O livro do Profeta Jonas

Sum√°rio

Introdução

1 A pessoa do profeta

2 Posi√ß√£o no c√Ęnon b√≠blico

3 Din√Ęmica narrativa, estrutura e g√™nero liter√°rio

4 Pontos de teologia

5 Atualização da mensagem

Referências

Introdução

Quem se prop√Ķe a ler e a estudar o livro do profeta Jonas se depara, de imediato, com uma personagem emblem√°tica e que, por suas a√ß√Ķes e rea√ß√Ķes, encarna pessoalmente dois movimentos determinantes na hist√≥ria sociorreligiosa do antigo Israel em suas rela√ß√Ķes com YHWH e com as na√ß√Ķes estrangeiras: a desobedi√™ncia e a obedi√™ncia √† ordem de YHWH e as consequ√™ncias que derivam dessas duas posturas tanto ad intra como ad extra dessa hist√≥ria.

A figura do profeta ser√° apresentada a partir dos dados internos ao livro, dos elementos da tradi√ß√£o judaica e, em particular, dos tra√ßos da sua personalidade. Estes s√£o depreendidos das a√ß√Ķes assumidas e dos di√°logos com os diversos personagens que interagem com Jonas.

A partir das a√ß√Ķes de desobedi√™ncia e obedi√™ncia de Jonas, com base na ordem recebida, pode-se perceber o fluxo e a din√Ęmica da narrativa e assim propor uma poss√≠vel estrutura do livro. Como uma novela dram√°tica de cunho edificante, visto que o livro de Jonas est√° em prosa, com exce√ß√£o do Salmo em Jn 2,3b-10, a trama se desenrola e envolve o ouvinte-leitor, encaminhando-o para as consequ√™ncias e desfechos que resultam das a√ß√Ķes assumidas pelo profeta Jonas diante de YHWH, dos marinheiros e dos ninivitas.

Graças a esse percurso, é possível evidenciar diferentes pontos de teologia, pelos quais as duas fases do posicionamento do profeta, em relação à ordem recebida, permitem dizer que o conhecimento de YHWH, e a expressão da sua vontade (teologia), se tornam determinantes para a compreensão do comportamento de Jonas (antropologia). Com base na percepção desse percurso e dos pontos de teologia, será oferecida uma possível atualização da mensagem.

1 A pessoa do profeta

No t√≠tulo do livro, encontra-se a seguinte informa√ß√£o: ‚ÄúE veio a palavra de YHWH a Jonas, filho de Amitai. O verbo hńĀy√Ę introduz uma narrativa e poderia ser entendido como ‚Äúe aconteceu‚ÄĚ, ‚Äúe foi uma vez‚ÄĚ (Js 1,1; Jz 1,1; 1Sm 1,1; 2Sm 1,1; Rt 1,1). Nessa narrativa, entra em cena Jonas e se oferece um par√Ęmetro familiar de identifica√ß√£o: ‚Äúfilho de Amitai‚ÄĚ. O nome do pai parece provir de ‚Äôemet que significa ‚Äúfidelidade‚ÄĚ, ‚Äúverdade‚ÄĚ, ‚Äúfirmeza‚ÄĚ etc.

O nome Jonas (y√īn√Ę), al√©m de ser usado como nome pr√≥prio, tamb√©m √© um substantivo comum, muito recorrente no Antigo Testamento, e significa ‚Äúpomba‚ÄĚ (Gn 8,8-12), um dos dois vol√°teis que, junto √† rolinha, eram aceitos como oferta dos menos favorecidos para o sacrif√≠cio a YHWH (Lv 5,7.11; 12,6.8; 14,22; 15,14.29; Nm 6,10; Sl 68,14). Por detr√°s do uso patron√≠mico aramaico bary√īn√Ę (‚Äúfilho de Jonas‚ÄĚ), como Jesus designou a Sim√£o Pedro (Mt 16,17), parece ocultar-se uma forma abreviada para o nome Jo√£o (Jo 21,15.16.17).

2Rs 14,23-29 apresenta um resumo da vida e do reinado de Jerobo√£o II, que reinou no Israel norte (783-743 aC), enquanto Amasias reinava em Jud√° (796-781 aC). No v. 25 h√° uma refer√™ncia ao profeta Jonas, filho de Amitai, e tamb√©m se diz que era de Gat-Ofer. Esse local fazia fronteira com o territ√≥rio de Zabulon e Neftali (Js 19,13), pouco distante, inclusive, de Nazar√©. S√£o Jer√īnimo, no coment√°rio ao livro do profeta Jonas, disse que Gat-Ofer estava a 3km de S√©foris, pela estrada que conduzia a Tiber√≠ades. Nesse local (atual Meshhed), encontra-se um t√ļmulo atribu√≠do ao profeta Jonas.

A tradi√ß√£o judaica, que d√° uma grande import√Ęncia ao livro do profeta Jonas, durante os dias que precedem o y√īm hakippur√ģm, afirma algo muito interessante. Associa o profeta Jonas ao filho da mulher sunamita, que foi concebido e ressuscitado pela interven√ß√£o direta do profeta Eliseu (2Rs 4,8-37; 8,1-6). Esse menino, mais tarde, veio a se tornar um dos ‚Äúirm√£os profetas‚ÄĚ, seguidores de Eliseu, e por este foi encarregado de ungir Je√ļ (841-814 aC) como rei do Israel norte (2Rs 9,1-10).

Pelo relato de 2Rs 14,25 e de acordo com essa tradi√ß√£o judaica, o profeta Jonas teria vivido e atuado durante os s√©culos IX-VIII aC. Sabe-se que N√≠nive foi a capital do Imp√©rio Ass√≠rio (745-612 aC), destru√≠da por uma coalis√£o de povos babil√īnicos em 612 aC. O profeta Jonas, segundo essa disposi√ß√£o, teria proclamado a palavra de destrui√ß√£o sobre N√≠nive entre o in√≠cio da ascens√£o do Imp√©rio Ass√≠rio e antes da destrui√ß√£o de Samaria em 722/721 aC.

Nesse sentido, a tradi√ß√£o judaica buscou dar uma explica√ß√£o para a toler√Ęncia que foi aplicada pelo ex√©rcito ass√≠rio por ocasi√£o da destrui√ß√£o do reino do norte (2Rs 17,5-6). Era de se esperar uma enorme e cruel matan√ßa, atitudes t√≠picas e b√°rbaras dos soldados ass√≠rios. Em contrapartida, houve deporta√ß√£o e um enorme abrandamento da viol√™ncia, inclusive com aten√ß√£o √† solicita√ß√£o dos povos que foram deportados para Samaria, mantendo-se o culto a YHWH (2Rs 17,24-41). Buscou-se, assim, explicar a medida que o rei de N√≠nive determinou para todos os ninivitas, em particular a convers√£o do caminho perverso e da viol√™ncia (Jn 3,8).

Da leitura atenta do livro, percebe-se que Jonas possuía traços bem peculiares e uma personalidade rebelde, indiferente, audaciosa, perspicaz e até colérica.

No primeiro cap√≠tulo, Jonas foi capaz de se rebelar ante a ordem recebida de YHWH, de se fechar √† miss√£o e de empreender uma grande aventura, entrando em uma embarca√ß√£o rumo a T√°rsis, a fim de se distanciar de N√≠nive, tomando o sentido oposto. Em meio √† tempestade, mostrou-se indiferente (Jn 1,5-6), mas, uma vez descoberto como a causa dela, assumiu a sua origem em primeira pessoa: ‚ÄúEu sou hebreu e a YHWH, que fez o mar e a terra seca, eu sou temente‚ÄĚ (Jn 1,11 ‚Äď refer√™ncia √† descend√™ncia abra√Ęmica em Gn 14,13 que deriva de Eber, considerado o antepassado primevo dos hebreus ‚Äď Gn 10,24-25; 11,14-17). Sabedor de que, enquanto n√£o sa√≠sse da embarca√ß√£o, a tempestade n√£o cessaria a sua f√ļria, n√£o hesitou em indicar a solu√ß√£o: ‚Äúerguei-me, lan√ßai-me ao mar e se acalmar√° sobre v√≥s‚ÄĚ (Jn 1,12). Diante de tamanha resolu√ß√£o, os marinheiros tudo fizeram para n√£o incorrer em um assassinato e, ainda, tiveram a coragem de declarar que Jonas poderia ser sangue inocente (Jn 1,14).

No segundo cap√≠tulo, Jonas, mantido com vida dentro do ventre do grande peixe, elevou a YHWH a sua prece, demonstrando-se capaz de reconhecer os motivos que o levaram a t√£o grande adversidade. Usou, contudo, a ‚Äúconvers√£o‚ÄĚ dos marinheiros como motivo de apela√ß√£o, dando a entender que at√© a sua atrevida desobedi√™ncia fora causadora de um benef√≠cio que, em √ļltima inst√Ęncia, acarretou o louvor a YHWH. Em sua expertise, que retrata o conhecimento de seu Deus, fez um voto, a fim de obter salva√ß√£o ou uma segunda chance. Nota-se que esse ponto encontra rela√ß√£o com a morte e ressurrei√ß√£o do filho da sunamita por Eliseu.

No terceiro cap√≠tulo, Jonas resolveu obedecer √† ordem divina j√° que recebeu a segunda chance. Mesmo assim, por√©m, n√£o deixou de lado o seu temperamento e a sua antipatia pelos pag√£os. Em seus l√°bios brotou uma palavra de amea√ßa que bem retratava o seu √≠ntimo desejo: ‚Äúainda quarenta dias e N√≠nive ser√° destru√≠da‚ÄĚ (Jn 3,5). Ao inv√©s de percorrer toda a cidade, caminhou apenas um ter√ßo dela, assumindo uma nova postura de indiferen√ßa.

No quarto cap√≠tulo, Jonas revelou o seu lado col√©rico e insatisfeito por dois motivos. Em primeiro lugar, porque intuiu que YHWH usaria de miseric√≥rdia para com os ninivitas que fizeram penit√™ncia e resolveram se converter. Em segundo lugar, por causa do forte calor que se abateu sobre a sua cabe√ßa. Apesar de todas as medidas tomadas por YHWH em seu favor, Jonas manteve-se irredut√≠vel no seu modo de pensar a justi√ßa divina. Demonstrou-se mais condescendente com uma planta do que com os seres humanos incapazes de discernir entre o bem e o mal de suas a√ß√Ķes. Resulta, enfim, uma quest√£o em aberto: teria Jonas compreendido a vontade salv√≠fica universal de YHWH pelo uso que fez da sua miseric√≥rdia?

Assim, √© percept√≠vel que o livro n√£o cont√©m a mensagem de um profeta, propriamente dito, mas pretende descrever, atrav√©s da sua aventura pessoal no confronto com a vontade de YHWH, como a hist√≥ria n√£o caminha sem um rumo ou desprovida de divinos objetivos. A √ļltima palavra n√£o tem o ser humano, ainda que profeta, mas o pr√≥prio YHWH.

2 Posi√ß√£o no c√Ęnon b√≠blico

Na B√≠blia hebraica, o livro de Jonas encontra-se entre Abdias e Miqueias. J√° no c√Ęnon da Septuaginta, encontra-se entre Abdias e Naum, dentro de uma ordem dos livros que difere bastante da hebraica. S√£o Jer√īnimo, na Vulgata, adotou a ordem do c√Ęnon hebraico.

Parece que a op√ß√£o da Septuaginta buscou assegurar uma continuidade tem√°tica entre Jn 4,11 em Na 1,1 pela cita√ß√£o de N√≠nive. Contudo, tanto no c√Ęnon hebraico como no grego, o livro de Jonas aparece depois do livro de Abdias, assegurando uma palavra dirigida a outros povos. No caso de Abdias contra Edom e no caso de Jonas contra os ninivitas.

3 Din√Ęmica narrativa, estrutura e g√™nero liter√°rio

O livro possui quatro grandes cenas. Cada uma corresponde a um cap√≠tulo. Gra√ßas a isso, fica relativamente f√°cil identificar as se√ß√Ķes do escrito e as suas respectivas cenas, que podem ser individuadas do seguinte modo:

Jn 1,1-3: os personagens são YHWH e Jonas. Os lugares são Jerusalém (suposto) e o porto de Jope. As cidades de Nínive e Társis são objetivos a serem alcançados. O primeiro, na ordem de YHWH, e o segundo, na intenção isolada e fugitiva de Jonas.

Jn 1,4-16: os personagens s√£o YHWH, Jonas, os marinheiros e o capit√£o. Os lugares s√£o a nau e o mar. Todavia, Jonas, ao apresentar o Deus ao qual serve, evoca ‚Äúos c√©us‚ÄĚ e ‚Äúa terra seca‚ÄĚ. Jerusal√©m continua figurada e subentendida no v. 16.

Jn 2,1-11: os personagens são YHWH, Jonas e o grande peixe. Os lugares são o mar (as profundidades e bases das montanhas eternas) e o ventre do grande peixe. Jerusalém continua subentendida na oração que Jonas elevou a YHWH (Jn 2,3b-10). Ante a decisão libertadora de YHWH, do mar se passa para a terra seca (Jn 2,11).

Jn 3,1-10: os personagens são YHWH, Jonas, os ninivitas, o rei e os animais. O lugar é Nínive, mas deve-se dar destaque ao palácio e aos pastos dos animais.

Jn 4,1-11: os personagens s√£o YHWH, Jonas, o r√≠cino e o verme. J√° os ninivitas e os animais ficam em segundo plano. O lugar citado √© ‚Äúo oriente da cidade‚ÄĚ. Jerusal√©m fica subentendida em Jn 4,2, que evoca as qualidades de YHWH.

Tendo individuado as cenas e o seu conte√ļdo, nota-se que, de fato, a estrutura corresponde aos quatro cap√≠tulos do escrito em dois blocos que poderiam ser colocados a partir dos dois movimentos: antes da ‚Äúobedi√™ncia‚ÄĚ e depois da ‚Äúobedi√™ncia‚ÄĚ de Jonas √† ordem de YHWH.

Primeira parte: antes da obedi√™ncia √† primeira instru√ß√£o e suas consequ√™ncias (Jn 1,1‚Äď2,11).

Segunda parte: depois da obedi√™ncia √† segunda instru√ß√£o e suas consequ√™ncias (Jn 3,1‚Äď4,10).

Esses dois blocos est√£o assegurados pela f√≥rmula: ‚Äúe veio a palavra de YHWH‚ÄĚ (Jn 1,1; 3,1); e pelo respectivo objetivo: ‚Äúlevanta-te, v√° a N√≠nive, a grande cidade e clama…‚ÄĚ (Jn 1,2; 3,2). As cenas, com os seus respectivos personagens e locais, s√£o admitidos como os limites para as duas grandes se√ß√Ķes individuadas. Mandirola faz um esquema sugestivo (MANDIROLA, 1999, p. 16):

1,1-3

Deus e Jonas:

Deus chama,

Jonas foge

3,1-3

Deus e Jonas:

Deus chama,

Jonas obedece

1,4-16

Deus e os pag√£os:

a tempestade sobre a naus

3,4-10

Deus e os pag√£os:

a pregação de Jonas em Nínive

2,1-11

Deus e Jonas:

salvação e oração

4,1-11

Deus e Jonas:

lição sobre o amor de Deus

Portanto, dependendo de como os exegetas se posicionam diante do livro do profeta Jonas, √© poss√≠vel encontrar diversos g√™neros liter√°rios propostos que variam entre ‚Äúmito e hist√≥ria‚ÄĚ, entre ‚Äúlegenda e midrash‚ÄĚ, entre ‚Äúnovela e narrativa prof√©tico-teol√≥gica‚ÄĚ. Contudo, independentemente da posi√ß√£o assumida pelo exegeta, pode-se afirmar que o autor tinha uma s√≥lida forma√ß√£o e estava atento √†s posturas teol√≥gicas da sua √©poca em rela√ß√£o aos pag√£os.

A favor dessa afirma√ß√£o est√° o uso apropriado de certas tradi√ß√Ķes e escritos prof√©ticos j√° existentes, como √© o caso de Jeremias que foi chamado para levar uma mensagem √†s na√ß√Ķes (Jr 1,10 ‚Äď Jn 1,2; 3,1-2), pautada na necessidade da convers√£o (Jr 18,11. 23,22; 25,5; 26,3; 35,15; 36,3.7 ‚Äď Jn 3,8). Nesse sentido, a posi√ß√£o do rei de N√≠nive, que se empenha para afastar a ira divina (Jn 3,9), √© algo relevante na profecia de Jeremias (Jr 4,8; 23,20; 30,24).

Ao lado de Jeremias, tamb√©m √© poss√≠vel citar Ezequiel e seus or√°culos contra Tiro e Sid√īnia (Ez 26,1‚Äď28,26), pois revelam o sentido de uma na√ß√£o que, apesar de se julgar forte por suas habilidades mar√≠timas, pela beleza perfeita de seus navios, os teve, por√©m, engolidos pelas √°guas (Ez 27,3.26-27 ‚Äď cf. Jn 1,4-16).

A possibilidade de YHWH voltar atr√°s no seu plano punitivo (teshuv√°), base para a convers√£o humana, √© tamb√©m comum a Jeremias e a Jonas (Jr 18,8; 26,3.13.19; 42,10 ‚Äď Jn 3,10; 4,10). At√© mesmo o desejo de morrer de Jonas (Jn 4,3.8) aparece subentendido em Jr 15,10; 20,14-18. Tudo isso favorece a partilha da sensibilidade pelo tema da miseric√≥rdia como sinal da identidade de YHWH, como em Jl 2,14 e Jn 4,2 com base em Ex 34,6-7, justificando e enfatizando, como em Jl 2,13 e Jn 3,10, a mudan√ßa de atitude em YHWH.

Enfim, o uso que Mt 12,38-41 e Lc 11,29-32 fizeram do livro de Jonas está centrado no olhar e na compreensão cristã do episódio do grande peixe para atestar a possibilidade da ressurreição de Jesus, após três dias no sepulcro, bem como no fato de que a geração dos ninivitas se demonstrou mais aberta para a conversão do que os interlocutores de Jesus.

Todavia, para al√©m desse uso limitado no NT, √© poss√≠vel afirmar que o livro do profeta Jonas, ao lado dos cantos do Servo Sofredor, presentes em Isa√≠as, encerra uma eficaz doutrina sobre o amor de YHWH por todos os seres humanos que, se n√£o encontra expl√≠cita express√£o no Antigo Testamento, √© o principal elemento da prega√ß√£o e das a√ß√Ķes salv√≠fico-libertadoras operadas por Jesus de Nazar√© no confronto de judeus e de pag√£os. √Č o olhar aberto e assumido pessoalmente pelo ap√≥stolo Paulo no tocante √† evangeliza√ß√£o dos gentios.

4 Pontos de teologia

Quem é Deus no livro de Jonas?

Essa pergunta b√°sica permite definir e delinear alguns tra√ßos e elementos caracter√≠sticos de YHWH que dirige a palavra a Jonas, se faz pr√≥ximo e est√° por detr√°s dos acontecimentos. Nesse sentido, o uso do Tetragrama Sagrado ficou reservado para as falas que relacionam o Deus de Israel com o seu profeta. Em contrapartida, nos l√°bios dos marinheiros e dos ninivitas foi usado o nome comum: ‚ÄôEloh√ģm (Deus).

O ponto central de toda a narrativa recai sobre o conhecimento e a rela√ß√£o entre a justi√ßa e a miseric√≥rdia divinas. Sobre essa rela√ß√£o pode-se aproximar o livro de Jonas a Ex 34,6-7, como se verifica em Jn 3,9. Como Mois√©s, o profeta mais √≠ntimo de YHWH (Dt 34,10-12), o profeta Jonas tamb√©m teve a oportunidade de conhecer YHWH, experimentando o modo como conduz e determina n√£o apenas os rumos da hist√≥ria do seu povo, mas toda a hist√≥ria universal. A √ļltima fala do livro pertence a YHWH e traz em quest√£o o tema da miseric√≥rdia relacionada √† ignor√Ęncia ou √† incapacidade humana para discernir entre o bem e o mal.

Nada escapa a YHWH, que faz surgir a tempestade, bem como a faz cessar, porque √© o Deus que fez o mar e a terra firme. A sua onipot√™ncia se verifica tanto no agir vis√≠vel como no invis√≠vel, representado no fato de um grande peixe engolir, preservar Jonas com vida e de cuspi-lo novamente em terra firme. Ao lado do grande peixe (Jn 2,1-2.11), em todo o Antigo Testamento, somente a serpente do √Čden (Gn 3,1-19) e a jumenta de Bala√£o (Nm 22,22-35) atuam como protagonistas animados ao lado do ser humano e servem aos des√≠gnios divinos.

YHWH, por ser o Criador, fez surgir e desaparecer o pé de rícino, através de um verme, a fim de testar a sensibilidade de Jonas em relação ao ser humano, ainda que visto como inimigo. Ao lado do reino animal, Jn 4,6-10 mostra a atuação do reino vegetal na vida do profeta. Sobre isso, ainda, o decreto do rei em Jn 3,7 é digno de nota, pois os animais, ao invés de serem sacrificados, para aplacar a ira divina, foram associados à penitência dos ninivitas.

Quem é o ser humano?

Para responder a esta pergunta bastaria colocar em confronto a pessoa de Jonas e os pag√£os. Salta aos olhos, por um lado, o fechamento do profeta aos pag√£os e, por outro lado, a abertura dos pag√£os a YHWH diante da fala e das a√ß√Ķes que envolvem Jonas. Enquanto o ouvinte-leitor esperaria do profeta um comportamento mais condizente com o conhecimento que tem de YHWH, desponta que os pag√£os s√£o os que mais facilmente se deixam influenciar pelos acontecimentos pontuais e anunciados pelo profeta. Nota-se, ent√£o, pela din√Ęmica do livro, que YHWH √© mais bem acolhido, ou melhor, temido e respeitado pelos de fora do que por aquele que representa seu enviado a pronunciar uma palavra de ju√≠zo diante dos acontecimentos.

Subjaz ao livro de Jonas uma profunda teologia da salvação que coloca em xeque o fechamento aos não judeus. Graças à desobediência de Jonas, que decidiu sair da presença de YHWH, aconteceu a conversão dos marinheiros diante da possibilidade da morte causada pela forte tempestade. Graças à obediência de Jonas, que anunciou a destruição de Nínive, isto é, por uma breve palavra causou uma tempestade dentro da cidade, aconteceu a conversão dos ninivitas. Em ambos os casos está latente o interesse de YHWH pela salvação dos pagãos.

Em contrapartida, a salva√ß√£o de Jonas da morte por afogamento, atrav√©s de um grande peixe (elemento marcadamente mitol√≥gico), e a afli√ß√£o do profeta, que pediu a sua morte por ver a miseric√≥rdia de YHWH sendo dada aos ninivitas, se contrap√Ķem ao que sentiu pela morte do r√≠cino que lhe proporcionou um pouco de sombra e frescor sobre a cabe√ßa. Tal fato acentua a contradi√ß√£o do profeta, que representa uma concep√ß√£o salv√≠fica de matriz nacionalista.

Portanto, para uma abertura e sens√≠vel compreens√£o do livro do profeta Jonas, √© preciso levar em conta a pluralidade dos temas teol√≥gicos subjacentes ao escrito. O interesse pelas celebra√ß√Ķes cultuais de tipo penitencial e pelas tradi√ß√Ķes prof√©ticas em circula√ß√£o enfatiza que o valor da revela√ß√£o, pautada em uma profecia de castigo, permite compreender que a salva√ß√£o do povo eleito n√£o significa a condena√ß√£o dos demais povos. A teologia da gra√ßa, presente no livro, aponta para o fato de que a convers√£o dos marinheiros e dos ninivitas n√£o foi um mero capricho divino, mas passou pelo comprometimento e atua√ß√£o do profeta, ainda que este necessite ser convencido de que a vontade de YHWH est√° pautada na sua onisci√™ncia.

O profeta Jonas n√£o √© um egoc√™ntrico, mas representa a postura dos que compreendem a realidade salv√≠fica de forma estreita e ainda muito voltada para si mesma. Por isso, a √ļltima fala do livro est√° em aberto, desejosa de encontrar a resposta favor√°vel em cada ouvinte-leitor.

5 Atualização da mensagem

Pensar a f√© e seus desdobramentos, a partir das pr√≥prias convic√ß√Ķes religiosas, continua sendo um desafio a ser superado n√£o apenas pelas diversas express√Ķes religiosas presentes no mundo, mas por cada pessoa que se considera fiel √† f√© que professa e √† doutrina que segue.

Nesse sentido, pode-se dizer que a aflição de Jonas foi menor em relação à misericórdia de YHWH do que em relação à capacidade de conversão que encontrou nos marinheiros e nos ninivitas, apesar desses serem vistos como malvados, violentos e cruéis. A aflição de Jonas atesta, também, o ímpeto da sua personalidade no confronto do seu povo, que deixa de crescer porque se fecha aos pagãos e não lhes concede compaixão a exemplo do seu Deus.

Ler e estudar o livro do profeta Jonas s√£o apelos para a capacidade que cada fiel deve ter para olhar dentro de si mesmo, a fim de reconhecer que as pr√≥prias limita√ß√Ķes e desilus√Ķes religiosas podem ser um excelente caminho de convers√£o pessoal e eclesial.

Quando se assume uma postura totalitária, pior ainda se essa é de matriz religiosa, a gravidade dos erros é aumentada e extremamente potencializada. Basta pensar no rei Davi, que foi dura e sabiamente reprovado pelo profeta Natã através de uma simples parábola (2Sm 12,1-15), ou no ensinamento sobre o amor ao próximo na parábola do bom samaritano, contada por Jesus (Lc 10,30-35), para se perceber que o ser humano é capaz de demonstrar o pior de si quando a religião se torna mais importante que as obras da fé pela caridade.

Então, há no livro de Jonas um apelo didático à conversão pela aceitação do amor de YHWH por cada ser humano. Por isso, o livro termina sem uma resposta para a questão deixada por YHWH a Jonas. O auspício é que cada ouvinte-leitor se deixe conduzir pela provocação do autor que protesta contra uma religiosidade augusta, mas exclusivista. Além disso, deixa claro que é preciso abandonar a comodidade religiosa e assumir uma postura mais aberta e missionária, sem pensar ou taxar quem é diferente como inimigo, ainda que considerado cruel. Se fosse assim, o pobre Ananias teria razão e Saulo não teria sido batizado (At 9,10-19).

Que a onipotente miseric√≥rdia de Deus, sobre indiv√≠duos, povos e na√ß√Ķes, do Oriente ao Ocidente, encontre, em cada um de n√≥s, o espa√ßo livre para o amor construir as raz√Ķes que mostram o real sentido da obedi√™ncia a Deus e √† sua vontade: a vida que supera a morte. Esta √© a grande li√ß√£o do livro do profeta Jonas.

Leonardo Agostini Fernandes. PUC-Rio). Texto original em português. Enviado: 02/02/2021. Aprovado: 11/02/2021. Publicado: 24/12/2021.

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