√£os e respeito pelas decis√Ķes da liberdade humana. √Č o resumo de uma vida em ‚Äúamor extremado‚ÄĚ (Jo 13,1), a indicar que o Reino de Deus n√£o acontece apesar da morte de Jesus, mas, precisamente por ela, enquanto radicaliza√ß√£o de seu amor fiel. A cruz de Jesus demonstra o caminho da vit√≥ria sobre o pecado e o mal: o amor at√© o fim, que leva √† plenitude da ressurrei√ß√£o.

4.8 Atração e plenificação do Reino pelo Espírito

Pela atuação do Espírito de Jesus Cristo, o Reino é levado à plenitude escatológica. A vocação humana, em sentido universal, pode ser qualificada, pela reflexão cristã, como chamado à felicidade do Reino de Deus; e chega a todos os que se deixam atrair pelo seu dinamismo relacional e concreto (MIRANDA, 2016, p. 49).

O Reino, acontecimento divino que irrompe com Jesus Cristo, √© hist√≥ria favor√°vel aos homens e mulheres concretos, gra√ßa libertadora. √Č dom universal pela encarna√ß√£o, vida, morte e ressurrei√ß√£o de Jesus Cristo, manifesta√ß√£o radical da bondade e benevol√™ncia divinas reveladas na cria√ß√£o e na primeira Alian√ßa. Instaura uma nova ordem de rela√ß√Ķes com Deus e entre as pessoas, associada √† forma como Jesus viveu e relacionou-se, √†s op√ß√Ķes por ele realizadas e √†s a√ß√Ķes que historicamente realizou. Os seguidores de Jesus s√£o os primeiros respons√°veis pelo testemunho deste acontecimento maravilhoso. Pelo Esp√≠rito, o Ressuscitado atrai √†s rela√ß√Ķes do Reino, em fam√≠lia de irm√£os e irm√£os (Paulo chama Jesus de ‚Äúprimog√™nito‚ÄĚ de uma multid√£o de irm√£os, Rm 8,29), numa vida nova em seguimento a Jesus Cristo (Mt 16,24).

5 A graça como vida nova

A graça libertadora de Deus atua e é acolhida na integralidade da vida humana e cristã, trazendo como efeito a vida nova.

5.1 O testemunho paulino

As cartas paulinas nos afirmam, de v√°rias maneiras, que a gra√ßa √© uma participa√ß√£o na morte e ressurrei√ß√£o de Cristo, pela f√© e pelo sacramento da f√©, o batismo (Gal 3,26; Rm 6). Se algu√©m est√° em Cristo, √© nova criatura. O que era antigo desapareceu e nasce nele uma nova cria√ß√£o, um novo ser (2Cor 5,17). Neste sentido, estar na gra√ßa √© estar no √Ęmbito de Cristo, em sua atmosfera, sob o seu dinamismo. Ao mesmo tempo, Paulo complementa com a afirma√ß√£o inversa, a gra√ßa de Cristo vive no crist√£o, est√° nele (Gal 2,19-21; cf. 4,19; 2Cor 13,5; Ef 3,17; Rm 8,9-11). Desta uni√£o com Cristo e em Cristo nasce a vida nova. N√£o se trata de uma simples convers√£o moral, mas de uma realidade nova, possibilitada pelo amor de Deus, que atinge a profundidade da exist√™ncia, interior e exterior. Atua no sentido de configurar o crist√£o a Cristo (2Cor 3,18), libertar a liberdade para amar (Gl 5,1). Este amor de Deus √© o dom do pr√≥prio Deus, por Cristo, pelo Esp√≠rito de Cristo.

A vida nova √© atualizada, no viver di√°rio, como passagem do primeiro ao verdadeiro Ad√£o (1Cor 15,49), do ‚Äúhomem velho‚ÄĚ ao ‚Äúhomem novo‚ÄĚ (GARCIA RUBIO, 2014, p. 205-209). O ‚Äúhomem novo‚ÄĚ conhece existencialmente o Cristo, experimenta-o, deixa-se renovar por ele (Cl 3,10). A renova√ß√£o impulsiona e exige uma resposta √©tica (Cl 3,5-17), numa vida revestida de amor (Cl 3,14). Trata-se, simultaneamente, de uma realidade j√° presente e de um dinamismo de transforma√ß√£o, em tens√£o e conflito com o ‚Äúhomem velho‚ÄĚ. A passagem que se realiza no tempo presente exige aten√ß√£o, no sentido de reduzir a negatividade do ‚Äúhomem velho‚ÄĚ e desenvolver o crescimento do ‚Äúhomem novo‚ÄĚ.

5.2 A entrada no dinamismo do Reino

Em outras categorias, a vida nova consiste na entrada no dinamismo do Reino de Deus. Os Evangelhos nos falam do dinamismo do dom de Deus e resposta humana pela f√©, convers√£o e amor concreto. A fonte da resposta √© a a√ß√£o amorosa primeira de Deus, mediante Jesus Cristo. H√° transforma√ß√£o da vida, um novo movimento, interior e exterior, cujo ponto de partida √© a gratuidade de um amor experimentado, que possibilita a abertura √† novidade de Jesus, pelo Esp√≠rito (Mt 12,31 e par.). Em termos joaninos, a vida em abund√Ęncia que Jesus oferece (Jo 10,10) s√≥ √© poss√≠vel no contato com a fonte de √°gua viva (Jo 4,10.14), no renascer da √°gua e do Esp√≠rito (Jo 3,5). E esta vida se traduz na viv√™ncia do amor-caridade-√°gape, caminho aberto por Jesus (Jo 14,6; 15,10.17).

O encontro com Jesus Cristo vivo exige abandonar a seguran√ßa em si mesmo ou nas estruturas de riqueza, religi√£o ou privil√©gios de grupos ‚Äď ‚Äúprocurai primeiro o Reino de Deus‚ÄĚ (Mt 6,33). A seguran√ßa nos pr√≥prios atos ou estruturas impede a abertura ao Reino que √©, antes de tudo, um dom. A atitude fundamental de entrega e confian√ßa no amor de Deus est√°, por isso, na base da entrada no dinamismo do Reino. As par√°bolas do fariseu e do publicano (Lc 18, 9-14) e da oferta da vi√ļva (Lc 21,1-4) mostram a import√Ęncia da entrega de si mesmo e da confian√ßa em Deus, em contraste com a atitude dos fariseus que, em sua autojustifica√ß√£o orgulhosa, entregam obras, mas n√£o a si, e deixam de lado a justi√ßa e o amor de Deus (Lc 11,41) (GARCIA RUBIO, 2019, p. 112-115).

A afirma√ß√£o da autossufici√™ncia para a salva√ß√£o, com consequente fechamento ao amor de Deus, √© a grande tenta√ß√£o a ser superada para que a gra√ßa do Reino triunfe. Na hist√≥ria da teologia, a compreens√£o da inter-rela√ß√£o entre o dom divino e as respostas humanas foi objeto das disputas acirradas entre Santo Agostinho e Pel√°gio. A gra√ßa √© necess√°ria para fazer o bem, diz Agostinho, o pr√≥prio Esp√≠rito de Deus (Rm 8,14) conduz os filhos de Deus. Mas, sem substituir a resposta humana. Ao contr√°rio, o Esp√≠rito d√° for√ßas e move a a√ß√£o, de forma a que cada um saiba o que fazer e, de fato, fa√ßa a sua parte (SANTO AGOSTINHO, 2010, II,3.4, p. 86). Por sua vez o pelagianismo, que v√™ nas a√ß√Ķes e estruturas humanas o princ√≠pio da vida nova, leva a atitudes de omiss√£o, de a√ß√£o sem amor, de sujei√ß√£o, domina√ß√£o e injusti√ßa. √Č tenta√ß√£o indicada nos Evangelhos e sempre presente na hist√≥ria e na Igreja, em formas renovadas (neopelagianismos), que impedem a entrada da pessoa no dinamismo do Reino de Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado (EG n. 93-97).

5.3 Uma narrativa paradigm√°tica: ‚Äúa tua f√© te salvou‚ÄĚ

Narrativa paradigm√°tica de entrada no dinamismo do Reino pela f√© (ades√£o e entrega) √© a da mulher ‚Äúpecadora‚ÄĚ, de Lucas (Lc 7,36-50). Sem nome e marginalizada pelo grupo dos fariseus, esta mulher n√£o teme mudar de lugar e entrar em uma casa hostil para se encontrar com Jesus (TOLENTINO, 2018, p. 147). N√£o se trata apenas de um arrependimento de algo realizado (como anunciava Jo√£o Batista), mas de um novo movimento, interior e exterior. Entra-se em novo dinamismo. A mulher reconhece a pr√≥pria car√™ncia diante de Deus, d√° hospitalidade a Jesus (que o representa), desloca-se para se encontrar com ele e acede a uma nova situa√ß√£o espiritual e existencial, marcada por liberdade e amor ‚Äď a gra√ßa chegou a ela. Jesus lhe diz: ‚ÄúA tua f√© te salvou. Vai em paz‚ÄĚ (Lc 7,50). Tamb√©m no Evangelho de Jo√£o, vemos o convite de uma vida nova concebida como ‚Äúnovo nascimento‚ÄĚ para ver o Reino de Deus, na narrativa de Nicodemos (Jo 3,3). √Č no desvelar da depend√™ncia da gra√ßa que nasce uma nova rela√ß√£o com Deus, atrav√©s de Jesus Cristo, em quem Deus se revela na gratuidade de seu amor e miseric√≥rdia.

5.4 Justifica√ß√£o ‚Äď dom e resposta na vida nova

O tema paulino da justificação ajuda a entender o processo da vida nova em sua complexidade. A justiça de Deus parte dele, Deus, de sua fidelidade a si mesmo e ao seu projeto de amor e salvação (cf. Rm 3,21-26). Suscita no ser humano um novo modo de ser e de agir, possibilita ao ser humano ser guiado pelo Espírito (cf. Rm 8,2ss) e viver a novidade de vida em conformidade com a vontade de Deus (cf. Rm 6,13-23). Ao ser humano cabe reconhecer e acolher o dom, numa atitude de fé ativa, adesão à vontade amorosa de Deus. Assim sendo, dom e resposta, graça e acolhida da graça não podem ser vistos de maneira excludentes, mas em inter-relação que tem, na iniciativa do amor divino, o seu princípio (GARCIA RUBIO, 2004, p. 93-94).

A teologia cl√°ssica sobre a justifica√ß√£o reafirma, com as categorias da √©poca, a complexidade da a√ß√£o de Deus que √©, simultaneamente, dom, perd√£o, transforma√ß√£o interior e possibilita√ß√£o da vida nova. O Conc√≠lio de Trento afirma que o impulso primeiro vem da ‚Äúgra√ßa preveniente de Deus, por Jesus Cristo‚ÄĚ, que estimula, ajuda e convida √† vida nova sem merecimento algum, de modo que o pecador ‚Äúse disponha‚ÄĚ √† convers√£o, ‚Äúlivremente consentindo a gra√ßa‚ÄĚ (porque pode rejeit√°-la) e ‚Äúcooperando com ela‚ÄĚ (DENZINGER-H√úNERMANN, 2006, n. 1525). H√° uma ‚Äúrenova√ß√£o do homem interior‚ÄĚ e, pelo Esp√≠rito, o amor de Deus √© difundido nos cora√ß√Ķes (Rm 5,5) (DENZINGER-H√úNERMANN, 2006, n. 1528 e 1529). A√ß√£o de Deus e resposta humana s√£o reafirmadas em sua inter-rela√ß√£o, pois a a√ß√£o divina, sempre primeira, n√£o opera a partir de fora, ela √© interna e transformante, pelo Esp√≠rito. Tudo √© gra√ßa na vida nova.

Historicamente, a querela entre gra√ßa e obras na √©poca da Reforma aprofundou uma compreens√£o dualista entre a a√ß√£o de Deus e a resposta na f√©, afastada da acep√ß√£o paulina. A afirma√ß√£o de Lutero, de que a justifica√ß√£o acontece somente pela gra√ßa (sola gratia), que equivale a ‚Äúsomente por Cristo‚ÄĚ (solo Christo) e ‚Äúsomente pela f√©‚ÄĚ (sola fide), foi compreendida unilateralmente, como uma a√ß√£o divina externa, uma declara√ß√£o extr√≠nseca, separada da renova√ß√£o interior do crist√£o e das obras (MIRANDA, 2016, p. 113-122). No n√≠vel teol√≥gico, coube √† Declara√ß√£o conjunta sobre a doutrina da justifica√ß√£o (1997-1999), no interior do movimento ecum√™nico, esclarecer a intencionalidade de Lutero, em n√£o separar a renova√ß√£o da conduta de vida da realidade interna da f√©, mas sim enfatizar a gratuidade divina (DECLARA√á√ÉO CONJUNTA, 1997-1999, n. 26). Igualmente, esse Documento explicitou que a √™nfase do Conc√≠lio de Trento na renova√ß√£o de vida deve ser sempre compreendida enquanto dependente da gra√ßa de Deus e n√£o como contribui√ß√£o para a justifica√ß√£o (DECLARA√á√ÉO CONJUNTA, 1997-1999, n. 27). A Declara√ß√£o afirma, de maneira contundente, a unidade da a√ß√£o divina, no interior da qual a iniciativa livre de Deus em justificar e salvar n√£o se separa da resposta na f√©: ‚Äúsomente por gra√ßa, na f√© na obra salv√≠fica de Cristo, e n√£o por causa de nosso m√©rito, somos aceitos por Deus e recebemos o Esp√≠rito Santo, que nos renova os cora√ß√Ķes e nos capacita e chama para as boas obras‚ÄĚ (DECLARA√á√ÉO CONJUNTA, 1997-1999, n.15).

Em nossa contemporaneidade, marcada pela meritocracia, mentalidade contratual e preconceitos, pelos quais a valoriza√ß√£o das pessoas se d√° de acordo com o sucesso, fun√ß√£o ou capacidade de devolver algo em troca do recebido, a justifica√ß√£o gratuita de Deus ser√° sempre den√ļncia de ideologias escravizadoras e fonte de liberdade para o amor, especialmente os pobres e abandonados.

5.5 Universalidade e integralidade da vida nova

O dinamismo da vida nova √© um chamado universal (1Tm 2,4) e integrador. Todos os seres humanos, em todas as suas dimens√Ķes e atividades, est√£o sob o dinamismo da gra√ßa, chamados a entrar no dinamismo do Reino que, como foi visto, √© universal e integrador. Esta voca√ß√£o precede toda a√ß√£o livre e independe da cultura ou religi√£o, embora delas necessite para expressar-se como linguagem e como concretiza√ß√£o hist√≥rica. Isto traz como consequ√™ncia que a vida nova n√£o √© para ‚Äúalguns‚ÄĚ. Tamb√©m n√£o √© circunscrita a ‚Äúalguns‚ÄĚ √Ęmbitos da vida. Aqui, ganham for√ßa os temas do ‚Äúexistencial sobrenatural‚ÄĚ, enquanto dom da orienta√ß√£o da vida humana para Deus (K. Rahner), e da no√ß√£o unit√°ria de ser humano, com a necess√°ria supera√ß√£o da teologia dos dois planos (justaposi√ß√£o entre as ordens ‚Äúnatural‚ÄĚ e a ‚Äúsobrenatural‚ÄĚ, H. de Lubac) (MIRANDA, 2016, p. 57). A irradia√ß√£o da vida nova a todos os √Ęmbitos humanos, afetivo, familiar, profissional, cultural, pol√≠tico etc. foi claramente assumida pelo Conc√≠lio Vaticano II (GS n. 34). De fato, o contexto vital ‚Äúamplia o horizonte da gra√ßa e do pecado‚ÄĚ (SEGUNDO, 1977, p. 44) e exige pens√°-la em sentido universal e integrado, uma vez que a resposta pessoal √† gra√ßa n√£o pode ser substitu√≠da pelos contextos c√ļltico e religioso.

5.6 Libertação e liberdade na vida nova

A vida nova √© dinamismo libertador e gerador de liberdade. Paulo fala da a√ß√£o libertadora da gra√ßa como liberta√ß√£o do pecado (Rm 6, 22), da Lei (Rm 7,6) e da morte (Rm 8,2). Em tudo isto, h√° a afirma√ß√£o de que, pela a√ß√£o do Esp√≠rito de Cristo, √© poss√≠vel uma exist√™ncia nova, na f√©, na liberdade e na abertura aos demais. √Č poss√≠vel ser livre para amar (Gl 5,1). A santifica√ß√£o pelo batismo em nada se parece √† santifica√ß√£o ritual vazia, trata-se de uma transforma√ß√£o existencial operada pela f√©, da qual o batismo √© sacramento (MIRANDA, 2016, p. 19-20).

A obra libertadora da graça exige caminhos da concretização desta novidade de vida na prática do amor-serviço concreto, superação de atitudes de omissão e rejeição do poder dominador. A conversão e constituição de uma orientação fundamental ao amor é um processo que dura toda a vida, dinamizado por escolhas concretas e atos de estruturação do mundo que fortalecem a liberdade profunda para o amor e a justiça. Assim, a atuação da graça exige a articulação entre escolhas concretas e formação da liberdade profunda para Deus (MIRANDA, 2016, p. 103). Biblicamente, podemos falar de uma articulação entre a prática (Lc 8,21) e a formação do coração (Mt 6,21).

A orienta√ß√£o profunda para Deus, exercida no n√≠vel macrossocial, que envolve tamb√©m a economia e a pol√≠tica, n√£o se d√° sem a ocorr√™ncia de conflitos, como mostram os conflitos de Jesus na sua forma de tratar a Lei, o juda√≠smo do seu tempo, a riqueza, o contexto sociopol√≠tico. O conflito demonstra as dimens√Ķes testemunhal e martirial da resposta √† gra√ßa, num mundo marcado pelo pecado, das quais n√£o se pode eximir. Como Igreja, a exig√™ncia de ouvir o clamor dos pobres pela justi√ßa ‚Äúderiva da pr√≥pria obra libertadora da gra√ßa em cada um de n√≥s, pelo que n√£o se trata de uma miss√£o reservada apenas a alguns‚ÄĚ (EG n. 188), mas √† comunidade crist√£ como um todo e a todos os homens e mulheres de boa vontade. H√° toda uma realidade social a exigir e esperar a ‚Äúreviravolta‚ÄĚ da gra√ßa atrav√©s da media√ß√£o das escolhas humanas.

5.7 A oração na vida nova

A ora√ß√£o √© parte essencial do processo de acolhida e atua√ß√£o no novo dinamismo do Reino. √Č dom do Esp√≠rito (Rm 8,26; 1Cor 12,3), fonte que suscita, fortalece e integra a vida na gra√ßa. Reveste-se das caracter√≠sticas b√°sicas da ora√ß√£o de Jesus: abertura √† vontade de Deus ‚Äď o Reino; rela√ß√£o dial√≥gica com Deus; inter-rela√ß√£o da ora√ß√£o com os acontecimentos da vida (Mt 6,9-13).

5.8 Regenera√ß√£o das rela√ß√Ķes fundamentais ‚Äď o conte√ļdo da vida nova

Viver √© com-viver. A vida nova √© revestida de um car√°ter din√Ęmico, processual e relacional integral. A salva√ß√£o de Jesus Cristo insere numa nova ordem de rela√ß√Ķes com os outros, com o mundo criado e com Deus: ‚Äúa salva√ß√£o consiste na nossa uni√£o com Cristo, que, com a sua encarna√ß√£o, vida, morte e ressurrei√ß√£o, gerou uma nova ordem de rela√ß√Ķes com o Pai e entre os homens, e nos introduziu nesta ordem gra√ßas ao dom do seu Esp√≠rito‚ÄĚ (CONGREGA√á√ÉO PARA A DOUTRINA DA F√Č, 2018, n. 4). Reveste-se tamb√©m de um car√°ter concreto: ‚Äúa gra√ßa que Cristo nos oferece (…) nos introduz nas rela√ß√Ķes concretas que Ele mesmo viveu (…)‚ÄĚ (n. 12).

No mundo atual, com as crises socioambientais que comprometem a pr√≥pria vida no planeta, a vida nova pode ser explicitada em termos de ‚Äúnovas rela√ß√Ķes‚ÄĚ, intimamente ligadas: interior consigo mesmo, com os outros, com Deus e com a terra (LS n. 66, 70, 237).

A teologia latino-americana, em di√°logo com as ci√™ncias, explicita os caminhos relacionais na vida nova. A rela√ß√£o com Deus, baseada nos desafios da gratuidade; as rela√ß√Ķes inter-humanas que abrangem a solidariedade e o amor-servi√ßo no dom√≠nio sociopol√≠tico local e global, tendo a op√ß√£o preferencial pelos pobres como orienta√ß√£o para o discernimento do bem-comum; a viv√™ncia do encontro inter-humano mediatizado pela sexualidade; os desafios ecol√≥gicos; a rela√ß√£o com a comunidade de f√© e com a religi√£o; a verdadeira rela√ß√£o consigo pr√≥prio (GARCIA RUBIO, 2014 e 2019). Soma-se a tantos desafios a rela√ß√£o intercultural, pois √© ‚Äúa partir das nossas ra√≠zes que nos sentamos √† mesa comum, lugar de di√°logo e de esperan√ßas compartilhadas‚ÄĚ (QA n. 36).

6 A graça como segredo de salvação  

A graça se apresenta como profundidade, excesso, mistério ou segredo de salvação presentes no humano, na história e no cosmo através da presença do próprio Deus, por seu Espírito, nessas realidades, sem confundir-se com elas, mas imprimindo nelas o seu selo libertador. Está aí para ser discernida e acolhida, ou rejeitada.

6.1 Um segredo de salvação presente no humano

A teologia da inabita√ß√£o trinit√°ria aponta para a presen√ßa salv√≠fica de Deus no interior humano, por Cristo, no Esp√≠rito. Ele faz ‚Äúmorada‚ÄĚ (Jo 14,23), ‚Äúpermanece‚ÄĚ, como a videira nos ramos (Jo 15,4 e outros), est√° nos seus (Jo 17,23). S√£o Paulo refere-se ao Esp√≠rito que habita os crist√£os (1Cor 3,16; 6,19; Rm 8,9-11).

Santo Agostinho encontrou Deus no mais √≠ntimo de si ‚Äď interior intimo meo. E lamenta t√™-lo buscado fora: ‚Äú[…] eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!‚ÄĚ (SANTO AGOSTINHO, 1984, p. 277). Testemunhas privilegiadas, os m√≠sticos atestam a experi√™ncia deste mist√©rio. Santa Teresa de √Āvila (s√©culo XVI) experimentou a presen√ßa de Deus trino e uno na profundidade de si mesma; deixou-se conduzir por ele e o percebeu como presen√ßa din√Ęmica, transformante, comunicante e irradiante (PEDROSA-P√ĀDUA, 2015, p. 127 et seq.). Relacionou a presen√ßa trinit√°ria em si √† dignidade da cria√ß√£o √† imagem de Cristo ‚Äď ou seja, presen√ßa universal. Intuiu como o dinamismo da vida trinit√°ria √© comunicado ao humano e a todas as coisas criadas e como h√° intercomunica√ß√£o entre eles. Afirmou que a presen√ßa de Deus, como um sol, permanece em quem est√° em pecado mortal, fazendo com que a pessoa continue sendo capaz de fruir dele sem, contudo, fazer do amor a fonte de suas decis√Ķes e a√ß√Ķes, que se tornam est√©reis; √© a pessoa (n√£o Deus) que se retira do √Ęmbito do amor (SANTA TERESA, 1995, R 54; R 18; 1M2,1). Tudo isso leva a afirmar que a gra√ßa de Deus no interior humano √© din√Ęmica, transformante, comunicante e, em n√≠veis distintos, experiment√°vel. Trata-se da presen√ßa do pr√≥prio Deus, em seu dinamismo trinit√°rio, na pessoa humana.

A gra√ßa √© abundante e desproporcional √† opacidade da maioria das experi√™ncias e respostas humanas. Trata-se de um segredo de salva√ß√£o operado pelo Esp√≠rito. Por ela, afirma-se que ‚Äúum pouco de amor passa pelas nossas vidas‚ÄĚ (SEGUNDO, p. 157) apesar de todo o peso dos determinismos e do ego√≠smo que perpassam grande parte dos projetos humanos e comprometem o contexto em que a liberdade atua. Os escritos do Novo Testamento exortam √† transforma√ß√£o do cora√ß√£o e √† mudan√ßa de vida (Mt 5,20; Mt 19,17; cf. Rm 13,8-10; 1Cor 6,9-10; 1 Jo 2,1; 1Jo 3,13-15); a teologia cl√°ssica, embora de maneira fixista, sempre defendeu a liberdade para amar e a transforma√ß√£o interior (DENZINGER-H√úNERMANN, 2006, n. 1525 e 1528). Concomitantemente, e isso as ci√™ncias modernas confirmam na afirma√ß√£o dos condicionamentos das a√ß√Ķes humanas, as Escrituras e a teologia afirmam que h√° enorme despropor√ß√£o entre o amor e os pecados (Tg 5,20; Pr 10,12; 1 Pd 4,8: ‚Äúo amor cobre multid√£o de pecados‚ÄĚ). A experi√™ncia da superabund√Ęncia da gra√ßa diante da pobreza das respostas levou Santa Teresa a exclamar:¬† ‚ÄúO Senhor doura as culpas, faz com que resplande√ßa uma virtude que Ele mesmo p√Ķe em mim, quase me maltratando para que eu a tenha‚ÄĚ (SANTA TERESA, 1995, Vida 4,10).

Embora os atos de fechamento e ego√≠smo sejam mais frequentes, o amor e o ego√≠smo n√£o possuem a mesma efic√°cia, o que significa que a vit√≥ria da gra√ßa superabundante n√£o consiste na melhoria da propor√ß√£o num√©rica entre atos de amor e de ego√≠smo ‚Äď que tamb√©m pode se dar ‚Äď, mas num ‚Äúprinc√≠pio de excesso‚ÄĚ (GESCH√Č, 2005, p. 8) do amor de Deus, que age no interior das situa√ß√Ķes marcadas pelo pecado. Joio e trigo permanecem juntos na exist√™ncia humana, a revelar, como diz a teologia cl√°ssica, que mesmo no justificado permanece a concupisc√™ncia (DENZINGER-H√úNERMANN, 2006, n.1515) e que, mesmo no maior pecador, permanece o Esp√≠rito (como o sol, na alegoria teresiana citada acima) a suscitar e orientar √† vida nova, como novidade desmedida e imerecida. A gra√ßa transforma e atua, promete um futuro de plenitude (Ef 3,19). Ao mesmo tempo em que permanece a experi√™ncia de que as contas da vida n√£o fecham (RAHNER, 1977, p. 47-53) e de que ‚Äúnem toda obra dos justos s√£o justas‚ÄĚ (BOFF, 1985, p. 169), a f√© crist√£ vive da promessa fiel de que ‚ÄúDeus √© maior que nosso cora√ß√£o‚ÄĚ (1Jo 3,20) e que para ele nada √© imposs√≠vel (Lc 1,37) porque ele mesmo atua no humano, por seu Esp√≠rito, suscitando e abrindo caminhos de resposta em liberdade.

6.2 Um segredo de salvação presente na história e nas culturas

A gra√ßa permeia a hist√≥ria, atua em seu interior, mediada por rela√ß√Ķes, decis√Ķes e estruturas macrossociais: sociopol√≠ticas, econ√īmicas, ambientais e culturais. √Č um segredo de salva√ß√£o que n√£o pode ser detido e √© mais forte que a for√ßa do pecado, tamb√©m nelas presente.

O magist√©rio latino-americano clarificou como o pecado parte do cora√ß√£o humano e imprime uma marca destruidora nas estruturas sociais, econ√īmicas e pol√≠ticas (DPb n. 281). O Papa Francisco assinalou ‚Äúo mal cristalizado nas estruturas sociais injustas‚ÄĚ (EG n. 59). Mas, por sua vez, a gra√ßa suscita a f√© cr√≠tica, capaz de discernir como a pobreza, a viol√™ncia, a humilha√ß√£o, a viola√ß√£o dos direitos humanos, as m√ļltiplas formas de explora√ß√£o do trabalho, o descarte das pessoas humanas e a destrui√ß√£o do meio ambiente n√£o coadunam com o projeto de salva√ß√£o de Deus revelado no acontecimento de gra√ßa, Jesus Cristo.

Se, por um lado, a f√© faz ver a perman√™ncia do mal na pessoa humana e na sociedade, ao mesmo tempo, ela faz experimentar os desejos de liberta√ß√£o e cria√ß√£o de uma sociedade mais fraterna e justa, como gra√ßa que impulsiona a a√ß√£o transformadora. E que faz brotar a atitude humana de combate ao mal, mesmo que vivida no sil√™ncio e na resist√™ncia, ao longo de s√©culos, numa reconvers√£o cont√≠nua do mal e da situa√ß√£o de ‚Äúdes-gra√ßa‚ÄĚ em bem e gra√ßa. Do interior das situa√ß√Ķes de sofrimento e injusti√ßa, brotam caminhos de engrandecimento, um novo momento hist√≥rico e uma humanidade nova. A superabund√Ęncia da gra√ßa sobre o pecado possibilita esta transforma√ß√£o, vivida a partir de dentro das rela√ß√Ķes sociais, comunit√°rias, culturais, embora as media√ß√Ķes estruturais socioecon√īmicas, possibilitadoras da fraternidade e da justi√ßa, nem sempre sejam encontradas. A realidade latino-americana, marcada por s√©culos de explora√ß√£o e opress√£o, especialmente das popula√ß√Ķes origin√°rias e dos africanos escravizados, torna clara a simultaneidade da ‚Äúgra√ßa com a des-gra√ßa‚ÄĚ (BOFF, 1985, p. 107), numa din√Ęmica em que liberta√ß√£o e opress√£o, salva√ß√£o e perdi√ß√£o, joio e trigo se interpenetram. Por√©m, o anseio de liberdade e o processo de liberta√ß√£o mant√™m a dire√ß√£o da esperan√ßa na hist√≥ria, a gra√ßa a suscitar pr√°ticas de solidariedade e comunh√£o, reconcilia√ß√£o e justi√ßa, nova consci√™ncia socioambiental e profetas de um mundo novo. Nos diversos povos e culturas, ‚Äúo Esp√≠rito suscita […] diferentes formas de sabedoria pr√°tica que ajudam a suportar as car√™ncias da vida e a viver com mais paz e harmonia‚ÄĚ (EG n. 254). A gra√ßa permeia a hist√≥ria dos povos, com suas culturas e religi√Ķes, em seus diferentes itiner√°rios. Assim, apesar de toda ambiguidade presente nas express√Ķes culturais e nas religi√Ķes, carentes de reforma constante, elas celebram e comunicam a gra√ßa divina.

6.3 Um segredo de salvação presente no cosmo

A profundidade salvadora da gra√ßa encontra-se tamb√©m no cosmo. A f√© crist√£ afirma que Deus √© criador e que tudo √© criado por, em e para Cristo, ‚Äútudo foi criado por ele e para ele […] ele existe antes de tudo; tudo nele se mant√©m‚ÄĚ (Cl 1,16-17), por ele tudo existe (1Cor 8,6) e nele tudo √© reconciliado (Cl 1,20). Esta cria√ß√£o apresenta caracter√≠sticas importantes: √© aberta ao desenvolvimento por si mesma, segundo autonomia e autoinven√ß√£o pr√≥prias (Gn 1,12.18); √© instaurada segundo um princ√≠pio de sabedoria e bondade, n√£o destru√≠do ou corrompido pelo pecado humano; implica o envolvimento do pr√≥prio Deus no ato criador, a partir de dentro, pois a media√ß√£o trinit√°ria vem do interior mesmo de Deus ‚Äď a media√ß√£o √© do Filho, Jesus Cristo, e esta n√£o se separa da presen√ßa e atua√ß√£o do Esp√≠rito (GARCIA RUBIO, 2012, p. 38; 2014, p. 193, 269). Como consequ√™ncia, h√° a afirma√ß√£o de que o cosmo, sem ser Deus, n√£o deixa de estar nele ‚Äď tudo nele se mant√©m (Cl 1,17) ‚Äď e de ser morada do Logos (Jo 1,10) que o marca com o selo trinit√°rio da diversidade e do dinamismo criador vivo. A Laudato Si‚Äô (n. 88) nos diz que a natureza n√£o apenas manifesta Deus, mas √© lugar de sua presen√ßa, em cada criatura habita o Esp√≠rito Santo, que chama a um relacionamento com ele; ao mesmo tempo, Deus se distancia infinitamente da criatura, que n√£o possui a plenitude de Deus e n√£o pode doar essa plenitude.

Esta profundidade e din√Ęmica pr√≥prias do cosmo fazem dele (e, com ele, a natureza, o planeta, a mat√©ria, a terra, o corpo) o espa√ßo de todas as criaturas, casa, lugar teologalmente enraizado, a dizer que todos t√™m direito a um lugar no mundo. Constitui um dom aberto a uma ‚Äúracionalidade de vida‚ÄĚ (GESCH√Č, 2004a, p. 167), ou seja, √† experi√™ncia de recep√ß√£o, passividade, acolhimento, sensa√ß√£o, contempla√ß√£o, ternura, sentimento, compaix√£o e perd√£o ‚Äď que o pr√≥prio Verbo encarnado experimentou ‚Äď a demonstrar como o estatuto do logos divino n√£o √© apenas a da ratio, √© logos de vida, ‚ÄúNele estava a vida, e a vida era a luz dos homens‚ÄĚ (Jo 1,4). O cosmo √© tamb√©m lugar das potencialidades a serem defendidas e desenvolvidas, pois √© cosmo destinado √† comunh√£o divina e √† espera da ressurrei√ß√£o (cf. Rm 8,22). Assim, a gra√ßa divina conta com a natureza (na teologia cl√°ssica, ‚Äúaperfei√ßoa a natureza‚ÄĚ) para levar adiante seu projeto libertador. A natureza √© capaz da a√ß√£o divina em suas estruturas fundamentais. A estrutura corp√≥rea e material √© capaz de ressurrei√ß√£o; a temporal (chronos), capaz de receber o tempo da salva√ß√£o (kair√≥s) e desenvolver-se em eternidade (aion).

√Č num peda√ßo de mat√©ria que, sacramentalmente, Deus chega aos homens e mulheres ‚Äď na eucaristia. Para que o possamos encontrar ‚Äúno nosso pr√≥prio mundo‚ÄĚ (LS n. 236). ¬†Trata-se de um ato de amor c√≥smico, a inspirar e suscitar o cuidado com toda a cria√ß√£o.

A resposta humana na rela√ß√£o com o cosmo, marcada atualmente pela crise socioambiental e destrui√ß√£o das condi√ß√Ķes de vida na terra, conta com a gra√ßa, que, por amor, n√£o se separa do cosmo, mas o permeia. √Č amor desproporcional de Deus, que ‚Äúse uniu definitivamente √† nossa terra‚ÄĚ e que ‚Äúsempre nos leva a encontrar novos caminhos‚ÄĚ (LS n. 245), para exercer a administra√ß√£o respons√°vel da terra e, ao mesmo tempo, receb√™-la e celebr√°-la como gra√ßa.

7 Dinamismos da graça: encarnatório-kenótico, trinitário e sacramental

Pela abordagem realizada, é possível nomear alguns dinamismos da graça: encarnatório, kenótico, trinitário e sacramental.  

7.1 Dinamismo encarnatório e kenótico

O primeiro √© o dinamismo encarnat√≥rio da gra√ßa, pelo qual dizemos que Deus age no interior do cosmo, do humano e suas realidades hist√≥ricas e culturais, e n√£o a partir de fora e de longe. J√° presente na cria√ß√£o, atinge seu auge na ‚Äúplenitude dos tempos‚ÄĚ (Gl 4,4) com a encarna√ß√£o do Verbo de Deus em Jesus, nascido de Maria, anunciador e realizador do Reino de Deus. De dentro da realidade, no cora√ß√£o do mundo, o acontecimento da gra√ßa que √© Jesus Cristo, com sua vida, morte e ressurrei√ß√£o, manifesta o seu dinamismo irrevers√≠vel de vida e amor. Pelo Esp√≠rito de Cristo, atua no interior das realidades concretas, mesmo marcadas pelo pecado e pela morte. √Č a√ß√£o criadora, recriadora, redentora, reconciliadora, libertadora, reconstrutora de rela√ß√Ķes e instauradora de um mundo novo. Revela Deus em seu amor din√Ęmico e criativo, livre e transformante, comunicante e irradiador. Ao mesmo tempo, essa a√ß√£o interpela os seguidores de Jesus ao mesmo dinamismo.

Com seu dinamismo encarnat√≥rio, a gra√ßa chega a cada um pelo mesmo movimento: a partir de dentro da acolhida na f√© que age pelo amor (Gl 5,6), de uma orienta√ß√£o profunda para Deus, para a din√Ęmica do Reino, para o amor concreto, que inclui a pr√°tica da justi√ßa. Como consequ√™ncia, encontra-se a necess√°ria media√ß√£o humana na a√ß√£o da gra√ßa de Deus que chega a cada um, de tal forma que ‚Äúa a√ß√£o divina passa necessariamente pelo ser humano para nos atingir como salva√ß√£o‚ÄĚ (MIRANDA, 2016, p. 138). Passa pela orienta√ß√£o da vida pessoal e comunit√°rio-eclesial e por imprimir uma dire√ß√£o de amor, justi√ßa e paz nas media√ß√Ķes estruturais econ√īmicas, pol√≠ticas e socioambientais. Passa pelas objetiva√ß√Ķes simb√≥licas e culturais. E remete sempre para dentro da hist√≥ria, o que implica, tamb√©m, consci√™ncia da inser√ß√£o no cosmo criado pelo amor de Deus e compromisso com a ‚Äúcasa comum‚ÄĚ (Laudato Si‚Äô).

Relacionado ao dinamismo de encarna√ß√£o, encontramos o movimento ken√≥tico manifestado na vida, morte e ressurrei√ß√£o de Cristo (Fl 2,6-8), que qualifica o sentido e a dire√ß√£o da encarna√ß√£o: esvaziamento da gl√≥ria pessoal, despojamento, rebaixamento, amor efetivo e servidor. Gerador de respostas humanas que agraciam o mundo pela mesma resposta ken√≥tica de n√£o domina√ß√£o, identifica√ß√£o com os √ļltimos, amor e justi√ßa.

7.2 Dinamismo trinit√°rio

O dinamismo trinitário nos mostra que a graça de Deus não se separa de Deus mesmo! Na ordem da criação, unida à salvação, Deus, pelo Espírito de Cristo, não se confunde com a criatura nem dela se separa, pois a mediação da criação vem do interior de Deus, do próprio Filho (Cl 1,16-17). Ele mesmo se faz presente na criação e na história, ambos acontecimentos do amor de Deus. Ontem como hoje, a graça significa aproximação, envolvimento interno, compromisso, comunhão e comunicação divinos com os seres humanos e com tudo o que é criado. A própria vida é graça, traz a presença do logos divino de vida, luz dos homens e mulheres (Jo 1,4), que conduz à vida (Jo 10,10) e se faz carne no acontecimento da encarnação.

Ao mesmo tempo, a resposta humana √† gra√ßa √© possibilitada pelo pr√≥prio Deus que, em Cristo e pelo Esp√≠rito, habita o cora√ß√£o humano, suscita abertura e resposta na f√© e em amor concreto na hist√≥ria, em todas as suas rela√ß√Ķes.

Isto significa que o humano conta, em suas vidas t√£o exigidas e amb√≠guas, com o pr√≥prio Deus em si mesmo, que deseja e designa liberta√ß√£o e liberdade, acompanha os processos da resposta ‚Äď sempre desproporcional ao dom recebido ‚Äď e consiste, ele mesmo, Deus, na plenitude feliz simbolizada na Jerusal√©m celeste, em que ‚Äúo templo √© o Senhor‚ÄĚ, ‚Äún√£o haver√° mais noite‚ÄĚ e n√£o ser√° mais necess√°rio o sol, porque Deus ‚Äúinfundir√° sobre eles a sua luz‚ÄĚ (Ap 21,22.25; 22,5).

7.3 Dinamismo sacramental

Os dinamismos trinit√°rio e encarnat√≥rio-ken√≥tico da gra√ßa se unem ao dinamismo sacramental, que tende a formar comunh√£o e comunidade concreta. Tende a fazer-se carne nas culturas e nas religi√Ķes, em diversidade de itiner√°rios e estruturas. As religi√Ķes s√£o convocadas, pelo dinamismo interno a elas, dado pelo pr√≥prio Esp√≠rito, a tornarem sens√≠vel e concreto o dom maior do amor (Rm 5,5), nos diferentes contextos culturais, em ‚Äúdiversidade de experi√™ncias salv√≠ficas‚ÄĚ (MIRANDA, 2016, p. 211). Nas religi√Ķes, est√° e atua o Esp√≠rito de Deus a orientar √† plenitude da salva√ß√£o, que a f√© crist√£ v√™ realizada, de forma definitiva, em Jesus Cristo (LG n. 16; GS n. 22).

Pelo dinamismo sacramental, a gra√ßa ‚Äútende a produzir sinais, ritos, express√Ķes sagradas que, por sua vez, envolvem outros na experi√™ncia comunit√°ria do caminho para Deus‚ÄĚ (EG n. 254). Faz das religi√Ķes espa√ßos de supera√ß√£o da exist√™ncia individualista e de rompimento do c√≠rculo asfixiante da iman√™ncia, orientando √† esperan√ßa.

 Assim sendo, é possível dizer que a religião é lugar de celebração e comunicação da graça, não de forma automática ou exterior, mas comunitária e interior, em fidelidade à própria presença comunicativa e irradiadora de Deus, que convoca a comunidade a se abrir à novidade do Espírito, responder aos seus apelos na fé, na esperança e no amor e celebrá-lo de forma sensível.

De forma expl√≠cita e tem√°tica, a Igreja, comunidade de f√© em Jesus Cristo, v√™-se enraizada nas fontes trinit√°rias, habitada pelo Esp√≠rito, chamada a ser sacramento ou sinal e instrumento da gra√ßa (LG n. 1), germe ou princ√≠pio do Reino de Deus na terra (LG n. 4). Ela encontra-se a servi√ßo da encarna√ß√£o do amor de Deus na humanidade e no mundo. Na eucaristia, o mist√©rio da encarna√ß√£o se radicaliza. O pr√≥prio Deus, feito homem, ‚Äúchega ao ponto de fazer-se comer pela sua criatura‚ÄĚ (LS n. 236). O Senhor quer chegar ao √≠ntimo do crist√£o, sacramentalmente ‚Äď pois ele l√° j√° est√° ‚Äď, conform√°-lo em si, para reenvi√°-lo √†s suas realidades como mediador do amor de Deus em suas op√ß√Ķes, sensibilidade hist√≥rica e social, enfim em sua vida para os demais.

Conclus√£o

A graça exprime todos os aspectos da salvação divina, revelada na encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Aqui, partindo da experiência antropológica (ponto 1) e da reflexão bíblica (pontos 2 e 3), foram privilegiados os seguintes aspectos: o caráter de acontecimento histórico da graça oferecida (ponto 4); o dinamismo integral e relacional da acolhida da graça na vida nova (ponto 5); a presença da graça na estruturação central de tudo que existe e acontece e na esperança de plenitude (ponto 6); os dinamismos internos da graça: encarnatório, kenótico, trinitário e sacramental (ponto 7).

L√ļcia Pedrosa-P√°dua . PUC-Rio. Texto original em portugu√™s. Recebido: 29/08/2020. Aprovado:¬† 24/05/2021. Publicado: 23/12/2021.

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