Ofício Divino das Comunidades

Sumário

1 Como tudo começou

2 Breve história da Liturgia das Horas

2.1 Origens

2.2 A reforma da Liturgia das Horas

3 Da Liturgia das Horas ao Ofício Divino das Comunidades

3.1 Alguns princípios norteadores

3.2 A sacramentalidade do Ofício Divino das Comunidades

3.3. A santificação do tempo

3.4. O lucernário

3.5 Oração da Igreja

4 Uma palavra final

Referências

1 Como tudo começou

A reforma da Liturgia das Horas empreendida pela Igreja cumpriu a importante tarefa de recuperar o sentido eclesial da oração, seu caráter celebrativo, e a mais genuína tradição de associar a oração, pelas horas do dia, ao mistério pascal (cf. IGLH, p.33.38-39). Contudo, é consenso que a versão oficial do Ofício Divino no rito romano manteve características predominantemente clericais e monásticas (TAFT, 1999, p.303-305; JOIN-LAMBERT, 2009, p.83-90; p.99-100). No Brasil, a sua versão traduzida tardou a chegar na capilaridade do tecido eclesial, dificultando ainda mais a recepção do ofício reformado no período pós-conciliar (LIMA, 2011, p.31-34). Mas as dificuldades converteram-se em oportunidade, pois iniciou-se um processo genuíno de recepção a partir da experiência de oração dos fiéis.

Encontram-se registros na CNBB, que datam de 1986, sobre a formação de um grupo que se encarregaria de elaborar uma proposta alternativa e popular de Ofício, visando a participação dos fiéis na Oração da Igreja. Mas a ideia de um ofício divino popular começou bem antes, na década de 1970, por iniciativa de Geraldo Leite Bastos, presbítero da arquidiocese de Olinda e Recife, então pároco da Comunidade de Ponte dos Carvalhos, na periferia do Recife. Padre Geraldo havia iniciado uma prática diária de oração, sob o impulso do Concílio Vaticano II. Em 1987, em uma entrevista, ele fala dessa experiência:

Há 17 anos, nós, da comunidade de Ponte dos Carvalhos, já cantávamos o Ofício. Eu deixei escrito no Livro de Tombo da paróquia o início de quando começamos a fazer uma oração diferente da missa. Acho que a nossa experiência começou por dois motivos: primeiro porque a missa tinha se tornado um tanto formal. Era necessário encontrar um outro jeito de rezar que não fosse só missa. (…) Outro motivo foi o contato com os irmãos de Taizé, que haviam chegado a Olinda. Participei diversas vezes com eles e notei que tinham uma experiência de oração diferente do Mosteiro de São Bento. Comecei a pensar que o povo poderia rezar o Ofício. Naqueles tempos difíceis da Igreja, muitas vezes eu ficava até de madrugada rezando um Ofício mal rezado, lendo aquela salmodia toda… Isso me levou a imaginar um breviário simplificado, popular, de modo que eu, que tinha tanta dificuldade de rezar sozinho, encontrasse um jeito de rezar essa oração com o povo. (LEITE BASTOS, 1988, p.56)

 Nesse tempo, a Igreja do Brasil vivia o impulso da recepção do Concílio Vaticano II, assumida, sobretudo, pela conferência do episcopado latino-americano, em Medellín. Sentia-se, nesse contexto, a necessidade de uma referência de oração que melhor correspondesse à experiência das Comunidades Eclesiais de Base, que emergiam como expressão concreta da Igreja povo de Deus. Atentas aos princípios e proposições conciliares, as CEBs queriam aprofundar o caminho aberto pela piedade popular que custodiou tesouros da tradição como o Ofício parvo da Bem-aventurada Virgem Maria e o costume de rezar em determinadas horas do dia.

Mais tarde, em 1986, o padre Marcelo Barros, então prior do mosteiro da Anunciação em Goiás, assessor das Comunidades de Base, reuniu um grupo de pessoas para elaborar um Ofício Divino acessível às comunidades. Tomou como inspiração a experiência do padre Geraldo Leite e como referência imediata a Liturgia das Horas reformada pelo Concílio Vaticano II, que já estava traduzida desde 1971. Além disso, foi decisiva nesse processo a convivência com a pequena comunidade do mosteiro da Anunciação, como lugar de experimentar a celebração do Ofício com a participação dos vizinhos. Em dezembro de 1988, foi publicada a primeira edição do Ofício Divino das Comunidades (ODC), que, em 2018, completou 30 anos com sua terceira edição, ocasião em que já somava 21 reimpressões.

Trata-se de uma experiência nascida no Brasil, em contexto de recepção do Concílio Vaticano II na América Latina, à luz das Conferências Latino-americanas de Medellín e Puebla. Embora o ODC tenha sido adotado em assembleias da Pastoral da Juventude e outros movimentos eclesiais, no contexto de América Latina, não existem iniciativas similares ao ODC em outros países do Continente.

2 Breve história da Liturgia das Horas

2.1 Origens

O Ofício Divino é uma concretização da tradição que remonta aos inícios da Igreja. Nos Atos dos Apóstolos, encontramse alusões de uma prática de oração nas horas do dia, em continuidade com o ritmo diário da oração judaica. No século IV, esse tipo de liturgia havia alcançado estabilidade: laudes e vésperas eram celebradas diariamente, em comunidade (ELBERTI, 2011, p.166). Segundo Etéria, a peregrina que relatou a liturgia em Jerusalém nesse mesmo século, tratava-se de uma prática diária, ligada às horas, sobretudo ao entardecer e ao amanhecer, em memória do crucificado-ressuscitado. Contava-se com a participação do povo, homens e mulheres e até crianças. Era uma liturgia expressiva, não só com salmos e hinos, mas com gestos e símbolos, de maneira simples e popular (cf. ETÉRIA, 1977, n.24,1-7). Esse modelo de ofício celebrado nas catedrais, com toda a densidade bíblica e teológica, simples e acessível ao povo, tendia a alimentar a vida do cristão comum.

Contudo, com o tempo, a oração da Igreja sofreu um encolhimento até o ponto de restringir-se a uma determinada parcela do povo de Deus, o que ocorreu por vários motivos, como a fixação do latim como língua litúrgica, a multiplicação das horas em alguns contextos, a complicação e saturação dos ritos, que excluiu o povo da participação e da compreensão das palavras. Segundo Pietro Sorci, a causa principal do desaparecimento da oração horária se deve à eucaristização (celebração de missas cotidianas e, às vezes, de mais de uma; ocorrência de horas santas de adoração ao Santíssimo) e a tudo o que a ela diz respeito (clericalização, eclesiologia de eleitos, sacramentalização), em detrimento da evangelização, incluindo a insuficiente formação nos seminários. Além disso, o apagamento dessa forma de oração também se deveu à recitação individual imposta ao clero, que deixou de reunir o povo para celebrar comunitariamente o Ofício (SORCI apud PEREIRA SILVA, 2015, p.15).

Essa realidade trouxe para o Ofício Divino consequências celebrativas, como o empobrecimento da gestualidade, a transformação do que era expressão de gratuidade em peso, infligido pela “obrigação”. A desconexão com a hora, já que, a recitação da oração era muitas vezes, feita em qualquer momento do dia, levou a uma diminuição do caráter pascal do Ofício. Nos ambientes monásticos, ao contrário, o Ofício manteve seu estilo comunitário, ligado às horas e ao ano litúrgico, mas em latim e com acréscimos requeridos pela condição da vida monástica. Dessa forma, o que era simples e popular tornou-se complexo e com sobrecarga de elementos, com salmos, hinos, leituras, litanias, ofícios diários em honra da Virgem Maria e dos defuntos, entre outros.

O povo, em sua grande maioria entregue, muitas vezes, à própria sorte, sem qualquer oportunidade de uma verdadeira iniciação à fé e de celebração do mistério, buscou criativamente nas devoções o alimento da fé cristã como atesta o Diretório sobre liturgia e piedade popular:

Do século VII até a metade do século XV, determina-se e acentua-se, progressivamente, a diferenciação entre liturgia e piedade popular, até se criar um dualismo celebrativo: paralelamente à liturgia, oficiada em latim, desenvolve-se uma piedade popular comunitária, que se expressa em língua vernácula. (CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO, 2003, n.29)

Em relação ao Ofício, o rosário, com 150 Ave-Marias, substitui os 150 salmos; o Angelus, rezado três vezes ao dia, ocupa as horas do Ofício; o Ofício de Nossa Senhora reúne os hinos de todas as horas do Ofício da Mãe do Senhor e é rezado numa hora só, imitando o clero na desconexão com a hora.

2.2 A reforma da Liturgia das Horas

O propósito da reforma do Concílio Vaticano II a respeito do Ofício Divino foi o de fazer essa prática voltar à condição de “oração pública e comum do povo de Deus” (IGLH, n.1), recuperando sua dimensão de ação comunitária, oração de Cristo ao Pai e oração da Igreja com Cristo (e a Cristo, segundo santo Agostinho), fazendo memória da sua páscoa. Além disso, o Concílio mudou a linguagem rubricista e clerical da Liturgia das Horas para uma linguagem eclesial e pascal, gratuita e espiritual.

Destacamos, a seguir, quatro aspectos da reforma.

O Ofício Divino é liturgia. Como toda a liturgia, o Ofício Divino é uma ação ritual, comunitária, eclesial, e não uma ação particular (cf. SC n.26). Trata-se, de uma lit-URGIA (lit = povo; urgia = ação, ofício, trabalho): ação do povo e ação de Deus (divina) a serviço do povo. É ação litúrgica como qualquer outra. Nela, os mesmos elementos que fazem parte das demais celebrações da Igreja (hinos, salmos, leituras bíblicas, silêncio, orações, música, gestos simbólicos) foram organizados levando em conta a sua peculiaridade: a memória do mistério pascal ligado às horas no ritmo diário, articulando-se também com o ritmo semanal e anual.

O povo como sujeito. O Concílio Vaticano II quis devolver a todo o povo o direito de celebrar o Ofício Divino, embora tenha ficado mais no âmbito do clero e da vida consagrada. Mas recomendou que os leigos “recitem o Ofício Divino, quer juntamente com os sacerdotes, quer reunidos entre si, e até cada um em particular” (SC n.100). A Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas enfatiza que “o louvor da Igreja não é reservado aos clérigos e monges, nem por sua origem, nem por sua natureza, mas pertence a toda comunidade cristã” (IGLH n.270). O Ofício Divino é ação litúrgica se o povo se torna sujeito orante, no exercício do sacerdócio batismal oferecendo o sacrifício de louvor (cf. GARCIA, 2015, p.78).

A verdade das horas. A reforma do Concílio Vaticano II chamou a atenção para a finalidade específica do Ofício Divino: “consagrar, pelo louvor a Deus, o curso diurno e noturno do tempo” (SC n.84). Enfatizou a verdade das horas (SC n.94), destacando, como horas principais, Laudes, rezadas ao chegar a luz do dia, em memória da ressurreição de Jesus, e Vésperas, celebradas ao pôr-do-sol, hora que lembra a última Ceia de Jesus e a cruz (Lc 22,53). A Liturgia das Horas é a Oração da Igreja, unida ao Cristo em sua oração de louvor, ação de graças e intercessão, fazendo memória da sua páscoa.

Foi o próprio Salvador quem vinculou o nosso tempo à redenção: “Hoje se cumpriu esta palavra das Escrituras” (Lc 4,21), em outras palavras, hoje a Palavra proclamada transforma o tempo em libertação e graça (cf. GARCIA, 2015, p.77). Na Liturgia das Horas, a palavra de Deus pronunciada, proclamada, ouvida, vivida e atualizada, interpreta o tempo como kairós, evento de salvação, tempo favorável, memorial da nova aliança (cf. GARCIA, 2015, p.72). Há, no ato de celebrar, uma profunda relação entre as horas de Jesus e as horas da comunidade que ora, entre a sua paixão e as marcas da paixão que as pessoas trazem em seus corpos (cf. SC n.12; 2Cor 4,10-11).

Fonte de piedade. A intenção da reforma do Ofício Divino foi a de torná-lo fonte de piedade e alimento da oração pessoal (SC n.90). A liturgia das horas é expressão de aliança e, consequentemente, fonte de transformação pascal. É glorificação e santificação. Por isso é determinante que participemos com inteireza e acompanhemos com a mente [e o coração] as palavras [e os gestos], e cooperemos com a graça divina para não a recebermos em vão (cf. SC n.11 e 90).

Apesar desses avanços, a liturgia das horas se manteve bastante “monástica” em sua forma. Há quem diga que dos pontos fracos da reforma litúrgica o mais evidente é a reforma da Liturgia das Horas. No movimento de volta às fontes, a reforma não conseguiu restaurar a simplicidade e a ritualidade da prática primitiva do Ofício das Catedrais, com toda a riqueza de ministérios, de símbolos e ritos, celebrada com a participação do povo, como observado acima. A reforma levou mais em conta o clero e a vida consagrada do que o povo. Além disso, devido ao peso histórico da obrigação, na prática, há dificuldade em passar da recitação à celebração. A versão brasileira da Liturgia das Horas (LH) é primorosa do ponto de vista da tradução, sobretudo dos salmos, adaptados ao canto. Mas carrega em si esses limites da edição típica, como o fato, inclusive, de não ter avançado em direção à inculturação, tão desejada pelo próprio Concílio (cf. SC n.37-40).

3 Da Liturgia das Horas ao Ofício Divino das Comunidades

3.1 Alguns princípios norteadores

O Ofício Divino das Comunidades (ODC), tomando como referência imediata para a sua elaboração a Liturgia das Horas renovada, buscou oferecer ao povo uma versão popular da tradição de oração da Igreja.

De um lado, foi fiel à Liturgia das Horas (LH), porque obedeceu a mesma estrutura, a mesma teologia e a mesma sequência ritual. Como na LH, toda a elaboração ritual do ODC se destina a expressar o mistério do crucificado-ressuscitado nas horas do dia, seguindo o ritmo diário, semanal e anual, com hinos, salmos, cânticos bíblicos, preces e orações.

De outro lado, tomando como ponto de partida a experiência eclesial do Brasil, o ODC foi capaz de deixar de lado o que pesa na estrutura da Liturgia das Horas e ousou ser criativo na medida em que incorporou elementos novos: o jeito novo de celebrar das Comunidades Eclesiais de Base e o anseio de oração do catolicismo popular.

Não se trata de propor às comunidades o ofício tal qual no Rito Romano, mesmo simplificado ou abreviado. Trata-se de um estilo brasileiro novo no campo mais amplo da família litúrgica romana. Não bastaria também repetir ou publicar as costumeiras orações e cânticos da religião popular, ou mesmo dos encontros de oração dos grupos da caminhada. O Ofício Divino das Comunidades quer ser uma síntese real e inteligente, fiel à grande tradição litúrgica e à sensibilidade e cultura do nosso povo (BARROS, 1988, p.30).

Da tradição eclesial latino-americana, o ODC herdou a Recordação da Vida, que é expressão mais sensível da relação entre a liturgia e a vida. Segundo Libanio, as liturgias que emergiram no cenário de Igreja de Medellín respondem ao desafio de vincular liturgia com práxis libertadora “sem quebrar a coluna vertebral da gratuidade, da liberdade e da beleza contemplativa” (LIBANIO, 2001, p.107-108). O Ofício começa sem nenhum comentário, com uma invocação de Deus e convite ao louvor. Só então, quem preside convida os participantes a trazerem experiências que marcaram suas vidas.

A vida, os acontecimentos de cada dia, as pessoas, suas angústias e esperanças, suas tristezas e alegrias, as conquistas e revezes da caminhada, as lembranças marcantes da história, da comunidade, das Igrejas e dos povos, os próprios fenômenos da natureza são sinais de Deus para quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir. Por aí começa a nossa escuta da Palavra de Deus. Recordar a vida, trazê-la de volta ao coração, partilhar lembranças e preocupações, é ajudar a tornar a oração verdadeira (ODC, 2018, p.11).

Mas a vida está latente em todo o ofício: na linguagem das orações e das preces, nos salmos, nos hinos da caminhada, na memória dos mártires defensores da vida em nosso continente. Cabe lembrar, ainda, o cuidado com a dimensão ecumênica no ODC, expresso em elementos como o Pai-nosso ecumênico, os hinos das Igrejas irmãs, a inclusão de imagens de Deus (de ternura, bondoso, compassivo).

O grande mérito do Ofício das Comunidades é que ele conseguiu viabilizar, na prática, o que a Liturgia das Horas propõe: que o ofício, como qualquer outra ação litúrgica, não é ação particular, mas ação comunitária, celebração.

Nas culturas populares brasileiras, o jeito para dar a cada ofício um caráter mais celebrativo, é integrar todo o corpo e o universo que nos cerca na oração. Na Bíblia os salmos contêm muitas atitudes corporais de oração, como voltar-se para a montanha, elevar o olhar e as mãos, se curvar, se ajoelhar, caminhar em procissão (BARROS, 1994, p. 30).

Mesmo sem que estivesse determinado por escrito, a prática foi criando um estilo de celebrar que prima pela valorização do espaço, do canto, dos ministérios, dos gestos (acender velas, reunir-se ao redor do ambão para a escuta do evangelho, ofertar incenso…). Tudo para conduzir ao silêncio e favorecer a participação externa e interna, consciente e frutuosa. Nesse sentido, a grande pérola no ODC é o lucernário na vigília dos domingos e solenidades. Esse rito que, nas comunidades das origens, pertencia ao Ofício cotidiano das Vésperas, foi colocado na abertura do Ofício de Vigília, enfatizando o domingo como páscoa semanal, em analogia com o rito da luz na vigília pascal.

A respeito da interação com o catolicismo popular, o ODC é um exemplo bem-sucedido da “mútua fecundação” entre liturgia e piedade popular, tão desejada pela reforma litúrgica (cf. SC n.13) e tão evocada pelos documentos do CELAM e da CNBB (CNBB, 1984, p.30). O trabalho não consistiu tanto em agregar elementos externos do catolicismo popular, mas em fazer com que o Ofício corresponda à “piedade”’ do povo, ao seu “anseio de oração e de vida cristã”, à “sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar” (cf. Evangelii Nuntiandi, n48). Destaca-se, nessa sintonia com a piedade popular, o estilo orante, a forma de repetição nos cantos, sobretudo nas aberturas, a linguagem simples e afetuosa, a ausência de comentários, o que facilita a participação e estabelece uma relação amorosa, de aliança entre Deus e o seu povo.

3.2 A sacramentalidade do Ofício Divino das Comunidades

O Concílio Vaticano II apresenta toda a liturgia – não somente os sete sacramentos – como evento sacramental, em que Jesus Cristo se faz presente, no exercício do seu sacerdócio, para glorificar o Pai e santificar a humanidade.

No artigo 7 da Constituição litúrgica entre os sinais sensíveis que significam e que realizam o que significam, está a assembleia que ora e salmodia, porque nela Cristo se faz presente e age com a força do seu Espírito. Podemos dizer que a assembleia reunida, o tempo, a música, os salmos e cânticos, a oração, os gestos e as palavras, são sinais sensíveis que atingem a corporeidade dos participantes, evocam o mistério invisível de Jesus Cristo e pelo agir do Espírito realizam a transformação pascal.

3.3 A santificação do tempo

Tomemos a categoria tempo, tão importante para a compreensão da liturgia horária do Ofício Divino. Nas Escrituras, os termos chronos, kairós e aiôn relacionam respectivamente o tempo da vida humana em curso, o tempo da atuação de Deus na história da humanidade e o tempo humano como intercessão entre o dado histórico e o seu sentido escatológico. Em todas as acepções, o tempo é uma noção fortemente identificada ao ser humano (AUGÉ, 2019, p.36-38). De tal modo que a noção de santificação de tempo, outra coisa não diz, senão a santificação do próprio ser humano pela sua inserção memorial na própria experiência temporal do Verbo encarnado, a história da salvação. O tempo é santificado pela Liturgia das Horas porque, juntamente com o Ano Litúrgico, ela contribui para dar novo sentido ao tempo da vida humana (PINELL, 2005, p.216).

O tempo como sinal sensível torna-se mais evidente no amanhecer e no entardecer por causa da incidência da luz. Esses momentos foram estabelecidos como memória e renovação da aliança. Sem a palavra, a luz não significa; sem a luz, o verbo não se faz visível (cf. GARCIA, 2015, p.150). A palavra narra o mistério pascal de Cristo e da Igreja, na luz que ilumina o escuro da noite, ou no sol que clareia o amanhecer. A palavra invisível, mas audível nos salmos, nas leituras, nos hinos, nas orações, interpreta o sinal sensível, tornando visível o Verbo (cf. GARCIA, 2015, p.72). Por isso, o cuidado com a verdade da hora é condição para que a Palavra possa interpretar a luz.

3.4 O lucernário

O rito do lucernário, na vigília do domingo e das festas maiores, compõe-se da abertura e do hino lucernar. O ofício de vigília começa no escuro, em silêncio. Entoa-se, a meia voz, um refrão meditativo, para despertar no coração o anseio pelo Deus vivo. Como de costume, sem qualquer comentário, quem preside se levanta e começa os versos da Abertura, que a assembleia repete:

–   Venham, ó nações, ao Senhor cantar! (bis)

Ao Deus do universo, venham festejar! (bis)

–   Seu amor por nós, firme para sempre! (bis)

Sua fidelidade dura eternamente. (bis)

Acendem-se velas

–   Para ti, Senhor, toda noite é dia. (bis)

A escuridão mais densa logo se alumia. (bis)

–  És a luz do mundo, és a luz da vida! (bis)]

Cristo Jesus resplende: és nossa alegria! (bis)

Oferta-se incenso ou ervas cheirosas

–   Suba nosso incenso a ti, ó Senhor! (bis)

Este louvor pascal, oferta de amor. (bis)

–   Nossas mãos orantes para os céus subindo! (bis)

Cheguem como oferenda ao som deste hino! (bis)

–   Glória ao Pai e ao Filho e ao Santo Espírito. (bis)

Glória à Trindade Santa, glória ao Deus bendito. (bis)

–   Aleluia, irmãs, aleluia, irmãos! (bis)

Povo de sacerdotes, a Deus louvação. (bis)

 As primeiras palavras da abertura são convocação para o louvor, com versos do salmo 117. Nestas palavras ouvimos o próprio Cristo chamando a comunidade a participar de sua oração ao Pai, como tantas vezes ele fez em sua vida terrena (cf. Mc 6,30-31). Traçamos o sinal da cruz sobre o corpo no primeiro verso, recordando o nosso batismo, pelo qual Cristo nos associa ao seu mistério pascal e à sua oração. O canto da abertura continua, com palavras que se juntam ao gesto do acendimento do círio e das velas para narrar a vitória da luz sobre as trevas que correspondem às aflições do povo. A função da oração das horas é gritar, é colocar sob o olhar de Deus o que acontece no mundo. Deus escuta o clamor, olha o coração dos que sofrem, e desce para salvar (cf. Ex 3,7-8).

Um recipiente com brasas acesas está colocado sobre ao altar. Ainda na escuridão, mas agora iluminada com as chamas acesas na mão da assembleia, faz-se a oferta do incenso, sinal do sacrifício espiritual do povo sacerdotal, acompanhada dos versos cantados.

Terminada a abertura, quem preside, convida os participantes a trazerem as memórias que identificam as luzes do caminho ou as noites que persistem…

Em seguida, entoa-se o hino “Luz Radiante”. Este hino, mais antigo que o Glória, remonta ao século II e é citado por São Basílio (BASÍLIO, 2003, p.403). No ODC (p.265), a versão é de Reginaldo Veloso, em forma responsorial, para garantir a participação da assembleia por meio de um refrão que se repete a cada estrofe.

Luz radiante, luz de alegria,

luz da glória, Cristo Jesus

–És do Pai imortal e feliz

o clarão que em tudo reluz!

– Quando o sol vai chegando ao ocaso

avistamos da noite a luz!

– Nós cantamos o Pai e o Filho

e o Divino que nos conduz!

– Tu mereces o canto mais puro,

ó Senhor da vida, és a luz!

– Tua glória, ó Filho de Deus,

o universo todo seduz!

– Cante o céu, cante a terra e os mares,

a vitória, a glória da cruz!

As palavras do hino continuam a narrar o mistério manifestado nas luzes que rompem o escuro. Fazem com que a assembleia reconheça, nessa imagem da noite iluminada, a presença do Cristo Ressuscitado, a quem o hino se dirige. Diante do dia que morre, a comunidade crente contempla a luz que não morre. O texto identifica no “clarão do Pai que tudo reluz”, o filho unigênito que procede do Pai, que é fonte da vida. O canto mais puro é devotado ao Cristo, Senhor da vida, que seduz o universo com sua glória, pela qual o céu, a terra e os mares entoam o seu cantar.

A eficácia supõe a consciência da assembleia de estar inserida em um evento de salvação, no qual o Cristo, pela atuação do Espírito, realiza nela o mistério da sua páscoa. Ao transformar o tempo em kairós, realiza-se, na Igreja, a passagem da morte à vida. Afinal, o fim último da liturgia é a santificação (SC n.10 e 33). Assim, pouco a pouco, cada pessoa é levada à superação de tudo o que é velho para alcançar a estatura da “criatura nova” em Cristo.

3.5 Oração da Igreja

Reunir-se para rezar é uma ação primordial e uma exigência vital da comunidade cristã. Quando os pais da Igreja enfatizam a importância da assembleia cristã não pensam somente na eucaristia, mas também em outros momentos comuns de oração e de louvor.

O artigo 83 da Sacrosanctum Concilio faz uma afirmação que retoma a LH como parte estruturante de toda a liturgia da Igreja:

Jesus Cristo une a si toda a humanidade e a associa ao seu cântico de louvor. E continua exercendo este sacerdócio, na Igreja, que louva o Senhor sem cessar e intercede pela salvação do mundo, não só com a celebração da Eucaristia, mas de vários outros modos, especialmente pelo Ofício Divino.

 O artigo 84 diz que nesta oração “Cristo se dirige ao Pai, mediante o seu corpo”. Ou seja, esta oração pertence a todo o corpo de Cristo. A oração da comunidade e de cada pessoa que ora é sacramento da oração de Cristo. Ele é o mediador da nova aliança, por ele a humanidade tem acesso ao Pai. O Pai sempre escuta a voz do Filho (Jo 11,42). É necessário, pois, que ao celebrarmos o Ofício Divino, reconheçamos o eco de nossas vozes na voz do Cristo, e a sua em nós” (PAULO VI, 1971, n.20).

Um dos méritos do ODC é justamente o de proporcionar que o povo das comunidades tenha acesso à oração que lhe pertence e possa participar ativa, consciente e frutuosamente. Não só, mas tem desencadeado um processo de aprender a rezar com a Igreja, de descobrir os salmos como escola de oração, de reconhecer neles a voz de Cristo e de fazer da oração uma experiência de gratuidade e amorosa aliança. É algo que não se dá automaticamente. É necessário aprender.

São Bento oferece uma “regra de ouro”, que a Sacrosanctum Concilium assumiu e aplicou a toda a Igreja: Que a mente concorde com a voz” (SC n.90; RB n.19). A mente “não equivale somente à razão, mas à pessoa interior com seu conhecimento, sua vontade e seu sentimento. É quase idêntica a coração, especialmente a parte dominante da alma (cf. GRÜN, 2019, p.30-31). A voz refere-se à manifestação do Espírito, é a voz de Deus que devemos ouvir. O coração deve estar em sintonia com a voz (cf. GRÜN, 2019, p.30-31).

Pensemos no salmo.

O critério geral de escolha de um salmo no ofício é a hora. A pessoa não escolhe o salmo, ele é oferecido. Tomemos o salmo 30(29) no ofício da tarde (ODC, p.52).

Cai a tarde, vem a noite

a tristeza, o pranto a dor,

de manhã renasce o sol,

novo dia alegria.

1. Senhor, grandes coisas direi eu de ti,

Porque me livraste e não permitiste

Que os maus rissem, fazendo pouco de mim

2. Senhor, eu por ti clamei e me curaste;

Minha vida, do lugar onde os mortos residem,

Só tu me tiraste e me libertaste!

3. Cantai, santos todos, dai glória ao Senhor!

Sua raiva é um momento e logo acabou;

Bondade, toda a vida perdura o amor!

4. Seguro, eu dizia: Jamais tremerei!

Favor, me cobriste de honra e poder.

Teu rosto escondeste e eu me apavorei…

5. Piedade a meu Deus eu estou a implorar…

Vantagem, por acaso, na morte haverá?…

O pó dos meus ossos irá te louvar?!…

6. Senhor, piedade, vem me socorrer!

Minha dor e meu pranto mudaste em prazer;

Teu nome para sempre eu irei bendizer!

O salmo está aí, com uma letra em versão popular em perfeita simbiose com a melodia. Tudo nele aponta para o final de um dia de trabalho e de luta. Fala da tristeza da noite que chega, mas promete a luz de um novo dia: Cai a tarde, vem a noite, a tristeza, o pranto a dor, de manhã renasce o sol, novo dia alegria. Ao cantar as estrofes, a pessoa encontra a expressão da sua gratidão pelo dia que passou, pelas lutas superadas, pela firmeza apesar das dificuldades. A gratidão que já está no seu coração, às vezes sufocada pelo cansaço, é despertada pelas palavras do salmo. A pessoa se identifica com o salmo como se ela própria o tivesse gerado (cf. CASSIANO, 2003, p.984).

Ao encontrar no salmo a expressão da própria ação de graças, une-se à ação de graças do Filho, que fez de toda a sua vida uma oferta de louvor. Como não escutar a voz de Cristo quando se canta: Minha vida, do lugar onde os mortos residem, Só tu me tiraste e me libertaste (estrofe 2). Aí a voz do orante e a voz de Cristo se faz uma só voz. Portanto “não sou eu que faço algo com a palavra, mas é a palavra que faz algo comigo” (GRÜN, 2019, p.32), a palavra que é Cristo, muda a voz de quem salmodia na sua própria voz, o Espírito que renova todas as coisas o transforma naquilo que está rezando.

4 Uma palavra final

No atual cenário de Igreja, de modo geral, a missa, própria do domingo, que por tradição é o ápice de todas as ações litúrgicas, parece ter se tornado a única celebração da Igreja: repetida todos os dias, em todo lugar e, muitas vezes, de qualquer jeito, quando não instrumentalizada para fins duvidosos. Ao lado da missa, está o terço, a devoção aos santos, a adoração ao Santíssimo, sem falar da avalanche de práticas de um catolicismo conservador, que nada tem a ver com a piedade popular. A própria celebração da Palavra não se configura como parte orgânica da liturgia da Igreja, ocupando no máximo um lugar de suplência (por falta de padre). O Ofício Divino sequer aparece nos planejamentos pastorais das Igrejas e paróquias. E bem que poderia ser uma alternativa de celebração da comunidade cristã, a mais imediata depois da missa. O Ofício das Comunidades se oferece como uma fonte no caminho, enraizada na tradição dos pais e mães da Igreja, com um jeito bem brasileiro, e fiel à eclesiologia latino-americana. Não se impõe como obrigação, ou como forma exclusiva, mas se oferece na gratuidade para as comunidades que vivem a fé em meio às lutas de cada dia e anseiam por alimentar sua vida espiritual.

Penha Carpanedo, PDDM. Texto original português

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