√Čtica e Teologia no Novo Testamento

Sum√°rio

1 Jesus e a ética cristã

1.1 As raízes veterotestamentárias

1.2 O Mestre exemplar

1.3 O mandamento novo

2 A ética do Reino no Sermão da Montanha

2.1 A superação do legalismo

2.2 Uma nova forma de piedade

2.3 Um caminho de comunh√£o

3 A ética da comunidade cristã

3.1 ‚ÄúUm s√≥ cora√ß√£o e uma s√≥ alma‚ÄĚ

3.2 Solidariedade com os empobrecidos e marginalizados

3.3 A exigência do perdão e da reconciliação

4 A ética do amor misericordioso

4.1 ‚ÄúQuem permanece no amor, permanece em Deus‚ÄĚ

4.2 ‚ÄúA maior √© a caridade!‚ÄĚ

4.3 ‚ÄúFaze isto e viver√°s!‚ÄĚ

5 Desafio atual

6 Referências bibliográficas

A √Čtica e a Teologia no Antigo Testamento foram abordadas em outro verbete, em que se mostrou como a f√© se encarnou na vida de um povo, como modo de proceder peculiar, de alta qualidade humana. Trata-se de mostrar, agora, como o caminho aberto por Jesus leva adiante e radicaliza a tradi√ß√£o √©tica de Israel, num projeto de vida proposto √†s comunidades crist√£s, as do Novo Testamento e as de todos os tempos.

As palavras e os gestos de Jesus configuraram um ethos particular no √Ęmbito da religiosidade de Israel. Tr√™s palavras sintetizam sua a√ß√£o: continuidade, ruptura e supera√ß√£o. Tudo quanto fez e ensinou situava-se no √Ęmbito da √©tica israelita, forjada ao longo dos s√©culos. Nela se enraizava, dando-lhe continuidade. Entretanto, colocou-se na contram√£o de certas tend√™ncias da √©poca, focadas na submiss√£o aos ditames da Lei, sem comungar-lhe com o esp√≠rito. Qui√ß√° os textos evang√©licos induzam ao equ√≠voco de se tomar o voc√°bulo farisa√≠smo como sin√īnimo de hipocrisia e falsidade. O Mestre Jesus √© apresentado em cont√≠nuo conflito com a ala legalista do movimento farisaico, sem se dar conta de haver, tamb√©m, uma vertente distinta, feita de piedade verdadeira. Pode-se afirmar que nem todo fariseu o √© da maneira como se fala dos fariseus nos Evangelhos. Jesus, por√©m, quis ir al√©m e apresentar um modo de proceder inteiramente centrado no querer do Pai, para al√©m da letra da Lei. A s√≠ntese desse intento encontra-se em Mt 5,20: ‚ÄúEu vos digo: se vossa justi√ßa n√£o for maior que a dos escribas e dos fariseus, n√£o entrareis no Reino dos C√©us‚ÄĚ. Assim, Jesus pretendeu forjar uma √©tica superior √†quela praticada por certos grupos, apontando para o querer do Pai como absoluto na vida do disc√≠pulo do Reino.

1 Jesus e a ética cristã

A tradi√ß√£o crist√£ abriu novas perspectivas para a √©tica de Israel. Diferentemente dos rabinos e suas escolas para o ensino da interpreta√ß√£o da Lei Mosaica, Jesus transmitiu aos disc√≠pulos uma sabedoria de vida ‚Äď uma √©tica ‚Äď centrada no Reino de Deus e sua justi√ßa, a serem buscados em primeiros lugar (cf. Mt 6,33). Escolheu um m√©todo existencial ‚Äď ‚ÄúAprendei de mim‚ÄĚ (Mt 11,29) ‚Äď para transmitir um modo de ser e de agir com o testemunho de vida, palavras e atos. A linguagem parab√≥lica foi a maneira de pregar o evangelho do Reino. ‚ÄúNada lhes falava a n√£o ser em par√°bolas‚ÄĚ (Mc 4,34). A vida e o mundo foram as escolas onde os disc√≠pulos de Jesus se confrontavam com uma ‚Äújusti√ßa superior √† dos escribas e √† dos fariseus‚ÄĚ (Mt 5,20).

1.1 As raízes veterotestamentárias

Jesus n√£o inventou uma nova √©tica. Antes, foi capaz de mergulhar nas ra√≠zes da f√© de Israel e, deste tesouro, ‚Äútirar coisas novas e velhas‚ÄĚ (Mt 13,52). Seu contexto √©tico-religioso exigia uma guinada. A preval√™ncia da mentalidade de certas correntes do movimento dos escribas e fariseus deu origem a uma religi√£o legalista, donde resultava uma √©tica feita de submiss√£o aos 613 mandamentos e proibi√ß√Ķes, nos quais a Tor√° fora codificada. A religi√£o e, com ela, a √©tica, tornaram-se um fardo pesado, um jugo esmagador, sem espa√ßo para a liberdade. Jesus denunciava os opositores por causa da conduta impr√≥pria. ‚ÄúAmarram fardos pesados e os p√Ķem sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos nem com um dedo se disp√Ķem a mov√™-los‚ÄĚ (Mt 23,4). Criavam normas para os outros, sem assumi-las para si.

Entretanto, o novo ethos introduzido por Jesus exigia dos disc√≠pulos profunda renova√ß√£o interior. A continuidade com a tradi√ß√£o de Israel comportava, tamb√©m, descontinuidade. Jesus usou duas par√°bolas para falar da disposi√ß√£o para acolher a novidade de sua proposta. ‚ÄúNingu√©m p√Ķe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasg√£o torna-se maior. Nem se p√Ķe vinho novo em odres velhos; caso contr√°rio, estouram os odres, o vinho se entorna e os odres ficam inutilizados. Portanto, o vinho novo se p√Ķe em odres novos; assim ambos se conservam‚ÄĚ (Mt 9,16-17). Sua proposta √©tica n√£o podia ser confundida com o legalismo farisaico. O Reino de Deus requeria grande abertura de cora√ß√£o para ser acolhido sem reservas. S√≥ assim se poderia captar a novidade √©tica do Mestre de Nazar√©.

1.2 O Mestre exemplar

‚ÄúDei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, tamb√©m v√≥s o fa√ßais!‚ÄĚ (Jo 13,15). Os disc√≠pulos eram desafiados a contemplar o agir do Mestre e nele se inspirar. Muito diferente dos fariseus hip√≥critas, contra os quais foram alertados. ‚ÄúFazei e observai tudo quanto vos disserem. Mas n√£o imiteis suas a√ß√Ķes, pois dizem, mas n√£o fazem‚ÄĚ (Mt 23,3-4). Um aprendizado feito como ant√≠tese das li√ß√Ķes dos mestres.

Jesus apresentava seu testemunho de vida como modelo. ‚ÄúAprendei de mim, porque sou manso e humilde de cora√ß√£o‚ÄĚ (Mt 11,29). Sua vida de bem-aventurado (cf. Mt 5,4) manifestava-se no trato com os pequeninos e marginalizados, com os quais convivia, a ponto de irritar os inimigos. ‚ÄúOs fariseus e os escribas murmuravam: ‚ÄėEsse homem recebe os pecadores e come com eles‚Äô‚ÄĚ (Lc 15,2). E n√£o lhe poupavam apodos ofensivos: ‚Äúcomil√£o e beberr√£o, amigo de publicanos e pecadores‚ÄĚ (Mt 11,19). Por√©m, nada o impedia de seguir o caminho cujo √°pice seria a cruz (cf. Lc 4,30).

De forma alguma, sujeitou-se aos caprichos da lideran√ßa religiosa. Sua atitude foi de total liberdade diante das tradi√ß√Ķes, com suas exig√™ncias obsoletas. As exterioridades est√£o fora de seu interesse. Preocupa-lhe, antes, o que sai de dentro do ser humano, pois ‚Äúisso √© que o torna impuro‚ÄĚ (Mc 7,20). A√≠ t√™m origem os mais horrendos desvios √©ticos: ‚Äúprostitui√ß√Ķes, roubos, assass√≠nios, adult√©rios, ambi√ß√Ķes desmedidas, maldades, mal√≠cia, inveja, difama√ß√£o, arrog√Ęncia, insensatez. Todas essas coisas m√°s saem de dentro do homem e o tornam impuro‚ÄĚ (Mc 7,21-23). Sem um severo trabalho de educa√ß√£o do cora√ß√£o, qualquer conduta √©tica, decorrente do compromisso crist√£o, fica inviabilizada.

1.3 O mandamento novo

O Antigo Testamento conhecia duas vers√Ķes do Dec√°logo (cf. Ex 20,2-17; Dt 5,6-21). Pode ser considerado a s√≠ntese da √©tica veterotestament√°ria. S√£o balizas para a conduta humana, iluminada pela f√©, caminho para se fazer, na hist√≥ria, a vontade de Deus. Todavia, o legalismo de sua √©poca exigiu de Jesus reinterpretar, com total liberdade, o Dec√°logo, inclusive com o direito de eliminar o que lhe parecia ultrapassado (cf. Mt 5,21-47). Diante de si estava o Pai, cujo modo de agir os disc√≠pulos foram motivados a almejar. ‚ÄúDeveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste √© perfeito‚ÄĚ (Mt 5,48).

A pergunta de um fariseu permitiu a Jesus reduzir o Dec√°logo apenas a dois mandamentos. ‚ÄúAmar√°s ao Senhor teu Deus de todo o teu cora√ß√£o, de toda a tua alma e de todo o teu esp√≠rito. Esse √© o maior e o primeiro mandamento. O segundo √© semelhante a esse: Amar√°s o teu pr√≥ximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas‚ÄĚ (Mt 22,37-40). Assim era poss√≠vel se posicionar diante da pluralidade de exig√™ncias da religi√£o, onde coisas essenciais eram equiparadas a coisas de menor import√Ęncia.

Entretanto, j√° no final de seu minist√©rio, Jesus resume as exig√™ncias para os disc√≠pulos no ‚Äúmandamento novo‚ÄĚ correspondente ao amor m√ļtuo. ‚ÄúDou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos tamb√©m uns aos outros. Nisso reconhecer√£o todos que sois meus disc√≠pulos, se tiverdes amor uns pelos outros‚ÄĚ (Jo 13,34-35; cf. 1Jo 2,7-8). Ou, ent√£o, ‚ÄúEste √© o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei‚ÄĚ (Jo 15,12). O sinal distintivo da √©tica crist√£ √© a capacidade de estabelecer um v√≠nculo de caridade nas rela√ß√Ķes interpessoais. Detalhe: o exemplo inspirador √© a obla√ß√£o de Jesus na cruz, como prova insuper√°vel de amor. ‚ÄúNingu√©m tem maior amor do que aquele que d√° a vida por seus amigos‚ÄĚ (Jo 15,13).

2 A ética do Reino no Sermão da Montanha

O Serm√£o da Montanha sintetiza a √©tica do disc√≠pulo, na perspectiva do Reino. Mt 5-7 re√ļne ensinamentos de Jesus, com paralelos em Marcos e Lucas, em contextos diferentes. Esse catecismo do discipulado esbo√ßa, em grandes linhas, o agir de quem optou por centrar a vida no querer do Pai, nos passos de Jesus. Pode ser chamado de Tor√° (instru√ß√£o, ensino) crist√£, pois n√£o pretende ser uma lei, no sentido jur√≠dico do termo, e, sim, uma orienta√ß√£o, um projeto de vida.

2.1 A superação do legalismo

O Mestre Jesus ensina os disc√≠pulos a se colocarem diante da Lei com liberdade de cora√ß√£o, interpretando-lhe as exig√™ncias sob o prisma da vontade original do Pai. As releituras de alguns mandamentos do Dec√°logo servem de exemplo para o trato com os demais e toda e qualquer lei. O disc√≠pulo aprende a superar a materialidade da letra para atingir o esp√≠rito do mandamento. N√£o matar vai al√©m da elimina√ß√£o f√≠sica do outro. A l√≠ngua pode se tornar uma arma mort√≠fera, capaz de ferir mortalmente o semelhante (cf. Mt 5,21-26). O div√≥rcio, permitido pela religi√£o da √©poca, deve ser rejeitado por se configurar como desrespeito √†s mulheres (cf. Mt 5,31-33; 19,1-19). O adult√©rio se comete no cora√ß√£o com um olhar libidinoso (cf. Mt 5,27-30). O juramento falso deve ser abolido de vez da vida do disc√≠pulo (cf. Mt 5,33-37). A chamada lei de tali√£o ‚Äď olho por olho e dente por dente ‚Äď ser√° substitu√≠da pela lei do perd√£o e da solidariedade (cf. Mt 5,38-42). Uma √ļltima ilustra√ß√£o: o amar√°s o teu pr√≥ximo e odiar√°s o teu inimigo ser√° substitu√≠do pelo amor e pela ora√ß√£o em favor dos inimigos e perseguidores (cf. Mt 5,43-47; 5,11-12). O disc√≠pulo recusa-se a interpretar a Lei ao p√© da letra, para n√£o cair no legalismo contr√°rio ao querer do Pai.

O referencial do agir do disc√≠pulo √© o Pai. ‚ÄúDeveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste √© perfeito‚ÄĚ (Mt 5,48) √© a orienta√ß√£o do Mestre Jesus. Tendo o agir do Pai como refer√™ncia, o disc√≠pulo estar√° no bom caminho. O Pai n√£o faz distin√ß√£o de pessoas. Por isso ‚Äúfaz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos‚ÄĚ (Mt 5,46). Quem se deixa guiar pelo Pai, agir√° inspirado nele. Essa √© a forma de alcan√ßar um modo de vida ‚Äď justi√ßa ‚Äď superior √† dos escribas e fariseus (cf. Mt 5,20).

2.2 Uma nova forma de piedade

Outra vertente da √©tica do disc√≠pulo √© a dimens√£o religiosa. Certa corrente do farisa√≠smo praticava os atos de piedade sem qualquer profundidade, por se preocupar com o reconhecimento alheio. A religiosidade exterior escondia o interior cheio de mal√≠cia. Jesus denunciou com vigor prof√©tica tal esquizofrenia religiosa. ‚ÄúAi de v√≥s, escribas e fariseus hip√≥critas! Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro est√£o cheios de ossos de mortos e de toda podrid√£o. Assim tamb√©m v√≥s: por fora pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade‚ÄĚ (Mt 23,27).

O disc√≠pulo do Reino √© orientado a dar esmola da maneira mais discreta poss√≠vel (cf. Mt 6,1-4). Nada de trombetear e chamar a aten√ß√£o para si, com o desejo secreto de ser louvado. A regra do agir √©: ‚ÄúN√£o saiba tua m√£o esquerda o que faz tua direita‚ÄĚ (v.3). √Č a √©tica da discri√ß√£o! A pr√°tica da ora√ß√£o segue a mesma linha (cf. Mt 6,5-6). Ser√° feita no segredo do quarto, com as portas fechadas, para evitar que algu√©m veja o disc√≠pulo no di√°logo com o Pai. Por fim, ao fazer jejum, evitar√° qualquer sinal exterior de autopuni√ß√£o f√≠sica, que desfigura o rosto (cf. Mt 6,16-18). Antes, a cabe√ßa ungida e o rosto lavado despistar√£o qualquer ind√≠cio de jejum. S√≥ o Pai conhecer√° a disposi√ß√£o interior do disc√≠pulo.

2.3 Um caminho de comunh√£o

Bem situado na tradição religiosa de Israel, Jesus coloca-se ao serviço da reconstrução do projeto do Pai para a humanidade. Por isso, apontará aos discípulos um caminho de comunhão e de fraternidade, motivando-os a eliminar os focos de divisão e de inimizade.

O Mestre exorta-os a rejeitarem o materialismo que gera nos cora√ß√Ķes a sede de possuir e acumular, sem qualquer preocupa√ß√£o de compartilhar (cf. Mt 6,19-21). Esse tesouro enganoso pode ser perdido num piscar de olhos. S√≥ os pobres em esp√≠rito s√£o capazes de trilhar o caminho apontado pelo Mestre (cf. Mt 5,3) e estarem sempre prontos a servir a Deus e jamais ao dinheiro (cf. Mt 6,24). O disc√≠pulo √© tamb√©m exortado a ter cuidado com o olhar, porta por onde podem entrar em seu cora√ß√£o tantos sentimentos desumanizadores (cf. Mt 6,22-23). Cabe-lhe ser ‚Äúpuro de cora√ß√£o‚ÄĚ (cf. Mt 5,8). A √©tica do Reino exige do disc√≠pulo cultivar a virtude da autocr√≠tica para estar √† altura de criticar o irm√£o ou a irm√£ de comunidade. A hipocrisia de ver o cisco no olho do pr√≥ximo, sem se dar conta da trave que est√° no pr√≥prio olho, √© incompat√≠vel com o desejo de viver centrado no Pai. Da√≠ a ordem de n√£o julgar para n√£o ser julgado (cf. Mt 7,1-5).

Duas orienta√ß√Ķes de vida s√£o fundamentais para o disc√≠pulo do Reino. A primeira √©: ‚ÄúBuscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justi√ßa, e todas essas coisas vos ser√£o acrescentadas‚ÄĚ (Mt 6,33). O foco da √©tica √© o Pai e seu Reino. Todas as a√ß√Ķes decorrer√£o desse fil√£o teol√≥gico. A segunda √©: ‚ÄúTudo aquilo que quereis que os homens vos fa√ßam, fazei-o v√≥s a eles, pois esta √© a Lei e os Profetas‚ÄĚ (Mt 7,12). O olhar fixado em Deus est√° igualmente fixado no pr√≥ximo. Por√©m, numa perspectiva peculiar: o disc√≠pulo deseja para si o mesmo que deseja para o semelhante. O olhar dirigido ao outro determinar√° o que √© bom para si. Nada pode desejar para si, sem antes se perguntar se corresponde ao que deseja para o outro. Nada pode desejar para si, sem o desejar tamb√©m para o outro. Nada pode desejar para o outro, sem que tamb√©m seja desej√°vel para si.

3 A ética da comunidade cristã

A √©tica crist√£, no bojo da tradi√ß√£o de Israel, √© comunit√°ria por natureza. Os indiv√≠duos s√£o pensados nas rela√ß√Ķes interpessoais, jamais solit√°rios. Desse modo, ao longo do seu minist√©rio, Jesus lan√ßou a semente do que haveriam de ser as comunidades crist√£s. Seu projeto √©tico supunha os disc√≠pulos do Reino reunidos em comunidade.

3.1 ‚ÄúUm s√≥ cora√ß√£o e uma s√≥ alma‚ÄĚ

As primeiras comunidades dos disc√≠pulos e disc√≠pulas de Jesus chamavam a aten√ß√£o pela pr√°tica da solidariedade (cf. At 2,44-47). A ades√£o √† f√© levava-os a colocar tudo em comum, a ponto de se desfazerem de suas propriedades, pensando ‚Äúnas necessidades de cada um‚ÄĚ (v.45). O crescimento da comunidade se dava por seu modo de viver. A fraternidade solid√°ria tornava-se um projeto de vida atraente para quem buscava um modo de vida alternativo ao que se conhecia no ambiente judaico e no ambiente romano.

Uma met√°fora sugestiva descreve a vida dos primeiros crist√£os. ‚ÄúA multid√£o dos que haviam crido era um s√≥ cora√ß√£o e uma s√≥ alma‚ÄĚ (At 4,32a). Sem romantismo, tiravam as consequ√™ncias pr√°ticas desse estilo de vida. Sempre na linha da solidariedade! ‚ÄúNingu√©m considerava exclusivamente seu o que possu√≠a, mas tudo entre eles era comum‚ÄĚ (At 4,32b). A comunidade se organizava em fun√ß√£o das necessidades de seus membros, para que n√£o houvesse necessitados. ‚ÄúDe fato, os que possu√≠am terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas, e os depunham aos p√©s dos ap√≥stolos. Distribu√≠a-se, ent√£o, a cada um segundo sua necessidade‚ÄĚ (At 4,34-35). A f√© se desdobrava na √©tica da caridade!

3.2 Solidariedade com os empobrecidos e marginalizados

A carta de Tiago √© uma s√ļmula importante da √©tica crist√£. Um t√≥pico importante de sua catequese diz respeito √† aten√ß√£o devida aos empobrecidos e marginalizados. N√£o se admite que um pobre seja discriminado na assembleia da comunidade (cf. Tg 2,1-9). Engana-se quem oferece ao rico um lugar confort√°vel e manda o pobre sentar-se abaixo, aos p√©s dos ricos (v.3). Este modo de agir desagrada a Deus, que ‚Äúescolheu os pobres em bens deste mundo para serem ricos na f√© e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam‚ÄĚ (v.5). Tiago denuncia a ingenuidade de quem bajula os ricos opressores e blasfemadores, que ‚Äúos arrastam aos tribunais‚ÄĚ (v.6). O desrespeito aos pobres atrai a ira de Deus, pois, ao se fazer acep√ß√£o de pessoas, se comete pecado e se incorre na condena√ß√£o da Lei, por transgress√£o (v.9).

Tiago estabelece a estreita rela√ß√£o entre f√© e obras (cf. Tg 2,14-26). A f√© torna-se imprest√°vel, se n√£o se explicitar em a√ß√Ķes em favor dos empobrecidos. N√£o ter√° valor salv√≠fico! De nada adianta ir ao encontro de um irm√£o ou irm√£ carente de vestu√°rio e alimenta√ß√£o com aug√ļrios dispens√°veis ‚Äď ‚ÄúIde em paz, aquecei-vos e saciai-vos!‚ÄĚ (v.16a) ‚Äď sem ‚Äúlhes dar o necess√°rio para a sua manuten√ß√£o‚ÄĚ (v.16b). A solidariedade crist√£ tem valor salv√≠fico quando supera a piedade vazia e parte para a a√ß√£o, movida pela f√©. √Č a √©tica verdadeira que, pela media√ß√£o do pr√≥ximo necessitado, gera comunh√£o com o Pai do c√©u (cf. Mt 25,31-36).

3.3 A exigência do perdão e da reconciliação

O bin√īmio perd√£o e reconcilia√ß√£o √© indispens√°vel na √©tica comunit√°ria crist√£. Por mais que os disc√≠pulos do Reino se esforcem, jamais est√° descartada a possibilidade de se romperem as rela√ß√Ķes. Isso pode ser inevit√°vel. Entretanto, n√£o se podem tolerar a inimizade e a acomoda√ß√£o em face aos v√≠nculos rompidos. A comunh√£o fraterna √© exig√™ncia inescus√°vel!

O Pai n√£o pode suportar o culto de quem est√° de rela√ß√Ķes cortadas com algum irm√£o. ‚ÄúVai primeiro reconciliar-te com teu irm√£o‚ÄĚ (Mt 5,24) √© exig√™ncia para o culto agrad√°vel a Deus. Sem essa provid√™ncia preliminar, o culto perder√° a raz√£o de ser.

Quem ‚Äún√£o perdoar, de cora√ß√£o, ao seu irm√£o‚ÄĚ (Mt 18,35) ser√° r√©u de castigo divino. Afinal, cada vez que se perdoa apenas se compartilha com o pr√≥ximo o perd√£o recebido do Pai do c√©u. A par√°bola do devedor que se mostra implac√°vel ilustra este elemento da √©tica crist√£ (cf. Mt 18,23-35). O perd√£o do disc√≠pulo do Reino corresponde √† partilha do perd√£o incalcul√°vel recebido do Pai, ilustrado na par√°bola com o cancelamento de uma d√≠vida de dez mil talentos, sem qualquer exig√™ncia de ressarcimento. O perd√£o concedido ao irm√£o ser√° irris√≥rio, comparado ao perd√£o recebido de Deus. ‚ÄúCem den√°rios‚ÄĚ √© nada diante de ‚Äúdez mil talentos‚ÄĚ.

O perd√£o reconciliador, na √©tica crist√£, n√£o tem limites. O disc√≠pulo do Reino √© desafiado a perdoar sempre. O di√°logo entre Pedro e Jesus esclarece este vi√©s do modo de proceder de quem adere ao Reino. ‚ÄúSenhor, quantas vezes devo perdoar ao irm√£o que pecar contra mim? At√© sete vezes!‚ÄĚ foi a quest√£o levantada por Pedro (Mt 18,21). O disc√≠pulo prop√Ķe como par√Ęmetro o m√°ximo de vingan√ßa aludido no Antigo Testamento (cf. Gn 4,24). O Mestre abre-lhe a perspectiva do perd√£o ilimitado. ‚ÄúN√£o te digo at√© sete, mas at√© setenta vezes sete vezes‚ÄĚ (Mt 18,22). O Mestre quis dizer: ‚ÄúSempre!‚ÄĚ Essa √© a forma mais conveniente de ‚Äúser misericordioso como o Pai √© misericordioso‚ÄĚ (Lc 6,36).

4 A ética do amor misericordioso

O amor-√°gape √© a pedra basilar da √©tica crist√£. Tudo parte dele e se direciona para ele. Qui√ß√° seja esta a originalidade do ensinamento √©tico de Jesus, ao apontar um eixo vertebral da a√ß√£o dos disc√≠pulos e disc√≠pulas do Reino, de modo a dar unidade a tudo quanto fazem. Uma frase de Santo Agostinho resume bem este vetor do agir crist√£o: ‚ÄúAma e faze o que queiras!‚ÄĚ No pressuposto de existir o amor, qualquer a√ß√£o em favor do pr√≥ximo ser√° bem-vinda, por visar sempre o bem. Sem o ‚Äúama‚ÄĚ, o outro pode se tornar objeto nas m√£os de indiv√≠duos sem escr√ļpulos. O amor faz tudo ser diferente!

4.1 ‚ÄúQuem permanece no amor, permanece em Deus‚ÄĚ

Os escritos joaninos insistem no primado do amor na vida do crist√£o, pois ‚ÄúDeus √© amor‚ÄĚ. Por conseguinte, ‚Äúaquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele!‚ÄĚ (1Jo 4,16). Teologia e √©tica fundem-se numa unidade existencial, expressa em cada gesto ou palavra do disc√≠pulo do Reino. Por conseguinte, o ato de f√© se torna verdadeiro no ato de amor-√°gape. Na dire√ß√£o contr√°ria, o ato de amor-√°gape √© a express√£o aut√™ntica da f√©, sem possibilidade de equ√≠vocos. A pr√°tica da caridade revela a comunh√£o do disc√≠pulo com Deus, pois Deus se faz presente e torna poss√≠vel o ato de amor. Sem a presen√ßa divina, a caridade fica impossibilitada, j√° que o indiv√≠duo est√° largado a si mesmo, sendo incapaz de superar os limites do ego√≠smo, raiz da maldade e da injusti√ßa cometidas contra o semelhante, sendo os fracos e indefesos as primeiras v√≠timas.

O verbo grego m√©nŇć, traduzido por permanecer, significa habitar, morar. Isto permite descobrir uma rica sem√Ęntica na afirma√ß√£o joanina. O amor-√°gape possibilita ao disc√≠pulo ‚Äúmorar em Deus‚ÄĚ e ‚ÄúDeus morar nele‚ÄĚ. Se o disc√≠pulo mora em Deus e Deus nele, s√≥ poder√° agir movido pelo amor. O ego√≠smo jamais ter√° lugar em seu cora√ß√£o! Isso s√≥ ser√° poss√≠vel no dia em que mudar de morada. Em outras palavras, se abra√ßar uma √©tica contr√°ria ao projeto do Reino, anunciado por Jesus.

4.2 ‚ÄúA maior √© a caridade!‚ÄĚ

Paulo, escrevendo √† comunidade de Corinto, indica-lhe ‚Äúum caminho que ultrapassa a todos‚ÄĚ (1Cor 12,31): o caminho da amor-√°gape! Servindo-se de linguajar po√©tico, apresenta um projeto de vida √©tica de elevado teor, onde todas as a√ß√Ķes humanas se alicer√ßam no amor que, no final das contas, ser√° a √ļnica coisa que permanecer√° na rela√ß√£o do ser humano com Deus. O ‚Äúhino √† caridade‚ÄĚ √© uma p√©rola dos escritos neotestament√°rios (cf. 1Cor 13,1-13).

Dois t√≥picos chamam a aten√ß√£o. Paulo refere-se √† possibilidade de se ter ‚Äútoda a f√©, a ponto de transportar montanhas‚ÄĚ; sem a caridade, por√©m, ‚Äúnada seria‚ÄĚ (v.2). N√£o √© f√°cil pensar ‚Äútoda a f√©‚ÄĚ desprovida de caridade. Que f√© seria? Ainda mais espantosa √© a eventualidade de algu√©m distribuir todos os seus bens aos famintos e entregar seu corpo √†s chamas, sem ser movido pela caridade (v.3). N√£o seriam atos heroicos de oblatividade? Como pens√°-los √† margem da caridade? O ap√≥stolo parece servir-se de uma linguagem paradoxal para chamar a aten√ß√£o para o valor supremo da caridade.

O amor-ágape tem muitíssimos rostos: paciência, serviçalismo, gentileza, esperança, suportabilidade. Por outro lado, não cultiva a inveja, a ostentação, o orgulho, a irritabilidade nem o rancor. Não é inconveniente; deixa de lado o interesse pessoal; se entristece com a injustiça, mas se alegra com a verdade (v.4-7). A vida virtuosa é fruto do amor-ágape! Deixar-se guiar por ele corresponde à atitude mais sensata do cristão.

No ocaso da vida, o amor-ágape despontará como a virtude mais preciosa do cristão. Embora permanecendo a fé e a esperança, maior que ambas é a caridade (v.13).

4.3 ‚ÄúFaze isto e viver√°s!‚ÄĚ

A par√°bola do bom samaritano comporta um ensinamento essencial para a √©tica crist√£: a miseric√≥rdia deve ser radical (cf. Lc 10,25-37). A quest√£o de fundo √© a pergunta do doutor da Lei Mosaica, dirigida a Jesus: ‚ÄúQue farei para herdar a vida eterna?‚ÄĚ (v.25).

A hist√≥ria contada para explicar ‚Äúquem √© meu pr√≥ximo?‚ÄĚ comporta dois personagens que, ligados a Deus por suas fun√ß√Ķes, praticam uma religi√£o sem entranhas de miseric√≥rdia. O sacerdote e o levita passam insens√≠veis ao largo, ao se depararem com o homem ca√≠do na beira da estrada (v.31-32). A necessidade do pr√≥ximo n√£o lhes toca o cora√ß√£o. Deus lhes basta! Ser√°?

No extremo oposto da rela√ß√£o com Deus na vis√£o dos judeus, um samaritano √© introduzido na hist√≥ria. Era bem conhecida a hostilidade dos judeus em rela√ß√£o aos samaritanos (cf. Jo 4, 9). Exatamente um samaritano se depara com o homem desnudado, espancado e deixado semimorto (v.30). A grande probabilidade de ser um judeu j√° seria motivo para passar adiante, sem se importar com sua sorte. Entretanto, deixando de lado os preconceitos, sua vida muda de dire√ß√£o. A car√™ncia do ser humano que tem diante de si lhe ocupa toda a aten√ß√£o. Uma cascata de express√Ķes de miseric√≥rdia acontece!

‚ÄúChegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaix√£o‚ÄĚ (v.33). √Č o come√ßo de tudo! O samaritano deixou-se afetar pelo homem ca√≠do. A afec√ß√£o tocou-lhe as entranhas, a ponto de n√£o deix√°-lo impass√≠vel. Antes, moveu-o a agir, sem interpor dificuldades. ‚ÄúAproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando √≥leo e vinho, depois o colocou em seu pr√≥prio animal, conduziu-o √† hospedaria e dispensou-lhe cuidados. No dia seguinte, tirou dois den√°rios e deu-o ao hospedeiro dizendo: ‚ÄėCuida dele, e o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei‚Äô‚ÄĚ (v.34-35). O samaritano esgotou todas as possibilidades de se mostrar solid√°rio com o homem aviltado em sua dignidade. Foi misericordioso at√© o extremo!

A palavra de Jesus ao mestre da Lei aplica-se a todos quantos se fazem disc√≠pulos do Reino, no seguimento do Mestre de Nazar√©: ‚ÄúVai, e tamb√©m tu faze o mesmo‚ÄĚ (v.37). A viv√™ncia radical da miseric√≥rdia, que se faz solid√°ria com as car√™ncias do irm√£o sofredor, √© a quintess√™ncia da √©tica crist√£, caminho de comunh√£o com o Pai, revelado por Jesus.

5 Desafio atual

Os crist√£os e crist√£s da Am√©rica Latina deparam-se com o desafio de viver a f√©, com densidade √©tica, num Continente marcado pela injusti√ßa, com seus muitos rostos de empobrecimento, mis√©ria, desigualdade, viol√™ncia, morte e corrup√ß√£o. Dizer-se adorador ou adoradora do Deus de Jesus Cristo, esquivando-se do confronto com o irm√£o e a irm√£ cujos direitos lhes s√£o negados, corresponde a rejeitar com a vida (√©tica) o que se professa com a f√© (teologia). As palavras do Mestre de Nazar√© continuam a soar, como aguilh√£o a despertar-lhes a consci√™ncia: ‚ÄúNem todo aquele que me diz ‚ÄėSenhor, Senhor‚Äô entrar√° no Reino dos C√©us, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que est√° nos c√©us‚ÄĚ (Mt 7,21). Qual √© a vontade do Pai celeste sen√£o que vivamos a caridade, ‚Äúplenitude da Lei‚ÄĚ (Rm 13,10)?

Jaldemir Vitório SJ, FAJE, Brasil. Texto original português.

6 Referências bibliográficas

ADRIANO, J. A caridade e a ética da vida. Revista de Cultura Teológica,  n.9, p.37-59. 2001.

BARROS, M. √Čtica e solidariedade na B√≠blia. Magis Cadernos de F√© e Cultura, n.2, p.109-32. 1994.

HARRINGTON, D. Jesus e a ética da virtude: construindo pontes entre os estudos do Novo Testamento e a teologia da moral. São Paulo: Loyola, 2006.

MATERA, F. J. √Čtica do Novo Testamento: os legados de Jesus e de Paulo. S√£o Paulo: Paulus, 1999.

PONTIF√ćCIA Comiss√£o B√≠blica. B√≠blia e Moral: ra√≠zes b√≠blicas do agir crist√£o. S√£o Paulo: Paulinas, 2009.