Cartas Paulinas

Sum√°rio

1 O apóstolo Paulo

1.1 Paulo nos Atos dos Apóstolos

1.2 Paulo nas cartas paulinas

2 O epistol√°rio Paulino

2.1 As cartas autênticas

2.2 As cartas discutidas

3 A teologia paulina

3.1 O poder de Deus para a salvação

3.2 Novos seres humanos

3.3 O corpo da Igreja

4 Interpretação das cartas paulinas na América Latina

Referências

1 O apóstolo Paulo

Quando e onde nasceu Paulo? Em que momento se tornou um seguidor de Cristo? A cronologia da vida de Paulo tem duas fontes: os Atos dos Ap√≥stolos e seus pr√≥prios escritos. Essas duas fontes nem sempre coincidem. A descri√ß√£o dos Atos √© atribu√≠da a Lucas e corresponde √† perspectiva evangelizadora de toda a sua obra. Paulo, por sua vez, n√£o nos oferece uma autobiografia completa, mas eventos isolados a partir dos quais algumas partes de sua vida podem ser reconstru√≠das. Existem dois tipos de cronologias, relativas e absolutas. As relativas s√£o entendidas como “relacionadas a Lucas” e “relacionadas √†s cartas de Paulo”. De acordo com essa abordagem, cada obra liter√°ria reflete uma “hist√≥ria” diferente do ap√≥stolo. A cronologia absoluta busca combinar em um √ļnico quadro hist√≥rico os dados de Atos, das cartas e de alguns acontecimentos extrab√≠blicos que poderiam coincidir com aqueles mencionados no Novo Testamento.

1.1 Paulo nos Atos dos Apóstolos

Paulo √© o protagonista da segunda parte dos Atos dos Ap√≥stolos; a sua caracteriza√ß√£o corresponde ao projeto narrativo e mission√°rio da obra lucana: ‚Äúe sereis minhas testemunhas em Jerusal√©m, em toda a Judeia e a Samaria, e at√© os confins da terra‚ÄĚ (At 1,8; cf. Is 41, 9). Lucas narra tr√™s viagens mission√°rias do ap√≥stolo e tr√™s vezes o encontro do ap√≥stolo com Jesus ressuscitado na estrada para Damasco.

As viagens de Paulo descritas na segunda parte do livro descrevem um ap√≥stolo que se dedica a levar o Evangelho de Jesus Cristo √†s fronteiras da di√°spora judaica. A rota da primeira viagem leva Pablo e Bernab√©, enviados pela igreja de Antioquia, a Lica√īnia, Listra e Derbe (14,1-6), centro-sul da Turquia. Sua prega√ß√£o ocorre inicialmente na sinagoga judaica (14,1) e resulta em rejei√ß√£o e at√© apedrejamento (14,19). Diante da rejei√ß√£o dos judeus, eles se voltam para os gentios (13,46). A rota da segunda viagem leva Paulo, Silas e Tim√≥teo, em parte, √† antiga Gal√°cia, um pouco mais ao norte da primeira viagem. As dificuldades (16,6-10) empurram-nos para a Maced√īnia, passando por Ne√°polis e Filipos, centros urbanos romanos. Esta transi√ß√£o marca um momento crucial no projeto mission√°rio lucano: a evangeliza√ß√£o da Europa. A jornada da terceira viagem leva Paulo de Antioquia a Corinto, passando pela maioria das igrejas fundadas na √Āsia Menor e nas costas da Tess√°lia, e de volta a Jerusal√©m. O an√ļncio evang√©lico ao longo dessas viagens geralmente √© feito na sinagoga judaica; Lucas tamb√©m reitera os obst√°culos da primeira prega√ß√£o, da orienta√ß√£o do Esp√≠rito Santo e do exemplo de Paulo como primeiro testemunho pessoal de identifica√ß√£o com o destino de Jesus. As datas dessas viagens s√£o muito discutidas. Se a men√ß√£o a Gali√£o (18,12-17) e seu tempo como proc√īnsul na Acaia s√£o levados em considera√ß√£o, pode-se conjecturar a cerca dos seguintes prazos: primeira viagem entre 47-48 dC, segunda entre 49-52 dC e a terceira entre 53-57 dC. Tamb√©m se discute se a quarta viagem, ou o cativeiro, pode ser considerada uma viagem apost√≥lica. √Č bem poss√≠vel que essas viagens correspondam mais a um “esquema teol√≥gico” de divulga√ß√£o do testemunho sobre Jesus ressuscitado, partindo de Antioquia e Jerusal√©m, passando por Roma e dali at√© os confins da terra.

Os relatos de convers√£o de Paulo constituem um tr√≠ptico. Cada cena prop√Ķe uma imagem diferente do ap√≥stolo, com um objetivo espec√≠fico. O primeiro √© narrado na terceira pessoa, o segundo, como testemunho pessoal e o terceiro, como defesa perante o tribunal de Agripa. Em Atos 9,1-19, Lucas descreve um encontro entre Paulo e Jesus ressuscitado. Este relato termina com o batismo de Paulo por Ananias. Em Atos 22,1-21, o pr√≥prio Paulo descreve o que aconteceu na estrada para Damasco como um testemunho pessoal. Neste caso, o “Deus dos nossos pais” o fez uma testemunha privilegiada da ressurrei√ß√£o do Senhor. Este relato termina com uma vis√£o no templo em Jerusal√©m (vv.17-21), na qual sua miss√£o como testemunha √© confirmada. Em Atos 26,12-23, Paulo se defende das acusa√ß√Ķes de alguns judeus perante o tribunal de Agripa. Ainda que essa defesa seja feita perante um tribunal romano, Paulo usa argumentos caracter√≠sticos dos profetas. Sua defesa consiste em reafirmar sua voca√ß√£o prof√©tica. O objetivo dessas tr√™s diferentes narrativas √© mostrar, de forma gradual, como Paulo tomou consci√™ncia de sua voca√ß√£o a ser testemunha de Jesus ressuscitado. Os cap√≠tulos 9, 22 e 26 descrevem suas atividades mission√°rias e, o mais importante, as persegui√ß√Ķes e rejei√ß√Ķes a que foi submetido. A imagem de Paulo que Lucas nos d√° √© a de um ap√≥stolo mission√°rio, testemunha pessoal da persegui√ß√£o, morte e ressurrei√ß√£o do Senhor, porque ele mesmo assim o experimentou durante o seu caminho apost√≥lico e espiritual.

1.2 Paulo nas cartas paulinas

Como Paulo se descreve em suas cartas? Como um servo in√ļtil semelhante ao descrito no Evangelho (Lc 17,10)? Como ap√≥stolo e evangelizador? Paulo fala de si mesmo nas seguintes passagens: Gl 1,15‚Äď2,14; Fl 3,5-6; 1Cor 7,7. O seu testemunho escrito mostra que foi um homem de f√© enraizado em duas culturas, a do juda√≠smo da di√°spora e a greco-romana do Mediterr√Ęneo.

Em Fl 3,5-6, Paulo parece definir-se como algu√©m que subverte a ordem estabelecida. ‚ÄúViver em Cristo‚ÄĚ determina um antes e um depois; tudo antes √© considerado uma perda quando comparado ao valor de conhec√™-lo. Entre alguns judeus, a fidelidade √† Lei de Mois√©s era de import√Ęncia inigual√°vel; um m√©rito que Paulo questiona ap√≥s seu encontro com o Senhor. Na esfera greco-romana, o prest√≠gio ou a capacidade de se gabar eram essenciais. Os motivos mais significativos eram a linhagem, a educa√ß√£o, os √™xitos alcan√ßados. Paulo relativiza sua linhagem, sua forma√ß√£o farisaica e seu zelo como perseguidor, mostrando com seu exemplo que a f√© em Cristo constitui uma fonte incompar√°vel de orgulho e, assim, introduz uma nova forma de ser no mundo. Em Rm 1,1, Paulo se apresenta como escravo ‚Äď de Cristo Jesus ‚Äď e em 1Cor 9,19, como um homem livre que se tornou escravo. Ele voluntariamente renuncia a seus direitos para dar o exemplo de como uma assembleia deve ser instru√≠da. Essa compreens√£o de seu minist√©rio, como humilde servidor da mensagem de Cristo, e de sua obra evangelizadora, como servi√ßo a uma comunidade, modifica os par√Ęmetros do discipulado greco-romano, cujo objetivo era superar o mestre. O fato de estar ‚Äúseparado‚ÄĚ para a difus√£o do Evangelho (Rm 1,1) segue tamb√©m o padr√£o de consagra√ß√£o de Israel caracter√≠stico da tradi√ß√£o prof√©tica do AT (cf. Ez 45,1.4; 48,9.20).

Em Gl 1,15‚Äď2,14 Paulo descreve sua transforma√ß√£o de perseguidor da Igreja a evangelizador dos gentios. Ele justifica seu minist√©rio e seu ser ap√≥stolo por um chamado divino, sem interven√ß√£o humana. Depois de ter tido essa experi√™ncia do Senhor, ele menciona um intervalo de tr√™s anos (1,18), antes de uma breve visita a Jerusal√©m, e depois outro intervalo de quatorze anos at√© uma nova visita a Jerusal√©m (2,1), identificada com o Conc√≠lio de Jerusal√©m. Estes dezessete anos n√£o s√£o f√°ceis de explicar, se for atribu√≠do valor hist√≥rico aos itiner√°rios propostos nos Atos dos Ap√≥stolos. Para conciliar esses anos com os anteriores √† primeira viagem mission√°ria, seria necess√°rio for√ßar um pouco o c√°lculo dos anos. Apesar das dificuldades apontadas em estabelecer uma cronologia absoluta, as duas fontes principais, a carta aos G√°latas (2,1-10) e os Atos dos Ap√≥stolos (15,2-29), coincidem em mencionar o encontro de Paulo e Barnab√© com os ap√≥stolos, pilares de Jerusal√©m, assim como os acordos ali estabelecidos: n√£o impor a circuncis√£o aos crist√£os de origem pag√£ ‚Äď n√£o judeus ‚Äď e cuidar especialmente dos pobres. Se levarmos em conta tamb√©m algumas fontes hist√≥ricas extrab√≠blicas (Suet√īnio e T√°cito) e o c√°lculo retroativo dos anos passados ‚Äč‚Äčpor Paulo em Corinto conforme Atos 18,11-22, antes de comparecer perante o proc√īnsul L. Junio G√°li√£o na Acaia (aproximadamente 52 dC), sua participa√ß√£o no Conc√≠lio de Jerusal√©m pode ser datada por volta dos anos 49-50 dC.

2 O epistol√°rio paulino

As cartas paulinas podem ser agrupadas de muitas maneiras: protopaulinas, deuteropaulinas, tritopaulinas. Alguns tamb√©m distinguem suas cartas de cativeiro das pastorais, ou seja, as que mencionam suas cadeias (Filipenses, Fil√™mon, Ef√©sios e Colossenses) e as que se dirigem aos ministros da Igreja (Tim√≥teo e Tito). Por raz√Ķes de clareza e brevidade, ser√£o apresentadas em dois grandes grupos: aquelas cuja autenticidade √© praticamente un√Ęnime e as discutidas ou atribu√≠das √† escola paulina.

2.1 As cartas autênticas

2.1.1 Romanos

A carta aos Romanos foi escrita no final de 57 dC ou no in√≠cio de 58 dC, de Acaia (Maced√īnia) ou de Corinto. √Č considerada a “suma teol√≥gica” do ap√≥stolo. Explica como e porque Deus transforma os seres humanos pela f√© em Cristo. De acordo com as promessas feitas a Israel, Deus capacita os crentes a agir com justi√ßa e retid√£o. A justi√ßa pela f√© em Cristo est√° dispon√≠vel para judeus e n√£o judeus.

2.1.2 Primeira Coríntios

A primeira carta aos Cor√≠ntios foi escrita entre 54-56 dC, durante a ‚Äúterceira viagem mission√°ria‚ÄĚ (cf. At 18,18-28) e possivelmente de √Čfeso. Nesta carta, Paulo questiona duramente a comunidade por causa das divis√Ķes que a afligem. A disc√≥rdia sobre o tipo de batismo recebido ou os carismas que abundam na comunidade indicam que os destinat√°rios eram ne√≥fitos ou ainda imaturos na f√©. O ap√≥stolo instrui todos eles na verdadeira sabedoria do Evangelho de Cristo.

2.1.3 Segunda Coríntios

A segunda carta aos Cor√≠ntios foi possivelmente escrita em meados de 57 dC, da Maced√īnia, ap√≥s o reencontro de Paulo com Tito (2Cor 7,6-7) e antes de viajar novamente para Jerusal√©m (cf. At 19,21-22). Os temas de consola√ß√£o e reconcilia√ß√£o aparecem como os fios comuns de grande parte da carta. Nas se√ß√Ķes 8‚Äď9, Paulo promove uma cole√ß√£o para a comunidade de Jerusal√©m e, em 10‚Äď13, ele se defende anunciando sua √ļnica fonte de orgulho: pregar Cristo.

2.1.4 G√°latas

A carta aos G√°latas foi escrita em algum momento entre 55-57 dC, de Corinto ou de √Čfeso, depois do “Conc√≠lio de Jerusal√©m”, mas antes da carta aos Romanos. Nessa carta, Paulo reprova a incoer√™ncia e a tolice dos membros da comunidade que querem ceder √† press√£o de um grupo de agitadores judaizantes. O ap√≥stolo lembra-lhes que, como disc√≠pulos de Cristo, foram chamados √† liberdade. A verdadeira liberdade √© reconhecida porque permite amar.

2.1.5 Filipenses

A carta aos Filipenses √© atribu√≠da a um “velho” e prisioneiro Paulo. A men√ß√£o de “minhas correntes” (1,7.14.17) indica que o ap√≥stolo escreveu esta carta de Roma, aproximadamente entre 60-62 dC. Nela, Paulo prop√Ķe dois exemplos a seguir, o de Cristo que se humilha e o do pr√≥prio Paulo que se despoja de seus privil√©gios anteriores. O convite √† alegria completa este comp√™ndio de vida crist√£ que sintoniza o crente com os mesmos sentimentos de Cristo.

2.1.6 Primeira Tessalonicenses

A primeira carta aos Tessalonicenses √© considerada a escrita mais antiga do epistol√°rio paulino e em todo o NT; pode ter sido escrita por volta de 50-51 dC. Nela, Paulo tenta responder ao medo daqueles que esperavam a vinda do Senhor como um evento iminente: se aqueles que morreram antes dessa vinda participariam do “dia do Senhor”. O ap√≥stolo responde aos crentes lembrando-lhes que n√£o se sabe o dia nem a hora e os exorta √† sobriedade no presente.

2.1.7 Filêmon

Discute-se se esta carta foi escrita em 56-57 dC, de √Čfeso (cf. Aristarchus em Fl 34 e Atos 19,29), ou por volta de 60 dC, de Roma. O ap√≥stolo pede a Fil√™mon que receba o escravo On√©simo como se fosse o pr√≥prio Paulo. √Č uma pequena obra-prima de persuas√£o em que Paulo procura formar a consci√™ncia do crist√£o, para que se comporte de acordo com o amor e a f√© em Jesus.

 2.2 As cartas discutidas

2.2.1 Efésios

A carta aos Ef√©sios foi escrita entre 60-90 dC, em algum lugar da √Āsia Menor, em torno de uma ‚Äúescola Paulina‚ÄĚ que preservou o pensamento e o estilo do ap√≥stolo. Nele, a condi√ß√£o de Paulo √© mencionada como um ‚Äúprisioneiro‚ÄĚ (4,1), um ‚Äúembaixador entre cadeias‚ÄĚ (6,20). O cora√ß√£o da carta √© o mist√©rio de Cristo, que se define como a unidade indissol√ļvel entre a cabe√ßa, que √© Cristo, e seu corpo, que √© a Igreja. A carta tamb√©m promove coer√™ncia moral com o conhecimento desse mist√©rio.

2.2.2 Colossenses

A carta aos Colossenses foi escrita entre 60-90 dC, em algum lugar na √Āsia Menor, talvez um pouco antes da carta aos Ef√©sios. √Č atribu√≠da a uma “escola paulina” que preservou o estilo e o ensino do ap√≥stolo. Esta carta compartilha muitas caracter√≠sticas com a carta aos Ef√©sios, mas, ao contr√°rio desta, n√£o enfatiza tanto o papel da Igreja como o de Cristo. Pode ter sido a resposta a alguns equ√≠vocos que proliferaram nas comunidades de Colossos e Laodiceia.

2.2.3 Segunda Tessalonicenses

A segunda carta aos Tessalonicenses foi escrita entre 80-90 dC, em algum lugar da √Āsia Menor dentro de uma “comunidade paulina”. Esta carta foi constru√≠da nos moldes da primeira e aparentemente trata do mesmo assunto: a vinda do Senhor e o fim dos tempos. No entanto, ao contr√°rio da primeira, enfatiza a preven√ß√£o dos enganos do maligno e de qualquer outra forma de mal. Discute-se muito se o seu conte√ļdo apocal√≠ptico √© paulino.

2.2.4 Primeira Timóteo

A primeira carta a Tim√≥teo foi escrita no final do s√©culo 1 dC, em algum lugar da √Āsia Menor. Paulo associou Tim√≥teo √† sua obra apost√≥lica, de acordo com o testemunho de Atos 16,1-3; 18,5; 2Cor 1,19. A carta reflete uma comunidade em transi√ß√£o da miss√£o para a institucionaliza√ß√£o. Caracteriza a conduta irrepreens√≠vel dos ministros (bispos, di√°conos, presb√≠teros) e do resto da comunidade. A f√© √© entendida como uma luta que envolve amor, paci√™ncia e bondade.

2.2.5 Segunda Timóteo

A segunda carta a Tim√≥teo foi escrita no final do s√©culo I dC, em algum lugar da √Āsia Menor. Esta carta √© considerada o testamento e a despedida do ap√≥stolo no final da sua vida: ‚ÄúCombati o bom combate, acabei a carreira, guardei a f√©‚ÄĚ (4,7). Nela, exorta-se a fidelidade, a firmeza e a for√ßa diante das adversidades. A persegui√ß√£o tamb√©m est√° prevista para todos aqueles que desejam levar uma vida aut√™ntica em Cristo.

2.2.6 Tito

A carta a Tito foi escrita no final do s√©culo I dC. Tito aparece como companheiro apost√≥lico de Paulo em algumas de suas cartas (2Cor 2,13; Gl 2,1-3), no contexto da miss√£o √† Maced√īnia (2Cor 7,6.13) e da coleta pelos pobres de Jerusal√©m (2Cor 8,6.16). Por esta raz√£o, a reda√ß√£o da carta est√° localizada entre as igrejas da Maced√īnia ou Acaia. A carta oferece um resumo da reden√ß√£o e do batismo crist√£os; a reden√ß√£o entendida como purifica√ß√£o e o batismo como renova√ß√£o no Esp√≠rito Santo.

2.2.7 Hebreus

O autor da Primeira Ep√≠stola de Clemente (no final do s√©culo I ou in√≠cio do s√©culo II dC) j√° se refere a esta carta como parte do NT; sua data de composi√ß√£o, entretanto, √© incerta (entre 65 e 90 dC). A autoria paulina da carta foi aceita nas igrejas do Oriente, mas foi questionada nas do Ocidente; n√£o est√° inclu√≠da, por exemplo, no C√Ęnon de Muratori (s√©culo II dC aproximadamente). Seu conte√ļdo se assemelha muito ao de uma homilia antiga extra√≠da de textos do AT, a fim de demonstrar a primazia do sacerd√≥cio de Cristo.

3 A teologia paulina

 3.1 O poder de Deus para a salva√ß√£o

Paulo descreve em suas cartas a a√ß√£o de Deus em favor dos homens por meio de certas no√ß√Ķes conhecidas no AT. Deus, por exemplo, justifica, salva, perdoa, expia os pecados da humanidade. A essas no√ß√Ķes o ap√≥stolo acrescenta outras mais t√≠picas do mundo greco-romano. Deus reconcilia, concede paz, une esp√≠ritos. A teologia de Paulo, entretanto, n√£o difere substancialmente de sua cristologia, porque todas as a√ß√Ķes de Deus s√£o realizadas por meio de Jesus Cristo. Al√©m disso, todos os seres humanos, independentemente de sua ra√ßa e origem, sejam judeus ou n√£o judeus, acessam esses benef√≠cios divinos por meio da f√© em Cristo.

Na carta aos Romanos e aos G√°latas, Paulo sai de seu caminho para demonstrar, com a ajuda das mesmas Escrituras do AT, que as promessas de Deus a Israel tamb√©m previam a inclus√£o de n√£o judeus. Para isso, o ap√≥stolo deve explicar sua compreens√£o pessoal, ou reinterpreta√ß√£o, da alian√ßa entre Deus e Israel e da lei de Mois√©s. A alian√ßa estabelecida entre Deus e Abra√£o inclu√≠a a terra e a descend√™ncia de todo Israel. A marca registrada de tal alian√ßa por parte dos israelitas consistia na circuncis√£o dos homens. Paulo mostra que antes da alian√ßa e da prescri√ß√£o da circuncis√£o, Deus fez uma promessa incondicional a Abra√£o, na qual Abra√£o acreditava antes de se tornar israelita ou judeu. A preced√™ncia da promessa (para todos os crentes) em rela√ß√£o √† alian√ßa (circunscrita aos circuncidados) √©, portanto, um ponto forte da teologia paulina. A consequ√™ncia imediata dessa compreens√£o da maneira de agir de Deus √© a revoga√ß√£o da validade da Lei de Mois√©s para aqueles que acreditam em Cristo. Se Cristo √© o √ļnico intermedi√°rio entre Deus e os homens, a lei n√£o pode ocupar este lugar. Paulo esclarece que a lei de Mois√©s √© santa, justa e boa (Rm 7,12) e que foi a pedagoga da humanidade para ensinar-lhe o Cristo (Gl 3,24). Agora, em Cristo, todos os preceitos da lei s√£o sintetizados no mandamento do amor.

O poder do Evangelho de Cristo tem repercuss√Ķes c√≥smicas. Paulo descreve a atividade de Deus em favor da humanidade como uma capacita√ß√£o para se tornarem filhos de Deus em plenitude. Para cumprir esse objetivo, Deus, por meio de Cristo, move aqueles que est√£o sob o dom√≠nio do pecado e os coloca sob o dom√≠nio da gra√ßa. Isso significa que, em Cristo, Deus vence o poder do pecado, seu antigo advers√°rio. Nas cartas discutidas, especialmente em Ef√©sios e Colossenses, a a√ß√£o de Deus e a media√ß√£o de Cristo tamb√©m t√™m uma dimens√£o c√≥smica. Esta dimens√£o j√° √© sugerida em Rm 8,38-39 quando se afirma que nada, nem mesmo a for√ßa do pecado, pode nos separar do amor de Deus. Em Ef√©sios e Colossenses, a soberania de Cristo, e com ela a do Deus bom, alcan√ßa todas as suas criaturas, tanto as que est√£o na terra como no c√©u.

3.2 Seres humanos novos

Paulo explica a vida em Cristo por meio de contrastes temporais, oposi√ß√Ķes l√≥gicas e paradoxos humanos. Antes da vinda de Cristo √©ramos escravos do poder do pecado, agora, em Cristo, somos “escravos” da justi√ßa (Rm 6,18). Antes, sob o imp√©rio da lei, √©ramos expostos aos caprichos do ego√≠smo humano (a carne), agora em Cristo, morremos para esses caprichos e podemos viver segundo o Esp√≠rito. Paulo destaca a mudan√ßa entre o antes e o depois dos fi√©is com a ajuda da imagem do batismo (imers√£o). O que acontece com os crentes que passam de estar sob a lei, expostos ao pecado, a estarem sob a gra√ßa? A resposta do ap√≥stolo √© contundente: uma morte acontece. O crente mergulha na morte de Cristo, √© cossepultado, torna-se um com o sepultamento de Cristo e, assim, se une √† sua morte (Rm 6,3-5). A esta identifica√ß√£o com a sua morte n√£o corresponde uma identifica√ß√£o igual com a ressurrei√ß√£o do Senhor: essa √© adiada para o futuro; seremos ressuscitados, assim como seremos salvos. A reflex√£o do ap√≥stolo concentra-se, de fato, nas consequ√™ncias morais desta imers√£o no presente: agora vivemos em vida nova (Rm 6,4). A participa√ß√£o nesta morte separa o crente do poder do pecado, de modo que possa p√īr suas qualidades a servi√ßo da justi√ßa (Rm 6,12-14).

Em 1Cor 11,23-26 Paulo relata um dos mais antigos testemunhos da √öltima Ceia do Senhor e a explica como mist√©rio de unidade e comunh√£o com a pr√≥pria entrega de Jesus na cruz. Paulo tamb√©m descreve essa unidade √≠ntima do crente com Cristo por meio das virtudes da f√©, esperan√ßa e caridade. A f√© em Cristo se traduz na esperan√ßa de ressurrei√ß√£o com ele; essas virtudes se materializam, por sua vez, em manifesta√ß√Ķes de amor pelos outros, sejam eles membros da comunidade ou n√£o.

Nas cartas discutidas, a descri√ß√£o da identifica√ß√£o com o crente muda ligeiramente. Nelas, o esquema temporal √© preservado para esclarecer os efeitos da morte e ressurrei√ß√£o. No entanto, ao contr√°rio das cartas aut√™nticas em que o “j√° e ainda n√£o” √© acentuado (j√° fomos justificados, mas ainda n√£o salvos), as cartas discutidas insistem na presente uni√£o com Cristo: ‚Äúpela gra√ßa voc√™s j√° foram salvos‚ÄĚ (Ef 2,5). N√£o apenas salvos, mas glorificados com Cristo, sentados √† direita de Deus Pai (Ef 2,6). Isso significa que n√£o falta nada no caminho para a salva√ß√£o? Para que o crente se torne perfeito, isto √©, adulto ou maduro em Cristo, √© necess√°rio que conhe√ßa o seu mist√©rio e cres√ßa harmoniosamente at√© se identificar consigo mesmo (Ef 4,13-16).

 3.3 O corpo da Igreja

Paulo define a Igreja como comunh√£o no Esp√≠rito. Ele curiosamente sublinha a diferen√ßa entre seus membros. Comparando-a com o corpo humano (1Cor 12,14-26), o ap√≥stolo mostra que cada membro √© diferente por natureza e fun√ß√£o. Essa compara√ß√£o permite que ele exorte seus ouvintes a protegerem cuidadosamente os membros mais fracos (1Cor 12,22-24). Durante sua experi√™ncia mission√°ria e apost√≥lica, Paulo teve que enfrentar muitas divis√Ķes na comunidade; algumas por motivos religiosos e at√© espirituais, como a prolifera√ß√£o de carismas; outras de natureza moral, como esc√Ęndalos (1Cor 6,12-20; 7,1-2); outras de natureza √©tnica, como a discrimina√ß√£o entre judeus-crist√£os e crist√£os de origem pag√£; entre ricos e pobres. Em todos estes casos, o ap√≥stolo procura ir √†s ra√≠zes da vida crist√£, muitas vezes evitando dar orienta√ß√Ķes particulares. O v√≠nculo da caridade est√° acima de qualquer divis√£o. A presen√ßa do Esp√≠rito Santo na comunidade tamb√©m garante que sua unidade seja corporativa e org√Ęnica, mais do que mera uniformidade.

Nas cartas discutidas, a compreens√£o da Igreja ganha densidade. Nelas, a Igreja n√£o se identifica primeiramente com as comunidades locais, mas com o corpo de Cristo, com seu corpo m√≠stico. Se o Cristo ressuscitado √© a cabe√ßa, a Igreja √© seu corpo glorificado. A Igreja √©, portanto, o mist√©rio da unidade entre esta cabe√ßa e este corpo. Essas cartas se aprofundam nos m√ļltiplos minist√©rios que j√° se insinuam na segunda gera√ß√£o apost√≥lica: ap√≥stolos, profetas, evangelizadores, pastores, mestres (Ef 4,11). Nas cartas pastorais (1¬™ e 2¬™ Tim√≥teo, Tito) √© descrita uma certa organiza√ß√£o institucional das comunidades crist√£s, bem como a caracteriza√ß√£o de certos minist√©rios institu√≠dos: bispos (1Tm 3,1-7; Tt 1,7-9) di√°conos (1Tm 3,8-13), presb√≠teros (1Tm 5,17-22; Tt 1,5-6). Ao ap√≥stolo √© atribu√≠da, por exemplo, a nomea√ß√£o dos respons√°veis ‚Äč‚Äčda comunidade (2Tm 1,6-8). √Č uma Igreja que cresce e se organiza para difundir o Evangelho e promover a caridade.

4 Interpretação das cartas paulinas na América Latina

A interpretação das cartas paulinas na América Latina (AL) caracterizou-se pelo seu teor pastoral. A leitura popular da Bíblia descobriu tanto nas narrativas das viagens missionárias em Atos quanto na descrição de algumas cartas um modelo para a construção de pequenas comunidades. Seguindo este modelo, descobre-se a palavra de Deus que chega ao continente americano (MESTERS, 2001). O convite paulino a viver a liberdade com que Cristo nos libertou constitui um desafio para as igrejas de todos os tempos. Um desafio que inclui também a afirmação da igualdade das mulheres em todos os níveis da sociedade e da Igreja (TAMEZ, 1999). O contexto do livro do Êxodo e de Moisés, como o líder de Israel, foi igualmente inspirador para ler os textos paulinos na AL (INOSTROZA, 2000). As cartas paulinas serviram, por fim, como fonte de reflexão para os processos de reconciliação que acontecem na AL (GRANADOS ROJAS, 2016).

Juan Manuel Granados Rojas SJ. Pontif√≠cio Instituto B√≠blico. Texto original em espanhol. Postado en diciembre del 2020.

 Refer√™ncias

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