O livro do profeta Ezequiel

Sum√°rio

1 O profeta, sua época e local de atividade

2 O livro

3 Principais pontos de teologia

3.1 A imagem de Deus

3.2 A centralidade do culto

3.3 Teologia da história

3.4 O pecado dos povos estrangeiros

3.5 Responsabilidade pessoal

3.6 Novas perspectivas de futuro

4 Lendo o texto hoje

Referências Bibliográficas

1 O profeta, sua época e local de atividade

Segundo as palavras iniciais do livro (1,1-3), o minist√©rio prof√©tico de Ezequiel teve lugar em Babil√īnia. Por n√£o ser indicado um ponto de refer√™ncia temporal, a coloca√ß√£o do in√≠cio de sua atividade no 30¬ļ ano (v. 1) n√£o permite dat√°-lo de forma absoluta. A cita√ß√£o do 5¬ļ ano do ex√≠lio de Joaquin no vers√≠culo seguinte, contudo, determina a data de sua voca√ß√£o ao minist√©rio prof√©tico no ano 593 aC. O rei Joaquin, de fato, foi levado cativo para Babil√īnia em 598, na √©poca da primeira invas√£o de Jud√° pelo ex√©rcito caldeu. Ezequiel, portanto, √© testemunha da primeira investida de Nabucodonosor contra Jerusal√©m e, juntamente com parte da popula√ß√£o, foi desterrado para Babil√īnia nessa √©poca, sendo ali vocacionado para a miss√£o prof√©tica.

Ap√≥s esta introdu√ß√£o, o livro apresenta onze or√°culos datados (8,1; 20,1; 24,1; 26,1; 29,1.17; 30,20; 31,1; 32,1; 33,21; 40,1). Sua disposi√ß√£o, nos diversos cap√≠tulos, n√£o segue a ordem cronol√≥gica, e a data mais avan√ßada ocorre em 29,17 (1¬ļ dia do 1¬ļ m√™s do 27¬ļ ano). Considerando a refer√™ncia √† deporta√ß√£o de Joaquin em 1,2, a data corresponderia ao ano 571. Delimita-se, com isso, a atividade prof√©tica registrada no livro: entre 593 e 571. Esse per√≠odo de pouco mais de vinte anos contempla a maior cat√°strofe jamais acontecida a Jud√°: a tomada de Jerusal√©m pelos babil√īnios, a destrui√ß√£o da cidade e de amplas regi√Ķes do pa√≠s, o inc√™ndio do Templo ‚Äď ocorridos em 587/6. Fica constitu√≠do, assim, o cen√°rio para compreens√£o da mensagem do profeta. Antes da queda de Jerusal√©m, suas palavras visam precaver o povo da cat√°strofe: apontam os desmandos da sociedade, de modo a levar o povo e as classes dirigentes a rever seu comportamento e, desse modo, evitar o desastre. Ap√≥s a captura do pa√≠s, resta procurar manter a vida religiosa do povo, orientando-a; de outro lado, alimentar a esperan√ßa, anunciando a restaura√ß√£o do pa√≠s e de suas institui√ß√Ķes no futuro.

O texto de 1,3 d√° a not√≠cia de que Ezequiel era sacerdote. Esse dado concorda com o teor do livro, que tem na preocupa√ß√£o cultual um ponto central, e √© corroborado tamb√©m pelo amplo uso de termos de √Ęmbito sacerdotal (puro, impuro, abomina√ß√£o, dentre outros). Tem-se testemunhada, dessa forma, a possibilidade de acumula√ß√£o, em uma s√≥ pessoa, de fun√ß√Ķes religiosas diversas, no caso, a sacerdotal e a prof√©tica.

A profecia de Ezequiel √© caracterizada por vis√Ķes extraordin√°rias e a√ß√Ķes simb√≥licas inusitadas, que chamam a aten√ß√£o. J√° a vis√£o inaugural (1,4-28) apresenta elementos dificilmente concili√°veis sob o ponto de vista racional (1,9-12.15-17). Tem-se a impress√£o de uma vis√£o como num sonho, no qual os dados n√£o s√£o completamente reais e se misturam sem uma l√≥gica absoluta; um √™xtase, em que a raz√£o n√£o pode controlar plenamente o que ocorre (2Cor 12,2-3). Tamb√©m suas a√ß√Ķes simb√≥licas s√£o de forte impacto (3,22-27; 12,1-6; 24,16-19). A imagem do profeta que transparece √© a de algu√©m profundamente tocado pelo divino, com experi√™ncias que ultrapassam a normalidade das coisas; algu√©m que vivencia de modo radical a mensagem que ele deve transmitir.

2 O livro

A introdu√ß√£o ao livro (1,1-3) j√° aponta para o fato que as palavras de Ezequiel foram submetidas a um trabalho redacional. Com efeito, no v. 1 fala o pr√≥prio profeta, em primeira pessoa, e indica-se uma data obscura (o 30¬ļ ano). Nos vv. 2-3 o redator fala sobre Ezequiel em terceira pessoa, confirmando certos dados, mas retirando a ambiguidade da data√ß√£o do v. 1 e informando a situa√ß√£o do profeta como sacerdote. Em rela√ß√£o ao livro como um todo, no entanto, embora seja poss√≠vel identificar acr√©scimos aos textos, atualmente se aceita que ele pode substancialmente ser referido ao Ezequiel do s√©culo VI, sem ser necess√°rio recorrer a uma fic√ß√£o.

O material est√° disposto em tr√™s partes claramente distintas: c. 1‚Äď24; c. 25‚Äď32; c. 33‚Äď40. Ap√≥s os cap√≠tulos 1 a 3, que servem de introdu√ß√£o a todo o escrito, os cap√≠tulos 4 a 24 apresentam or√°culos de ju√≠zo e a√ß√Ķes simb√≥licas contra Jud√° e Jerusal√©m. Seguem-se or√°culos contra na√ß√Ķes estrangeiras (c. 25‚Äď32). O livro √© finalizado por or√°culos de salva√ß√£o (c. 33‚Äď48).

A primeira se√ß√£o da primeira grande parte (c. 1‚Äď3) relata a voca√ß√£o do profeta em duas narrativas: a vis√£o da gl√≥ria de Deus (1,4-28, que continua em 3,12-15) e a vis√£o do livro (2,1‚Äď3,11). Menciona-se ainda a fun√ß√£o do profeta como sentinela de Israel (3,16-21), a suspens√£o moment√Ęnea de sua palavra e seu posterior retorno (3,22-27).

Os cap√≠tulos 4 e 5 exp√Ķem tr√™s a√ß√Ķes simb√≥licas, que se referem ao in√≠cio do ass√©dio dos babil√īnios a Jerusal√©m, √† dura√ß√£o do cerco e √† sua conclus√£o. Seguem-se or√°culos de ju√≠zo (c. 6 e 7), que se resumem no an√ļncio do ‚Äúfim‚ÄĚ de Jud√° (7,2).

Os cap√≠tulos 8 a 11 apresentam vis√Ķes e an√ļncios: a vis√£o dos pecados que se cometem no templo (c. 8), o an√ļncio da destrui√ß√£o do lugar sagrado (c. 9), a vis√£o sobre a realiza√ß√£o deste an√ļncio (c. 10); seguem-se uma nova vis√£o e novo an√ļncio (c. 11), que culminam com a vis√£o da gl√≥ria do Senhor abandonando a cidade de Jerusal√©m (11,22-25). O cap√≠tulo 12 reporta uma a√ß√£o simb√≥lica que anuncia a ida do povo e seus dirigentes para o ex√≠lio.

Os cap√≠tulos 13 a 23 oferecem diversos or√°culos antes da execu√ß√£o do ju√≠zo. Nessa se√ß√£o contam-se tr√™s cap√≠tulos que desenvolvem, sob o ponto de vista teol√≥gico, a hist√≥ria de Israel (c. 16; 20; 23) e dois contra os guias do povo (c. 13: profetas; c. 17: os reis). S√£o apresentadas tr√™s descri√ß√Ķes do ju√≠zo (c. 15; 17; 19) e √© anunciada a destrui√ß√£o de Jerusal√©m (c. 21‚Äď22), contra o que n√£o h√° recurso (c. 14; 18).

A primeira parte do livro √© conclu√≠da com novo an√ļncio da destrui√ß√£o de Jerusal√©m (c. 24).

A segunda parte do escrito √© constitu√≠da por numerosos or√°culos contra as na√ß√Ķes (c. 25‚Äď32). S√£o indiciadas: Amon, Moab, Edom, Filisteia, Tiro, Sid√īnia e Egito. Relevo especial √© dado a Tiro (c. 26‚Äď28) e ao Egito (c. 29‚Äď32). A cidade de Tiro, rica pelo com√©rcio mar√≠timo, ser√° destru√≠da e seu rei ser√° aniquilado. A cidade, de fato, foi tomada pelos babil√īnios em 587/6, mesmo ano da conquista de Jerusal√©m. O Egito cair√°, ser√° totalmente devastado; tamb√©m o fara√≥, sob a imagem de le√£o e de crocodilo, ser√° capturado. Com efeito, ap√≥s a vit√≥ria sobre Tiro, Nabucodonosor parece ter tentado dominar o Egito.

A terceira grande parte come√ßa indicando a miss√£o do profeta ap√≥s a queda de Jerusal√©m (c. 33). Os cap√≠tulos que seguem revertem em salva√ß√£o alguns textos do in√≠cio do livro. Respondendo aos cap√≠tulos 13 e 17, que reprovavam profetas e reis, o c. 34 afirma que Deus mesmo ser√° o guia de seu povo. Em contraposi√ß√£o ao ju√≠zo para os montes de Israel (c. 6), anuncia-se o ju√≠zo contra os montes de Edom (c. 35). Em vez da hist√≥ria de pecado de Israel (c. 16), Deus promete uma hist√≥ria nova (c. 36). √Ä morte do povo, descrita na primeira parte, suceder√° sua ressurrei√ß√£o: o retorno √† terra e a retomada da vida em paz (c. 37). A descri√ß√£o do ju√≠zo definitivo de Deus sobre os inimigos de Israel ‚Äď com a correspondente liberta√ß√£o do povo eleito ‚Äď fecha esses or√°culos salv√≠ficos (c. 38‚Äď39).

O livro se conclui com uma longa descri√ß√£o do futuro salv√≠fico: o novo tempo e o novo Israel (c. 40‚Äď48). Nessa √ļltima se√ß√£o s√£o desenhados, em termos idealizados, o templo de Jerusal√©m, a disposi√ß√£o da cidade e a ocupa√ß√£o do territ√≥rio pelas tribos israelitas. A gl√≥ria do Senhor, que se retirara do templo e da cidade (10,18-22; 11,22-25), retorna ent√£o (43,1-9) como fonte de vida para Israel (47,1-12).

3 Principais pontos de teologia

3.1 A imagem de Deus

O aspecto mais marcante do livro de Ezequiel √© a imagem de Deus que ele apresenta. De modo peculiar, √© colocada em primeiro plano a gl√≥ria do Senhor. Esse ponto tem suas ra√≠zes na experi√™ncia fundante, expressa na vis√£o inaugural (1,4-28), em que o profeta experimenta o contato com o divino sob a forma de algo muito al√©m da realidade humana, s√≥ conhecido em parte (‚Äúo que parecia ser…‚ÄĚ: 1,27), e que √© identificado com o Senhor em sua majestade, em sua gl√≥ria: ‚Äúera o aspecto, a semelhan√ßa da gl√≥ria do Senhor‚ÄĚ (1,28). Diante dela, o profeta se prostra: ‚ÄúAo v√™-la, ca√≠ com o rosto em terra‚ÄĚ (1,28). ¬†Na vis√£o da ‚Äúgl√≥ria‚ÄĚ, o profeta experimenta a divindade mesma do Senhor. E tem acesso a um Deus a um tempo transcendente e pr√≥ximo, que se comunica pessoalmente com ele, dirigindo-lhe sua palavra: ‚Äúe ouvi a voz de algu√©m que falava comigo‚ÄĚ (1,28).

A palavra do Senhor, o profeta a assume como sua, fazendo com que ela penetre em si e constitua sua vida: ‚ÄúCome o que tens diante de ti, come este livro e vai falar √† casa de Israel‚ÄĚ (3,1). Essa como que simbiose entre o profeta e a palavra que Deus lhe dirige, palavra ligada √† transcend√™ncia divina, explica, em parte, as a√ß√Ķes simb√≥licas incomuns que ele deve cumprir. Ezequiel n√£o s√≥ transmite uma mensagem, mas a vivencia, em sua pr√≥pria exist√™ncia, como algo que ultrapassa a experi√™ncia humana.

A gl√≥ria de Deus est√° presente n√£o s√≥ na esfera celeste, mas tamb√©m no mundo: habita o templo e a cidade de Jerusal√©m. Marca a santidade desses locais e lhe √© sinal de prote√ß√£o. Por ser incompat√≠vel com o pecado, os desmandos que se cometem no lugar sagrado (c. 8) acarretam o afastamento de Deus, e ele se retira do edif√≠cio do templo (10,18-22). Pelos pecados dos habitantes, deixa tamb√©m da cidade (11,22-23). Explica-se dessa forma, teologicamente, a possibilidade de o templo e a cidade serem invadidos e tomados pelos babil√īnios: a gl√≥ria de Deus, n√£o os habitando mais, os deixa desprotegidos e, portanto, sujeitos √† destrui√ß√£o. A garantia de defesa reside somente na presen√ßa de Deus e n√£o nas manobras pol√≠ticas das classes dirigentes.

Por outro lado, Ezequiel enfatiza que a gl√≥ria do Senhor se manifestou j√° no passado, em todas as fases da hist√≥ria de Israel; agora, se manifestar√° no ju√≠zo que ocorrer√° em breve e na salva√ß√£o que Deus promete para o futuro. Esse aspecto √© posto em relevo pela chamada ‚Äúf√≥rmula do reconhecimento‚ÄĚ, muito utilizada no livro: ‚ÄúEnt√£o conhecereis/conhecer√£o que Eu sou o Senhor‚ÄĚ (11,10; 12,16; 20,38.40.44; 29,6; 36,11; 37,6). Pelos atos divinos na hist√≥ria, Deus demonstrou sua for√ßa e seu dom√≠nio sobre Israel e os povos e ainda os demonstrar√° no futuro. A partir desta a√ß√£o, o povo de Israel dever√° chegar a reconhecer Deus como Deus: o ‚ÄúEu sou o Senhor‚ÄĚ retoma o nome pr√≥prio de Deus, revelado a Mois√©s (Ex 3,14: ‚ÄúEu sou (quem) eu sou‚ÄĚ).

3.2 A centralidade do culto

√Ä centralidade da gl√≥ria de Deus corresponde a centralidade do culto. Pois Deus manifesta sua gl√≥ria particularmente no templo e na liturgia. Da√≠ a import√Ęncia dada, no livro, aos aspectos cultuais. Como o pecado acarreta o afastamento da gl√≥ria de Deus e, consequentemente, o ex√≠lio babil√īnico, assim tamb√©m os abusos no culto trar√£o consequ√™ncias para a hist√≥ria.

A perspectiva cultual se reflete ainda na forma de se tematizar o pecado, concebido sobretudo como idolatria, prostitui√ß√£o e abomina√ß√£o (6,3-14; c. 16). O c. 8 desenvolve detalhadamente os pecados que t√™m lugar no recinto do templo: a presen√ßa de representa√ß√Ķes de animais e √≠dolos (8,9-10.13), o culto ao deus babil√īnio Tamuz (8,14-15), a venera√ß√£o voltada para o sol (8,16-17). Esses atos s√£o grandes ‚Äúabomina√ß√Ķes‚ÄĚ, termo muito utilizado em Ezequiel e que indica o que √© absolutamente incompat√≠vel com o Senhor (Dt 22,5; 25,16), em todos os √Ęmbitos, tamb√©m no √Ęmbito cultual (Ez 22,11; Dt 12,31; 23,19; 7,25-26).

Os desmandos de ordem social s√£o tamb√©m relacionados, no livro, √† gl√≥ria do Senhor e ao culto. Toda situa√ß√£o de injusti√ßa, os crimes de diversos tipos (22,1-12), a transgress√£o dos mandamentos, s√£o ‚Äúabomina√ß√£o‚ÄĚ (22,2 [3]), contrariam a gl√≥ria de Deus e, com isso, aquilo que se celebra no culto.

3.3 Teologia da história

Em tr√™s longos cap√≠tulos, o livro descreve a hist√≥ria de Israel, em suas diversas etapas, de seus in√≠cios at√© o tempo do profeta, abrindo-a a perspectivas futuras. O c. 23 tra√ßa a hist√≥ria dos dois reinos, Jud√° (Reino do Sul) e Israel (Reino do Norte), e demonstra que a culpa e os pecados de Jud√° ultrapassam os do Reino do Norte. Com isso, prepara-se a destrui√ß√£o do reino de Jud√°: como o Reino do Norte foi dominado e eliminado (pelos ass√≠rios), paira a mesma amea√ßa sobre o Reino do Sul (com os babil√īnios). O c. 16 retoma o simbolismo matrimonial desenvolvido pelo profeta Oseias (Os 1‚Äď3) e apresenta a infidelidade de Israel a seu Deus como a trai√ß√£o do amor e da fidelidade. No c. 20, as fases da hist√≥ria s√£o minuciosamente individualizadas: Israel no Egito (20,5-9), no deserto (20,10-24), na terra da promessa (20,25-31). Em cada uma, o povo se mostra pecador e a infidelidade cresce. Desse modo, a hist√≥ria avan√ßa; por√©m, no sentido de um grande decl√≠nio, chegando a seu ponto mais baixo na √©poca do profeta. Tal desenvolvimento acarretar√° a destrui√ß√£o do povo. Pois, em todos os momentos da hist√≥ria, em contraposi√ß√£o ao cuidado amoroso de Deus, Israel mostrou-se n√£o s√≥ pecador, mas ainda totalmente avesso ao agir e √† palavra do Senhor. Foi n√£o somente infiel, mas ‚Äúrebelde‚ÄĚ, fixado em suas pr√≥prias atitudes, recusando-se a reconhecer sua culpa (2,2-3.6.8; 3,7; 20,8.21).

Diante desse quadro, n√£o se vislumbra nenhuma perspectiva de salva√ß√£o que surgisse da convers√£o do povo; a √ļnica possibilidade de salva√ß√£o reside em Deus, que realiza o ju√≠zo como um novo √™xodo: a liberta√ß√£o do desterro em Babil√īnia e o retorno √† pr√≥pria terra, passando pelo deserto em que ser√° confrontado com o Senhor (20,34-36). Dessa forma, o povo chegar√° √† fidelidade (20,37-38). Enfim Deus reinar√° sobre Israel (20,33). Deus julgar√° e salvar√° (16,60-63), restabelecendo a alian√ßa e realizando, assim, a meta do √™xodo do Egito, isto √©, levar o povo √† sua terra, para que viva em comunh√£o com Deus, em prosperidade e paz (16,39-44).

A √ļnica esperan√ßa para o povo eleito reside, portanto, em Deus; especificamente, na fidelidade de Deus a seu plano original de salva√ß√£o, a seu des√≠gnio de conduzir o povo para um grande futuro: ‚ÄúEnt√£o sabereis que Eu sou YHWH, quando Eu agir em considera√ß√£o ao meu Nome e n√£o de acordo com os vossos caminhos maus e as vossas a√ß√Ķes perversas‚ÄĚ (Ez 20,44).

3.4 O pecado dos povos estrangeiros

Caracter√≠stico de Ezequiel √© tematizar o pecado das na√ß√Ķes estrangeiras como ‚Äúorgulho‚ÄĚ, como tentativa de se igualar a Deus (28,1-2). √Č esse o motivo por que Deus rejeita as na√ß√Ķes (28,6-10; 28,17; 31,2-9), de modo que ser√£o dominadas por Babil√īnia (31,10-11; 32,11).

O ju√≠zo para as na√ß√Ķes estrangeiras √© sumarizado no c. 39, atrav√©s da destrui√ß√£o de um personagem lend√°rio, Gog (38,18-22; 39,1-5), paradigma daqueles que atentam contra o povo de Deus (38,17). Ser√£o aniquilados Gog e seus ex√©rcitos, suas armas, sua terra e a de seus aliados (39,6.9-10). Com isso, se manifestar√° o poder de Deus para Israel e para as na√ß√Ķes (39,16; 39,7.21-22), e Israel ter√° nova vida, em paz, na sua terra (39,25-28)

3.5 Responsabilidade pessoal

Assim como Jeremias, Ezequiel invalida a concep√ß√£o segundo a qual os pecados dos antepassados podem ser punidos nas gera√ß√Ķes subsequentes (Ex 34,7; Jr 32,18; Ez 18,19-20):

‚ÄúQue vem a ser este prov√©rbio que v√≥s usais na terra de Israel: ‚ÄėOs pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados‚Äô?‚ÄĚ (Ez 18,2; Jr 31,29).

Tal mentalidade, baseada na ideia de solidariedade entre os membros do cl√£, mesmo atrav√©s das gera√ß√Ķes, levava a atribuir os males presentes a faltas dos antepassados e, com isso, inviabilizava a tomada de consci√™ncia da pr√≥pria culpa. Ezequiel chama √† responsabilidade individual: cada um deve responder por seus atos. A sorte dos homens n√£o depende das escolhas de seus ancestrais, mas de suas op√ß√Ķes no presente (14,12-23; 18,1-32). Dessa maneira, fica evidenciada a import√Ęncia da convers√£o como decis√£o pessoal (3,16-21; 33,10-20). O profeta tem a miss√£o de exortar, admoestar (3,16-21), mas a cada um cabe responder por seus pr√≥prios atos (33,1-9).

3.6 Novas perspectivas de futuro

Os c. 40‚Äď48 descrevem a grande restaura√ß√£o de Israel. No centro desta restaura√ß√£o encontra-se o Templo, que √© reconstru√≠do e para o qual retorna a gl√≥ria do Senhor (43,3-7). A descri√ß√£o do templo escatol√≥gico √© idealizada e simb√≥lica (c. 40‚Äď42), de modo a mostrar a perfei√ß√£o definitiva: sua estrutura, os √°trios, o ‚Äúsanto‚ÄĚ e o ‚Äúsanto dos santos‚ÄĚ, as depend√™ncias para os sacerdotes, o altar (c. 40‚Äď43). O cerimonial √© minuciosamente detalhado (c. 44‚Äď46). Habitado novamente por Deus, do santu√°rio sair√° a fonte que se transformar√° em grande rio e trar√° vida plena para o povo (47,1-12).

O pa√≠s ser√°, como no tempo de Josu√©, novamente ocupado. O territ√≥rio de cada tribo ser√° cuidadosamente delimitado (47,13‚Äď48,14; 48,23-29).

Por fim, tamb√©m a cidade santa ter√° seu territ√≥rio detalhadamente dividido entre sacerdotes, levitas e o pr√≠ncipe, de modo que n√£o haver√° mais usurpa√ß√£o de terras pelos governantes (48,15-22). Ela ser√° aberta a todas as tribos (48,30-34), sendo, assim, a s√≠ntese de todo o povo de Israel. No √ļltimo vers√≠culo do livro, anuncia-se o nome novo que ela receber√° (48,35): ‚Äúo Senhor est√° ali‚ÄĚ (‚ÄúYHWH sham‚ÄĚ) ‚Äď um jogo de palavras com seu nome: ‚ÄúYerushalaim‚ÄĚ (Jerusal√©m). Expressa-se, dessa maneira, sua total renova√ß√£o.

Tudo isso √© precedido pelo an√ļncio da a√ß√£o de Deus, que transformar√° o povo a partir de dentro, purificando-o (36,25-28) de toda a idolatria, transformando seu interior e renovando com ele a alian√ßa: ‚ÄúSereis o meu povo e eu serei o vosso Deus‚ÄĚ (36,28). Como numa nova cria√ß√£o, aos exilados √© dada a grande esperan√ßa de receber, pela for√ßa do Senhor, nova vida na sua terra (37,1-14).

4 Lendo o texto hoje

O livro de Ezequiel convida a reconhecer a transcend√™ncia de Deus, cuja gl√≥ria se manifesta na cria√ß√£o e na hist√≥ria. A experi√™ncia a um tempo da transcend√™ncia e da proximidade de Deus confere olhos mais sens√≠veis a tudo o que se op√Ķe √† ordem divina na vida, particularmente no culto que se deve prestar a Deus mas tamb√©m em todas as situa√ß√Ķes pessoais, comunit√°rias e sociais. Romper o cora√ß√£o ‚Äúrebelde‚ÄĚ √© exig√™ncia fundamental para que a a√ß√£o de Deus possa encontrar receptividade na vida humana. Deus oferece purifica√ß√£o, regenera√ß√£o, o renascer da √°gua e do Esp√≠rito (cf. Jo 3,5; Ez 36,25-27), e com isso abre a hist√≥ria, marcada pela nega√ß√£o do plano divino, a um futuro em que Deus realizar√° plenamente suas promessas.

Maria de Lourdes Corrêa Lima, PUC Rio РTexto original português.

 Referências bibliográficas

ALONSO SCH√ĖKEL, L.; SICRE DIAZ, J. L. Profetas. v.1. S√£o Paulo: Paulus, 2002.

BARRIOCANAL GOMEZ, J. L. Diccionario del profetismo bíblico. Burgos: Monte Carmelo, 2008.

BOCK, D. I. Junto ao Rio Quebar. S√£o Paulo: Cultura Crist√£, 2012.

FITZMYER, J. A.; BROWN, R. E.; MURPHY, R. E. (orgs.). Novo coment√°rio b√≠blico S√£o Jer√īnimo. Antigo Testamento. S√£o Paulo: Paulus, 2007.

R√ĖMER, T.; MACCHI, J-D; NIHAN, C. (orgs). Antigo Testamento: hist√≥ria, escritura e teologia. S√£o Paulo, Loyola, 2010.

SCHMID, K. História da Literatura do Antigo Testamento. Uma introdução. São Paulo: Loyola, 2013.

ABREGO DE LACY, J. M. Os livros proféticos. São Paulo: Ave Maria, 1998.

SICRE DIAZ, J. L. Introdução ao Profetismo Bíblico. Petrópolis: Vozes, 2016.

STEVENSON, K.; GLERUP, M. Ezequiel. Daniel. Madrid: Ciudad Nueva, 2015.

TAYLOR, J. B. Ezequiel: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984.