O livro do profeta Isaías

Sum√°rio

1 O livro como um todo

2 Isaías profeta

3 O Primeiro Isaías (c. 1-39)

3.1 Composição do I Is

3.2. Principais pontos de teologia

4 O Segundo Isaías (c. 40-55)

4.1 Autoria e datação

4.2 Organização

Excurso: os textos do Servo sofredor

4.3 Principais pontos de teologia

5 O terceiro Isaías (c. 56-66)

5.1 Natureza do III Is

5.2 √Čpoca de composi√ß√£o

5.3 O profeta

5.4 Organiza√ß√£o do conte√ļdo

5.5 Principais pontos de teologia

6 Formação do livro de Isaías em seu conjunto

7 Lendo o texto hoje

Referências bibliográficas

1 O livro como um todo

J√° no s√©culo XI, houve a percep√ß√£o de que o livro de Isa√≠as era composto de partes distintas. No final do s√©culo XVIII, Eichhorn (1783) e D√∂derlein (1789) enfatizaram a distin√ß√£o dos c. 40 ‚Äď 66. Os estudos de Duhm (1892), no entanto, apresentaram argumentos para se distinguir tr√™s grandes partes (c. 1-39, c. 40-55 e c. 56-66), atribu√≠das respectivamente √† √©poca do profeta (s√©culo VIII aC), ao per√≠odo do ex√≠lio babil√īnico e √† √©poca p√≥s-ex√≠lica. A partir de ent√£o, generalizou-se o modo de referir-se a elas, respectivamente como Proto (ou Primeiro) Isa√≠as (I Is), D√™utero (ou Segundo) Isa√≠as (II Is) e Trito (ou Terceiro) Isa√≠as (III Is). Tal distin√ß√£o √© seguida atualmente pela maior parte dos estudiosos; alguns, todavia, entendem a segunda e terceira partes como uma unidade, tratando em conjunto, por conseguinte, os cap√≠tulos 40 a 66.

Os motivos para a distinção das três partes são de ordem histórica, literária e teológica:

a. Os elementos hist√≥ricos referem-se ao contexto hist√≥rico pressuposto ou expl√≠cito. O Primeiro Isa√≠as reflete, em boa parte, a √©poca do s√©culo VIII; o Segundo sup√Ķe o povo no ex√≠lio babil√īnico e menciona Ciro (Is 44,28; 45,1), rei persa, que come√ßou a aparecer no cen√°rio internacional por volta de 550 aC; o Terceiro sup√Ķe o fim do ex√≠lio babil√īnico e refere-se √† comunidade p√≥s-ex√≠lica.

b. Os elementos liter√°rios dizem respeito aos temas abordados, ao vocabul√°rio utilizado e ao estilo. No I Is prevalece o tema do ju√≠zo; no II Is, o an√ļncio de salva√ß√£o; o III Is apresenta ambos os temas, mas com acentos pr√≥prios. A presen√ßa de vocabul√°rio, motivos e esquemas liter√°rios diversos corroboram a divis√£o em tr√™s partes. Assim, no I Is √© forte a presen√ßa do tema da santidade de Deus e da f√©, com o respectivo vocabul√°rio; o termo ‚Äúconsolar‚ÄĚ caracteriza a mensagem do II Is; no III Is ocorre a met√°fora de ‚Äúpai‚ÄĚ para Deus.

c. Os elementos teológicos referem-se a diferenças nas temáticas e na ênfase a elas dada. Por exemplo, é próprio do II Is a ideia da unicidade de Deus, posto em contraposição aos ídolos; práticas penitenciais são citadas no III Is, que ressalta também o valor do sábado e da obediência à aliança; já o I Is traz, em algumas passagens, referência ao filho de Davi, rei em Jerusalém.

Embora as tr√™s partes sejam distintas, h√° entre elas tamb√©m rela√ß√Ķes. Redigido por √ļltimo, o III Is √© respons√°vel n√£o somente pela terceira parte do escrito, mas pela elabora√ß√£o final de todo o conjunto, de modo que o livro, apesar das tr√™s partes, possui unidade. Com efeito, at√© algumas d√©cadas atr√°s, normalmente essas tr√™s grandes se√ß√Ķes eram consideradas tr√™s unidades fechadas e independentes. Atualmente, por√©m, se imp√Ķe sempre mais a pergunta acerca da unidade final do livro, fruto de uma reda√ß√£o globalizante. Todo o material, elaborado num largo espa√ßo de tempo, que compreende v√°rios s√©culos, foi colocado sob a √©gide de Isa√≠as, profeta do s√©culo VIII, possivelmente porque os redatores concebiam-se como continuadores da mensagem do grande mestre.

2 Isaías profeta

O texto de Is 6,1 coloca o in√≠cio da miss√£o do profeta no √ļltimo ano do rei Ozias (Azarias: 781-740), em cerca de 740. O t√≠tulo do livro (Is 1,1) menciona que o profeta atuou tamb√©m sob outros reis: Joat√£o (740-736), Acaz (736-716) e Ezequias (716-687). Seu minist√©rio prof√©tico se desenvolveu no Reino do Sul, Jud√°, particularmente em Jerusal√©m.

A partir dos textos do livro, podem ser distinguidos quatro períodos na atividade do profeta:

  • da voca√ß√£o √† guerra siro-efraimita (740-734), durante o reinado de Joat√£o (740-734). Trata-se de uma √©poca em que, no plano internacional, a Ass√≠ria domina em grande parte a regi√£o, submetendo j√° ent√£o o Reino do Norte (Israel) a tributo; o Reino de Jud√°, contudo, n√£o sofre a inger√™ncia de nenhum poder estrangeiro e, por isso, passa por um per√≠odo de florescimento econ√īmico. Nessa situa√ß√£o, na mensagem do profeta Isa√≠as predomina a preocupa√ß√£o com quest√Ķes internas de Jud√°, sua situa√ß√£o social e religiosa (por exemplo: parte dos cap√≠tulos 1 a 5; Is 9,7-20; 10,1-4): a corrup√ß√£o das classes dirigentes (governantes, ju√≠zes, donos de terras), o culto sem correspond√™ncia com a vida (Is 1,10-20), o luxo e o orgulho dos poderosos, com o consequente esquecimento de Deus (Is 3,16-24). Relativos a essa √©poca s√£o diversos an√ļncios de puni√ß√£o (Is 2,6-22; 3,1-9; 5,26-29), com chamados √† convers√£o (Is 1,16-17; 9,12).
  • na √©poca da guerra siro-efraimita (734-732), durante o reinado de Acaz (734-727). Os textos giram em torno desta situa√ß√£o (c. 7-8), em que o Reino do Norte (Israel) se uniu a Aram e investiu contra Jud√°, com a finalidade de pression√°-lo a fazer parte de uma coaliz√£o antiass√≠ria. O rei de Jud√°, Acaz, apela aos ass√≠rios e assim se livra dessa amea√ßa; passa ent√£o, por√©m, a ser vassalo da Ass√≠ria. Ap√≥s a guerra, provavelmente, o profeta se retira (Is 8,16-18).
  • √©poca da minoridade de Ezequias (727-715). Desse per√≠odo √© o or√°culo contra a Filisteia, que convida Jud√° a uma coaliz√£o antiass√≠ria (Is 14,28-32), e o or√°culo contra Samaria, que se rebela contra a Ass√≠ria (Is 28,1-4). Alguns autores datam dessa √©poca outros or√°culos contra na√ß√Ķes (Is 14,24-27; 15-16; 21,11-12.13-17).
  • √©poca da maioridade de Ezequias (714-698) (Is 39; 18,1-6), quando este rei assume plenamente o poder. Nessa fase do minist√©rio do profeta, podem ser distinguidas duas etapas: ap√≥s a primeira revolta contra a Ass√≠ria (713-711) e por ocasi√£o da segunda revolta contra a Ass√≠ria (705-701) (c. 28 -31).

Em esquema:

Da vocação à investida siro-efraimita
√Čpoca da investida siro-efraimita
√Čpoca da minoridade de Ezequias
√Čpoca da maioridade de Ezequias (ap√≥s714)
(Is 39; 18,1-6)
Is 1-5*
9,7-20; 10,1-4
c. 7-8
Is 14,28-32; 28,1-4
Is 14,24-27; c. 15-16; 21,11-17
após a 1ª revolta antiassíria
por ocasião da 2ª revolta antiassíria

c. 28-31
740-734
734-732
727-715
713-711
705-701

Alguns dados biogr√°ficos do profeta s√£o fornecidos pelo livro. O interesse de Isa√≠as pela monarquia dav√≠dica e pela cidade santa, al√©m de seu conhecimento detalhado da cidade (1,10-11; 7,3; 22,9; 29,7), falam em favor de que fosse oriundo do Reino de Jud√° e habitasse em Jerusal√©m. Casado, teve ao menos dois filhos, aos quais deu nomes simb√≥licos (Is 7,3; 8,3). Talvez pertencesse √† aristocracia, pois parece ter f√°cil acesso √† corte (Is 7,3); interessa-se, por√©m, pelas classes mais pobres (Is 1,17; 3,12-15). Os textos que referem suas palavras apresentam um estilo elevado, com numerosas imagens, rico em ant√≠teses e asson√Ęncias (Is 1,25; 5,25-26; 18,3; 28,2; 29,6), de modo que se pode supor que o profeta possu√≠sse alto n√≠vel cultural, que teria influenciado tamb√©m os redatores do livro.

3 O Primeiro Isaías (c. 1-39)

3.1 Composição do I Is

Embora o I Is esteja ancorado na √©poca do profeta (segunda metade do s√©culo VIII aC), nem todo o material que hoje se encontra nos c. 1-39 √© desse per√≠odo. Antes, numerosos textos sup√Ķem √©pocas posteriores, do tempo ex√≠lico e p√≥s-ex√≠lico (Is 2,1-5; c. 12; c. 24-27; 34-35 etc.).

Considerado, por√©m, o conte√ļdo com o qual o livro chegou √† sua formula√ß√£o definitiva, podem ser distinguidos nele diversos blocos:

  • 1-12 e 28-33: duas cole√ß√Ķes compostas sobretudo por material proveniente de Isa√≠as profeta, com temas variados.

Os cap√≠tulos 1 a 12 trazem or√°culos sobre Jud√° e Jerusal√©m: amea√ßas (por exemplo Is 1,2-24; 2,6-4,1;5,1-30) e promessas de restaura√ß√£o (por exemplo Is 2,1-5; 4,2-6; 10,20-23; 11,1-16). A se√ß√£o 6,1 ‚Äď 9,6, pela men√ß√£o ao profeta, √© chamada de ‚Äúmemorial de Isa√≠as‚ÄĚ. O texto de 12,1-6 fecha toda a se√ß√£o com um canto de a√ß√£o de gra√ßas pela salva√ß√£o.

Os cap√≠tulos 28 a 33 s√£o formados sobretudo por palavras de puni√ß√£o, nas quais √© caracter√≠stica a repeti√ß√£o de ‚Äúai‚ÄĚ (Is 28,1; 29,1.15; 30,1; 31,1; 33,1). Em Is 30,27-31,9 h√° amea√ßas √† Ass√≠ria, contraparte da salva√ß√£o para Jud√° (Is 30,27-33; 31,4-9) e uma advert√™ncia a Jud√°, que busca apoio no Egito (Is 31,1-3).

  • 13-23: diversos or√°culos contra as na√ß√Ķes, incluindo um or√°culo contra Jerusal√©m (c. 22). As na√ß√Ķes mencionadas s√£o: Babil√īnia, Ass√≠ria, Filisteia, Moab, Damasco, Israel, Cush, Egito, Duma, Edom, Ar√°bia, Tiro e Sid√īnia.
  • 24-27: apresentam tem√°tica e linguagem caracter√≠sticas, diferentes daquelas t√≠picas do profeta do s√©culo VIII. √Ä diferen√ßa dos or√°culos contra as na√ß√Ķes, a perspectiva destes cap√≠tulos n√£o √© mais a de povos concretos. No primeiro momento, as palavras t√™m uma moldura universal (Is 24,1.3.4.5.6.17.18.19.20), para em seguida falar-se da montanha de Si√£o e de Jerusal√©m (Is 24,23; 27,13). Por sua dimens√£o escatol√≥gica, estes cap√≠tulos s√£o chamados de grande escatologia (ou apocalipse) de Isa√≠as.
  • 34-35: os dois cap√≠tulos formam um d√≠ptico. O cap√≠tulo 34 descreve a desgra√ßa para Edom, que serve de panorama para a descri√ß√£o da salva√ß√£o para Jerusal√©m (c. 35). Em vista da nota escatol√≥gica que esses cap√≠tulos apresentam, s√£o chamados de pequena escatologia (ou apocalipse) ‚Äď em compara√ß√£o com a ‚Äúgrande escatologia‚ÄĚ dos c. 24-27.
  • 36-39: escritos em prosa, retomam o texto de 2Rs 18,13-20,19. Relatam acontecimentos do reinado de Ezequias, no tempo do ass√©dio de Senaquerib a Jerusal√©m (701). √Č exaltada a figura de Ezequias, em contraposi√ß√£o √† falta de f√© do rei Acaz (c. 7). Isa√≠as aparece em cena (Is 37,2.5.6.21; 38,1.4.21; 39,3.5.8). O relato termina com o profeta anunciando o ex√≠lio babil√īnico (Is 39,6-7) para o tempo posterior a Ezequias, fazendo assim o gancho com a segunda grande parte do livro (c. 40-55). A promessa de paz para o tempo de Ezequias (Is 39,8) prepara, de outro lado, o an√ļncio, presente no II Is, de que Jud√° voltar√° do ex√≠lio babil√īnico; serve, assim, como esperan√ßa e consolo para os exilados (Is 40,1-2).

Em esquema:

1-12
13-23
24-27
28-33
34-35
36-39
Coleção enraizada no profeta
Or√°culos contra as na√ß√Ķes
Grande escatologia
Coleção enraizada no profeta
Pequena escatologia
Narração semelhante a 2Rs 18,13-20,19

3.2 Principais pontos de teologia

a) Acusação de injustiça

O c. 1 abre o livro com duas acusa√ß√Ķes (vv. 1-9.10-20). Sobretudo a segunda resume bem o n√ļcleo do an√ļncio prof√©tico em rela√ß√£o ao tema da injusti√ßa. As acusa√ß√Ķes aparecem, no livro, ainda em numerosas passagens, particularmente nos ‚Äúais‚ÄĚ. O texto de Is 5,8-24 detalha os aspectos da situa√ß√£o de injusti√ßa. H√° um seten√°rio de acusa√ß√Ķes: Is 5,8-10. 11-12. 18-19. 20. 21. 22-24 e 10,1-4.

b) A santidade de Deus

O tema da santidade de Deus √© fundamental na mensagem do profeta por estar relacionado √† experi√™ncia de sua voca√ß√£o e seu envio em miss√£o (Is 6,1-13). Aparece particularmente na denomina√ß√£o frequente de Deus como ‚Äúo Santo de Israel‚ÄĚ (Is 5,19.24; 10,20; 17,7; 29,19; 30,15; 31,1; 37,27). Com esse tema, o livro p√Ķe o acento na transcend√™ncia de Deus.

c) A fé; Isaías e a política

A f√© op√Ķe-se, em Isa√≠as, √† atitude de orgulho (Is 2,11-17) e √† autosseguran√ßa (Is 1,10-15). Implica colocar sua confian√ßa somente em Deus. Consiste na entrega √† vontade divina e ao plano de Deus (Is 30,15). √Č fonte de seguran√ßa (Is 30,15-18) e se op√Ķe a confiar exclusivamente nos pr√≥prios recursos, deixando de recorrer a Deus (Is 30,1-5; 31,1-3). Com isso, toca-se o tema da vis√£o pol√≠tica do profeta: ele condena a pol√≠tica que, segura de seus pr√≥prios meios, age sem consulta √† vontade divina. Texto particularmente importante √© 7,10-17, que tem seu ponto central no v. 9: ‚Äúse n√£o crerdes, n√£o permanecereis firmes‚ÄĚ.

d) Teologia de Sião-Jerusalém

O profeta abomina os pecados de Jerusal√©m (Is 1,21-26; 2,6-17; 3,16-24; 22,1-14; 29,1-10). No c√Ęntico da vinha (Is 5,1-7) resume-se de forma mais completa a gravidade das op√ß√Ķes de Jerusal√©m contra o Senhor. No entanto, o livro mostra tamb√©m que Jerusal√©m √© a cidade eleita por Deus, √© morada de Deus (Is 8,18; 14,32). Por isso, Deus a transformar√° e sustentar√° (Is 1,25-26; 28,16-17). Ela ser√° o centro dos povos, de onde surgir√° a salva√ß√£o para todos (Is 2,1-5).

e) Expectativa messi√Ęnica

Espera-se o ‚Äúmessias‚ÄĚ, um novo Davi, que restabelecer√° a o direito e a justi√ßa, trar√° a paz e, assim, a prosperidade para o povo de Deus, iniciando uma nova √©poca (Is 9,1-6; 11,1-11).

O termo hebraico ‚Äúmessias‚ÄĚ significa ungido. No Antigo Testamento, eram ungidos particularmente reis e sacerdotes. A un√ß√£o de sacerdotes os investia na fun√ß√£o (Ex 28,41; 29,7 et passim). Mas √© sobretudo o rei que o Antigo Testamento liga √† ideia de messias.

O rei √© ungido no momento de sua coroa√ß√£o (Jz 9,8; 1Sm 9-10; 2Sm 2,4; 5,3; 1Rs 1,39; 2Rs 11,12; 23,30). Recebe, ent√£o, a for√ßa de Deus (1Sm 9,16; 10,1.10; 16,13), √© o ‚Äúungido do Senhor‚ÄĚ (2Sm 19,22), torna-se representante seu, intermedi√°rio entre Deus e o povo. Assim, todo rei √© por defini√ß√£o ‚Äúmessias‚ÄĚ.

Sobre a base da promessa de Natan (2Sm 7,12-16), o povo de Israel desenvolveu a esperan√ßa de que sempre haveria um rei no trono de Davi (Sl 132,17). Quando os babil√īnios invadiram Jud√° e o rei dav√≠dico foi deportado para Babil√īnia, cessou a dinastia dav√≠dica em Jerusal√©m. No retorno do ex√≠lio, procurou-se restabelec√™-la atrav√©s da figura de Zorobabel (Ag 2,23), por√©m sem sucesso, de modo que, a partir da conquista de Jerusal√©m pelos babil√īnios, n√£o houve mais um rei judeu em Jerusal√©m. Dentro do contexto de inexist√™ncia de um descendente dav√≠dico, cresceu, ent√£o, a esperan√ßa de um messias rei e esta foi projetada para o futuro: desenvolveu-se a expectativa por uma figura idealizada do messias, enviado por Deus nos tempos escatol√≥gicos.

4 O Segundo Isaías (c. 40-55)

4.1 Autoria e datação

O autor √© desconhecido. Sua obra se refere √† √©poca do ex√≠lio babil√īnico j√° avan√ßado, podendo chegar at√© a tempos posteriores √† queda de Babil√īnia. Discute-se se foi escrita para os exilados na Babil√īnia ou para os remanescentes de Jud√°. Os que defendem a primeira hip√≥tese argumentam com textos que parecem demonstrar que o profeta conhece a situa√ß√£o dos exilados (Is 40,27; 41,10; 49,14) e a atua√ß√£o de Ciro (Is 41,25; 44,28; 45,1). Outros veem em certos textos ind√≠cios de que o texto foi escrito para os que ficaram na terra (Is 40,2); nesse caso, sua fun√ß√£o seria preparar os remanescentes para receberem os que retornariam do ex√≠lio.

Atualmente, há três tendências de identificação da autoria e localização do escrito:

  • O escrito √© obra de um profeta an√īnimo, chamado, desde Duhm, de D√™utero-Isa√≠as; teria sido redigido no tempo do ex√≠lio avan√ßado.
  • O escrito √© obra de um profeta an√īnimo e seus disc√≠pulos; teria sido redigido no tempo do ex√≠lio avan√ßado: desde a ascens√£o de Ciro no plano internacional (553) at√© a tomada de Babil√īnia e o rei Dario (522).
  • O escrito √© uma obra coletiva, de um grupo. As afinidades de algumas passagens com os Salmos dos filhos de Cor√© (Sl 42-49; 84-85; 87-88) e os salmos da realeza do Senhor (Sl 96-98), apontariam para uma rela√ß√£o entre os dois grupos de redatores. Isso levou √† ideia de que seriam grupos de levitas, respons√°veis pela liturgia do Templo. N√£o se excluiria, no entanto, que, dentre estes, tenha havido autores principais, seja no sentido de formular as teses teol√≥gicas mais importantes seja no de dar a forma liter√°ria final. Seria poss√≠vel, tamb√©m, que tivesse havido grupos distintos: um em Babil√īnia e outro em Jerusal√©m, que se reuniriam com a volta do desterro.

A data√ß√£o tradicional do conjunto dos c. 40 ‚Äď 55 foi colocada no tempo final do ex√≠lio babil√īnico. Nas √ļltimas d√©cadas do s√©culo XX, por√©m, surgiram reconstru√ß√Ķes de sua hist√≥ria redacional, com muitas varia√ß√Ķes entre os autores. Certo consenso, todavia, existe em delimitar duas grandes fases de trabalho redacional:

  • o escrito teria tido origem em Babil√īnia, na √©poca ex√≠lica, em uma ou mais reda√ß√Ķes, e compreenderia sobretudo os textos existentes nos cap√≠tulos 40 a 48;
  • este n√ļcleo teria sido completado em Jerusal√©m, no tempo p√≥s-ex√≠lico, ap√≥s o retorno dos primeiros exilados (em torno de 530-520); seria fruto de diversas reda√ß√Ķes e compreenderia basicamente os cap√≠tulos 49 a 55.

4.2. Organização

Is 40,1-2 abre o escrito com o tema da consolação do povo, tema que difere fortemente do tom predominante nos c. 1-39; marca-se, assim, a distinção para com o Primeiro Isaías.

O final do c. 55, por outro lado, apresenta o tema da for√ßa da ‚Äúpalavra de Deus‚ÄĚ (Is 55,10-11) e retoma o que j√° fora apresentado na introdu√ß√£o sobre o valor da Palavra (Is 40,7-8). Forma-se, com isso, uma moldura, que fecha o conjunto com a alus√£o ao mesmo tema com que este fora aberto.

H√° diversas maneiras de se considerar a estrutura dos cap√≠tulos 40 a 55. Para al√©m do pr√≥logo (Is 40,1-11) e do ep√≠logo (Is 55,6-13), os textos dos c. 40-48 enfatizam o poder criador de Deus, sua a√ß√£o na hist√≥ria e sua contraposi√ß√£o aos √≠dolos. No final do c. 48 (Is 48,20), a ordem de sair de Babil√īnia introduz o tema do ‚Äúnovo √™xodo‚ÄĚ, que predomina at√© o final do escrito. Sob outra perspectiva, por√©m, observa-se que, nos c. 40-48, anuncia-se a liberta√ß√£o de Jud√° das terras babil√īnicas, enquanto que nos c. 49-55 fala-se da cidade de Jerusal√©m, que ser√° renovada. Dessa forma, para al√©m do pr√≥logo e ep√≠logo, o livro pode ser considerado em duas partes: 44,12-48,19 e 40,21-55,5 ou ent√£o 42,12-48,22 e 49,1-55,5.

Na estrutura do livro, uma quest√£o especial diz respeito aos textos do ‚ÄúServo sofredor do Senhor‚ÄĚ. √Č discutido se eles s√£o obra do autor do II Is ou se s√£o poemas de origem distinta e que foram aproveitados e inseridos no livro, por vezes com adapta√ß√Ķes.

Excurso: os textos do Servo sofredor

A palavra ‚Äúservo‚ÄĚ aparece 21 vezes no II Is, sendo que 14 vezes refere-se a Israel (Is 44,1.2.8.9.21; 45,4; 48,20 etc.) e 7 vezes a um personagem n√£o identificado (com exce√ß√£o de Is 49,3). Estas √ļltimas encontram-se em textos que constituem os chamados textos (tamb√©m denominados ‚Äúc√Ęnticos‚ÄĚ) do Servo sofredor. A partir de Duhm (1892), se fala em quatro textos, cuja delimita√ß√£o varia entre os autores, mas que, considerando-se a tem√°tica, podem ser identificados como: 42,1-7; 49,1-7; 50,4-9a; 52,13-53,12.

Discute-se se outros textos do II Is se referem também a esse personagem desconhecido. Outra questão debatida é se os textos são independentes entre si ou se formam uma unidade. Há semelhanças para com o horizonte teológico do II Is, no que tange ao tema do Servo-Israel (o monoteísmo, a ação de Deus na história, a relação com os povos estrangeiros, dentre outros), mas também diferenças:

  • no II Is, Israel √© pecador (Is 40,2; 42,24; 43,25-28; 44,21-22), enquanto que o Servo desconhecido √© inocente (Is 53,4.5.9), obediente ( Is 50,4-6; 53,7) e expia os pecados dos outros (Is 53,10).
  • Israel tem miss√£o passiva: atrav√©s de sua liberta√ß√£o, os pag√£os ver√£o o poder do Senhor (Is 43,12; 44,8). O Servo tem uma miss√£o ativa: ser ‚Äúalian√ßa do povo‚ÄĚ (Is 42,6), luz para as na√ß√Ķes, instrumento de propicia√ß√£o.

H√° rela√ß√Ķes entre os quatro textos usualmente identificados e por isso a vis√£o de que eles formem um conjunto √© a mais aceita entre os estudiosos. Dif√≠cil, contudo, √© explicar por que eles se encontram separados no livro. Alguns pontos seguros no que concerne aos textos do Servo s√£o:

  • os quatro textos s√£o ordenados de modo sim√©trico, dois a dois:

49,1-6 e 50,4-9: fala o ‚Äúeu‚ÄĚ que √© o Servo

42,1-7 e 52,13 ‚Äď 53,12: fala um outro sobre o Servo (no c. 42 fala o Senhor; no c. 53, fala um ‚Äún√≥s‚ÄĚ de dif√≠cil identifica√ß√£o, mas dentro de uma moldura que p√Ķe Deus em discurso: 52,12-15 e 53,11b-12);

  • em 49,3 o Servo recebe o nome de Israel;
  • em 50,4-9 quem fala se identifica como ‚Äúdisc√≠pulo‚ÄĚ;
  • h√° entre os quatro textos fortes elementos de liga√ß√£o, sobretudo o fato do sofrimento do Servo, que se vai acentuando nos poemas (Is 42,4; 49,4; 50,5; 52,13).

4.3 Principais pontos de teologia

a) A consolação de Israel por Deus

O livro desenvolve com √™nfase a ideia da consola√ß√£o que Deus promete a seu povo. A terminologia gira em torno da raiz nŠł•m, que tem o sentido geral de consolar. No Antigo Testamento, √© utilizada em contexto de dor (morte, afli√ß√£o, ang√ļstia: Gn 37,35; Gn 50,21; 2Sm 10,2-3; Lm 2,13). Consolar significa, ent√£o, trazer um aux√≠lio que tende a ser eficaz, que traz um resultado (Sl 23,4; 71,21; 86,17).

Quando se trata da consolação de Deus, esta restabelece a relação de comunhão com Ele (Is 12,1; 43,1-7). No contexto do II Is, a consolação significa propiciar ao povo no exílio que ele retorne à terra e aí reconstitua sua vida; significa trazer à comunidade judaica, exilados repatriados e remanescentes na terra, novos dias de prosperidade e paz.

b) O Deus Criador √© o Deus Salvador, o √ļnico Deus para todos

O II Is desenvolve o tema da cria√ß√£o e do Deus criador. A cria√ß√£o √© apresentada numa perspectiva hist√≥rico-salv√≠fica, como o primeiro ato salv√≠fico de Deus. Responde-se, assim, √† situa√ß√£o de ex√≠lio, que parecia p√īr em quest√£o o poder de Deus. Dessa forma, o II Is d√° esperan√ßa de retornar √† terra: o Deus criador, todo-poderoso, trar√° seu povo de volta, realizando assim como que uma segunda cria√ß√£o (Is 40,12-31). Ele √© o redentor de Israel (Is 41,14), aquele que o resgata da m√£o dos babil√īnios.

O tema do poder de Deus que se manifesta na cria√ß√£o desenvolve-se em dois outros aspectos. Primeiramente, se Deus √© o criador de todo o cosmo e dos seres humanos, ent√£o ele √© o Deus de todos: o Senhor √© o √ļnico Deus n√£o s√≥ para Israel, mas em absoluto, o √ļnico Deus verdadeiro. Tematiza-se assim, explicitamente, o monote√≠smo. Em contraste com a concep√ß√£o mais antiga que admitia outros deuses fora de Israel, embora para Israel o √ļnico fosse o Senhor (Sl 50,1; 82,1), agora existe somente um Deus, seja em Israel, seja em outras terras. Nesse contexto de afirma√ß√£o do poder do Deus de Israel, o II Is desenvolve o tema da inutilidade dos deuses pag√£os. Os outros deuses nada s√£o e, por isso, tornam-se objeto de profunda cr√≠tica, por vezes em tom ir√īnico (Is 40,19-20; 41,6-7.21-24; 44,6-20. 24-28; 46,5-6).

Em segundo lugar, a ideia do Deus √ļnico abre a perspectiva de universalidade da salva√ß√£o (Is 40,5; 41,8-16; 42,10; 43,8-13; 52,7-10). Se todos foram criados por Deus, que √© o √ļnico Deus existente, ent√£o todos s√£o chamados √† salva√ß√£o. Mesmo os pag√£os, se aceitarem o Deus de Israel, podem participar da sua b√™n√ß√£o. Tal universalismo, contudo, tem sempre Israel como centro de converg√™ncia (Is 45,14.20-25).

c) Deus é o senhor da história

A partir da concep√ß√£o da onipot√™ncia universal de Deus, desenvolve-se ainda o tema de seu dom√≠nio sobre toda a hist√≥ria. Os acontecimentos hist√≥ricos (no caso, o ex√≠lio babil√īnico) n√£o s√£o superiores ao poder divino. Deus se serve dos fatos e das conting√™ncias hist√≥ricas para levar a cumprimento seu plano. A ascens√£o de Ciro, com a conquista de Babil√īnia, √© vista como providencial: Ciro √© instrumento de Deus para a liberta√ß√£o de seu povo (Is 41,1-5.21-29; 44,24-28; 45,1-7. 9-13; 46,9-11; 48,12-15).

√Č neste contexto que a volta dos exilados √© tematizada com um novo √™xodo, mais glorioso do que o do Egito (Is 43,16-21; 48,20-21; 49,10; 51,9-10; 52,7-12).

Para os exilados, estas afirma√ß√Ķes serviam como sustenta√ß√£o e motivo para a f√©. A f√© abarca e saber entrever, nos acontecimentos da hist√≥ria humana, a a√ß√£o divina, que, para al√©m dos fatos, dirige tudo para a consecu√ß√£o de seu plano, que diz respeito √† salva√ß√£o de seu povo.

5 O Terceiro Isaías (c. 56-66)

5.1 Natureza do III Is

O III Is √© uma cole√ß√£o de escritos heterog√™neos, nos quais dificilmente se pode encontrar uma tem√°tica unificadora. O livro apresenta-se como uma cole√ß√£o de pe√ßas, que, no entanto, receberam certa unidade ao serem colocadas no conjunto. Alguns autores veem uma liga√ß√£o destes cap√≠tulos com o II Is, devido a semelhan√ßas de linguagem e conte√ļdo em comum, mas a maioria distingue os c. 40 -55 e 56-66 como duas partes. As semelhan√ßas para com o II Is se d√£o sobretudo nos c. 60-62. Com exce√ß√£o desses, que formam um bloco, h√°, por√©m, muitas diferen√ßas para com o II Is:

  • n√£o mais se fala da esperan√ßa de retorno do ex√≠lio nem de Ciro;
  • fala-se do templo, que parece estar em reconstru√ß√£o (Is 66,1) ou j√° reconstru√≠do, faltando somente aspectos decorativos (Is 60,10; 58,12);
  • h√° uma preocupa√ß√£o com a observ√Ęncia do s√°bado (Is 58,13-14), com o modo correto de jejuar (Is 58,1-12) e de oferecer sacrif√≠cios (Is 66,1-4), com o comportamento dos chefes (Is 56,10-11). Isto sup√Ķe uma √©poca e um pensamento diferente daqueles do II Is.

5.2 √Čpoca de composi√ß√£o

Duas tend√™ncias marcam os estudos em rela√ß√£o √† data√ß√£o do III Is. H√° quem o entenda como independente tanto do I como do II Is, tendo sido elaborado sob influ√™ncia do II Is no p√≥s-ex√≠lio imediato (entre 538 e 515), em Jerusal√©m. Outra vertente considera o III Is como proveniente do mesmo autor do II Is, de modo que ele seria um prolongamento dos c. 40-55 e teria sido redigido entre a primeira metade do s√©culo V e o in√≠cio do s√©culo III. Uma variante dessa √ļltima vis√£o considera que o III Is seria um pouco posterior ao II Is e se inspiraria, embora s√≥ parcialmente, neste. Os autores poderiam ser ‚Äúdisc√≠pulos‚ÄĚ (em sentido amplo) do II Is.

Vários elementos falam em favor da época pós-exílica, sem que se possa precisar, contudo, o tempo exato. Em Is 63,7-64,11 reflete-se sobre a história de Israel e se passa, a seguir, a uma confissão dos pecados e ao pedido de que Deus tenha misericórdia do seu povo. Aqui o país ainda aparece destruído (Is 63,18; 64,9-10). Os capítulos 60 e 62 apresentam a Jerusalém gloriosa, mas esta é reservada ao futuro. A cidade atual aparece ainda destruída (Is 58,12; 60,10; 61,4), semelhante à descrição que ocorre no livro de Neemias (Ne 1,3; 2,13-15.17). Estes textos poderiam, portanto, ser anteriores a 445, época da primeira missão de Neemias.

Outros textos que se referem a situa√ß√Ķes que parecem ser anteriores √† reforma de Esdras e Neemias s√£o: Is 58,13-14 (observ√Ęncia do s√°bado); Is 58,1-12 (como jejuar); Is 66,1-4 (como oferecer sacrif√≠cios); Is 56,10-11 (a conduta dos chefes do povo). Por fim, Is 57,1-13 fala contra a idolatria de modo semelhante ao dos profetas pr√©-ex√≠licos; no entanto, n√£o se pode excluir que em √©poca p√≥s-ex√≠lica tenha havido tais desvios.

5.3 O profeta

N√£o h√° nenhum dado que permita tra√ßar a identidade do profeta que estaria por tr√°s destes cap√≠tulos. S√≥ em 61,1-2 fala-se dele, mas sem oferecer dados sobre sua pessoa; menciona-se sua miss√£o, em estilo semelhante ao dos cantos do Servo (fala-se em 1¬™ pessoa e aparecem as caracter√≠sticas de sua miss√£o; Is 49,1; 50,4). √Č algu√©m consagrado, destinado anunciar a salva√ß√£o, descrita como um grande ano jubilar (Lv 25,10). Textos como Lv 26 e Dn 9,11.24 indicam que em √©poca tardia desenvolveu-se a expectativa de um grande e definitivo jubileu, em que todos os pecados seriam redimidos e a paz e a prosperidade seriam definitivamente instauradas. Talvez esta mesma expectativa esteja por tr√°s de Is 61,2, com a esperan√ßa de uma salva√ß√£o ainda ligada a este mundo (mudan√ßas materiais), mas tamb√©m a de uma renova√ß√£o da rela√ß√£o salv√≠fica com Deus (Is 61,6a.8-9).

5.4 Organiza√ß√£o do conte√ļdo

Há diferentes modos de compreender a organização do III Is.

Alguns autores distinguem, a partir de temas predominantes, duas grandes partes: at√© Is 63,6, aparecem as tem√°ticas direito-justi√ßa e salva√ß√£o-justi√ßa (Is 56,1; 58,2; 59,9.14; 60,1-63,6); a partir de Is 63,7, √© frequente a met√°fora e compara√ß√£o pai-m√£e (Is 63,16; 64,7; 66,13) para Deus, num contexto de prece de s√ļplica (Is 63,16; 64,7), que se conclui com uma pergunta (Is 64,11), √† qual Deus responde (Is 65,1-66,24).

O trecho final (Is 66,18-24) trata do tema dos povos estrangeiros, retomando a ideia da universalidade salv√≠fica de 56,1-8, que abrira o conjunto. Al√©m disso, a men√ß√£o de ‚Äútodos os povos‚ÄĚ (Is 66,18) remete a Is 2,2, formando assim uma moldura para o livro de Isa√≠as como um todo.

√Č poss√≠vel tamb√©m compreender a organiza√ß√£o do III Is a partir de outras tem√°ticas nele desenvolvidas:

  • 56-59: apresentam den√ļncias de infidelidade do povo ou de grupos; h√° esperan√ßas de futuro. Os problemas s√£o mais concretos;
  • 60-62: o tom √© sobretudo de promessas e esperan√ßa. Aguarda-se a restaura√ß√£o do povo, iluminado pela gl√≥ria do Senhor. Os deportados voltar√£o e Jerusal√©m ter√° um futuro maravilhoso;
  • 63-66: apresentam den√ļncias e esperan√ßas, como os c. 56-59; por√©m, os pecados s√£o aqui menos concretizados e a preocupa√ß√£o √© sobretudo teol√≥gica.

5.4 Principais pontos de teologia

a) Deus é fiel

O ponto central da mensagem do III Is √© a quest√£o da demora no cumprimento das promessas divinas de restaura√ß√£o, que se entende a partir da dif√≠cil situa√ß√£o do povo no p√≥s-ex√≠lio. Como as promessas do II Is n√£o se realizaram plenamente nem pareciam realiz√°veis, mesmo ap√≥s o retorno, e como se mostrava dif√≠cil a reconstru√ß√£o do templo e de Jerusal√©m e o restabelecimento da normalidade da vida p√ļblica, surgem, nesta √©poca, sentimentos de desilus√£o e desencorajamento (Is 58,3; 59,9.11; 63,15-19; 64,5-11). Estaria o Senhor sendo infiel a suas promessas (Is 59,1)? A resposta do profeta √© o encorajamento motivado pela fidelidade de Deus na hist√≥ria: Deus fez uma alian√ßa e permanecer√° fiel √† sua palavra (Is 59,21; 63,7-9; 66,5). √Č neste contexto que podem ser compreendidas as grandes expectativas de futuro referentes a Jerusal√©m (Is 60-62; 65,16-25; 66,10-14), esperan√ßas que se baseiam na a√ß√£o do Senhor (Is 60,1.19-22; 62,11-12). Deus √© Pai (Is 63,8.16; 64,7) e, como j√° fez no passado, intervir√° para libertar o seu povo (Is 63,9; 64,2-3).

b) A comunidade renovada

Deus criará uma nova comunidade, com centro em Jerusalém e no sacerdócio (Is 65,18-20; 66,6.10-14.20-21). A salvação é prometida aos pobres (Is 61,1), os que não confiam em si mesmos, mas sim unicamente em Deus (Is 57,14-19; 61,1-3; 65,13-16; 66,2.5).

c) Universalismo com centro em Jerusalém

A salvação é endereçada também aos estrangeiros, que terão Jerusalém como ponto de convergência. Tal perspectiva encontra-se em Is 56,3-7 e 66,18b-21, ou seja, na abertura e na conclusão do livro. Ser-lhes-á permitido participar do próprio culto (Is 56,6-7).

O universalismo do III Is inclui ainda categorias de pessoas. Ao povo eleito pertencer√£o tamb√©m aqueles que antes tinham sido exclu√≠dos pela Lei (Dt 23,2-5), sob a condi√ß√£o de aceitarem e viverem a alian√ßa (Is 56,3-5). Mesmo o sacerd√≥cio n√£o ser√° mais exclusivamente ligado √† tribo de Levi (Is 66,21). N√£o √© claro se os estrangeiros que participar√£o do sacerd√≥cio s√£o os judeus da di√°spora, que retornar√£o a Jerusal√©m (Is 66,20-21), ou se s√£o propriamente n√£o israelitas. Certo √© que o aspecto essencial ser√° o relacionamento pessoal com Deus, mesmo se s√£o indicadas algumas prescri√ß√Ķes exteriores (Is 56,2.6-7; 58,13-14). Ao mesmo tempo, h√° no livro textos que mencionam a submiss√£o dos estrangeiros ao povo judeu (Is 60,10-16; 61,5), com reserva do sacerd√≥cio a este √ļltimo (Is 61,6).

d) O povo deve-se converter

A causa do n√£o cumprimento das promessas do II Is reside nos pecados do povo: no √Ęmbito moral-social (Is 58,3b-12; 59,3-15; 56,10-57,1) e religioso (Is 58,13-14; 57,3-13; 65,2-7; 66,3-4). Os pr√≥prios textos que falam da idolatria (Is 57,3-13; 65,2-5.11) mostram que a responsabilidade pelas dificuldades recai em Israel, n√£o no Senhor. O livro desenvolve uma dura cr√≠tica aos pecados das autoridades e de certos grupos (Is 56,9-57,2), especialmente dos dirigentes (Is 56,10-11). Fala tamb√©m contra a idolatria, que parece incluir sacrif√≠cios humanos (Is 57,3-13; 65,1-7). Reprova igualmente os sacrif√≠cios (Is 66,1-4) e as pr√°ticas lit√ļrgicas (o jejum, o s√°bado e a justi√ßa: Is 58) negligenciadas ou realizadas sem a correspondente √©tica.

Deus é transcendente (Is 57,15; 63,15), mas é pronto ao perdão. O profeta, por isso, convida o povo à conversão (Is 57,14) e à confissão das próprias culpas (Is 59,12-20; 63,7-64,11).

6  Formação do livro de Isaías em seu conjunto

H√° numerosas repeti√ß√Ķes de termos, express√Ķes, tem√°ticas, que perpassam as tr√™s grandes partes do livro de Isa√≠as e d√£o ao conjunto uma unidade, de modo que o livro enquanto tal se apresenta como um todo coerente. Sobressai aqui a designa√ß√£o de Deus como ‚Äúo Santo (de Israel)‚ÄĚ (35 vezes no livro como um todo), al√©m da correspond√™ncia entre certas passagens (Is 5,1-7 apresenta muitas semelhan√ßas com 27,2-6; 11,6a.7b.9 √© retomado em 65,25).

A composição final do livro deve ter ocorrido antes do século III aC. De fato, o texto de Sir (Eclo) 48,22-25 (início do século II) refere-se ao livro tocando temas de suas três partes; além disso, a tradução grega da LXX (de meados do século II a meados do século I aC) conheceu o livro com todos os seus capítulos, na forma que temos hoje.

A mensagem do grande Isa√≠as do s√©culo VIII deve ter marcado c√≠rculos de cultores das tradi√ß√Ķes prof√©ticas, de modo que ao n√ļcleo mais antigo do livro foram sendo paulatinamente acrescentados outros textos e remodeladas passagens mais antigas. N√£o √© poss√≠vel identificar com seguran√ßa os momentos redacionais, que devem ter ocorrido desde a √©poca pr√©-ex√≠lica at√© o per√≠odo persa, passando pelo per√≠odo neobabil√īnico. Atualmente, aceita-se cada vez mais que a segunda e terceira partes do livro n√£o foram redigidas independentemente da primeira parte (c. 1-39).

7 Lendo o texto hoje

O Deus santo exige direito e justi√ßa em todas as realidades humanas: no agir individual, nas estruturas sociais, na pr√°tica pol√≠tica, no culto. Fundamental √© a atitude de convers√£o, que implica f√© e adequa√ß√£o do agir √† ordem divina. Deus tem o dom√≠nio sobre a vida humana no plano pessoal, social, nacional e internacional, e, a seu tempo, realizar√° seu plano. Ele, o Deus √ļnico, √© o senhor da hist√≥ria, capaz de reconduzir os deportados √† sua terra, criando para eles nova esperan√ßa. E para formar uma comunidade humana renovada, sem excluir ningu√©m que se abra √† sua a√ß√£o. As expectativas do rei justo e s√°bio, instrumento da salva√ß√£o divina, se cumpriram em Jesus Cristo, o Filho de Davi que inaugurou seu Reino entre n√≥s (cf. Mc 11,10).

Maria de Lourdes Corrêa Lima, PUC Rio РTexto original português.

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