Batismo – Crisma

Sum√°rio

1 A unidade da iniciação cristã

2 Da lex orandi à lex credendi

2.1 A iniciação cristã no séc. III

2.2 A caracterização do batismo-crisma

2.2.1 Batismo-crisma, sacramento da fé

2.2.2 Batismo-crisma, sacramento da convers√£o

2.2.3 Batismo-crisma, sacramento de iniciação

2.3 A distinção entre o batismo e a crisma

3 A dimens√£o eclesial do batismo-crisma

3.1 A Igreja faz o batismo-crisma

3.2 O batismo-crisma faz a Igreja

4 Referências bibliográficas

1 A unidade da iniciação cristã (TABORDA, 2012, p.25-28)

Batismo e crisma s√£o dois sacramentos, como se pode verificar na lista dos sete sacramentos definida pelo Conc√≠lio de Trento (cf. DH 1901). Mas s√£o dois sacramentos intimamente unidos. Juntamente com a eucaristia batismal s√£o os sacramentos da inicia√ß√£o crist√£. Como a eucaristia n√£o √© s√≥ sacramento de inicia√ß√£o, aqui se tratar√° somente do batismo e da crisma em sua unidade. Tal foi, nas origens, a pr√°tica da tradi√ß√£o eclesial conservada ainda hoje no Oriente, mesmo para crian√ßas de colo. A pr√°tica atual da Igreja Latina √© testemunhada desde o s√©c. V (cf. DH 215). Em consequ√™ncia dessa pr√°tica, perdeu-se na Igreja Latina a vis√£o da unidade dos sacramentos da inicia√ß√£o crist√£ e tentou-se (em v√£o) desenvolver uma teologia da crisma independente do batismo. S√≥ considerando a unidade dos dois sacramentos √© poss√≠vel fazer uma teologia da crisma que n√£o ‚Äúroube‚ÄĚ algo do batismo, e vice-versa, uma teologia do batismo que n√£o ‚Äúperca‚ÄĚ algo para que a crisma possa existir.

2 Da lex orandi à lex credendi (TABORDA, 2015, p.23-47)

Gra√ßas √† volta √†s fontes, a teologia redescobriu na Patr√≠stica uma forma de refletir sobre os sacramentos, distinta da maneira usual da sacrament√°ria sistematizada pela Escol√°stica. A Patr√≠stica parte da celebra√ß√£o vivida em comunidade. A pr√°tica lit√ļrgica da Igreja, tal como foi ‚Äúem toda a parte, sempre e por todos‚ÄĚ celebrada (Vicente de L√©rins, ‚Ć cerca de 450), cont√©m uma teologia impl√≠cita a ser desenvolvida. Segundo o antigo axioma, verificando como a Igreja ora (lex orandi), conclui-se sobre o que devemos crer (lex credendi).

2.1 A inicia√ß√£o crist√£ no s√©culo III (BRADSHAW; JOHNSON; PHILLIPS, 2002; JOHNSON, 1999, p.82-135; TRADI√á√ÉO APOST√ďLICA, 1971, p.40-55)

A chamada ‚ÄúTradi√ß√£o Apost√≥lica‚ÄĚ, outrora atribu√≠da a Hip√≥lito de Roma (BRADSHAW, 1996), √© um antiqu√≠ssimo testemunho pormenorizado de como se processava a inicia√ß√£o crist√£ nos s√©cs. III-IV. O texto que apresenta a tradi√ß√£o do santo batismo pode ser dividido em cinco cenas: 1) a apresenta√ß√£o e exame do candidato ao batismo; 2) o catecumenato e a escolha dos que ser√£o batizados; 3) a prepara√ß√£o pr√≥xima para o batismo; 4) a celebra√ß√£o do batismo; 5) a vida crist√£ subsequente. Embora se fale da ‚Äútradi√ß√£o do santo batismo‚ÄĚ, trata-se do que poderia ser chamado ‚Äúo grande batismo‚ÄĚ, que inclui todos os ritos da inicia√ß√£o crist√£, inclusive crisma e eucaristia, pois a inicia√ß√£o crist√£ constitui uma unidade composta por uma s√©rie de a√ß√Ķes e ritos, pelos quais a pessoa se torna crist√£. O processo tem como ponto de partida a vida pregressa (paganismo) e como ponto de chegada a pr√°tica da vida crist√£. √Č, portanto, um processo de convers√£o e de inicia√ß√£o que culmina no banho batismal, durante o qual o eleito professa a f√© trinit√°ria. Com isso, em sua estrutura lit√ļrgica mais tradicional, o batismo-crisma se desvenda como sacramento da f√©, da convers√£o e da inicia√ß√£o crist√£.

2.2 A caracterização do batismo-crisma (TABORDA, 2012, p.39-45)

2.2.1 Batismo-crisma, sacramento da fé (TABORDA, 2012, p.55-78)

Com base na profiss√£o de f√© trinit√°ria que acompanha o banho batismal, o (grande) batismo √© sacramento da f√©. A f√© n√£o √© inata ao ser humano. Ela vem pela prega√ß√£o do Evangelho (cf. Rm 10,17), a boa not√≠cia de que Deus se revelou em Cristo crucificado (cf. 1Cor 1,23). No entanto, ele √© esc√Ęndalo para os ‚Äúpiedosos‚ÄĚ e loucura para os ‚Äús√°bios‚ÄĚ, pois significa que a salva√ß√£o de Deus vem atrav√©s de um rejeitado. Ambos os grupos pretendem saber como √© Deus e como ele se deve revelar. Os ‚Äúpiedosos‚ÄĚ s√≥ admitem que ele se mostre no maravilhoso e extraordin√°rio; os ‚Äús√°bios‚ÄĚ, no razo√°vel. ‚ÄúPiedosos‚ÄĚ e ‚Äús√°bios‚ÄĚ personificam a falta de f√©. Coincidem em pretender saber perfeitamente quem √© Deus e querer dar normas a seu agir.

Revelando-se no ‚Äúcrucificado pela injusti√ßa‚ÄĚ (cf. Puebla), Deus manifesta sua proximidade, pois o √ļltimo aos olhos humanos √© a fonte de salva√ß√£o. Mas, com isso, ao mesmo tempo ele revela o pecado e o perd√£o de Deus. ‚ÄúNenhum dos poderosos deste mundo a conheceu [a sabedoria de Deus, Cristo crucificado]. Pois, se a tivessem conhecido, n√£o teriam crucificado o Senhor da gl√≥ria‚ÄĚ (1Cor 2,8). Fora da f√© √© imposs√≠vel reconhecer o pecado e acolher o perd√£o. O pecado n√£o √© ‚Äúboa not√≠cia‚ÄĚ, mas o Evangelho torna patente o pecado como contraponto da f√©. Como sacramento da f√©, o batismo-crisma sela a aceita√ß√£o da f√© e inclui, por isso mesmo, a remiss√£o dos pecados como a outra face da ‚Äúobedi√™ncia da f√©‚ÄĚ (cf. Rm 1,5).

O reconhecimento do pecado permite captar a incapacidade humana de salvar-se pelas pr√≥prias for√ßas (autossalva√ß√£o). Nem a mera contempla√ß√£o da verdade (‚Äús√°bios‚ÄĚ), nem a observ√Ęncia abstrata da Lei (‚Äúpiedosos‚ÄĚ) s√£o capazes de salvar, mas a a√ß√£o do Esp√≠rito que impele o ser humano a ‚Äúfazer a verdade‚ÄĚ (cf. Jo 3,21), aproximando-se de quem est√° √† margem do caminho (cf. Lc 10,29-37) e realizando o bem concreto, que agora se apresenta a ser feito, mesmo que a Lei pudesse lan√ßar d√ļvidas sobre sua liceidade (cf. curas no s√°bado).

A f√© no Evangelho √© dom e presen√ßa do Esp√≠rito, porque a criatura animada pelo Esp√≠rito n√£o vive a partir de si, mas a partir de Deus. Essa vida nova √© fruto de um novo nascimento pela √°gua e pelo Esp√≠rito (cf. Jo 3,5). Como para o banho batismal o catec√ļmeno tem que despir-se para depois vestir novas roupas, assim tamb√©m, pela f√© e pelo batismo, o ne√≥fito se reveste do ‚Äúhomem novo, criado √† imagem de Deus, na verdadeira justi√ßa e santidade‚ÄĚ (Ef 4,24). A nova cria√ß√£o que surge da fonte batismal, por um lado, s√≥ se realizar√° plenamente na consuma√ß√£o do mundo e, portanto, √© objeto da esperan√ßa; por outro lado, ela j√° est√° presente na novidade trazida por Cristo. O ‚Äúvelho homem‚ÄĚ que morre no batismo √© o ser humano atingido pelo pecado, at√© a raiz de sua exist√™ncia hist√≥rica (cf. pecado original, pecado social).

Se o Evangelho √© o Cristo crucificado, este concretiza em si, por sua obedi√™ncia at√© a morte, o Reino de Deus. Ele √© o ‚Äúreino em pessoa‚ÄĚ (autobasileia, Or√≠genes ‚Ć 254). O Reino de Deus √© uma nova ordem de coisas, fundamentada em Deus, onde predominam justi√ßa, fraternidade, amor, igualdade, solidariedade… Quando Deus reina, a fraternidade n√£o fica em palavras, mas passa √† pr√°tica e se torna hist√≥ria. O batismo-crisma expressa e realiza a ades√£o ao Reino, segundo o Esp√≠rito de Jesus, aprendendo a obedi√™ncia na sua entrega ao Pai (cf. Hb 5,8).

2.2.2 Batismo-crisma, sacramento da convers√£o (TABORDA, 2012, p.79-109)

A ‚ÄúTradi√ß√£o Apost√≥lica‚ÄĚ descreve o processo batismal como mudan√ßa de costumes e h√°bitos, passagem dos √≠dolos ao Deus verdadeiro (cf. 1Ts 1,9). A idolatria n√£o necessariamente tem fei√ß√£o religiosa, pois consiste em p√īr como o absoluto de nossa exist√™ncia aquilo que √© relativo. Tudo pode tornar-se √≠dolo. Hoje se trata especialmente da riqueza, poder, prazer e saber, coisas boas em si, que se transformam em √≠dolo quando se faz delas o valor supremo da vida. Por isso, o cuidado que se observa na ‚ÄúTradi√ß√£o Apost√≥lica‚ÄĚ para que o candidato abandone toda atividade que, de alguma maneira, rescenda a idolatria.

Pertence √† natureza do √≠dolo exigir sacrif√≠cios humanos (cf. Dt 12,31; 2Rs 16,3; Os 13,2; Mq 6,7; Jr 7,31 e 19,5; Ez 20,31 e 23,39), porque s√£o for√ßas de morte. Para obt√™-los, passa-se por cima dos direitos dos outros, ou os pr√≥prios id√≥latras se sacrificam, desgastando-se para obter intimidade com o √≠dolo. O Deus vivo, Pai de Jesus Cristo, ao contr√°rio, quer a vida do ser humano, e vida em abund√Ęncia (cf. Jo 10,10). Desse modo, em Cristo se aproxima dos exclu√≠dos e dos pecadores. Lan√ßa o desafio a que as pessoas mudem de vida, acercando-se de quem est√° √† margem e √© desprezado (cf. Lc 10,29-37). S√≥ a partir de baixo se pode construir a igualdade exigida pelo Reino de Deus. Jesus vai √† frente (cf. Hb 12,2), abrindo caminho, para que se reconhe√ßa Deus nos pequenos e humilhados, pois ele pr√≥prio carregou a humilha√ß√£o da morte de cruz fora dos muros da Cidade Santa (cf. Hb 13,12-13).

A convers√£o dos √≠dolos ao Deus verdadeiro √© uma passagem da morte √† vida. √Č P√°scoa, como a exist√™ncia de Jesus (cf. Jo 16,28). O mist√©rio pascal de Cristo s√≥ pode ser entendido de modo correto quando visto como consequ√™ncia de sua vida. Jesus morreu condenado √† morte, porque viveu da forma que viveu. Ressuscitou, porque viveu e morreu daquela maneira. Ora, a vida e obra de Jesus se resumem na fidelidade √† sua miss√£o de tornar presente o Reino de Deus, que exige que se absolutize somente a Deus e nada mais, e ningu√©m mais (cf. Mt 13,44-46). Onde Deus √© o √ļnico absoluto, pratica-se o primado da justi√ßa, da verdade, da solidariedade, da fraternidade e de todos os demais valores do Reino.

A mensagem do Reino que Jesus tematiza em suas a√ß√Ķes e em suas palavras √©, pois, uma mensagem de vida contra os √≠dolos da morte. Nada mais natural que os √≠dolos se voltem contra Jesus e procurem elimin√°-lo. Por sua atua√ß√£o, Jesus entra na luta entre os √≠dolos e Deus e morre v√≠tima desses √≠dolos. A Lei dos judeus absolutizada e o poder dos romanos divinizado s√£o os dois √≠dolos que determinam a condena√ß√£o de Jesus. Por isso, a convers√£o dos √≠dolos ao Deus verdadeiro √© participa√ß√£o na luta de vida e morte de Jesus contra os √≠dolos.

O mist√©rio pascal √© a passagem de Cristo da morte √† vida. O aspecto ‚Äúvida‚ÄĚ no mist√©rio pascal √© uma unidade estruturada, diferenciada em tr√™s momentos: ressurrei√ß√£o-ascens√£o-Pentecostes. Essas tr√™s etapas podem ser apresentadas num esquema temporal, como o faz Lucas em sua dupla obra (Evangelho e Atos dos Ap√≥stolos), bem como o final can√īnico de Marcos (cf. Mc 16,9-20). Mas tamb√©m podem ser vistos em sua unidade, como sintetiza Jo√£o sob o conceito de ‚Äúglorifica√ß√£o‚ÄĚ que entretece morte, ressurrei√ß√£o, ida ao Pai e envio do Esp√≠rito numa unidade insepar√°vel. Mateus, embora n√£o distinga os tr√™s momentos, sup√Ķe-nos na √ļnica apari√ß√£o de Jesus aos disc√≠pulos em um monte da Galileia (cf. Mt 28,16-20).

A unidade diferenciada do mist√©rio pascal de Cristo possibilita que reconhe√ßamos o mesmo para batismo e crisma. A passagem pela √°gua ‚Äď afogamento e fonte de vida ‚Äď simboliza a participa√ß√£o no mist√©rio pascal enquanto passagem da morte √† vida (ressurrei√ß√£o); os gestos simb√≥licos da crisma expressam a comunh√£o ao mist√©rio pascal de Cristo como novo Pentecostes (cf. a seguir em 2.3).

Pela convers√£o a Cristo, o ser humano faz tamb√©m sua p√°scoa ou ‚Äúpassagem‚ÄĚ, em Cristo e com Cristo, ao Pai. Aceitar na f√© o mist√©rio pascal e aceitar participar dele s√≥ √© poss√≠vel se nos √© dada a mesma liberdade de Cristo, seu Esp√≠rito que transformou os ap√≥stolos de medrosos em audazes e valentes. N√£o por acaso, Pentecostes √© uma dimens√£o do mist√©rio pascal de Cristo, o seu fecho e desfecho. Participar do mist√©rio pascal de Cristo √© tomar parte em sua liberdade. Ora, a liberdade est√° ali, onde est√° o Esp√≠rito do Senhor (cf. 2Cor 3,17).

A convers√£o, dos √≠dolos ao Deus verdadeiro, n√£o √© simplesmente um ato nosso: √© dom de Deus, gra√ßa. Deus tem a iniciativa no convite √† convers√£o. A a√ß√£o de Deus desperta a liberdade humana e, despertando-a, a ‚Äúcarrega‚ÄĚ, acompanha, liberta e salva dos √≠dolos, for√ßas de morte. A idolatria torna a liberdade humana escrava do pecado (cf. Jo 8,34). Pela convers√£o √† f√© crist√£ e pelo (grande) batismo, ‚Äúfomos chamados √† liberdade‚ÄĚ (Gl 5,13).

A liberdade apresenta dois polos: √© liberdade de e liberdade para. Negativamente, √© liberdade de: liberdade do pecado, da Lei, da morte, for√ßas de morte pr√≥prias da idolatria. Positivamente, ela se concretiza como liberdade para Deus (cf. Rm 6,18-22; Gl 5,13; 1Pd 2,16; 1Cor 7,21s), liberdade para o outro (cf. Gl 5,13s.22s; 1Cor 6,12), liberdade em Cristo e por ele (cf. Gl 2,4; 5,1; Jo 8,36). A liberdade segundo o Esp√≠rito de Cristo √© servi√ßo m√ļtuo (cf. Gl 5,13), √© dar espa√ßo √† liberdade dos outros, limitar-se por amor ao outro (cf. 1Cor 8,13; Rm 14,20-21).

2.2.3 Batismo-crisma, sacramento da iniciação cristã (TABORDA, 2012, p.111-134)

O processo batismal descrito na ‚ÄúTradi√ß√£o Apost√≥lica‚ÄĚ mostra tamb√©m que √© preciso aprender a ser crist√£o, porque, como disse Tertuliano, ‚Äún√£o nascemos crist√£os; n√≥s nos fazemos crist√£os‚ÄĚ (Apologeticus, c.18). Esse processo consiste em que, pela a√ß√£o do Esp√≠rito Santo, o candidato seja introduzido no mist√©rio de Deus (mistagogia), pois somente no Esp√≠rito temos acesso ao Pai para clamar ‚ÄúAbb√°‚ÄĚ (cf. Rm 8,14-17; Gl 4,4-7). Sem ele, n√£o √© poss√≠vel conhecer o Pai (cf. 1Cor 2,10-12) nem confessar o Filho (cf. 1Cor 12,3). Por isso, tradicionalmente o (grande) batismo recebeu o nome de ‚Äúilumina√ß√£o‚ÄĚ: s√≥ se pode ter acesso ao Mist√©rio de Deus pela luz do alto.

Como todo conhecimento entre pessoas, tamb√©m o conhecimento de Deus s√≥ √© poss√≠vel na revela√ß√£o m√ļtua que se autossupera no amor: √© um tipo de conhecimento n√£o meramente intelectual; ele se d√° na pr√°xis do seguimento de Jesus. Quem se converte a Cristo n√£o precisa apenas ser instru√≠do numa doutrina, mas posto em contato com uma pessoa viva a quem se entrega no amor.

O seguimento √© concretiza√ß√£o da f√© em Jesus. Ele vai √† frente na caminhada (cf. Hb 12,2), mas junto com ele, emp√≥s ele, vem toda a ‚Äúnuvem de testemunhas‚ÄĚ (cf. Hb 12,1), com as quais est√° prometido obtermos a ‚Äúplena realiza√ß√£o‚ÄĚ (cf. Hb 11,40). O caminho do seguimento de Jesus √© comunit√°rio, eclesial. Seguir Jesus significa assemelhar-se a ele (proximidade) por uma pr√°tica semelhante √† dele (movimento subordinado), que tem um desenlace como o dele, na cruz. Pois somente a partir da cruz se pode conhecer a Jesus e assim ao Pai, porque ent√£o realmente se rompem todos os esquemas humanos sobre quem √© Deus e sobre o que significa ser Filho de Deus. A cruz √© crise e revolu√ß√£o na ideia de Deus. Deus, que se costuma considerar como poder, for√ßa e gl√≥ria, mostra-se na impot√™ncia, vergonha e ignom√≠nia, no absurdo (k√©nosis).

O Esp√≠rito Santo nos leva a fixar os olhos em Jesus, para nele vermos o Pai (cf. Jo 14,9) e caminharmos com ele, pois sua exist√™ncia toda foi passagem para o Pai (P√°scoa). Seguir Jesus nos revela a face do Pai como nosso Pai, pois, sob a√ß√£o do Esp√≠rito, somos feitos ‚Äúfilhos no Filho‚ÄĚ pela f√© e pelo batismo.

Nessa condi√ß√£o, podemos dirigir-nos ao Pai na franqueza e liberdade (parrhes√≠a) de filhas e filhos. Por isso, ao rito da inicia√ß√£o crist√£ pertence a ‚Äúentrega do Pai Nosso‚ÄĚ que √© aprendizado da ora√ß√£o crist√£ com suas caracter√≠sticas pr√≥prias, diferentes das de outras religi√Ķes. A ora√ß√£o especificamente crist√£ sempre se dirige ao Pai, pela media√ß√£o do Filho no Esp√≠rito Santo, porque n√£o √© a ora√ß√£o de um estranho, mas de algu√©m que est√° inserido no mist√©rio de Deus e no qual habita Deus por seu Esp√≠rito (cf. 1Cor 6,19). De fato, pelo Esp√≠rito Santo estamos mergulhados no mist√©rio do Deus que se aproximou de n√≥s em Jesus Cristo. Ao Pai, pelo Filho, no Esp√≠rito Santo, a ora√ß√£o do crist√£o √© a gra√ßa de participar da din√Ęmica mesma da vida trinit√°ria.

Salientem-se dois elementos essenciais da ora√ß√£o crist√£: a consci√™ncia de n√£o sabermos orar como conv√©m e, por isso mesmo, deixar que o Esp√≠rito ore por n√≥s ‚Äúcom gemidos inenarr√°veis‚ÄĚ (cf. Rm 8,14-27); e n√£o fugir da realidade para orar, mas dirigir-nos ao Pai a partir de nossa inser√ß√£o na hist√≥ria humana, ouvindo e fazendo eco aos gemidos da cria√ß√£o (cf. Rm 8,22-23).

2.3 A distinção entre o batismo e a crisma (TABORDA, 2012, p.145-150; 187-211)

Até agora foi explicitada a graça comum ao batismo e à crisma, que pode ser resumida como participação no mistério pascal de Cristo e, portanto, na vida trinitária. Ora, o mistério pascal com seus três momentos (ressurreição, ascensão e Pentecostes) é uma unidade diferenciada. Da mesma forma os sacramentos da iniciação, em sua unidade, diferenciam-se em batismo e crisma (e eucaristia). Batismo e crisma, pelos gestos simbólicos com que se realizam, remetem a dois momentos do mistério pascal de Cristo: morte-ressurreição (passagem da morte à vida) e Pentecostes (efusão do Espírito para o testemunho). A passagem da morte à vida é simbolizada no banho batismal, pois afogar-se leva à morte, mas desse mergulho na morte se sai com uma vida nova. Pentecostes é significado pelo gesto simples e complexo da imposição das mãos, assinalação e unção com óleo perfumado. A imposição das mãos é um gesto de bênção; no caso, a bênção por excelência que é o Espírito (cf. Lc 11,13). A assinalação significa pertença a alguém e, biblicamente, também é sinal de salvação para quando do juízo escatológico de Deus (cf. Ez 9,4-6; Ap 7,3 e 9,4). Na crisma, significa que já agora pertencemos a Deus (cf. 2Cor 1,22), embora essa pertença ainda não se manifeste em plenitude (cf. 1Jo 3,2). A unção indica que pelo batismo-crisma somos sacerdotes, profetas e reis. Como, porém, se trata de um óleo perfumado, o sacramento nos constitui, por nossa própria vida, testemunhas do Ressuscitado, pois o perfume permite perceber a presença de alguém, mesmo sem que se veja a pessoa.

Os gestos simbólicos distinguem os dois sacramentos (batismo e crisma), mas é na sua unidade que eles devem ser compreendidos como participação no mistério pascal. A eucaristia, terceiro sacramento da iniciação, tem uma característica específica: é o sacramento cotidiano de nossa entrega com Cristo ao Pai pela ação do Espírito Santo. Dá-nos parte no mistério pascal enquanto sacrifício.

3 A dimens√£o eclesial do batismo-crisma

A caracter√≠stica do sacramento √© sua dimens√£o eclesial (‚ÜíEclesialidade dos sacramentos). H√° uma rela√ß√£o m√ļtua entre Igreja e sacramento, expressa no axioma ‚Äúa Igreja faz os sacramentos; os sacramentos fazem a Igreja‚ÄĚ.

3.1 A Igreja faz o batismo-crisma (TABORDA, 2012, p.215-230)

A missão da Igreja está expressa em Mt 28,19-20, em termos de fazer todos os povos discípulos de Jesus, batizando-os. Batizar é intrínseco ao ser da Igreja. A ela cabe não só iniciar na fé pelo (grande) batismo, mas também propiciar aos batizados um crescimento constante na fé recebida no batismo, porque, embora a fé seja um ato pessoal, livre e intransferível, é essencialmente comunitário. Sendo a fé adesão ao mistério inesgotável de Deus, ninguém é capaz de vivê-la plenamente; tem que confrontar-se sempre com outras formas de acolher e viver o Deus que se autocomunica por meio de Cristo no Espírito Santo.

A Igreja √© criada pelo Esp√≠rito de Cristo que desperta a f√©, move √† convers√£o, atua na inicia√ß√£o. O Esp√≠rito Santo √© o Esp√≠rito da unidade e da diversidade. No batismo-crisma ele eleva os iniciados √† dignidade de filhos e filhas de Deus. Confere-lhes uma dignidade que torna iguais todos os membros da Igreja. Mas, como Esp√≠rito de vida, ‚Äúna variedade dos dons celestes e na diversidade dos membros‚ÄĚ, faz ‚Äúcrescer com admir√°vel unidade‚ÄĚ o Corpo de Cristo (prece de ordena√ß√£o diaconal da liturgia romana). Como os membros do corpo n√£o s√£o iguais, tamb√©m cada membro da Igreja tem seu carisma a ser vivido harmonicamente com os demais carismas, pois todos prov√©m do Esp√≠rito que nos foi dado no (grande) batismo.

3.2 O batismo-crisma faz a Igreja (TABORDA, 2012, p.231-248)

Ao dar a todos os cristãos igual dignidade, o (grande) batismo cria a Igreja como comunidade de iguais. Gl 3,26-28 professa que a Igreja, pelo batismo, é uma comunidade onde todas as diferenças sociais, culturais, religiosas, nacionais, raciais e de gênero são superadas ou, pelo menos, deveriam sê-lo, porque todos foram revestidos de Cristo. O que conta, a partir do batismo, não são os papéis sociais, culturais e religiosos, mas o discipulado e o poder concedido pelo Espírito. Conferindo igualdade a judeus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres, a Igreja vive numa constante tensão, criada pelo batismo, entre a igualdade em Cristo e as desigualdades criadas pela sociedade.

A igualdade batismal tem sua base na dignidade de sacerdotes, profetas e reis, comum a todos os batizados. Esse tr√≠plice m√ļnus se resume em dar testemunho da f√©. Como sacerdote, o crist√£o proclama os grandes feitos de Deus em Cristo Jesus (cf. 1Pd 2,9), adora Deus com sua vida, rejeitando os √≠dolos hist√≥ricos da riqueza, do poder, do prazer e do saber, descobre a imagem de Deus ultrajada no rosto do pobre. Como rei, concretiza o Reino na busca da justi√ßa e do direito, combatendo os √≠dolos que, para viverem, exigem a morte do pobre, lutando por implantar a igualdade batismal, para al√©m de toda diferen√ßa de ra√ßa, posi√ß√£o social e g√™nero, o que, nas condi√ß√Ķes concretas da hist√≥ria, s√≥ se faz privilegiando quem √© descartado. Como profeta, desmascara a falta de f√© como ego√≠smo e nega√ß√£o do outro, especialmente do pobre, mostra-se livre para Deus e para o pr√≥ximo, denuncia toda desfigura√ß√£o da imagem de Deus no ser humano, resultante da explora√ß√£o de uns pelos outros.

Embora a Igreja seja una pelo batismo, existe em diversas confiss√Ķes, devido ao pecado dos crist√£os. Sob esse ponto de vista, vale o que declarou o Documento de Lima (1982): ‚ÄúNosso √ļnico batismo em Cristo constitui um apelo dirigido √†s Igrejas, para ultrapassarem suas divis√Ķes e manifestarem visivelmente sua comunh√£o‚ÄĚ, pois o batismo ‚Äúnos une ao Cristo na f√©‚ÄĚ e √©, assim, ‚Äúum v√≠nculo fundamental de unidade‚ÄĚ (CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, 1983, n.6, p.17).

Francisco Taborda, SJ. FAJE, Belo Horizonte (Brasil). Texto original em português.

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