A eclesialidade dos sacramentos

Sum√°rio

1 A Igreja faz os sacramentos

2 Os sacramentos fazem a Igreja

3 Os sacramentos irrepetíveis como constituintes da Igreja

4 Referências bibliográficas

O que caracteriza a autocomunica√ß√£o de Deus atrav√©s dos sacramentos √© sua dimens√£o eclesial. Deus √© soberanamente livre para se autocomunicar por vias s√≥ por ele conhecidas, pois ‚Äúo Esp√≠rito sopra onde quer‚ÄĚ (Jo 3,8). Mas, na din√Ęmica encarnat√≥ria pr√≥pria √† revela√ß√£o, Deus se comunica em sinais sens√≠veis. Primeiramente atrav√©s do Verbo feito carne e, em continuidade com ele, atrav√©s da Igreja, corpo de Cristo, e dos gestos e ritos em que ela se realiza como ve√≠culo da gra√ßa.

A rela√ß√£o entre Igreja e sacramentos √© m√ļtua: a Igreja faz os sacramentos e, por sua vez, esses a criam e constituem como corpo de Cristo com a diferen√ßa de fun√ß√Ķes entre seus membros.

1 A Igreja faz os sacramentos (TABORDA, 1998, 145-50)

Toda celebra√ß√£o sup√Ķe uma comunidade que se re√ļne para celebrar, porque compreende o sentido da celebra√ß√£o e comunga com seu conte√ļdo. No caso dos sacramentos, em cujo n√ļcleo est√° a atualiza√ß√£o do mist√©rio de Cristo, a celebra√ß√£o sup√Ķe a comunidade de f√©, que √© a Igreja. Somente nela, na comunh√£o com os que nos precederam na f√© (dimens√£o diacr√īnica) e com os que conosco aceitam a f√© (dimens√£o sincr√īnica), √© poss√≠vel fazer ‚Äúmem√≥ria da paix√£o e da ressurrei√ß√£o do Senhor‚ÄĚ, porque a Igreja n√£o √© uma realidade extr√≠nseca ao Mist√©rio Pascal de Cristo que se lhe acrescente posteriormente, quase como por acidente. N√£o. A comunidade dos que creem no Ressuscitado √© uma dimens√£o intr√≠nseca √† ressurrei√ß√£o de Jesus. Sem Igreja, n√£o tem sentido a ressurrei√ß√£o, como vice-versa: sem a ressurrei√ß√£o de Jesus n√£o h√° Igreja. Ressuscitando Jesus, o Pai d√° origem √† Igreja como Corpo do Ressuscitado, comunidade suscitada e reunida pelo Esp√≠rito Santo.

A ressurreição veio confirmar, da parte de Deus, que a vida e morte de Jesus revelam quem é Deus. A ressurreição, portanto, não importa só a Jesus, que assim supera a morte. Importa igualmente a toda a humanidade, a que Deus, desta forma, manifesta quem Ele é: o Deus dos pobres e não o Deus do poder (religioso e político) que condenou Jesus, considerando-o indigno de viver. Ora, se ressurreição é a autorrevelação de Deus à humanidade, se por ela Deus mostra quem Ele é, de nada adiantaria Jesus ter ressurgido, se nenhum ser humano tomasse conhecimento desse fato.

Suponhamos, por absurdo, que Jesus tivesse ressuscitado, mas ninguém o tivesse encontrado nem crido nele. Nesse caso, Deus não se teria manifestado em Jesus, mas no Sinédrio e em Pilatos. Pois o Sinédrio que condenou Jesus à morte e o entregou aos romanos dizia agir em nome de Deus. Conseguindo acabar com Jesus, que se pretendia Filho de Deus, estava em questão de que lado Deus estava: com o Sinédrio vitorioso ou com Jesus vencido, abandonado por Deus. Como ambos os lados se invocavam de Deus, a vitória de um deles mostraria com quem Deus estava. Se ninguém ficasse sabendo da ressurreição, Jesus teria ressuscitado em vão, pois a conc1usão lógica da história de Jesus teria sido: é mais um fanático idealista que morre a morte que merece. Ninguém hoje saberia nada de Jesus, a não ser talvez algum pesquisador ultraespecializado em Oriente Próximo antigo.

√Ä ressurrei√ß√£o de Jesus pertence, portanto, a exist√™ncia de testemunhas e de quem aceite seu testemunho e transmita esse testemunho √†s gera√ß√Ķes futuras (RAHNER; TH√úSING, 1975, p.43-4). Se a constitui√ß√£o da Igreja √© momento intr√≠nseco √† ressurrei√ß√£o de Jesus, ent√£o s√≥ na comunh√£o da Igreja √© poss√≠vel fazer mem√≥ria de Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo. S√≥ a comunidade de f√©, a Igreja, √© capaz de celebrar os sacramentos que s√£o sempre memorial do Senhor.

A Igreja √©, portanto, o sujeito atuante dos sacramentos. Mas n√£o como mero aglomerado de pessoas. Por ela e nela atua o pr√≥prio Senhor Ressuscitado, do qual a Igreja √© o Corpo. Esse o sentido mais profundo da afirma√ß√£o da presen√ßa din√Ęmica de Cristo nos sacramentos (cf. SC 7). Qualquer que seja a comunidade eclesial celebrante, qualquer que seja o ministro que a preside, √© Cristo mesmo quem neles atua pelo Esp√≠rito Santo. Por isso o ministro pode ser indigno, n√£o viver o que os sacramentos cont√™m e anunciam e, no entanto, sob sua presid√™ncia se comunica a n√≥s participa√ß√£o no mist√©rio pascal de Cristo. Pois o ministro n√£o os preside como indiv√≠duo, dotado de m√©ritos pessoais, mas como algu√©m com a fun√ß√£o espec√≠fica de presidir a comunidade de f√©. N√£o atua por sua virtude, como tampouco a Igreja atua por pr√≥pria for√ßa, mas pela presen√ßa perene de Cristo, que pelo Esp√≠rito Santo a cria e recria constantemente e assim a institui e com ela d√° origem aos sacramentos (Sacramentos: 1 Institui√ß√£o dos sacramentos por Cristo).

A presença de Cristo na Igreja é obra do Espírito Santo. O Cristo ressuscitado é o Cristo vivificado pelo Espírito (cf. 2Cor 3,17), que transmite o Espírito a seus discípulos. O dom do Espírito pertence como momento interno ao mistério pascal de Cristo (TABORDA, 2012, p.100-4). O Espírito suscita testemunhas, abre os olhos aos discípulos. Se há uma comunidade de fé, resulta da ação do Espírito Santo que desperta a fé. Nesse sentido, a Igreja, Corpo do Ressuscitado, é vivificada e animada pelo Espírito. Mais: é sacramento do Espírito Santo, visibilização do mesmo. Nela se manifesta o próprio da missão do Espírito: unir a pluralidade.

O sujeito dos sacramentos, aquele que os realiza é, pois, a Igreja, a comunidade toda em sua unidade e pluralidade, onde cada um atua conforme a função que o Espírito Santo lhe deu (cf. SC 28). Mas, na Igreja e através da Igreja, é Cristo mesmo por seu Espírito que nos aproxima do Pai.

A Igreja, comunidade dos que aderiram visivelmente a Cristo e vivem assim sua f√©, faz os sacramentos. Exc1uem-se deles, portanto, os n√£o queiram assumir o seguimento de Jesus. Mas a exc1us√£o dos sacramentos n√£o significa a exc1us√£o da salva√ß√£o. Deus pode salvar e salva tamb√©m os que n√£o pertencem visivelmente √† Igreja. Da√≠ pode nascer a d√ļvida sobre a necessidade dos sacramentos. Para que sacramentos, se a gra√ßa de Deus √© mais ampla que sua visibiliza√ß√£o eclesial? Essa quest√£o permite perceber a indispens√°vel dimens√£o eclesial como caracter√≠stica essencial dos sacramentos.

Para dar conta da re1a√ß√£o entre a salva√ß√£o dos que n√£o conhecem a Cristo e a dos que a ele aderiram na Igreja, √© preciso distinguir entre o processo da salva√ß√£o e a media√ß√£o da salva√ß√£o (RAHNER, 1966, p.55-61). O processo da salva√ß√£o √© a hist√≥ria da salva√ß√£o universal. Onde quer que algu√©m realize o bem, a justi√ßa, o amor, a fraternidade, enfim, os bens do Reino, est√° Deus atuando sobre ele com seu Esp√≠rito. Toda pessoa que aceita a salva√ß√£o que Deus assim lhe oferece, atrav√©s de sua consci√™ncia, de seus semelhantes, de sua cultura, de sua religi√£o, est√° dentro do processo da salva√ß√£o, acolheu a salva√ß√£o oferecida por Deus, quer essa pessoa conhe√ßa a Cristo, quer n√£o tenha jamais ouvido falar dele. Assim, todo o bem que qualquer pessoa pratica, creia ou n√£o em Deus e em Cristo, √© fruto da gra√ßa, presen√ßa da salva√ß√£o. √Č salva√ß√£o como processo e em processo.

Nem por isso a Igreja ou os sacramentos se tornam sup√©rfluos. Esses s√£o necess√°rios, t√£o necess√°rios como aquela. Para quem considera a Igreja com olhos de f√©, n√£o como mera organiza√ß√£o religiosa de iniciativa humana, mas como Corpo do Ressuscitado, dimens√£o intr√≠nseca da pr√≥pria ressurrei√ß√£o de Jesus, negar a necessidade da Igreja para a salva√ß√£o √© negar a necessidade de Cristo e da revela√ß√£o de Deus. Pois s√≥ pela comunidade dos que creem no Ressuscitado, a vida e morte de Cristo revelam o Deus verdadeiro. A necessidade da Igreja, no entanto, n√£o se situa no √Ęmbito do processo da salva√ß√£o, mas no √Ęmbito da media√ß√£o da salva√ß√£o. A media√ß√£o da salva√ß√£o designa a presen√ßa da salva√ß√£o na dimens√£o hist√≥rica e palp√°vel da Igreja, no conhecimento e reconhecimento expl√≠cito de Cristo como revela√ß√£o do Pai. A media√ß√£o da salva√ß√£o √©, pois, mais restrita que o processo salv√≠fico. O processo salv√≠fico √©, sim, mediado por Cristo, mas nem sempre as pessoas que nele est√£o envolvidas tomam conhecimento dessa media√ß√£o ou a reconhecem. E, no entanto, explicitar essa media√ß√£o √© o termo a que tende a salva√ß√£o como processo, pois o que se vive exige ser explicitado, para que se viva mais intensa e conscientemente.

Os sacramentos são necessários como celebração da Igreja, que, por sua vez, é necessária, como Cristo é necessário à salvação. A necessidade salvífica dos sacramentos não significa que sem eles Deus não se autocomunique ao ser humano em graça, mas sim que os sacramentos são necessários como celebração explícita da gratuidade do dom de Deus em Cristo que o Espírito faz presente em todo bem que qualquer pessoa faz.

A Igreja √© assim sacramento-raiz ou sacramento fundamental, porque toda gra√ßa sacramental √© mediada pela Igreja. Nela se enra√≠zam os sacramentos, como manifesta√ß√Ķes da gra√ßa de Deus atuando por Cristo no Esp√≠rito Santo na vida das pessoas. Enquanto sacramento-raiz, a Igreja constitui e faz os sacramentos. Dela brotam os sacramentos, como os ramos de um arbusto s√£o sustentados por sua raiz. Mas vale tamb√©m o inverso: a Igreja √© feita pelos sacramentos, como a raiz necessita dos ramos para ter sentido e ser fonte de vida.

2 Os sacramentos fazem a Igreja (TABORDA, 1998, p.150-6)

A express√£o ‚Äúsacramento-raiz‚ÄĚ referida √† Igreja quer tamb√©m designar este segundo aspecto da rela√ß√£o Igreja-sacramento. A raiz deixada na terra, sem tronco e sem ramos, perde seu sentido e acaba apodrecendo. Se os ramos vivem da raiz, tamb√©m √© verdade que a raiz vive dos ramos. Sacramento-raiz, a Igreja precisa dos sacramentos que a tornam part√≠cipes do Mist√©rio Pascal de Cristo.

Os sacramentos, portanto, fazem a Igreja. O batismo e a confirma√ß√£o agregam √† Igreja. A penit√™ncia reconcilia o crist√£o pecador com a Igreja. A un√ß√£o dos enfermos une o crist√£o enfermo √† Igreja atrav√©s da intercess√£o da comunidade. O matrim√īnio constitui homem e mulher em ‚Äúecles√≠ola‚ÄĚ dom√©stica, cria uma fam√≠lia no seio da comunidade. A ordem designa uma pessoa para o servi√ßo da unidade da comunidade eclesial. A eucaristia torna vis√≠vel o que √© ser Igreja: comunh√£o fraterna em torno ao Cristo presente e a partir dele. Pelos sacramentos a Igreja √© constantemente edificada por Cristo, que atua nos sacramentos na for√ßa do Esp√≠rito Santo. Os sacramentos constroem a Igreja exatamente por serem a√ß√Ķes de Cristo, a√ß√Ķes cuja meta √© sempre o relacionamento com o Pai no Esp√≠rito Santo por meio de Cristo. A rela√ß√£o com a Igreja √© de media√ß√£o; o ato terminal √© a rela√ß√£o com Cristo e, por isso, os sacramentos fazem a Igreja, n√£o s√£o s√≥ feitos por ela.

Assim, os sacramentos criam e recriam a comunidade eclesial. Neles, em especial na eucaristia, o sacramento central, a Igreja encontra sua identidade: comunidade criada pela presen√ßa do Senhor Ressuscitado que, na diferencia√ß√£o de suas fun√ß√Ķes e carismas, oferece ao Pai, unida a Cristo no Esp√≠rito Santo, o memorial do √ļnico sacrif√≠cio de Cristo e une a ele sua vida no seguimento de Jesus, que √© o culto ‚Äúem esp√≠rito e verdade‚ÄĚ (Jo 4,24; cf. TABORDA, 2012, p.242-5). Mas tamb√©m em cada um dos outros sacramentos aparece a identidade da Igreja: ela vive e cresce pela convers√£o (batismo-crisma); santa e pecadora, sempre de novo precisa aceitar a reconcilia√ß√£o oferecida pelo Pai (penit√™ncia); a exemplo de Jesus, volta-se aos enfermos e fracos levando-lhes solidariedade e consolo (un√ß√£o dos enfermos); manifesta o amor de Deus aos humanos no amor conjugal (matrim√īnio); constitui-se na diferen√ßa de fun√ß√Ķes dadas por Deus como gra√ßa (ordem).

Santa e pecadora, a Igreja nos sacramentos √© confrontada com a sua origem e o seu sentido, fazendo mem√≥ria do Senhor Ressuscitado. Nessa confronta√ß√£o, seu agir √© questionado pelo Cristo presente e atuante que exige que ela corresponda, na vida, ao que celebra nos gestos. A√≠ ela encontra legitima√ß√£o para sua exist√™ncia: o exemplo e a for√ßa de Cristo atuante no sacramento renovam o √Ęnimo para o seguimento hist√≥rico de Jesus e justificam a ousadia de pretender um relacionamento fraterno num mundo de √≥dio e de construir o Reino no aqui e agora do mundo pecador.

Enfim, os sacramentos organizam a Igreja tanto no plano espiritual como no plano da organicidade: a humilde atitude de constante convers√£o unida √† imensa dignidade de membros do Corpo de Cristo (batismo-crisma); o reconhecimento do pecado e a aceita√ß√£o do perd√£o de Deus e dos irm√£os e irm√£s (reconcilia√ß√£o ou penit√™ncia); a acolhida e o amor preferencial ao irm√£o enfermo, bem como a visibiliza√ß√£o do v√≠nculo entre o enfermo e a comunidade eclesial (un√ß√£o dos enfermos); o reconhecimento de que no amor mais profundamente humano, o amor conjugal, est√° presente o sentido de todo amor: presen√ßa do amor de Deus √† humanidade (matrim√īnio); a vis√£o do minist√©rio eclesial como servi√ßo aos demais em favor da unidade da Igreja (ordem); e principalmente o reconhecimento de que √© na partilha, no dar a vida pelo outro, que se fundamenta toda organiza√ß√£o e toda autoridade (eucaristia). Tudo isso reestrutura a Igreja no Esp√≠rito de Jesus.

Dentre os sacramentos há três que marcam a organicidade da comunhão eclesial e a constituem como Corpo de Cristo uno e diferenciado.

3 Os sacramentos irrepetíveis como constituintes da Igreja (TABORDA, 1998, p.156-61; TABORDA, 2012, p.228-30; 241-7)

Os tr√™s sacramentos que estruturam a comunidade eclesial s√£o, por sua constitui√ß√£o, irrepet√≠veis. Costumam ser chamados de sacramentos caracterizantes, por imprimirem car√°ter. A doutrina do car√°ter √© um teolog√ļmenon para explicar por que n√£o se repetem esses tr√™s sacramentos.

A origem da doutrina do caráter está em Agostinho, em sua luta contra o rebatismo dos que, batizados numa seita herética, vinham para o seio da Igreja católica. Na discussão de Agostinho com os rebatistas, ambos partiam de um pressuposto comum: ninguém dá o que não tem. Os hereges não podem dar o Espírito Santo, porque não o têm. Surge então a questão: se o batismo dos hereges não dá a vida do Espírito, por que a tradição da Igreja não permite rebatizar? Para explicá-lo, Agostinho recorre à metáfora do caráter, tatuagem ou marca a ferro e fogo recebida pelos soldados do exército romano. O caráter (marca) era uma exigência permanente a que o desertor voltasse ao exército. Assim também o batismo nos marca com a exigência permanente de seguir Cristo e pertencer à sua Igreja. Mesmo que o batismo dos hereges não dê o Espírito Santo, ele dá o caráter, a exigência de pertença a Cristo na Igreja. O sentido de falar em caráter era explicar por que determinados sacramentos nunca se repetiam.

A Escolástica assumiu a doutrina agostiniana e trabalhou-a no contexto de sua sistematização. Os sacramentos irrepetíveis, dentro da explicação agostiniana, por um lado produzem certo efeito (o caráter), mas não seu efeito pleno. O caráter, por sua vez, pela própria metáfora que o sustém, possui a propriedade de ser um sinal. Ora, a metáfora, dentro do pensamento coisista da Escolástica, só pode ser entendida no sentido de que tais sacramentos imprimem um sinal na alma. A propriedade dessa construção não é questionada. Não ocorre perguntar, por exemplo, como algo espiritual pode ser ainda chamado de sinal. Enfim, a mesma mentalidade coisista faz inverter o sentido da metáfora do caráter: de explicação da irrepetibilidade dos três sacramentos, passa a fundamentar por que alguns sacramentos não podem ser repetidos. A relação gnosiológica entre irrepetibilidade e caráter é perdida de vista e fica a relação onto1ógica que, com base no caráter, afirma a irrepetibilidade.

Ao definir a quest√£o contra os Reformadores, o Conc√≠lio de Trento descreve o car√°ter como ‚Äúsinal espiritual e indel√©vel‚ÄĚ (DH 1609). Afirmar o car√°ter como um ‚Äúsinal espiritual‚ÄĚ parece contradi√ß√£o: se √© sinal deve ser vis√≠vel e n√£o pode ser espiritual, ainda mais ‚Äúimpresso na alma‚ÄĚ que tampouco se v√™. Se se compreende o car√°ter de maneira ontol√≥gico-substancialista, n√£o h√°, no entanto, como entender diferentemente. √Č poss√≠vel, entretanto, interpretar a express√£o numa perspectiva hist√≥rico-relacional.

H√° acontecimentos que marcam o sujeito, sem que com isso se afirme uma marca vis√≠vel, mas, no fundo, um ‚Äúsinal espiritual‚ÄĚ. Na vida de cada um h√° acontecimentos decisivos, fatos marcantes. Fatos que conformam indelevelmente a personalidade de quem o viveu. O sujeito o carrega por toda a vida, determinando suas atitudes e decis√Ķes. Fatos que o deixam marcado perante a sociedade. Podem inclusive originar um apelido ou apodo que o acompanha pela vida afora.

Tais fatos constituem o novo termo de compara√ß√£o para compreender a irrepetibilidade de certos sacramentos e o car√°ter sacramental. H√° sacramentos irrepet√≠veis, porque d√£o ao sujeito uma fun√ß√£o, uma posi√ß√£o determinada na constitui√ß√£o da Igreja. Marcam o sujeito para sua fun√ß√£o na comunidade. A marca √© invis√≠vel, porque se d√° no √Ęmbito existencial e intersubjetivo. No √Ęmbito existencial, porque o sujeito aceitou assumir a condi√ß√£o de membro[1] ou a fun√ß√£o de ministro da comunidade eclesial. No √Ęmbito intersubjetivo ou relacional, porque o fez diante de Deus e da comunidade, da Igreja presente na assembleia celebrante. Uma realidade existencial e relacional n√£o √© irreal ou menos real, como poderia parecer √† mentalidade objetivista ou coisista. √Č t√£o real como a a√ß√£o de Deus, a mem√≥ria do sujeito e a mem√≥ria hist√≥rica da comunidade. √Č t√£o real como o pr√≥prio sujeito que num dado momento foi determinantemente constitu√≠do por esse fato. A pessoa que recebeu os sacramentos irrepet√≠veis est√° numa rela√ß√£o, com os outros membros da Igreja, que √© espec√≠fica do sacramento recebido. Essa rela√ß√£o marca a pessoa, e marca-a no sentido de que a comunidade eclesial exige e espera dela uma determinada a√ß√£o e atitude. √Č um ‚Äúsinal espiritual‚ÄĚ.

O fato hist√≥rico, vis√≠vel, social de receber os sacramentos caracterizantes √©, enquanto fato hist√≥rico, irrevers√≠vel. O sujeito pode arrepender-se de t√™-los recebido, pode voltar atr√°s em suas atitudes, apostatar, mas ele ser√° sempre algu√©m que recebeu o sacramento em quest√£o e, como tal, aquele fato o marcou indelevelmente, de maneira indestrut√≠vel (‚Äúsinal espiritual e indel√©vel‚ÄĚ).

Mas isso acontece com qualquer fato hist√≥rico. N√≥s carregamos sempre conosco tudo o que nos aconteceu, ainda que seja nas profundezas do subconsciente e do inconsciente. A diferen√ßa est√° em que o fato hist√≥rico de receber um sacramento irrepet√≠vel √© um compromisso assumido. Todo compromisso tem dimens√£o social, √© relacionado a outros, depende tamb√©m dos outros. Mesmo que algu√©m se desdiga do compromisso assumido com Deus e com a Igreja num sacramento caracterizante, esse compromisso continua a significar rela√ß√£o com Deus e com a Igreja e essa, em seu car√°ter de realidade escatol√≥gica, continuar√°, em nome de Deus, a exigir o exerc√≠cio daquela fun√ß√£o. Os sacramentos caracterizantes s√£o constitutivos da Igreja como comunidade (batismo e confirma√ß√£o) e como comunidade diferenciada internamente por fun√ß√Ķes (ordem). Ora, como comunidade escatol√≥gica, corpo do Ressuscitado, ela permanecer√° para sempre at√© o fim dos tempos. Por isso mesmo n√£o pode abrir m√£o do compromisso daqueles que receberam um sacramento que lhe √© constitutivo.

O caráter sacramental é, pois, um relacionamento visível e permanente com a Igreja. Ora, essa é, no mais íntimo de seu ser, sacramento da graça. Por isso o caráter não exige só uma função exterior, mas a assimilação pessoal diante de Deus dessa função. De fato, uma Igreja cujos membros não vivessem no seguimento de Cristo acabaria esboroando-se. Por isso, à promessa divina de indefectibilidade pertence a garantia de que sempre haverá batizados e crismados que vivam efetivamente no seguimento de Cristo. Isto significa que a exigência própria ao caráter sacramental não é só externa, mas atinge a pessoa internamente.

Algo análogo deve ser dito do sacramento (respectivamente, do caráter) da ordem: uma hierarquia que, em bloco, não vivesse a fé, não seguisse Cristo na vida, acabaria por destruir a Igreja, pois terminaria por não ver mais sentido em presidir uma comunidade reunida por uma Palavra em que não crê e visibilizada em sacramentos que considera vazios de sentido. Em consequência, deixaria de fazê-lo. Ora, a Igreja é constituída pela Palavra e pelos sacramentos em vista do seguimento de Cristo. Assim também o caráter sacramental é essencialmente salvífico, diz respeito à salvação ou perdição da pessoa na comunidade e através da comunidade. O Espírito Santo, que pelo sacramento constitui o sujeito como membro ou ministro da Igreja, é o Espírito santificador, o fogo devorador que não quer apenas tostar aquele a quem atinge, mas inflamá-lo totalmente. O caráter sacramental exige que se viva o acontecimento que nos marcou.

Entretanto, mesmo que algu√©m receba um sacramento caracterizante em contradi√ß√£o com sua vida, √© membro/ministro da Igreja e assim, pela for√ßa do sacramento, √© provocado a que fa√ßa sua vida corresponder √† sua fun√ß√£o. Essa fun√ß√£o ele possui, mesmo que a vida n√£o corresponda a ela: o membro pecador da Igreja n√£o precisa, ao reconciliar-se, ser batizado ou crismado novamente; o ministro pecador n√£o precisa, ao arrepender-se, ser reordenado. Mas o pecado no membro ou no ministro da Igreja est√° em contradi√ß√£o com o car√°ter que recebeu e que leva pela vida afora. O car√°ter tem tend√™ncia inerente a que se realize salvificamente, para a salva√ß√£o de quem recebeu o respectivo sacramento. Com o teolog√ļmenon car√°ter expressa-se a exist√™ncia de um pacto irrevog√°vel que se fundamenta na fidelidade do Deus vivo, na a√ß√£o de Deus pelo sacramento, mas que sup√Ķe e exige a resposta do ser humano. N√£o por coa√ß√£o e sim por voca√ß√£o e provoca√ß√£o esta pessoa √© convidada a engajar-se na pr√≥pria obra de Cristo presente pelo Esp√≠rito Santo na Igreja.

Francisco Taborda SJ, FAJE, Brasil. Texto original português.

 4 Referências bibliográficas

RAHNER, K. Heilsvermittlung und Heilsprozess. In: ARNOLD, F. X. et al. (ed.). Handbuch der Pastoraltheologie. v.II/1. Freiburg/Br: Herder, 1966. p.55-61.

RAHNER, K.; THÜSING, W. Cristología: estudio sistemático y exegético. Madrid: Cristiandad, 1975. Biblioteca Teológica Cristiandad, 3.

TABORDA, F. Sacramentos, práxis e festa: para uma teologia latino-americana dos sacramentos. 4.ed. Petrópolis: Vozes, 1998.

TABORDA, F. Nas fontes da vida crist√£: Uma teologia do batismo-crisma. 3.ed. S√£o Paulo: Loyola, 2012. Theologica.

[1] Pessoalmente ou através dos pais e padrinhos, no caso do batismo de crianças.