Consciência

Sum√°rio

1 ‚ÄúConsci√™ncia de si‚ÄĚ e ‚Äúconsci√™ncia‚ÄĚ

1.1 Perspectiva psicológica

1.2 Perspectiva ética

1.3 Perspectiva teológica

2 Perspectiva bíblica

2.1 Antigo Testamento

2.2 Novo Testamento

3 Perspectiva histórica

4 Desenvolvimento e maturidade da consciência

5 Consciência em uma chave personalista, comunitária e profética

5.1 Consci√™ncia moral aut√īnoma e autotranscendente

5.2 Consciência moral comunitária e eclesial

5.3 Consciência moral profética e libertadora

6 Encontro de moralidade e espiritualidade na consciência

7 Referências bibliográficas

Na experiência da consciência, a pessoa livre percebe sua capacidade de discernir entre o bem e o mal para decidir de forma responsável. Na consciência cristã se juntam a experiência moral humana da responsabilidade e a experiência espiritual cristã de viver a fé e caminhar no Espírito.

1 ‚ÄúConsci√™ncia de si‚ÄĚ e ‚Äúconsci√™ncia‚ÄĚ

‚ÄúConsci√™ncia de si‚ÄĚ (em ingl√™s consciousness, em alem√£o Bewusstsein) e ‚Äúconsci√™ncia‚ÄĚ (ingl√™s, Conscience, alem√£o, Gewissen) referem-se √† etimologia latina da conscientia: cum scientia, simul scire e √† grega de syn-eidesis : ‚Äúconhecer-com‚ÄĚ ou conhecimento autorreflexo, concomitante ao conhecimento de algo ou de algu√©m. A ‚Äúconsci√™ncia de si‚ÄĚ √© dita em um sentido fisiol√≥gico e psicol√≥gico de estar em um estado consciente, desperto e capaz de reconhecer-se em suas a√ß√Ķes e no meio ambiente. ‚ÄúConsci√™ncia‚ÄĚ se diz, em sentido moral ou religioso, da apreens√£o respons√°vel do valor moral e espiritual. Desde os tempos antigos, em culturas distantes uma da outra no espa√ßo e no tempo, h√° express√Ķes da vida di√°ria sobre a satisfa√ß√£o pelo bem e remorso pelo mal, como mostram, por exemplo, essas inscri√ß√Ķes: ‚ÄúO cora√ß√£o √© testemunha; voc√™ n√£o deve agir contra ele‚ÄĚ (cultura eg√≠pcia); ‚ÄúUm Deus invis√≠vel habita dentro de n√≥s” (cultura hindu); “O melhor de cada humano, seu cora√ß√£o bom e firme, para ter Deus em seu cora√ß√£o” (cultura n√°uatle).

1.1 Perspectiva psicológica

Na consciência psicológica, a pessoa, que não é uma coisa a mais entre as coisas, percebe seus próprios estados anímicos e retorna reflexivamente sobre si mesma, reconhecendo-se conscientemente como sujeito de sua vida psíquica no mundo, no tempo e em relação a outras pessoas.

1.2 Perspectiva ética

A consci√™ncia moral percebe o chamado para realizar os valores morais e cumprir as normas; julga, exercendo com prud√™ncia a raz√£o pr√°tica, sobre o que deve ou n√£o ser feito para realizar esses valores e aplicar as normas nas circunst√Ęncias concretas da vida di√°ria. S√≥crates se refere √† voz do daimon que o aconselha. S√™neca a chama de ‚Äúobservador vigilante do bem e do mal no nosso interior‚ÄĚ. Conf√ļcio disse que sempre viveu ‚Äúouvindo a voz do c√©u‚ÄĚ. Para Kant √© o ‚Äútribunal da justi√ßa no interior do homem‚ÄĚ. Considerada a partir do objeto do ju√≠zo, a consci√™ncia √© verdadeira ou err√īnea. Considerada a partir do sujeito, √© sincera ou insincera. Somos chamados a seguir o chamado da consci√™ncia e, ao mesmo tempo, reconhecer a possibilidade do erro e a necessidade de formar ou corrigir a consci√™ncia. A consci√™ncia antecedente convida a fazer o bem e a evitar o mal. A consci√™ncia consequente confirma a satisfa√ß√£o pelo bem feito e reprova o mal cometido.

1.3 Perspectiva teológica

A consci√™ncia moral crente √© identificada com a f√© que internaliza o chamado divino e expressa a resposta respons√°vel para viver praticando o amor da caridade (√°gape) com a ajuda da gra√ßa. A consci√™ncia √© voz, luz e for√ßa para responder √† realidade a partir da f√©; capacita, guia e apoia o julgamento prudencial e a decis√£o respons√°vel (CURRAN, 2004, p.7). √Č voz que chama a deixar-se conduzir pelo Esp√≠rito. √Č luz que acompanha os processos de discernimento e delibera√ß√£o sobre valores, normas e circunst√Ęncias. √Č for√ßa para decidir e curar, ou reconciliar depois de reconhecer os erros na decis√£o.

2 Perspectiva bíblica

2.1 Antigo Testamento

Na B√≠blia hebraica, ‚Äúcora√ß√£o e entranhas‚ÄĚ s√£o met√°foras da consci√™ncia. Na profundidade da interioridade, a f√© reconhece se ‚Äúo cora√ß√£o n√£o a reprova‚ÄĚ (J√≥ 27,6). Davi ‚Äúsentiu bater-lhe o cora√ß√£o‚ÄĚ de remorso por um comportamento injusto (1Sm 24,6; 2Sm 24,10). O salmista arrependido clama: ‚ÄúCria em mim, √≥ Deus, um cora√ß√£o puro, e renova em mim um esp√≠rito reto (…) um cora√ß√£o arrependido e humilhado, n√£o o desprezas, √≥ Deus‚ÄĚ (Sl 51,12-18). A√≠ Deus promete gravar sua palavra: ‚ÄúPorei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu cora√ß√£o‚ÄĚ (Jr 31,33, cf. Dt 4,39). Jeremias anuncia que ‚Äúo pecado est√° gravado na t√°bua do cora√ß√£o‚ÄĚ (Jr 17,1). J√≥ se defende: ‚Äúmeu cora√ß√£o n√£o me reprova nenhum de meus dias‚ÄĚ (J√≥ 27,6). A promessa do Esp√≠rito √©: ‚ÄúEu lhes darei um cora√ß√£o novo e lhes infundirei um esp√≠rito novo. Arrancarei o cora√ß√£o de pedra e lhes darei um cora√ß√£o de carne‚ÄĚ (Ez 11,19; 18,31; 36,26). O Criador, que ‚Äúv√™ o cora√ß√£o‚ÄĚ (1Sm 16,7), √© o ‚ÄúDeus justo que sonda o cora√ß√£o e as entranhas‚ÄĚ (Sl 7,10; Sl 139,1-7; cf. Sl 26,2; Jr 11,20; 17,10; 20,12).

2.2 Novo Testamento

Jesus prega a disposi√ß√£o interior do bom cora√ß√£o, em vez da exterioridade da consci√™ncia moral farisaica (Mt 15,7-20, Lc 11,37-42). ‚ÄúO que sai de dentro do cora√ß√£o humano √© o que mancha‚ÄĚ (Mc 7,21-23). ‚ÄúO homem bom tira coisas boas do bom tesouro que est√° em seu cora√ß√£o‚ÄĚ (Lc 6,45). Chegou o tempo a viver com um cora√ß√£o novo: Deus o transformar√°, derramando sem limites seu Esp√≠rito (Lc 4,14-21; Jo 7,39, cf. Jl, 3,1-2). Paulo integrou a tradi√ß√£o hel√™nica sobre a consci√™ncia (syneidesis) com a presen√ßa interior e ativa do Esp√≠rito. ‚ÄúAqueles que se deixam guiar pela sabedoria do Esp√≠rito tendem ao que √© pr√≥prio do Esp√≠rito‚ÄĚ (Rm 8,5), que ilumina o discernimento (Rm 14,16-23; 1Tm 1,5; 1Cor 2,6-16).

A autonomia da consci√™ncia moral do homem consiste em ser uma lei (nomos) para si mesmo (autos): uma lei n√£o escrita, gravada nos cora√ß√Ķes (Rm 2,14-15), que se explicita na consci√™ncia moral crist√£ como autonomia teon√īmica, que coincide com o sentido de viver e caminhar no Esp√≠rito. Paulo levanta as quest√Ķes morais para uma f√© e consci√™ncia adultas, em contraste com o modo de agir da crian√ßa por medo de castigo ou esperan√ßa de recompensa (Rm 14,1-4), e enfatiza a coer√™ncia da a√ß√£o com a pr√≥pria convic√ß√£o, acentuando o aspecto comunit√°rio e a repercuss√£o de nossa maneira de agir em outros membros da comunidade (Rm 14,12). Nesse texto, a palavra-chave √© ‚Äúconvic√ß√£o interna de f√©‚ÄĚ (pistis).

Paulo integrou a noção popular e filosófica de consciência (syneidesis) na era helênica com a da fé cristã, centrada na atividade do Espírito que ilumina o discernimento e fortalece a decisão. Mas o direito e o dever de agir em consciência se conjugam com o respeito pela consciência dos outros (1Cor 8,1-13 e 10,23-33).

A consci√™ncia √© a voz, guia e for√ßa do Esp√≠rito: uma voz que n√£o vem de fora, mas √© ouvida na interioridade; guia para discernir com prud√™ncia. ‚ÄúBem-aventurado aquele que examina as coisas e faz um ju√≠zo (…) o que n√£o vem da convic√ß√£o √© pecado‚ÄĚ (Rm 14,23); for√ßa para decidir de forma respons√°vel, denunciar profeticamente e testemunhar bravamente (Mt 10,19-20).

3 Perspectiva histórica

A tradição patrística pregava a resposta fiel ao chamado de uma consciência que era, ao mesmo tempo, humana ou natural e cristã ou espiritual; mas os latinos acentuaram mais as imagens da consciência como tribunal, juiz ou testemunho interior, enquanto os gregos preferiam a comparação com o pedagogo, guia e acompanhante.

A tradi√ß√£o mon√°stica e m√≠stica cultivou o discernimento segundo a consci√™ncia que se deixa guiar pelo Esp√≠rito; mas, nas controv√©rsias medievais sobre f√© e raz√£o, discorre, por raz√Ķes diferentes, sobre a moral vivida a partir da f√© pelo caminho asc√©tico-m√≠stico e a moral pensada nas disputas escol√°sticas. O exemplo disso √© a controv√©rsia sobre os aspectos subjetivo e objetivo da consci√™ncia (Bernardo vs. Abelardo), que desembocou na s√≠ntese tomista de uma consci√™ncia iluminada pela lei nova e interior do Esp√≠rito, para viver a primeira virtude teologal da caridade, atrav√©s do discernimento pr√°tico de acordo com a primeira virtude cardinal da prud√™ncia.

A tradi√ß√£o escol√°stica distinguiu a consci√™ncia como capacidade de discernir o bem e o mal (synderesis) e como aplica√ß√£o concreta (syneidesis, conscientia). Tom√°s de Aquino (In 2 Sent., disp. 24, q.2, a.4) exp√īs isso em forma silog√≠stica: a premissa maior, fruto da synderesis; a menor, da ratio, que determina o motivo de tal a√ß√£o ser m√°; a conclus√£o, fruto do julgamento da conscientia.

Na época dos manuais de teologia moral, a partir do séc. XVII, tendeu-se a reduzir o papel da consciência para aplicar princípios de forma dedutiva, com clareza e certeza para impor normas e censurar falhas.

Nas controv√©rsias sobre sistemas morais laxistas, rigoristas ou equilibrados (probabilismo, probabiliorismo, equiprobabilismo) para superar d√ļvidas no julgamento e na decis√£o moral, a consci√™ncia parecia ser reduzida a um instrumento para captar a lei moral e aplic√°-la. Este enfoque come√ßou no s√©culo XIV (Ockham), pela mentalidade voluntarista, legalista e extrinsecista, que via a consci√™ncia como um simples √°rbitro do encontro entre lei objetiva e decis√£o subjetiva.

Os debates do séc. XX, sobre a ética da situação, provocaram a reação autoritária do magistério eclesiástico, mas redescobriram o discernimento espiritual, esquecido após o divórcio entre teologia moral e teologia mística.

O Concílio Vaticano II reafirmou a tradição do discernimento e assumiu a autonomia de uma consciência madura, que não deve ser confundida com um superego ou um impulso inconsciente freudiano (Gaudium et spes n.16-17, Dignitatis humanae, n.3 e 14).

O desenvolvimento renovador da moral teol√≥gica p√≥s-conciliar avan√ßou paralelamente √† crise de consci√™ncia suscitada pela rejei√ß√£o de m√©todos anticoncepcionais considerados ‚Äún√£o naturais‚ÄĚ na enc√≠clica Humanae vitae. Muitos dos bispos e te√≥logos questionaram a √™nfase excessiva no relacionamento entre o magist√©rio eclesi√°stico e a consci√™ncia obediente (H√ĄRING, 1981; MCCORMICK, 1989, p.38-41). Mas essa crise favoreceu a reflex√£o sobre a fun√ß√£o da consci√™ncia capaz de dissentir de forma respons√°vel: n√£o dissentir ‚Äúda‚ÄĚ igreja, mas dissentir ‚Äúna‚ÄĚ igreja, sentindo-se igreja, para colaborar dessa maneira com a evolu√ß√£o da compreens√£o da f√© e de sua pr√°tica. Por outro lado, desenvolveu-se, nas d√©cadas seguintes, uma rea√ß√£o oposta, de tend√™ncia restauracionista, para retornar ao modo de entender a consci√™ncia na teologia p√≥s-tridentina, como foi exposto pelo esquema De ordine morali, escrito pela comiss√£o preparat√≥ria, mas rejeitado pelo Conc√≠lio.

A enc√≠clica de Jo√£o Paulo II, Veritatis Splendor (VS, 1993), estava preocupada em evitar a crescente oposi√ß√£o entre as abordagens renovadoras, que buscavam recuperar a melhor tradi√ß√£o da consci√™ncia (cf. VS n.38, 41, 42) e as tend√™ncias antirrenovadoras, que enfatizavam o autoritarismo do magist√©rio eclesi√°stico (ver VS n.53, 59, 82). Mas, afetada pelo medo do relativismo e do subjetivismo dessas duas d√©cadas, essa enc√≠clica colocou, de fato, um freio √† renova√ß√£o p√≥s-conciliar, criticando as correntes teol√≥gicas dessa linha (VS n.4, 5, 67, 90, 115). As exorta√ß√Ķes p√≥s-sinodais do Papa Francisco (Evangelii gaudium ‚Äď EG e Amoris laetitia ‚Äď AL) recuperaram a mudan√ßa de paradigma p√≥s-conciliar reafirmando uma moral de discernimento (AL n.300-312), que fala mais de gra√ßa do que de lei (EG n.38), focada na caridade e na miseric√≥rdia (EG n.37), respeitando a gradualidade e as limita√ß√Ķes no crescimento e matura√ß√£o da consci√™ncia (EG n.44-45), acompanhando o discernimento e ajudando a formar as consci√™ncias, mas sem pretender substitu√≠-las (AL n.37) nem proibi-las de pensar, decidir e amar por e a partir de si mesmas.

4 Desenvolvimento e maturidade da consciência

A psicologia evolutiva e a psicopedagogia (Piaget, Kohlberg) exploraram o desenvolvimento da consci√™ncia moral no indiv√≠duo. A antropologia cultural, a sociologia e a psican√°lise (Durkheim, Freud) estudaram a evolu√ß√£o do sentido moral na diversidade de √©pocas e culturas. Essas abordagens sugeriram est√°gios de crescimento, tanto na consci√™ncia individual como na hist√≥ria da esp√©cie: prenomia, tabus, condicionamentos heteron√īmicos, subjetividade auton√īmica, reciprocidade e objetividade universalizadoras. Mas, tanto biogr√°fica quanto historicamente, a complexidade dos avan√ßos e retrocessos impede a organiza√ß√£o desses est√°gios de crescimento de acordo com uma sequ√™ncia ideal homog√™nea. Em vez disso, eles expressam a aspira√ß√£o √† maturidade de uma consci√™ncia moral vista a partir do auge de reflex√Ķes atuais. A psicoterapia aplicada √† espiritualidade apresentou o desenvolvimento para a matura√ß√£o em ‚Äúcinco n√≠veis de consci√™ncia‚ÄĚ; 1) sensorial (um ego indiferenciado e dependente); 2) individual (um ego autocentrado independente); 3) pessoal (um sujeito interdependente, um ‚Äún√≥s‚ÄĚ); 4) c√≥smica (interdependente com solidariedade universal); e 5) eterna (em comunh√£o com o absoluto) (S√ĀNCHEZ-RIVERA, 1981).

Essas propostas diversas sobre a g√™nese e o desenvolvimento da consci√™ncia convergem em uma no√ß√£o din√Ęmica e hol√≠stica de consci√™ncia moral, que concebe a tarefa e o m√©todo de educ√°-la. Em vez de reduzir a consci√™ncia moral a reconhecer mandatos ou proibi√ß√Ķes e recompensar o cumprimento ou reprovar a infra√ß√£o, ela se revela como a semente da capacidade de captar valores morais pessoais e transcendentes. Se a voz da consci√™ncia diz: torne-se o que voc√™ √© e est√° chamado a ser, a educa√ß√£o moral ter√° de facilitar o dinamismo do crescimento humano para compreender e responder aos valores pessoais, espirituais e totais como, por exemplo, amar e se deixar amar, perdoar e se deixar perdoar, agradecer e se deixar agradecer.

5 A consciência em uma chave pessoal, comunitária e profética

A teologia moral p√≥s-tridentina, at√© meados do s√©c. XX, al√©m de continuar distanciando-se da teologia espiritual, tamb√©m permaneceu isolada das correntes filos√≥ficas da consci√™ncia na modernidade e na p√≥s-modernidade, n√£o dialogando com o pensamento moderno sobre a autoconsci√™ncia (Descartes), nem com a autonomia, a categoriza√ß√£o e a universalidade da moral cr√≠tica (Kant); nem com as suspeitas p√≥s-modernas contra a consci√™ncia (Nietsche e Freud); nem com a abordagem sobre a voz da consci√™ncia na fenomenologia existencial e hermen√™utica (Sartre, Heidegger). Esses esquecimentos e distanciamentos foram recuperados nas reflex√Ķes sobre a consci√™ncia feitas por aqueles que t√™m relido a tradi√ß√£o b√≠blica, espiritual e o melhor de Santo Tom√°s e Kant, articulando-a com as contribui√ß√Ķes da fenomenologia existencial (Rahner, Fuchs, Lonergan), a antropologia hermen√™utica (Ricoeur) e as teorias cr√≠ticas da sociedade (Metz, Guti√©rrez, Boff), dando origem √† abordagem personalista, comunit√°ria e libertadora para a qual se encaminha o atual modo de entender a consci√™ncia. Esta concep√ß√£o de consci√™ncia amadureceu ao longo das controv√©rsias p√≥s-conciliares: moral da f√© vs. autonomia (GAZIAUX, 1995), o magist√©rio eclesi√°stico vs. assentimento e dissenso individual (MIETH, 1994) e sobre as teorias da liberta√ß√£o (VIDAL, 2000).

5.1 Consci√™ncia moral aut√īnoma e autotranscendente

A consci√™ncia √© express√£o do melhor de si mesmo no n√ļcleo √≠ntimo da pessoa, chave de sua dignidade. Para a teologia, a consci√™ncia somos n√≥s mesmos, ultimamente vinculados a Deus pela f√© em atitude de escuta. Para a antropologia moral, a consci√™ncia √© a voz da autenticidade que nos chama a sermos n√≥s mesmos. A voz que escutamos como chamado √† autenticidade de nossa autonomia √©, em √ļltima an√°lise, voz de Deus (teonomia), mas de um Deus que, por seu Esp√≠rito, est√° em nossa intimidade, n√£o para se impor de maneira heter√īnoma, mas para fazer com que sejamos aut√īnomos (autonomia teon√īmica) (CAFFARENA, 1983, p.244). Se a consci√™ncia moral capta o bem e o mal nos atos livres como imperativo de autorrealiza√ß√£o, a quest√£o radical de ‚Äúquem eu quero ser‚ÄĚ ser√° mais importante do que a pergunta ‚Äúo que devo fazer‚ÄĚ; ao optar em consci√™ncia pelo bem, eu me escolho como um projeto de personaliza√ß√£o e humaniza√ß√£o (L√ďPEZ AZPITARTE, 1994, p.52-54).

A consci√™ncia, √† escuta do chamado do Esp√≠rito que a capacita para responder, √© a percep√ß√£o pessoal da resposta apropriada. A profundidade na resposta seria a op√ß√£o fundamental, e a falha na resposta seria o pecado. A consci√™ncia √© o centro da nossa interioridade, o pano de fundo dos julgamentos e decis√Ķes que exercitam a prud√™ncia. √Č assim que o senso de consci√™ncia esteve intimamente relacionado com o fato de perceber explicitamente suas pr√≥prias atitudes b√°sicas e op√ß√Ķes fundamentais, chave para a coer√™ncia e continuidade da vida moral do sujeito. ‚ÄúO sujeito autenticamente pessoal, convertido intelectual, moral, emocional e religiosamente, atua no mais alto n√≠vel de consci√™ncia existencial, moral e respons√°vel‚ÄĚ (LONERGAN, 1973, p.5).

5.2 Consciência moral comunitária e eclesial  

Outro significado do prefixo con de ‚Äúcons-ci√™ncia‚ÄĚ, sugere o aspecto social do discernimento moral. Embora o √ļltimo passo de um processo de discernimento seja um ju√≠zo e decis√£o, cuja responsabilidade √© pessoal e intransfer√≠vel, a contribui√ß√£o comunit√°ria √© inevit√°vel ao longo do caminho para a tomada de decis√Ķes, assim como na forma√ß√£o da consci√™ncia. As faces do poliedro da consci√™ncia que discerne s√£o: a) atitudes b√°sicas, b) dados sobre as circunst√Ęncias, c) interpreta√ß√£o-reflex√£o, d) contraste-conselho, e e) decis√£o pessoal, prudente e respons√°vel (MASI√Ā, 2015).

Nos passos prévios à decisão, o ponto de vista comunitário desempenha um papel importante.

a) A comunidade eclesial ajuda a configurar atitudes b√°sicas da f√©, influenciando a maneira de perceber a realidade, gerando h√°bitos de pensar, valorizar e agir, influenciando, assim, nos ju√≠zos morais e nas decis√Ķes. Aquele que cr√™ foi educado em uma tradi√ß√£o na qual recebeu algumas orienta√ß√Ķes e crit√©rios. As normas transmitidas tradicionalmente s√£o refer√™ncia importante; mas n√£o excluem a necessidade de pensar e decidir por si mesmo. A comunidade ajuda a formar a consci√™ncia e a acompanha no discernimento, mas n√£o a substitui.

b) A consci√™ncia n√£o funciona bem sem bons dados de experi√™ncia de vida e das ci√™ncias. Ao manter os mesmos valores e princ√≠pios, diferentes conclus√Ķes podem ser deduzidas de acordo com a mudan√ßa nos dados. Somente com dados n√£o podemos discernir, mas sem eles n√£o podemos fazer um bom discernimento. A comunidade de informa√ß√£o e comunica√ß√£o, tanto dentro como fora da Igreja, ajuda a garantir esses dados.

c) A partir das atitudes básicas diante dos valores e com dados suficientes, um julgamento deve ser emitido em cada caso. Aqui entra em jogo o papel de um pensar honesto que pergunta, analisa os dados, interpreta e não cessa de buscar criativa e criticamente as respostas. Esse pensar não evita nem substitui a fé, nem a ciência ou a experiência.

d) N√£o estamos sozinhos diante da urg√™ncia da decis√£o. Precisamos da ajuda de outras pessoas para contrastar as interpreta√ß√Ķes. Diversas comunidades de pessoas podem ajudar: por exemplo, a comunidade de pesquisadores cient√≠ficos; a comunidade do di√°logo de pensamento; a comunidade de rela√ß√Ķes humanas dentro de uma sociedade plural; as comunidades que compartilham convic√ß√Ķes religiosas etc. No √Ęmbito destas ajudas, se enquadra o papel orientador destas √ļltimas ‚Äď que nunca deve ser dominante ou autorit√°rio ‚Äď a partir das respectivas tradi√ß√Ķes comunit√°rias, culturais ou religiosas. Ajuda-nos a corrigir a passagem do tempo e a rela√ß√£o com as outras pessoas.

Os debates, no final do s√©culo passado, na Igreja, sobre o sentir e dissentir ajudaram a amadurecer a consci√™ncia eclesial, para al√©m das velhas oposi√ß√Ķes entre consci√™ncia individual e¬† magist√©rio eclesi√°stico, na compreens√£o do papel do acompanhamento pastoral como aux√≠lio ao discernimento da consci√™ncia, mas sem substitu√≠-la para decidir em seu lugar. √Č papel da comunidade eclesial ajudar a educar o ju√≠zo moral e a forma√ß√£o da consci√™ncia dos fi√©is. Como portadora de uma tradi√ß√£o em quest√Ķes morais, a Igreja acumulou, ao longo dos s√©culos, uma riqueza de sabedoria pr√°tica que fornece importantes orienta√ß√Ķes na hora de discernir. A consci√™ncia as respeitar√° de forma cr√≠tica, mas sem consider√°-las como um armaz√©m de respostas pr√©-fabricadas. A comunidade de f√© torna-se o lugar onde seus membros podem dialogar, estudar e discernir em comum os problemas morais. O papel da igreja, mais do que o de legislar, √© o de iluminar, a partir de uma dimens√£o elevada, com propostas de valores. √Äs vezes, ter√° que assumir uma posi√ß√£o oficial sobre problemas concretos, cumprindo, perante a sociedade, uma fun√ß√£o que pode ser, de acordo com os casos, terap√™utica ou prof√©tica. Quanto mais concretos forem os problemas, menos radicalmente assertivas poder√£o ser as tomadas de posi√ß√£o. Respeitar essas tomadas de posi√ß√£o oficiais da igreja n√£o significa segui-las cegamente, como se elas eximissem de pensar e decidir conscientemente.

e) Uma decis√£o respons√°vel (que n√£o √© o mesmo que correta ou com cem por cento de certeza) seria a que levasse devidamente em considera√ß√£o as quatro etapas anteriores. Talvez, depois de algum tempo, analisemos a decis√£o e descubramos que estava errada; mas isso n√£o significa que tenha sido irrespons√°vel. Nesse sentido, foi uma decis√£o eticamente correta. A consci√™ncia antecedente ter√° que pressupor atitudes b√°sicas de resposta aos valores, antes do mencionado processo de informar-se, pensar e debater. Durante o processo, a consci√™ncia tamb√©m deve ser uma consci√™ncia acompanhada comunit√°ria e eclesialmente. Depois de passar pelo processo, √© necess√°rio responsabilidade para adotar resolu√ß√Ķes prudentes conscientes, que n√£o precisam depender cem por cento de certezas, nem podem ser impostas a outras pessoas. Quando queremos conjugar o respeito √†s pessoas com a fidelidade √†s normas, os conflitos s√£o inevit√°veis. Nessas ocasi√Ķes, a sabedoria pr√°tica deve intervir como mediadora. ‚ÄúA sabedoria pr√°tica‚ÄĚ, diz Ricoeur, ‚Äúconsiste em inventar as condutas que melhor satisfa√ßam √†s exce√ß√Ķes exigidas pela nossa solicitude para com as pessoas, traindo o menos poss√≠vel as normas‚ÄĚ (RICOEUR, 1990, p.312).

5.3 Consciência moral profética e libertadora

A teologia da liberta√ß√£o tem revalorizado o papel prof√©tico e libertador da consci√™ncia, ao mesmo tempo em que promove o chamado √† a comunidade crente para converter-se em voz dos sem voz e consci√™ncia social que denuncie a manipula√ß√£o ideol√≥gica das consci√™ncias, a opress√£o e exclus√£o das pessoas, al√©m fomentar a conscientiza√ß√£o sobre tal situa√ß√£o. O clamor do povo injusti√ßado (Ex 3,7), as den√ļncias de injusti√ßa pelos profetas (Am 5,18-24) e a mensagem evang√©lica de proximidade e miseric√≥rdia (Lc 10 e Mt 25) se atualizam no contexto de teologias libertadoras como responsabilidade da consci√™ncia prof√©tica, para reconhecer as injusti√ßas sist√™micas e males estruturais que exigem ser denunciados pela comunidade solid√°ria com as v√≠timas. Esta consci√™ncia prof√©tica chama n√£o s√≥ aliviar a dor e a pobreza, mas a quebrar as suas causas sociais, estruturais, pol√≠ticas e econ√īmicas. Essa consci√™ncia atualiza, a partir da f√©, o amor ao pr√≥ximo na luta contra toda viol√™ncia, racismo, exclus√£o, discrimina√ß√£o etc. N√£o o faz pedindo paternalmente que se inclua o pobre no sistema, mas exigindo a mudan√ßa do sistema que exclui o pobre. Esta consci√™ncia ouve Deus escutando o clamor do pobre, o que a levar√° a orientar seu discernimento e motivar√° suas decis√Ķes.

6 Encontro de moralidade e espiritualidade na consciência

A teologia m√≠stica de Boaventura viu na consci√™ncia, capaz de captar o bem, um movimento amoroso da vontade, ao inv√©s de um julgamento cognitivo. Mas a conjuga√ß√£o da delibera√ß√£o √©tica e do discernimento espiritual enfraqueceu-se √† medida que se acentuava a desconex√£o entre a moralidade e a espiritualidade. Do s√©c. XVII ao s√©c. XIX cresceu a dist√Ęncia entre moral de preceitos e espiritualidade dos conselhos evang√©licos. Em meados do s√©culo XX, chegam com atraso as tentativas de recuperar o di√°logo da moral teol√≥gica com a espiritualidade. A recupera√ß√£o da tradi√ß√£o b√≠blica de discernimento e da tradi√ß√£o filos√≥fica reflexiva ajudam a relacionar, ao mesmo tempo em que as diferenciam, as fun√ß√Ķes respectivas da experi√™ncia moral e da experi√™ncia religiosa.

A voz da consci√™ncia, que dita o que deve ser feito ou n√£o ser feito, ‚Äúsai das profundezas de mim mesmo (…) √© o clamor da realidade no caminho do absoluto (ZUBIRI, 2007, p.101-104). A experi√™ncia metaf√≠sico-religiosa da religa√ß√£o e a experi√™ncia moral da obriga√ß√£o s√£o diversas, mas relacionadas. ‚ÄúEstamos obrigados a algo porque anteriormente estamos religados ao poder que nos faz ser‚ÄĚ. (ZUBIRI, 2007, p.93). A experi√™ncia da religa√ß√£o √© o fundamento da consci√™ncia moral da obriga√ß√£o. O fen√īmeno da consci√™ncia n√£o se reduz a uma obriga√ß√£o moral. A consci√™ncia n√£o se reduz a um fen√īmeno moral. Nela, duas experi√™ncias diferentes, a moral e a religiosa, est√£o intimamente relacionadas. ‚ÄúA voz da consci√™ncia √© (…) a palpita√ß√£o e a batida da divindade no seio do esp√≠rito humano‚ÄĚ (ZUBIRI, 1997, p.66-67). A experi√™ncia filos√≥fico-religiosa da ‚Äúreliga√ß√£o‚ÄĚ fundamenta a experi√™ncia moral da obriga√ß√£o. ‚ÄúDeus est√° manifesto nas profundezas de cada homem (…) na voz absoluta da consci√™ncia‚ÄĚ (ZUBIRI, 1997, p.72-73). A dimens√£o religiosa da realidade pessoal se desvela na consci√™ncia, lugar de encontro de moralidade e espiritualidade.

Juan Masiá, SJ. Universidad Católica Santo Tomás, Osaka (Japão).

 7 Referências bibliográficas

 CURRAN, C. (ed.). Conscience. New York: Paulist Press,  2004.

G√ďMEZ CAFFARENA, J. El teismo moral de Kant. Madrid: Cristiandad. 1983.

GAZIAUX, E. Morale de la foi et morale naturelle. Louvain: Ephem. Theol. Louvain. n.119, 1995.

H√ĄRING, B. Libertad y fidelidad en Cristo. Barcelona: Herder, 1981.

LONERGAN, B. Method in Theology. London: Darton, Longman, 1973.

L√ďPEZ AZPITARTE, E. Fundamentaci√≥n de la √©tica cristiana. M√©xico: San Pablo, 1994.

______. Hacia un nuevo rostro de la moral Cristiana. México: Universidad Iberoamericana, 2000.

McCORMICK, R. The critical calling. Washington: Georgetown Univ. Press, 1989.

MAHONEY J. The Making of Moral Theology. Oxford: Clarendon Press, 1987.

MASI√Ā, J. Animal vulnerable. Madrid: Trotta, 2015.

MIETH, D. La teología moral fuera de juego.  Barcelona: Herder, 1994.

RICOEUR, P. Soi même comme un autre. Paris: Seuil, 1990.

S√ĀNCHEZ RIVERA, J. M. Integraci√≥n ps√≠quica y psicolog√≠a human√≠stica. Madrid: Marova, 1981.

VIDAL, M. Nueva moral fundamental. El hogar teológic de la ética. Bilbao: Desclée De Brouwer, 2000.

ZUBIRI, X. El problema filosófico de la historia de las religiones. Madrid: Alianza y Fundación Xavier Zubiri, 1993.

____. El hombre y Dios. Madrid: Alianza y Fundación Xavier Zubiri, 2007.

 Para saber mais

 Bockle, Franz. Hacia una conciencia cristiana: conceptos basicos de la moral. Estella: Verbo Divino, 1981.

MAJORANO, S. A Consciência. Uma visão cristã. Aparecida: Santuário, 2000.

Ruf, Karl. Curso Fundamental de teologia moral: consciência e decisão. São Paulo: Loyola, 1994.

BUR√ďN OREJAS, Javier. Psicolog√≠a y conciencia moral. Santander: Sal Terrae, 2010.

DUQUE, Roberto Esteban. La voz de la conciencia. Madrid: Encuentro, 2015.

DAMASIO, Ant√īnio. O mist√©rio da consci√™ncia: do corpo e das emo√ß√Ķes ao conhecimento de si. S√£o Paulo: Companhia das Letras, 2005.

DI BIASE, Francisco; AMOROSO, Richard. (orgs.) A revolução da consciência: novas descobertas sobre a mente no Século XXI. Petrópolis: Vozes, 2004.

GUARDINI, Romano. La coscienza. 4.ed. Brescia: Morcelliana, 1977.

GURWITSCH, Aron. El campo de la conciencia: un análisis fenomenológico. Madrid: Alianza, 1979.

HABERMAS, Jurgen. Conciencia moral y acción comunicativa. Madrid: Trotta, 2008.

KENNETH, Overberg. Consciência em conflito. São Paulo: Paulus, 1999.

LAIN, Vanderlei. Nova consciência: a autonomia religiosa pós-moderna. Recife: Libertas, 2008.

VAZ, Henrique C. L. A crise e verdade da consciência moral. Síntese, v.25, n.83, 1998. p.461-476.

LONERGAN, Bernard. La formazione della coscienza. Brescia: La Scuola, 2010.

MAJORANO, Sabatino. A consciência: uma visão cristã. Aparecida: Santuário, 2000.

PRIVITERA, S. Consciência. In: COMPAGNONI, F.; PIANA, G.; PRIVITERA, S. (orgs.) Dicionário de Teologia Moral. São Paulo: Paulus, 1997, pg. 137-153.

SEARLE, John R. The mystery of consciousness. New York: The New York Review of Books, 1997.

STRECK, Lenio Luiz. O que √© isto ‚Äď decido conforme minha consci√™ncia? Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010.

THOMPSON, William M. Christ and consciousness: exploring Christ’s contribution to human consciousness: the origins and development of christian consciousness. New York: Paulist Press, 1977.

VALADIER, Paul. Elogio da consciência. São Leopoldo: Unisinos, 2000.

WEBB, Eugene. Fil√≥sofos da consci√™ncia: Polanyi, Lonergan, Voegelin, Ricoeur, Girard, Kierkegaard. S√£o Paulo: √Č Realiza√ß√Ķes, 2013.