Ordem (Sacramento da)

Sum√°rio

1 O nome do sacramento

2 Da lex orandi à lex credendi

2.1 Uma ordenação episcopal no séc. III

2.2 A comunidade e o ministério ordenado

3 A tríade bispo-presbítero-diácono

4 A espiritualidade ministerial

4.1 Cristo, o Servo do Senhor

4.2 Cristo, o Pastor exemplar

4.3 Cristo, o √ļnico sacerdote

5 Referências bibliográficas

1 O nome do sacramento (TABORDA, 2016, 21-26)

O nome deste sacramento n√£o consta no Novo Testamento. Pode trazer consigo um mal-entendido, j√° que a palavra ‚Äúordem‚ÄĚ normalmente significa ‚Äúcada coisa no seu lugar‚ÄĚ. Mas n√£o √© este o sentido da palavra. Ela se refere a um grupo de pessoas de determinada categoria, como, por exemplo, a ‚ÄúOrdem dos Advogados do Brasil‚ÄĚ (OAB), que congrega os bachar√©is em direito a quem √© permitido advogar no pa√≠s.

N√£o deve causar estranheza que a designa√ß√£o deste sacramento n√£o tenha conota√ß√£o sacral nem tenha sido tomada de empr√©stimo √† linguagem religiosa, j√° que, para designar as fun√ß√Ķes eclesiais, o Novo Testamento nunca usa termos tomados das religi√Ķes. ‚ÄúSacerdote‚ÄĚ, por exemplo, n√£o designa nenhum ministro da Igreja, mas somente os sacerdotes judeus (cf. Lc 10,31) e pag√£os (cf. At 14,13), os crist√£os em seu conjunto (cf. Ap 1,6; 5,10) e o pr√≥prio Cristo (uso exclusivo da Carta aos Hebreus).

O termo ‚Äúordem‚ÄĚ tem a vantagem de trazer √† luz o car√°ter colegial ou corporativo do minist√©rio eclesial (cf. os Doze Mc 3,14; os Sete At 6,3; o presbit√©rio At 15,6). √Ä ordena√ß√£o n√£o compete transmitir um poder possu√≠do como indiv√≠duo, mas incorporar num grupo do mesmo grau, cuja tarefa consiste em contribuir para o bem da comunidade num coletivo posto a servi√ßo de unidade da Igreja. N√£o se pode, pois, conceber o ministro da Igreja pensando e agindo por si no isolamento de sua individualidade, mas articulado com a comunidade e os demais ministros do mesmo e dos demais graus.

Mas o termo apresenta tamb√©m uma desvantagem. Embora sua ado√ß√£o seja anterior √† era constantiniana, teve consequ√™ncias nefastas quando o cristianismo foi reconhecido oficialmente no Imp√©rio. Ao designar-se desta maneira o minist√©rio eclesial, transp√īs-se aos bispos, presb√≠teros e di√°conos a mentalidade rigorosamente hierarquizada da burocracia imperial romana. Como consequ√™ncia, passou a conceber-se o minist√©rio em termos de ‚Äúcarreira das honras‚ÄĚ (em linguagem moderna: ‚Äúplano de carreira‚ÄĚ).

A Igreja Bizantina conserva para este sacramento o nome de ‚Äúimposi√ß√£o das m√£os‚ÄĚ (quirotonia). Tem a vantagem de ser um termo b√≠blico, mas traz consigo o perigo de esquecer-se a dimens√£o colegiada pr√≥pria ao minist√©rio eclesial, levando a uma concep√ß√£o privatizante, como honra possu√≠da pessoalmente.

2 Da lex orandi à lex credendi (TABORDA, 2015, p.23-47)

A melhor maneira de apresentar um sacramento √© partir da pr√°tica lit√ļrgica da Igreja, tal como foi ‚Äúem toda a parte, sempre e por todos‚ÄĚ celebrada (Vicente de L√©rins, ‚Ć cerca de 450). Verificando a forma como a Igreja ora (lex orandi), conclui-se sobre o que devemos crer (lex credendi).

2.1 Uma ordenação episcopal no século III (BRADSHA; JOHNSON e PHILLIPS, 2002)

A chamada ‚ÄúTradi√ß√£o Apost√≥lica‚ÄĚ, outrora atribu√≠da a Hip√≥lito de Roma, √© o mais antigo testemunho pormenorizado de uma ordena√ß√£o episcopal. Eis o texto:

‚ÄúOrdene-se bispo aquele que, [sendo] irrepreens√≠vel, tiver sido escolhido por todo o povo. Quando tiver sido chamado pelo nome e tiver agradado, o povo se reunir√° com o presbit√©rio e os bispos presentes, no dia do Senhor. Com o consentimento de todos, [os bispos] imponham-lhe as m√£os e o presbit√©rio permane√ßa sossegado. Todos guardem sil√™ncio, orando em seus cora√ß√Ķes pela descida do Esp√≠rito. E um dos bispos presentes, instado por todos, impondo a m√£o ao que √© ordenado bispo, reze dizendo:‚ÄĚ (Tradi√ß√£o Apost√≥lica, n¬ļ 2)

[Segue-se a prece de ordenação]

‚ÄúQuando tiver sido feito bispo, todos lhe deem o √≥sculo da paz, saudando-o, porque se tornou digno. Os di√°conos apresentem-lhe a obla√ß√£o e ele, impondo as m√£os sobre ela com todo o presbit√©rio, diga, dando gra√ßas: ‚ÄôO Senhor esteja convosco‚Äė. E todos respondam: ‚ÄôE com teu esp√≠rito‚Äė. ‚ÄôCora√ß√Ķes ao alto‚Äė. ‚ÄôN√≥s [os] temos no Senhor‚Äė. ‚ÄôDemos gra√ßas ao Senhor‚Äė. ‚Äú√Č digno e justo‚ÄĚ. E ent√£o prossiga assim:‚ÄĚ (Tradi√ß√£o Apost√≥lica, n¬ļ 4)

[Segue-se a oração eucarística]

 Esse texto apresenta a celebração como um movimento contínuo em três momentos: 1) a eleição pelo povo (incluindo o clero); 2) a imposição das mãos pelos bispos com a prece de ordenação dita por um deles; 3) o reconhecimento da comunidade, expresso no abraço da paz e na subsequente presidência da eucaristia.

Em cada um desses momentos atuam quatro atores: 1) os cristãos da Igreja local; 2) os bispos das Igrejas vizinhas; 3) o ordinando; 4) o Espírito Santo, ator principal (LEGRAND, 1988, 194-201; TABORDA, 2016, 230-240).

 2.2 A comunidade e o ministério ordenado (TABORDA, 2016, 157-170)

¬†A estrutura da liturgia de ordena√ß√£o mostra a √≠ntima conex√£o entre o minist√©rio eclesial e a Igreja presente na comunidade local. N√£o √© o ministro ordenado que cria a comunidade, mas √© a comunidade de f√© que recebe de Deus o ministro que a conserve na unidade e estabele√ßa o v√≠nculo entre ela e a Igreja espalhada pelo mundo. Discernindo no Esp√≠rito Santo, o ator principal em toda a liturgia de ordena√ß√£o, a comunidade escolhe a pessoa que parece indicada em sua situa√ß√£o concreta. Mas o escolhido n√£o se torna bispo por essa elei√ß√£o. √Č imprescind√≠vel o aval dos bispos vizinhos que julgar√£o da ortodoxia do eleito e, pela imposi√ß√£o das m√£os e ora√ß√£o, o constituir√£o bispo pela gra√ßa de Deus. Tamb√©m neste momento a comunidade est√° ativa, orando em seus cora√ß√Ķes pela descida do Esp√≠rito. Uma vez constitu√≠do bispo, novamente a comunidade o reconhece ao acolh√™-lo pelo abra√ßo da paz e ao participar na eucaristia por ele presidida.

A estrutura da ordena√ß√£o episcopal mostra a rela√ß√£o entre minist√©rio ordenado e comunidade: o ministro vem da comunidade e nela permanece, mas, ao mesmo tempo, se p√Ķe diante da comunidade. O bispo Agostinho de Hipona (‚Ć 430) expressou-o lapidarmente: ‚ÄúConvosco sou crist√£o, para v√≥s sou bispo; aquele √© o t√≠tulo de minha dignidade, este o t√≠tulo de minha responsabilidade; aquele √© t√≠tulo de honra, este t√≠tulo de perigo‚ÄĚ. Mais fundamental que ser bispo √© ser crist√£o; essa √© a verdadeira dignidade. Como bispo, o crist√£o assume uma responsabilidade que se torna um perigo, caso n√£o seja exercida como servi√ßo √† comunidade.

Estando diante da comunidade eclesial, o ministro representa para ela a Cristo, pela força do Espírito Santo recebido na ordenação. Essa relação costuma ser expressa na fórmula latina: o ministro age in persona Christi (na pessoa de Cristo, como seu representante), mas só representa Cristo representando também a Igreja, inserido em sua fé e comunhão (in persona Ecclesiae). Os dois aspectos devem ser articulados entre si. Cristo tem uma dupla relação com a Igreja: por um lado, ela é seu Corpo (cf. 1Cor 12,12; At 9,4); por outro, Cristo é a Cabeça e, como tal, anima o Corpo (cf. 1Cor 11,3). Assim, o ministro, enquanto representa Cristo, está face a face com a comunidade; enquanto representa a Igreja é um membro entre outros, apenas com uma função específica de presidência em nome do Cristo-Cabeça.

A rela√ß√£o entre o regente e a orquestra pode ilustrar essa rela√ß√£o. O regente, diante da orquestra, tem a fun√ß√£o de conduzi-la na unidade. Enquanto regente, n√£o toca nenhum instrumento, mas sua atua√ß√£o permite que todos os instrumentos toquem harmonicamente, na hora devida, com a intensidade devida. Ele n√£o √© a orquestra, mas a orquestra se reconhece nele. Sem a orquestra ele n√£o √© nada; precisa da orquestra para ser regente. N√£o √© ele que manda na orquestra, mas tampouco a orquestra manda nele. Ambos obedecem √† partitura. A execu√ß√£o da partitura depender√° da interpreta√ß√£o do regente, mas tamb√©m da capacidade dos m√ļsicos de aderirem a essa interpreta√ß√£o. Deste modo, o regente representa a orquestra diante da orquestra, mas representa tamb√©m o compositor. Tal √©, analogamente, a articula√ß√£o entre o ministro ordenado e a comunidade eclesial.

3 A tríade bispo-presbítero-diácono (TABORDA, 2016, 190-209; BORRAS e POTTIER, 2010)

O minist√©rio na Igreja √© uno: a fun√ß√£o de conduzir a Igreja na unidade da f√©, do amor, da celebra√ß√£o. Esse minist√©rio uno da Igreja √© exercido em diversos graus por aqueles que ‚Äúj√° desde antigamente s√£o chamados bispos, presb√≠teros e di√°conos‚ÄĚ (LG n.28; DH 4153).

Todos eles s√£o ministros da unidade da Igreja, mas se distinguem pelo √Ęmbito que lhes √© pr√≥prio. O minist√©rio fundamental √© o episcopado. Sua fun√ß√£o √© animar a comunidade em fidelidade ao testemunho apost√≥lico. Ao interno da comunidade cabe-lhe presidir a comunidade na ades√£o √† f√© apost√≥lica (querigma), na pr√°tica da fraternidade (diaconia) e na celebra√ß√£o da f√© (liturgia). Com rela√ß√£o √†s demais Igrejas locais, √© de sua compet√™ncia representar a Igreja por ele presidida na comunh√£o da Igreja universal (responsabilidade colegial por todas as Igrejas) e na comunh√£o com a Igreja de Roma ‚Äúque preside a caridade‚ÄĚ (In√°cio de Antioquia).

O bispo n√£o est√° s√≥ na presid√™ncia de uma Igreja local; √© auxiliado por seu presbit√©rio e pelos di√°conos. O bispo √© bispo por presidir uma Igreja num √Ęmbito maior, ligada por v√≠nculos hist√≥ricos, geogr√°ficos, culturais. Por isso cabe-lhe ordenar presb√≠teros que constituem com ele uma personalidade corporativa no governo da Igreja local e, assim, presidem, em nome do bispo, as pequenas parcelas dessa Igreja local (par√≥quias).

Os presb√≠teros s√£o, em primeiro lugar, membros do ‚Äúsenado‚ÄĚ do bispo para o governo da Igreja local, isto √©, para sua unidade. A partir da√≠, pode caber-lhes presidir parcelas dessa Igreja local (comunidades eucar√≠sticas) como representantes do bispo. A prece de ordena√ß√£o da liturgia romana define o presb√≠tero como ‚Äúcooperador da ordem episcopal‚ÄĚ.

A diferen√ßa b√°sica entre bispo e presb√≠tero reside no grau de responsabilidade que cada um tem por uma Igreja local e na rela√ß√£o m√ļtua. O bispo exerce seu minist√©rio da unidade sobre o todo da Igreja local e, a partir dela, √©, com os outros bispos, respons√°vel pela Igreja universal, diante da qual testemunha a forma espec√≠fica de cada Igreja local inculturar a f√©.

O di√°cono √© o ministro encarregado dos pobres, marginalizados e enfermos, servi√ßo vital para a Igreja encontrar sua identidade ao modo do Servo do Senhor, descrito nos quatro c√Ęnticos do Deuteroisa√≠as (cf. Is 42,1-4; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 ‚Äď 53,12). Sua fun√ß√£o fundamental √© animar, reavivar, organizar a comunidade em vista do servi√ßo aos pobres. A partir desse servi√ßo aos pobres compete ao di√°cono o minist√©rio da Palavra e a atua√ß√£o na liturgia; a Palavra d√° dimens√£o crist√£ ao servi√ßo aos pobres, que √© um dever moral de toda humanidade, creia ou n√£o no Cristo. Cabe a ele levar a Palavra ao concreto da pr√°tica solid√°ria, testemunhar a caridade crist√£, encorajar os crist√£os a tomar a s√©rio o Evangelho.

O di√°cono tem sua forma pr√≥pria de ser ministro da unidade. N√£o preside, mas contribui √† unidade da Igreja a partir dos menos favorecidos. √Č um minist√©rio ‚Äúpartid√°rio‚ÄĚ. Expressa o partidarismo da Igreja em favor do pobre. Indica que a unidade da Igreja n√£o se constr√≥i a partir dos poderosos. Procura imprimir na Igreja a marca evang√©lica de uma unidade desde os pobres. Por isso mesmo, vale, na Igreja antiga, como a m√£o direita do bispo. Ele est√°, pois, relacionado ao bispo e n√£o ao presb√≠tero.

O di√°cono n√£o √© um substituto do presb√≠tero em locais onde n√£o existem presb√≠teros em n√ļmero suficiente. Seu minist√©rio n√£o √© congregar a Igreja (presid√™ncia), mas lev√°-la para fora, para as periferias do mundo, de forma que ela possa celebrar em verdade a eucaristia, pois ‚Äún√£o h√° eucaristia sem lava-p√©s‚ÄĚ (E. van Waelderen).

Fazer presente o amor de Cristo para com os pobres e todos os que sofrem, são perseguidos, excluídos, é um dever do bispo, não menor que o de presidir a vida e a celebração da comunidade. Nesta tarefa é coadjuvado pelo presbitério, naquela pelos diáconos. A ordem diaconal existe a serviço da Igreja local, junto com o bispo e seu presbitério, para abrir a comunidade ao mundo.

O presb√≠tero n√£o √© um di√°cono com mais algum ‚Äúpoder‚ÄĚ, como o bispo n√£o √© um presb√≠tero com mais algum ‚Äúpoder‚ÄĚ. N√£o s√£o degraus de uma escada. A rela√ß√£o entre a tr√≠ade deveria ser vista n√£o numa linha vertical (superior-inferior; alto-baixo), mas numa bifurca√ß√£o. O episcopado √© o minist√©rio fundamental com dois tipos de auxiliares diferentes e complementares como s√£o diferentes e complementares homem e mulher, m√£o direita e m√£o esquerda. O homem n√£o √© superior √† mulher, nem vice-versa; a m√£o direita n√£o √© melhor que a esquerda, nem vice-versa.

4 A espiritualidade ministerial

A pergunta subjacente a esta temática da espiritualidade é a pergunta sobre que figuras inspiram a vida e a missão do ministro ordenado.

4.1 Cristo, o Servo do Senhor (TABORDA, 2016, 46-52; SANTANER, 1986; MESTERS, 1981)

¬†A figura fundamental nos √© dada pelo pr√≥prio Jesus em Mc 10,42-45: ‚ÄúSabeis que os que s√£o considerados chefes das na√ß√Ķes as dominam, e os seus grandes fazem sentir seu poder. Entre v√≥s n√£o deve ser assim. Quem quiser ser o maior entre v√≥s seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre v√≥s seja o escravo de todos. Pois o Filho do Homem n√£o veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos‚ÄĚ. Nestas palavras Jesus alude aos poemas do Servo do Senhor (Deuteroisa√≠as) e equaciona assim a quest√£o do poder na Igreja.

Os quatro c√Ęnticos inspiram quatro aspectos do exerc√≠cio do poder na comunidade crist√£. O primeiro aspecto √© o esvaziar-se, n√£o afirmar o seu poder dominando os demais, mas despertando o poder que neles existe (cf. Is 42,1-4: o Servo n√£o grita, n√£o levanta a voz; n√£o apaga a mecha que ainda fumega). O ‚Äúpoder‚ÄĚ do ministro ordenado n√£o √© dele, mas da Igreja, cujo poder se concentra nele. Por isso n√£o lhe cabe nem a√ßambarcar o poder nem dividi-lo, como se o poder fosse dele. Cabe-lhe, sim, suscitar o poder que h√° em cada um, incentivar o exerc√≠cio do poder de cada um e cuidar que seja exercido no respeito aos demais e no cuidado pela unidade do todo.

O segundo aspecto mostra que o esvaziamento deve ir ao extremo de dar a vida pela multid√£o (cf. Is 52,13 ‚Äď 53,12). A identidade do ministro com a comunidade j√° √©, por si, um ‚Äúmorrer‚ÄĚ cada dia, para que a comunidade se desenvolva com autonomia. Em determinadas circunst√Ęncias, o dar a vida ter√° que ser levado √†s √ļltimas consequ√™ncias, o mart√≠rio.

O terceiro aspecto √© ouvir o Senhor e confiar nele (cf. Is 50,4-11). Basear sua vida na escuta da Palavra de Deus assimilada na ora√ß√£o, celebrada na eucaristia, vivida a cada momento. Elemento constitutivo do servi√ßo ministerial √© a intercess√£o ‚Äúem favor do povo a ele confiado e em favor de todo o mundo‚ÄĚ (prece de ordena√ß√£o presbiteral da liturgia romana).

O quarto aspecto é levar a sério que sua missão não vem de si mesmo, mas lhe foi confiada pelo Senhor (cf. Is 49,1-6) através da comunidade que o reconheceu apto. Seu ministério não lhe advém por ser um privilegiado, mas por se esperar dele que viva os aspectos antes especificados.

Em resumo: o ‚Äúpoder‚ÄĚ do ministro √© o poder gerado na fraqueza, que, confiando em Deus, deixa espa√ßo aos demais e suscita o poder dos demais.

 4.2 Cristo, o Pastor exemplar (TABORDA, 2016, 70-74)

¬†No cap√≠tulo 10 do Evangelho de Jo√£o, Cristo se apresenta como ‚Äúo Pastor exemplar‚ÄĚ (KONINGS, 2005, 204). A figura do pastor √© arquet√≠pica e apresenta quatro caracter√≠sticas (BOSETTI, 1986a, 21-51): o pastor, guia, conduz, caminha √† frente das ovelhas; prov√™ para que o rebanho cres√ßa e se multiplique (procura √°gua, pastagem, conduz ao aprisco ou a outro lugar seguro…); est√° atento √†s ovelhas: de dia guia, de noite guarda, especialmente se as ovelhas tem que pernoitar ao relento…; √© solid√°rio, tem com o rebanho uma liga√ß√£o afetiva, conhecimento, solidariedade. √Č ‚Äúo pastor com cheiro de ovelha‚ÄĚ (Papa Francisco).

Mas a designa√ß√£o de pastor tem sua ambiguidade, porque o pastor √© superior √†s ovelhas; ele √© um ser racional, as ovelhas animais irracionais. Por isso √© preciso lembrar que o ‚Äúo Pastor exemplar‚ÄĚ (‚Äúo bom Pastor‚ÄĚ) se tornou o ‚ÄúCordeiro imolado‚ÄĚ para a vida do rebanho. E, principalmente, √© necess√°rio iluminar a figura do pastor com a do Servo que d√° a vida pela multid√£o, como o fez Jesus: ‚ÄúO pastor exemplar d√° a vida por suas ovelhas‚ÄĚ (Jo 10,11).

O ministro ordenado, enquanto pastor, deveria caracterizar-se por um amor entranhado a Cristo, n√£o apenas um amor superficial. Dada, por√©m, a fraqueza do homem pecador, para in√≠cio de caminhada basta o amor de simpatia (cf. Jo 21,15-17). Enquanto n√£o se atinge aquele grau de amor profundo por Cristo, vale a sinceridade de uma resposta ao chamado, cuidando de n√£o cair nas tenta√ß√Ķes que o rodeiam: n√£o ser pastor por coa√ß√£o, mas de boa vontade, espontaneamente, livremente; n√£o por torpe gan√Ęncia, mas de cora√ß√£o generoso; n√£o como dominadores, mas como modelos do rebanho (cf. 1Pd 5,2-3) (BOSETTI, 1986b, 101-12).

4.3 Cristo, o √ļnico sacerdote (TABORDA, 2016, 32-46)

A designa√ß√£o mais comum para o ministro ordenado √© sacerdote e, no entanto, √© a menos adequada. Prov√©m de uma releitura veterotestament√°ria do Novo Testamento, que n√£o usa para os ministros da Igreja termos tomados das religi√Ķes. Episkopos (termo do qual deriva a palavra bispo) significa supervisor; presb√≠tero quer dizer anci√£o; di√°cono √© o servidor da mesa. Tampouco Jesus foi sacerdote, pois n√£o pertencia √† tribo de Levi, condi√ß√£o indispens√°vel para o sacerd√≥cio no juda√≠smo.

O √ļnico escrito do Novo Testamento que qualifica Jesus como sacerdote √© a Carta aos Hebreus. E o faz para negar que Jesus seja sacerdote no sentido do sacerd√≥cio ritual, aar√īnico. O autor da Carta aos Hebreus quer mostrar como, depois de Cristo, n√£o h√° mais necessidade de sacerdotes. Ele o faz no estilo pr√≥prio da reflex√£o teol√≥gica judaica, comparando a vida de Cristo com a a√ß√£o do Sumo Sacerdote judeu no Dia do Perd√£o (Yom Kippur), o √ļnico dia do ano em que ele atravessava o v√©u do Templo e entrava no Santo dos Santos. Jesus, por sua morte, atravessou o v√©u e entrou no verdadeiro Santu√°rio do c√©u, onde vive eternamente a interceder por n√≥s (cf. Hb 7,25). Jesus exerce seu sacerd√≥cio atrav√©s de sua vida, morte e ressurrei√ß√£o (cf. Hb 9‚Äď10). Seu sacerd√≥cio n√£o √© ritual, mas existencial (cf. Hb 10,4-10); seu sacrif√≠cio n√£o se realiza num lugar sagrado, mas no profano, fora dos muros da Cidade Santa de Jerusal√©m (cf. Hb 13,11-13); n√£o precisa ser repetido, pois adquiriu para n√≥s uma reden√ß√£o eterna (cf. Hb 9,12).

Desta forma, se deve dizer que Cristo √© o fim do sacerd√≥cio (cf. a express√£o de Paulo: Cristo √© o ‚Äúfim da Lei‚ÄĚ, Rm 10,4). Fim significa ao mesmo tempo ‚Äút√©rmino‚ÄĚ, desaparecimento do fen√īmeno em quest√£o, e ‚Äúculmina√ß√£o¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† ‚Äú, ‚Äúmeta‚ÄĚ, aquilo a que algo tende. Cristo √© fim e realiza√ß√£o de todo sacerd√≥cio. A finalidade dos sacerdotes nas religi√Ķes era mediar Deus e a humanidade. Ora, a dist√Ęncia entre Deus e a humanidade foi abolida em Cristo. Primeiramente, porque, como homem e Deus (cf. DH 301-302), une definitiva e escatologicamente os dois polos entre os quais os sacerdotes deviam fazer a media√ß√£o. Ele √©, em sua pessoa, o mediador √ļnico e perene (cf. 1Tm 2,5). Mas, al√©m disso, tendo nos dado o Esp√≠rito Santo, pelo qual o ser humano pode viver na imediatidade com Deus, dispensa ulteriores sacerdotes. Pelo Esp√≠rito constitu√≠mos um povo sacerdotal (cf. 1Pd 2,5; Ap 1,6; 5,10), temos constantemente acesso ao Pai (cf. Hb 4,16), clamamos Abba (cf. Gl 4,6; Rm 8,15), somos ensinados por Deus (cf. Jo 6,45). Nossa imediatidade a Deus no Esp√≠rito torna o sacerd√≥cio dispens√°vel (fim do sacerd√≥cio) e Cristo √© assim o √ļnico sacerdote (realiza√ß√£o do sacerd√≥cio), pois nos possibilitou, de uma vez para sempre, o acesso constante e definitivo a Deus. Tal acesso s√≥ existe no Esp√≠rito de Cristo (e n√£o pela natureza humana). Por isso, a Igreja √© o povo sacerdotal por sua atividade mission√°ria que continua a miss√£o de Cristo (cf. Jo 20,21; 1Pd 2,9).

Francisco Taborda, SJ. FAJE (Brasil). Texto original em português.

5 Referências bibliográficas

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