A quest√£o do mal

Sum√°rio

Introdução

1 A experiência humana do mal na história da teologia moral

1.1 Primeira experiência humana do mal

1.2 Na historia da teologia moral

2 Características do mal

3 Simbólica do mal

4 Culpa e pecado

5 Formas de express√£o

6 Resposta ao mal

7 Jesus frente ao mal

Referências

Introdução

Antes de iniciar o desenvolvimento de cada um dos pontos mencionados, √© necess√°rio situar, de forma muito breve, o assunto do mal. Em primeiro lugar, √© importante notar que o problema do mal tem sido e pode ser abordado de v√°rias maneiras, por exemplo, a partir de um ponto de vista psicol√≥gico; outros acreditam que o mal √© uma quest√£o de natureza metaf√≠sica, outros que √© quase exclusivamente moral. Mas, em primeiro lugar, todos concordam que o mal √© uma realidade que afeta os seres humanos. Em segundo lugar, h√° v√°rias teorias sobre a natureza do mal, entre as quais est√£o aquelas que dizem: a) o mal faz parte da realidade; b) o mal √© o √ļltimo grau de ser, entendido este grau como pobreza ontol√≥gica; c) o mal faz parte do real, mas como uma entidade que opera dinamicamente e contribui para o desenvolvimento l√≥gico-metafisico do que existe; d) o mal √© o sacrif√≠cio que executa uma parte para o benef√≠cio do todo; e) o mal √© uma completa falta de realidade, √© pura e simplesmente o n√£o ser; f) o mal √© concebido como um afastamento de Deus e, nesta perspectiva religiosa, √© concebido como uma manifesta√ß√£o do pecado. Em terceiro lugar, as doutrinas mais importantes sobre a origem do mal apresentam que: a) o mal procede de Deus ou da causa primeira; b) o mal tem sua origem no ser humano; c) o mal √© o resultado do acaso; d) √© uma consequ√™ncia da natureza, da mat√©ria ou de outras fontes. Tradicionalmente, os tipos de males foram classificados entre o mal f√≠sico, o que equivale a dor e sofrimento, e o mal moral, que √© identificado com o pecado (e alguns autores concluem que esta √© a origem do mal f√≠sico). A partir de Leibniz, que classificou o mal em tr√™s tipos ‚Äď metaf√≠sico, f√≠sico e moral ‚Äď, fala-se tamb√©m do mal metaf√≠sico. H√°, tamb√©m, as seguintes maneiras de enfrentar o mal, ou atitudes frente a este que se identificaram: a) a aceita√ß√£o do mal; b) o desespero; c) a fuga; d) a ades√£o; e) a a√ß√£o individual ou coletiva para transformar radicalmente o mal (FERRATER MORA, 1979, p. 2079-2086).

Finalmente, √© importante ressaltar que a maioria das religi√Ķes tem entendido o problema do mal essencialmente desde sua dimens√£o moral e n√£o como uma quest√£o f√≠sica ou metaf√≠sica, mas nas hist√≥rias m√≠ticas todos estes aspectos est√£o sempre relacionados. Para a grande maioria das religi√Ķes o mal consistiu em uma viola√ß√£o da lei divina, portanto, o sofrimento, dor e morte s√£o consequ√™ncias da infra√ß√£o (GONZ√ĀLEZ, 2014, p. 49).

1 A experiência humana do mal na historia da teologia moral

1.1 Primeira experiência humana do mal

Devemos come√ßar destacando que abordar uma reflex√£o sobre a quest√£o do mal n√£o √© uma tarefa f√°cil ou simples, porque de todos os problemas, a presen√ßa do mal no mundo √©, sem d√ļvida, o que levanta mais perguntas. A dificuldade reside, tamb√©m, na multiplicidade de abordagens devido √† diversidade de maneiras com que se apresenta o mal (LATOURELLE, 1984, p. 335-337).

Da mesma forma, devemos esclarecer que levantar a questão do mal em termos de problema é uma consideração que pode ser incompleta e insuficiente, uma vez que o mal é uma realidade também apresentada como um mistério (LACOSTE, 2007, p. 733). Podemos dizer que se o mal é tanto problema quanto mistério, a sua abordagem não pertence exclusivamente ao campo filosófico, mas também ao campo religioso e teológico (LATOURELLE, 1984, p. 337-339).

Todo o enigma do mal radica em que entendemos sob o mesmo termo, pelo menos na tradi√ß√£o judaico-crist√£ ocidental, fen√īmenos t√£o diversos como, em uma primeira aproxima√ß√£o, o pecado, o sofrimento e a morte. Pode-se mesmo dizer que, se a quest√£o do mal se distingue de pecado e culpa, √© porque o sofrimento √© constantemente tomado como um termo de refer√™ncia (RICOEUR, 2007, p. 23-24).

Al√©m disso, o fen√īmeno do mal √© um fato indiscut√≠vel na experi√™ncia humana (BRAVO, 2006, p. 17). De uma coisa, todos os seres humanos, e n√£o apenas os crist√£os, estamos cientes: a exist√™ncia do mal. N√≥s n√£o precisamos de uma revela√ß√£o particular ou uma demonstra√ß√£o espec√≠fica para verificar a experi√™ncia dos seus efeitos (GUTIERREZ, 2014, p. 21). Todos n√≥s podemos ver como ‚Äúo problema do mal corta como uma espada, dura e terr√≠vel, toda a hist√≥ria da humanidade. Nenhuma cultura, e dentro dela nenhum indiv√≠duo poderia escapar de seu enfrentamento‚ÄĚ (TORRES, 2011, p. 11). A partir desta experi√™ncia do mal surgem quest√Ķes prementes. Por que a fome? Por que os genoc√≠dios? Por que tal crueldade? Por que tantas guerras sem sentido? Por que o sofrimento de tantos seres humanos inocentes? (RUBIO, 1999, p. 151-155).

Esta experi√™ncia humana do mal √© encontrada em fen√īmenos naturais como terremotos, secas, vulc√Ķes, inunda√ß√Ķes etc.; em males f√≠sicos e ps√≠quicos que est√£o relacionados com a doen√ßa f√≠sica e mental. Do mesmo modo a experi√™ncia do mal est√° presente no mal moral que afeta os indiv√≠duos e grupos. Poder√≠amos dizer que o √ļltimo, o mal moral, desde uma perspectiva teol√≥gica, refere-se ao pecado. Tem sua origem no cora√ß√£o do homem e √© a causa da maioria das doen√ßas f√≠sicas e ps√≠quicas (LATOURELLE, 1984, p. 339-340). Portanto, a experi√™ncia do mal √© teologicamente ligada ao que chamamos de pecado estrutural, o pecado coletivo ou pecado social (ESTRADA, 2012, p. 92). Assim, o mal moral refere-se a uma problem√°tica de liberdade. Intrinsecamente. Assim, √© poss√≠vel ser respons√°vel por ele, assumi-lo, confess√°-lo e combat√™-lo. O mal est√° inscrito no cora√ß√£o do ser humano. O mal remete a uma quest√£o da liberdade, ou da moral (RICOEUR, 2007, p. 15). Se √© assim, a quest√£o j√° n√£o √© de onde vem o mal, mas de onde vem que o homem fa√ßa o mal.

1.2 Na historia da teologia moral

Os Padres da Igreja, desde Orígenes, Clemente de Alexandria, Gregório de Nissa, até Agostinho, levantaram o problema do mal com referência à criação. No entanto, e desde Agostinho, o mal é concebido não só como negatividade, mas, acima de tudo, como a decisão livre da pessoa. A causa é a deficiência da pessoa que se aplica a toda a sua vontade. Pois, embora o ser humano tenda, por sua natureza, para o bem, sempre há a possibilidade de escolher o mal. Nisso reside a grandeza do homem, mas também a maior deficiência do seu ser (GONZALEZ, 2014, p. 5-9). A partir desta abordagem falamos não de mal, mas do pecado constitutivo, e este como uma causa do pecado pessoal e do mal moral.

2 Características do mal

No contexto da racionalidade ocidental e da religi√£o judaico-crist√£, o mal se caracteriza por ser universal, irracional, pessoal e social. √Č universal porque nele testemunham os mitos mais antigos que procuram explicar a presen√ßa do mal no mundo[1].

Todas as etapas da hist√≥ria s√£o atravessadas pela presen√ßa do mal que, sob diversas formas, chega at√© o presente. O mal, pelo menos como uma amea√ßa,¬† √© encontrado em todas as realidades criadas e adota uma multiplicidade de formas, portanto, podemos dizer que a sua presen√ßa √© universal e pluridimensional (GELABERT, 1999, p. 191-192). O mal √© irracional. O mal √© sempre irracional, n√£o tem raz√£o de ser e est√° al√©m de toda raz√£o (GELABERT, 1999, p. 192-193). Como exemplo, podemos ver essa irracionalidade nos campos de concentra√ß√£o de Auschwitz, nos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, apenas para ilustrar o que dizemos. No entanto, s√£o muitas as situa√ß√Ķes que mostram a irracionalidade do mal.

Uma das características mais importantes é que o mal é um problema da liberdade humana. Por esta razão, o ser humano pode ser responsável por ele, aceitá-lo, confessá-lo e combatê-lo. O mal está escrito no coração do homem, portanto, o mal é também de ordem moral, como já tínhamos apontado (RICOEUR, 2007, p. 15).

3 Simbólica do mal

A simb√≥lica do mal √© uma tentativa de interpretar, compreender e explicar a quest√£o do mal. Em outras palavras, √© uma hermen√™utica porque, como diz Ricoeur, ‚Äúse ‚Äėo s√≠mbolo d√° que pensar‚Äô, o que a simb√≥lica do mal d√° que pensar se refere √† grandeza e ao limite de qualquer vis√£o √©tica do mundo, j√° que o homem que mostra esta simb√≥lica n√£o parece menos v√≠tima que culpado‚ÄĚ (RICOEUR, 2004, p. 17). Os s√≠mbolos s√£o signos que expressam e comunicam um sentido, Ricoeur justamente diz que mythos j√° √© logos¬† (RICOEUR, 2004, p. 179-183). Dentro das cosmovis√Ķes religiosas que Ricoeur apresenta, podem ser descritos quatro tipos de mitos sobre o mal: 1) na primeira narrativa m√≠tica, Ricoeur situa o in√≠cio do mal na origem mesma do ser, nos deuses que criam o mundo; 2) em um segundo grupo de mitos, afirma que o destino marca os acontecimentos e o mal, portanto, √© intr√≠nseco √† exist√™ncia e ao sofrimento permanente; 3) o terceiro √© o mito ad√Ęmico judaico-crist√£o, que diz que foi o ser humano quem introduziu o mal no mundo; 4) finalmente, h√° o mito √≥rfico, que indica que uma alma de origem divina √© aprisionada em um corpo que a arrasta para o mal (DE COSSIO, 2011, p. 338-339). N√£o h√°, na verdade, uma linguagem direta, n√£o simb√≥lica, do mal padecido, sofrido ou cometido. Ou seja, o homem j√° se reconhece a si mesmo como respons√°vel ou v√≠tima de um mal que o ataca e que √© expresso, desde um princ√≠pio, numa simb√≥lica (RICOEUR, 2004, p. 27). No entanto, os s√≠mbolos do mal, por excel√™ncia, s√£o a indig√™ncia e a finitude (ESTRADA, 2012, p. 74)

4 Culpa e pecado

Foi dito no primeiro ponto deste escrito que o mal √© concebido n√£o s√≥ como falta ou negatividade, mas tamb√©m como livre escolha do ser humano. √Č que ‚Äúo mal pertence ao drama da liberdade humana. √Č o pre√ßo da liberdade‚ÄĚ (SAFRANSKI, 2005, p. 10). Assim, √© a partir dessa abordagem que dever√≠amos falar, j√° n√£o do mal, mas do pecado constitutivo[2]. No entanto, falando do pecado, devemos dar um passo adiante, e √© o passo da raz√£o √† f√©, porque, como Ricoeur observa, o relacionamento pessoal com Deus estabelece o espa√ßo espiritual no qual se tenta explicar o mal, mas no n√≠vel do pecado. Portanto, a categoria que rege a no√ß√£o do pecado √© a que o compreende como algo feito ‚Äúdiante de Deus‚ÄĚ. Assim, o pecado √© uma magnitude religiosa antes de ser √©tico, n√£o h√° a les√£o de uma regra abstrata ou a viola√ß√£o de uma lei ou regulamento, mas, principalmente, √© a quebra de uma liga√ß√£o pessoal (RICOEUR, 2004, p. 214). E o mal n√£o aparece apenas como uma car√™ncia, mas como o rompimento de um relacionamento (BRAVO, 2006, p. 218).

Além do pecado pessoal, existe a realidade de um pecado social ou estrutural, no sentido de que todo pecado pessoal tem um impacto sobre toda a comunidade (MATHIAS, 2011). O autor afirma, em seu livro, que existe um pecado estrutural, cujo sujeito está constituído pela comunidade presente naquela instituição social que ataca abertamente a vida humana, analisando os efeitos nos quais se reconhece a existência de um pecado estrutural num dado sistema social (VIDAL, 2012, p. 261-292).

5 Formas de express√£o

√Č um fato indiscut√≠vel que o ser humano habita um mundo onde o mal existe e no qual se podem reconhecer v√°rios tipos ou formas como ele se expressa (MONTERO, 2010, p. 7). Entre as v√°rias manifesta√ß√Ķes do mal, que o homem reconhece, est√£o os desastres naturais, o mal f√≠sico que se manifesta em doen√ßas como o c√Ęncer, a AIDS, o Ebola, as doen√ßas mentais etc. No entanto, a presen√ßa do mal moral ‚Äď como as guerras, o terrorismo, a fome, a crueldade, a pena de morte, a explora√ß√£o e o abuso de mulheres e crian√ßas, o mal disfar√ßado de progresso, a corrup√ß√£o e um sem fim de eteceteras (LOPEZ, 2012, 20-49) ‚Äď deve nos fazer pensar que somos todos respons√°veis. Para ilustrar isso, apresentamos alguns dados. Em 2000, o presidente do Banco Mundial, disse:

S√£o muitos os pa√≠ses onde o HIV/AIDS impediu o aumento da expectativa de vida e causou tanta dor e sofrimento. S√£o muitos os pa√≠ses onde as armas, a guerra e os conflitos t√™m minado o desenvolvimento (…) Vivemos num mundo marcado pela desigualdade. Algo est√° errado quando os 20% mais ricos da popula√ß√£o mundial recebem mais de 80% da renda global. Algo est√° errado quando 10% da popula√ß√£o recebem metade da renda nacional, como acontece num grande n√ļmero de pa√≠ses. Algo est√° errado quando a renda dos 20 pa√≠ses mais ricos √© 37 vezes a m√©dia da renda dos 20 pa√≠ses mais pobres, uma diferen√ßa que aumentou mais do que o dobro nos √ļltimos 40 anos. Algo est√° errado quando 1,2 bilh√£o de pessoas ainda vivem com menos de 1 d√≥lar por dia e 2,8 bilh√Ķes com menos de 2 d√≥lares.¬† Num momento em que todas as for√ßas est√£o fazendo o mundo menor, √© hora de mudar nossa maneira de pensar. √Č hora de perceber que vivemos juntos em um mundo, n√£o em dois; que essa pobreza est√° na nossa comunidade, onde quer que vivamos. √Č nossa responsabilidade. √Č hora de os l√≠deres pol√≠ticos reconhecerem essa obriga√ß√£o (WOLFENSOHN, 2000).

Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, diz que 1% da população tem o que 99% precisa. Esse 1% da população goza das melhores casas, a melhor educação, os melhores médicos e o melhor padrão de vida.

Em 1 de abril de 2014, Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial, afirmou:

Vivemos em um mundo de desigualdades. As disparidades entre ricos e pobres s√£o t√£o evidentes aqui em Washington como em qualquer outra capital do mundo. No entanto, para muitos de n√≥s no mundo dos ricos, as pessoas que est√£o exclu√≠das do progresso econ√īmico¬† permanecem, em grande medida, invis√≠veis. Como o Papa Francisco expressou textualmente: ‚ÄúQue algumas pessoas desabrigadas morram de frio na rua n√£o √© not√≠cia. Pelo contr√°rio, uma queda (…) nas bolsas √© uma trag√©dia‚ÄĚ.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, diz:

Assim como o mandamento ‚Äún√£o matar‚ÄĚ p√Ķe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim tamb√©m hoje devemos dizer n√£o a uma economia da exclus√£o e da desigualdade social. Esta economia mata. N√£o √© poss√≠vel que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo n√£o seja not√≠cia, enquanto o √© a descida de dois pontos na Bolsa. Isto √© exclus√£o. N√£o se pode tolerar mais o fato de se lan√ßar comida no lixo, quando h√° pessoas que passam fome. Isto √© desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequ√™ncia desta situa√ß√£o, grandes massas da popula√ß√£o veem-se exclu√≠das e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem sa√≠da. (FRANCISCO, 2013, n. 53)

Vivemos em um mundo dilacerado pela injusti√ßa, a fome, as guerras, e assim por diante. E n√≥s estamos fazendo algo errado, porque estes n√ļmeros e muitos outros relat√≥rios apresentados a cada ano mostram que a desigualdade no mundo, em vez de diminuir, est√° aumentando.

6 Resposta ao mal

Deveria ser um fato indiscut√≠vel que ‚Äúo mal convoca todos para lutar em uma frente comum: encontrar respostas que, apesar dos terr√≠veis e intermin√°veis desafios do mal, permitam viver sem sucumbir ao absurdo e sem render-se para reparar os danos e procurar as melhorias poss√≠veis‚ÄĚ (TORRES, 2011, p. 111). No entanto, contra o mal encontramos uma variada gama de respostas, entre as quais est√£o: a aceita√ß√£o alegre do mal (atitude que encontra no mal satisfa√ß√£o ou complac√™ncia); a aceita√ß√£o resignada (atitude passiva ou racionalizada ante o mal); o desespero (atitude de escape psicol√≥gico); a ades√£o (atitude de submiss√£o ou¬† reconcilia√ß√£o com o mal); e, finalmente, a a√ß√£o (atitude de confronto e contesta√ß√£o) individual e comunit√°ria (FERRATER MORA, 1979, p. 2084).

N√£o h√° d√ļvida que, para a teologia, a realidade do mal √© um desafio (RICOEUR, 2007) e um convite para pensar nele como a raiz comum do pecado e do sofrimento. A quest√£o do mal exige uma converg√™ncia de pensamento e a√ß√£o que, pol√≠tica e moralmente, por sua vez, requer uma transforma√ß√£o de sentimentos. Portanto, a partir dessa transforma√ß√£o surge n√£o a cl√°ssica pergunta ‚Äúpor que o mal‚ÄĚ, mas ‚Äúo que fazer contra o mal?‚ÄĚ (Ricoeur, 2007, p. 25, 58, 60).

A resposta da f√© em um Deus que livremente e gratuitamente se autocomunica ao homem (DV n. 2), nos leva a afirmar, com Ellacur√≠a, que √© preciso enfrentar a realidade, carregar a realidade e responsabilizar-se por transform√°-la (ESTRADA, 2012, p. 789). Importante ter em conta que J. Sobrino considera a miseric√≥rdia ante o sofrimento das v√≠timas como a atitude fundamental de todo ser humano justo e como uma categoria articuladora da reflex√£o teol√≥gica (TAMAYO-ACOSTA, 1999, p. 241-242). Esta abordagem para a a√ß√£o n√£o pretende dar uma solu√ß√£o pronta, mas apresentar apenas o esbo√ßo de uma resposta (BRAVO, 2006, p. 220), porque sabemos que ‚Äúo triunfo humano sobre o mal √© sempre parcial e cada conquista √© prec√°ria, prel√ļdio de novos desafios (…)‚ÄĚ (ESTRADA, 2012, p. 87). No entanto, em face do mal, temos de ter esperan√ßa, porque o amor de Deus encarnado em Jesus capacita o ser humano para gerar o bem a partir da experi√™ncia do mal (ESTRADA, 2012, p. 94). N√£o h√° d√ļvida que o mist√©rio do mal √© muito profundo, mas ainda mais profundo √© o abismo do amor de Deus. A for√ßa para lutar contra o mal √© encontrada em um Deus que se comprometeu com um amor misericordioso na cruz e nos d√° a esperan√ßa da vit√≥ria na ressurrei√ß√£o. Consequentemente, o que nos faz crist√£os √© acreditar que a √ļltima e definitiva palavra de esperan√ßa na luta contra o mal chegou at√© n√≥s na cruz e ressurrei√ß√£o (TORRES, 2005a, p. 267) de Cristo, de quem se disse que: ‚Äú(…)¬† andou fazendo o bem (…)‚ÄĚ (At 10,38).

7 Jesus frente ao mal

Na seção anterior, fizemos uma breve aproximação do tema da resposta ao mal e insinuamos os limites e as possibilidades que tem. Temos também insinuado que a força e esperança, nesta tentativa de responder ao mal, são encontradas no amor de um Deus que se autocomunicou em Jesus de Nazaré. Por isso, olhar como Jesus se posicionou contra o mal pode guiar-nos nesta grande tarefa pendente de reagir e combater o mal.

Devemos come√ßar por salientar que um dos tra√ßos caracter√≠sticos de Jesus √© a sua sensibilidade ao sofrimento. ‚ÄúE, vendo as multid√Ķes, teve grande compaix√£o delas, porque andavam cansadas e desamparadas, como ovelhas que n√£o t√™m pastor‚ÄĚ (Mt 9,36). Essa sensibilidade √© transformada em compaix√£o e solidariedade com aqueles que sofrem e isso √© demonstrado na par√°bola do Bom Samaritano (Lc 10,29-37), em que fica evidente que n√£o √© suficiente o cumprimento dos deveres religiosos, mas o nosso amor por Deus deve ser traduzido em solidariedade efetiva com os que sofrem (TAMAYO-ACOSTA, 1999, p. 243). Devido √† sua sensibilidade ao sofrimento, Jesus √© solid√°rio com aqueles que s√£o estigmatizados e exclu√≠dos por causas religiosas, pol√≠ticas e sociais, como os leprosos (Lc 5,12-15; 17,11-19; Mt 8,1-4), os cegos (Mt 9,27-31), os paral√≠ticos (Mt 9,1-8; Lc 5,17-26), os possu√≠dos por dem√īnios (Mt 8,28-34; 9,32-34), os pecadores (Mt 9,10-13; Lc 5,29-32; Lc 7,36-50) os samaritanos (Jo 4,9-10) etc. S√£o rela√ß√Ķes de reconhecimento e acolhida. √Č uma solidariedade t√£o profunda que o pr√≥prio Jesus se identifica com todos aqueles que sofrem:

Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me (…). Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.  (Mt 25, 31-46)

Por√©m, Jesus n√£o fica apenas no tratamento misericordioso, solid√°rio e compassivo com os que sofrem, Ele vai al√©m e den√ļncia os poderes religiosos, pol√≠ticos, sociais e econ√īmicos que est√£o causando esse sofrimento (Mt 23,1-32; Lc 11,37-54). Poder√≠amos dizer que sua atitude com os marginalizados, exclu√≠dos e estigmatizados por todos esses poderes j√° √© uma den√ļncia e um confronto contra o mal, esse mal que teologicamente identificamos com o pecado social ou com as estruturas de pecado (NEBEL, 2001, p. 292-340; SARMIENTO, 1987, p. 869-881; MOSER, 1992, p. 1369-1383)

Resulta evidente que a perseguição, o juízo, a condenação, a cruz e a morte que Jesus sofreu foi o resultado da sua vida, da sua luta contra o mal e do seu compromisso com a justiça e com o bem (GELABERT, 1999, p. 217). Portanto, a cruz não é um sinal da fraqueza de Deus, mas um símbolo da força do seu amor. A cruz não é o símbolo de um Deus que pacientemente aceita o sofrimento, ao ser ele próprio vítima do mal, pelo contrário, a cruz é o grito de protesto mais forte que alguém pode manifestar contra o mal.

A cruz n√£o √© um sinal de fracasso e desespero na luta contra o mal, porque ‚Äú(…) Deus se solidariza com a v√≠tima (…) Deus est√° no crucificado e em todos os massacrados da hist√≥ria, incluindo aquele que pendurava no arame farpado de Auschwitz (…) Deus est√° envolvido no mal n√£o desde o poder, mas desde o amor (…) N√£o elimina a morte, mas oferece, desde ela, a vida‚ÄĚ (LOIS, 2004, p. 35-36).

Ao observar qual √© a atitude de Jesus contra o mal, devemos ter em mente que ‚Äúa refer√™ncia vinculante √† mem√≥ria do crucificado e ressuscitado, mem√≥ria subversiva e subjugante (…) permite intuir ao crente o que √© que seu Deus quer dele na rela√ß√£o com o mal existente (LOIS, 2004, 40). Portanto, o Cristianismo n√£o √©, em¬† primeiro lugar, uma doutrina que deve ser mantida o mais pura poss√≠vel, mas uma pr√°xis que devemos viver da maneira mais radical poss√≠vel¬† (METZ, 1982, p. 33).

Algo parece claro a partir da vida e a mensagem de Jesus, da sua morte e ressurreição, Deus, o seu Deus, como diz Schillebeeckx, é o antimal. Esta é a grande contribuição da fé cristã ao problema do mal. Ao colocar Jesus no centro da sua vida e mensagem, o serviço a um reino de justiça e fraternidade, a luta contra o mal torna-se componente essencial da vida de cada seguidor de Jesus (LOIS, 2004, p. 40).

A atitude de Jesus contra o mal mostra que nem o pecado nem a morte t√™m a √ļltima palavra. A √ļltima palavra √© a proximidade amorosa e clemente do Deus que se comunicou a si mesmo e quis vir fazer parte da nossa hist√≥ria.

 María Isabel Gil Espinosa. Pontificia Universidad Javeriana, Colombia. Texto original em espanhol[3]

Referências

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[1] ‚ÄúO mal est√° nos mitos mais antigos como um poder cujas ra√≠zes est√£o em um caos primordial ou nos dom√≠nios do divino. Pertence, como disse M. Eliade, o mundo da religi√£o e supera as possiblidades do conhecimento da a√ß√£o humana at√© que, nos tempos modernos, come√ßa a sofrer um processo de seculariza√ß√£o.‚ÄĚ (Montero, 2010, 6-7)

[2] ‚ÄúA decis√£o de entrar no problema do mal pela porta estreita da realidade humana n√£o expressa, portanto, sen√£o a escolha de uma perspectiva central (…) Vai-se objetar que a escolha desta perspectiva √© arbitr√°ria, que √©, em um sentido forte da palavra, preconceito. Em absoluto. A decis√£o de enfrentar o mal do ponto de vista do homem e da sua liberdade n√£o √© uma escolha arbitr√°ria, mas adequada √† natureza mesma do problema.” (RICOEUR, 2004, p.14).

[3] Doutora em Teologia Pontifícia Universidade Javeriana, Magíster em Teologia, Pontifícia Universidade Javeriana, Especialista em Bioética Pontifícia Universidade Javeriana, Licenciada em Ciências Religiosas, Pontifícia Universidade Javeriana. Professora de Teologia Moral na Faculdade de Teologia, Pontifícia Universidade Javeriana РBogotá. E-mail: maria.gil@javeriana.edu.co