Santa Teresa de Jesus  

Sum√°rio

Pre√Ęmbulo

1 Contexto e biografia de Santa Teresa de Jesus

1.1 Vida em família: 1515-1535

1.2 Carmelita no mosteiro da Encarnação: 1535-1562

1.3 Escritora e fundadora do novo Carmelo: 1562-1582

2 Obras de Santa Teresa de Jesus

2.1 Livro da Vida

2.2. Caminho de Perfeição

2.3 Castelo Interior ou Moradas

2.4 Funda√ß√Ķes, Cartas e escritos menores

3 Eixos principais da mística teresiana

3.1 A oração como amizade

3.2 O recolhimento

3.3 A centralidade da ‚Äúsagrada humanidade‚ÄĚ de Cristo

3.4 A presença de Deus na pessoa humana

3.5 Mística e amor concreto 

4 Santa Teresa e os pobres

Conclus√£o

Referências

Pre√Ęmbulo

Santa Teresa de Jesus, ou Santa Teresa de √Āvila, carmelita espanhola, √© uma das grandes figuras da Igreja e da m√≠stica crist√£ do Ocidente. Destaca-se pela experi√™ncia intensa e humanizadora do amor de Deus, fonte de uma vida e obra que se tornaram luz e sabedoria das coisas divinas e das coisas humanas. Mulher atuante no seu tempo hist√≥rico, empenhou-se na reforma do Carmelo e na funda√ß√£o dos Carmelitas Descal√ßos. Prop√īs um estilo de vida crist√£ simples, comprometido e orante, baseado na amizade com Deus. Escreveu obras liter√°rias de g√™neros diversos, tanto doutrinais quanto autobiogr√°ficas, hist√≥ricas, legislativas e po√©ticas, al√©m de um espetacular epistol√°rio. Sua influ√™ncia irradia para al√©m do √Ęmbito do cristianismo ocidental. Em 1970, o papa Paulo VI conferiu-lhe o t√≠tulo de Doutora da Igreja. Foi a primeira mulher a ter recebido este t√≠tulo.

A seguir serão tratados os temas: contexto e biografia de Santa Teresa de Jesus; suas obras; os principais eixos da mística teresiana; e Santa Teresa de Jesus e os pobres.

1 Contexto e biografia de Santa Teresa de Jesus

O s√©culo XVI espanhol √© considerado o ‚Äús√©culo de ouro‚ÄĚ. D√°-se a inser√ß√£o da Espanha unificada na Europa, expans√£o atrav√©s da conquista da Am√©rica ‚Äď √ćndias ‚Äď, guerras vencidas e manifesta√ß√Ķes culturais extraordin√°rias, especialmente de car√°ter filos√≥fico e liter√°rio. Poder pol√≠tico e econ√īmico. Mas, como toda realidade, √© um s√©culo de luzes e sombras, com persegui√ß√Ķes inquisitoriais, conflitos entre correntes de espiritualidades, quebra da cristandade conhecida, guerras de religi√£o. Para Santa Teresa, com sua lucidez esperan√ßada, eram tempos recios, dif√≠ceis. Os males na Igreja a levam a dizer que ‚Äúo mundo est√° sendo tomado pelo fogo‚ÄĚ (SANTA TERESA, C 1,5, 1995, p.303)[1]; ela denuncia a situa√ß√£o social e eclesial das mulheres como de submiss√£o, desqualifica√ß√£o e ‚Äúencurralamento‚ÄĚ (SANTA TERESA, CE 4,1, 1994, p.531); tece cr√≠ticas ao sistema de poder estruturado sobre o dinheiro e a honra (SANTA TERESA, V 20,26, 1995, p.135). Afirma que, naqueles tempos, ‚Äús√£o necess√°rios amigos fortes de Deus para sustentar os fracos‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 15,5, 1995, p.99). Abertura cr√≠tica √† realidade, ora√ß√£o e a√ß√£o corajosa a caracterizam (PEDROSA-P√ĀDUA, 2011a, p.114).

A primeira bi√≥grafa de Santa Teresa √© ela mesma. Aos 50 anos de idade, escrever√° sua autobiografia, o Livro da Vida, complementada por seu livro Funda√ß√Ķes, conclu√≠do meses antes de sua morte, aos 67 anos. Tamb√©m as Cartas fornecem dados autobiogr√°ficos de Teresa. Al√©m disso, a autora realiza interpreta√ß√Ķes e releituras do que ela viveu (ALVAREZ, 2000a, p.188). Tudo isso, aliado a outros registros hist√≥ricos, faz com que se tenha dados abundantes sobre a vida dessa santa, tanto de sua biografia exterior quanto de sua hist√≥ria interior de ora√ß√£o e rela√ß√£o com Deus.

√Č poss√≠vel organizar cronologicamente os principais acontecimentos da vida de Santa Teresa (ALVAREZ, 2000b, p.1302-1326) em tr√™s per√≠odos:

1¬ļ Vida de Teresa em fam√≠lia: 1515-1535;

2¬ļ Carmelita no convento da Encarna√ß√£o: 1535-1562;

3¬ļ Escritora e fundadora do novo Carmelo: 1562-1582.

1.1 Vida em família: 1515-1535

Teresa de Ahumada nasceu em √Āvila (Espanha) no dia 28 de mar√ßo de 1515, filha de D. Alonso S√°nchez de Cepeda com sua segunda esposa, D. Beatriz de Ahumada. Foi batizada no dia 4 de abril. Viveu em fam√≠lia numerosa. Eram dois irm√£os do primeiro casamento de seu pai e nove (?) do segundo casamento. Seus pais s√£o descritos por ela como ‚Äúvirtuosos e tementes a Deus‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 1,1, 1995, p.27).

No Livro da Vida, Teresa nos narra que foi despertada pela leitura ‚Äúcom a idade de seis ou sete anos‚ÄĚ (V 1,1, p. 27) e lia a vida dos santos, com seu irm√£o ‚Äď Rodrigo, poucos anos mais velho. Com ele, decide fugir de casa para a ‚Äúterra dos mouros‚ÄĚ, com o intuito de morrerem m√°rtires e experimentarem a gl√≥ria eterna do c√©u. Gostavam de repetir juntos: ‚Äúpara sempre, sempre, sempre!‚ÄĚ (V 1,4, p.28). Mais tarde, ao relembrar estes acontecimentos, Teresa identificar√° a presen√ßa de Deus a conduzi-la: ‚Äúficava impresso em mim, em t√£o tenra idade, o caminho da verdade‚ÄĚ (V 1,4, p.28).

Adolescente, lia livros de cavalaria com sua m√£e e deixava-se absorver por essa leitura (SANTA TERESA, V 2,1, 1995, p.30). A morte de D. Beatriz foi um duro baque. Teresa contava treze anos (embora, num lapso de mem√≥ria, escreva que tinha doze) e, ao perceber ‚Äúo que havia perdido‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 1,7, 1995, p.29), escolhe para si ‚Äúoutra m√£e‚ÄĚ (SCIADINI, 2015, p.29). Dirige-se a uma imagem de Nossa Senhora, N. Sra. da Caridade, e lhe suplica que fosse ela a sua m√£e. Aos 16 anos, ap√≥s alguns acontecimentos familiares, em que entram em cena uma parenta de car√°ter duvidoso, mas da qual Teresa passa a gostar para conversas e entretenimentos, e um incipiente amor que poderia ‚Äúresultar em casamento‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 2,9, 1995, p.33), seu pai decide intern√°-la no col√©gio das freiras agostinianas. Ali, pouco a pouco, a voca√ß√£o religiosa de Teresa amadurece (SANTA TERESA, V 3,2, 1995, p.34).

Com 18 anos Teresa decide entrar como carmelita no mosteiro da Encarna√ß√£o, mas, ao diz√™-lo a seu pai, recebe forte oposi√ß√£o. Decide esperar um pouco, por√©m, sem mudar de ideia. No mesmo ano em que seu irm√£o Rodrigo, grande amigo desde a inf√Ęncia, parte para a Am√©rica, Teresa leva adiante o seu prop√≥sito ‚Äď sai de casa tamb√©m ela, ‚Äúbem de manh√£‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 4,1, 1995, p.37), sem o conhecimento do pai, e entra para a Encarna√ß√£o. Tinha ent√£o 20 anos.

1.2 Carmelita no mosteiro da Encarnação: 1535-1562

Foi na Encarnação, mosteiro da Ordem Carmelita que chegou a ter quase 200 pessoas, que Santa Teresa passou 27 anos, a maior parte de sua vida, dos 20 aos 47 anos de idade. Ali recebeu sua formação como religiosa, sofreu anos de enfermidade e viveu um processo espiritual de lutas e amadurecimento, não isento de incoerências e mediocridade. Ali iniciou a vida mística intensa, com graças extraordinárias e projetou a fundação de um novo Carmelo. Mais tarde, voltará à Encarnação como priora.

Alguns acontecimentos s√£o ressaltados por ela mesma. Contrai grave doen√ßa (com cerca de 23 anos), cujo processo de cura levar√° quase cinco anos. No momento mais grave, ap√≥s um tratamento doloroso com uma curandeira nas proximidades de √Āvila, chegam a lhe abrir uma sepultura no convento da Encarna√ß√£o. Teresa nos narra como, por√©m, as irm√£s ‚Äúreceberam viva quem esperavam morta; o corpo, no entanto, estava pior do que morto‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 6,2, 1995, p.47). A partir da√≠ lhe sobrev√©m grande fraqueza, da qual vai melhorando aos poucos, mas fica ‚Äúparal√≠tica por quase tr√™s anos‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 6,2, 1995, p.47). Neste tempo, desenvolve grande devo√ß√£o a S√£o Jos√© e sente-se curada gra√ßas a ele (SANTA TERESA, V 7,8, 1995, p.50).

A morte do pai lhe sobrevém logo depois, ao final de 1543. D. Alonso morre assistido por Teresa (SANTA TERESA, V 7,16, 1995, p.58).

Segue-se um processo tumultuado na ora√ß√£o e nas buscas por realiza√ß√£o, em que Teresa se v√™ singrando ‚Äúum mar tempestuoso, caindo e levantando‚ÄĚ (SANTA TERESA V 8,2, 1995, p.62). A ora√ß√£o convive com incoer√™ncias pessoais e o ambiente na Encarna√ß√£o n√£o propicia ajuda consistente e solid√°ria para viver as dificuldades espirituais e existenciais.

Na quaresma de 1554, aos 39 anos, Teresa vive uma convers√£o diante de um ‚ÄúCristo com grandes chagas‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 9,1, 1995, p.66), fato que a fortalece por dentro. Inicia-se novo per√≠odo de vida, com coer√™ncia √©tica e gra√ßas m√≠sticas. Experimenta grande sentimento da presen√ßa de Deus em si mesma e da presen√ßa dela, Teresa, em Deus: ‚Äún√£o podia duvidar de que o Senhor estivesse dentro de mim ou que eu estivesse toda mergulhada nele‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 10,1, 1995, p.70). Locu√ß√Ķes internas, √™xtases, vis√Ķes se sucedem. A ‚Äúgra√ßa do dardo‚ÄĚ, conhecida como transverbera√ß√£o do cora√ß√£o, concede a ela especial experi√™ncia do amor de Deus (SANTA TERESA, V 29,13, 1995, p.194). No processo de discernimento das experi√™ncias, Teresa sempre dialoga com te√≥logos e pessoas experientes na ora√ß√£o, de v√°rias ordens religiosas.

As graças místicas acontecem concomitantemente ao nascimento do projeto de fundação de um novo mosteiro, cuja gênese se dá num pequeno grupo de amigas e familiares (SANTA TERESA, V 32,10, 1995, p.217). Teresa vai, firme e decididamente, dando corpo a esse projeto.

Deste tempo √© tamb√©m a reda√ß√£o dos primeiros escritos teresianos: as primeiras Rela√ß√Ķes e a primeira reda√ß√£o do Livro da Vida, hoje perdida.

1.3 Escritora e fundadora do novo Carmelo: 1562-1582

Este per√≠odo compreende os √ļltimos 20 anos da vida de Teresa, dos 47 anos de idade at√© sua morte, aos 67 anos, em sua √ļltima viagem. √Č o tempo da maturidade humana e espiritual de Santa Teresa, em que ela exerce intensa atividade como escritora e empreende a funda√ß√£o dos Carmelitas Descal√ßos. Tudo o que hoje temos da Santa de √Āvila ‚Äď funda√ß√Ķes e obras ‚Äď foi realizado neste per√≠odo. Ao fundar o novo Carmelo, adota o nome Teresa de Jesus.

Teresa de Jesus funda dezessete mosteiros, quinze deles pessoalmente: S√£o Jos√© de √Āvila (1562), onde Teresa permanece cinco anos, ‚Äúos anos mais calmos da minha vida‚ÄĚ (SANTA TERESA, F 1,1, 1995, p. 597); Medina del Campo (1567); Malag√≥n (1568); Valladolid (1568); Toledo (1569); Pastrana (1569); Salamanca (1570); Alba de Tormes (1571); Segovia (1574); Beas (1575); Sevilla (1575); Villanueva de la Jara (1580); Palencia (1580); Soria (1581); Burgos (1582). Outorga a Ana de Santo Alberto a funda√ß√£o em Caravaca (1576) e, a Ana de Jesus, em Granada (1582). Sonha fundar em Madri, projeto n√£o realizado em vida.

A decis√£o de fundar inclui tamb√©m mosteiros masculinos ‚Äď ‚Äúeu n√£o parava de pensar nos mosteiros dos frades (…). Resolvi ent√£o tratar do caso sigilosamente com o prior de Medina‚ÄĚ (SANTA TERESA, F 3,16, 1995, p.609). Para isso, associa S√£o Jo√£o da Cruz √† sua obra.

Cada funda√ß√£o √© envolta em intrincada rede de decis√Ķes, provid√™ncias e circunst√Ęncias. Envolve autoriza√ß√Ķes eclesi√°sticas, problemas jurisdicionais, contatos com a popula√ß√£o civil, compras e reformas de casas, aquisi√ß√£o de objetos de culto e mobili√°rios. H√° dificuldade de transporte nas viagens, condi√ß√Ķes clim√°ticas adversas, rela√ß√Ķes humanas facilitadoras, conflitos comunit√°rios ‚Äď para exemplificar alguns dos desafios encontrados pela fundadora. Grande parte desta grande empreitada est√° registrada no Livro da Vida (funda√ß√£o do Carmelo de S√£o Jos√©) e, particularmente, em Funda√ß√Ķes. Escrita sempre com vida, gra√ßa e riqueza de detalhes. Em sua atividade fundadora, Teresa ‚Äúpercorre os caminhos de Castela, La Mancha e Andaluzia. Associa Frei Jo√£o da Cruz √† sua obra. Amplia sua rede de rela√ß√Ķes humanas nos diversos estratos da vida social. (…) Enfrenta corajosamente situa√ß√Ķes conflitivas‚ÄĚ (ALVAREZ, 2000b, p.1310). A vida de Teresa de Jesus se desdobra em miss√£o.

Concomitantemente à atividade fundadora, Teresa de Jesus redige seus livros e cartas (vide abaixo).

No retorno de sua √ļltima funda√ß√£o, Burgos, em dire√ß√£o a √Āvila, √© obrigada a passar por Alba de Tormes. Em sua √ļltima eucaristia exclama: ‚Äú√© chegada a hora, esposo meu, de que nos vejamos‚ÄĚ (ALVAREZ, 2000b, p.1325). ¬†Ali morre, no Carmelo de Alba, no dia 4 de outubro de 1582, aos 67 anos. Segundo a reforma gregoriana do calend√°rio, o dia seguinte √© 15 de outubro ‚Äď dia em que a Igreja celebra a grande Santa.

Em 24 de abril de 1614, Teresa de Jesus é beatificada pelo papa Paulo V; em 12 de março de 1622, canonizada na Basílica de São Pedro, em Roma, pelo papa Gregório XV.

Em 27 de setembro de 1970, o papa Paulo VI proclama Santa Teresa de Jesus Doutora da Igreja (PAULUS PP VI, 1970).

2 Obras de Santa Teresa de Jesus

Teresa √© verdadeira escritora. Possuiu bagagem teol√≥gica e liter√°ria adquiridas por leituras, liturgias e di√°logos frequentes com te√≥logos. Ela mesma escreve que, na adolesc√™ncia, ‚Äúse n√£o tivesse um livro novo, em mais nada encontrava contentamento‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 2,1, 1995, p.30). A isso se soma sua observa√ß√£o sens√≠vel do cotidiano, da vida, das pessoas e da natureza. √Č escritora com forte estilo pessoal e pluralidade de g√™neros, segundo o contexto concreto das reda√ß√Ķes. Grande parte de seu √™xito editorial deve-se √† persuas√£o de sua linguagem, rica em beleza e eleg√Ęncia, criativa em s√≠mbolos, estimulante sem ser moralista e fina em bom humor.

Mas √© a experi√™ncia de Deus que determina a urg√™ncia prof√©tica da sua escrita, suas inspira√ß√Ķes mais profundas, o discernimento dos conte√ļdos e a linguagem m√≠stica, sempre aqu√©m da realidade sobrenatural experimentada, em si mesma inef√°vel (PEDROSA-P√ĀDUA, 2011b, p.33-34). A a√ß√£o da gra√ßa na interioridade humana, nas rela√ß√Ķes e no cosmos ‚Äď isto √© o que Santa Teresa tenta comunicar. Ela √© profeta dos ‚Äúsegredos de Deus‚ÄĚ (SANTA TERESA, 5M 1,4, 1995, p.489).

A seguir, s√£o apresentadas suas principais obras.

2.1 Livro da Vida

O Livro da Vida √© o primeiro grande livro de Santa Teresa, escrito provavelmente em 1565, tendo a autora 50 anos de idade e estando no Mosteiro de S√£o Jos√©. H√° informa√ß√Ķes sobre uma reda√ß√£o anterior, que n√£o chegou a n√≥s. √Č escrito em primeira pessoa, rico em dados autobiogr√°ficos e, por isso, tamb√©m conhecido como sua autobiografia. Nele, narra o processo de sua vida m√≠stica e o come√ßo de sua atividade fundadora.

Trata-se de uma autobiografia pouco convencional, em que o objetivo de Teresa de Jesus n√£o √© propriamente narrar sua vida. Sequer s√£o mencionados os nomes dos seus pais e irm√£os. S√£o exce√ß√Ķes, referidas explicitamente, S√£o Francisco de Borja ‚Äď jesu√≠ta, citado como ‚ÄúPadre Francisco, que era duque de Gandia‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 24,3, 1995, p.157) e S√£o Pedro de Alc√Ęntara ‚Äď franciscano, referido como ‚Äúsanto homem de grande esp√≠rito, Frei Pedro de Alc√Ęntara‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 27,3, 1995, p.173), com os quais Teresa se encontrou pessoalmente; no Pr√≥logo, cita S√£o Jo√£o de √Āvila, como o ‚ÄúPadre Mestre √Āvila‚ÄĚ (SANTA TERESA, 1995, p.291).

O objetivo principal de Santa Teresa ao escrever o livro √© narrar a hist√≥ria de seu encontro com Deus pela ora√ß√£o e os dinamismos que esse encontro provoca. Trata-se do relato de sua vida enquanto hist√≥ria pessoal de salva√ß√£o e envio em miss√£o. Este √© o cerne da exist√™ncia e da obra teresiana. O encontro com Deus se d√° como uma aventura que se inicia na inf√Ęncia, atravessa a adolesc√™ncia e passa √† vida adulta, com buscas, desencontros, anos em luta pela coer√™ncia entre ora√ß√£o e vida, momentos dram√°ticos de discernimento, entrada na vida m√≠stica intensa e profunda, com experi√™ncias sobrenaturais purificadoras ‚Äď locu√ß√Ķes, √™xtases, vis√Ķes, a transverbera√ß√£o do cora√ß√£o e o encontro com a humanidade de Cristo, ‚Äúlivro vivo‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 26,5, 1995, p.171). Trata-se de um encontro dinamizador de seu pr√≥prio ser mulher e de seu envio na miss√£o escritora e fundadora.

Em meio à narrativa de sua vida, a autora discorre alguns temas doutrinais, sendo os mais importantes: os graus da oração, em que Teresa utiliza o símbolo da alma como um jardim e da oração como forma de regá-lo (capítulos 11 a 21); a centralidade da sagrada humanidade de Cristo em todos os graus da vida mística (capítulo 22).

2.2. Caminho de Perfeição

Caminho de Perfei√ß√£o foi redigido duas vezes. Ambas as reda√ß√Ķes s√£o conservadas e sua leitura √© acess√≠vel ao leitor contempor√Ęneo. A primeira, o c√≥dice de El Escorial, encontra-se na Biblioteca do Real Monast√©rio de El Escorial. Trata-se de um livro mais espont√Ęneo, com linguagem familiar. O primeiro leitor censurou o aut√≥grafo teresiano com cerca de 50 rasuras ou observa√ß√Ķes. Teresa preferiu reescrever o livro, ao inv√©s de simplesmente acertar a primeira reda√ß√£o (MAROTO, 1978, p.269-310). Assim temos o c√≥dice de Valladolid, conservado nas Carmelitas Descal√ßas na cidade de Valladolid. Trata-se de uma reda√ß√£o mais cuidada, pensada para um p√ļblico maior. A reda√ß√£o das duas vers√Ķes foi feita, provavelmente, no ano de 1566, estando Teresa de Jesus no mosteiro de S√£o Jos√©.

O livro √© escrito em perspectiva pedag√≥gica e endere√ßado √†quelas e √†queles que se determinam a levar uma vida de ora√ß√£o. Neste livro ecoam as vicissitudes da Reforma e o sentido militante e eclesial do novo Carmelo: ‚ÄúDecidi-me ent√£o a fazer o pouco que posso (…) ajudar√≠amos no que pud√©ssemos a esse Senhor meu‚ÄĚ (SANTA TERESA, C 1,2, 1995, p.302). Com rela√ß√£o √†s mulheres, Caminho denuncia a situa√ß√£o subordinada em que se encontravam e tra√ßa forte defesa teol√≥gica da sua dignidade (SANTA TERESA, CE 4,1, 1994, p.531).

Alguns temas doutrinais merecem destaque: os pressupostos existenciais e éticos para ser uma pessoa de oração: uma vida pautada pelo amor, pelo desapego e pela humildade (capítulos 4 a 15); a defesa da oração de recolhimento e vários conselhos para colocar-se no caminho dessa oração (capítulos 19 a 26); o comentário à oração do Pai Nosso (capítulos 27 a 42).

2.3 Castelo Interior ou Moradas

Castelo Interior √© o livro da maturidade humana e espiritual de Teresa de Jesus e completa a trilogia doutrinal da Santa: Livro da Vida, Caminho de Perfei√ß√£o, Castelo Interior ou Moradas. √Č tamb√©m um livro s√≠ntese de suas grandes convic√ß√Ķes. Foi escrito em 1577, quando a autora contava 62 anos.

O t√≠tulo j√° cont√©m a natureza, autora e destinat√°rias do livro. Tudo de pr√≥prio punho: ‚ÄúEste tratado, chamado Castelo Interior, foi escrito por Teresa de Jesus, monja de Nossa Senhora do Carmo, para suas irm√£s e filhas, as monjas carmelitas descal√ßas‚ÄĚ (SANTA TERESA, 1995, p.438). Apesar desta dedicat√≥ria familiar, o livro √©, como ela mesma o chama, um ‚Äútratado‚ÄĚ de teologia espiritual e m√≠stica, e desde o in√≠cio foi cercado de interesse por parte de te√≥logos e pessoas de outras √°reas do conhecimento, como a literatura. Castellano Cervera o considera um modelo indutivo de antropologia teol√≥gica (1981, p.117-131).

No s√≠mbolo do castelo interior se articulam quem √© a pessoa humana diante de Deus, quem √© o Deus que a habita e o desenvolvimento da din√Ęmica do encontro entre ‚ÄúDeus e a alma‚ÄĚ (SANTA TERESA, 1M 1,3, 1995, p.442). Esta din√Ęmica √© narrada em termos de graus de intensidade ou moradas, sendo a primeira a mais exterior e a s√©tima a mais interior. Nessa √ļltima, encontramos a experi√™ncia, ainda n√£o acontecida quando da reda√ß√£o das grandes obras anteriores, do matrim√īnio espiritual, como uni√£o forte e permanente com Deus, atrav√©s de Jesus Cristo (SANTA TERESA, 7M 2,1, 1995, p.570). A s√©tima morada √© a culmin√Ęncia da din√Ęmica j√° presente nas moradas anteriores. Nela h√°, simultaneamente, maior experi√™ncia e conhecimento de Deus e da sagrada humanidade de Cristo, profundo autoconhecimento, convers√£o √©tica e desenvolvimento das capacidades de amor e servi√ßo.

S√≠mbolo menos abrangente, por√©m de grande import√Ęncia no livro, √© o da metamorfose do bicho-da-seda numa ‚Äúborboletinha branca‚ÄĚ (SANTA TERESA, 5M 2,7, 1995, p.495), indicando a vida nova em Cristo.

2.4 Funda√ß√Ķes, Cartas e escritos menores

O livro das Funda√ß√Ķes √© iniciado em 1570, quando Teresa de Jesus empreende sua segunda funda√ß√£o, e finalizado no ano de sua morte, 1582. Ali est√£o registradas as motiva√ß√Ķes e as principais circunst√Ęncias que envolvem o trabalho fundacional de Teresa. Mas n√£o s√≥ isso, tamb√©m a narra√ß√£o de hist√≥rias das pessoas envolvidas, nomes em profus√£o, gest√£o das quest√Ķes financeiras, acontecimentos eclesi√°sticos, vicissitudes trazidas pelo sol, chuvas e neve naquelas dif√≠ceis estradas. A obra adquire caracter√≠sticas de novela e cr√īnica. Na narrativa h√° doutrina, h√° humor, h√° interesse pelas pessoas e pelas coisas de Deus. √Č poss√≠vel acompanhar o processo de discernimento, espiritual e pr√°tico, necess√°rio para levar a cabo cada funda√ß√£o teresiana.

As Cartas acompanham todo o processo das funda√ß√Ķes e a reda√ß√£o dos demais livros. As edi√ß√Ķes modernas trazem em torno de 450 cartas escritas pela Santa, no per√≠odo de 1561 at√© menos de um m√™s antes de sua morte, em 1582. Sabemos que elas podem ter chegado a 15.000 ou mais. O teor destas cartas come√ßou a ser valorizado apenas no s√©culo XX, em que as pequenas coisas, como o cotidiano, o afeto, as rela√ß√Ķes, a sa√ļde e os neg√≥cios, passaram a ser consideradas fonte importante de conhecimento hist√≥rico e antropol√≥gico. Para a espiritualidade, esta valoriza√ß√£o significou uma formid√°vel virada teol√≥gica em dire√ß√£o √† a√ß√£o de Deus no prosaico da vida. A santidade √© resgatada como viv√™ncia do amor concreto e voca√ß√£o de todos, vivida no interior das rela√ß√Ķes humanas. O epistol√°rio teresiano oferece um excelente material para o conhecimento da pessoa de Teresa, de sua santidade no cotidiano, al√©m de ser um testemunho do contexto hist√≥rico em que ela viveu.

Al√©m desses livros, Teresa se dedica a textos sobre sua experi√™ncia de Deus, como Exclama√ß√Ķes da alma a Deus, Conceitos do amor de Deus (Medita√ß√£o sobre o C√Ęntico dos C√Ęnticos) e Rela√ß√Ķes. Em Certame e Resposta a um desafio sobressaem o bom humor e a habilidade de Teresa em estabelecer articula√ß√£o entre as pessoas. As Poesias s√£o escritas por motivos variados, da experi√™ncia profunda de Deus √† recrea√ß√£o em festas lit√ļrgicas e circunst√Ęncias da vida conventual. H√° tamb√©m textos legislativos, como Constitui√ß√Ķes e Modo de visitar os Conventos.

Enfim, os escritos de Santa Teresa de Jesus são o testemunho de alguém que viveu intensamente a intimidade com Deus e que, como os profetas, necessita falar para que outros e outras pessoas possam também vivê-la.

3 Eixos principais da mística teresiana

Aqui s√£o tratados os seguintes eixos: a ora√ß√£o como amizade; o recolhimento; a centralidade da ‚Äúsagrada humanidade‚ÄĚ de Cristo; a presen√ßa de Deus na pessoa humana; m√≠stica e amor concreto.

3.1 A oração como amizade

Santa Teresa d√° uma contribui√ß√£o original ao magist√©rio sobre a ora√ß√£o, ao afirm√°-la como rela√ß√£o e amizade. O texto do Livro da Vida condensa essa no√ß√£o de ora√ß√£o: ‚Äú(…) √© tratar de amizade ‚Äď estando muitas vezes tratando a s√≥s ‚Äď com quem sabemos que nos ama‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 8,5, 1995, p 63). A ora√ß√£o-amizade √© uma pr√°tica oracional que deve ser cultivada ‚Äúa s√≥s‚ÄĚ e de maneira frequente; √© tamb√©m uma forma de vida em permanente rela√ß√£o dial√≥gica com Deus, fonte de vida e amor. Cristo faz-se companheiro de caminho: ‚Äújuntos andemos, Senhor; por onde fordes, terei de ir; por onde passardes, terei de passar‚ÄĚ (SANTA TERESA, C 26,6, 1995, p.376). Por isso, a ora√ß√£o como amizade √© encontro pessoal, transformante e din√Ęmico (HERRAIZ GARCIA, 2002, p.55).

3.2 O recolhimento

A ora√ß√£o-amizade se realiza atrav√©s do recolhimento, ou entrada dentro de si mesmo para o encontro com o Cristo mestre e amigo. ‚ÄúChama-se recolhimento, porque a alma recolhe todas as faculdades e entra em si mesma com seu Deus; seu divino Mestre vem ensin√°-la…‚ÄĚ (SANTA TERESA, C 28,4, 1995, p.381). A contempla√ß√£o perfeita do Mestre √© uma d√°diva (SANTA TERESA, C 25,2, 1995, p.373) que sinaliza o desejo de Deus em estar e se comunicar com a pessoa. Este dom deve ser acolhido e cultivado na pr√°tica habitual do recolhimento, em que acontece a educa√ß√£o progressiva do olhar, da escuta e do falar interiormente com Cristo (SANTA TERESA, C 26,3 et seq., 1995, p.375).

Ao mesmo tempo, há a necessidade de cultivo das atitudes primordiais: a humildade, o desapego e o amor concreto. Elas são a base do caminho do recolhimento e, sem elas, a oração não encontra terreno sólido (SANTA TERESA, C 4,4, 1995, p.312).

3.3 A centralidade da ‚Äúsagrada humanidade‚ÄĚ de Cristo

A experi√™ncia de Cristo √© central na m√≠stica teresiana. √Č diante da imagem de Cristo, com grandes chagas, que se d√° a convers√£o definitiva de Santa Teresa √† vida de ora√ß√£o e √† coer√™ncia de vida (SANTA TERESA, V 9,1, 1995, p.66). Cristo se manifesta a ela como um ‚Äúlivro vivo‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 26,5, 1995, p.171) e a rela√ß√£o com Deus implica uma experi√™ncia cada vez mais profunda com o Cristo dos Evangelhos. Culmina numa uni√£o insepar√°vel, o ‚Äúmatrim√īnio espiritual‚ÄĚ, que significa entrega a Cristo em amor concreto e servidor (SANTA TERESA, 7M 2,1, 1995, p.570). Na doutrina teresiana, a humanidade de Cristo, Filho encarnado, deve ser considerada em toda a vida espiritual, mesmo no auge da contempla√ß√£o. √Č pela vida, morte e ressurrei√ß√£o de Cristo que o amor de Deus se revela, Cristo √© o caminho para Deus. Al√©m disso, h√° uma raz√£o antropol√≥gica para a centralidade da sagrada humanidade na vida espiritual: ‚Äún√£o somos anjos, pois temos um corpo‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 22,10, 1995, p.145). Apenas na sagrada humanidade o m√≠stico encontra apoio concreto para o pensamento, para a ora√ß√£o e para a pr√≥pria din√Ęmica da vida e do amor. A encarna√ß√£o possibilita a valoriza√ß√£o do corpo e das realidades corp√≥reas e uma m√≠stica de integra√ß√£o entre corpo e alma, para al√©m da linguagem frequentemente dualista da √©poca de Santa Teresa (PEDROSA-P√ĀDUA, 2015, p.239 e 317).

O desenvolvimento doutrinal sobre a centralidade da sagrada humanidade de Cristo, Filho de Deus encarnado, encontra-se em dois capítulos centrais da obra teresiana: o capítulo 22 do Livro da Vida e o capítulo sétimo das sextas Moradas.

3.4 A presença de Deus na pessoa humana

A presen√ßa de Deus na pessoa humana √© o n√ļcleo experiencial e doutrinal que d√° sentido e unifica a m√≠stica teresiana. A partir dela, Santa Teresa conhece um Deus pr√≥ximo, presente, amigo, transformante e que se revela cada vez mais como Deus comunh√£o e comunica√ß√£o ‚Äď trinit√°rio. No in√≠cio deste processo, escreve ela no Livro da Vida, acontecia que, estando em ora√ß√£o, colocando-se mentalmente ao lado de Cristo, outras vezes lendo, vinha-lhe um ‚Äúsentimento da presen√ßa de Deus‚ÄĚ (SANTA TERESA, V10,1, 1995, p.70). A experi√™ncia da presen√ßa de Deus foi t√£o importante que ser√° repetida em Caminho de Perfei√ß√£o, Moradas e outros escritos. Em Moradas, a pessoa humana √© apresentada como um castelo de diamante ou de um cristal muito transparente e Deus, como o sol, est√° presente no centro irradiando sua luz (SANTA TERESA, 1M 1,1, 1995, p.441). Para Santa Teresa, o Deus vivo e comunicante se faz perceber e sentir na alma, e essa √© como ‚Äúuma esponja que se embebe de √°gua‚ÄĚ (SANTA TERESA, R 45, 1995, p.830).

Pouco a pouco esta presen√ßa de Deus no interior humano vai se revelando como presen√ßa trinit√°ria (SANTA TERESA, R 54, 1995, p.833). Na experi√™ncia m√≠stica teresiana, Deus habita o humano, √© amor que se comunica pessoalmente, atrav√©s das pessoas divinas. Teresa de Jesus √© ‚Äútrinificada‚ÄĚ (CUARTAS, 2008, p.163). O aprofundamento no conhecimento de si mesma √©, ao mesmo tempo, abertura √† alteridade de Deus, do mundo, do pr√≥ximo (SANCHO, 2012, p.75).¬†¬† Deus, comunidade de pessoas que se amam, comunicam e conhecem, volta-se √† pessoa humana para faz√™-la participar desta comunidade pelo conhecimento, comunica√ß√£o-experi√™ncia, amor e servi√ßo (PEDROSA-P√ĀDUA, 2015, p.175).

3.5 Mística e amor concreto  

A inter-rela√ß√£o entre a m√≠stica e o amor concreto, vivida na pr√°tica, √© clara na doutrina de Santa Teresa. O amor concreto √© crit√©rio da verdadeira m√≠stica: ‚Äú√© nos efeitos posteriores que se conhecem essas verdades na ora√ß√£o, pois eles s√£o o melhor crisol para prov√°-las‚ÄĚ (SANTA TERESA, 4M 2,8, 1995, p.479). Por outro lado, a m√≠stica tem por objetivo a pr√°tica do amor concreto. A verdadeira uni√£o com Deus √© o amor a Deus e ao pr√≥ximo, afirma Teresa nas quintas Moradas, em suas grandiosas p√°ginas sobre a pedagogia do amor crist√£o (SANTA TERESA, 5M 3,7, 1995, p.501 et seq.). Tanto o itiner√°rio da experi√™ncia ordin√°ria do seguimento de Cristo, quanto o itiner√°rio da experi√™ncia m√≠stica da uni√£o com Cristo, no matrim√īnio espiritual, desembocam no imperativo do servi√ßo e das obras, como fica claro nas s√©timas Moradas: ‚ÄúPois isto √© ora√ß√£o, filhas minhas; para isto serve este matrim√īnio espiritual: para fazer nascer obras, sempre obras‚ÄĚ (SANTA TERESA, 7M 4,6, 1995, p.583). Mais adiante: ‚ÄúDesejo, irm√£s minhas, que procuremos alcan√ßar exatamente esse alvo. Apreciemos a ora√ß√£o e ocupemo-nos dela, n√£o para nos deleitar, mas para ter essas for√ßas para servir‚ÄĚ. E acrescenta: ‚ÄúMarta e Maria devem andar sempre juntas‚ÄĚ (SANTA TERESA, 7M 4,12, 1995, p.584-585).

4 Santa Teresa e os pobres            

A contemplação e o seguimento de Cristo realizam em Teresa uma conversão progressiva aos pobres e à vivência da pobreza evangélica. Trata-se de um caminho espiritual, enraizado em sua experiência cristã.

A vida de Cristo se radicaliza em sua vida. Encontramos em seus escritos um testemunho que se assemelha ao de S√£o Francisco: ‚ÄúSinto em mim uma grande l√°stima e desejo de remediar a sua situa√ß√£o [dos pobres], a ponto de, se seguisse a minha vontade, dar-lhes minha pr√≥pria roupa. Nenhum asco tenho deles; trato com eles e os toco‚ÄĚ (SANTA TERESA, R 2,4, 1995, p.783). Uma solidariedade lhe brota de dentro, de um cora√ß√£o que passa a sentir diferente e uma mente que passa a pensar diferente. Vive uma verdadeira convers√£o, metanoia, cuja fonte √© Deus: ‚Äúvejo que √© um dom de Deus‚ÄĚ (SANTA TERESA, R 2,4, 1995, p.783).

N√£o apenas isso. A pobreza torna-se para ela um compromisso de novas rela√ß√Ķes, pautadas na igualdade e na solidariedade. Atualizando esta exig√™ncia para o seu contexto hist√≥rico e eclesial, institui em suas comunidades uma forma de vida n√£o pautada pela diferen√ßa que vem das origens familiares e de riqueza: ‚ÄúQuem tiver a linhagem mais nobre deve ter o nome do pai menos vezes na boca‚ÄĚ. Teresa advoga a igualdade: ‚Äútodas devem ser iguais‚ÄĚ (SANTA TERESA, C 27,6, 1995, p.380). A vida comunit√°ria era caracterizada por estrita pobreza: ‚Äúa pobreza que Santa Clara institui em seus mosteiros tamb√©m est√° presente neste (…)‚ÄĚ (SANTA TERESA, V 33,13, 1995, p.228).

Temos assim um caminho iluminador para a m√≠stica latino-americana: abertura ao dom do Cristo crucificado, compromisso de viver a pobreza, transforma√ß√£o concreta das rela√ß√Ķes pautadas na discrimina√ß√£o e domina√ß√£o de uns sobre os outros. N√£o se trata de assistencialismo, nem de compromisso exterior, mas de um caminho espiritual e concreto.

Conclus√£o

A vida e a obra de Santa Teresa de Jesus fazem dela uma m√≠stica que transp√Ķe os muros do cristianismo e mesmo das religi√Ķes. Sua ‚Äúsabedoria das coisas divinas e sabedoria das coisas humanas‚ÄĚ (PAULO VI, 1970) √© valorizada de forma universal, por outras religi√Ķes, por agn√≥sticos e mesmo por ateus.

Os eixos da m√≠stica teresiana tratados acima ‚Äď ora√ß√£o como amizade, pr√°tica do recolhimento, centralidade da sagrada humanidade de Cristo, presen√ßa de Deus no interior humano e inter-rela√ß√£o entre m√≠stica e amor ‚Äď manifestam que o mist√©rio de Deus se faz insepar√°vel do mist√©rio humano. A m√≠stica dinamiza o interior humano e suas rela√ß√Ķes na Igreja, na sociedade e no pr√≥prio cosmos. Leva √† vida nova em Cristo, com novas rela√ß√Ķes, amor concreto e servi√ßo. De forma particular, a experi√™ncia teresiana na intera√ß√£o com o seu contexto e com os pobres inspira a teologia e o caminho espiritual latino-americanos.

L√ļcia Pedrosa-P√°dua, PUC Rio, Brasil – (texto original em portugu√™s)

Referências

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SCIADINI, P. Teresa de √Āvila. √Č tempo de caminhar. S√£o Paulo: Carmelitanas/Loyola, 2015.

[1] As obras teresianas ser√£o indicadas pelas abreviaturas: V – Livro da Vida; C – Caminho de Perfei√ß√£o; CE – Camino de Perfecci√≥n (El Escorial); M – Castelo Interior ou Moradas; F ‚Äď Funda√ß√Ķes; R ‚Äď Rela√ß√Ķes; P ‚Äď Poesias. A abreviatura √© seguida do n√ļmero do cap√≠tulo e do(s) par√°grafo(s). Na cita√ß√£o de Moradas, o n√ļmero que antecede a abreviatura indica a morada correspondente.