Pentateuco

Sum√°rio

Introdução

1 O Livro do Gênesis

2 O Livro do Êxodo

3 O Livro do Levítico

4 O Livro dos N√ļmeros

5 O Livro do Deuteron√īmio

6 Considera√ß√Ķes finais

7 Referências bibliográficas

 Introdução

O Pentateuco, contendo os primeiros cinco livros da B√≠blia (G√™nesis, √äxodo, Lev√≠tico, N√ļmeros e Deuteron√īmio), funciona como uma ‚Äúlocomotiva‚ÄĚ que, ao inv√©s de puxar, empurra e faz avan√ßar todo o Antigo Testamento. Nesses livros se encontram os fundamentos normativos e pedag√≥gicos da trajet√≥ria hist√≥rica do antigo Israel, sob a condu√ß√£o de um grande l√≠der e protagonista humano ao lado de Deus: Mois√©s. Os crist√£os, al√©m de herdar o Pentateuco, tamb√©m herdaram a ideia de ‚Äúlocomotiva‚ÄĚ que est√° presente na din√Ęmica normativa e pedag√≥gica dos cinco primeiros livros (Mateus, Marcos, Lucas, Jo√£o e Atos) que empurram e fazem avan√ßar o Novo Testamento sob a condu√ß√£o do verdadeiro Deus e verdadeiro Homem protagonista de toda a Hist√≥ria da Salva√ß√£o: Jesus Cristo.

Os livros do Pentateuco constituem um conjunto que reuniu v√°rias tradi√ß√Ķes e s√£o tidos, por judeus e crist√£os, como a heran√ßa que Mois√©s deixou para todo o povo eleito. Na tradi√ß√£o judaica, os cinco primeiros livros s√£o chamados de Tor√° (‚Äúlei-instru√ß√£o-ensinamento‚ÄĚ). As vers√Ķes latinas, em particular a Vetus Latina e a Vulgata, adotaram a nomenclatura grega (Pent√°teuchos = ‚Äúcinco rolos‚ÄĚ ou ‚Äúcinco inv√≥lucros/estojos‚ÄĚ) que passou para as vers√Ķes modernas das B√≠blias em l√≠nguas vern√°culas. Por isso, esses livros s√£o chamados de Pentateuco na tradi√ß√£o crist√£.

A divis√£o atual em cinco livros, no dizer dos judeus: ‚Äúcinco quintos da Tor√°‚ÄĚ (hamiŇ°ńĀ humŇ°√™ hatŇćr√Ę), de onde deriva a tradu√ß√£o grega Pentateuco, √© uma divis√£o muito pr√°tica. Os judeus, ao inv√©s de um √ļnico rolo de pergaminho, preferiram cinco rolos menores, mais f√°ceis de serem manuseados, transportados, conservados e reescritos quando se fazia necess√°rio.

Em hebraico, cada uma das cinco partes, ou ‚Äúrolos‚ÄĚ, do primeiro corpus liter√°rio da B√≠blia, √© designada pela primeira palavra importante do seu texto: berńďŇ°√ģt (‚Äúno princ√≠pio‚ÄĚ); shem√īt (‚Äúnomes‚ÄĚ); wayyiqrńĀ‚Äô (‚Äúe chamou‚ÄĚ); bemidbar (‚Äúno deserto‚ÄĚ); haddebńĀr√ģm (‚Äúas palavras‚ÄĚ). J√° os judeus, residentes em Alexandria e respons√°veis pela tradu√ß√£o grega das Escrituras, designaram esses livros com nomes que, de algum modo, fossem capazes de ajudar a lembrar o conte√ļdo de cada livro: G√©nesis (G√™nesis), porque trata das origens do mundo, das criaturas, do ser humano e dos antepassados do antigo Israel; √Čxodos (√äxodo), porque trata da sa√≠da do Egito; Leuitik√≥n (Lev√≠tico), porque trata da legisla√ß√£o relativa a tudo que envolve o culto; Arithmoi (N√ļmeros), porque trata do recenseamento dos filhos de Israel no deserto; Deuteron√≥mion (Deuteron√īmio), porque trata da ‚Äúsegunda lei‚ÄĚ ou da ‚Äúc√≥pia da lei‚ÄĚ (cf. Dt 17,18), que Mois√©s deu aos filhos de Israel nas plan√≠cies de Moab, antes de entrarem na terra prometida, e que completariam as prescri√ß√Ķes recebidas no Sinai.

A divis√£o em cinco quintos n√£o foi casual, mas foi realizada criando pontos de ruptura e de sutura entre o final e o in√≠cio de cada livro. O gr√°fico abaixo permite uma visualiza√ß√£o mais clara dessa afirma√ß√£o. In√≠cio e final de cada livro se correspondem. A dupla promessa, a da descend√™ncia numerosa e a da terra boa e f√©rtil, √© um fio condutor importante. As cita√ß√Ķes n√£o s√£o exaustivas, mas apenas exemplos.

G√™nesis √äxodo Lev√≠tico N√ļmeros Deuteron√īmio
Gn 1,1

Gn 3,15 sinal de esperança

Ex 1,8

Inicia com José

Lv 1,1

Inicia com a Tenda

Nm 1,1

Inicia com a Tenda

Dt 1,1-5

Inicia com Moab

Promessa da prole numerosa

Gn 1,26-28

Gn 9,1.6-7

Gn 15,5

Gn 16,10

Gn 17,2.20

Gn 22,17

Gn 47,27

Gn 48,4

Promessa da prole numerosa

Ex 1,7.10.12.20

Ex 32,13

Promessa da prole numerosa

Lv 26,9

Promessa da prole numerosa

Nm 26,54

Nm 33,54

Nm 35,8

Promessa da prole numerosa

Dt 1,10

Dt 6,3

Dt 7,13

Dt 8,1.13

Dt 11,21

Dt 13,18

Dt 28,63

Dt 30,5.16

Terra prometida

Gn 12,7

Gn 15,7.18

Gn 24,7

Gn 26,3

Gn 48,4

Gn 50,24

Terra prometida

Ex 3,8.17

Ex 6,4

Ex 13,5.11

Ex 32,13

Ex 33,1.3

Terra prometida

Lv 14,34

Lv 18,3

Lv 20,24

Lv 25,24.38

Terra prometida

Nm 13,2.17.32

Nm 14,8.23

Nm 15,2

Nm 16,14

Nm 32,11

Nm 34,2

Terra prometida

Dt 1,35

Dt 3,18

Dt 9,4

Dt 10,11

Dt 26,9

Dt 34,4

Temas centrais:

Origens (criação, queda, restauração)

Patriarcas:

(Abraão, Isaac e Jacó)

Temas centrais:

Servid√£o

Libertação

Êxodo

Marcha

Sinai

Temas centrais:

Sacrifícios

Rituais

Fun√ß√Ķes sacerdotais

Temas centrais:

Recenseamento

Marcha pelo deserto: de Cades Barnea às estepes de Moab

Temas centrais:

No dia da morte de Mois√©s: discursos e instru√ß√Ķes;

B√™n√ß√£os e Maldi√ß√Ķes

Gn 50,26

termina com José

Ex 40,34-35 termina com a Tenda Lv 27,34

termina com a Tenda

Nm 36,13

termina com Moab

Dt 34,1-12

termina com Moab

A principal quest√£o disputada e que empenha grande n√ļmero de estudiosos do Pentateuco se concentra na compreens√£o do seu dif√≠cil processo de forma√ß√£o. Para uma vis√£o mais ampla e aprofundada da problem√°tica (R√ĖMER ‚Äď MACCHI ‚Äď NIHAN: 2010, p.85-143). Resulta √ļtil uma compara√ß√£o do t√≥pico ‚ÄúComposi√ß√£o liter√°ria‚ÄĚ na introdu√ß√£o ao Pentateuco da antiga (1973) e da nova (2002) edi√ß√£o da B√≠blia de Jerusal√©m.

Segue-se, apenas, uma breve síntese do problema sobre o processo de formação:

Ponto de partida: 1) hip√≥tese dos Documentos: na base do Pentateuco se percebem duas, tr√™s ou mais tramas narrativas cont√≠nuas (‚Äúfontes‚ÄĚ ou ‚Äúdocumentos‚ÄĚ) que foram redigidas em √©pocas diferentes e com ideologias diferentes. No final, teriam sido justapostas ou imbricadas umas √†s outras por redatores sucessivos. 2) hip√≥tese dos Fragmentos: √© uma rea√ß√£o √† hip√≥tese anterior; sup√Ķe que tenha existido, originalmente, um n√ļmero indeterminado de relatos esparsos e de textos isolados sem alguma continuidade narrativa. Estes teriam sido reunidos ulteriormente por um ou v√°rios redatores-compositores. 3) hip√≥tese dos Complementos: tentativa de conciliar os dois precedentes, admitindo que, inicialmente, houve uma trama narrativa b√°sica e cont√≠nua que, ao longo dos s√©culos, recebeu acr√©scimos e complementos.

Por quase um s√©culo, prevaleceu o modelo dos Documentos-Fontes (J. Wellhausen; G. Von Rad; M. Noth; H. Gunkel). Este explicava a origem do Pentateuco pela fus√£o de quatro documentos que tiveram origem independente: Javista (‚ÄúJ‚ÄĚ) do s√©culo X aC, oriundo no reino do sul; Elohista (‚ÄúE‚ÄĚ) do s√©culo VIII aC, oriundo no reino do norte; Deuteronomista (‚ÄúD‚ÄĚ) do s√©culo VII aC, oriundo no reino do sul; Sacerdotal (‚ÄúP‚ÄĚ) dos s√©culos VI-V aC, iniciado com exilados na Babil√īnia e conclu√≠do em Jerusal√©m.

Desde os prim√≥rdios, este modelo interpretativo recebeu muitas cr√≠ticas, e a partir de 1970 foi fortemente abalado, sendo retomado, em grande parte, o modelo dos Fragmentos com uma nova configura√ß√£o (R. Rendtorff; E. Blum). Segundo esse modelo, a primeira coisa a fazer √© abandonar, peremptoriamente, o modelo dos Documentos-Fontes, e retomar os estudos partindo das grandes unidades liter√°rias (Gn 1‚Äď11; 12‚Äď50; Ex 1‚Äď15; 19‚Äď24; 16‚Äď18 + Nm 11‚Äď20; Nm 21‚Äď36). O Pentateuco, ent√£o, resultaria de trabalho redacional, mas principalmente de duas composi√ß√Ķes: uma sacerdotal (KP) e uma deuteronomista (KD), ambas p√≥s-ex√≠licas.

Diante do conturbado momento e dos impasses das pesquisas, outros estudiosos (P. Weimar; E. Zenger) t√™m se voltado para o que restou do modelo dos Documentos-Fontes e do que resultou das novas pesquisas do modelo dos Fragmentos. De certa forma, √© uma retomada do modelo dos Complementos, pelo qual se tenta formular uma compreens√£o do processo de forma√ß√£o do Pentateuco, considerando que √© poss√≠vel admitir uma historiografia pr√©-ex√≠lica no in√≠cio do s√©culo VII aC. (‚ÄúObra Jerusalimitana de Hist√≥ria‚ÄĚ), que foi ampliada por m√£os leigas, durante o ex√≠lio na Babil√īnia (‚ÄúObra Ex√≠lica de Hist√≥ria‚ÄĚ) e reinterpretada por m√£os sacerdotais (‚ÄúObra Sacerdotal de Hist√≥ria‚ÄĚ), imediatamente ap√≥s o ex√≠lio, pelos que regressaram em 520 aC para restaurar o templo de Jerusal√©m. Finalmente, essas duas obras (ampliadas e reinterpretadas) foram fundidas na segunda metade do s√©culo V aC (‚ÄúGrande Obra p√≥s-ex√≠lica de Hist√≥ria), resultando numa obra muito ampla e abrangente: de G√™nesis a Reis (Eneateuco). Dessa obra, o escriba e sacerdote Esdras separou os cinco primeiros livros e os promulgou como Tor√°, marcando o surgimento da nova forma religiosa, juda√≠smo, no momento em que se criava a Prov√≠ncia persa de Jud√°. Com a separa√ß√£o, surgiu um novo bloco de livros: Josu√© ‚Äď Reis que recebeu mais tarde a denomina√ß√£o de Profetas anteriores.

No momento, n√£o h√° um consenso entre os estudiosos e n√£o surgiu um novo modelo capaz de se impor como aconteceu com o modelo dos Documentos-Fontes. O Javista e o Elohista, por exemplo, que eram considerados ‚Äúfontes‚ÄĚ s√£o denominados de tradi√ß√Ķes. Ultimamente, prefere-se trabalhar apenas com a leitura sincr√īnica e explicar os textos a partir da sua forma final e can√īnica. √Č uma opera√ß√£o v√°lida, mas existem muitas quest√Ķes diacr√īnicas que n√£o podem ser ignoradas e exigem a combina√ß√£o de ambos os procedimentos metodol√≥gicos.

1 O livro do Gênesis

Este livro aborda temas universais: trata das origens do mundo, do surgimento do ser humano, do seu pecado e desventuras. Este contexto serviu para introduzir a hist√≥ria dos antepassados de Israel, segundo uma din√Ęmica familiar, falando da hist√≥ria que se desenvolve com Abra√£o, Isaac, Jac√≥ e Jos√©. Este √© o elo entre o final do G√™nesis e o in√≠cio do √äxodo. As ‚Äúhist√≥rias‚ÄĚ dos antepassados s√£o ciclos narrativos que, inicialmente, tiveram origem independente e s√≥ mais tarde foram unificados, servindo de fundamento para se falar das origens do antigo Israel.

O livro pode ser dividido em dois grandes blocos: Gn 1‚Äď11 e Gn 12‚Äď50.

Gn 1‚Äď11 √©, comumente, chamado de ‚ÄúHist√≥ria Primeva‚ÄĚ, porque seu conte√ļdo √© universal e retrata os prim√≥rdios da humanidade. Estes onze cap√≠tulos s√£o narra√ß√Ķes amalgamadas, inspiradas nas mitologias mesopot√Ęmicas, nas quais se objetiva fazer uma reflex√£o e dar uma explica√ß√£o teol√≥gica sobre as origens do ser humano, apoiada em dois pilares: a) Quem √© Deus e o seu agir: justo e fiel √† sua cria√ß√£o, em particular ao ser humano; b) Quem √© o ser humano e o seu agir: infiel na sua rela√ß√£o com Deus e com o seu semelhante. Ao lado disso, figuram as principais institui√ß√Ķes humanas (o matrim√īnio, as l√≠nguas, as divis√Ķes √©tnicas, as culturas de subsist√™ncia, a elabora√ß√£o dos metais, o confronto entre o campo e o urbano), e o seu caminho rumo √† concretiza√ß√£o do seu destino.

A perspectiva universalista presente em toda a narrativa serve de fundamenta√ß√£o para a hist√≥ria do antigo Israel, que, a partir da voca√ß√£o de Abra√£o, encontra-se inserida no contexto da hist√≥ria humana universal. Esta, por sua vez, est√° inserida no relato da cria√ß√£o do mundo, qual ambiente favor√°vel para o surgimento e desenvolvimento da ra√ßa humana. O tema principal e dominante de Gn 1‚Äď11 √© o da origem de todas as coisas pelas m√£os de um Deus √ļnico que fez, disp√īs e mant√©m a sua cria√ß√£o como previdente e providente. Ao lado do tema principal, a narrativa quer mostrar como o ser humano, pelo pecado dos seus progenitores (cf. Gn 3,1-24), est√° cada vez mais se distanciando de Deus criador e de seu plano de amor.

O relato do dil√ļvio (cf. Gn 6,5‚Äď9,17), por exemplo, serve para avolumar a condi√ß√£o humana ap√≥s o pecado, mas segundo dimens√Ķes c√≥smicas que, desde o in√≠cio, demonstram que apenas Deus pode criar e destruir o mundo. √Č um modo para denotar o dom√≠nio divino e para dizer que o ser humano n√£o tem a √ļltima palavra sobre a realidade. A destrui√ß√£o da humanidade no caos de um dil√ļvio com propor√ß√Ķes universais tem a ver com as propor√ß√Ķes universais que foram desencadeadas pela desobedi√™ncia dos progenitores da humanidade. De algum modo, o dil√ļvio fez a cria√ß√£o voltar √† precedente situa√ß√£o das origens, mas permitiu que tudo tivesse um novo in√≠cio com No√©, a sua fam√≠lia e os animais salvos na arca. Com isso, chega-se √† inten√ß√£o principal: a voca√ß√£o e a miss√£o de Abra√£o, pelas quais o antigo Israel surge e se torna um povo.

Gn 11,27‚Äď50,26 descreve as origens do antigo Israel, mostrando como Deus criou e elegeu este povo atrav√©s da realiza√ß√£o do seu favor aos antepassados, dando-lhes um novo destino humano com a promessa da descend√™ncia numerosa e da terra boa e f√©rtil. Abra√£o, Isaac, Jac√≥ e Jos√© representam quatro gera√ß√Ķes que v√™m de um novo e justo cepo humano, pois s√£o os descendentes de Set (cf. Gn 4,25-26), o filho que Eva deu √† luz para n√£o apenas ocupar o lugar de Abel, mas denotar que o mal n√£o ter√° a √ļltima palavra sobre o bem.

Na segunda parte do livro do G√™nesis, encontram-se tr√™s ciclos de tradi√ß√Ķes familiares: Abra√£o e Sara (cf. Gn 11,27‚Äď25,18); Jac√≥ e seus filhos (cf. Gn 25,19‚Äď36,43); Jos√© e os seus irm√£os (cf. Gn 37,1‚Äď50,26). A narrativa sobre Isaac n√£o constitui um ciclo em si, mas √© o elo forte entre Abra√£o e Jac√≥, respectivamente o elo entre as tradi√ß√Ķes patriarcais de Jud√° (Abra√£o) e de Israel (Jac√≥). Isaac √© este elo pelo qual se garantiu da posse da terra, visto que o segundo patriarca nunca deixou a terra de Cana√£ para morar em uma terra estrangeira.

A reconstru√ß√£o das etapas que deram origem aos textos autogr√°ficos √© algo imposs√≠vel de ser alcan√ßada, devido √† aus√™ncia de fontes extrab√≠blicas que coadunem com os relatos b√≠blicos. √Č preciso admitir que o livro do G√™nesis tenha passado por um longo processo de reda√ß√£o e que grande parte do seu conte√ļdo situa-se melhor durante o ex√≠lio vivido na Babil√īnia ou, at√© mesmo, no p√≥s-ex√≠lio, durante a domina√ß√£o persa, quando muitas tradi√ß√Ķes do antigo Israel alcan√ßaram a sua reda√ß√£o final.

As tradi√ß√Ķes javista e elo√≠sta, alvo de grandes questionamentos nos √ļltimos trinta anos, podem ser admitidas como reelabora√ß√Ķes de poemas √©picos, originalmente orais, numa forma de prosa escrita. O redator final, provavelmente sacerdotal, organizou o material em amplos blocos, usando uma f√≥rmula: ‚Äúestas s√£o as gera√ß√Ķes de…‚ÄĚ (t√īled√īt). Essa f√≥rmula introduz o material tradicional e ocorre cinco vezes na hist√≥ria das origens (cf. Gn 2,4; 5,1; 6,9; 10,1; 11,10) e cinco vezes na hist√≥ria dos antepassados do antigo Israel (cf. Gn 11,27; 25,12; 25,19; 36,1.11; 37,2), servindo de pontos de liga√ß√£o e guia geral das narrativas que comp√Ķem os dois blocos que formam o livro do G√™nesis.

2 O livro do Êxodo

Este livro tem o seu foco principal na saída dos filhos de Israel da terra do Egito e na sua marcha pelo deserto até chegar ao monte Sinai, no qual Deus selou uma aliança com o povo liberto, tornando-o a sua propriedade peculiar (cf. Ex 19,5).

Estes tr√™s momentos centrais do livro do √äxodo constituem a base em torno da qual os outros livros do Pentateuco se relacionam. Assim, as hist√≥rias primitiva (Gn 1‚Äď11) e patriarcal (Gn 12‚Äď50) servem de premissas para justificar: a entrada e a sa√≠da do Egito dos filhos de Israel (Ex 1,1‚Äď15,21), a marcha deles pelo deserto (Ex 15,22‚Äď18,27), a chegada e a perman√™ncia deles no Sinai (Ex 19,1‚ÄďNm 10,10); tamb√©m servem para mostrar que os libertos, recebendo as leis e os preceitos divinos, se tornaram a propriedade particular de Deus (Lev√≠tico). Livres e com uma legisla√ß√£o justa, os filhos de Israel retomam a marcha pelo deserto para, chegando √†s estepes de Moab e ap√≥s conquistar os territ√≥rios da Transjord√Ęnia, entrar e conquistar a terra de Cana√£ (Nm 10,11‚ÄďDt 34). Com isso, mostra-se a continuidade entre os temas da promessa e da realiza√ß√£o da descend√™ncia numerosa com o tema do dom da terra.

O livro do √äxodo, como o livro do G√™nesis, tamb√©m pode ser dividido em dois blocos, que giram em torno de dois eixos: narrativo e legislativo. 1) Ex 1,1‚Äď15,21: opress√£o dos filhos de Israel, voca√ß√£o, miss√£o de Mois√©s e liberta√ß√£o do Egito; 2) Ex 15,22‚Äď40,38: marcha pelo deserto, chegada e perman√™ncia no monte Sinai, e diversas prescri√ß√Ķes sobre a tenda-santu√°rio e os ministros do culto.

A saída do Egito é o marco inicial e constitutivo do antigo Israel como povo da aliança. A libertação do Egito é o fundamento da fé desse povo, porque por ela experimentou e passou a conhecer Deus como libertador e forte aliado frente a todas as formas de opressão. A libertação foi narrada como maravilhosa, evidenciando que o Deus que liberta é o mesmo que domina toda a criação.

A experi√™ncia da liberta√ß√£o lan√ßou as bases para a religi√£o de Israel. Essa √© fruto da a√ß√£o de Deus e nasce do evento narrado como √™xodo do Egito. Assim, a alian√ßa que acontece no sop√© do Sinai adquire forma institucional. Nela se baseia a √©tica dos libertos, tanto na esfera social como cultual. Israel, experimentando e se reconhecendo como povo resgatado, passou a ter as condi√ß√Ķes necess√°rias para colocar em pr√°tica a promessa feita a Abr√£o (cf. Gn 12,1-3).

O livro do √äxodo, pelo exemplo e testemunho salv√≠fico que cont√©m, se torna um crit√©rio capaz de compreender a salva√ß√£o n√£o como um conceito, mas como uma proposta de vida do ser humano com Deus. A alian√ßa do Sinai expressa um novo sentido para as rela√ß√Ķes de comunh√£o que devem existir entre Deus e a comunidade dos libertos.

A experi√™ncia de f√© que, segundo Gn-Ex, aconteceu com os antepassados (Ad√£o, No√©, Abra√£o, Isaac, Jac√≥ e Jos√©) e com Mois√©s, motivou a nova experi√™ncia libertadora e lan√ßou as bases para as subsequentes experi√™ncias narradas nos livros posteriores, em torno de Josu√©, Samuel, Davi, Ezequias, Josu√© e o novo Israel, que renasceu do ex√≠lio na Babil√īnia e assumiu uma nova configura√ß√£o religiosa com o juda√≠smo.

O segundo livro do Pentateuco √© fruto tanto da composi√ß√£o a partir de diversas tradi√ß√Ķes sobre a sa√≠da do Egito e o tempo do deserto, como, em particular, da reflex√£o sobre a experi√™ncia vivida no ex√≠lio na Babil√īnia. Por isso, a reda√ß√£o final pode ser colocada entre os s√©culos VI-V aC.

 3 O livro do Levítico

Este livro refere-se ao culto a ser realizado pela tribo de Levi, escolhida para os servi√ßos da tenda-santu√°rio que foi armada por ordem de Deus, que dela tomou posse (cf. Ex 40,34-38) passando a habitar no meio do seu povo. A posi√ß√£o liter√°ria no corpus do Pentateuco pode ser considerada estrat√©gica, pois est√° exatamente no centro, que, por sua vez, tem o seu epicentro na Lei da Santidade. Esta posi√ß√£o insere-se na din√Ęmica do povo que de Ex 19,1 a Nm 10,10 permaneceu no Sinai, recebendo as condi√ß√Ķes necess√°rias de uma vida com Deus, antes de retomar a marcha pelo deserto, a fim de entrar e conquistar a terra prometida.

O livro cont√©m basicamente material de √≠ndole legislativa, com algumas partes narrativas (cf. Lv 8‚Äď9; 10,1-5; 24,10-14.23). A vida cotidiana √© o ber√ßo das leis que regulamentam a vida social, pol√≠tica, religiosa e cultural do antigo Israel em forma√ß√£o para tomar posse da terra de Cana√£. Neste sentido, ao entrar e tomar posse da terra, o antigo Israel j√° se encontraria orientado por normas, estatutos, decretos e leis que dele fariam um povo particular dentre os demais povos (cf. Dt 4,35-40). Uma forma√ß√£o normativa advinda no deserto servia para garantir a perman√™ncia do povo na terra ap√≥s a sua conquista e instala√ß√£o.

O livro pode ser dividido em cinco partes, considerando a natureza dos textos: 1) Prescri√ß√Ķes sobre os sacrif√≠cios (Lv 1‚ąí7): elenco dos diversos tipos de sacrif√≠cios que agradam a Deus e s√£o executados pelos ministros autorizados; 2) Investidura dos sacerdotes (Lv 8‚ąí10): normas sobre o of√≠cio dos que descendem de Levi a partir de Aar√£o e de seus filhos. Esses s√£o os que tornam poss√≠vel o acesso de todo o povo a Deus atrav√©s do culto; 3) Prescri√ß√Ķes sobre o puro e o impuro (Lv 11‚ąí16): elenco de animais, pessoas e situa√ß√Ķes que podem comprometer a pureza da comunidade de f√©. Se essa √© comprometida, a solu√ß√£o √© um ritual de expia√ß√£o que acontece uma vez por ano e concede a todo o povo o perd√£o e a reconcilia√ß√£o com Deus; 4) ‚ÄúC√≥digo‚ÄĚ da Santidade (Lv 17‚ąí26): sublinha o aspecto positivo das coisas e das pessoas ligadas ao culto. Tudo deve ser santo como Deus √© santo; 5) Ap√™ndice ao ‚ÄúC√≥digo‚ÄĚ da Santidade (Lv 27): tudo que pode ser oferecido, pessoas e bens, pode ser consagrado por um voto, mas s√≥ pode ser retomado, quando poss√≠vel, pelo valor estipulado. Apenas o que fora votado ao an√°tema n√£o podia ser resgatado. A din√Ęmica que anima estas cinco partes √© bem clara: o Deus Santo s√≥ pode ser devidamente cultuado por um povo que lhe corresponda em santidade (cf. Lv 19,2).

Do ponto de vista da forma√ß√£o do livro, nota-se que nele est√£o contidas muitas leis antigas e recentes. As leis mais antigas podem derivar de um per√≠odo no qual o antigo Israel ainda n√£o possu√≠a um culto e um templo √ļnicos. Elas foram se consolidando e recebendo atualiza√ß√Ķes nos santu√°rios locais, at√© que as mais recentes fossem inclu√≠das pelo grupo proveniente da di√°spora, que regressou para Jud√° durante o per√≠odo persa com a finalidade de reconstruir a cidade de Jerusal√©m e nela retomar o culto sacrifical.

Assim, o material que no livro aparece como derivado da a√ß√£o mediadora de Mois√©s faz parte, essencialmente, da tradi√ß√£o Sacerdotal que remonta ao seu fundador. A grande pretens√£o desse livro √© predispor o povo para receber a presen√ßa de seu Deus em um ambiente de certa forma caracterizado pela sua aus√™ncia (Jerusal√©m destru√≠da pelos babil√īnios). Como um manual, o livro do Lev√≠tico autentica a exist√™ncia e regulamenta a pr√°tica do of√≠cio sacerdotal. Respons√°veis pela santidade do culto ao Deus √ļnico e Santo, os sacerdotes protagonizam os atos que realizam a santidade do povo.

¬†4¬†O livro dos N√ļmeros

Este livro completa algumas leis que n√£o entraram nos dois livros precedentes e descreve alguns fatos que se deram na segunda etapa da peregrina√ß√£o do povo pelo deserto. Dessa forma, o per√≠odo do Sinai e o per√≠odo do deserto se tornaram os momentos singulares para a recep√ß√£o da legisla√ß√£o do antigo Israel. Apesar disso, n√£o se encontra no livro dos N√ļmeros uma l√≥gica coerente e clara como nos livros do G√™nesis e do √äxodo.

Mois√©s, que j√° havia mediado a alian√ßa e feito erguer a tenda-santu√°rio, recebeu a ordem de contar os homens aptos para a guerra, para, ent√£o, fazer o povo deixar o monte Sinai, retomar a caminhada e prosseguir na dire√ß√£o da terra prometida. Assim foi feito, mas pela falta de confian√ßa em Deus a gera√ß√£o que deixou o Egito n√£o entrou na terra e, ao longo de quase quarenta anos, o povo teve que vaguear e enfrentou diversos tipos de dificuldades antes de come√ßar a conquistar os territ√≥rios da Transjord√Ęnia, tomando posse da terra de Seon, rei dos amorreus, e de Og, rei de Bas√£ (cf. Nm 21,33-35; 32).

Nota-se que o livro dos N√ļmeros cont√©m elementos narrativos e legislativos. O conte√ļdo pode ser apresentado em duas partes: 1) Israel se prepara para deixar o Sinai e seguir na dire√ß√£o da terra prometida (cf. Nm 1,1‚Äď10,10); 2) A marcha do Sinai at√© o Jord√£o (cf. Nm 10,11‚Äď36,13). Esta segunda parte, por√©m, pode ser subdivida em duas etapas. Na primeira, Israel chega diante da terra prometida, explora o territ√≥rio, mas n√£o toma posse. Por isso, deve vaguear pelo deserto (cf. Nm 10,11‚Äď21,20). Na segunda, Israel come√ßa a conquista dos territ√≥rios da Transjord√Ęnia na terra de Moab (cf. Nm 22,21‚Äď36,13).

No conjunto deste livro há muitas revoltas mencionadas, o que deu ocasião para qualificar Moisés ainda mais, que aparece no seu importante papel de mediador e é apresentado como o mais humilde dos homens (cf. Nm 12,3). Devido às grandes resistências que sofreu, foi reconhecido como profeta e homem de Deus (cf. Nm 12,6-8), servo íntegro na sua fé em Deus (cf. Nm 10,29-32) e no seu amor para com o povo (cf. Nm 11,2.10-15; 21,7). Sobressai, então, o seu papel como intercessor em favor do povo, apesar dos seus pecados (cf. Nm 11,27-29; 12). Apesar disso, o livro não oculta as fraquezas de Moisés: recusa-se a interceder diante de uma rebelião de um grupo de levitas (cf. Nm 16,15); titubeia na hora de executar uma ordem de Deus (cf. Nm 20,10-12) e fica abatido pelo peso da missão (cf. Nm 11,11-15).

Um elemento central no livro dos N√ļmeros √© o fator transi√ß√£o: a antiga gera√ß√£o, que deixou o Egito, morreu no deserto (Nm 1,1‚Äď21,9) para que desse lugar √† nova gera√ß√£o que tomou posse da terra prometida (Nm 26,1‚Äď36,13). Apenas Josu√© e Caleb, com suas fam√≠lias, foram preservados pela fidelidade √† ordem dada para conquistar a terra (cf. Nm 14,6-9). Entre essas duas gera√ß√Ķes encontra-se o curioso ciclo de Bala√£o, que serviu para mostrar a total e livre disposi√ß√£o de Deus ao eleger e aben√ßoar Israel (cf. Nm 22,2‚Äď24,25). Outra transi√ß√£o importante √© a geogr√°fica: do Sinai, pelo deserto, √†s estepes de Moab. As primeiras conquistas lan√ßaram as bases para os futuros acontecimentos, depois da travessia do ¬†Jord√£o.

O livro dos N√ļmeros n√£o √© homog√™neo quanto ao material usado na sua elabora√ß√£o. As ‚Äúfontes hist√≥ricas‚ÄĚ que serviram de base para a forma√ß√£o deste livro possuem por certo um desenvolvimento longo e complexo. √Č plaus√≠vel que o livro tenha adquirido a sua forma final entre os s√©culos VI-V aC, respectivamente durante ou ap√≥s o ex√≠lio babil√īnico. √Č poss√≠vel pensar que ‚Äúa m√£o final do livro‚ÄĚ percebeu que a vida do povo durante a di√°spora-ex√≠lio na Babil√īnia possu√≠a uma analogia estreita com o per√≠odo em que o povo eleito vagou pelo deserto. Assim, as antigas tradi√ß√Ķes sobre o tempo em que o povo viveu no deserto foram reinterpretadas segundo uma nova √≥tica e um novo contexto liter√°rio. Parte do material √© de tradi√ß√£o sacerdotal, facilmente identific√°vel pelo estilo, vocabul√°rio e interesses (legislativo). Parte do material n√£o prov√©m de c√≠rculos sacerdotais, principalmente as partes narrativas (Nm 11‚Äď25; 33). Disso resultam as tens√Ķes presentes no livro. Muito provavelmente, por√©m, a vers√£o final ficou nas m√£os dos c√≠rculos sacerdotais e teria sido o √ļltimo livro do Pentateuco a chegar √† sua forma final e can√īnica, durante o per√≠odo persa, no final do s√©culo V aC.

¬†6¬†O livro do Deuteron√īmio

O √ļltimo livro do Pentateuco inicia com a voz do narrador que, por sua vez, j√° est√° do outro lado do Jord√£o, isto √©, do lado da terra prometida (Cisjord√Ęnia). Por conseguinte, o que narra olha para o outro lado do Jord√£o (Transjord√Ęnia), onde esteve o povo e seu l√≠der, nas plan√≠cies de Moab, diante de Jeric√≥ (Dt 1,1.5; Dt 34,1). A totalidade do livro, por√©m, aparece como sendo um longo discurso de Mois√©s que se d√°, inclusive, no mesmo dia da sua morte na terra de Moab, ap√≥s ter contemplado toda a terra que Deus disp√īs dar para o seu povo (cf. Dt 34,1-12). Assim, o livro foi concebido como o testamento que Mois√©s, antes de morrer, deixou ao seu povo que estava prestes a entrar e tomar posse da terra prometida. Neste testamento est√° a exig√™ncia da fidelidade, sem a qual o povo n√£o permanecer√° na terra. Tudo o que Mois√©s fez e ensinou deve ser colocado em pr√°tica, para que se prolongue a vida na terra prometida.

O livro pode ser dividido em introdu√ß√£o, tr√™s discursos de Mois√©s, a b√™n√ß√£o dele sobre o povo e a conclus√£o, na qual se narra a morte de Mois√©s e se anuncia Josu√© como seu sucessor na condu√ß√£o do povo. A introdu√ß√£o, que se liga ao final do livro dos N√ļmeros pelo fato dos filhos de Israel estarem acampados nas estepes de Moab, orienta todo o conte√ļdo ao dizer: ‚Äúestas s√£o as palavras que Mois√©s dirigiu a todo o Israel‚ÄĚ (Dt 1,1-5). Os tr√™s discursos s√£o iniciados por uma f√≥rmula que lembra a usada na introdu√ß√£o: ‚Äúestas s√£o as palavras‚ÄĚ, abrindo o primeiro discurso (Dt 1,6‚Äď4,40); ‚Äúesta √© a Tor√°‚ÄĚ, abrindo o segundo discurso (Dt 4,41-49; 5,1‚Äď28,68); ‚Äúestas s√£o as palavras da alian√ßa‚ÄĚ, abrindo o terceiro discurso (Dt 28,69‚Äď32,52). Segue-se a b√™n√ß√£o, introduzida pela frase ‚Äúesta √© a b√™n√ß√£o‚ÄĚ (Dt 33) e o livro termina com a narrativa da morte de Mois√©s (Dt 34). O livro, aberto com as palavras de Mois√©s a todo o Israel, termina com todo o povo pranteando a morte do seu incompar√°vel l√≠der.

No livro do Deuteron√īmio, importantes temas teol√≥gicos se destacam: a sa√≠da do Egito, a alian√ßa de Deus com o povo e a gratuita elei√ß√£o deste; o dom da terra; o dom da lei; a centralidade do lugar √ļnico de culto. Transparece que o livro, no seu conjunto, √© uma s√≠ntese teol√≥gica dos principais fatos que foram assumidos das tradi√ß√Ķes e se encontram narrados de G√™nesis a N√ļmeros. As v√°rias refer√™ncias aos patriarcas e √† sa√≠da do Egito permitem que o tecido da narrativa prossiga na dire√ß√£o do grande objetivo: entrar e tomar posse da terra prometida. O conte√ļdo dos discursos de Mois√©s visa alertar os filhos de Israel sobre as sedu√ß√Ķes que encontrar√£o diante de si depois que entrar e tomar posse da terra. Por isso, o tom dos discursos √© exortativo. √Č dito o que se deve fazer e o que se deve evitar. A lei-instru√ß√£o de Mois√©s √© o par√Ęmetro.

Um marco formal caracter√≠stico no livro encontra-se na altern√Ęncia entre os destinat√°rios das exorta√ß√Ķes de Mois√©s, ora apresentados pela segunda pessoa do singular ‚Äútu‚ÄĚ, ora na segunda pessoa do plural ‚Äúv√≥s‚ÄĚ. Apesar de Mois√©s protagonizar a fala na primeira pessoa, h√°, tamb√©m, interrup√ß√Ķes que falam de Mois√©s na terceira pessoa (cf. Dt 4,41‚Äď5,1a; 27,1a; 28,69; 29,1). O forte fundo mosaico est√° presente tanto nos discursos como no ‚ÄúC√≥digo Deuteron√īmico‚ÄĚ (cf. Dt 12‚Äď26*). Entretanto, a origem do livro n√£o remonta √† √©poca de Mois√©s e a sua forma final precisa ser colocada em um per√≠odo mais tardio, pelo s√©culo V aC. Admite-se que o livro tenha passado, provavelmente, por tr√™s etapas: pr√©-ex√≠lica, ex√≠lica e p√≥s-ex√≠lica. Nessas tr√™s etapas, contribu√≠ram diferentes m√£os: prof√©tica, sacerdotal e s√°bios da corte.

¬†7¬†Considera√ß√Ķes finais

O Pentateuco √© considerado a constitui√ß√£o do antigo Israel em forma de hist√≥ria da salva√ß√£o. O que aconteceu em rela√ß√£o ao antigo Israel, do ponto de vista da narrativa, √© obra divina. A cria√ß√£o do mundo √© o seu ponto de partida e a conquista da terra prometida √© o seu ponto de chegada. Este itiner√°rio √© um percurso modelar da f√© que vai da expuls√£o do para√≠so √† entrada no f√©rtil Egito (G√™nesis), e da sa√≠da deste, sob a condu√ß√£o de Mois√©s pelo deserto, at√© entrar na terra boa e f√©rtil, terra em que correm leite e mel (√äxodo‚ÄďDeuteron√īmio). Em meio √† trama narrativa, uma extensa e diversificada legisla√ß√£o aparece distribu√≠da em longos trechos dos livros do √äxodo, Lev√≠tico, N√ļmeros e Deuteron√īmio.

Os livros que formam o Pentateuco evidenciam e tra√ßam, para o ouvinte-leitor, uma hist√≥ria continuada, que vai das origens do mundo e dos antepassados de Israel ‚Äď Abra√£o, Isaac, Jac√≥ e Jos√© ‚Äď at√© a morte de Mois√©s diante da terra prometida. Esta trajet√≥ria pode ser memorizada atrav√©s das principais etapas: hist√≥ria das origens do mundo, do homem, do pecado; hist√≥ria dos patriarcas (G√™nesis); escravid√£o e √™xodo do Egito; marcha pelo deserto at√© o Sinai; alian√ßa no Sinai; pecado de idolatria na confec√ß√£o do bezerro de ouro; renova√ß√£o da Alian√ßa; determina√ß√£o e normas para erguer a tenda-santu√°rio; legisla√ß√£o sobre a conduta do povo e regras sobre o puro e o impuro; recenseamento do povo; retomada da marcha pelo deserto; b√™n√ß√£o ao povo pela boca de Bala√£o; conquista dos territ√≥rios da Transjord√Ęnia (√äxodo‚ÄďN√ļmeros); recapitula√ß√£o da hist√≥ria para firmar o povo na liberdade que recebeu como dom de Deus; diante de si, o povo tem a possibilidade de receber as b√™n√ß√£os, pela obedi√™ncia, e as maldi√ß√Ķes, pela desobedi√™ncia (Deuteron√īmio).

Estas etapas se encontram em forma de sínteses em Js 24,1-10 e bem completa em Ne 9,5-23. Também em diversos Salmos de índole histórica as etapas são lembradas. Tudo isso para que o povo sempre se recordasse de cantar as maravilhas que Deus operou em seu favor (Sl 78 [77]; 105 [104]; 106 [105]; 135 [134]; 136 [135]).

Portanto, o Pentateuco atesta o dom gratuito de Deus, pela forma como conduz os eventos salv√≠ficos a favor do seu povo, principalmente pela sua a√ß√£o libertadora do Egito, pela celebra√ß√£o da alian√ßa do Sinai, pela manifesta√ß√£o da sua miseric√≥rdia ao perdoar a grave falta do povo que elegeu um bezerro de ouro como seu Deus (cf. Ex 34,1-9) e, finalmente, por introduzir o povo na terra prometida. Nessa din√Ęmica hist√≥rica, o Pentateuco mostra que Deus, ap√≥s eleger Abra√£o e ter permitido que Jac√≥ se transferisse para o Egito, n√£o esqueceu e muito menos deixou os descendentes dos patriarcas em terra estrangeira. A raz√£o aparece nas alus√Ķes √†s promessas feitas. A liberta√ß√£o foi for√ßada porque houve opress√£o desmedida e cruel, ao lado da intransigente resist√™ncia do fara√≥ que levou o seu povo e o seu pa√≠s ao caos. Com isso, evidencia-se a grande caracter√≠stica de Deus: √© fiel √† sua palavra. Este √© o fundamento da f√© e o crit√©rio da verdade salv√≠fica que o Pentateuco quer transmitir. O ser humano n√£o s√≥ pode como deve confiar a sua vida nas m√£os do Deus que cria, liberta e mant√©m a vida no deserto, onde ela n√£o poderia existir e muito menos prosperar. √Č o que o Pentateuco testemunha e transmite em forma de lei e instru√ß√£o.

Leonardo Agostini, PUC Rio РOriginal português

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