Jesus, mediador entre Deus e os homens

Sum√°rio

1 Introdução

2 O testemunho da Escritura

3 O que é uma mediação? A mediação de Cristo

4 Algumas testemunhas na tradição

4.1 Ireneu de Li√£o (ca. 140-202)

4.2 De Agostinho a Tom√°s de Aquino

4.3 Hoje

5 Referências

1 Introdução

Os termos ‚Äúmedia√ß√£o‚ÄĚ e ‚Äúmediador‚ÄĚ hoje talvez n√£o nos digam muita coisa. Eles pertencem √† linguagem jur√≠dica ou √† linguagem filos√≥fica, e n√£o os utilizamos com frequ√™ncia. Eles exigem, efetivamente, alguma explica√ß√£o. Mas desde que reflitamos, descobrimos que eles est√£o, de modo um tanto escondido, no cora√ß√£o de nossa linguagem cotidiana, seja qual for. Est√£o tamb√©m no cora√ß√£o de nossa f√©, pois √© em torno deles que se organiza toda a teologia da reden√ß√£o e de nossa salva√ß√£o, ou seja, do √™xito definitivo de nossa vida. Tentemos, portanto, acompanhar essa linguagem, primeiro na Sagrada Escritura e, depois, na tradi√ß√£o da Igreja at√© hoje, onde a encontramos no tema importante da reconcilia√ß√£o e no desenvolvimento contempor√Ęneo da ideia de sacramento[i].

2 O testemunho da Escritura

O texto mais caracter√≠stico do NT acerca da media√ß√£o de Cristo Jesus √© bem conhecido: ‚ÄúH√° um s√≥ Deus e um s√≥ mediador entre Deus e a humanidade: o homem Cristo Jesus, que se entregou como resgate para todos‚ÄĚ (1Tm 2,5-6).

Este texto paulino √© na realidade uma f√≥rmula abreviada da confiss√£o de f√©, pr√≥xima daquela que se l√™ em 1Cor 8,6. Ela apresenta o Pai e o Filho, mas sem desenvolver estes termos como far√£o as confiss√Ķes de f√© subsequentes. Ela comporta dois artigos. O primeiro √© a retomada da confiss√£o judaica fundamental: h√° um s√≥ Deus. O segundo artigo associa-lhe de maneira imediata a confiss√£o de f√© de Jesus Cristo, que compartilha com Deus a caracter√≠stica unicidade, maneira de dizer que ele n√£o introduz o n√ļmero em Deus. O √ļnico Deus e o √ļnico mediador constituem entre si uma s√≥ unidade divina. A particularidade deste segundo artigo consiste em apelar √† no√ß√£o de mediador, que aqui recapitula o sentido e a finalidade da vida e da morte daquele que nos foi enviado enquanto homem. Ele constitui com Deus um s√≥, mas ele se tornou um ser humano, e esta novidade faz dele um mediador. De fato, √© como homem, isto √©, enquanto Deus que se tornou homem, que ele √© mediador. O fim do texto √© um resumo da atividade salvadora de Jesus: ele se deu em resgate por todos n√≥s, evoca√ß√£o de sua morte e ressurrei√ß√£o, que nos reconciliaram com Deus.

Qual é o alcance desse texto, relativamente tardio na obra paulina? Será apenas um mero detalhe do pensamento do apóstolo, ou será a retomada, por ele, de um dado maior da revelação cristã? Para responder a esta pergunta, precisamos primeiro ver no AT, em razão deste grande princípio, aplicado pelos Santos Padres, que nos ensinam a sempre procurar o acordo entre os dois Testamentos como sinal de sua verdade.

A l√≠ngua hebraica n√£o possui um termo equivalente ao grego mesites, ‚Äúmediador‚ÄĚ. Contudo, os grandes personagens do AT j√° cumprem uma fun√ß√£o mediadora. Abra√£o √© aquele em quem ‚Äúser√£o benditas todas as na√ß√Ķes da terra‚ÄĚ (Gn 12,3). Mois√©s teve por miss√£o libertar Israel de seu cativeiro eg√≠pcio e concluir a primeira alian√ßa entre Deus e seu povo. Sua media√ß√£o √©, portanto, tamb√©m descendente. Mas ele interv√©m, sobretudo, diante de Deus em favor de seu povo pecador. Paulo chega a dizer que a Lei foi promulgada ‚Äúpelos anjos, pela m√£o de um mediador‚ÄĚ, mesmo se ‚Äúeste mediador n√£o √© mediador de um s√≥‚ÄĚ (Gl 3,19). O NT compreende, portanto, o papel de Mois√©s como o de uma certa media√ß√£o (Gl 3,19-29). O sacerd√≥cio lev√≠tico √©, por sua vez, uma institui√ß√£o de media√ß√£o no servi√ßo do culto e da Lei. O rei, enquanto ungido de Yhwh, √© investido de uma fun√ß√£o de representa√ß√£o de seu povo diante de Deus. De maneira bem diferente, o profeta recebe a voca√ß√£o de ser testemunha da palavra de Deus dirigida ao povo. Sua ‚Äúmedia√ß√£o‚ÄĚ √© mais descendente que ascendente, √† diferen√ßa daquela do sacerdote e do rei. Mas, por sua vez, ele intercede em favor do povo, em raz√£o de sua solidariedade com ele. A figura misteriosa do Servo de Deus (Is 40‚Äď55) parece representar o pequeno resto de Israel e assumir uma fun√ß√£o de media√ß√£o entre Deus e os homens. Ele carrega o pecado da multid√£o, ele assume os seus sofrimentos e oferece sua vida em expia√ß√£o, o que lhe valer√° uma posteridade viva. Este servi√ßo antecipa a pr√≥pria miss√£o de Jesus, miss√£o de reconcilia√ß√£o e de salva√ß√£o, a de nosso √ļnico mediador.

Quando voltamos ao NT, encontramos raramente o tema da media√ß√£o de Cristo expresso de maneira formal, mas ele se encontra em afirma√ß√Ķes categ√≥ricas e solenes e pertence √† pr√≥pria estrutura da revela√ß√£o. Encontramo-lo na carta aos Hebreus, expresso de maneira bem determinada, referente √† primeira alian√ßa e aos diversos an√ļncios prof√©ticos: ‚ÄúCristo recebeu um minist√©rio que √© tanto superior quanto √© melhor a alian√ßa da qual ele √© o mediador e fundada em promessas melhores‚ÄĚ (Hb 8,6). O mesmo tema √© desenvolvido com a linguagem do ‚ÄúSumo Sacerdote‚ÄĚ, do qual Jesus n√£o atrai a gl√≥ria a si mesmo, mas a recebe do Pai (Hb 5,5), enquanto responde a esse apelo dizendo com o pr√≥prio corpo: ‚ÄúEis que eu venho‚ÄĚ (Hb 10,5-7). A oferta do corpo de Cristo suprime os sacrif√≠cios e as obla√ß√Ķes da primeira Lei. Essa alian√ßa √© eterna, pois o Cristo ‚Äúvive sempre para interceder por n√≥s‚ÄĚ (Hb 7,25). ‚ÄúPor isso ele √© o mediador de uma nova alian√ßa: sua morte redimiu as transgress√Ķes da primeira alian√ßa, e assim os que s√£o chamados recebem a heran√ßa eterna prometida‚ÄĚ (Hb 9,15). Essa √© a ‚Äúnova alian√ßa‚ÄĚ prometida por Jeremias e inscrita nos cora√ß√Ķes (Jr 31,31-34). A express√£o √© retomada pela mesma ep√≠stola: ‚ÄúJesus, o mediador da nova alian√ßa e da aspers√£o com sangue mais eloquente que o de Abel‚ÄĚ (Hb 12,24).

A grande novidade da media√ß√£o sacerdotal de Cristo √© que ela √©, antes de tudo, descendente. Os sumos sacerdotes da antiga Lei exerciam seu minist√©rio num movimento principalmente ascendente e que nunca alcan√ßava totalmente seu objetivo: restabelecer a comunh√£o do povo com seu Deus. Jesus se engaja num movimento gratuito e definidamente descendente, que o conduz ao rebaixamento e √† morte. Exatamente porque ele vem de Deus e veio at√© n√≥s rebaixando-se, ele pode ‚Äúestabelecer realmente uma comunica√ß√£o perfeita e definitiva entre o ser humano e Deus‚ÄĚ (VANHOYE, 1980, p. 48). Enquanto os sumos sacerdotes faziam tudo para se separar do povo pecador, Jesus, o santo por excel√™ncia, faz tudo o que pode para assumir uma solidariedade plena com os pecadores. Assim, podemos encontrar nele um ‚ÄúSumo sacerdote misericordioso e digno de confian√ßa‚ÄĚ (Hb 2,17).

A Escritura exprime, ainda, a media√ß√£o do Cristo apelando ao tema do interc√Ęmbio. Na pessoa de Jesus produz-se um misterioso interc√Ęmbio entre Deus e os homens. Escreve Paulo: ‚ÄúConheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo: de rico que era tornou-se pobre por causa de v√≥s, para vos enriquecer com sua pobreza‚ÄĚ (2Cor 8,9). √Č tamb√©m a troca de sua for√ßa por nossa fraqueza: ‚ÄúDecerto, ele foi crucificado na fraqueza, mas ele vive pela for√ßa de Deus. E n√≥s tamb√©m somos fracos nele, mas tamb√©m viveremos com ele pelo poder de Deus em rela√ß√£o a n√≥s‚ÄĚ (2Cor 13,4). Este interc√Ęmbio vai at√© o fim, pois torna-se o da santidade e do pecado: ‚ÄúAquele que n√£o conheceu pecado, Deus o fez pecado por n√≥s, para que nele nos tornemos justi√ßa de Deus‚ÄĚ (2Cor 5,21). Este vers√≠culo tem sido ami√ļde mal compreendido. Evidentemente, Jesus n√£o foi feito pecador, mas carregou sobre si todas as consequ√™ncias de nosso pecado, como nos mostra a imagem de seu corpo torturado. Na carta aos G√°latas, o interc√Ęmbio √© o da maldi√ß√£o e da b√™n√ß√£o: ‚ÄúCristo pagou para nos libertar da maldi√ß√£o da Lei, tornando-se ele pr√≥prio maldi√ß√£o em nosso favor, pois est√° escrito: ‚ÄúMaldito todo aquele que for suspenso no madeiro‚ÄĚ (Gl 3,13). Na cruz, Jesus tornou-se por sua vez alvo da maldi√ß√£o proclamada pela Lei, no exato momento em que ele nos justificava a todos n√≥s. At√© l√° foi o seu amor.

3 O que é uma mediação? A mediação de Cristo

Podemos ser mais exatos no tocante √† defini√ß√£o da media√ß√£o, que nos foi evocada na Escritura sob m√ļltiplos aspectos. Trata-se, de fato, de um termo que utilizamos tamb√©m na vida cotidiana, que est√° na base de nossa linguagem e funciona, sobretudo, na matem√°tica. Fa√ßamos de imediato a distin√ß√£o entre o intermedi√°rio e o mediador. O intermedi√°rio √© um terceiro figurante externo √†s duas pessoas que, por exemplo, deveriam ser reconciliadas. Ele ser√° o ‚Äúhomem do bom servi√ßo‚ÄĚ. Ele tem sua consist√™ncia pr√≥pria, presente antes e depois do servi√ßo prestado. O mediador √© interno a cada um dos protagonistas e constitui uma unidade com cada um deles. O intermedi√°rio s√≥ pode, em parte, tornar-se intermedi√°rio se, por real solidariedade com um e outro, pode sentir-se sendo ele mesmo nos dois lados do conflito. Tomemos por exemplo um empregador em oposi√ß√£o a uma empregada imigrante. Nosso suposto mediador √©, por uma parte, um empregador, amigo do acima mencionado, e de outra parte ele mesmo imigrante origin√°rio do mesmo pa√≠s de onde vem a empregada. Ele sente em si mesmo a humilha√ß√£o e um tratamento injusto que arrisca cair sobre ela. Ele participa do estatuto de mediador porque se identifica naturalmente com cada um dos dois parceiros. Mas, na medida em que sua media√ß√£o tem √™xito, ela desvanece, assim como ele mesmo enquanto mediador.

A inst√Ęncia mediadora por excel√™ncia da comunica√ß√£o entre as pessoas √© a linguagem: ser √© falar. N√£o por nada as modernas t√©cnicas audiovisuais s√£o chamadas media, ou m√≠dia. A m√≠dia est√° a servi√ßo da comunica√ß√£o entre as pessoas. Mas para que a linguagem possa funcionar, determinadas condi√ß√Ķes devem ser respeitadas. A mesma linguagem ‚Äď a mesma l√≠ngua ‚Äď deve ser adquirida pelos dois interlocutores. Essa linguagem permitir√°, ent√£o, que o mesmo pensamento ou a mesma informa√ß√£o esteja presente em cada um deles. A comunidade da linguagem permite a comunica√ß√£o, talvez at√© a comunh√£o. Mas a linguagem desvanece constantemente, como o rolo de um filme ao ser projetado, permitindo assim que continue viva e possa criar uma comunh√£o de vida.

Al√©m disso, toda argumenta√ß√£o em nossa linguagem apoia-se no funcionamento de ‚Äútermos intermedi√°rios‚ÄĚ, termos que s√£o comuns a dois outros termos diferentes e permitem fazer passar nosso pensamento de um a outro. O silogismo pode ser extremamente simples, como aquele que vai nos servir de exemplo. Mas ele est√° presente tamb√©m em argumenta√ß√Ķes extremamente complexas. Assim, por exemplo, o silogismo que desde s√©culos se repete nas escolas:

Todo homem é mortal. Sócrates é um homem. Portanto, Sócrates é mortal.

O problema consiste em poder justificar uma rela√ß√£o fundadora entre S√≥crates e seu car√°ter mortal. Por que ele √© mortal? Porque √© homem! E este √© o termo que nos vai servir de termo intermedi√°rio segundo uma proposi√ß√£o geral que vale para todos os homens. ‚ÄúTodo homem √© mortal‚ÄĚ, isso √© certo porque evidente; portanto vale para o caso particular de S√≥crates que √© um homem. O termo homem serviu aqui como mediador entre a afirma√ß√£o A e a afirma√ß√£o B. N√£o lhe resta mais nada sen√£o desaparecer. Este silogismo elementar, que n√£o nos ensina nada, decomp√Ķe em todos os seus elementos uma afirma√ß√£o que j√° conhecemos bem, porque ele repousa, para n√≥s, de maneira inconsciente, sobre racioc√≠nios desse g√™nero. A linguagem funciona porque ela √© ao mesmo tempo n√≥s mesmos e o outro: √© ela que nos permite, de alguma maneira, passar de um ao outro. Ela √© mediadora. Assim compreendemos por que a linguagem est√° no cora√ß√£o da reflex√£o filos√≥fica.

Tomemos agora o exemplo da¬† matem√°tica, na qual o sinal = funciona em qualquer teorema. Um teorema progride a partir de uma sucess√£o de equa√ß√Ķes. Mas em cada progresso da argumenta√ß√£o, os elementos da equa√ß√£o mudam, de um e do outro lado. O sinal = √© o termo intermedi√°rio necess√°rio para o progresso da argumenta√ß√£o. Mas em si mesmo ele n√£o √© nada: ele desvanece desde que tenha provado a perfeita equival√™ncia dos dois lados da equa√ß√£o. Se em determinado momento a perfeita equa√ß√£o n√£o foi respeitada, todo o racioc√≠nio cai em ru√≠nas.

Todas essas reflex√Ķes sobre a linguagem recebem um sentido extremamente forte para o crist√£o quando ele descobre que o evangelho de Jo√£o chama a pessoa de Jesus de Verbo, ou seja, de Palavra. Nele, a palavra divina tornou-se palavra humana, o Verbo feito carne. Isso era indispens√°vel para estabelecer uma comunica√ß√£o plena entre a linguagem de Deus e a linguagem do ser humano. Em Jesus, Deus aprendeu nossa l√≠ngua. Nele realiza-se a plena revela√ß√£o e comunica√ß√£o de Deus aos homens e a perfeita resposta do homem a Deus, na obedi√™ncia e no amor. Em Jesus mediador, a comunh√£o imediata entre Deus e o homem se realiza num movimento constante de interc√Ęmbio entre a revela√ß√£o de Deus e a ora√ß√£o do homem. Este interc√Ęmbio se realiza nele por n√≥s, para nos colocar, por nossa vez, em comunh√£o imediata com o Pai. Mas a Palavra que √© Jesus √© divina: ela n√£o desvanece como uma simples palavra humana. Conv√©m dizer, simultaneamente, que ela se desvanece e que ela n√£o se desvanece. Ela se desvanece, e ela manifestou esse desvanecimento na morte ‚Äď a k√©nosis ‚Äď na cruz, pois de outro modo ela n√£o teria cumprido at√© o fim a media√ß√£o que permite nossa passagem at√© Deus. Ela n√£o se desvanece, pois esse movimento do duplo ‚Äúsim‚ÄĚ de Deus ao homem e do homem a Deus √©, doravante, eterno. Dele depende nossa comunh√£o com Deus de sempre para sempre.

O Cristo n√£o estabelece competi√ß√£o entre Deus e o homem: ele √© totalmente um e o outro. Todos os caminhos que v√£o de Deus ao homem e do homem a Deus cruzam-se nele. Nele, o inteiro mist√©rio da Trindade entra em comunh√£o com a humanidade inteira. A√≠ est√° a origem e a realiza√ß√£o dos dois movimentos do interc√Ęmbio mediador, o movimento descendente que vai de Deus ao homem e o movimento ascendente que vai do homem a Deus. As grandes categorias da B√≠blia e da Tradi√ß√£o acerca da reden√ß√£o h√£o de se inserir espontaneamente neste duplo movimento. Apresentemos, pois, alguns exemplos.

4 Algumas testemunhas na tradição

Na Escritura, os testemunhos dados privilegiam claramente o movimento descendente da media√ß√£o, sem, contudo, esquecer o movimento ascendente. O Cristo nos salva, em primeiro lugar, porque √© o revelador do conhecimento de Deus. O tema mais frequente √© o da reden√ß√£o, no sentido de resgate, ou seja, da libera√ß√£o, e tamb√©m o da liberta√ß√£o, realizada pelo combate vitorioso do Cristo contra as pot√™ncias do mal. O Cristo √© tamb√©m aquele que nos traz a participa√ß√£o na divindade, o divinizador, do mesmo modo como ele realiza nossa salva√ß√£o, simultaneamente como Deus e como homem, pois ele veio at√© os seus ‚Äď e isso se refere a n√≥s ‚Äď em uma transmiss√£o ‚Äúde homem a homem‚ÄĚ. Mas Jesus realiza tamb√©m o dom sem retribui√ß√£o do homem a Deus, pois do dom de Deus ao homem pode por ser acolhido e recebido. Assim como Deus se deu a si mesmo a n√≥s, a retribui√ß√£o n√£o se pode realizar sem o dom de si do homem a Deus, dom que efetiva sua passagem em Deus. O dom de si √© o sacrif√≠cio, que est√° ligado aos termos de propicia√ß√£o, de satisfa√ß√£o (esta, ami√ļde demais mal-entendida, como se devesse provir de uma compensa√ß√£o) e de representa√ß√£o. Hoje, d√°-se mais aten√ß√£o ao tema da solidariedade assumida pelo √ļnico mediador com a humanidade.

4.1 Ireneu de Li√£o (de 140-202)

Ireneu de Lião tem meditado com atenção sobre os textos da Escritura que evocam a mediação de Cristo e até fez deles a teoria:

Ele ent√£o misturou e uniu o homem a Deus. Pois se se n√£o fosse um homem que tivesse vencido o advers√°rio do homem, o inimigo n√£o teria sido vencido em toda justi√ßa. Por outro lado, se n√£o fosse Deus que nos tivesse outorgado a salva√ß√£o, n√≥s n√£o a ter√≠amos recebido de modo est√°vel. E se o homem n√£o tivesse sido unido a Deus, ele n√£o teria podido receber em participa√ß√£o a incorruptibilidade. Pois era necess√°rio que ‚Äúo mediador de Deus e dos homens‚ÄĚ, por seu parentesco com cada uma das duas partes, as conduzisse uma e outra √† amizade e √† conc√≥rdia, de modo que ao mesmo tempo Deus acolheu o homem e que o homem se ofereceu a Deus. Como poder√≠amos n√≥s, de fato, ter parte √† filia√ß√£o adotiva, se n√£o tiv√©ssemos recebido, pelo filho, a comunh√£o com Deus? E como ter√≠amos recebido a comunh√£o com Deus, se seu verbo n√£o tivesse entrado em comunh√£o conosco tornando-se carne?¬†(IRENEE DE LYON – III, 18,7, reed. 1984, p. 365-366).

Este belo texto de Ireneu nos explica com toda a clareza a media√ß√£o de Cristo. Ela tem por fundamento o duplo parentesco do Verbo encarnado com Deus e com o homem. √Č gra√ßas a isso que o mediador pode reconduzir as duas partes √† amizade e √† conc√≥rdia (ponto de vista redentor) e dar ao homem a filia√ß√£o adotiva e a comunh√£o com Deus (ponto de vista divinizador). Mas h√° um outro tra√ßo que recebe a aten√ß√£o de Ireneu. Para ele, a vit√≥ria do dem√īnio sobre a humanidade foi profundamente injusta. Para que a justi√ßa seja plenamente realizada, ‚Äú√© preciso‚ÄĚ que o pr√≥prio vencido, isto √©, o ser humano, consiga a vit√≥ria sobre o inimigo. N√£o se trata de modo algum de fazer justi√ßa a Deus, mas ao homem, que injustamente foi feito pecador. Para Ireneu, h√° dois aspectos da media√ß√£o: ‚Äúela √© redentora enquanto nos livra do pecado; ela √© divinizadora enquanto nos d√° a filia√ß√£o adotiva:

‚ÄúPois esta √© a raz√£o pela qual o Verbo se fez homem e o Filho de Deus filho do homem: para que o homem, ao me misturar com o Verbo e ao receber assim a filia√ß√£o adotiva se torne filho de Deus‚ÄĚ (IRENEE DE LYON – III, 19,1, reed. 1984, p. 368).

Conforme as passagens, Ireneu real√ßa uma dominante mais divinizadora ou mais ‚Äúreconciliadora‚ÄĚ:

√Č porque nos √ļltimos tempos, o Senhor nos restabeleceu na amizade por meio de sua encarna√ß√£o¬†: tornado ‚Äúmediador de Deus e dos homens‚ÄĚ ele inclinou a nosso favor seu Pai contra quem t√≠nhamos pecado e ele o consolou de nossa desobedi√™ncia por sua obedi√™ncia, e ele nos acordou a gra√ßa da convers√£o e da submiss√£o a nosso criador. (IRENEE DE LYON – III, 17,1, reed. 1984, p. 619)

Cristo ‚Äúinclinou‚ÄĚ e ‚Äúconsolou‚ÄĚ o Pai depois de nosso pecado: express√Ķes antropom√≥rficas, por√©m muito mais eloquentes e justas do que a ideia de ‚Äúpuni√ß√£o vingadora‚ÄĚ e ‚Äúcompensa√ß√£o‚ÄĚ.

Jesus √© o mediador de nossa reden√ß√£o porque antes foi mediador de nossa cria√ß√£o. ‚ÄúO Filho de Deus, que j√° se encontrava impresso em forma de cruz no universo‚ÄĚ (IRENEE DE LYON, D√©monstration (‚Ķ) SC 406, p.131-133), ‚Äúveio de modo vis√≠vel no seu pr√≥prio dom√≠nio, se fez carne e foi suspenso no madeiro, a fim de recapitular todas as coisas em si mesmo‚ÄĚ (IRENEE DE LYON – V, 18,3, reed. 1984, p. 625). Assim a humanidade de Cristo √© a ‚Äúplaca girat√≥ria‚ÄĚ da comunica√ß√£o dos dons de Deus √† nossa humanidade. Tertuliano retomar√° a mesma ideia, dizendo que ‚ÄúCristo √© a dobradi√ßa da salva√ß√£o‚ÄĚ (TERTULLIEN, La r√©surrection (‚Ķ) VIII¬†; PL 2, 806, ab).

4.2 De Agostinho a Tom√°s de Aquino

Entre Ireneu e Agostinho, Or√≠genes voltou √† tem√°tica da media√ß√£o. Nos s√©culos IV e V os grandes debates sobre a Trindade e a cristologia encontraram seu argumento soteriol√≥gico principal na afirma√ß√£o das condi√ß√Ķes que permitam ao Cristo ser um aut√™ntico mediador entre Deus e os homens. Se n√£o √© verdadeiramente Deus, igual e ‚Äúconsubstancial‚ÄĚ ao Pai, ele n√£o pode divinizar-nos (Atan√°sio contra √Ārio). Se n√£o √© verdadeiramente homem, tendo participado plenamente em nossa condi√ß√£o comum, ent√£o n√£o √© a n√≥s que ele assumiu, e n√≥s ficamos fora da salva√ß√£o que ele trouxe (Greg√≥rio Nazianzeno). Se ele n√£o √© um s√≥ e o mesmo como Deus e como homem, o ligame que ele quer constituir entre Deus e n√≥s √© rompido e n√£o h√° mais media√ß√£o nem salva√ß√£o. ‚Äú√Č preciso que ele possua o que √© nosso para que possuamos o que √© dele‚ÄĚ (CYRILLE, Le Christ (‚Ķ) 722 a-b¬†;¬† S.C 97, reed. 1964, p. 327-329), diz Cirilo de Alexandria no seu debate com Nest√≥rio. Mas olhemos antes o testemunho de Agostinho, para o qual a media√ß√£o de Cristo n√£o √© somente uma afirma√ß√£o doutrinal essencial, mas tamb√©m o lugar de uma experi√™ncia pessoal, particularmente libertadora.

Encontramos nele uma análise bem exata daquilo que é a mediação salvífica de Cristo: a presença coexistente nele da divindade humana e da humanidade divina.

Ele é mediador de Deus e dos homens, porque ele é Deus com o Pai e homem com os homens. O homem não poderia ser mediador, separadamente de sua divindade ; Deus não poderia ser mediador, separadamente de sua humanidade. Eis o mediador: a divindade sem a humanidade não é mediadora; a humanidade sem a divindade não é mediadora; mas entre a divindade sozinha e a humanidade sozinha se apresenta como mediadora a divindade humana e a humanidade divina do Cristo (AUGUSTIN, Sermon 47, 21; PL 38, 310; Vivès 16, p. 307).

Mas Agostinho n√£o para neste ponto; nos meandros de sua pr√≥pria convers√£o ele fez uma experi√™ncia desta afirma√ß√£o doutrinal. Ele n√£o podia chegar ao verdadeiro conhecimento de Deus porque se recusava a reconhecer Jesus Cristo, o √ļnico mediador.

Eu buscava a via, para adquirir o vigor que me tornaria capaz de gozar de ti; e n√£o encontrava, enquanto eu n√£o tivesse abra√ßado ‚Äúo mediador entre Deus e os homens, o Homem Jesus Cristo, que est√° acima de tudo, Deus bendido para sempre‚ÄĚ (1Tm 2,5); ele chama e ele diz: ‚ÄúEu sou o caminho, a verdade e a vida‚ÄĚ (Jo 14,6); e a comida que por fraqueza eu n√£o podia tomar, ela se mistura √† carne, pois ‚Äú o Verbo se fez carne‚ÄĚ (Jo 1,14), a fim de que por nossa inf√Ęncia tua sabedoria se tornasse leite, ela por quem tu cristes todas as coisas.

√Č que eu n√£o era suficientemente humilde, para possuir, meu Deus, o humilde Jesus, e eu n√£o sabia qual ensinamento d√° sua fraqueza. (AUGUSTIN, Confessions, VII, 18,24;¬† p. 631)

√Č realmente admir√°vel esta √ļltima f√≥rmula. Para Agostinho, o que levou Cristo √† aniquila√ß√£o (a k√©nosis) da cruz foi sua humildade. E esta √© tamb√©m a grande originalidade do cristianismo. Decerto, Agostinho tinha lido nos plat√īnicos que no princ√≠pio havia o Verbo, mas ‚ÄúQuanto a isto: ‚ÄėEle veio no seu pr√≥prio dom√≠nio e os seus n√£o o receberam, mas aos que o receberam ele deu o poder de se tornarem filhos de Deus crendo em seu nome (Jo 1,11-12), isso eu n√£o li‚ÄĚ (AUGUSTIN, Confessions, VII, 9,13; p. 609).

Agostinho, enfim, fez a experi√™ncia de toda a sua fraqueza e aceitou ir at√© a humildade que lhe permitia entrar em comunh√£o com a humildade do √ļnico mediador. Este, ent√£o, o liberava de suas amarras e o colocava em comunh√£o com Deus mesmo. Deus veio a n√≥s para que n√≥s pud√©ssemos ir at√© ele.

Agostinho passou do termo ‚Äúmedia√ß√£o‚ÄĚ para o de sacramento, que em seu texto n√£o tem exatamente o sentido preciso que n√≥s lhe damos hoje, mas dele se aproxima bastante. Para Agostinho, o sacramento √© um mist√©rio, ou seja, uma realidade que associa um gesto humano que tem sentido em nosso mundo a um dom propriamente divino que o transcende. O batismo √© um rito exterior de ablu√ß√£o e de purifica√ß√£o. Mas o batismo, objeto de um mandamento de Jesus a seus disc√≠pulos, √© rico do dom transcendente de Cristo que nos lava de todo pecado e nos faz participar de sua vida divina. O gesto humano √© o signo exterior do dom divino que o ultrapassa infinitamente. O primeiro nos revela o mist√©rio do segundo, o vis√≠vel √© o signo do invis√≠vel. O sacramento √©, assim, o mediador vis√≠vel de um mist√©rio divino invis√≠vel. Por tr√°s deste sacramento est√° a humanidade do pr√≥prio Cristo, que pode ser considerado como o sacramento primeiro e fundador da Igreja, que por sua vez se tornou sacramento, e tamb√©m dos sete sacramentos:

a humanidade de Cristo √© o sacramento da presen√ßa e da atividade do Verbo; a morte na cruz √© o sacramento da miseric√≥rdia de Deus, do ato pelo qual ele nos comunica a vida divina. V√™-se e n√£o se v√™. V√™-se o Cristo morrer, mas essa morte √© comunica√ß√£o da vida divina √† humanidade, efic√°cia em e atrav√©s de um acontecimento na hist√≥ria e um evento sens√≠vel e corp√≥reo (AGA√čSSE, 1980, p. 59).

Mas demos a palavra ao próprio Agostinho:

Revestido de uma carne mortal, morrendo s√≥ por meio dela, ressuscitando s√≥ por meio dela, s√≥ por ela ele se p√īs em un√≠ssono conosco para a morte e para a ressurrei√ß√£o, tornando-se por ela sacramento para o homem interior e exemplo para o homem exterior. (AUGUSTIN. La Trinit√©, IV 3,6¬†; BA 15, 1955, p. 351)

            A Idade Média acompanhou sem dificuldade esse passo, associando mediação e reconciliação, como mostra este texto singelo de Tomás de Aquino:

O of√≠cio do mediador consite em unir aqueles entre os quais ele exerce esta fun√ß√£o: pois os extremos s√£o juntos pelo termo mediano. Ora, perfazer a uni√£o dos homem com Deus conv√©m sem nenhuma d√ļvida ao Cristo, j√° que, por ele, os homens s√£o reconciliados com Deus, segundo esta palavra da ep√≠stola aos Cor√≠ntios: ‚ÄúDeus reconciliava o mundo com ele mesmo no Criso‚ÄĚ (2Cor 5,19). Em seguida o Cristo, enquanto que, por sua morte, ele reconciliou o g√™nero humano com Deus, √© o √ļnico e perfeito mediador entre Deus e os homens. (SAINT THOMAS. Commentaire sur les sentences, L. IV, D. 48, Q.1, a. 2, sol.)

4.3 Hoje

O tema da media√ß√£o √ļnica de Cristo est√° sempre presente na teologia da √©poca moderna e dos dias de hoje. Ele at√© conhece uma renova√ß√£o a partir do tema da reconcilia√ß√£o, que √© muito caro a nosso tempo. No s√©culo XIX, ele se encontra em Matthias Scheeben (1947, p. 410-419):

Jesus Cristo √©, efetivamente, o mediador entre Deus e o homem, porque nele a reconcilia√ß√£o do homem e seu ser reconciliado com Deus se tornaram um √ļnico e mesmo acontecimento. A exist√™ncia de Jesus Cristo (…) √© toda inteira, ela n√£o √© outra coisa que seu ser e sua obra de media√ß√£o. Em outros termos, Jesus Cristo √© o √ļnico mediador entre Deus e os homens. (BARTH, 1968, p. 129)

Do lado cat√≥lico, Karl Rahner aborda a media√ß√£o de Cristo do ponto de vista da teologia transcendental que lhe √© familiar. O pr√≥prio desta teologia consiste em interpretar a transcend√™ncia que habita todo ser humano, isto √©, seu desejo incoerc√≠vel de ultrapassar todas as coisas criadas para chegar at√© Deus, o √ļnico que pode fundar sua exist√™ncia e lhe conferir sentido. Esta teologia se coloca sempre a pergunta das condi√ß√Ķes de possibilidade existindo no homem para que possa aderir aos diversos aspectos do mist√©rio crist√£o. Onde, portanto, situa-se se no homem a pressuposi√ß√£o da media√ß√£o de Cristo? Ela repousa simplesmente no fato de que o homem √© um ser que vive da intercomunica√ß√£o de todos os seres humanos entre si. Esse dado inscreve o ser humano em uma multid√£o de media√ß√Ķes, visto que ele chega da parte deles e doando-se por sua vez a eles. Esse interc√Ęmbio constante n√£o √© outra coisa que a circula√ß√£o do amor humano; cada um s√≥ pode se realizar abrindo-se aos outros, acolhendo o dom que lhe √© oferecido. Mas este interc√Ęmbio pressup√Ķe um amor absoluto que o fundamenta e o torna poss√≠vel. Esse amor s√≥ pode ser propriamente divino. A intercomunica√ß√£o dos seres humanos entre si s√≥ pode ter seu cume e seu fim na pessoa de Cristo, mediador absoluto dado por Deus.

Outros te√≥logos, como Yves de Montcheuil e Edward Schillebeeckx aproximaram ‚Äď como anteriormente Agostinho ‚Äď o tema da media√ß√£o e o do sacramento. Assim, o sacrif√≠cio de Cristo, ou seja, o dom total de sua vida at√© a morte na cruz que efetiva a sua passagem para Deus, √© o sacramento mediador do sacrif√≠cio de toda a humanidade e da passagem para Deus de toda a humanidade.

O sacrif√≠cio de Cristo √© (…) o sacramento do sacrif√≠cio da humanidade (…) O sacrif√≠cio hist√≥rico realizado uma vez em um momento do tempo e em um lugar determinado √© o sacramento do sacrif√≠cio realizado pelo Cristo total. Encontramos aqui a ideia (…) de que Cristo √© o primeiro sacramento, o grande sacramento (MONTCHEUIL, 1951, p. 53).

A vida da humanidade atrav√©s dos tempos √© comparada a um √ļnico e longo sacrif√≠cio, isto √©, ao dom de si mesma, que a faz passar progressivamente em Deus. O sacrif√≠cio de Jesus na cruz √© ao mesmo tempo o mediador e o sacramento.

Do mesmo modo, para E. Schillebeeckx, Cristo √© o sacramento ou a media√ß√£o do encontro de todos os homens em Deus. De fato, o encontro do Cristo terrestre √© o sacramento do encontro com Deus. Todos os atos da vida de Jesus foram ao mesmo tempo a manifesta√ß√£o do amor divino √† humanidade e a atua√ß√£o do amor humano para com Deus. Mas este deve conservar atrav√©s do tempo tal visibilidade concreta. Tal √© o papel da Igreja, sacramento fundado por Cristo, que permanece o √ļnico sacramento fundador, Igreja que √© o signo vivo e que assim exerce tamb√©m o minist√©rio da √ļnica media√ß√£o de Cristo.

Chamamos hoje o sacramento da penit√™ncia de sacramento da reconcilia√ß√£o. Vocabul√°rio certamente mais feliz que o anterior, pois este sacramento √© o encontro mediador e salv√≠fico, realizado visivelmente na Igreja, do crist√£o sempre pecador com o Cristo, sacramento antigamente vis√≠vel e hoje invis√≠vel de nossa salva√ß√£o, e √ļnico mediador entre os homens e Deus, o eterno Deus, que aceitou tornar-se homem por n√≥s.

Bernard Sesbo√ľ√©, SJ. Centre S√®vres, Paris. Texto original franc√™s. Tradu√ß√£o J. Konings.

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______. Sermon, Patrologiae latinae: Sancti Aurelii Augustini Opera omnia. Paris: J. P. Migne, 1841 V. 38 Pt 5/1. (Series Latina, 38)

______. La trinité (livres I-VII). Paris: Desclee de Brouwer, 1955 613 p. V. 15. (Bibliotheque augustinienne). (Tradução portugues: A Trindade. Sao Paulo: Paulus, 1995)

BARTH, K. Dogmatique, IV, 1,1, 58; Genève : Labor et Fides, 1968, t. 17.

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______.  Démonstration de la prédication apostolique, 34. In Source Chrétienne, 406, 1995.

______. Contre les hérésies, V, Paris: Cerf, 1969 .

MONTCHEUIL, YVES DE. Mélanges théologiques. Paris : Aubier, 1951.

SAINT THOMAS. Commentaire sur les sentences, L. IV, D. 48, Q.1, a. 2, sol. (ver edição digital : http://docteurangelique.free.fr/bibliotheque/sommes/SENTENCES4.htm)

SCHEEBEN, M. Les mystères du christianisme, 62. trad. A. Kerwoorde. Paris: D.D.B. 1947.

TERTULLIEN. La résurrection de la chair, VIII; PL 2, 806, ab. (versão origianl digital : https://books.google.com.br/books?id=O5JBAAAAcAAJ&pg=PA811&hl=pt-BR&source=gbs_toc_r&cad=4#v=onepage&q&f=false)

VANHOYE, A. Prêtres anciens et prêtre nouveau selon le Nouveau Testament. Paris: Seuil, 1980.

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