Maria na Bíblia

Sum√°rio

1 Maria na Bíblia

1.1 Antigo Testamento

1.2 Novo testamento

1.2.1 Identidade de Maria de Nazaré

1.2.2 Carta de Paulo

1.2.3 Evangelho de Marcos

1.2.4 Evangelho de Mateus

1.2.5 Evangelho de Lucas

1.2.6 Evangelho de Jo√£o

1.2.7 Apocalipse

2 Referência

1 Maria na Bíblia 

Os dados b√≠blicos sobre Maria est√£o inseridos na hist√≥ria da salva√ß√£o, no an√ļncio do mist√©rio de Cristo e na perspectiva de cada escrito. Embora n√£o haja “biografia” sobre a vida de Maria, sua presen√ßa nas Escrituras tem um significado teol√≥gico por causa do lugar que ela ocupa no n√ļcleo do evento de Cristo que a transcende. A exegese moderna enfatiza que o mist√©rio de Maria significa a s√≠ntese de toda a revela√ß√£o precedente sobre o povo de Deus, de todas as pessoas da alian√ßa, que tem seu ponto culminante em Cristo. “Ela √© o √≠cone de todo o mist√©rio crist√£o” (FORTE, 1993, 112).

1.1 Antigo Testamento

O que o AT nos fala sobre a Virgem Maria? A exegese e a teologia, juntamente com o Magist√©rio e a Tradi√ß√£o da Igreja, referem-se ao papel da Virgem Maria na hist√≥ria da salva√ß√£o. Colocam-na em sua prefigura√ß√£o no AT e depois em sua miss√£o como m√£e da Igreja e de Cristo. Existem v√°rias opini√Ķes de exegetas sobre a presen√ßa de Maria no AT (POZO, 1974, 126). Alguns falam de sua aus√™ncia ou de apari√ß√Ķes muito fugazes sob a forma de revela√ß√Ķes ou profecias e outros afirmam que est√° presente em toda a B√≠blia (CAROL, 1964, p. 55). De acordo com S√£o Agostinho: “O NT est√° escondido no Antigo e o AT √© revelado no Novo” (S√£o Agostinho: “No Vetere Testamento Novum Latet, e em Novo Vetus patet”. Quatest. Em Hept, II 73: ML 34.623). A Constitui√ß√£o Lumen Gentium, n¬ļ55 do Conc√≠lio Vaticano II, afirma:

‚ÄúA Sagrada Escritura do Antigo e Novo Testamento e a vener√°vel Tradi√ß√£o mostram de modo progressivamente mais claro e como que nos p√Ķem diante dos olhos o papel da M√£e do Salvador na economia da salva√ß√£o. Os livros do Antigo Testamento descrevem a hist√≥ria da salva√ß√£o na qual se vai preparando lentamente a vinda de Cristo ao mundo. Esses antigos documentos, tais como s√£o lidos na Igreja e interpretados √† luz da plena revela√ß√£o ulterior, v√£o pondo cada vez mais em evid√™ncia a figura duma mulher, a M√£e do Redentor. A esta luz, Maria encontra-se j√° profeticamente delineada na promessa da vit√≥ria sobre a serpente (cfr. Gn 3,15), feita aos primeiros pais ca√≠dos no pecado. Ela √©, igualmente, a Virgem que conceber√° e dar√° √† luz um Filho, cujo nome ser√° Emanuel (cfr. Is 7,14; cfr. Mq 5, 2-3; Mt 1, 22-23).‚ÄĚ

O teólogo C. Pozo classifica os escritos em três tipos:

a) textos com verdadeiro sentido mariol√≥gico: G√™nesis, 3,15; Isa√≠as 7,14 e Miqueias 5,2-3. G√™nesis 3,15: tem um sentido messi√Ęnico em que triunfa a linhagem de uma Mulher que esmaga a cabe√ßa da serpente que simboliza o mal. O verbo ‘ipsa’ usado pela Vulgata o confirma: “Ela vai esmagar sua cabe√ßa”. Os te√≥logos afirmam que, nos vers√≠culos Gn 3, 15, √© Eva no sentido literal, mas √© Maria em um sentido literal profundo e completo. O texto de Isa√≠as 7:14 √© messi√Ęnico e mariol√≥gico “uma donzela est√° gr√°vida e vai dar √† luz um filho e a chamar√° de Emanuel.” Isa√≠as usa a express√£o ‘Almah‘ para se referir √† m√£e de Emanuel; a tradu√ß√£o literal : donzela, jovem adolescente, virgem. Mateus ratifica-o em Mt 1,22-23, indicando que esta profecia √© cumprida na concep√ß√£o virginal de Jesus. Lucas tamb√©m cita a Is 7,14 e 9,5 na anuncia√ß√£o (Lc 1,31-32) O texto de Miqueias 5,1 ss est√° intimamente relacionado com Is 7,14; h√° um paralelismo entre Almah e Emanuel. Esta profecia completa a predi√ß√£o de Isa√≠as, afirmando que a “almah” dar√° √† luz a Emanuel em Bel√©m de Efrat√°.

b) Textos com sentido mariol√≥gico discutido: Jr 31,22; Sl 45, C√Ęntico dos c√Ęnticos 5,2b. 6. Embora os textos tenham uma tradi√ß√£o mariol√≥gica, eles cont√™m infidelidades e outras situa√ß√Ķes irregulares.

c) Textos marianos por acomodação: o texto de Jt 15,9, onde na figura de Judite é visto um tipo de Maria no sentido técnico da palavra. Em Pr 8 e Ecle 24,11, se sugere a presença de Maria no plano divino da salvação formado desde a eternidade , (POZO, 1974, 127).

Autores como Laurentin e Bertetto falam de um triplo an√ļncio a Maria na literatura do Antigo Testamento e isso se reflete no NT. O triplo an√ļncio √© equivalente a uma tripla prepara√ß√£o: moral, tipol√≥gica e prof√©tica (PONCE CUELLAR, 2001, 52).

1. 2 Novo Testamento

Quando Maria aparece nos vinte e sete escritos que comp√Ķem o c√Ęnon NT? O primeiro texto que a menciona √© o de S√£o Paulo na carta aos G√°latas no ano 53-57 dC, depois o Evangelho de Marcos ao redor do ano 64 dC, o de Mateus entre 70-80 dC, o de Lucas, autor tamb√©m dos Atos dos Ap√≥stolos, cerca de 70 dC. O Evangelho de Jo√£o e o livro de Apocalipse no cap√≠tulo 12, entre 90 e 100 dC.

1.2.1 Identidade de Maria de Nazaré

Mar√≠a, Miryam[1],¬†√© uma mulher judaica de uma cidade pobre chamada Nazar√©, a quem ela pertence e faz parte de sua hist√≥ria. Ela foi instru√≠da por Deus na “escola da vida”, onde aprendeu a humildade, sabedoria e amor que ela transmitiu a Jesus. Ela era sua melhor professora e, ao mesmo tempo, sua disc√≠pula. Sua pobreza pode ser descrita como “confian√ßa e abandono no Deus de Jesus”, em quem ele colocou todo o seu amor, f√© e lhe deu esperan√ßa na vida cotidiana entre alegria e dores (BOFF, 2009, 102). O primeiro escrito sobre a mulher que interveio no mist√©rio da encarna√ß√£o foi de Paulo em Gl 4,4. Nos Evangelhos de Mateus, Marcos Lucas e no livro dos Atos dos Ap√≥stolos, Maria √© chamada pelo seu nome. No evangelho de S√£o Jo√£o, se fala da m√£e de Jesus, ou sua m√£e, sem dizer o nome dela. Os outros livros a mencionam indiretamente, apontando que Jesus √© o Filho de Davi, que somos Filhos da Promessa, da Jerusal√©m acima, que o Pai nos enviou seu Filho, nascido de mulher e √© reconhecida na Mulher coroada com estrelas do Apocalipse (Ap 12). Os Evangelhos sin√≥pticos apresentam a figura de Maria em refer√™ncia a Jesus em momentos diferentes. Na genealogia (Mt 1,16, Lc 3,23), na sua concep√ß√£o virginal (Lc 1,26-38); na visita de Maria a Isabel e no Magnificat (Lc 2, 39-56). Em seu nascimento (Mt 1, 25; Lc 2,1-20), na apresenta√ß√£o no templo (Lc 2,21-38); na fuga e retorno do Egito (Mt 2,1-23). No relacionamento com parentes e disc√≠pulos (Mc 3,3-35; 6,1-3; Mt 12,46-50; 13,53-58; Lc 8,19-21; 4,16; 22-30).

1.2.2 Carta de Paulo

A carta de Paulo aos G√°latas est√° localizada ao redor do ano 49 ou entre 53-57 dC e √© o primeiro testemunho mariano no NT sobre a Virgem, a mulher mediadora da encarna√ß√£o (Gl 4, 4). √Č o germe da doutrina mariana. Destaca o dom singular que Deus fez a Maria como M√£e do Senhor e nela o respeito e a estima pela mulher, dando-lhe um lugar proeminente na hist√≥ria da humanidade. Confirma o modo de Deus de fazer parte da hist√≥ria, desde dentro, mergulhando nos fatos e eventos da vida. O mesmo Deus que formou parte de um povo (Rm 1,3), que falou atrav√©s dos profetas “muitas vezes e de muitas formas” (Hb 1,1) dentro do espa√ßo tempo. Quando o Pai envia seu Filho para que seja parte de nossa hist√≥ria, os tempos do plano divino atingem sua plenitude. Cristo √© o ponto √īmega e nesta cimeira h√° uma mulher, Maria, nela e dela, se formou o corpo de seu Filho (Hb 2,14 Rm 9,5). Atrav√©s da maternidade que significa nascer como qualquer ser humano, o Filho do Pai preexistente ao mundo se enra√≠za no tronco da humanidade, fazendo-nos filhos no Filho.

1.2.3 Evangelho de Marcos

 

Este evangelho apresenta a imagem mais antiga de Maria. Recolhe as catequeses e a prega√ß√£o de S√£o Pedro. Ele come√ßa a falar sobre Jo√£o Batista e Jesus adulto que √© batizado no Jord√£o. √Č a imagem da tradi√ß√£o pr√©-evang√©lica que se remonta ao pr√≥prio Jesus e √© apenas esbo√ßada, apresentando claramente suas caracter√≠sticas essenciais. √Č a m√£e ignorada, de um Messias ignorado ou de um “judeu marginal”, segundo Meier, e uma m√£e vituperada de quem √© vituperado (MEIER, 1993). Mas, para Jesus, o Filho de Deus, ela √© aben√ßoada por ter acreditado nele e, por essa raz√£o, ela √© m√£e pela f√© mais do que pelo seu sangue, dos seus disc√≠pulos, isto √©, da sua Igreja. Este evangelista apresenta Jesus o Filho de Deus, que √© a Boa Nova e essa proclama√ß√£o de f√© provoca aceita√ß√£o ou rejei√ß√£o. Com a pergunta: quem √© minha m√£e e meus irm√£os? (Mc 4,33) anuncia a forma√ß√£o de uma nova fam√≠lia, (GARCIA PAREDES, 2005, 16-27), n√£o mais relacionada com o sangue, mas com o espiritual, “porque quem faz a vontade do meu Pai Celestial, este √© meu irm√£o, minha irm√£ e minha m√£e “(Mc 3,35).

1.2.4 Evangelho de Mateus 

O profeta Miqueias, citado pelo Evangelista Mateus (Mt 2,6), anunciou que de Bel√©m: “sairia um chefe, o pastor do meu povo, Israel” (Mq 5,1). Jesus ser√° o “novo Mois√©s” que libertar√° da escravid√£o atrav√©s de um novo √™xodo, assumindo o ex√≠lio, a persegui√ß√£o para levar o povo a uma liberta√ß√£o nova e definitiva (Mt 2,13 ff.; Ex 2,1-9; 4,19-23). Uma Virgem que est√° gr√°vida ser√° a M√£e do Salvador, do Messias, (Filho de Deus e filho de Davi). A Virgem Maria √© a esposa de Jos√©, filho de Davi. Ela √© parte de um povo que aguarda o Messias e ter√° o apoio de Jos√©, porque precisa dele para que seu Filho possa ter um lar. Ele vive o conflito de aceit√°-la como esposa ou repudia-la em segredo e o resolve depois de ouvir o anjo nos sonhos. √Č necess√°rio que ao fiat de Deus (Is 7,14) lhe corresponde o fiat do ser humano. Quando Jos√© d√° o seu fiat, “acordando¬† Jos√© do sono, ele fez como o anjo do Senhor o ordenara” (Mt 1,24), o cumprimento da Palavra atinge a plenitude, o conflito √© resolvido (GARCIA PAREDES, 2005, 56 ). E Jose, legal e humanamente, assume a condi√ß√£o paternal de Jesus, recebendo Maria como sua esposa, pela qual Jesus √© “filho de Davi”. Jose aceita Maria e ao “filho de Maria” gerado pelo Esp√≠rito Santo, o Emanuel (Mt 1,20). Ele testemunha que Jesus √© o Filho de Deus e o sim de Maria √© completado com seu sim, constituindo a fam√≠lia de Jesus, onde ele ter√° sua primeira experi√™ncia de vida comunit√°ria, communio e aprender√° a se relacionar com ambos. A virgindade de Maria √© uma caracter√≠stica mariana que est√° em estreita liga√ß√£o com a filia√ß√£o e a origem divina do Messias. Este nasce de Maria sem a media√ß√£o do homem e pela obra do Esp√≠rito Santo, segundo afirma Mateus.

1.2.5 Evangelho de Lucas 

O evangelista Lucas narra a origem de Jesus e a origem da Igreja destacando a presença de Maria nos mistérios da Encarnação e de Pentecostes. A concepção virginal de Maria é descrita aqui através da Epifania de Deus na Arca da Aliança (Êxodo 40,35). A nuvem de Deus aparece sobre os dois e suas consequências são análogas. A Arca está cheia de Glória, Maria está cheia da presença de um ser que merece o nome de Santo e de Filho de Deus.

A figura de Maria √© apresentada como uma testemunha privilegiada n√£o s√≥ da vida de Jesus, mas tamb√©m do significado teol√≥gico dessa vida. Ele √© uma testemunha do que acontece porque ele “manteve todas essas coisas e meditou-as em seu cora√ß√£o” (2,19); “Sua M√£e cuidadosamente guardou todas as coisas em seu cora√ß√£o” (2,51). Uma M√£e que cuida com amor e est√° atenta ao seu Filho. Ela sai e visita Isabel expressando com alegria a a√ß√£o de Deus em sua vida no Magnificat. No momento do nascimento, ela d√° √† luz ao Pastor, num contexto pastoril e os primeiros que o reconhecem s√£o os pastores que v√£o ver a Crian√ßa e sua M√£e (2,6-20). Eles s√£o, juntamente com “uma nuvem de testemunhas”, aqueles que testemunham a historicidade do evento. E √© o Esp√≠rito Santo que, atrav√©s de Maria (a Filha de Si√£o, a Arca da Nova Alian√ßa), testemunha a Jesus e realiza a tarefa de ensinar aos crentes em Jesus Cristo “todas as coisas”. Maria ent√£o desaparecer√°. discretamente para dar a palavra ao seu Filho quando ele – aos 12 anos de idade em seu Bar-Mitzvah, no Templo de Jerusal√©m – se torna um mestre adulto da sabedoria de seu povo e se torna capaz de dar testemunho v√°lido de si mesmo e do Pai. Ele far√° o mesmo nos Atos dos Ap√≥stolos, quando seus disc√≠pulos, com a presen√ßa do Esp√≠rito Santo no dia de Pentecostes, se tornem mestres da Nova Lei do Esp√≠rito e servos da Palavra (TEPEDINO, 1994). Com a for√ßa e o poder do alto, dar√£o testemunho da paix√£o e ressurrei√ß√£o, quer dizer, da identidade messi√Ęnica e divina de Jesus.

1.2.6. Evangelho de Jo√£o

Jo√£o apresenta Maria como a “m√£e de Jesus”, no contexto das bodas em Can√° (Jo 2,1-2) e ao p√© da cruz (Jo 19,25-27). Seu pr√≥prio Filho a chamou de “mulher”, gu / nai, revelando sua identidade mais profunda, o seu ser “mulher” antes que sua maternidade[2]. Estudiosos da obra de Jo√£o t√™m visto uma continuidade entre o quarto Evangelho e o Apocalipse identificando com a mesma fun√ß√£o √† mulher, gunh / no parto em Apocalipse 12 com Maria, a m√£e de Jesus, embora n√£o seja nomeada¬† como tal. A forma como √© apresentada revela essa continuidade porque tanto em Jo√£o 2,4; 19:26 e Ap 12, essa mulher, gu / nai gunh / est√° em refer√™ncia a Cristo e √† sua maternidade biol√≥gica e espiritual que √© fecunda ao abra√ßar aos “novos filhos” que lhe d√° o seu Filho. Neste sentido, √© figura da Igreja e √© apresentada em Jo 2,4; 19.26 com os disc√≠pulos que representam a comunidade dos seguidores de Jesus. O fato de que n√£o aparece sozinha com Jesus significa que sua miss√£o √© em refer√™ncia a Jesus e √† comunidade, ali ser√° compreendida a sua maternidade por ser mulher. Ent√£o se pode dizer que o quarto Evangelho e o Apocalipse t√™m um profundo conte√ļdo eclesial e mariano, ao apresentar a Maria e aos personagens, homens e mulheres, que representam a comunidade. Ambas as interpreta√ß√Ķes, eclesiol√≥gica e mariana, foram analisadas a partir dos grandes per√≠odos da tradi√ß√£o crist√£, que s√£o a √©poca patr√≠stica e a medieval.

Maria nas bodas de Cana, se compadece com as necessidades dos noivos (Jo 2,3) e come√ßa o di√°logo fazendo de mediadora entre Jesus e os serventes. Sua fun√ß√£o √© facilitar o contato dos homens e mulheres com Cristo, colaborando na consci√™ncia de sua verdadeira identidade. Suas palavras e gestos: “fa√ßam tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5) ajudam a revelar a divindade de Jesus, seu ser Filho unig√™nito do Pai¬† atrav√©s de um sinal. A boda evoca imagens da era messi√Ęnica (ou seja, a nova cria√ß√£o) como o vinho e os alimentos deliciosos (cf. Os 2,19-20; Is 25,6-8; Jr 2,2; C√Ęntico dos c√Ęnticos). Por sua media√ß√£o cautelosa √© realizado o sinal, onde Jesus manifesta a sua gl√≥ria (v. 11), destacando a dimens√£o cristol√≥gica do relato.

As √ļltimas palavras de Maria em Cana (Jo 2,5) t√™m continuidade em Jo 19,26-27, quando ouviu que Jesus lhe diz: “Mulher, eis a√≠ o teu filho”.¬† Ent√£o ele disse ao disc√≠pulo: “Eis a√≠ tua m√£e”. E a partir dessa hora,” o disc√≠pulo a recebeu em sua casa “. A express√£o” mulher “, gu / nai e n√£o” m√£e “, √© considerada uma evoca√ß√£o simb√≥lica de Eva em G√™nesis 3, a mulher do protoevangelho, de acordo com as obras de Braum e Feuillet.

As palavras “Mulher, eis a√≠ o teu filho” (v. 26), recordam as f√≥rmulas de ado√ß√£o, embora Brown diga que √© mais apropriado falar de uma “f√≥rmula de revela√ß√£o” (Cf. Jo 1,21; 36, 1,47), isto √©, revela o conte√ļdo que a nova rela√ß√£o deve ter, a nova maternidade de Maria que ela recebe como o “testamento de seu Filho desde a cruz”

De acordo com Brown, a express√£o “Eis a√≠ tua m√£e” (v. 27) mostra que, a partir de agora, a m√£e e o disc√≠pulo estar√£o em uma nova rela√ß√£o querida por Jesus no contexto do evento messi√Ęnico e eclesiol√≥gico da cruz (BROWN, 2002). Ela representa de forma especial o resto de Israel que aguarda e recebe a salva√ß√£o messi√Ęnica, expressa em Jo 1,31.41.45.49. Est√° aberta √† salva√ß√£o, assim como o disc√≠pulo amado que confia e se abre para receber em sua casa aos que procuram a salva√ß√£o e a permanecer l√°. Tamb√©m est√° associada √† imagem da Igreja, “Filha de Si√£o”, a Virgem de Israel (Is 60.4-5; 31.3-14; Br 4,36-37; 5,5) que chama seus filhos / filhas desde o ex√≠lio para formar um novo povo. O evangelista aplica-o a Maria e ao disc√≠pulo ao p√© da cruz: “Levanta em redor os teus olhos, e v√™; todos estes j√° se ajuntaram, e v√™m a ti; teus filhos e filhas vir√£o de longe…” (Is 60,4), maternidade messi√Ęnica e escatol√≥gica. Tamb√©m est√° associado a Eva, como em Cana, (Gn 2,20), m√£e por excel√™ncia.

Sua maternidade corporal √© prolongada em maternidade espiritual para com os crentes e para com a Igreja, de tal forma que “para nos tornarmos filhos de Deus, devemos nos tornar filhos de Maria e filhos da Igreja”. Seu √ļnico Filho √© Jesus, mas n√≥s nos conformamos com ele se nos tornarmos filhos de Deus e filhos de Maria “(DE LA POTTERIE, 1993, 262ss).

Al√©m das interpreta√ß√Ķes de que o disc√≠pulo amado (Jo 13:23) seja o filho de Zebedeu, ou que ele seja um disc√≠pulo com um relacionamento especial, de prefer√™ncia com Jesus, seu papel √© mediar a mensagem da salva√ß√£o. √Č o amigo (15,13-15) a quem Jesus confia e expressa seu amor ao extremo (13,1) em sua hora, dando o maior que ele tem neste mundo, a mulher que o deu √† luz. Ele √© capaz de confiar em sua m√£e, porque ele √© um homem de f√©, que n√£o precisa de provas.

“E a partir daquela hora” (v. 27), tem dois significados, o de receb√™-la naquele momento, na “hora” de Jesus, que chegou, a sua morte na cruz (Jo 12,23; 13,1 ; 17,1). O resultado do “levantamento de Jesus na Cruz” √© que a m√£e e o disc√≠pulo se tornam um (Jo 12,32), se fundamentam umas rela√ß√Ķes s√≥lidas de amor entre Maria, Jesus e o disc√≠pulo, que ser√£o a base da unidade da Igreja. Na hora de Jesus e da mulher (Jo 16,21), seu pr√≥prio Filho anuncia uma tarefa maior, como presente por seu grande amor: o ventre vazio ser√° preenchido com novos filhos, ao aceitar ser a “m√£e” do disc√≠pulo. Ele a recebe “em sua pr√≥pria casa” (v. 27), isto √©, ele acolhe pela f√© em sua intimidade √† m√£e de Jesus, agora sua m√£e, e a faz sua nesse momento com disponibilidade total. A √ļnica miss√£o que o disc√≠pulo recebe √© ter Maria como m√£e. Sua primeira tarefa √© ser o filho de Maria. √Č mais importante ser crente do que ap√≥stolo, uma vez que a miss√£o ser√° confiada mais tarde, ap√≥s a ressurrei√ß√£o (Jo 20,21, 21,20-23). Ao se tornar o filho de Maria, ele se torna o filho da Igreja, um verdadeiro crente na Igreja.

E Maria √© m√£e assim que Jesus vive no disc√≠pulo que cr√™ e recebeu a vida eterna. De acordo com Brown, Jesus coloca Maria e seu disc√≠pulo amado em rela√ß√£o de m√£e e filho e, assim, constitui uma comunidade de disc√≠pulos que s√£o m√£e e irm√£o para ele, a comunidade que preserva o Evangelho. √Č por isso que suas √ļltimas palavras s√£o: “tudo est√° cumprido” (v. 30) para entregar seu Esp√≠rito √† comunidade dos crentes que ele formou. “Uma mulher e um homem estavam no p√© da cruz, como modelos de humanidade redimida, sua verdadeira fam√≠lia de disc√≠pulos” (BROWN, 2002, 473).

1.2.7 Apocalipse

O correlativo de Maria-mulher-m√£e-igreja tamb√©m √© observado na imagem “mulher celestial” (Ap 12, 1-6). A maternidade de Maria faz dela que seja mulher, gu / nai e que se identifique com a comunidade escatol√≥gica e fecunda. Ent√£o, a denomina√ß√£o de mulher, gu / nai e m√£e mh / thr aparece em toda a sua dimens√£o, em Apocalipse 12. A Igreja, refletindo-se em Maria, descobrir√° sua identidade e seu papel como portadora e geradora de Cristo na hist√≥ria, √© por isso que a Igreja pode ser chamada de “mulher”, gu / nai. A mulher-povo de Deus, que se apresenta, √© revestida por Deus, com cuidado amoroso, particular, com todo o melhor que Ele tem. Ela est√° revestida de sol, com a lua debaixo de seus p√©s, ela √© colocada acima das vicissitudes do tempo em que a alian√ßa √© feita, porque lhe compete essa realiza√ß√£o que Deus efetuar√° no final da evolu√ß√£o do tempo. No n√≠vel escatol√≥gico, significa a Jerusal√©m celestial, onde a mulher-povo de Deus, Si√£o escatol√≥gica, est√° localizada com uma tripla acentua√ß√£o efetiva: tem a coroa, sinal do pr√™mio escatol√≥gico; de estrelas, sinal de transcend√™ncia divina referente √† Igreja; e h√° doze, indicando o n√≠vel escatol√≥gico da Jerusal√©m celestial. Brilha com uma luz que lhe √© dada, n√£o √© pr√≥pria, sen√£o gra√ßas √† gl√≥ria de Deus que a reveste. Enquanto o mal (Diabo, Satan√°s – ver Jo 16,11; Ap 12), que foi derrotado na cruz, continua a perseguir os homens e mulheres que comp√Ķem o novo povo de Deus, a igreja-mulher com “dores messi√Ęnicos”, de parto (Ap 12,1-6), vai gerando novos filhos e filhas em Cristo, que querem ser devorados / devoradas pelo “drag√£o”. Mas a Divina Provid√™ncia n√£o abandona √† mulher-igreja, no deserto, (2Re 17,1-7; Os 2,16-18), lugar onde ela permanece fiel √† alian√ßa, porque Deus cuida dela e alimenta e protege seus filhos e filhas no caminho da terra prometida. Podemos dizer que, por causa da cruz e do momento da cruz, uma nova fam√≠lia de Jesus foi criada. Sua m√£e, modelo de f√© e o disc√≠pulo que Jesus amava, tornaram-se um, aceitando a maternidade incondicionalmente. Ela ser√° a m√£e da vida de seu Filho em todos os membros da Igreja. Desta forma, √© um s√≠mbolo ideal no qual se reconhece a maternidade da Igreja portadora e geradora da vida na hist√≥ria, at√© a sua realiza√ß√£o escatol√≥gica.

María del Pilar Silveira. Faculdade de Teologia da Universidade Católica Andrés Bello, Caracas, Venezuela. Texto original em espanhol.

2 Referências

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TROADEC, H. Comentario a los Evangelios Sinópticos. Madrid: Ed. Fax 1972.

[1] √Č a forma hebraica, a de raiz eg√≠pcia era Mir-yam, “Amado de Jav√©” (Mri = amada + Yam = Yahweh). Mariam no aramaico comum, simplesmente significava “Senhora”.

[2] Deve-se acrescentar que o nome pr√≥prio da m√£e de Jesus nunca aparece neste Evangelho: Maria, Maria / m. √Č uma omiss√£o que n√£o √© explicada, uma vez que o autor nomeia outras 15 “Marias” como a irm√£ de Marta, a Magdalena, a esposa de Cl√©ofas.