Leituras e hermenêutica

Sum√°rio

1 Uma Bíblia, muitas leituras 

2 Sentido literal, alegórico, espiritual, moral, pleno

3 Exegese e hermenêutica

4 Leitura, abordagem, método: o problema da nomenclatura

5 Exegese e texto original

6 Leituras sincr√īnicas

6.1 An√°lise da estrutura liter√°ria

6.2 An√°lise da narrativa

6.3 Análise retórica

6.4 Análises linguísticas

7 Leituras diacr√īnicas

7.1 Literarkritik

7.2 Análise dos gêneros literários

7.3 Análise da tradição

7.4 Análise da redação

8 Leitura fundamentalista

9 Novas abordagens

9.1 Leitura socioantropológica e política

9.2 Leitura feminista

10 À guisa de conclusão

11 Referênciasbibliográficas

 1 Uma Bíblia, muitas leituras

¬†O¬†livro que chamamos de B√≠blia ou Sagrada Escritura est√° aberto a muitas interpreta√ß√Ķes, n√£o s√≥ √†quelas espirituais, religiosas e teol√≥gicas, mas tamb√©m a outras, mais leigas e ‚Äúprofanas‚ÄĚ. Uma vez sa√≠do da m√£o do autor, o texto adquire vida pr√≥pria e significados que n√£o dependem mais de quem o escreveu. Com a B√≠blia n√£o √© diferente: h√° muitos modos de ler a Escritura, muitos sentidos para o mesmo texto, muitas interpreta√ß√Ķes para o mesmo vers√≠culo.

O que faz a riqueza e a pobreza de uma leitura da Bíblia não é o texto em si mesmo, mas a capacidade (ou falta dela) de encontrar as muitas possibilidades de interpretá-lo, desde os significados mais aparentes e imediatos, até os significados mais profundos e subentendidos.

Um largo leque de interpreta√ß√Ķes ‚Äď √†s vezes em conflito, mas nem sempre ‚Äď abre-se para o leitor que n√£o se contenta com apenas uma leitura, mas que aceita a m√°xima rab√≠nica: ‚Äúa Escritura tem setenta faces‚ÄĚ, isto √©, h√° muitos modos diferentes de ler a Palavra de Deus e, portanto, n√£o h√° o significado do texto, e sim os significados do texto.

Essa multiforme interpretação da Bíblia deriva de vários fatores: do próprio texto (a língua e o estilo do autor), do leitor (seus interesses pessoais, seus conhecimentos do universo bíblico), das etapas da história da teologia (dogmas, controvérsias, concílios) e do desenvolvimento das ciências em geral (arqueologia, história, sociologia).

√Č poss√≠vel ler a B√≠blia n√£o s√≥ de modo espiritual e pastoral, mas tamb√©m de modo cient√≠fico. Por modo cient√≠fico de ler a B√≠blia, compreende-se n√£o a aplica√ß√£o dos postulados e dos instrumentos das v√°rias ci√™ncias modernas (psican√°lise, medicina, sociologia) ao texto b√≠blico, e sim um conjunto de metodologias, pressupostos e crit√©rios para se fazer exegese, isto √©, ‚Äúextrair, levar para fora‚ÄĚ o significado mais profundo. Dito de outro modo, fazer exegese √© romper a superficialidade da explica√ß√£o imediata e aparente e buscar outros significados, outros sentidos e outras rela√ß√Ķes, por meio de passos metodol√≥gicos consistentes e criteriosos.

 2 Sentido literal, alegórico, espiritual, moral, pleno

 Ao longo da teologia cristã, o problema hermenêutico conheceu diversas respostas, que dependeram não só do desenvolvimento da própria teologia, bem como do desenvolvimento do conhecimento científico em geral. Não obstante, é possível observar uma constante: gradativamente vai-se delineando a necessidade de distinguir entre o sentido literal e o sentido espiritual do texto.

Na Idade M√©dia, solidificou-se a subdivis√£o do sentido espiritual em tr√™s ‚Äď o aleg√≥rico, o espiritual e o moral ‚Äď, que com o sentido literal formam os assim chamados ‚Äúquatro sentidos medievais da Escritura‚ÄĚ. A articula√ß√£o destes quatro sentidos foi assim sintetizada:

“A letra ensina os fatos; a alegoria, aquilo em que deves crer.

O moral, aquilo que deves fazer; a anagogia, aquilo a que deves tender‚ÄĚ

O sentido literal (ou histórico) exprime os fatos e os acontecimentos.

O sentido alegórico esclarece as verdades da fé (teológicas, cristológicas, mariológicas) transmitidas pelo sentido literal.

O sentido moral (ou tropológico) guia quem crê à ação, como deve agir em sua vida de fé.

O sentido anag√≥gico orienta este mesmo fiel para os fins √ļltimos, numa esp√©cie de contempla√ß√£o da vida eterna.

Esses quatro sentidos possuem uma hierarquia que é facilmente percebida quando se lê o Antigo Testamento. A tradição medieval segue os passos da tradição patrística e considera o sentido literal o menos importante e, inversamente, supervaloriza o alegórico, uma vez que toda a Sagrada Escritura (notadamente o Antigo Testamento) é interpretada em chave cristã, isto é, toda a Bíblia fala de Cristo, da Igreja e dos seus dogmas.

Como afirmado no in√≠cio desta sess√£o, o desenvolvimento da teologia e do conhecimento cient√≠fico ao longo dos s√©culos postulou questionamentos √† leitura da B√≠blia e obrigou a repensar n√£o somente as defini√ß√Ķes de ‚Äúsentido literal‚ÄĚ e ‚Äúsentido espiritual‚ÄĚ, mas os sentidos em si mesmos, uma vez que a distin√ß√£o entre um sentido literal e outro espiritual abria a possibilidade de afirmar que somente ap√≥s Jesus as Escrituras hebraicas ganharam um significado espiritual, o que, entre outros problemas, colide com os conceitos de revela√ß√£o e de inspira√ß√£o.

Somente na primeira parte do s√©culo XX surgiu a express√£o ‚Äúsentido pleno‚ÄĚ (em latim, sensus plenior), cunhada por A. Fern√°ndez, em 1925, para designar um sentido mais profundo do que o literal, desejado por Deus, mas que n√£o estava suficientemente claro para o autor humano. Para se chegar a esse ‚Äúsentido pleno‚ÄĚ de um texto b√≠blico, √© necess√°rio estud√°-lo √† luz da revela√ß√£o ulterior, isto √©, com a ajuda de textos b√≠blicos escritos posteriormente e que citam e interpretam o texto estudado.

3 Exegese e hermenêutica

Exegese e hermenêutica não se confundem, embora estejam intimamente ligadas. Grosso modo, normalmente fala-se que hermenêutica é a ciência dos princípios de interpretação de um texto, enquanto exegese é a aplicação desses princípios para explicar o texto. Esta distinção, no entanto, não é suficiente.

No uso atual, o termo hermen√™utica designa muito amplamente as metodologias de leitura da B√≠blia que t√™m como objetivo encontrar os significados do texto b√≠blico e aplic√°-los √† realidade do leitor. Por isso, fala-se de ‚Äúhermen√™utica rab√≠nica‚ÄĚ, de ‚Äúhermen√™utica medieval‚ÄĚ etc.

Por sua vez, o termo exegese é aplicado a um conjunto de procedimentos e abordagens críticas que têm como objetivo interpretar o texto em si mesmo: seu significado original, sua organização linguística e literária, seus conceitos teológicos, seus motivos literários, a história de sua formação.

A exegese √© praticada em duas dire√ß√Ķes complementares: a sincronia e a diacronia (cf. veremos logo a seguir).

Também há de se distinguir entre exegese e teologia bíblica. Trata-se de duas ciências muito ligadas e complementares. Não se pode separá-las, porque os problemas de uma tornam-se também problemas para a outra. Mas, enquanto a teologia bíblica faz um esforço de síntese da mensagem bíblica, a exegese realiza um trabalho analítico. Em palavras pobres, a teologia bíblica busca o que os textos têm de semelhante, a exegese busca o que os textos têm de diferente.

4 Leitura, abordagem, método: o problema da nomenclatura

Os manuais e os artigos sobre exegese utilizam variada nomenclatura para definir os v√°rios passos e aspectos da interpreta√ß√£o do texto b√≠blico: m√©todo, leitura, abordagem, an√°lise. Por exemplo, o que um estudioso qualifica como ‚Äúm√©todos diacr√īnicos‚ÄĚ outro denomina ‚Äúleituras diacr√īnicas‚ÄĚ, enquanto um terceiro fala de ‚Äúabordagens diacr√īnicas‚ÄĚ!

O uso deste ou daquele termo parece ter como razão mais a preferência pessoal de quem escreve do que um fundamento objetivo. Por conseguinte, até o momento não se chegou a um consenso sobre o que distingue uma análise de uma leitura e, numa tentativa de hierarquia e agrupamento, se a análise é um tipo de leitura ou se a leitura é um tipo de análise.

N√£o obstante, alguns sintagmas acabaram se impondo, muito mais pelo uso do que por rigor terminol√≥gico. Tal √© o caso de ‚Äúm√©todo hist√≥rico-cr√≠tico‚ÄĚ, ‚Äúan√°lise da estrutura liter√°ria‚ÄĚ, ‚Äúleitura s√≥cio-antropol√≥gica‚ÄĚ, ‚Äúcr√≠tica textual‚ÄĚ. Em outros casos, por√©m, h√° uma completa falta de consenso, a ponto de fazer supor que os termos sejam intercambi√°veis: fala-se tanto de an√°lise como de cr√≠tica dos g√™neros liter√°rios; tanto de an√°lise como de abordagem ret√≥rica; tanto de leitura como de an√°lise sincr√īnica.

O termo m√©todo normalmente √© usado para designar um conjunto articulado de an√°lises, abordagens, leituras e cr√≠ticas. Nas modernas ci√™ncias b√≠blicas, consagrou-se o m√©todo hist√≥rico-cr√≠tico, mas j√° bem antes dele, o m√©todo rab√≠nico (targ√ļmico/der√°shico) e o m√©todo aleg√≥rico atingiram um alto grau de complexidade e articula√ß√£o de crit√©rios.

Aparentemente, o termo an√°lise indica o estudo sistem√°tico de um aspecto do texto, seguindo uma s√©rie de crit√©rios: an√°lise estil√≠stica, an√°lise sem√Ęntica, an√°lise da estrutura/organiza√ß√£o do texto. Devido √† complexidade e √† avalia√ß√£o criteriosa dos dados que avaliam, algumas an√°lises acabaram assumindo o nome de cr√≠tica: cr√≠tica textual, cr√≠tica liter√°ria, cr√≠tica dos g√™neros liter√°rios, cr√≠tica da reda√ß√£o.

Leitura, por sua vez, √© muitas vezes usado para designar modos de interpreta√ß√£o dificilmente classific√°veis como m√©todo ou an√°lise ou cr√≠tica. S√£o tr√™s as possibilidades. Em primeiro lugar, quando a leitura n√£o segue r√≠gidos crit√©rios e categorias de interpreta√ß√£o, mas valoriza o di√°logo com o texto e, por conseguinte, pode ser praticada mais de modo emp√≠rico do que propriamente sistem√°tico. Tal √© o caso da ‚Äúleitura popular‚ÄĚ, da ‚Äúleitura orante‚ÄĚ e da ‚Äúleitura pastoral‚ÄĚ. Segundo, quando a leitura aplica ao texto b√≠blico crit√©rios e procedimentos de outras ci√™ncias. Assim a ‚Äúleitura s√≥cio-antropol√≥gica‚ÄĚ e a ‚Äúleitura psicanal√≠tica‚ÄĚ. Por fim, o terceiro, quando a leitura assume um horizonte hermen√™utico ou um aspecto dele. Tal √© o caso da ‚Äúleitura feminista‚ÄĚ e da ‚Äúleitura libertadora‚ÄĚ.

No entanto, a falta de consenso quanto √† nomenclatura n√£o implica afirmar que todos esses modos de interpretar a B√≠blia tenham a mesma validade cient√≠fica (embora deva-se dizer que alguns s√£o mais cient√≠ficos que outros), nem que devam ser deslegitimados e descartados os modos ‚Äúmenos cient√≠ficos‚ÄĚ de ler e interpretar a Sagrada Escritura.

√Č necess√°rio, antes, adaptar o modo de ler ao objetivo da leitura e, portanto, mais do que ‚Äúinterpreta√ß√£o correta‚ÄĚ, √© necess√°rio falar de ‚Äúinterpreta√ß√£o adequada‚ÄĚ: h√° o modo adequado para ler a B√≠blia na ora√ß√£o, que n√£o √© o modo adequado para ler a B√≠blia quando se quer fazer teologia e exegese, que, por sua vez, pode n√£o ser o modo mais adequado para fazer uma boa catequese baseada nos textos b√≠blicos.

5 Exegese e texto original

O termo exegese vem do verbo grego ex-√°go, que significa: ‚Äúlevar para fora, tirar, extrair, fazer sair‚ÄĚ. Em palavras simples, exegese √© a ci√™ncia da interpreta√ß√£o que ‚Äúextrai‚ÄĚ o significado que est√° oculto no texto. Ela pertence √†s chamadas ‚Äúci√™ncias b√≠blicas‚ÄĚ, isto √©, um conjunto de abordagens cr√≠ticas altamente elaboradas, corrigidas e completadas ao longo de s√©culos.

Não se pode fazer verdadeira exegese se não sobre o texto original. Por conseguinte, não se pode fazer exegese sem conhecer as línguas bíblicas (hebraico, aramaico e grego). Do contrário, qualquer afirmação acerca do significado de um texto ficará refém da natural impossibilidade de se traduzir com total exatidão na língua de chegada o que palavras e frases significam na língua de partida.

Quando se fala de texto original, o adjetivo ‚Äúoriginal‚ÄĚ vai destacado, porque o que temos s√£o c√≥pias de c√≥pias de c√≥pias que, at√© o advento da imprensa, foram reproduzidas √† m√£o. A exegese desenvolveu toda uma ci√™ncia chamada cr√≠tica textual, para confrontar e avaliar os v√°rios manuscritos e, baseada nos resultados desta an√°lise, reconstruir aquela que, muito provavelmente, foi a reda√ß√£o do texto.

Uma vez estabelecido o texto original, √© chegado o momento de analis√°-lo metodicamente. A exegese toma duas dire√ß√Ķes: a sincronia e a diacronia. Em exegese, estes termos tem um significado um pouco diferente daquele dado por Saussure no seu tratado fundante de semiologia. Em exegese, a sincronia (do grego syn+chronos) refere-se √† leitura do texto como ele √©, na sua reda√ß√£o final, que √© a que conhecemos. Diferentemente, a diacronia (do grego dia+chronos) preocupa-se com a evolu√ß√£o do texto at√© ele chegar a ser o que √© hoje, ou seja, quais etapas e quais elementos concorreram para a reda√ß√£o final. Na hist√≥ria da exegese, o conjunto das an√°lises diacr√īnicas recebeu o nome de ‚Äúm√©todo hist√≥rico-cr√≠tico‚ÄĚ.

Sincronia e diacronia s√£o complementares, o que significa que a boa exegese n√£o pode se reduzir a uma ou outra. Todavia, √© prefer√≠vel fazer primeiro a leitura sincr√īnica, pois √© mais prudente come√ßar compreendendo o texto como ele est√° hoje, e s√≥ depois questionar como ele chegou a ser o que √©.

6 Leituras sincr√īnicas

As principais leituras sincr√īnicas s√£o:

6.1 An√°lise da estrutura liter√°ria

Por definição, um texto não é somente um acumulado de palavras e frases desconexas, nem tampouco um amontoado de fatos lineares ou de ideias encadeadas aleatoriamente. Ao contrário, para ser verdadeiramente um texto, deve estar articulado por um fio condutor, que faz com que o escrito tenha começo, meio e fim.

A an√°lise da estrutura liter√°ria estuda como o texto se organiza, como palavras, frases e par√°grafos se articulam para transmitir o conte√ļdo e o significado do texto. Para isso, subdivide o texto em blocos menores, de uma frase a v√°rios vers√≠culos, conforme as fun√ß√Ķes e as rela√ß√Ķes de cada uma dessas pequenas partes no conjunto.

A seguir, coloca em evid√™ncia e analisa essas fun√ß√Ķes e rela√ß√Ķes, de modo a determinar a flu√™ncia dos momentos narrados e a concatena√ß√£o dos ensinamentos transmitidos.

6.2 An√°lise da narrativa

Como o nome j√° diz, trata-se de uma leitura adequada para narra√ß√Ķes ou relatos. Estuda as rela√ß√Ķes entre os personagens, as a√ß√Ķes, os acontecimentos, o enredo, as for√ßas que agem no desenrolar da hist√≥ria. Sem d√ļvida, os relatos b√≠blicos s√£o muito diferentes dos modernos romances de fic√ß√£o; todavia, pelo simples fato de fazerem parte do g√™nero narrativo, os relatos b√≠blicos possuem as mesmas caracter√≠sticas de todo e qualquer escrito no qual s√£o descritas as a√ß√Ķes de personagens em situa√ß√Ķes (fict√≠cias ou n√£o) por meio de um enredo bem elaborado com come√ßo, meio e fim.

Deste modo, aos relatos b√≠blicos s√£o feitas as mesmas perguntas de toda e qualquer trama narrativa: os personagens e seus pap√©is, os ‚Äúmotores‚ÄĚ da a√ß√£o, o tempo da hist√≥ria e o tempo do discurso, as subdivis√Ķes da trama, o narrador, o leitor, o ponto de vista.

 6.3 Análise retórica

Uma vez que o pr√≥prio termo ret√≥rica adquiriu diversas acep√ß√Ķes, tamb√©m no universo das ci√™ncias b√≠blicas a an√°lise ret√≥rica tomou mais de uma dire√ß√£o, desde a aplica√ß√£o dos elementos da ret√≥rica grega aos textos neotestament√°rios (principalmente os escritos epistolares), at√© a busca de uma ret√≥rica semita nos textos veterotestament√°rios (principalmente os escritos prof√©ticos e sapienciais).

A análise retórica estuda os vários tipos de discurso (judiciário, deliberativo, demonstrativo), a fim de identificar quais efeitos quer produzir e qual a linguagem usada para este fim. Por isso, aproxima-se do juízo estético, mas não se reduz a ele, uma vez que seu objetivo não é a beleza do texto em si mesma, mas como este aspecto estético atinge o racional e o afetivo do leitor, a fim de persuadi-lo e convencê-lo.

6.4 Análises linguísticas

Estudam o vocabulário, a sintaxe e também as figuras de linguagem.

A an√°lise do vocabul√°rio (ou lexicogr√°fica) preocupa-se com o uso e a significa√ß√£o das palavras utilizadas no texto, de modo a definir os valores e as nuan√ßas, tanto para teologia como para a exegese. Isso significa que a an√°lise lexicogr√°fica preocupa-se n√£o somente como os voc√°bulos que se tornaram densos de significado pelo largo uso na teologia, mas tamb√©m pelos voc√°bulos raros e os usados uma √ļnica vez (hapaxleg√≥mena) em um livro ou, em casos mais extremos, em toda a B√≠blia.

A an√°lise da sintaxe tem como finalidade identificar o modo e os n√≠veis em que o vocabul√°rio √© usado e articulado. O valor de preposi√ß√Ķes, as reg√™ncias e os tempos dos verbos, as altern√Ęncias dos sujeitos etc. Tudo isso tem vital import√Ęncia para a interpreta√ß√£o do texto.

O estudo das figuras de linguagem corresponde à análise estilística: de que modo o autor dá maior expressividade, colorido e vivacidade ao texto, ou, ao contrário, propositadamente o deixa mais ambíguo, sombrio e lento. As figuras de linguagem são divididas em três grupos: as figuras de pensamento ou de retórica (ligadas ao modo de organizar as ideias); as figuras de construção ou de sintaxe (ligadas ao modo de formular as frases); as figuras de palavras ou de estilo (ligadas ao uso dos vocábulos e dos conceitos).

7 Leituras diacr√īnicas

As principais leituras diacr√īnicas s√£o:

7.1 Literarkritik

Este termo alem√£o provocou muito desacordo acerca de como traduzi-lo para as l√≠nguas latinas, uma vez que ‚Äúcr√≠tica liter√°ria‚ÄĚ n√£o traduz com efici√™ncia o que Literarkritik significa em alem√£o. Por isso, alguns preferiram utilizar ‚Äúcr√≠tica das fontes‚ÄĚ. Seja qual for a tradu√ß√£o do termo preferida pelo exegeta, este passo metodol√≥gico pergunta se o texto atual n√£o √© o resultado da reelabora√ß√£o de um ou mais textos pr√©vios. Questionando se o texto estudado √© unit√°rio ou comp√≥sito, a Literarkritik tenta identificar estratos redacionais, fontes, acr√©scimos e outros elementos utilizados pelo autor[1] na composi√ß√£o do texto que temos hoje.

7.2 Análise dos gêneros literários

H√° certo dissenso entre os exegetas: enquanto alguns falam de ‚Äúg√™neros liter√°rios‚ÄĚ, outros optam por ‚Äúformas liter√°rias‚ÄĚ, e outros ainda, em determinados casos, preferem falar de ‚Äúcenas t√≠picas‚ÄĚ. Esta discuss√£o tem a ver com op√ß√Ķes metodol√≥gicas assumidas pelos que criaram e desenvolveram este tipo de an√°lise.

Independente da nomenclatura adotada, este passo metodológico se aproveita dos resultados da análise da estrutura literária e compara textos formalmente semelhantes (isto é, com os mesmos elementos estruturais), em busca de um esquema minimamente comum, bem como das diferenças devidas ao autor.

Para que se possa falar de ‚Äúg√™nero liter√°rio‚ÄĚ, √© necess√°rio que haja ao menos dois textos formalmente semelhantes e, de prefer√™ncia, em corpos liter√°rios distintos.

7.3 Análise da tradição

N√£o necessariamente os autores b√≠blicos compuseram textos a partir do zero. Em muitos casos, eles utilizaram material preexistente, tanto escrito como oral. E n√£o s√≥ relatos e formula√ß√Ķes, mas tamb√©m conceitos, motivos, imagens, conven√ß√Ķes, esquemas de pensamento.

Este material tradicional herdado já havia atingido certo grau de fixação e, em muitos casos, era de algum modo já conhecido pelos leitores para quem os autores bíblicos escreviam. Por isso, tratava-se de um excelente conjunto de códigos à disposição para ser apropriado, usado e modificado na fase de redação, a fim de transmitir novos ensinamentos, lançar luz sobre novos aspectos de algo já conhecido ou aplicar a uma realidade nova antigos preceitos.

7.4 Análise da redação

Embora possam ter utilizado textos e tradi√ß√Ķes orais herdados de outras pessoas, os autores b√≠blicos n√£o foram meros compiladores, mas, ao contr√°rio, atuaram de modo criativo, por vezes modificando material preexistente, por vezes compondo um texto totalmente novo. Seja no caso de um texto espec√≠fico, seja no caso de todo um livro, a an√°lise da reda√ß√£o investiga quais crit√©rios os autores b√≠blicos utilizaram para selecionar, organizar e, eventualmente, completar o material que tinham √† sua disposi√ß√£o.

O expediente redacional dos autores b√≠blicos nos legou corre√ß√Ķes estil√≠sticas, acr√©scimos etiol√≥gicos, contextualiza√ß√Ķes culturais, molduras liter√°rias, reutiliza√ß√£o de textos e ditos tradicionais, conex√Ķes hermen√™uticas de textos independentes, leitmotive e v√°rios outros elementos textuais, no qual se fazem n√≠tidos o plano geral da obra e o escopo liter√°rio-teol√≥gico pretendidos pelos hagi√≥grafos.

8 Leitura fundamentalista

O fundamentalismo é tema bastante complexo e muito estudado por sociólogos, antropólogos, psicanalistas, historiadores e estudiosos da religião, entre outros, e não se limita à leitura da Bíblia e muito menos ao campo religioso. Pode-se, por exemplo, falar de fundamentalismo político.

A leitura fundamentalista da Bíblia, portanto, é reflexo e expressão da atitude fundamentalista, que leva alguém a buscar valores e/ou ideias básicas, simples, claras e universalmente válidas.

Quem l√™ o texto b√≠blico de modo fundamentalista tem dificuldade para lidar com a complexidade do texto b√≠blico ‚Äď tanto no que se refere √† composi√ß√£o do texto b√≠blico (contextos hist√≥ricos, diversidade de formas liter√°rias etc) como no que se refere √† sua teologia (pluralismo de concep√ß√Ķes teol√≥gicas, diverg√™ncias em rela√ß√£o ao mesmo tema etc) ‚Äď e, por isso, prefere acreditar que n√£o √© necess√°rio interpretar o escrito, que n√£o se deve questionar o texto acerca dos poss√≠veis significados de suas palavras e frases, pois tudo est√° expresso de modo claro e perfeitamente compreens√≠vel.

A atitude fundamentalista em relação à Bíblia adota as seguintes posturas:

a) a B√≠blia est√° livre dos erros, das imperfei√ß√Ķes e dos condicionamentos da palavra humana, gra√ßas √† a√ß√£o divina na revela√ß√£o e na inspira√ß√£o. Por isso,

b) o sentido do texto bíblico é claro e expresso em palavras perfeitamente adequadas. Assim, não é necessário interpretar o texto, pois o significado é evidente por si mesmo. Deste modo,

c) a B√≠blia √© a √ļnica autoridade para a doutrina e para a moral. √Č o princ√≠pio de que ‚Äús√≥ a Escritura‚ÄĚ tem relev√Ęncia para a f√© e a moral crist√£s. Mais ainda,

d) os textos bíblicos têm uma aplicação moral, resistente ao tempo, à história e às diferenças culturais. A Bíblia não necessita de atualização: ela é perene e a-histórica. Por isso,

e) o texto bíblico é um tesouro de argumentos que confirmam o credo e a doutrina de um grupo. Ele é usado para provar que determinada doutrina ou postura moral é universalmente válida. E ainda,

f) do início ao fim, toda a Bíblia pode ser interpretada do mesmo modo. Por isso, deve-se renunciar ao senso crítico e à própria capacidade de buscar sentidos novos para o texto bíblico.

9 Novas abordagens

9.1 Leitura socioantropológica e política

Este tipo de leitura examina n√£o somente a sociedade que aparece no texto, mas tamb√©m a sociedade que est√° por tr√°s do texto, isto √©, as institui√ß√Ķes sociais, os costumes, as realidades econ√īmicas, hist√≥ricas e pol√≠ticas que o texto sup√Ķe e que influenciaram na produ√ß√£o da literatura b√≠blica. Para isso, √© necess√°rio situar o autor, os personagens, os fatos e as circunst√Ęncias no seu adequado contexto hist√≥rico, ideol√≥gico e simb√≥lico. Deste modo, n√£o s√≥ os acontecimentos narrados, mas tamb√©m os conceitos teol√≥gicos subjacentes ao texto adquirem novos contornos, dimens√Ķes e significa√ß√Ķes.

A leitura socioantropológica e política está muito ligada aos métodos histórico-críticos, uma vez que é também uma abordagem histórica na qual a própria formação do texto é vista não como algo espiritual e supranatural, mas situado e condicionado pela cultura, pela economia, pela política, pela ideologia.

9.2 Leitura feminista

A leitura feminista da B√≠blia surgiu no final do s√©culo XIX, no contexto da luta pela igualdade de direitos, e liga-se √† teologia feminista. O ponto de partida √© saber se √© poss√≠vel ler a B√≠blia e, mais amplamente, fazer teologia ‚Äúcomo mulher‚ÄĚ. N√£o somente se √© realiz√°vel, mas tamb√©m e principalmente se √© academicamente v√°lido e importante.

O primeiro e principal crit√©rio da leitura feminista √© a ‚Äúquest√£o de g√™nero‚ÄĚ como ferramenta de interpreta√ß√£o e an√°lise dos textos b√≠blicos. Na pr√°tica isso significa assumir alguns pressupostos: que a sociedade na qual a B√≠blia nasceu e foi escrita era patriarcal e androc√™ntrica; que tamb√©m as tradu√ß√Ķes e as interpreta√ß√Ķes de textos b√≠blicos s√£o marcadas pelo patriarcalismo e androcentrismo; que o pr√≥prio texto b√≠blico tem, quase na sua totalidade, uma vis√£o masculina, mesmo quando fala de mulheres.

Adotando e adaptando aos seus pr√≥prios pressupostos os m√©todos da exegese, bem como de outras ci√™ncias (sociologia, antropologia, hist√≥ria etc), a leitura feminista visa evidenciar o androcentrismo b√≠blico e reverter a interpreta√ß√£o dos textos. Neste projeto, a leitura feminista assumiu v√°rias linhas, tais como: analisar criticamente o patriarcado e os conceitos dele dependentes e ligados √† sociedade e √† religi√£o; expor a pol√≠tica sexual dos textos b√≠blicos; reclamar o universo feminino (linguagem, corporeidade, status p√ļblico etc) subjacente aos textos; reavaliar e resgatar o modo feminino de viver e de praticar a religi√£o.

10 À guisa de conclusão

Todos os m√©todos de leitura e todas as hermen√™uticas possuem pontos fortes e pontos fracos. Por isso, nenhum modo de interpretar a B√≠blia √© t√£o completo a ponto de substituir e descartar todos os demais. Ao contr√°rio, a B√≠blia est√° sempre aberta a novas abordagens e novas interpreta√ß√Ķes.

√Č importante notar que os tr√™s documentos p√≥s-conciliares[2] da Igreja Cat√≥lica referentes √† interpreta√ß√£o da B√≠blia ‚Äď A interpreta√ß√£o da B√≠blia na Igreja, de 1993; Verbum Domini, de 2010; Inspira√ß√£o e verdade da Sagrada Escritura, de 2014 ‚Äď afirmam enfaticamente que todos os m√©todos de leitura s√£o v√°lidos e √ļteis para buscar os significados do texto b√≠blico. A √ļnica leitura rejeitada √© a leitura fundamentalista!

 Cássio Murilo Dias da Silva. PUC Rio Grande do Sul.

 11 Referências bibliográficas

 Básicas:

FITZMYER, Joseph A. A Bíblia na Igreja. São Paulo: Loyola, 1997.

PONTIF√ćCIA¬† Comiss√£o B√≠blica. Interpreta√ß√£o da B√≠blia na Igreja. S√£o Paulo: Paulinas, 1994.

SILVA, Cássio Murilo Dias da. A Bíblia não serve só para rezar. São Paulo: Loyola, 2011.

 Para saber mais:

ALETTI, Jean-No√ęl e outros. Vocabul√°rio ponderado da exegese b√≠blica. S√£o Paulo: Loyola, 2011.

FIGUEIREDO, Telmo (coord). Bíblia: teoria e prática. Leituras de Rute. Revista Estudos Bíblicos, n.98, 2008.

FITZMYER, Joseph A. A interpretação da Escritura. São Paulo: Loyola, 2011.

GILBERT, Pierre. Pequena história da exegese bíblica. Petrópolis: Vozes, 1992.

PARMENTIER, E. A Escritura viva. S√£o Paulo: Loyola, 2009.

SCHNELLE, Udo. Introdução à Exegese do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 2004.

SIMIAN-YOFRE, Horacio (coord). Metodologia do Antigo Testamento. S√£o Paulo: Loyola, 2000.

SILVA, Cássio Murilo Dias da. Metodologia de exegese bíblica. São Paulo: Paulinas, 1999.

¬†[1] Embora se possa fazer a distin√ß√£o entre autor e redator, para simplificar a exposi√ß√£o usarei sempre o termo ‚Äúautor‚ÄĚ, a menos que a distin√ß√£o seja absolutamente necess√°ria.

[2] Isto é, após o Concílio Vaticano II (1962-1965).