Antigo Testamento

Sum√°rio

1 Panorama histórico-literário

2 Panorama teológico-literário

2.1 Muitas teologias no AT

2.2 Dois Antigos Testamentos

2.3 Atual divis√£o dos livros do AT

3 Torah ou Pentateuco

4 Livros históricos

4.1 Obra Histórica Deuteronomista e o livro de Rute

4.2  Obra Histórica do Cronista

4.3 Novelas edificantes e livros de aventura

5 Livros sapienciais e livros poéticos

6 Livros proféticos

6.1 Profetas n√£o escritores e profetas escritores

6.2 Profetas maiores e profetas menores

6.3 A mensagem dos profetas

7 Antigo Testamento e Palavra de Deus

8 Referências bibliográfica

1 Panorama histórico-literário

Deus se revela na história, não somente por palavras, mas também e principalmente pelos fatos. Por isso, o discurso de Deus é:

a) situado e encarnado em um tempo e em uma sociedade, uma linguagem e uma cultura.

b) progressivo, isto é, espalhado no tempo, até encontrar a sua plenitude em Cristo.

c) mantém estritamente unidas história e Palavra, de modo que a Palavra de Deus faz a história, dirigindo-a e interpretando-a.

O Antigo Testamento levou aproximadamente mil anos para ser escrito. A cada nova situação histórica, os fatos do passado e do presente são relidos, reinterpretados, recontados. Por isso, é necessário pontuar alguns acontecimentos importantes e, neste arco de tempo, situar o processo de formação dos livros bíblicos. Nesta linha do tempo, todas as datas são anteriores à era cristã ou comum (isto é, aC):

  • 1000-931: Imp√©rio dav√≠dico-salom√īnico
  • 931: morte de Salom√£o
  • Separa√ß√£o dos dois reinos irm√£os e in√≠cio de uma hist√≥ria paralela: Norte (Israel ou Efraim) e Sul (Jud√°)
  • 883: ressurgimento da Ass√≠ria como grande pot√™ncia militar
  • 722 (ou 721): invas√£o Ass√≠ria e destrui√ß√£o do Reino do Norte (Israel/Efraim)
  • 722/721-586: hist√≥ria do √ļnico reino independente, o Sul (Jud√°)
  • Gradual enfraquecimento da Ass√≠ria e ressurgimento da Babil√īnia
  • 640-609: reinado de Josias (reforma pol√≠tica e religiosa)
  • 597: primeira deporta√ß√£o para a Babil√īnia
  • 586: invas√£o de Jerusal√©m pelos babil√īnicos, destrui√ß√£o do Templo, segunda grande deporta√ß√£o para a Babil√īnia e in√≠cio do per√≠odo chamado de ‚Äúex√≠lio‚ÄĚ
  • 586-537: ex√≠lio na Babil√īnia
  • 555: in√≠cio da campanha de Ciro, rei dos medos e dos persas
  • 539: entrada vitoriosa de Ciro na Babil√īnia
  • 538: edito de Ciro, autorizando os judeus deportados a retornarem a Jerusal√©m
  • 537: in√≠cio do per√≠odo da reconstru√ß√£o de Jerusal√©m e do Templo
  • 333: Alexandre o Grande conquista o Antigo Oriente Pr√≥ximo (Oriente M√©dio)
  • 323: morte de Alexandre o Grande na Babil√īnia; divis√£o do seu imp√©rio entre os di√°docos
  • 167-164: Ant√≠oco IV Ep√≠fanes inicia um processo de heleniza√ß√£o obrigat√≥ria
  • Revolta dos Macabeus: guerra, persegui√ß√£o e m√°rtires
  • 63: Roma conquista o Oriente M√©dio
  • 40-4: Reinado de Herodes o Grande
  • 6 (aC!): Nascimento de Jesus

De todas essas datas, a que tem maior impacto na história e na literatura do AT é o ano de 586, que marca o início do período do exílio.

Em termos de história civil e política, o exílio marca o fim da monarquia e da independência. Não só isso. Também a religião é afetada e, por conseguinte, os textos que formarão a Sagrada Escritura.

A cada novo importante acontecimento, há uma nova etapa na história de Israel/Judá. Os fatos do passado são recontados e explicados à luz da nova situação social, histórica e política, para dar sentido ao presente e abrir a esperança do futuro.

Desde os tempos do imp√©rio dav√≠dico-salom√īnico at√© os tempos da reconstru√ß√£o p√≥s-ex√≠lica (per√≠odos ass√≠rio, babil√īnico e persa), surgem e s√£o amalgamadas diversas tradi√ß√Ķes orais e escritas. O resultado √© a obra historiogr√°fica-legislativa do Pentateuco (tamb√©m chamado de Tor√°), um relato mais ou menos linear das origens (cria√ß√£o, queda, dil√ļvio), dos patriarcas (Abra√£o, Isaac, Jac√≥/Israel, Jos√© e seus irm√£os), do √™xodo e da travessia do deserto.

Outra tradição historiográfica assume a tarefa de narrar os eventos desde a conquista de Canaã até o exílio, passando pelo período dos juízes, da monarquia unida e dos reinos divididos.

Com a consolidação da monarquia, consolida-se também o profetismo, que perdura até os anos da reconstrução e talvez além. Nem todos os profetas são conhecidos por seu nome, nem todos escreveram. Não obstante, muito da mensagem desses mensageiros divinos foi conservada, graças a uma intensa atividade literária, empreendida por eles mesmos ou por seus discípulos.

As mudan√ßas hist√≥ricas e pol√≠ticas, tanto na sociedade de Jud√° como no cen√°rio internacional, levam ao gradativo desaparecimento da profecia, deixando espa√ßo para dois outros movimentos liter√°rio-religiosos de extrema import√Ęncia e vitalidade: a tradi√ß√£o apocal√≠ptica e a tradi√ß√£o sapiencial.

A apocal√≠ptica impregna j√° alguns dos livros prof√©ticos can√īnicos. Mas sua principal produ√ß√£o liter√°ria n√£o pertence ao c√Ęnon b√≠blico. Diferentemente, a tradi√ß√£o sapiencial foi amplamente acolhida no c√Ęnon, com escritos que refletem sobre o sentido da exist√™ncia humana.

Os escritos de diversas tradi√ß√Ķes po√©ticas tamb√©m foram assumidos no c√Ęnon do AT. Igualmente tradi√ß√Ķes historiogr√°ficas de menor envergadura, que produziram novelas edificantes e livros de aventura, todos refletindo os desafios que as circunst√Ęncias sociais e hist√≥ricas impunham √†s comunidades do povo de Deus, n√£o s√≥ em Jerusal√©m, mas tamb√©m fora da Judeia/Palestina.

 2 Panorama teológico-literário

 2.1 Muitas teologias no AT

Cada um dos livros que temos hoje levou muito tempo para chegar √† sua forma atual e, na maioria dos casos, n√£o foi obra de uma √ļnica pessoa. Por isso, √© necess√°rio falar n√£o de teologia, e sim de teologias do Antigo Testamento: a teologia da chamada escola deuteronomista √© diferente da teologia de um grupo normalmente chamado de javista; a teologia de J√≥ √© totalmente diferente da teologia de Sir√°cida (Eclesi√°stico).

2.2 Dois Antigos Testamentos

Um conjunto de livros que formam o que normalmente chamamos de Antigo Testamento j√° estava completo antes do ano 200 aC Por ter sido escrito em hebraico (uma m√≠nima parte em aramaico) √© chamado de B√≠blia Hebraica e tem tr√™s divis√Ķes: Torah (Lei), Nebi‚Äô√ģm (Profetas), Ketub√ģm (Escritos). √Č comumente chamado de TaNaK (palavra formada pela primeira letra do t√≠tulo de cada parte).

Em torno do ano 180 aC, foi feita a tradu√ß√£o da B√≠blia Hebraica para o grego. Mas essa n√£o foi somente uma tradu√ß√£o: houve tamb√©m adapta√ß√Ķes e acr√©scimos, tanto de partes como de livros inteiros. A tradu√ß√£o grega √© conhecida como Setenta ou Septuaginta e indicada pelas letras LXX (setenta em algarismos romanos).

Entre a B√≠blia Hebraica e a LXX, portanto, h√° v√°rias diferen√ßas al√©m da l√≠ngua: ambiente hist√≥rico, social, pol√≠tico, geogr√°fico; adapta√ß√Ķes e acr√©scimos; livros novos na LXX (nem todos no c√Ęnon de nossas B√≠blias); agrupamento e ordem dos livros.

As bíblias católicas se diferenciam das bíblias protestantes/evangélicas porque, além dos livros da Bíblia Hebraica, incluem também alguns dos livros novos que foram acrescentados na LXX. São eles: Baruc, Eclesiástico (Sirácida), Sabedoria, Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus. Também os livros de Daniel e Ester receberam acréscimos, presentes nas bíblias católicas, mas não nas bíblias protestantes/evangélicas.

Cumpre enfim lembrar que a LXX cont√©m ainda uma s√©rie de livros que n√£o foram assumidos pelo c√Ęnon crist√£o cat√≥lico: 3 e 4 Macabeus, Odes, Salmos de Salom√£o e 4 Esdras.

2.3 Atual divis√£o dos livros do AT

Nas edi√ß√Ķes crist√£s da B√≠blia, a ordem e o agrupamento dos livros n√£o seguem exatamente a B√≠blia Hebraica nem a LXX. Antes, os livros foram agrupados e sequenciados conforme v√°rios crit√©rios, tais como a import√Ęncia do livro ou do bloco de livros e a cronologia dos eventos narrados. Nessas B√≠blias √© poss√≠vel distinguir os seguintes grupos:

  • Tor√° (= Lei) ou Pentateuco
  • Livros hist√≥ricos
  • Livros sapienciais e livros po√©ticos
  • Livros prof√©ticos

3 Torá ou Pentateuco

G√™nesis, √äxodo, Lev√≠tico, N√ļmeros e Deuteron√īmio formam um complexo narrativo-legislativo. Sob o aspecto narrativo, relata-se uma hist√≥ria linear: as origens do mundo e da humanidade (Gn 1-11), a hist√≥ria dos patriarcas Abra√£o, Isaac e Jac√≥ (Gn 12-36), a hist√≥ria de Jos√© (Gn 37-50), o √™xodo do Egito (Ex 1-15), a Alian√ßa no Sinai e a travessia do deserto (Ex 16-Nm 21), acampamento em Moab e √ļltimos eventos antes de entrar na Terra Prometida (Nm 22-Dt 34).

Sob o aspecto legislativo, os cinco primeiros livros da B√≠blia cont√™m um amplo conjunto de c√≥digos legislativos, inseridos na narrativa linear anteriormente descrita. Destacam-se: o Dec√°logo (Ex 20,2-17, reelaborado em Dt 5,6-21); o C√≥digo da Alian√ßa (Ex 20,22-23,19); a Lei de Santidade (Lv 17-26) e o C√≥digo Deuteron√īmico (Dt 12-26).

Este complexo narrativo-legislativo foi longamente amadurecido e composto com materiais provenientes de v√°rios grupos, ideologias e √©pocas. Desde o s√©culo XVIII surgiram v√°rias opini√Ķes acerca da forma√ß√£o do atual Pentateuco, mas foi a teoria document√°ria de Julius Wellhausen a que se imp√īs desde a metade do s√©culo XIX. Segundo essa teoria, o texto atual do Pentateuco √© o resultado da fus√£o de quatro fontes em um conjunto mais ou menos harmonioso. Essas quatro fontes s√£o:

‚Äď Javista (J): desde Gn 2,4 chama Deus de ‚ÄúJav√©‚ÄĚ. O local sem d√ļvida √© Jerusal√©m (Reino do Sul), mas a data√ß√£o √© discut√≠vel: no s√©culo X aC, durante o reinado de Salom√£o, ou no s√©culo VII aC, sob Josias? Ou ainda no s√©culo VI aC, mais pr√≥ximo do final da monarquia?

‚ÄstElo√≠sta (E): chama Deus de ‚ÄúJav√©‚ÄĚ somente ap√≥s Ex 3,14. Antes disso, Deus √© chamado de ‚ÄúElohim‚ÄĚ. Entre os s√©culos IX e VIII aC, no Reino do Norte.

‚Äď Sacerdotal (P, do alem√£o, Priestercodex): preocupa-se principalmente com aspectos rituais. Durante o ex√≠lio na Babil√īnia (587-537 aC) e pouco depois.

‚Äď Deuteronomista (D): comp√īs o livro do Deuteron√īmio como introdu√ß√£o √† obra historiogr√°fica que vem a seguir (Obra Hist√≥rica Deuteronomista). V√°rios estratos redacionais, refletindo os diferentes momentos da hist√≥ria de Israel (per√≠odo ass√≠rio, per√≠odo babil√īnico, ex√≠lio, per√≠odo persa).

Cada uma dessas fontes reflete um período histórico e uma ideologia religiosa. Nenhuma delas tem a intenção de escrever um relato jornalístico, e sim uma história teológica (catequética), desde as origens até as vésperas da entrada na Terra Prometida.

N√£o obstante cr√≠ticas, revis√Ķes e corre√ß√Ķes, a teoria document√°ria de Wellhausen continuou soberana at√© a d√©cada de 1970, quando seus pressupostos b√°sicos foram fortemente questionados. Desde ent√£o, buscaram-se outras explica√ß√Ķes para a composi√ß√£o do Pentateuco. Tr√™s foram as tend√™ncias dessas novas explica√ß√Ķes:

a) Rejeitar sumariamente a leitura diacr√īnica (m√©todo hist√≥rico-cr√≠tico) e, tendo como base teorias liter√°rias recentes, assumir unicamente a leitura sincr√īnica.

b) Assumir uma datação recente dos textos do Pentateuco e, deste modo, eliminar as fontes mais antigas da teoria documentária, isto é, a Javista e a Eloísta.

c) Substituir o modelo de documentos pelo de reda√ß√Ķes ou reelabora√ß√Ķes sucessivas, o que leva a v√°rios modelos, muitas vezes fragmentados.

N√£o raro, retorna-se, de um modo ou de outro, √†s intui√ß√Ķes de Wellhausen, ainda que apenas conceitualmente. Fala-se, por exemplo, de um Proto-Pentateuco pr√©-sacerdotal, de um sacerdotal b√°sico, de um Deuteron√īmio deuteronomista, de releituras p√≥s-deuteronomistas e p√≥s-sacerdotais. Na trilha das leituras sincr√īnicas, fala-se de ‚ÄúHexateuco‚ÄĚ (de Gn a Js, isto √©, da cria√ß√£o √† conquista da Terra), bem como de um ‚ÄúEneateuco‚ÄĚ (de Gn a 2Rs, isto √©, da cria√ß√£o √† perda da Terra).

Esta multiplicidade de opini√Ķes demonstra a complexidade da quest√£o sobre a forma√ß√£o do Pentateuco e qu√£o longe estamos de um novo consenso acerca de uma explica√ß√£o que, como a teoria document√°ria cl√°ssica de Wellhausen, constitua um paradigma que se imponha por sua solidez e aplicabilidade.

4 Livros históricos

O termo ‚Äúhist√≥ricos‚ÄĚ deveria vir entre aspas, uma vez que o conceito que os autores b√≠blicos tinham de obra historiogr√°fica √© muito diferente do que temos hoje.

4.1 Obra Histórica Deuteronomista e o livro de Rute

Josu√©, Ju√≠zes, 1-2 Samuel e 1-2 Reis narram de modo linear uma hist√≥ria complexa e cheia de reviravoltas: da conquista da Terra Prometida √† perda dessa mesma terra. Na B√≠blia Hebraica esses livros s√£o chamados de ‚ÄúProfetas Anteriores‚ÄĚ. Trata-se de uma obra historiogr√°fica ‚Äď a Obra Hist√≥rica Deuteronomista (OHD) ‚Äď que recolhe material de outros escritos (normalmente, registros da corte) e tamb√©m material in√©dito.

Normalmente fala-se de v√°rias camadas redacionais, amalgamadas durante duzentos anos aproximadamente (entre 650 e 450 aC). A autoria √© atribu√≠da √† chamada escola deuteronomista ou simplesmente o deuteronomista. Esse nome justifica-se pelo fato do livro do Deuteron√īmio funcionar como o portal de entrada para a hist√≥ria narrada a seguir e tamb√©m oferecer os crit√©rios para julg√°-la.

O per√≠odo da hist√≥ria de Israel coberto pela OHD come√ßa com a confedera√ß√£o de tribos (Josu√©), passa pela conquista da terra (Ju√≠zes) e pela monarquia unida (Samuel), e culmina com a separa√ß√£o dos reinos e a destrui√ß√£o de cada um deles (Reis). √Č um relato sob o ponto de vista religioso e tem a finalidade de mostrar que a hist√≥ria vai se deteriorando sempre mais, at√© chegar ao limite da infidelidade, n√£o deixando alternativa a Yhwh, exceto mandar a cat√°strofe para punir seu povo e, deste modo, purific√°-lo. Assim, a OHD quer n√£o s√≥ explicar por que Yhwh puniu seu povo com o ex√≠lio, mas tamb√©m apontar os caminhos para superar a crise e reconstruir a comunidade, desta vez mais fiel √† Alian√ßa.

Assim progride a história na OHD:

  • Deuteron√īmio: a sociedade ideal, conforme a Lei de Yhwh.
  • Josu√©: o povo fiel, cumpridor da Alian√ßa e da Lei.
  • Ju√≠zes: fidelidade e infidelidade se alternam, num ciclo cont√≠nuo: pecado, castigo, arrependimento, liberta√ß√£o
  • 1-2 Samuel e 1-2 Reis: infidelidade institucionalizada; o primeiro a ser infiel √© o rei.

As edi√ß√Ķes crist√£s da B√≠blia seguem a LXX e inserem o livro de Rute entre Ju√≠zes e Samuel. Rute[1] √© a bisav√≥ do rei Davi e, para preparar a entrada em cena desse grande rei de Israel, a novela que narra a edificante hist√≥ria de Rute √© inserida antes do livro que narra a passagem do per√≠odo dos ju√≠zes para o per√≠odo da monarquia.

4.2  Obra Histórica do Cronista

Um conjunto de quatro livros √© atribu√≠do a um autor normalmente denominado cronista, uma vez que os dois primeiros livros de sua obra recebem o nome de ‚ÄúCr√īnicas‚ÄĚ. Esses dois escritos recontam o que fora narrado nos livros da Tor√° e dos Profetas Anteriores (Obra Hist√≥rica Deuteronomista) √† luz da nova situa√ß√£o vivida pela comunidade juda√≠ta no per√≠odo do Segundo Templo. Essa releitura da Lei e dos Profetas Anteriores termina com o decreto de Ciro autorizando a volta para Jerusal√©m dos judeus deportados da Babil√īnia. Uma vers√£o ligeiramente modificada desse mesmo decreto inicia o livro de Esdras, deixando a entender que todo o relato de Cr√īnicas funciona como um resumo que prepara os dois livros seguintes, Esdras e Neemias, que narram as v√°rias etapas da repatria√ß√£o, da reconstru√ß√£o dos muros e do templo de Jerusal√©m, da restaura√ß√£o do culto e da reorganiza√ß√£o da comunidade.

4.3 Novelas edificantes e livros de aventura

Completando a s√©rie de livros narrativos do Antigo Testamento, as edi√ß√Ķes crist√£s da B√≠blia apresentam livros que preenchem o per√≠odo de tempo que cobre a domina√ß√£o persa, a domina√ß√£o greco-helenista e os pren√ļncios da domina√ß√£o romana.

O livro de Ester chegou a n√≥s em duas vers√Ķes ‚Äď hebraica (mais curta) e grega (mais longa) ‚Äď e narra a hist√≥ria de uma judia deportada que, como um ‚ÄúJos√© feminino‚ÄĚ chega ao poder na P√©rsia e sua a√ß√£o √© decisiva para salvar seu povo.

As bíblias católicas acrescentam também livros escritos em grego: Tobias, Judite e 1-2 Macabeus.

Tobias √© uma narrativa popular, uma novela edificante que conta as perip√©cias de um judeu fiel em meio a dificuldades e perigos a serem enfrentados em terra pag√£. Gra√ßas a sua retid√£o √©tica, o protagonista ‚Äď Tobias ‚Äď experimenta a a√ß√£o salvadora da provid√™ncia divina.

Judite √© tamb√©m uma novela popular, mas do tipo heroico: uma comunidade judaica perseguida esmorece e perde a esperan√ßa. Surge ent√£o uma vi√ļva, Judite (‚Äúa judia‚ÄĚ por excel√™ncia), que, fortalecida por sua f√©, arrisca a pr√≥pria vida e salva seu povo. Como uma Ester da periferia e armada com a espada, Judite encarna a confian√ßa nas promessas de Deus e derrota o inimigo poderoso e ambicioso.

Ester, Tobias e Judite s√£o, pois, narrativas exemplares por meio das quais o juda√≠smo transmite suas convic√ß√Ķes acerca da identidade do povo judeu, do comportamento a ser assumido em meio √†s crises e da fidelidade diante do impacto causado pelo helenismo.

Nessa mesma linha de aguerrida fidelidade, apresentam-se os dois livros can√īnicos dos Macabeus, com narrativas de epis√≥dios ambientados no per√≠odo da heleniza√ß√£o for√ßada empreendida por Ant√≠oco IV Ep√≠fanes (175-164 aC).

O primeiro livro é um relato de heróis: uma família de judeus piedosos se recusa a aceitar a imposição religiosa e deflagra uma guerra contra os dominadores helenistas e a aristocracia judaica que havia aderido ao imperialismo cultural e religioso.

O segundo livro (provavelmente anterior ao primeiro) é mais religioso, reflete o sentimento dos judeus piedosos e descreve os testemunhos da fé dos que, mesmo diante da guerra, da perseguição e da morte, não renegam a religião judaica. O livro traz cenas de martírio e também de ferozes batalhas. 2 Macabeus elabora uma teologia da história e também uma explícita profissão de fé na imortalidade e na ressurreição dos justos.

5 Livros sapienciais e livros poéticos

Os livros sapienciais propriamente ditos s√£o cinco: Prov√©rbios, J√≥, Qoh√©let (Eclesiastes), Sir√°cida (Eclesi√°stico) e Sabedoria. C√Ęntico dos C√Ęnticos e Salmos s√£o livros po√©ticos.

A busca da sabedoria e do sentido da vida n√£o foi um fen√īmeno exclusivo do povo b√≠blico nem por ele iniciado. Antes, trata-se de uma indaga√ß√£o comum, presente tamb√©m nas culturas vizinhas (Egito, Mesopot√Ęmia, Ugarit). A palavra sabedoria abrange n√£o s√≥ os conhecimentos cient√≠ficos, mas tamb√©m e principalmente a capacidade de encontrar as solu√ß√Ķes adequadas para todo tipo de problema: agricultura, economia, relacionamentos sociais, fam√≠lia etc.

Os livros sapienciais bíblicos podem ser lidos e interpretados sob o pano de fundo da chamada teologia da retribuição. Trata-se de uma doutrina que pode ser assim esquematizada:

  • justo = s√°bio = aben√ßoado (rico, saud√°vel, feliz)
  • injusto = insensato = amaldi√ßoado (pobre, doente, infeliz)

Em outras palavras, ‚Äúaqui se faz, aqui se paga‚ÄĚ!

Todavia, os autores b√≠blicos n√£o s√£o un√Ęnimes sobre a validade desta cren√ßa. √Ä pergunta ‚Äúa teologia da retribui√ß√£o funciona?‚ÄĚ, eis as respostas encontradas nos livros sapienciais b√≠blicos:

  • Prov√©rbios e Sir√°cida: ‚ÄúSim, funciona! E a vida humana tem sentido.‚ÄĚ
  • J√≥ e Qoh√©let: ‚ÄúN√£o, n√£o funciona! E a vida humana √© sem sentido.‚ÄĚ
  • Sabedoria: ‚ÄúFunciona, mas s√≥ na vida ap√≥s a morte! E o sentido da vida humana est√° na felicidade extraterrena.‚ÄĚ

Nas edi√ß√Ķes crist√£s da B√≠blia, entre os livros sapienciais est√£o inseridos dois livros po√©ticos: Salmos e C√Ęntico dos C√Ęnticos.

Na B√≠blia Hebraica, o livro dos Salmos √© denominado Tehillim, isto √©, louvores. O t√≠tulo ‚Äúsalmos‚ÄĚ vem da LXX, que o denomina Ps√°lmoi, isto √©, cantos para serem executados ao som de um instrumento de corda, que em grego se diz psalt√©rion. Esse √ļltimo termo grego passou a designar o livro todo, como uma cole√ß√£o de hinos, louvores, cantos. Na verdade, por√©m, o livro √© uma cole√ß√£o de cole√ß√Ķes: 150 pe√ßas liter√°rias de v√°rios tamanhos, estilos e g√™neros (s√ļplicas, lamenta√ß√Ķes, poesias doutrinais, hinos e louvores).

O C√Ęntico dos C√Ęnticos √© tamb√©m uma colet√Ęnea de poesias ou cantos de amor, nos quais se concentram as v√°rias faces do desejo e da paix√£o: a descri√ß√£o da pessoa amada, a saudade, o anseio, o prazer etc. O C√Ęntico elabora uma teologia do amor humano: mais do que um sentimento, o amor √© uma realidade intrinsecamente boa e que justifica a si mesma, que √© fim em si mesma. Isso, porque o amor humano inspira-se no amor divino e √© par√°bola dele, pois revela como Deus nos ama: com paix√£o, ansiedade, alegria, prazer, f√ļria.

6 Livros proféticos

A palavra profeta vem do grego pro-fet√©s e significa ‚Äúalgu√©m que fala no lugar de outro‚ÄĚ, o porta-voz. Nesse sentido, v√°rios personagens s√£o eventualmente chamados de profetas ao longo da B√≠blia: Abra√£o, Mois√©s, Davi. Todavia, o termo √© mais propriamente aplicado a homens e mulheres que assumem o papel de mediadores entre Deus e a ra√ßa humana.

O fen√īmeno da profecia n√£o √© exclusivo de Israel. No mundo antigo, tal como hoje, √© facilmente confundido com a capacidade de enxergar o futuro e prever os acontecimentos. Mas esta n√£o √© a √ļnica nem a principal atividade prof√©tica. A nomenclatura na B√≠blia Hebraica √© fluida e deixa entrever uma evolu√ß√£o no conceito do que significa agir como mediador: vidente, vision√°rio, homem de Deus, profeta. Mais ainda, assinala tamb√©m uma evolu√ß√£o dos meios de comunica√ß√£o: vis√Ķes; √™xtase, possess√£o e transe; palavras e or√°culos.

Os profetas bíblicos, portanto, não devem ser confundidos com adivinhadores do futuro. Eles não enxergam o futuro, mas sim o presente: observando as estruturas sociais e o comportamento individual das pessoas, o profeta emite um juízo, se aquela sociedade/pessoa caminha de acordo com a Lei de Yhwh ou não. Em caso afirmativo, aquela sociedade/pessoa pode ter esperança; em caso negativo, o que se antevê é a catástrofe.

6.1 Profetas n√£o escritores e profetas escritores

Em termos liter√°rios, os profetas podem ser divididos em dois grupos: os profetas n√£o escritores e os profetas escritores ou cl√°ssicos.

Como o pr√≥prio nome diz, o termo profetas n√£o escritores designa os profetas aos quais n√£o foram atribu√≠dos livros na B√≠blia. H√° uma longa lista de profetas n√£o escritores, cuja atividade est√° principalmente descrita nos livros de Samuel e Reis. Os mais importantes s√£o Elias e Eliseu; mas h√° tamb√©m: Nat√£, Gad, A√≠as de Silo, Miqueias ben Yemla, Hulda (mulher) e v√°rios outros. E, √© claro, o pr√≥prio Samuel √© qualificado como ‚Äú√ļltimo juiz e primeiro profeta‚ÄĚ.

Os profetas escritores (ou profetas cl√°ssicos) constituem o grupo mais famoso; todavia, n√£o formam o grupo mais numeroso. Na B√≠blia Hebraica, s√£o apenas quinze livros prof√©ticos: os tr√™s maiores (Isa√≠as, Jeremias, Ezequiel) e os doze menores (Oseias, Joel, Am√≥s, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias). As edi√ß√Ķes crist√£s, todavia, seguem o arranjo da B√≠blia Grega (LXX): ap√≥s Jeremias, acrescentam-se os livros de Lamenta√ß√Ķes e de Baruc; ap√≥s Ezequiel, o livro de Daniel, com os acr√©scimos gregos.

6.2 Profetas maiores e profetas menores

A qualifica√ß√£o ‚Äúmaiores‚ÄĚ e ‚Äúmenores‚ÄĚ n√£o √© devida √† import√Ęncia nem ao per√≠odo de atua√ß√£o desses profetas. √Č motivada √ļnica e exclusivamente pelo tamanho dos livros e, por isso, deveria ser rejeitada. Em lugar de ‚Äúprofetas menores‚ÄĚ, o mais correto √© falar de ‚Äúo livro dos Doze Profetas‚ÄĚ.

Ficaram fora da lista acima: Baruc e Daniel. Baruc √© um profeta cujo livro encontra-se somente na LXX e que por alguns √© identificado com seu xar√° Baruc, o secret√°rio de Jeremias. Quanto a Daniel, seu livro √© um apocalipse e por isso na B√≠blia Hebraica est√° entre os ‚ÄúEscritos‚ÄĚ.

Quando se fala de ‚Äúliteratura prof√©tica‚ÄĚ, √© √≥bvio que se fala de profetas escritores. Mas cada um dos livros prof√©ticos de nossas b√≠blias possui uma hist√≥ria redacional bastante complexa. Em primeiro lugar, a ordem dos livros n√£o equivale √† ordem cronol√≥gica que os profetas atuaram: Oseias √© posterior a Am√≥s e, no entanto, o livro de Am√≥s est√° depois dos livros de Oseias e de Joel (cujo per√≠odo de atividade ainda √© causa de pol√™mica). Segundo, h√° tamb√©m quest√Ķes referentes √† autoria dos livros prof√©ticos. Malaquias, por exemplo, √© uma palavra que significa ‚Äúmensageiro de Yhwh‚ÄĚ: trata-se de um nome praticamente inventado para atribuir a ele o √ļltimo livro dos Doze Profetas. E h√° trechos tamb√©m em Isa√≠as e em Zacarias (al√©m do pr√≥prio Malaquias), cujos verdadeiros autores s√£o an√īnimos, sem falar em Jonas, que n√£o √© o autor, e sim o protagonista do livro que leva seu nome.

6.3 A mensagem dos profetas

No que se refere √† mensagem dos profetas, ela est√° ligada ao per√≠odo hist√≥rico e ao lugar em que exerceram sua atividade. O marco fundamental √© o ex√≠lio (586-537). Este per√≠odo de cerca de cinquenta anos divide a hist√≥ria do povo de Deus em um ‚Äúantes-durante-depois‚ÄĚ que reflete nitidamente na mensagem dos profetas, principalmente os profetas de Jud√° (Reino do Sul).

De modo absolutamente sumário, é possível sintetizar assim a mensagem dos profetas escritores:

  • antes do ex√≠lio: ‚ÄúConvertam-se!‚ÄĚ
  • durante o ex√≠lio: ‚ÄúCoragem!‚ÄĚ
  • ap√≥s o ex√≠lio: ‚ÄúVamos nos unir!‚ÄĚ

Cronologicamente, assim é possível situar os profetas escritores:

a) em Israel ou Efraim (Reino do Norte):

  • antes da queda da Samaria (721): Am√≥s (¬Ī 780) e Oseias (¬Ī 760).

b) em Jud√° (Reino do Sul):

  • antes do ex√≠lio na Babil√īnia (at√© 586 aC): Isa√≠as de Jerusal√©m (740-701); Miqueias (727-701); Sofonias (¬Ī 630); Jeremias (627-586); Naum (¬Ī 612 ?); Habacuc (¬Ī 600) e a primeira parte da prega√ß√£o de Ezequiel (593-587).
  • durante o ex√≠lio na Babil√īnia (entre 586 e 539): a segunda parte da prega√ß√£o de Ezequiel (587-571) e o Segundo Isa√≠as (550-539)
  • ap√≥s o ex√≠lio, em Jerusal√©m, nos primeiros anos da reconstru√ß√£o (537 em diante): o Terceiro Isa√≠as (538-510), Ageu (¬Ī520) e Zacarias 1-8 (¬Ī520)

Há também profetas e livros proféticos de datação incerta, alguns provavelmente do período helenista: Malaquias, Zacarias 9-14, Abdias, Joel, Jonas, Baruc e Daniel.

 7 Antigo Testamento e Palavra de Deus

Para os cristãos, Cristo é a plenitude da revelação de Deus; em outras palavras, Cristo é a perfeita manifestação de Deus e nele, portanto, a revelação encontra seu cumprimento. A leitura cristã das Escrituras adotou esquemas substancialmente bíblicos para exprimir a relação entre os dois Testamentos, de modo a afirmar que o Novo termina o que o Antigo tinha começado. Tais esquemas são:

  • continuidade e descontinuidade (novidade);
  • prepara√ß√£o e cumprimento;
  • figura e realidade;
  • promessa e realiza√ß√£o.

Todavia, é um grave erro (heresia) afirmar que o Antigo Testamento só tem valor em função do Novo, ou que o Antigo é Palavra de Deus apenas porque é legitimado, completado e corrigido pelo Novo. Não!

O Antigo Testamento vale por si mesmo e é Palavra de Deus tanto quanto o Novo. Em outras palavras, o Antigo Testamento não depende do Novo para ser Palavra de Deus e  não é, em hipótese alguma, substituído pelo Novo. Ao contrário, o Novo se enraíza no Antigo, de tal modo que é necessário conhecer muito do Antigo Testamento para compreender um pouco do Novo!

Cássio Murilo Dias da Silva, PUC RS, Brasil. Texto original português.

8 Referências bibliográficas

GUIJARRO OPORTO, Santiago; SALVADOR GARC√ćA, Miguel (eds.). Coment√°rio ao Antigo Testamento. 2v. 3.ed. S√£o Paulo: Ave Maria, 2009.

R√ĖMER, Thomas; MACCHI, Jean-Daniel; NIHAN, Christophe (orgs.). Antigo Testamento – hist√≥ria, escritura e teologia. S√£o Paulo, Loyola, 2010.

ZENGER, Erich et alii. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2003. Bíblica Loyola, 36.

Para saber mais

CARMODY, Timothy R. Como ler a Bíblia. Guia para estudo. São Paulo: Loyola, 2008.

CHARPENTIER, √Čtienne. Para ler o Antigo Testamento. S√£o Paulo: Paulus, 1986. Entender a B√≠blia.

DRANE, John (org). Enciclop√©dia da B√≠blia. S√£o Paulo: Loyola ‚Äď Paulinas, 2009.

HARRINGTON, Wilfrid J. Chave para a Bíblia. 8.ed. São Paulo: Paulus, 1997. Biblioteca de Estudos Bíblicos.

SCHMID, Konrad. História da literatura do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2013. Bíblica Loyola, 65).

[1] ¬†¬† Na B√≠blia Hebraica, o livro de Rute pertence ao conjunto de livros denominados ‚ÄúMeguillot‚ÄĚ, e est√° no terceiro bloco de livros, isto √©, nos Escritos.