Segunda Carta aos Coríntios

Sum√°rio

Introdução

1 Relev√Ęncia da carta

2 Canonicidade, autenticidade e unidade

3 Local e data

4 Ocasi√£o e finalidade

5 Estrutura, temas e destaque teológico

Referências bibliográficas

Introdução

No livro dos Atos dos Ap√≥stolos, ao instruir o disc√≠pulo Ananias acerca do chamado de Paulo, o Senhor Jesus afirma: ‚ÄúPois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome‚ÄĚ (At 9,16). Ao longo do cumprimento de sua miss√£o, diante de seu empenho em tornar vis√≠vel o Evangelho, o ap√≥stolo se deparou com o sofrimento em formas e intensidades variadas. Embora suas cartas indiquem epis√≥dios de ang√ļstia e tribula√ß√£o, √© na Segunda Carta aos Cor√≠ntios que Paulo descreve especificamente a natureza dos sofrimentos enfrentados. ‚Äú√Č notavelmente em 2 Cor√≠ntios que o alcance e a seriedade de seu sofrimento recebem a sua express√£o mais clara‚ÄĚ (DUNN, 2003, p.562).

Paulo defende sua autoridade apostólica diante de seus oponentes na comunidade e destaca o sofrimento como elemento distintivo do verdadeiro apostolado. Além disto, ao se considerar participante nos sofrimentos de Cristo, o apóstolo se identifica com seu Senhor, discernimento que se estende a todos os cristãos (MURPHY-O’CONNOR, 2000, p.318).

Contudo, √© tamb√©m na Segunda Carta aos Cor√≠ntios que Paulo evidencia a efic√°cia do consolo divino sobre as agruras sofridas no minist√©rio. √Č no contexto de suas afli√ß√Ķes que o poder da consola√ß√£o proveniente de Deus se faz vis√≠vel. Portanto, ele estabelece, j√° de in√≠cio na carta, uma teologia da consola√ß√£o (2Co 1,3-7) e oferece um exemplo concreto de seu dinamismo a partir do relato de seu encontro com Tito na Maced√īnia (2Co 7,4-13), tendo como pano de fundo a conflituosa rela√ß√£o com a comunidade cor√≠ntia. √Č curioso que, de todas as ocorr√™ncias no Novo Testamento da terminologia parakaleŇć/paraklńďsis no sentido de consolo-encorajamento, a maior parte se concentre em 2 Cor√≠ntios.

1 Relev√Ęncia da carta

A Segunda Carta aos Cor√≠ntios faz parte da intera√ß√£o entre Paulo e a comunidade crist√£ da Acaia e, ainda que com lacunas de informa√ß√Ķes acerca dos acontecimentos, mostra a atitude do ap√≥stolo diante dos desafios enfrentados no relacionamento com os fi√©is de Corinto (THRALL, 2004, p.1). Essa carta permite que se perceba o encorajamento e ang√ļstia, o consolo e a indigna√ß√£o do ap√≥stolo na rela√ß√£o com os cor√≠ntios. √Č nessa correspond√™ncia que Paulo descreve com maior intensidade suas dores e alegrias, temores e convic√ß√Ķes, for√ßa e fraqueza (FURNISH, 2005, p.3). Paulo, em seu minist√©rio, n√£o √© imune a cr√≠ticas, oposi√ß√Ķes e adversidades, mas reage a elas a partir de seu relacionamento com Deus em Cristo.

Embora 2 Cor√≠ntios seja a carta mais pessoal do ap√≥stolo Paulo, n√£o seria adequado interpret√°-la apenas a partir da perspectiva autobiogr√°fica, pois a defesa que ele faz de si mant√©m como foco o apostolado crist√£o (LAMBRECHT, 1999, p.1). Sua import√Ęncia reside na reflex√£o significativa que Paulo faz do minist√©rio apost√≥lico. Portanto, ‚Äún√£o √© exagero ver nela a mais desenvolvida reflex√£o de f√© sobre o ‚Äėminist√©rio‚Äô (diakonia) eclesial no Novo Testamento‚ÄĚ (BARBAGLIO, 1993a, p.135).

2 Canonicidade, autenticidade e unidade

No que diz respeito aos testemunhos sobre a canonicidade de 2 Coríntios, destaca-se o catálogo que Marcião, aproximadamente no ano 150, redigiu acerca das cartas paulinas e em cujo elenco se encontram as correspondências destinadas à comunidade de Corinto (1Co e 2Co). Elas também estão presentes nas dez epístolas paulinas mencionadas no Papiro 46, aproximadamente do ano 200, bem como no fragmento publicado por A. Muratori em 1740, redigido em latim e datado provavelmente do final do segundo século (BARBAGLIO, 1993b, p.224-225; FURNISH, 2005, p.29).

As indica√ß√Ķes mais claras da presen√ßa de 2 Cor√≠ntios no corpus paulinum s√£o da metade do segundo s√©culo. Mesmo que n√£o haja, anterior a este per√≠odo, evid√™ncia de que 2 Cor√≠ntios fosse conhecida pela Igreja, isto n√£o implica o questionamento da autenticidade da carta. Ela √© um escrito paulino em forma, estilo e conte√ļdo (FURNISH, 2005, p.30).

Entretanto, sua leitura e interpreta√ß√£o est√£o ligadas √†s solu√ß√Ķes propostas aos problemas de cr√≠tica liter√°ria colocados pela pr√≥pria carta (CINEIRA, 2002, p.249). As decis√Ķes tomadas a este respeito trazem consigo implica√ß√Ķes referentes √† exegese do texto (THRALL, 2004, p.2). A quest√£o-chave que se imp√Ķe diante de 2 Cor√≠ntios √©: estamos diante de um escrito paulino unit√°rio destinado aos fi√©is de Corinto ou de v√°rias cartas para tal comunidade que foram reunidas e unificadas por volta do fim do primeiro s√©culo? (BARBAGLIO, 1993a, p.119). A integridade liter√°ria de 2 Cor√≠ntios √© uma quest√£o complexa, na qual as respostas t√™m que se apoiar, de alguma forma, na especula√ß√£o (FURNISH, 2005, p.34; BARBAGLIO, 1993a, p.126).

Existem interrup√ß√Ķes da narrativa, mudan√ßas de vocabul√°rio e tom da argumenta√ß√£o que sugerem que a ordem presente em 2 Cor√≠ntios pode n√£o representar uma √ļnica carta, mas um compilado de fragmentos de outras cartas. Os pontos principais que suscitam questionamentos entre os estudiosos s√£o:

a) Em 2Co 2,14-7.4, Paulo apresenta uma defesa do minist√©rio apost√≥lico que interrompe o fluxo da narra√ß√£o sobre os acontecimentos em Tr√īade e Maced√īnia, e estes s√£o retomados a partir de 7.5;

b) O trecho de car√°ter judaico em 2Co 6,14-7,1;

c) Os dois capítulos sobre a coleta para Jerusalém em 8 e 9;

d) A mudança de tom na defesa do apostolado nos capítulos 10-13.

Al√©m destes pontos, em 2Co 2,3-4 e 7,8, o ap√≥stolo menciona uma carta escrita entre l√°grimas, provavelmente fruto de um incidente desagrad√°vel ocorrido em uma de suas visitas √† comunidade. Esta carta, cujo objetivo era provar a obedi√™ncia dos cor√≠ntios (2,9), e que entristecera os destinat√°rios, tamb√©m faz parte dos debates sobre a unidade de 2 Cor√≠ntios. Alguns acreditam que a chamada ‚Äúcarta entre l√°grimas‚ÄĚ se perdeu e outros defendem que ela esteja parcial ou integralmente inserida em 2 Cor√≠ntios nos cap√≠tulos 10‚Äď13. Por exemplo, os comentaristas Thrall, Furnish e Lambrecht acreditam que n√£o temos mais esta carta. Barbaglio, em sua obra S√£o Paulo, afirma o mesmo. No entanto, em sua obra 1-2 Cor√≠ntios, ele concorda com R. Pesch que a identifica, sem endere√ßo e introdu√ß√£o, nos cap√≠tulos de 10 a 13.

No que diz respeito √† integridade, a maior parte dos exegetas defende que a 2 Cor√≠ntios can√īnica √© o resultado da compila√ß√£o de diversas cartas do ap√≥stolo Paulo aos cor√≠ntios. As diverg√™ncias variam em torno da quantidade de cartas, ou trechos de cartas, presentes na 2 Cor√≠ntios conforme conhecemos.

H√° um consenso crescente de que ela pode ser dividida em duas cartas, sendo a primeira os cap√≠tulos 1‚Äď9, e a segunda, de 10‚Äď13. Por√©m, h√° os que sugerem a compila√ß√£o de tr√™s ou mais cartas. E, al√©m destes, existe uma minoria que sustenta a hip√≥tese de unidade da carta (HAFEMANN, 2008, p.286).

A primeira sugest√£o de que 2 Cor√≠ntios seja resultado da combina√ß√£o de diversas cartas paulinas distintas procede de J. S. Semler em 1776 (THRALL, 2004, p.4). Ele parte da an√°lise dos cap√≠tulos 8 e 9 que tratam da coleta e defende que Paulo n√£o abordaria o mesmo assunto duas vezes na mesma carta, utilizando praticamente os mesmos argumentos. Portanto, ele conjectura que 2 Cor√≠ntios conteria diversas cartas mais curtas enviadas por Paulo a outras cidades da Acaia. Dessa forma, o esquema de Semler comporta tr√™s cartas em 2 Cor√≠ntios assim divididas: primeira carta de 1‚Äď8 + 13,11-13; segunda carta, cap√≠tulo 9; terceira carta, 10‚Äď13.

Furnish, por sua vez, tamb√©m parte do trabalho de Semler e sustenta a hip√≥tese de que 2 Cor√≠ntios resulte da uni√£o das partes majorit√°rias de duas cartas distintas: primeiramente os cap√≠tulos 1‚Äď9 e, mais tarde os cap√≠tulos 10‚Äď13.

Barbaglio, na obra S√£o Paulo, sugere a exist√™ncia de tr√™s ou cinco cartas em 2 Cor√≠ntios, dependendo da hip√≥tese adotada quanto aos cap√≠tulos 8 e 9: em primeiro lugar, encontra-se a carta apolog√©tica (2,14-7.4) em resposta √† a√ß√£o dos oponentes que tentavam minar a autoridade apost√≥lica paulina juntos aos fi√©is de Corinto; em seguida, diante do agravamento deste conflito tem-se a carta pol√™mica com tom mais austero (10,1‚Äď13.10); posteriormente, tendo em vista as boas not√≠cias trazidas por Tito sobre a rea√ß√£o da comunidade cor√≠ntia, Paulo escreve a carta de reconcilia√ß√£o (1,1‚Äď2,13 + 7,5-16); e, finalmente, ap√≥s a reconcilia√ß√£o ou simultaneamente, o ap√≥stolo envia as duas cartas acerca da coleta, uma para Corinto (8) e outra para as igrejas da Acaia (9). Desta forma, a 2 Cor√≠ntios, conforme se conhece, seria fruto de um trabalho posterior de unifica√ß√£o desse interc√Ęmbio realizado entre os anos 54 e 55. Por√©m, na obra 1-2 Cor√≠ntios, Barbaglio (1-2) adere ao argumento de R. Pesch que atribui o cap√≠tulo 8 √† carta apolog√©tica e o 9 √† carta de reconcilia√ß√£o, optando pela presen√ßa de tr√™s cartas em 2 Cor√≠ntios. Ele afirma que a hip√≥tese de Pesch ‚Äúevita multiplicar sem necessidade as cartas paulinas reunidas pelo compilador em nossa 2 Cor√≠ntios‚ÄĚ (BARBAGLIO, 1993a, p.126).

Dentre os comentaristas, Lambrecht (1999, p.2) se encontra entre os que tratam a carta como texto unit√°rio, embora reconhe√ßa as dificuldades que ela imp√Ķe pelas quest√Ķes j√° mencionadas, pela falta de informa√ß√£o precisa sobre o que de fato aconteceu na rela√ß√£o entre o ap√≥stolo e a comunidade, e tamb√©m pelo tom emocional que dificulta seguir sua linha de argumenta√ß√£o. Hafemann (2008, p.286) que tamb√©m adota em seu coment√°rio a hip√≥tese da unidade da carta, afirma que esta posi√ß√£o costuma ser sustentada, entre outros argumentos, a partir de uma no√ß√£o de heterogeneidade presente na igreja de Corinto. Assim, os cap√≠tulos 1‚Äď9 seriam dirigidos √† maior parte da igreja que havia se reconciliado com Paulo. E os cap√≠tulos 10‚Äď13 destinados aos oponentes que insistiam em atacar o ap√≥stolo e tentar influenciar a comunidade. Estes dois ‚Äúp√ļblicos‚ÄĚ explicariam as mudan√ßas de tema e tom.

Quanto √† data, segundo Lambrecht, a 2 Cor√≠ntios situa-se entre a segunda e a terceira visita de Paulo a Corinto, ap√≥s a ‚Äúcarta entre l√°grimas‚ÄĚ, aproximadamente no ano 54, de acordo com o esquema abaixo:

Primeira visita de Paulo a Corinto (49-51)
           (A) Carta prévia (53)
           (B) 1 Coríntios (primavera de 54; cf. 16.8)
Segunda visita: a visita dolorosa (54)
            (C) Carta entre lágrimas (54)
            (D) 2 Coríntios (54)
Terceira visita (54-55)

Lambrecht acredita que nem a ‚Äúcarta entre l√°grimas‚ÄĚ mencionada em 2 Cor√≠ntios e nem a ‚Äúcarta pr√©via‚ÄĚ citada em 1Co 5,9 chegaram at√© n√≥s.

3 Local e data

Paulo esteve primeiramente em Corinto quando da funda√ß√£o desta comunidade por volta de 49-51. O relato de 2Co 1,23-2,1 pressup√Ķe uma segunda visita que acabou por se tornar dolorosa em fun√ß√£o de um conflito, motivando a chamada ‚Äúcarta entre l√°grimas‚ÄĚ (2,3.4.9; 7,8.12) que foi levada por Tito aos Cor√≠ntios (LAMBRECHT, 1999, p.9).

Desta forma, a 2 Cor√≠ntios can√īnica seria posterior √† carta que Paulo menciona ter sido escrita em meio √† afli√ß√£o, ang√ļstia de cora√ß√£o e entre l√°grimas. Nos vers√≠culos 2,12-13, o ap√≥stolo relata ter chegado a Tr√īade. No entanto, mesmo com a promissora oportunidade mission√°ria naquele local, a inquietude de Paulo √† espera de informa√ß√Ķes o conduziu √† Maced√īnia. Portanto, √© desta regi√£o que ele teria escrito 2 Cor√≠ntios ap√≥s o recebimento das boas not√≠cias trazidas por Tito sobre a rea√ß√£o da comunidade (7,5-16; 9,4), provavelmente no outono de 54.

4 Ocasi√£o e finalidade

No final da Primeira Carta aos Cor√≠ntios, Paulo declara seus planos de viagem (16,5-9). Entretanto, pelas explica√ß√Ķes que ele presta na Segunda Carta, pode-se perceber que o planejamento n√£o aconteceu conforme o esperado (1,15-2,1). Houve, em sua segunda visita aos cor√≠ntios, um incidente desagrad√°vel no qual Paulo foi ofendido. Embora n√£o existam dados suficientes para precisar quem foi o ofensor e a natureza da ofensa, sabemos que Paulo lhes enviou uma ‚Äúcarta entre l√°grimas‚ÄĚ (2,3-4).

Mais tarde, diante da chegada de Tito com o relato positivo acerca da rea√ß√£o dos cor√≠ntios √† referida carta, o ap√≥stolo escreve a 2 Cor√≠ntios. E mesmo que Paulo tenha demonstrado otimismo com as not√≠cias (7,4-16), √© poss√≠vel pensar que a reconcilia√ß√£o n√£o tenha sido un√Ęnime, ainda existia oposi√ß√£o. Isto explicaria a ambival√™ncia de sua atitude na carta, em que ora elogia, ora exorta com dureza. √Č por isto que ele justifica seu itiner√°rio de viagem e os motivos de n√£o ter voltado a Corinto como prometera (1,15-17 e 1,23-2,1); e tamb√©m defende seu minist√©rio diante dos opositores que questionam a legitimidade de seu apostolado (2,14‚Äď3,6; 4,1-16; 5,11-12; 6,4-10). O desejo de Paulo parece ser o de ‚Äúfortalecer os que se arrependeram e reconquistar a minoria recalcitrante‚ÄĚ (HAFEMANN, 2008, p.286).

Assim, o tom apologético em 2 Coríntios pode refletir a busca pela reconciliação com os coríntios que tinham cedido à influência dos adversários. No empenho pela restauração do relacionamento com a comunidade, Paulo se dirige a eles como um pai a seus filhos. No entanto, não deixa de marcar, em tom severo, a diferença entre o verdadeiro e o falso apóstolo, de forma que a comunidade possa identificar e assumir posição ao seu lado. E assim o faz na esperança de que os coríntios mudem de atitude antes de sua terceira visita, a fim de que ele não tenha que usar com rigor a autoridade que Deus lhe conferiu (13,10).

5 Estrutura, temas e teologia

O esquema estrutural a seguir é proposto por Lambrecht (1999, p.10):

Saudação aos santos (1,1-2)

Bendição a Deus (1,3-11)

I. Credibilidade de Paulo (1,12-2,13)

II. Apostolado de Paulo (2,14-7,4)

III. Retorno de Tito (7,5-16)

IV. Coleta (8-9)

V. Autodefesa de Paulo (10,1-13,10)

Exorta√ß√£o final, sauda√ß√Ķes e ben√ß√£o (13,11-13)

O tema relacionado √† defesa do apostolado permeia 2 Cor√≠ntios, sendo mais evidente em dois momentos: o primeiro no trecho 2,14-7,4, no qual h√° uma apologia em tom mais brando; e depois nos cap√≠tulos 10‚Äď13, nos quais o ap√≥stolo se defende de maneira mais severa, opondo-se aos ataques de seus advers√°rios.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† A defesa do apostolado traz consigo o tema do servi√ßo e, dentro dele, o contraste ‚Äúfraqueza humana/poder divino‚ÄĚ (BARBAGLIO, 1993, p.175). Ele apresenta com mais detalhes as circunst√Ęncias que envolvem a identidade apost√≥lica: os sofrimentos enfrentados, a oposi√ß√£o cont√≠nua e a press√£o interna sofrida em fun√ß√£o do cuidado com as comunidades (LAMBRECHT, 1999, p.1).

Outro tema que se destaca em 2 Cor√≠ntios √© a ‚Äúrela√ß√£o entre o sofrimento e a gl√≥ria, a forma como a experi√™ncia apost√≥lica paulina determina e exemplifica esta rela√ß√£o‚ÄĚ (HAFEMANN, 2008, p.288). E tendo os argumentos baseados em sua escatologia e cristologia, Paulo demonstra que seu sofrimento n√£o √© algo que deponha contra sua legitimidade, antes √© a plataforma que evidencia a manifesta√ß√£o do poder de Deus em seu minist√©rio (2Cor 12,10).

O destaque teol√≥gico se refere a este √ļltimo tema e √© introduzido na carta com a teologia da consola√ß√£o. Como Paulo apresenta nesta carta seus sofrimentos provenientes de v√°rias fontes, especialmente de seus opositores na comunidade (CINEIRA, 2002), ele mostra como responde a eles por meio do consolo divino. Al√©m disto, demonstra que o sofrimento n√£o o desautoriza como ap√≥stolo, √© a plataforma que evidencia o poder de Deus.

A teologia da consola√ß√£o pode ser sintetizada a partir das tr√™s dimens√Ķes que ela contempla: teol√≥gica, cristol√≥gica e soteriol√≥gica. O t√≠tulo dado a Deus logo no in√≠cio da carta ‚ÄúDeus de toda consola√ß√£o‚ÄĚ marca o agente prim√°rio por tr√°s do consolo. Deus est√° na origem da consola√ß√£o experimentada em meio ao sofrimento, mesmo que a instrumentalidade humana esteja presente. A a√ß√£o humana que redunda na consola√ß√£o √©, em √ļltima inst√Ęncia, uma interven√ß√£o iniciada nele. Deus consola tendo em vista as suas miseric√≥rdias em face das afli√ß√Ķes a que seus filhos est√£o sujeitos. O Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo √© bendito, e todos os que s√£o por ele consolados tamb√©m s√£o convidados a bendiz√™-lo.

A teologia da consola√ß√£o tem sua raz√£o de ser no contexto da afli√ß√£o, pois esta √© a situa√ß√£o que confronta o crist√£o com sua fraqueza e necessidade do poder de Deus, al√©m de apontar para uma expectativa quanto √† consola√ß√£o definitiva. Portanto, o sofrimento √© a circunst√Ęncia a partir da qual a consola√ß√£o se destaca, ressaltando a a√ß√£o divina e n√£o poder humano na supera√ß√£o dos reveses. A consola√ß√£o √© o contraponto do sofrimento que √© parte integrante da exist√™ncia crist√£.

Todavia, a consolação divina não é uma abstração misteriosa, mas ganha concretude nos indicadores que a tornam visível e promovem alívio na dimensão externa ou interna do cristão, conforme ilustra Paulo nos perigos e confrontos que passou. Porém, a consolação não significa apenas o alívio ou cessar imediato da situação aflitiva, mas está orientada para a perseverança (2 Co 1.6) (FURNISH, 2005, p.121).

O Deus que oferece consolação emprega o princípio da reciprocidade, isto é, os consolados são capacitados a estender consolação a outros aflitos. A consolação compartilhada é coerente com o Evangelho que leva cada cristão a viver além de si mesmo, e também contribui para aumentar o coro daqueles que bendizem a Deus e declaram seu poder em meio ao sofrimento.

Entrando na dimensão cristológica, merece destaque a forma com a qual Paulo enfrenta os sofrimentos, pois ela oferece um paradigma aos cristãos. A constatação de que o cristão também participa nos sofrimentos de Cristo se conecta à consolação e amplia a perspectiva daquele que sofre. Pois se o sofrimento é uma realidade inescapável, a consolação também o é. A compreensão destes dois lados da moeda também abre espaço para o entendimento do processo de morte e vida que ocorre na experiência do seguidor de Cristo.

Por esta l√≥gica, entende-se que Paulo n√£o questiona a legitimidade de seu apostolado por causa dos sofrimentos nele presentes, pois n√£o os concebia como elementos estranhos ao seu chamado ou que indicassem aus√™ncia da a√ß√£o divina, mas justamente o oposto (HAFEMANN, 2008, p.1180). Paulo sofre as circunst√Ęncias pr√≥prias da exist√™ncia e tamb√©m do desempenho de seu minist√©rio, mas convida cada crist√£o a viver na certeza de que a participa√ß√£o na consola√ß√£o, por meio de Cristo, √© t√£o abundante quanto a participa√ß√£o nos sofrimentos de Cristo. Portanto, da mesma forma que Paulo, cada crist√£o participa da consola√ß√£o, assim como do sofrimento.

A dimens√£o cristol√≥gica da teologia da consola√ß√£o logo abre espa√ßo para a soteriol√≥gica, pois a consola√ß√£o n√£o tem em mira apenas o sofrimento terreno, mas est√° situada no arco que compreende o presente e o futuro. O processo de salva√ß√£o envolve esta tens√£o escatol√≥gica. Paulo tanto se refere √† consola√ß√£o presente quanto √† definitiva ao explicitar o efeito que a consola√ß√£o divina deseja produzir no crist√£o: perseveran√ßa. O horizonte escatol√≥gico permite continuidade n√£o obstante o sofrimento, como afirma Lambrecht, ‚Äúem meio √† fraqueza h√° for√ßa, j√° no presente, antes da morte f√≠sica. A despeito da afli√ß√£o, perplexidade, persegui√ß√£o e ataques sem fim, gra√ßas a Deus n√£o h√° desespero e nem destrui√ß√£o total‚ÄĚ (1999, p.60).

Refletindo sobre a fun√ß√£o da teologia da consola√ß√£o na Segunda Carta aos Cor√≠ntios, percebe-se que essa correspond√™ncia se encontra marcada por um movimento de for√ßa na fraqueza, perseveran√ßa na adversidade. A realidade da consola√ß√£o √© importante na vis√£o paulina da exist√™ncia crist√£, √© a partir dela que se compreende o desgaste do homem exterior, mas a renova√ß√£o di√°ria do homem interior (cf. 2Co 4.16-18). Em vez de negar sua fraqueza em resposta √†s acusa√ß√Ķes de seus oponentes, Paulo desenvolve a teologia da consola√ß√£o justamente partindo dela, pois s√£o os abatidos que precisam de consola√ß√£o. O sofrimento n√£o √© incompat√≠vel com o servi√ßo apost√≥lico nem com a vida crist√£.

Karina Garcia Coleta, Belo Horizonte, Brasil ‚Äď Texto original portugu√™s.

Referências

BARBAGLIO, Giuseppe. 1-2 Coríntios. São Paulo: Paulinas, 1993a.

______. São Paulo: o homem do evangelho. Petrópolis: Vozes, 1993b.

CINEIRA, D. √Ālvarez. Los advers√°rios paulinos en 2 Corintios. Estudio Agustiniano, v.32, p.249-274, 2002.

DUNN, James. A teologia do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003.

FURNISH, Victor. II Corinthians. The Anchor Bible. v.32A. New York: Doubleday, 2005.

HAFEMANN, S. J. Cartas aos Coríntios. In: HAWTHORNE et al. (orgs.). Dicionário de Paulo e suas Cartas. São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. p.270-289.

LAMBRECHT, Jan. Second Corinthians. Sacra Pagina Series. v.8. Minnesota: The Liturgical Press, 1999.

MURPHY-O’CONNOR, Jerome. Paulo: biografia crítica. São Paulo: Loyola, 2000.

THRALL, Margaret. The Second Epistle to the Corinthians. The international critical commentary.v.1. New York: T&T Clark International, 2004.