√Čtica e teologia no Antigo Testamento

Sum√°rio

1 A imagem de Deus

1.1 O Deus da libertação

1.2 O Deus da Aliança

1.3 O Deus da Tor√°

2 A imagem do ser humano

2.1 A imagem e semelhança

2.2 O apelo a ‚Äúcaminhar com Deus‚ÄĚ

2.3 O agir radicado na liberdade

3 Fé e ética

3.1 Duas faces da mesma moeda

3.2 A historicidade da fé

3.3 A secundariedade do culto

4 Grandes vertentes da ética bíblica

4.1 O amor entranhado a Deus

4.2 O cuidado com o próximo

4.3 A recriação da fraternidade

5 Quatro palavras basilares

5.1 Direito – mishpat

5.2 Miseric√≥rdia ‚Äď hesed

5.3 Justiça Рsedaqah

5.4 Fidelidade ‚Äď emet

6 Referências bibliográficas

As entrelinhas do texto b√≠blico revelam uma indissoci√°vel rela√ß√£o entre teologia e √©tica. A aten√ß√£o de Deus est√° voltada para o ser humano e suas a√ß√Ķes na hist√≥ria. O ser humano, por sua vez, confronta-se com o projeto de Deus, a ser acolhido ou rejeitado. Acolhida ou rejei√ß√£o, atos da liberdade humana, significam decidir-se, ou n√£o, por um projeto de vida sintonizado com os anseios divinos para a humanidade. Os atos do homem e da mulher de f√© s√£o express√Ķes de comunh√£o ou de discrep√Ęncia com o que se reconhece serem as orienta√ß√Ķes do Criador para as suas criaturas. A longa trajet√≥ria do povo de Israel, desembocando nas comunidades crist√£s, descreve o percurso da humanidade desejosa de adequar seu caminhar (√©tica) ao querer do Deus de sua f√© (teologia).

A vertente √©tica faz-se presente em todas as grandes tradi√ß√Ķes liter√°rio-teol√≥gicas do Antigo Testamento. Ao se referirem ao di√°logo entre Deus e a humanidade, comportam as exig√™ncias divinas para o ser humano, inserido na hist√≥ria e desafiado a viver, a√≠, a fidelidade ao Deus do povo. A Tradi√ß√£o Legal (a Tor√°), por natureza, reporta-se ao projeto de Deus para seu povo formulado com leis apod√≠ticas e casu√≠sticas, mas, tamb√©m, como narra√ß√Ķes que sugerem modos de proceder. A Tradi√ß√£o Prof√©tica, ao denunciar os desvios de conduta da lideran√ßa e do povo, aponta para o que Deus espera de Israel. A Tradi√ß√£o Hist√≥rica narra as consequ√™ncias da fidelidade e da infidelidade do povo ao seu Deus e comporta um apelo para a vida virtuosa, pressuposto para a b√™n√ß√£o divina. A Tradi√ß√£o Sapiencial confronta o fiel com a exig√™ncia de se decidir por Deus ‚Äď o caminho da vida ‚Äď, evitando-se a impiedade e a injusti√ßa ‚Äď o caminho da morte. A ora√ß√£o de Israel, cujo repert√≥rio mais significativo encontra-se nos Salmos, aponta para pr√°tica da piedade, feita de comunh√£o com Deus e com o pr√≥ximo. Assim, qualquer que seja a porta de entrada para a leitura b√≠blica veterotestament√°ria, o fiel se defrontar√° com indicativos √©ticos incontorn√°veis. As muitas imagens de Deus, desde o Deus da Cria√ß√£o, passando pelo Deus da Liberta√ß√£o e, tamb√©m, do Ex√≠lio, para desembocar no Deus na Esperan√ßa, todas elas, comportam apelos de conduta para o israelita fiel. Confrontar-se com Deus (teologia) significa escutar-lhe as exig√™ncias (√©tica).

1 A imagem de Deus

O linguajar teológico da Bíblia refere-se sempre a Deus na relação com suas criaturas, de modo particular, o ser humano. O diálogo de Deus com o ser humano revela a preocupação divina com a realidade de cada pessoa, sua situação e seu modo de proceder na história. Um dado original da religião de Israel consiste no enraizamento histórico da teologia, com o consequente desdobramento ético.

1.1 O Deus da libertação

O fato fundante da religi√£o b√≠blica √© a liberta√ß√£o dos israelitas da opress√£o eg√≠pcia. Um Deus de √≠ndole √©tica √© movido a intervir para arrancar das garras do opressor um povo fadado ao exterm√≠nio pela crueldade do fara√≥. ‚ÄúEu vi, eu vi a mis√©ria do meu povo que est√° no Egito. Ouvi seu grito por causa de seus opressores, pois conhe√ßo as suas ang√ļstias. Por isso desci, a fim de libert√°-lo da m√£o dos eg√≠pcios e faz√™-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel‚ÄĚ (Ex 3,7-8).

Os verbos ver, ouvir, descer, libertar e fazer subir definem o agir √©tico de Deus e apontam para a conduta esperada do ser humano. Ver e ouvir sup√Ķem proximidade e aten√ß√£o em face ao sofredor. Descer corresponde a se desinstalar com o prop√≥sito de agir. Libertar e fazer subir s√£o gestos concretos em favor do oprimido. Constatar a realidade do oprimido sem a consequente a√ß√£o resulta em comisera√ß√£o est√©ril e, por consequ√™ncia, dispens√°vel. Eis por que Deus toma as provid√™ncias para a revers√£o da sorte dos israelitas. Ser√£o tirados da terra da opress√£o e conduzidos √† terra da fraternidade.

A express√£o ‚Äúmeu povo‚ÄĚ sublinha o afeto divino, no trato com os israelitas. Deus se sente ligado √†quele povo insignificante, ‚Äúo menor dentre os povos‚ÄĚ (Dt 7,7), assumindo-o como povo de sua predile√ß√£o. Israel ser√° o povo de Deus, libertado da escravid√£o e do risco de ser eliminado. O grande desafio consistir√° em se deixar guiar pelo Deus libertador, a quem n√£o agradam a injusti√ßa e a opress√£o.

1.2 O Deus da Aliança

A liberta√ß√£o foi o gesto salv√≠fico de Deus. Embora sinta os israelitas como ‚Äúmeu povo‚ÄĚ, est√° na depend√™ncia de ser acolhido como o Deus do povo. A rela√ß√£o dever√° ser selada com um pacto ‚Äď berit ‚Äď bilateral, engajando ambas as partes. Os termos do pacto podem ser formulados de dois modos complementares: na perspectiva de Deus, ‚ÄúEu serei o teu Deus e tu ser√°s o meu povo‚ÄĚ; na perspectiva do povo, ‚ÄúN√≥s seremos teu povo e tu ser√°s nosso Deus‚ÄĚ (cf. Jr 31,31-34; Ez 11,20). Cabe aos israelitas a decis√£o, pois, da parte de Deus, a escolha j√° est√° feita: Israel √© ‚Äúmeu povo‚ÄĚ.

Portanto, a salvação antecedeu a aliança. Deus libertou os israelitas da opressão antes de ser acolhido como o Deus de Israel. Seu gesto de misericórdia foi inteiramente gratuito e independeu dos méritos do povo ou de qualquer obrigação de sua parte, ao tomar as dores de Israel, por ser incapaz de se manter impassível diante do sofrimento dos fracos e pequeninos.

A alian√ßa √© uma proposta a ser acolhida ou rejeitada. YHWH n√£o se imporia a Israel, atropelando-lhe a liberdade. Por√©m, ao aceit√°-lo como seu Deus, Israel estaria se comprometendo com um projeto de vida fundado na compaix√£o e na miseric√≥rdia, experimentadas na liberta√ß√£o da escravid√£o eg√≠pcia. A f√© resultante da alian√ßa apelaria para rela√ß√Ķes justas no trato com o semelhante. Esta seria a maneira correta de ser fiel ao pacto selado com Deus. O componente √©tico da alian√ßa √© incontorn√°vel.

1.3 O Deus da Tor√°

O projeto √©tico de YHWH est√° codificado no Dec√°logo (cf. Ex 20,1-17; Dt 5,6-22), no C√≥digo da Alian√ßa (cf. Ex 20,22-23,19), no C√≥digo Deuteron√īmico (cf. Dt 12-26) e no C√≥digo Sacerdotal (cf. Lv 17-26). Estas formula√ß√Ķes, no estilo dos c√≥digos de lei da antiguidade, abrangem todas as √°reas de a√ß√£o da pessoa de f√©, sem se limitarem ao culto. Correspondem a uma esp√©cie de c√≥digo de √©tica para quem aderiu √† alian√ßa com YHWH.

As leis da Tor√° t√™m como objetivo regular as rela√ß√Ķes humanas, para evitar qualquer forma de injusti√ßa ou de detrimento em rela√ß√£o aos mais fracos, cuja dignidade √© aviltada pela a√ß√£o dos prepotentes. Qualquer ato resultante em vitimiza√ß√£o dos pobres e dos indefesos ter√° a reprova√ß√£o divina e consistir√° em afronta ao Deus de Israel. Na dire√ß√£o contr√°ria, tomar partido em favor deles significa agir em sintonia com Deus.

Diferentemente dos c√≥digos legais de outros povos, a Tor√° b√≠blica √© atribu√≠da a YHWH. Sua origem √© divina e, portanto, inquestion√°vel. ‚ÄúDeus pronunciou estas palavras dizendo (…)‚ÄĚ (Ex 20,1), ‚ÄúYHWH disse a Mois√©s (…)‚ÄĚ (Ex 20,22), ‚ÄúYHWH falou convosco face a face, do meio do fogo, sobre a Montanha. Eu estava ent√£o entre YHWH e v√≥s, para vos anunciar a palavra de YHWH, pois ficastes com medo do fogo e n√£o subistes √† montanha. Ele disse (…)‚ÄĚ (Dt 5,4-5). ‚ÄúYHWH falou a Mois√©s e disse: ‚ÄėFala a Aar√£o, a seus filhos e a todos os israelitas. Tu lhes dir√°s: Isto √© o que ordena YHWH‚Äô (…)‚ÄĚ (Lv 17,1-2) s√£o maneiras de atribuir a YHWH o projeto √©tico pelo qual os israelitas dever√£o se pautar.

2 A imagem do ser humano

As exig√™ncias √©ticas da B√≠blia sup√Ķem uma concep√ß√£o de ser humano, pensado na rela√ß√£o com Deus, donde se desdobrar√£o as rela√ß√Ķes com os semelhantes. O trato com o pr√≥ximo decorre da abertura para o querer divino; o querer divino aponta o modo de proceder adequado no trato com o pr√≥ximo. Teologia e antropologia, por conseguinte, interpenetram-se, tornando indissoci√°veis o modo de ser e de proceder do ser humano e o modo de ser e de proceder do Deus libertador.

 2.1 A imagem e semelhança

A decis√£o divina de criar o ser humano √† sua ‚Äúimagem e semelhan√ßa‚ÄĚ (Gn 1,26.27) tem um forte componente √©tico. Diferentemente das demais criaturas, teria como voca√ß√£o fundamental seguir os passos de Deus na cria√ß√£o, exercendo o dom√≠nio sobre as demais criaturas, na condi√ß√£o de continuador da obra divina. Dominar significa responsabilizar-se pelo que saiu das m√£os de Deus com o selo da bondade, como declara o refr√£o repetido no final de cada etapa da obra criadora ‚Äď ‚ÄúDeus viu que isso era bom!‚ÄĚ ‚Äď para se concluir com a constata√ß√£o ‚Äď ‚ÄúDeus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom‚ÄĚ (Gn 1,31). Por ser imagem e semelhan√ßa de Deus, o ser humano deve agir como Deus, no trato com o semelhante e com as demais criaturas.

Elemento fundamental na obra da cria√ß√£o √© a igualdade de posi√ß√£o entre homem e mulher. ‚ÄúDeus criou o homem √† sua imagem, √† imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou‚ÄĚ (Gn 1,27). O componente √©tico dessa declara√ß√£o √© ineg√°vel. Fica, assim, denunciada como contr√°ria ao desejo do Criador toda tenta√ß√£o de sobrepor o homem √† mulher, considerando-a inferior. O machismo, erva daninha na hist√≥ria da humanidade, √© uma deturpa√ß√£o do querer divino original.

A ‚Äúimagem e semelhan√ßa‚ÄĚ apela para a capacidade de o ser humano agir em sintonia com o Criador. Foi depositado em seu cora√ß√£o o que Deus tem de melhor. Bondade, miseric√≥rdia e compaix√£o s√£o caracter√≠sticas do ser humano, distinguindo-o dos demais seres vivos. Os gestos humanos de bondade, em √ļltima an√°lise, expressam a bondade de Deus, presente no √≠ntimo do homem bom. O mesmo se diga das a√ß√Ķes misericordiosas, dos atos de cuidado com o semelhante e da compaix√£o em face aos sofredores. Por este vi√©s, Deus se faz presente na hist√≥ria, como ‚ÄúDeus de ternura e compaix√£o‚ÄĚ (Ex 34,6).

¬†2.2 O apelo a ‚Äúcaminhar com Deus‚ÄĚ

O profeta Miqueias formulou com precis√£o o apelo que ressoa no cora√ß√£o de cada ser humano. ‚ÄúFoi-te anunciado, √≥ homem, o que √© bom e o que YHWH exige de ti: nada mais que praticar a justi√ßa, amar a bondade e te sujeitares a caminhar com teu Deus‚ÄĚ (Mq 6,8). Essa proposta de vida sup√Ķe uma rela√ß√£o inextric√°vel entre o humano e o divino. O caminhar com Deus ‚Äď o caminho da f√© ‚Äď concretiza-se nos gestos de justi√ßa e de bondade, nas rela√ß√Ķes interpessoais. Caminhar com Deus significa, por consequ√™ncia, caminhar com o pr√≥ximo.

Caminhar √© verbo de a√ß√£o que aponta para a din√Ęmica da vida humana, sempre em movimento, onde surgem novas possibilidade de ser justo e bondoso. Na medida em que est√° com Deus, o ser humano, ao se defrontar com o pr√≥ximo, ser√° apelado a atuar como atuou o Deus apiedado com o Israel sofredor nas m√£os do fara√≥ eg√≠pcio. A √©tica b√≠blica, portanto, sup√Ķe o ser humano caminhante, sem se cansar na pr√°tica do bem. Parar e cruzar os bra√ßos correspondem a bloquear a possibilidade de Deus fazer o bem √† humanidade, pela media√ß√£o da pessoa de f√©.

A presen√ßa de Deus na caminhada do fiel tem a for√ßa de inspirar-lhe a√ß√Ķes conformadas com o projeto divino, na linha do amor misericordioso. A ren√ļncia ao caminhar com Deus tem o efeito de deixar o ser humano largado √† pr√≥pria sorte com o risco de se desviar do bom caminho e enveredar pelas estradas tortuosas do v√≠cio e da impiedade. Ter Deus como companheiro de caminhada possibilita-lhe perseverar na pr√°tica do bem, embora devendo enfrentar desafios que p√Ķem √† prova a consist√™ncia de sua f√©.

 2.3 O agir radicado na liberdade

O tema da liberdade perpassa toda a B√≠blia. A imagem e semelhan√ßa divina n√£o privam o ser humano de seu elemento identificador, ou seja, a capacidade de se decidir. A decis√£o mais radical consiste em poder dizer n√£o ao querer divino e seguir os apelos das paix√Ķes e dos instintos. O relato da cria√ß√£o atenta para este dado da realidade humana ao falar de Ad√£o e Eva, que d√£o ouvido √† serpente, √† revelia da ordem divina. ‚ÄúYHWH Deus deu ao homem este mandamento: ‚ÄėPodes comer de todas as √°rvores do jardim. Mas da √°rvore do conhecimento do bem e do mal n√£o comer√°s, porque no dia em dela comeres ter√°s que morrer‚Äô‚ÄĚ (Gn 2,16-17). Por sua vez, a serpente sugere √† mulher: ‚ÄúN√£o, n√£o morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em dele comerdes, vossos olhos se abrir√£o e v√≥s sereis como deuses, versados no bem e no mal‚ÄĚ (Gn 3,4-5). A mulher deixa-se levar pela serpente e induz o marido a fazer o mesmo. O mandamento de Deus foi deixado de lado. Misterioso √© Deus n√£o ter cumprido a promessa de infligir-lhes a morte. Antes, os expulsa do Jardim do √Čden, poupando-lhes a vida. Doravante, sua exist√™ncia consistir√° num cont√≠nuo desafio de fazer escolhas certas.

Em muitas ocasi√Ķes, a B√≠blia refere-se √† encruzilhada na qual o ser humano continuamente se encontra. ‚ÄúEis que hoje ponho diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade‚ÄĚ √© a constata√ß√£o de Dt 30,15. Mais adiante se d√° um conselho sensato: ‚ÄúEscolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descend√™ncia, amando a YHWH teu Deus, obedecendo √† sua voz e apegando-te a ele‚ÄĚ (Dt 30,19-20). Dt 11,26-28 formula a decis√£o em forma de obedi√™ncia ou desobedi√™ncia aos mandamentos de YHWH, com o desfecho de b√™n√ß√£o e maldi√ß√£o pela escolha feita. A sorte do fiel est√° na depend√™ncia de um ato da liberdade, sem qualquer imposi√ß√£o da parte de Deus. O Salmo 1 descreve o caminho dos justos e o caminho dos √≠mpios, com os respectivos resultados (cf. Pr 4,18-19). Cabe ao ser humano decidir-se e assumir as consequ√™ncias.¬† Eclo 15,11-20 trata da liberdade humana. Uma afirma√ß√£o lapidar define a condi√ß√£o humana: ‚ÄúDesde o princ√≠pio Deus criou o ser humano e o abandonou nas m√£os de sua pr√≥pria decis√£o‚ÄĚ (Eclo 15,14). Donde a responsabilidade por cada um de seus atos, sem o √°libi de atribu√≠-la a outrem. ‚ÄúN√£o digas: ‚Äė√Č o Senhor que me faz pecar‚Äô (…) N√£o digas: ‚ÄėE ele que me faz errar‚Äô‚ÄĚ (Eclo 15,11-12). A personifica√ß√£o da Sabedoria (cf. Pr 9,1-6) e da Insensatez (cf. Pr 9,13-18) aludem √† dupla voz a ressoar no √≠ntimo do cora√ß√£o humano, diante das quais √© desafiado a se posicionar.

A ética bíblica, embora de caráter religioso, jamais atropela a liberdade humana. Existe uma proposta divina a ser acolhida ou rejeitada. Acolhê-la significa aderir a YHWH e decidir-se a caminhar com ele. Pelo contrário, rejeitá-la é a decisão de dispensar YHWH e lançar-se solitário nas aventuras da vida, com o risco de se perder. Em hipótese alguma, a decisão será produto de pressão ou de ameaça. Cabe ao ser humano optar e arcar com as consequências da opção.

3 Fé e ética

A f√© b√≠blica, expressa na imagem de Deus, concretiza-se num ethos, correspondente √† proposta de vida de origem divina para o fiel. O bin√īmio f√©-√©tica pode ser desdobrado nos bin√īmios f√©-vida, contempla√ß√£o-a√ß√£o, ora√ß√£o-engajamento social, adora√ß√£o-cuidado com o pr√≥ximo, e outros. Em todos eles, a rela√ß√£o com o Transcendente move a pessoa de f√© ao compromisso com os irm√£os e as irm√£s e com a comunidade.

 3.1 Duas faces da mesma moeda

Teologia e √Čtica, na B√≠blia, s√£o como as duas faces de uma moeda. Caminham sempre juntas! A vertente teol√≥gica fala de Deus preocupado e atento ao ser humano, √† sua conduta e √† sua sorte. Jamais se pensa um Deus alienado, fechado no mundo celeste, despreocupado com o destino da humanidade e de suas criaturas. Antes, √© um Deus filantropo, na express√£o de Sb 11,24-26 ‚Äď ‚ÄúTu amas tudo o que criaste, n√£o te aborreces com nada do que fizeste; se alguma coisa tivesses odiado, n√£o a terias feito. E como poderia subsistir alguma coisa, se n√£o a tivesses querido? Como conservaria sua exist√™ncia, se n√£o a tivesses chamado? Mas a todos poupas, porque s√£o teus: Senhor, amigo da vida‚ÄĚ. O Deus de Israel caracteriza-se pela preocupa√ß√£o com a vida.

A vertente √©tica aponta para o ser humano chamado a adequar sua vida ao querer divino, tornando-o o norte de sua a√ß√£o. Esta forma de teonomia de modo algum transforma-o em joguete nas m√£os da divindade, pois em sua origem est√° uma decis√£o livre por abra√ßar o projeto de Deus como caminho de vida. Por outro lado, a possibilidade de romper com Deus e seguir o caminho da impiedade e da morte estar√° sempre diante do ser humano. O Salmo 73(72) refere-se √† tenta√ß√£o do justo de se bandear para a infidelidade. ‚ÄúPor pouco meus p√©s trope√ßavam, um nada, e meus passos deslizavam, porque invejei os arrogantes, vendo a prosperidade dos √≠mpios‚ÄĚ (v.2-3). Entretanto, o justo supera a tenta√ß√£o e se decide por Deus. ‚ÄúQuanto a mim, estou sempre contigo, tu me agarraste pela m√£o direita; tu me conduzes com teu conselho e com tua gl√≥ria me atrair√°s (…) A rocha do meu cora√ß√£o, minha por√ß√£o √© Deus, para sempre! (…) Quanto a mim, estar junto de Deus √© o meu bem!‚ÄĚ (v.23-28).

A atitude do √≠mpio, ao negar a exist√™ncia de Deus, √© at√≠pica na sociedade de Israel. ‚ÄúDiz o insensato em seu cora√ß√£o: ‚ÄėDeus n√£o existe!‚Äô (‚Ķ) N√£o sabem todos os malfeitores que devoram meu povo como se comessem p√£o, e n√£o invocam a YHWH?‚ÄĚ (Sl 14,1.4). O fen√īmeno moderno do ate√≠smo era desconhecido. Enveredar-se pelo caminho da maldade significava romper com o Deus de Israel e sua lei. Na dire√ß√£o contr√°ria, praticar a justi√ßa tornava-se ato de piedade de alta consist√™ncia religiosa.

 3.2. A historicidade da fé

A intera√ß√£o f√© e √©tica se deve ao enraizamento hist√≥rico da revela√ß√£o do Deus de Israel. YHWH se fez conhecer na hist√≥ria e, na hist√≥ria, se estabelece o relacionamento com ele. Nada acontece fora da hist√≥ria, na rela√ß√£o do fiel com seu Deus. A√≠ se d√° o ato de f√©, com seu desdobramento de fidelidade ou infidelidade. A√≠ o fiel se compromete com seu Deus e se disp√Ķe a ser-lhe obediente. A√≠ √© poss√≠vel experimentar a convers√£o, ao escutar os apelos de Deus, de modo especial, pela voz dos profetas. ‚ÄúVolta, Israel, a YHWH teu Deus, pois trope√ßaste em tua falta. Tomai convosco palavras e voltai a YHWH. Dizei-lhe: ‚ÄėPerdoa toda culpa, aceita o que √© bom. Em lugar de touros n√≥s queremos oferecer nossos l√°bios (‚Ķ) porque √© em ti que o √≥rf√£o encontra miseric√≥rdia‚Äô‚ÄĚ √© o apelo de Oseias ao Israel infiel (Os 14,2-4).

O l√≠der Josu√©, tendo reunido todas as tribos em Siqu√©m, urge tomar uma decis√£o, no momento em que est√£o instaladas, cada uma no respectivo territ√≥rio. ‚ÄúEscolhei hoje a quem quereis servir (‚Ķ) Quanto a mim e √† minha casa, serviremos a YHWH‚ÄĚ (Js 24,15). O povo responde un√Ęnime: ‚ÄúN√≥s tamb√©m serviremos a YHWH, pois ele √© nosso Deus (‚Ķ) √Č a YHWH que serviremos (‚Ķ) A YHWH nosso Deus serviremos e √† sua voz obedeceremos‚ÄĚ (Js 24,18.21.24). Servir a YHWH corresponde a viver o dia a dia segundo o estatuto e o direito fixado por Josu√©, como ‚ÄúLei de Deus‚ÄĚ (cf. Js 24,25-26). O desafio consistir√° em fazer valer a miseric√≥rdia no trato m√ļtuo, de forma que a fraternidade aconte√ßa, deixando para tr√°s a opress√£o eg√≠pcia. A obedi√™ncia e o servi√ßo a YHWH se tornar√£o vis√≠veis no estilo de vida das tribos. De igual modo, a desobedi√™ncia e a infidelidade!

3.3 A secundariedade do culto

Os profetas de Israel chamaram a aten√ß√£o para o papel secund√°rio do culto, na rela√ß√£o com a √©tica. Deus n√£o se agrada com os sacrif√≠cios e holocaustos, quando a vida do fiel est√° em descompasso com o seu querer. S√≥ a correta rela√ß√£o com o pr√≥ximo, baseada no direito e na justi√ßa, disp√Ķe o crente para o culto verdadeiro.

Isa√≠as levantou-se contra o culto praticado em seu tempo (cf. Is 1,10-20). Deus mesmo declara estar farto dos holocaustos, sacrif√≠cios, oferendas, festas e peregrina√ß√Ķes feitos para honr√°-lo. ‚ÄúEstou farto (‚Ķ) n√£o posso suportar falsidade e solenidade‚ÄĚ (v.11.13).¬† ‚ÄúQuando estendeis vossas m√£os, desvio de v√≥s meus olhos. Ainda que multipliqueis a ora√ß√£o n√£o vos ouvirei. Vossas m√£os est√£o cheias de sangue‚ÄĚ (v.15). O culto agrad√°vel a Deus tem pressupostos √©ticos bem claros. ‚ÄúTirai da minha vista vossas m√°s a√ß√Ķes! Cessai de praticar o mal, aprendei a fazer o bem! Buscai o direito e corrigi o opressor! Fazei justi√ßa ao √≥rf√£o, defendei a causa da vi√ļva!‚ÄĚ (v.16-17). O culto sem o respaldo da √©tica fica esvaziado!

Am√≥s vai na mesma dire√ß√£o (cf. Am 5,21-27). A injusti√ßa desacredita o culto. ‚ÄúEu odeio, eu desprezo as vossas festas e n√£o gosto de vossas reuni√Ķes. Porque, se me ofereceis holocaustos (‚Ķ), n√£o me agradam as vossas oferendas e n√£o olho para o sacrif√≠cio de vossos animais cevados. Afasta de mim o ru√≠do de teus cantos, eu n√£o posso ouvir o som de tuas harpas!‚ÄĚ (v.21-23) s√£o palavras postas na boca de Deus. A aten√ß√£o de Deus est√° voltada para o cora√ß√£o de quem o cultua, sem lhe importar o que faz e o que lhe oferece. A exig√™ncia √© precisa: ‚ÄúQue o direito corra como a √°gua e a justi√ßa como um rio caudaloso!‚ÄĚ (v.24). Portanto, culto aut√™ntico s√≥ com o respaldo do direito e da justi√ßa.

Em outro or√°culo, o profeta ironiza as peregrina√ß√Ķes aos santu√°rios tradicionais de Israel (cf. Am 4,4-5). Peregrinar a Betel e a Guilgal √© um caminho de pecado. Os sacrif√≠cios, os d√≠zimos e as oferendas volunt√°rias satisfazem o gosto dos adoradores ‚Äď ‚Äúporque √© assim que gostais, israelitas‚ÄĚ (v.5) ‚Äď, mas n√£o a YHWH. A motiva√ß√£o se repete: a sociedade de Israel carece de direito e de justi√ßa, no trato dos fracos e indefesos. A m√° conduta √©tica torna o culto desprez√≠vel para Deus.

Jeremias faz eco aos profetas que o antecederam. ‚ÄúQue me importa o incenso que vem de Seba, e a cana arom√°tica de pa√≠ses long√≠nquos? Vossos holocaustos n√£o me agradam e vossos sacrif√≠cios n√£o me comprazem‚ÄĚ (Jr 6,20). Mais adiante, o profeta se levantar√° contra o Templo de Jerusal√©m, √ļnico lugar de culto em sua √©poca, por se ter instalado a√≠ um culto desprovido de compromisso √©tico (cf. Jr 7,1-15). O culto agrad√°vel a Deus n√£o se coaduna com a pr√°tica da injusti√ßa, da opress√£o do estrangeiro, do √≥rf√£o e da vi√ļva, com o derramamento de sangue inocente ‚Äúneste lugar‚ÄĚ e com a idolatria. A sorte do Templo haveria de ser a mesma do antigo santu√°rio de Silo, onde estava a Arca da Alian√ßa (cf. 1Sm 4,1-11).

A den√ļncia de Jeremias evoca a prega√ß√£o de Miqueias que, como ele, havia anunciado a ru√≠na de Jerusal√©m devido √† corrup√ß√£o geral instalada na cidade. ‚ÄúPor culpa vossa, Si√£o ser√° arada como um campo, Jerusal√©m se tornar√° lugar de ru√≠nas, e a montanha do Templo, cerro de brenhas!‚ÄĚ (Mq 3,12; cf. Jr 26,18). A grandeza dos locais de culto a YHWH n√£o resulta da grandiosidade das liturgias e, sim, da qualidade √©tica de quem lhe presta culto.

4 Grandes vertentes da ética bíblica

Dois s√£o os vetores da √©tica, no √Ęmbito da B√≠blia: Deus e o pr√≥ximo. Passa por aqui toda a a√ß√£o do israelita de f√©, preocupado em viv√™-la com autenticidade. Correspondem-lhe dois desafios: a idolatria e o ego√≠smo. Bandear-se para outros deuses tem como consequ√™ncia aderir a outro ethos, incompat√≠vel com o projeto de YHWH; buscar os interesses pessoais, em detrimento do irm√£o carente, s√≥ √© poss√≠vel para quem rompeu com seu Deus.

4.1 O amor entranhado a Deus

A formula√ß√£o mais perempt√≥ria da rela√ß√£o do crente com YHWH exige dele ades√£o incondicional e irrestrita. ‚ÄúOuve, √≥ Israel: YHWH nosso Deus √© o √ļnico YHWH! Portanto, amar√°s YHWH teu Deus com todo o teu cora√ß√£o, com toda a tua alma e com toda a tua for√ßa!‚ÄĚ (Dt 6,4-5). O cora√ß√£o do fiel estar√° inteiramente voltado para YHWH, a ponto de determinar-lhe toda a conduta. Cada gesto ter√°, a√≠, sua raiz e ser√° todo carregado de densidade teol√≥gica.

Criatura alguma, jamais, poder√° ocupar o lugar reservado apenas para Deus na vida do crente, sob pena de desdizer-lhe totalmente a f√©. Os profetas de Israel serviram-se de met√°foras matrimoniais para denunciar a idolatria do povo, considerando-a adult√©rio. A experi√™ncia pessoal de Oseias serviu-lhe de par√°bola para compreender o que se passava com o povo (cf. Os 1,2-9). A convers√£o corresponde √† reconstru√ß√£o da fidelidade matrimonial, √† conduta esperada da esposa fiel. ‚ÄúEis que, eu mesmo, a seduzirei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao cora√ß√£o!‚ÄĚ (Os 2,16). A fidelidade processa-se no mais √≠ntimo do fiel, determinando-lhe todo o modo de proceder. √Č onde acontece o amor entranhado a Deus.

4.2 O cuidado com o próximo

A √©tica b√≠blica tem um foco bem preciso: o pr√≥ximo necessitado ou fragilizado. Os escravos n√£o podem ser maltratados (cf. Ex 21,1-11; Dt 15,12-18). O pobre e o inocente gozar√£o de prote√ß√£o, evitando-se serem explorados (cf. Ex 23,6-8). A mulher, casada ou n√£o, carente de peso social, era protegida pela Lei (cf. Ex 22,25-16; Dt 22,22-23,1). A vida humana gozava de especial cuidado, a ponto de se dever tirar a vida aos assassinos (cf. Ex 21,12-36; Lv 24,17; Dt 24,7). A pr√°tica da agiotagem era condenada com for√ßa, por vitimar as pessoas mais fr√°geis da sociedade (cf. Ex 22,24; Lv 25,35-37; Dt 23,20-21). O manto tomado em penhor deveria ser restitu√≠do antes do p√īr do sol, por ser o agasalho com o qual o pobre se protegeria do frio (Ex 22,25-26; Dt 24,12-13). O d√≠zimo trienal pertencia ao estrangeiro, ao √≥rf√£o e √† vi√ļva, para comerem e se saciarem (cf. Dt 14,28-29; 26,12-13). O falso testemunho era coibido, para n√£o se penalizar o inocente, v√≠tima da maldade alheia (cf. Dt. 19,15-21). O trabalhador diarista tinha o direito de receber o sal√°rio no mesmo dia, antes do p√īr do sol, por ser pobre e necessitado (cf. Dt. 24,14-15; Lv 19,13). Uma sociedade sem cuidado com os pobres, as vi√ļvas, os √≥rf√£os e os estrangeiros caminha na contram√£o de Deus.

4.3 A recriação da fraternidade

A desobedi√™ncia de Ad√£o e Eva (cf. Gn 3) e o fratric√≠dio de Caim (cf. Gn 4) rompem o projeto divino original, alicer√ßado na comunh√£o. Os relatos da cria√ß√£o descrevem a perfeita harmonia nas rela√ß√Ķes entre Deus e o ser humano, dos seres humanos entre si e destes consigo mesmo e com a natureza. A nova realidade abriu as portas para toda sorte de iniquidade, dando origem √† banaliza√ß√£o da vida humana. A vingan√ßa sem freios √© referida nos prim√≥rdios da humanidade. ‚ÄúCaim √© vingado sete vezes, mas Lamec, setenta e sete vezes‚ÄĚ (Gn 4,24). Mais adiante se faz uma constata√ß√£o espantosa: ‚ÄúYHWH viu que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era continuamente mau todo des√≠gnio de seu cora√ß√£o. YHWH arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra, e afligiu-se o seu cora√ß√£o‚ÄĚ (Gn 6,5-6).

A sequ√™ncia da narra√ß√£o b√≠blica pode ser entendida como o esfor√ßo de se recriar a comunh√£o e a fraternidade queridas por Deus. Os seres humanos foram desafiados a encontrar uma forma de conviv√™ncia que fizesse deles irm√£os e irm√£s da grande fam√≠lia dos filhos e filhas de Deus. A √©tica da√≠ decorrente se entende como o resultado do di√°logo entre YHWH e o ser humano, em busca da forma conveniente de conviver. O querer divino corresponde a tudo quanto favore√ßa e promova o entendimento e o respeito entre as pessoas. Na dire√ß√£o contr√°ria, situam-se as a√ß√Ķes geradoras de divis√£o, injusti√ßa e morte. Esta √© a chave para se compreender o que, na hist√≥ria, sintoniza com a verdadeira √©tica de matiz teol√≥gico.

5 Quatro palavras basilares

Quatro palavras se fazem insistentemente presentes quando os textos b√≠blicos aludem √† √©tica, decorrente da f√© em YHWH, o Deus de Israel: direito, miseric√≥rdia, justi√ßa e fidelidade. S√£o termos que apontam para a rela√ß√£o de Deus com os seres humanos e a dos seres humanos entre si. Pode acontecer de serem usadas em paralelo ‚Äď ‚ÄúSou o Senhor que pratico o amor, o direito e a justi√ßa na terra‚ÄĚ (Jr 9,23) ‚Äď ou em dupla ‚Äď ‚ÄúA justi√ßa ser√° o cinto dos seus lombos e a fidelidade, o cinto dos seus rins‚ÄĚ (Is 11,5). Na vis√£o b√≠blica, importa a realidade e n√£o o conceito abstrato. Assim, mais importante que belas teorias sobre justi√ßa e miseric√≥rdia s√£o as situa√ß√Ķes concretas em que se tornam realidade.

5.1 Direito – mishpat

Refere-se ao querer divino, regulador das rela√ß√Ķes interpessoais. Pode ser entendido como a Tor√°, enquanto orienta√ß√£o de YHWH a ser posta em pr√°tica nas rela√ß√Ķes interpessoais. Atropelar o direito corresponde a virar as costas para YHWH e seguir a dire√ß√£o contr√°ria ao seu querer. Respeitar o direito e se deixar guiar por ele √© a atitude de quem est√° sintonizado com YHWH e abra√ßa seu querer como projeto de vida.

Os profetas foram, de modo especial, sens√≠veis ao desrespeito ao direito. Isa√≠as era consciente da realidade de seu tempo. Contemplando a Cidade Santa, constata: ‚ÄúComo se tornou prostituta a cidade fiel! Cheia de direito, nela habitava a justi√ßa, mas agora s√≥ assassinos‚ÄĚ (Is 1,21). Jeremias denuncia o rei pelo descarado desrespeito do direito: ‚ÄúAi do que constr√≥i sua casa sem justi√ßa e seus aposentos sem direito; que faz seu pr√≥ximo trabalhar de gra√ßa e n√£o lhe paga o sal√°rio‚ÄĚ (Jr 22,13). Na mesma linha, segue Ezequiel: ‚ÄúA popula√ß√£o pratica a extors√£o, comete roubos, oprime o pobre e o necessitado e maltrata o estrangeiro sem nenhum mishpat‚ÄĚ (Ez 22,29).

Neste contexto, a miss√£o dos profetas de Israel consistiu em pregar a submiss√£o ao direito e a adequa√ß√£o do modo de proceder aos mandamentos de YHWH. Miqu√©ias anuncia intr√©pido sua disposi√ß√£o interior: ‚ÄúEstou cheio de for√ßa, do esp√≠¬≠rito do Senhor, de direito e de coragem para anunciar a Jac√≥ seu crime e a Israel seu pe¬≠cado‚ÄĚ (Mq 3,8). Como os demais profetas, atua como inst√Ęncia cr√≠tica, ao falar em nome de YHWH. ‚ÄúEla (Jerusal√©m) rebelou-se contra meus preceitos e minhas leis (…) Desprezaram meus preceitos e n√£o viveram segundo minhas leis‚ÄĚ proclama Ezequiel (Ez 5,6).

Os profetas anseiam pelo dia em que surgir√° um rei disposto a se pautar pelo direito, como exige Dt 17,14-20. ‚ÄúEis que um rei reinar√° conforme a justi√ßa e os pr√≠n¬≠cipes governar√£o segundo o direito‚ÄĚ √© o anseio de Isa√≠as (Is 32,1). O direito ser√° a regra de conviv√™ncia entre as pessoas, pois o Messias (= rei) firmar√° seu trono ‚Äúno direito e na justi√ßa‚ÄĚ (Is 9,6). Ezequiel alude ao Messias com a imagem do pastor, que, ao contr√°rio dos mercen√°rios (= falsos pastores), vai apascentar seu rebanho ‚Äúconforme o direito‚ÄĚ (34,16).

5.2 Miseric√≥rdia ‚Äď hesed

¬†O hebraico hesed √© traduzido de variadas maneiras, dependendo do contexto da ocorr√™ncia. Amor, miseric√≥rdia, piedade, benevol√™ncia, bondade e compaix√£o s√£o algumas das v√°rias possibilidades. A tradu√ß√£o mais comum √© amor e miseric√≥rdia, embora haja outro termo para amor (‚Äėahabah) e para miseric√≥rdia (rahamim = entranhas; donde a express√£o ‚Äúentranhas de miseric√≥rdia‚ÄĚ). Em Zc 7,9, encontramos a exorta√ß√£o: ‚ÄúPraticai o amor (hesed) e a miseric√≥rdia (rahamim)‚ÄĚ. Alguns textos falam da miseric√≥rdia de Deus para com os seres humanos (cf. Jr 9,23; 33,11; Is 54,10; Sl 33,5; 103,8). Outros se referem ao amor-miseric√≥rdia dos seres humanos entre si (cf. Os 6,6; Pr 3,3; 20,28; 21,21). Mq 6,8 fala em ‚Äúamar o amor‚ÄĚ ou ‚Äúamar a miseric√≥rdia‚ÄĚ (ahabat hesed). Oseias denuncia a fragilidade do amor de Israel para com seu Deus, servindo-se de uma imagem sugestiva, posta na boca do pr√≥prio Deus ‚Äď ‚ÄúO vosso amor (hesed) √© como a nuvem da manh√£, como o orvalho que cedo desaparece‚ÄĚ (Os 6,4).

O agir misericordioso, no trato com o semelhante, √© caracter√≠stica da √©tica b√≠blica. √Č a maneira humana de espelhar a bondade de YHWH, cuja ‚Äúmiseric√≥rdia √© eterna!‚ÄĚ (Sl 136[135]). ‚ÄúEle √© bondoso e misericordioso, lento para a c√≥lera e cheio de miseric√≥rdia‚ÄĚ (Jl 2,13).¬† Quanto mais o fiel adere, de cora√ß√£o, a YHWH, tanto mais misericordioso ser√° com os mais fracos e indefesos. E ser√° valente em defend√™-los da maldade do opressor, pois assim o fez YHWH, apiedado com o sofrimento dos israelitas nas m√£os do fara√≥. Como a miseric√≥rdia de YHWH √© firme e para sempre (cf. Is 54,8), da mesma forma deve ser a de seus fi√©is. Os israelitas vivem da promessa de que a miseric√≥rdia de YHWH jamais se afastaria do povo de sua predile√ß√£o (cf. Is 54,10; Sl 118[117],1-4).

5.3 Justiça Рsedaqah

A sem√Ęntica mais rica do voc√°bulo sedaqah prov√©m da tradi√ß√£o prof√©tica. Trata-se da situa√ß√£o na qual toda a comunidade est√° articulada no respeito a cada um, sem exclus√£o de ningu√©m, de modo especial aqueles por quem a comunidade deve, em primeiro lugar, se preocupar: os √≥rf√£os, as vi√ļvas, os pobres e os estrangeiros. Isto s√≥ √© poss√≠vel quando o direito e a miseric√≥rdia norteiam o agir da sociedade. Portanto, a justi√ßa resulta de op√ß√Ķes √©ticas bem determinadas, em conson√Ęncia com o projeto de YHWH.

A den√ļncia prof√©tica da injusti√ßa sup√Ķe a estreita liga√ß√£o entre direito e justi√ßa. O profeta Am√≥s denuncia a pervers√£o da justi√ßa por falta de direito (cf. Am 5,7). Por sua vez, a pervers√£o do direito resulta em injusti√ßa (cf. Am 6,12). Jeremias descreve a sociedade sem jus¬≠ti√ßa, ou melhor, o que seria uma sociedade com justi√ßa. ‚ÄúAssim diz o Senhor: pra¬≠ticai o direito e a justi√ßa. Livrai o explorado da m√£o do opressor; n√£o oprimais o estran¬≠geiro, o √≥rf√£o ou a vi√ļva, n√£o os violenteis nem derrameis sangue inocente neste lugar‚ÄĚ (Jr 22,3; cf. Am 2,6-8; 5,10-12). Do mesmo modo, Ezequiel: ‚ÄúAssim diz o Senhor Deus: j√° √© demais, pr√≠ncipes de Israel! Repeli a viol√™ncia e a explora√ß√£o! Praticai o direito e a justi√ßa (…) Tende balan√ßas exatas‚ÄĚ (Ez 45,9-12). Falando aos dirigentes do pa√≠s, atinge aqueles cuja fun√ß√£o prec√≠¬≠pua consistia em criar uma sociedade fundada na justi√ßa. Essa era uma fun√ß√£o incontorn√°vel do rei, cuja tarefa consistia em defender os mais sus¬≠cept√≠veis de serem v√≠timas da injusti√ßa.

YHWH, por sua parte, espera a constru√ß√£o de uma sociedade justa, fruto da obedi√™ncia e da submiss√£o ao direito. A justi√ßa social √© express√£o da fidelidade a Deus. A alegoria da vinha (cf. Is 5) expressa bem a expectativa de Deus em rela√ß√£o a seu povo. ‚ÄúEle esperava o direito e eis a viol√™ncia; a justi√ßa e eis gritos de afli√ß√£o‚ÄĚ (v.7).

A justi√ßa est√° em estreita rela√ß√£o com a paz. Os dois voc√°bulos ‚Äď sedaqah e ¬†shalom ‚Äď s√£o com frequ√™ncia associados. Paz aponta para a situa√ß√£o social baseada no respeito a cada pessoa, a quem se asseguram os direitos fundamentais. Is 32,17 proclama: ‚ÄúO fruto da justi√ßa ser√° a paz; a obra da justi√ßa ser√° a tranquili¬≠dade e a seguran√ßa para sempre‚ÄĚ (cf. Sl 85,11 ‚Äď ‚ÄúJusti√ßa e paz se abra√ßar√£o‚ÄĚ).

5.4 Fidelidade ‚Äď emet

O hebraico emet significa const√Ęncia, firmeza, perseveran√ßa. Pode ser traduzido por ¬†verdade. Aqui ser√° tomado no sentido de fidelidade. Como nos voc√°bulos anteriores, fidelidade sup√Ķe o direito ‚Äď a Lei de Israel ‚Äď como ponto de refe¬≠r√™ncia. Fidelidade e infidelidade decorrem da obedi√™ncia e da desobedi√™ncia ao querer de YHWH.

YHWH √© um Deus fiel (cf. Jr 10,10) que se at√©m ciosamente √† palavra dada. Sua fidelidade foi demonstrada ao longo da hist√≥ria do povo de Israel, em especial nos momentos mais dif√≠ceis, quando Israel foi desobediente. Nessas circunst√Ęncias, a fidelidade de Deus torna-se mais evidente, por ter motivos para castigar a infidelidade do povo.

A infidelidade de Israel fazia-se percept√≠vel na idolatria, nas injusti√ßas sociais e nas alian√ßas esp√ļrias. Este foi o resultado de um largo processo corrup√ß√£o. Jr 2,21 expressa este pensamento ‚Äď ‚ÄúEu te havia plantado como vinha excelente, toda de cepas leg√≠timas. Como te degeneraste em ramos de uma vinha bastarda?‚ÄĚ ‚ÄúCepas leg√≠ti¬≠mas‚ÄĚ traduz a express√£o zera‚Äô emet, cujo sentido literal √© ‚Äúsemente fiel‚ÄĚ. Sublinha o descompasso entre o momento fundacional da f√© de Israel, o momento do plantio da vinha, e o momento atual da vida do povo. De sementes boas, brotou uma vinha degenerada. A √©tica de Israel entrou em descompasso com o agir e o querer de YHWH.¬† Para Oseias isto era evident√≠ssimo.¬† ‚ÄúN√£o h√° fideli¬≠dade, nem amor, nem conhecimento de Deus no pa√≠s‚ÄĚ (Os 4,1).

Uma acentuada irresponsabilidade √©tica tomou conta do povo. A infidelidade a YHWH levava-os a praticar um culto vazio, sem o alicerce de uma vida com consist√™ncia √©tica. Isa√≠as denunciou tal equ√≠voco.¬† ‚Äú[V√≥s] confessais o Deus de Israel mas sem firmeza (sedaqah) nem sinceridade (emet)‚ÄĚ (Is 48,1). Logo, Israel enganava-se a si mesmo, com sua pr√°tica religiosa vazia, feita de pura exterioridade. A volta √† fidelidade era uma exig√™ncia premente. Consciente disto, Zacarias adverte o povo: ‚ÄúAmai a fidelidade e a paz‚ÄĚ (Zc 8,19). E antev√™ um futuro de fidelidade por parte do povo: ‚ÄúJerusal√©m ser√° chamada cidade da fideli¬≠dade‚ÄĚ (Zc 8,3), quando YHWH confirmar√° sua condi√ß√£o de Deus fiel e justo: ‚ÄúEu serei seu Deus na fidelidade e na justi√ßa‚ÄĚ (Zc 8,8). √Č a recupera√ß√£o do verdadeiro ethos de Israel.

Jesus de Nazar√© e seus seguidores levar√£o adiante o projeto √©tico veterotestament√°rio, como viv√™ncia da ‚Äúnova Alian√ßa‚ÄĚ, inscrita nos cora√ß√Ķes pelo Esp√≠rito de Deus, como falara o profeta Jeremias (cf. Jr 31,31-34). O verbete ‚Äú√Čtica e Teologia no Novo Testamento‚ÄĚ descrever√° esse momento novo do ethos judaico.

Jaldemir Vitório SJ, FAJE, Brasil. Texto originário português.

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