O movimento de Jesus

Sum√°rio

1 Definição

2 Fontes

3 Fases da pesquisa

4 Contexto histórico

5 Jesus antes da sua atividade p√ļblica

6 Soberania de Deus

7 Organização do MJ

8 Consequências da soberania divina

8.1 Espiritualidade

8.2 Curas

8.3 Economia

8.4 Poder

9 O julgamento de Jesus

10 Referências bibliográficas

1 Definição

O termo ‚Äúmovimento de Jesus‚ÄĚ (MJ) se estabeleceu na pesquisa b√≠blica principalmente a partir de impulsos oriundos da sociologia e da antropologia cultural. O conceito expressa um movimento religioso no juda√≠smo, que tinha como refer√™ncia central a pessoa de Jesus de Nazar√© e a proclama√ß√£o da soberania de Deus. Ainda que possa ser distinguido de outros movimentos ou grupos judaicos, a atividade do MJ n√£o estava em contraposi√ß√£o ao juda√≠smo. Jesus n√£o se entendeu como fundador de uma nova religi√£o. A separa√ß√£o do juda√≠smo e o desenvolvimento do cristianismo tiveram sua origem em acontecimentos p√≥s-pascais.

A defini√ß√£o de MJ pode variar, assim como a sua delimita√ß√£o temporal. Al√©m do per√≠odo da atividade p√ļblica de Jesus, √© poss√≠vel incluir os primeiros anos da protocomunidade de Jerusal√©m e da atividade de grupos mission√°rios itinerantes. Aqui restringiremos o MJ ao per√≠odo da atividade p√ļblica de Jesus at√© a sua morte. N√£o √© poss√≠vel determinar com exatid√£o o per√≠odo e a dura√ß√£o dessa atividade. Indica√ß√Ķes dos evangelhos, como ocorr√™ncia de esta√ß√Ķes de ano e da festa da p√°scoa, apontam para um per√≠odo entre um e tr√™s anos.

2 Fontes

A proclama√ß√£o e as a√ß√Ķes relacionadas ao MJ s√£o testemunhadas quase que exclusivamente nos evangelhos. Nas cartas paulinas, s√£o ex√≠guas as refer√™ncias diretas a palavras ou a a√ß√Ķes jesu√Ęnicas. A mesma situa√ß√£o se repete nos demais livros do Novo Testamento. Na obra do historiador judeu Fl√°vio Josefo h√° observa√ß√Ķes sobre Jesus. Algumas podem ser acr√©scimos posteriores, mas √© poss√≠vel que alguma refer√™ncia b√°sica provenha do autor. Embora raras, tamb√©m se encontram alus√Ķes em documentos romanos do in√≠cio do segundo s√©culo (T√°cito, Suet√īnio e Pl√≠nio, o Jovem). Em todo caso, a exist√™ncia hist√≥rica de Jesus de Nazar√© pode ser atestada a partir de escritos b√≠blicos e de fontes n√£o crist√£s.

A despeito de constitu√≠rem fontes primordiais para a pesquisa, os evangelhos n√£o foram elaborados como biografia ou registro hist√≥rico da atividade do MJ. Evangelhos s√£o narrativas que surgiram como recurso prec√≠puo para a miss√£o e a catequese crist√£. Marcos foi, muito provavelmente, o primeiro evangelho a ser redigido. Se a data√ß√£o, por volta do ano 70 dC, for adequada, h√° que se contar com um intervalo de cerca de 40 anos entre a morte de Jesus e a reda√ß√£o desse evangelho. Neste per√≠odo, as narrativas foram transmitidas de forma oral e em pequenos relatos escritos. No processo de transmiss√£o e de reda√ß√£o dos evangelhos podem ocorrer modifica√ß√Ķes nas narrativas. A exegese √© a √°rea da pesquisa que se ocupa com a cr√≠tica hist√≥rica e liter√°ria dos textos b√≠blicos.

 3 Fases da pesquisa

√Č comum sistematizar a pesquisa do Jesus hist√≥rico, respectivamente do MJ, em tr√™s grandes fases. As categoriza√ß√Ķes, entretanto, n√£o conseguem expressar a multiplicidade de abordagens e, na maioria dos casos, ficam restritas ao contexto europeu e norte-americano. Aproxima√ß√Ķes latino-americanas, africanas ou asi√°ticas normalmente n√£o s√£o consideradas. Tamb√©m n√£o se levam em conta as leituras populares, que pressup√Ķem pesquisa e constru√ß√£o de representa√ß√Ķes do MJ.

Apesar do enfoque cient√≠fico anglo-sax√£o, as sistematiza√ß√Ķes das fases da pesquisa demonstram que toda tentativa de reconstruir uma imagem do MJ √© parcial e subjetiva. Isto explica o fato de Jesus j√° ter sido caracterizado, entre outras designa√ß√Ķes, como messias sofredor, mestre da sabedoria, guia √©tico, profeta apocal√≠ptico, l√≠der carism√°tico, judeu marginal, taumaturgo, reformador social. As apresenta√ß√Ķes variam de acordo com o m√©todo, o contexto, o interesse e a parcialidade de quem investiga. Os pr√≥prios relatos b√≠blicos n√£o est√£o imunes ao desenvolvimento teol√≥gico, al√©m de n√£o noticiarem toda a atividade do MJ, mas somente aquilo que foi considerado mais significativo. Neste sentido, a pesquisa hist√≥rica se caracteriza mais pela probabilidade do que pela certeza. N√£o se pode afirmar: ‚Äúassim aconteceu‚ÄĚ; mas somente dizer: ‚Äúassim pode ter acontecido‚ÄĚ.

 4 Contexto histórico

O cen√°rio da atividade do MJ era a Terra de Israel. A administra√ß√£o romana utilizava o termo Palestina, enquanto em escritos judaicos encontra-se a designa√ß√£o Judeia. A maioria da popula√ß√£o, estimada em um milh√£o de habitantes, vivia em pequenas cidades e aldeias, que tinham entre 500 e 2.000 habitantes. A base da economia era a agricultura familiar. Na regi√£o costeira e em torno do lago de Genesar√©, tamb√©m chamado de mar da Galileia ou mar de Tiber√≠ades, a pescaria era uma importante atividade econ√īmica.

A Terra de Israel estava ocupada militarmente pelo Imp√©rio Romano desde 63 aC. Esse Imp√©rio, cuja capital era Roma, abrangia territ√≥rios em tr√™s continentes: Europa, √Āsia Menor e √Āfrica. O extenso dom√≠nio estava baseado em um poderoso aparato militar. A assim chamada paz romana ‚Äď per√≠odo de relativa estabilidade nos territ√≥rios dominados e nas fronteiras do Imp√©rio ‚Äď era mantida com o rigor da espada. Os romanos permitiam que a administra√ß√£o local fosse conduzida por reis vassalares, denominados s√≥cios ou clientes. Herodes, o Grande, governava a Palestina quando Jesus nasceu (Mt 2,1). Muito h√°bil, ele conseguia manter boas rela√ß√Ķes com os imperadores romanos. Internamente, preservava a ordem com for√ßa militar e rede de espionagem bem organizada. Revoltas eram combatidas com rigor e viol√™ncia. Ap√≥s a sua morte, a Terra de Israel foi dividida entre tr√™s filhos: Arquelau (regi√Ķes da Judeia, Idumeia e Samaria), Herodes Antipas (Galileia e Pereia) e Filipe (Transjord√Ęnia do Norte).

Por causa da not√°vel crueldade, Arquelau foi chamado a Roma e destitu√≠do do cargo. Sua √°rea de dom√≠nio foi entregue a procuradores romanos. Dos sete procuradores que governaram a Judeia entre os anos 6 e 41 dC, Pilatos √© o √ļnico do qual temos algumas informa√ß√Ķes. O MJ de Jesus atuava sobretudo na pequena regi√£o da Galileia, comandada por Herodes Antipas (Mc 6,14; Lc 3,1). Para a √©poca, estima-se que a regi√£o tivesse em torno de 200.000 habitantes. Mesmo que n√£o fosse t√£o cruel como o irm√£o, Antipas n√£o hesitava em tirar do caminho quem o incomodasse (Mc 6,16). Grupos revoltosos ou de oposi√ß√£o eram aniquilados logo em seu nascedouro. O fato de evitar as grandes cidades poderia ser uma medida de preven√ß√£o do MJ diante de amea√ßas deste soberano (Lc 13,31).

5 Jesus antes da sua atividade p√ļblica

De acordo com o evangelista Lucas, a fam√≠lia de Jesus morava em Nazar√© e foi para Bel√©m por ocasi√£o de um censo (Lc 2,1-7). O evangelho de Mateus, que n√£o menciona o censo, d√° a entender que a fam√≠lia de Jesus morava em Bel√©m e se estabeleceu em Nazar√© somente ap√≥s a fuga para o Egito (Mt 2,19-23). Ambos informam que Jesus nasceu em Bel√©m (Lc 2,1-7; Mt 2,19-23). O cristianismo assumiu esta tradi√ß√£o e a cultiva at√© hoje, mas boa parte da pesquisa b√≠blica aposta em Nazar√© como local de nascimento. Seja como for, Jesus cresceu e provavelmente passou a maior parte da sua vida em Nazar√©. Por isto foi chamado de Nazareno e Jesus de Nazar√© (Mc 10,47; Lc 24,19; Mt 21,11; At 10,38). Como o pai, ele exerceu o of√≠cio de carpinteiro (Mc 6,3). Entre as fun√ß√Ķes de um carpinteiro, na √©poca, contavam a constru√ß√£o de casas e estruturas de madeira, a fabrica√ß√£o de pe√ßas de mobili√°rio, ferramentas e arados.

A atividade p√ļblica de Jesus inicia ap√≥s contato com Jo√£o Batista. Jo√£o pregava o arrependimento e batizava junto ao rio Jord√£o (Mt 13,1-12). Jesus se submeteu ao batismo e, algum tempo depois, passou a se dedicar ao an√ļncio do reino de Deus (Mc 1,9-11). De acordo com Lucas, ele teria mais ou menos 30 anos de idade (Lc 3,21-23). √Č poss√≠vel que Jesus tivesse passado algum tempo com o Batista, mas n√£o h√° indica√ß√£o clara a respeito. Jo√£o tinha um c√≠rculo de adeptos e era muito conhecido, a ponto de Jesus ter sido visto como o Jo√£o Batista redivivo (Mt 9,14; Mc 6,14ss; Lc 9,7ss).

 6 Soberania de Deus

A atividade do MJ foi caracterizada pela proclama√ß√£o do reino de Deus, termo que √© mencionado mais de 100 vezes nos evangelhos. Mateus utiliza como correspond√™ncia a express√£o ‚Äúreino dos c√©us‚ÄĚ. Reino de Deus √© a tradu√ß√£o mais comum para o sintagma grego basileia to theou, mas tamb√©m se pode usar as express√Ķes ‚Äúsoberania de Deus‚ÄĚ ou ‚Äúdom√≠nio de Deus‚ÄĚ. Estas alternativas s√£o at√© mais adequadas, pois possuem menor conota√ß√£o geogr√°fico-espacial e maior amplitude temporal. Soberania de Deus inclui a dimens√£o futura e tamb√©m possibilita falar de sua realiza√ß√£o no presente. A soberania de Deus acontece ali onde Deus exerce o dom√≠nio, onde pessoas se sujeitam √† sua vontade. Assim, o ‚Äúreino de Deus‚ÄĚ pode ser anunciado como muito pr√≥ximo (Mc 1,15), como realidade j√° manifesta (Lc 11,20) ou que ainda est√° por vir (Mt 6,10; Lc 13,29). Jesus possivelmente entendeu a soberania de Deus como uma grandeza din√Ęmica, na qual o presente e o futuro est√£o unidos, da mesma maneira que a semente est√° ligada √† planta (Mt 13,31-33).

A expectativa do estabelecimento pleno do dom√≠nio de Deus era elemento fundamental da escatologia judaica. Ao anunciar a vinda eminente do reinado de Deus, o MJ falava de um ideal conhecido. As concep√ß√Ķes n√£o eram uniformes, por√©m havia pontos de conflu√™ncia, especialmente no tocante √† expectativa de que o estabelecimento pleno da soberania divina traria um tempo de paz integral, alegria e abund√Ęncia. Nesse tempo, Deus colocar√° fim ao dom√≠nio estrangeiro e reger√° seu povo com paz e justi√ßa. A domina√ß√£o de Deus ser√° completa e infinita sobre toda a cria√ß√£o.

A concretiza√ß√£o do dom√≠nio de Deus era, em boa parte, vinculada √† a√ß√£o de um messias. A palavra messias significa ‚Äúungido‚ÄĚ. Inicialmente, a un√ß√£o fazia parte do cerimonial de entroniza√ß√£o de reis e servia como legitima√ß√£o para o exerc√≠cio do poder (1Sm 10,1; 2Sm 5,3). Em algumas tradi√ß√Ķes, o termo messias (ungido) tamb√©m aparece ligado a sacerdotes (Ex 29,1-7; Zc 6,13). Nos √ļltimos s√©culos antes da era comum, o termo messias ganhou conota√ß√£o de uma figura salv√≠fica escatol√≥gica. Com a vinda do messias iniciaria o tempo da salva√ß√£o. ‚ÄúCristo‚ÄĚ √© a palavra grega que corresponde ao hebraico ‚Äúmessias‚ÄĚ (Jo 1,41). Quando Pedro declara que Jesus √© o Cristo (Mc 8,29), est√° dizendo que Jesus √© o Messias, aquele que inicia o novo tempo. A rigor, a designa√ß√£o seria ‚ÄúJesus, o Cristo‚ÄĚ ou ‚ÄúJesus, o Messias‚ÄĚ (Mt 1,16; At 5,42).

 7 Organização do MJ

¬†O cerne do MJ estava constitu√≠do por um grupo itinerante, que andava por aldeias e pequenas cidades da Galileia proclamando a vinda da soberania de Deus. O n√ļmero de doze disc√≠pulos √© uma representa√ß√£o simb√≥lica da reconstitui√ß√£o de Israel e n√£o indica o n√ļmero exato de seguidores de Jesus. O grupo itinerante era mais amplo, por√©m dificilmente superior a duas dezenas. Locomo√ß√£o, hospedagem e alimenta√ß√£o n√£o seriam vi√°veis com um grupo muito grande. A ades√£o poderia se dar pelo chamado de Jesus ou pela atitude volunt√°ria das pessoas (Mc 1,16-20; 10,52; Lc 9,57; Jo 1,43).

A investiga√ß√£o sobre a participa√ß√£o feminina no MJ √© dificultada pela linguagem androc√™ntrica, que silencia as mulheres ou as inclui nas refer√™ncias a homens. Em textos antigos, uma alus√£o a pessoas no masculino poderia incluir ou n√£o mulheres. Apesar disso, e da escassa base textual, √© poss√≠vel dizer que mulheres pertenceram ao MJ. Algumas mulheres citadas no relato da crucifica√ß√£o podem ser identificadas como seguidoras de Jesus desde a Galileia: Maria de Magdala; Maria, m√£e de Tiago e Jos√©; Salom√© (Mc 15,40s). Textos de tradi√ß√Ķes diferentes indicam que Maria de Magdala foi a primeira pessoa com a qual Jesus falou ap√≥s ressurgir (Jo 20,14-18; Mt 28,1-10; Mc 16,9-11). Chama a aten√ß√£o que esta informa√ß√£o √© omitida pelo ap√≥stolo Paulo (1Co 15,5-8).

As exig√™ncias da vida itinerante s√£o extremas: abandono da fam√≠lia e do trabalho, ren√ļncia a elementos b√°sicos de subsist√™ncia e prote√ß√£o (Mc 1,16-20; 2,13s; Lc 9,3). Esta condi√ß√£o, que pode ser resumida com a frase ‚Äútudo deixamos e te seguimos‚ÄĚ (Mc 10,28), foi denominada de radicalismo itinerante. Talvez a ruptura n√£o tenha sido t√£o radical como sugerem alguns estudos, mas √© poss√≠vel dizer que pessoas renunciaram, parcial ou completamente, a suas ocupa√ß√Ķes cotidianas para seguir Jesus. Ainda que nem sempre houvesse um local para ficar ou algo para comer (Mt 12,1; 21,18; Lc 9,58), a hospitalidade foi decisiva na atividade do MJ. Jesus e o seu grupo recebiam provis√£o e cuidado de uma rede de mecenas, constitu√≠da pelo c√≠rculo familiar e de amizades e tamb√©m por simpatizantes. De acordo com Jo 12,6 e 13,29, o grupo itinerante tinha um caixa comum, possivelmente composto por doa√ß√Ķes (Lc 8,3).

N√£o seria adequado restringir o MJ ao grupo que deixou seus afazeres para seguir Jesus em suas andan√ßas. Tamb√©m em suas liga√ß√Ķes cotidianas as pessoas s√£o desafiadas a viver sob os princ√≠pios da soberania de Deus. Portanto, o MJ engloba o grupo itinerante e as pessoas que aderiam √†s convic√ß√Ķes sobre o dom√≠nio de Deus, proclamadas por Jesus. O encontro com a mulher de origem siro-fen√≠cia (Mc 7,24-30) revela certa resist√™ncia a pessoas que n√£o pertenciam ao povo de Israel, mas n√£o se pode dizer que eram exclu√≠das. Talvez a posi√ß√£o de Jesus possa ter se modificado de uma perspectiva √©tnica restrita a Israel para uma vis√£o mais abrangente (Mt 8,11).

8 Consequências da soberania divina

Como grandeza din√Ęmica, que abarca presente e futuro, o dom√≠nio de Deus traz implica√ß√Ķes para as pessoas e a sociedade. Ele abrange todas as dimens√Ķes da vida e se manifesta, por exemplo, nos seguintes aspectos:

8.1 Espiritualidade

Em casas, nas sinagogas e no templo, atrav√©s da leitura das escrituras sagradas, de ora√ß√Ķes e c√Ęnticos, o MJ se nutria e estimulava a viv√™ncia da espiritualidade. Espiritualidade √© mais do que ora√ß√£o e contempla√ß√£o. Ela √© viv√™ncia da f√© e envolve a dimens√£o pessoal, comunit√°ria (no sentido de um grupo religioso) e social (todas as rela√ß√Ķes sociais). A ora√ß√£o √© elemento caracter√≠stico da rela√ß√£o entre o povo e Deus e tamb√©m marcou a atividade do MJ. Jesus se retirou para orar a s√≥s (Mt 14,23; 26,39) e ensinou uma ora√ß√£o ao seu grupo (Mt 6,9-13; Lc 11,1-4). O Pai-Nosso √© um resumo da pr√°tica e da prega√ß√£o de Jesus. As tr√™s primeiras peti√ß√Ķes estabelecem as prerrogativas divinas: santifica√ß√£o do seu nome, estabelecimento do seu reino, cumprimento da sua vontade. Nas peti√ß√Ķes seguintes, a pessoa manifesta que n√£o est√° sozinha, nem pede apenas para si: os pedidos est√£o no plural, indicando o car√°ter comunit√°rio da f√©.

 8.2 Curas

Curas e exorcismos desempenharam papel importante na atividade do MJ. A restaura√ß√£o da sa√ļde e do conv√≠vio social eram interpretados como sinais de que o mal estava sendo vencido e que o dom√≠nio de Deus estava se estabelecendo (Lc 7,22; 11,20). Os evangelhos relatam que Jesus n√£o utilizava curas e outros sinais como meio de propaganda, nem requeria o seguimento ap√≥s uma cura. Em muitos casos, a pessoa √© solicitada a ir para casa e n√£o contar a ningu√©m (Mc 7,36; 8,26; Lc 14,4). A f√© aparece como elemento central em relatos de cura (Mt 9,29; 15,28; Mc 5,34), mas nem todos eles dizem algo sobre a f√© das pessoas doentes. Isto √© indicativo que Jesus curava sem estabelecer condi√ß√Ķes. Curas e exorcismos eram demonstra√ß√£o de amor e compaix√£o (Mc 1,41).

8.3 Economia

Embora a proclama√ß√£o da soberania de Deus seja dirigida a todas as pessoas, o MJ tinha uma vincula√ß√£o especial com estratos mais empobrecidos e grupos √† margem da sociedade (Mt 11,5; Lc 4,18-21; 6,20). Por oponentes, Jesus foi caracterizado como ‚Äúamigo de publicanos e pecadores‚ÄĚ (Mt 11,19; Lc 7,34). Possivelmente as pessoas discriminadas e menos privilegiadas mostravam mais receptividade √† mensagem do MJ do que representantes do status quo religioso e pol√≠tico.

Discursos jesu√Ęnicos s√£o marcados por cr√≠ticas a pessoas ricas e √† riqueza (Mc 10,23; Lc 6,24-26; 8,14; 12,13-21; 16,19-31). O dinheiro √© um poder estranho e oposto ao dom√≠nio de Deus (Mt 6,24). Enquanto a economia dominante estava baseada na gan√Ęncia e no ac√ļmulo (Lc 12,13-21), o MJ prega o perd√£o das d√≠vidas (Mt 18,23ss) e o desapego ao dinheiro (Mt 6,19-21). Pessoas pobres e famintas s√£o chamadas de bem-aventuradas e recebem a promessa de que a fome ser√° substitu√≠da pela satisfa√ß√£o no reino de Deus (Lc 6,20s). Al√©m de assegurar que Deus acolhe as pessoas necessitadas, a promessa √© tamb√©m um apelo √©tico que motiva a partilha.

 8.4 Poder

As posi√ß√Ķes pol√≠ticas do MJ geralmente se mostram de forma velada ou indireta. Isto tinha um motivo: cr√≠tica pol√≠tica, protestos ou a√ß√Ķes revolucion√°rias eram duramente combatidos. A presen√ßa de um poder pol√≠tico estrangeiro contrariava a concep√ß√£o da terra de Israel como propriedade divina (Lv 25,23). Assim, mesmo que n√£o fosse diretamente tematizada, a expectativa de liberta√ß√£o do jugo romano estava impl√≠cita na proclama√ß√£o da soberania de Deus. Sob esta perspectiva, a resposta de Jesus na quest√£o do pagamento dos impostos (Mc 12,13-17) tem consequ√™ncias pol√≠ticas. A declara√ß√£o ‚Äúdai a C√©sar o que √© de C√©sar‚ÄĚ pode significar devolver todos os den√°rios, o s√≠mbolo da domina√ß√£o. ‚ÄúDar a Deus o que √© de Deus‚ÄĚ, por outro lado, pode significar devolver a terra de Israel, o que equivale a uma rejei√ß√£o do dom√≠nio romano. No julgamento de Jesus, a quest√£o do imposto √© associada com a acusa√ß√£o de agita√ß√£o pol√≠tica (Lc 23,2ss).

Diferente de grupos que estavam dispostos a lutar em guerra santa para libertar Israel, o MJ manifesta uma convic√ß√£o de ren√ļncia √† viol√™ncia. Mas √© poss√≠vel que internamente houvesse opini√Ķes e expectativas divergentes. Pelo menos no tocante ao papel do messias parece ter havido disson√Ęncia entre a perspectiva de Pedro e a compreens√£o de Jesus: o disc√≠pulo n√£o esperava por um messias que pudesse sofrer (Mt 16,21ss).

A chegada da soberania de Deus transfigura os valores das rela√ß√Ķes de poder. Enquanto os ‚Äúmaiorais‚ÄĚ abusam do poder e dele fazem uso para benef√≠cio pessoal, no reino de Deus o poder s√≥ existe como servi√ßo √†s pessoas (Mc 10,42-45). O princ√≠pio do servir requer um movimento de dentro para fora. Quem aceita os princ√≠pios da soberania divina, assume uma nova forma de vida: ‚Äúentre v√≥s n√£o √© assim‚ÄĚ (Mc 10,43). A a√ß√£o das pessoas que se sujeitam ao dom√≠nio de Deus tem car√°ter exemplar e visa a uma mudan√ßa da situa√ß√£o. Mesmo assim, a a√ß√£o humana n√£o pode apressar a vinda do reino. A soberania de Deus se estabelecer√° por definitivo no tempo que Ele mesmo determinar (Lc 17,20s).

9 O julgamento de Jesus 

No processo contra Jesus h√° a participa√ß√£o de diversos atores: autoridades judaicas, administra√ß√£o romana, pessoas do povo. Do ponto de vista t√©cnico, o processo e a pena estavam adequados √†s normas do Imp√©rio Romano. A crucifica√ß√£o era pena imposta a pessoas consideradas subversivas e condenadas por crime pol√≠tico. A acusa√ß√£o ‚ÄúRei dos Judeus‚ÄĚ, colocada sobre a cruz (Mc 15,26), indica que Jesus representava uma amea√ßa para a administra√ß√£o romana. Uma parcela do povo e das autoridades judaicas empenhou-se na sua condena√ß√£o. Jesus entrou em conflito com autoridades judaicas no tocante √† interpreta√ß√£o da lei mosaica e na cr√≠tica ao templo (Mc 14,55ss). Mas as autoridades tamb√©m devem ter considerado o fator pol√≠tico, visto que eram respons√°veis por preservar a ordem e a estabilidade. A parcela da popula√ß√£o que pediu a crucifica√ß√£o talvez fosse composta por habitantes de Jerusal√©m que n√£o gostaram das palavras sobre o templo (Mc 13,1s). Muitas pessoas dependiam economicamente do templo e poderiam ver nisso uma amea√ßa √† sua sobreviv√™ncia. Em todo caso, n√£o se pode colocar a responsabilidade sobre o povo judeu. Pilatos, o procurador romano, tinha a √ļltima palavra. Ele decidiu pela crucifica√ß√£o por entender que Jesus subvertia a estabilidade pol√≠tica.

Emilio Voigt.¬†Coordenador do N√ļcleo de Produ√ß√£o e Assessoria da IECLB – Porto Alegre¬†(Brasil). Texto original portugu√™s.

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