Liturgia, religiosidade popular e culturas

Sum√°rio

Proêmio

1 Inculturação da liturgia

1.1 Que entendemos por liturgia e por cultura

1.2 Interação entre liturgia e culturas

1.3 Breve resenha histórica. Rumo à  interculturalidade

2 Criatividade lit√ļrgica

2.1 Criatividade e novidade

2.2 Quatro modalidades na criatividade lit√ļrgica

2.3 Variação, adaptação, inculturação

3 Religiosidade popular, cultura e liturgia

3.1 Import√Ęncia da religiosidade popular

3.2 Religiosidade popular na América Latina

3.3 Religiosidade popular e liturgia

4 Encontro de fé e cultura no simbólico sacramental

4.1 Import√Ęncia do simb√≥lico sacramental

4.2 O evangelho nos chega através de símbolos e ritos

4.3 As culturas devem entrar no rito e progredir com ele.

5 Conclus√£o

6 Referências Bibliográficas

Proêmio

Para a f√© crist√£ a encarna√ß√£o do Filho de Deus √© um dado t√£o importante que afeta todas as estruturas e elementos que a comp√Ķem: o tempo, o espa√ßo, a cultura, ¬†a religiosidade, o culto, as rela√ß√Ķes sociais … Tudo √© permeado pelo fato de que Deus entrou em nossa hist√≥ria. A encarna√ß√£o adquire o seu pleno significado na glorifica√ß√£o de Jesus. Mas para a f√© crist√£ h√° outro fato, sem o qual n√£o √© totalmente compreendida, nem a pessoa de Jesus, nem a sua glorifica√ß√£o, nem a Igreja nem o destino da humanidade: este fato √© a presen√ßa do Esp√≠rito de Deus na pessoa de Jesus na Igreja e no mundo.

Se a encarna√ß√£o do Filho de Deus tem uma transcend√™ncia √ļnica, mas enquadrada em um tempo e um espa√ßo concretos (Nazar√© ano tal), a efus√£o do Esp√≠rito Santo √© algo que permeia toda a hist√≥ria e todos os povos, mesmo que o seu √°pice mais significativo seja Pentecostes. N√≥s tendemos a ler os acontecimentos salv√≠ficos de forma linear sem conex√£o: a cria√ß√£o, a hist√≥ria antes de Jesus, a presen√ßa de Jesus na Palestina h√° dois mil anos, a hist√≥ria e a vida da Igreja depois de Jesus. Estes est√°gios s√£o reais, mas somente o Esp√≠rito Santo os unifica: Ele vai ser a chave para entender coisas t√£o variadas como a presen√ßa de Deus na religiosidade do povo, a presen√ßa de Deus na liturgia, a presen√ßa de Deus em cada cora√ß√£o e em todas as culturas, o destino da humanidade .

Sempre, mas especialmente em tempos de rápidas mudanças históricas, culturais e sociais, a Igreja, na sua evangelização, estruturação e liturgia, precisa voltar a repensar a sua relação com a cultura ou as culturas dos povos, com base na encarnação de Cristo e no dom do Espírito.

1 Incultura√ßa√Ķ da liturgia

1.1 Que entendemos por liturgia e por cultura?

A palavra liturgia tem significados diferentes para o nível bíblico e eclesial. Refere-se a realidades inter-relacionadas, mas não idênticas. Aqui por liturgia entendemos o significado que a Constituição Sacrosanctum Concilium do Vaticano II lhe atribui mesmo sem tentar definir o que ela é. Ela diz  no n. 7:

Com raz√£o se considera a Liturgia como o exerc√≠cio da fun√ß√£o sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sens√≠veis significam e, cada um √† sua maneira, realizam a santifica√ß√£o dos homens; nela, o Corpo M√≠stico de Jesus Cristo – cabe√ßa e membros – presta a Deus o culto p√ļblico integral.

H√° palavras que devem ser levadas muito em conta nesta quase defini√ß√£o: exerc√≠cio do sacerd√≥cio de Jesus Cristo, cabe√ßa e membros, santifica√ß√£o e culto p√ļblico, sinais sens√≠veis que significam e realizam algo. A liturgia n√£o pode ser reduzida a algo puramente interno ou individual; n√£o √© uma mera lembran√ßa das a√ß√Ķes salv√≠ficas de Jesus; √© atua√ß√£o de Cristo hoje na sua Igreja; √© adora√ß√£o e santifica√ß√£o. O que Cristo fez na sua encarna√ß√£o, paix√£o e glorifica√ß√£o, o continua atualizando hoje na liturgia pela Igreja, que recebeu seu Esp√≠rito. Odo Casel, grande precursor da renova√ß√£o da teologia da liturgia,¬† disse em 1928 que em cada um dos sacramentos √© dada “a presen√ßa do ato salvador divino sob o v√©u dos s√≠mbolos

e que “a liturgia √© o mist√©rio cultual de Cristo na Igreja” (citado por FILTHAUT, p. 28-29). A Sacrosanctum Concilium por sua vez, diz que “Cristo est√° sempre presente na sua Igreja, sobretudo na a√ß√£o lit√ļrgica” (SC 7).

A palavra cultura tem tido e tem significados muito diferentes. Limitando-nos ao √Ęmbito do nosso estudo se poderia dizer que √© o conjunto de express√Ķes simb√≥licas (modo de vida e de trabalho, festas, artes, celebra√ß√Ķes, forma√ß√£o …) que caracterizam a forma de ser, de agir, de sentir e de valorizar de um o povo. E mesmo quando n√£o h√° unanimidade ante o conceito de cultura, h√° algum acordo sobre certos tra√ßos que a caracterizam e que caracterizam todas as culturas: a cultura n√£o s√≥ √© racional; n√£o √© um simples enfeite folcl√≥rico; n√£o √© algo un√≠voco, mas plural e diversificado; a cultura √© um todo estruturado, mas √© mut√°vel e evolutiva;¬† deve ser participativa, se n√£o quer ser manipulada; inclui as realidades profundas de um povo, realidades que a “moldam”, incluindo o fen√≥meno religioso;¬† influenciam nela o meio ambiente e hist√≥ria[1].¬†¬†

1.2 Interação entre liturgia e culturas

A cultura como uma expressão do mais característico e mais íntimo do ser, agir, sentir e valorizar de um povo inclui, obviamente, a experiência religiosa de um povo. Enquanto isso, também a religiosidade de um povo (expressa em seus livros, crenças, festas e rituais) imprime de alguma forma a sua marca na cultura. Portanto, quando um povo tem recebido em sua história a fé cristã, a sua liturgia interage com a cultura numa simbiose mais ou menos bem sucedida, mas real. Duas palavras-chave explicam como ele funciona, ou, pelo menos, como pode funcionar essa interação: são as palavras aculturação e inculturação.

Acultura√ß√£o: √Č a introdu√ß√£o de uma mudan√ßa ou modifica√ß√£o em um rito lit√ļrgico para uma melhor inser√ß√£o dos fi√©is na liturgia. Acultura√ß√£o envolve sempre se mudan√ßas mais ou menos significativas no rito lit√ļrgico estabelecido. Um exemplo: a s√≥bria liturgia romana dos primeiros s√©culos, quando em contato com povos evangelizados provenientes de outras culturas¬† nos s√©culos posteriores, aceitou ritos mais expressivos e textos mais exuberantes que de alguma forma mudaram o g√™nio do rito romano. Assim, a liturgia romana se “aculturou” (= acomodou-se) √† cultura desses povos.

Incultura√ß√£o: √Č a reinterpreta√ß√£o e transforma√ß√£o de um rito n√£o-crist√£o para que ele possa tornar-se parte de um rito lit√ļrgico, mas de forma que expresse o mesmo que expressa o rito lit√ļrgico. A incultura√ß√£o comporta mudan√ßas mais ou menos profundas do rito n√£o-crist√£o, mas respeitando a forma pr√≥pria de uma cultura. Para realizar a incultura√ß√£o √© preciso, entre outras coisas que o g√™nio e a cultura de um povo e suas express√Ķes simb√≥licas, lingu√≠sticas e rituais sejam muito bem conhecidos. Um exemplo: A un√ß√£o pr√©-batismal n√£o estava no rito batismal dos primeiros s√©culos; ele foi tirado da cultura e ritualidade¬† pag√£s ; mas lhe foi dado um sentido crist√£o[2].

1.3 Breve resenha histórica. Rumo à  interculturalidade

Fam√≠lias lit√ļrgicas: Um fen√īmeno eloquente da intera√ß√£o entre f√© e cultura √©, acima de tudo, a presen√ßa de v√°rios ritos ou fam√≠lias lit√ļrgicas na Igreja. Na verdade, por causa da diversidade teol√≥gica e cultural, existem desde os prim√≥rdios do cristianismo v√°rias maneiras de celebrar a liturgia no Oriente e Ocidente: n√£o se celebrava antes nem se celebra hoje da mesma forma nas igrejas de Roma, Constantinopla ( Istambul), Antioquia ou Alexandria. O Conc√≠lio Vaticano II valoriza muito estes ritos e deseja que continuem (cf. Orientalium Ecclesiarum n. 1-2).

Acultura√ß√£o: Circunscrevendo-nos ao rito romano, a hist√≥ria da liturgia mostra que, apesar de que a liturgia ocidental tem sido muito resistente √†s mudan√ßas, os ritos foram modificados ao longo dos s√©culos: n√£o se celebrava da mesma forma nos primeiros s√©culos, que nos tempos medievais, depois do conc√≠lio de Trento e depois da reforma conciliar do Vaticano II. A liturgia ocidental tem sido “aculturando‚ÄĚ aos diversos tempos e √°s mudan√ßas cultural. Em particular, a reforma lit√ļrgica do Conc√≠lio Vaticano II teve em conta as exig√™ncias da cultura de hoje (uso de l√≠nguas vern√°culas, cria√ß√£o e variedade de textos eucol√≥gicos, participa√ß√£o, etc.).

Incultura√ß√£o: Sobre a incultura√ß√£o, podemos dizer que o pr√≥prio Jesus fez uso de padr√Ķes culturais anteriores e de seu¬† tempo (incluindo banhos rituais de Israel, o batismo de penitencial e inici√°tico de Jo√£o Batista), mas dando lhes um novo sentido. Nos primeiros s√©culos e limitando-nos ao patriarcado do Ocidente, a liturgia foi cautelosa em aceitar formas rituais de outras religi√Ķes. Nos s√©culos XVI e XVII destacam as controv√©rsias sobre os ritos malabares e¬† chineses que acabaram por ser desautorizados. Singularmente o Ritual do Matrimonio ¬†do Vaticano II n√£o est√° fechado para a possibilidade de aceitar um rito matrimonial tirado de outra cultura como forma do matrimonio, sob certas condi√ß√Ķes, especialmente em pa√≠ses rec√©m-evangelizados e culturalmente muito diversos.

Rumo √†¬† interculturalidade: Ap√≥s o Conc√≠lio Vaticano II foi discutida – nem sempre com precis√£o nem com uma linguagem √ļnica ‚Äď a acultura√ß√£o e a incultura√ß√£o da liturgia. Hoje, no contexto da pluralidade cultural e eclesial, se tende tanto no n√≠vel cultural e lit√ļrgico a falar mais de interculturalidade. Limitando-nos ao caso da liturgia, pode-se dizer que os termos acultura√ß√£o e incultura√ß√£o j√° expressam a rela√ß√£o e intera√ß√£o entre liturgia e culturas. Mas o termo interculturalidade expressa em si mesmo com mais clareza e reciprocidade a intera√ß√£o entre duas ou mais culturas e evita o perigo real de domina√ß√£o de uma cultura sobre a outra. A interculturalidade insiste que a rela√ß√£o deve ser em ambos os sentidos, sin√©rgica, respeitosa, de enriquecimento m√ļtuo … Algu√©m pode se perguntar at√© que ponto a interculturalidade (que fala de culturas) √© aplic√°vel √† rela√ß√£o entre uma cultura particular e liturgia da Igreja: √© a liturgia, sem maiores precis√Ķes, uma cultura …? Sem entrar neste ponto, devemos reconhecer que a interculturalidade aplicada ao nosso caso pode ajudar √† liturgia oficial para ter um relacionamento mais aberto e uma atitude mais respeitosa para com os valores de cada cultura.

2 Criatividade lit√ļrgica

2.1 Criatividade e novidade

A palavra criatividade √© uma palavra muito ampla. A a√ß√£o de criar, caracter√≠stica de Deus, tamb√©m se aplica ao homem, uma criatura de Deus. O homem cria, inventa, produz, institui, estrutura, organiza, recria. Criatividade e novidade est√£o ligadas: quando se cria se produz algo novo. N√£o podemos esquecer que Jesus √© a novidade e a novidade n√£o passa: ‘Jesus Cristo √© o mesmo ontem, hoje, sempre “(Hb 13,8). Esta novidade que √© Cristo deve se expressar e manifestar na liturgia da Igreja que Ele preside.

A liturgia ocidental, como eu sugeri, nem sempre tem sido um modelo de criatividade lit√ļrgica. Esta falta de criatividade -, mas tamb√©m de coragem e de clarivid√™ncia – n√£o fez nada para superar as divis√Ķes na grave crise da Reforma (s XVI.). A hist√≥ria da liturgia p√≥s-tridentina, al√©m do resultado infeliz dos ritos orientais chineses e malabares (s. XVII e XVIII), mostra algo que hoje parece estranho e ao qual tiveram que se submeter,¬† mais mal do que bem, as gera√ß√Ķes passadas. Trata-se do “fixismo” e imobilismo lit√ļrgico: l√≠ngua, ritos, normas, rubricas e m√ļsica foram prescritos e regulamentados at√© os menores detalhes durante s√©culos. A Constitui√ß√£o Sacrosanctum Concilium deu um grande passo ao estabelecer a reforma dos livros e ritos lit√ļrgicos e ao incentivar a participa√ß√£o efetiva de todos os fi√©is na liturgia.¬† Mas¬† reforma lit√ļrgica n√£o significa automaticamente renova√ß√£o lit√ļrgica. Muitos acreditavam ingenuamente que com a reforma dos livros lit√ļrgicos, mudando do latim para a l√≠ngua vern√°cula e transformando alguns ritos ou a disposi√ß√£o do local de culto, j√° tudo foi resolvido. Logo ficou claro que n√£o era assim. Al√©m disso, na Am√©rica Latina a mudan√ßa nos pegou despreparados: faltava aprofundar na catequese, no modo de pregar e celebrar, na piedade popular, na rela√ß√£o entre liturgia e vida, na forma√ß√£o e catequese dos fi√©is. Foi dada √™nfase √† reforma, mas n√£o √† renova√ß√£o; falava-se demais de criatividade, mas pouco de novidade; houve uma febre de mudan√ßas, mas n√£o um esfor√ßo para alcan√ßar uma melhor celebra√ß√£o e participa√ß√£o. Hoje ainda resulta dif√≠cil de entender que nem tudo pode ser resolvido com mudan√ßas e que n√£o h√°¬† reforma verdadeira sem renova√ß√£o.

2.2 Quatro modalidades na criatividade lit√ļrgica

Quatro modalidades: Se a criatividade lit√ļrgica significa inventar novas formas rituais, devem distinguir-se os diferentes modos de criatividade: a. Cria-se tudo, forma e conte√ļdo (por exemplo, algumas inten√ß√Ķes da ora√ß√£o dos fi√©is improvisadas); b. Se ajusta uma forma ordin√°ria ou “recria√ß√£o parcial” (por exemplo, se explicita uma ora√ß√£o do missal muito abstrata ou muito concisa); c. Escolhe-se entre v√°rios elementos (leituras, ora√ß√Ķes, cantos, ritos); d. Se reproduz algo j√° existente como se tivesse sido criado naquele momento √©poca (declama√ß√£o de um salmo,¬† interpreta√ß√£o de uma m√ļsica, recita√ß√£o de uma ora√ß√£o).

Regra de Ouro da criatividade: Dentro desses quatro modos indicados n√£o existe uma hierarquia de valor ou efic√°cia. Porque¬† “o valor lit√ļrgico de criatividade n√£o flui a partir da quantidade de novidade,¬† mas da capacidade de significar a novidade do invis√≠vel“. Ou, em linguagem simples: A novidade lit√ļrgica n√£o consiste em fazer algo diferente todos os dias, mas faz√™-lo cada vez de forma nova. O modo a n√£o √© necessariamente melhor do que o modo d.

Alguns exemplos: ¬†1. Uma boa orquestra e coro interpretam dezenas de vezes a Nona Sinfonia de Beethoven, sem mudar nada; mas cada vez o faz de uma nova maneira, como se fosse a primeira vez. 2. Na comemora√ß√£o de um anivers√°rio n√£o √© necess√°rio mudar os gestos estabelecidos, mas faz√™-los com o entusiasmo para celebrar algo novo: o dom da vida. 3. As inten√ß√Ķes da ora√ß√£o dos fi√©is improvisadas n√£o necessariamente ajudam a suplicar melhor do que aquelas preparadas com anteced√™ncia e anunciadas por um leitor. 4. Um c√Ęntico natalino novo o 25 de dezembro √© louv√°vel, mas n√£o necessariamente comove mais e expressa melhor a festa de Natal¬† que o ¬†cl√°ssico “Noite de Paz” bem executado. Mas este n√£o √© um convite para fazer sempre a mesma coisa: n√£o podemos esquecer que ao rito lit√ļrgico sempre lhe espreita a ¬†rotina e a¬† banalidade, a simples repeti√ß√£o do passado sem refer√™ncia para o futuro, o olhar para n√≥s sem olhar para os outros e para o Outro.

2.3 Variação, adaptação, inculturação

Na preparação e execução da liturgia deve ser  levado em conta, além do indicado sobre a criatividade e novidade, três elementos que as favorecem e indico a seguir:

A varia√ß√£o (indicado nos livros lit√ļrgicos e pouco utilizado por alguns): N√£o podemos repetir todos os dias o mesmo ritual, a mesma celebra√ß√£o, os mesmos textos e os mesmos cantos sem cair na rotina. √Č ¬†necess√°rio o uso de variantes. Os livros lit√ļrgicos atuais apresentam uma grande variedade de textos eucol√≥gicos (por exemplo: de uma ora√ß√£o eucar√≠stica passou-se a treze). Al√©m disso, a liturgia n√£o deve ser reduzida √† celebra√ß√£o da Eucaristia: rezar a Liturgia das Horas oferece uma estrutura diferente e enriquece a nossa ora√ß√£o. A infla√ß√£o de missas leva √† desvaloriza√ß√£o eucar√≠stica …

A adapta√ß√£o: A missa n√£o pode ser igual na par√≥quia, num convento de religiosas, com as crian√ßas, ou na pris√£o … Os livros lit√ļrgicos o insinuam quando dizem nas rubricas: “segundo as circunstancias” ou “se for considerado adequado pastoralmente ” e quando apresentam diversidade de ora√ß√Ķes para acomodar um sacramento a quem o recebe. Um modelo de adapta√ß√£o verdadeiramente exemplar √© o ‚ÄúDiret√≥rio lit√ļrgico para as missas com participa√ß√£o de crian√ßas”, publicado pela Congrega√ß√£o para o Culto Divino, em 1973. Ele merece ser levado mais em considera√ß√£o nas escolas, na catequese e nas par√≥quias. Outra adapta√ß√£o para ter presente √© o “Diret√≥rio para as celebra√ß√Ķes dominicais na aus√™ncia do presb√≠tero”, publicado em 1988 pela Congrega√ß√£o e que convida a exercer uma adapta√ß√£o criativa e a evitar a imita√ß√£o servil da missa dominical.

A incultura√ß√£o-acultura√ß√£o: Na Constitui√ß√£o da Liturgia¬† n√£o aparece este tecnicismo; mas se fala a√≠ de¬† uma “adapta√ß√£o mais profunda” √† mentalidade e √†s tradi√ß√Ķes dos povos em determinados lugares e circunst√Ęncias (cf. n. 37-40). Os n. 38-39 falam de uma adapta√ß√£o do rito romano a uma cultura (acultura√ß√£o); Os n. 37 e 40 falam da inclus√£o de elementos de uma cultura no rito lit√ļrgico (incultura√ß√£o). Para esta adapta√ß√£o mais profunda se exigem¬† certas condi√ß√Ķes descritas em outros documentos. Um exemplo atual de recente incultura√ß√£o e acultura√ß√£o √© encontrado no rito zairense da Eucaristia (hoje chamado rito congol√™s), na atual Rep. Dem. do Congo, em √Āfrica (PALOMERA cf., p. 73-76). Em diversas culturas ind√≠genas da Am√©rica Latina t√™m-se permitido mudan√ßas limitadas, especialmente no campo dos textos eucol√≥gicos (tradu√ß√Ķes din√Ęmicas).

3 Religiosidade popular, cultura e liturgia

Falando das rela√ß√Ķes entre religiosidade popular, cultura e liturgia, n√£o faremos uma distin√ß√£o entre religiosidade popular e religi√£o do povo. Embora a distin√ß√£o √© relevante para o n√≠vel geral da antropologia religiosa, ao n√≠vel da liturgia e da cultura dos povos da Am√©rica Latina, a distin√ß√£o est√° cada vez menos n√≠tida. O povo tende a expressar e¬† viver a religi√£o (f√©, cren√ßas, sentido religioso) pela religiosidade (ritos, express√Ķes simb√≥licas, festas) na liturgia oficial da Igreja e fora dela.

3.1 Import√Ęncia da religiosidade popular

A religiosidade popular √© um fen√īmeno que atravessa todos os povos e que influi em todas as culturas. O documento de Puebla (n. 444)¬† nos diz em palavras simples que “por religi√£o do povo, religiosidade popular ou piedade popular, entendemos o conjunto de cren√ßas profundas marcadas por Deus, das atitudes b√°sicas que derivam dessas convic√ß√Ķes e as express√Ķes que as manifestam”. E acrescenta: ‚ÄúTrata-se da forma ou da exist√™ncia cultural que a religi√£o adota em um povo determinado.” A religiosidade popular tem acompanhado a liturgia da Igreja desde os seus inicios. No Oriente crist√£o, a liturgia soube incorporar a religiosidade em sua liturgia ou caminhar em estreita uni√£o com ela. No Ocidente, a liturgia, mais formal e elitista, n√£o conseguiu essa simbiose: a religiosidade popular se desenvolveu em forma paralela √† liturgia.

3.2 Religiosidade popular na América Latina

Na América Latina, a religiosidade popular católica impregnou tanto a cultura das diversas etnias e grupos sociais que é um traço que marcou o catolicismo e as culturas latino-americanas. Os bispos reunidos em Medellín após o Concilio alertaram sobre a necessidade de tê-la em conta para evitar um divórcio entre o catolicismo e o povo dos batizados (cf. Doc. Medellín 6.3). João Paulo II a valorizava e a caracterizava com estas palavras:

“Esta piedade popular n√£o √© necessariamente um sentimento vago, carente de base doutrinal s√≥lida, como uma forma inferior de manifesta√ß√£o religiosa. Pelo contr√°rio, quantas vezes √© a express√£o verdadeira da alma de um povo, enquanto tocada pela gra√ßa e forjada pelo encontro feliz entre a obra de evangeliza√ß√£o e a cultura local “(Homilia pronunciada em 30 de Janeiro de 1979, santu√°rio de Nossa. Senhora de Zapopan, 2)

Papa Francisco fala na Evangelii Gaudium em termos altamente elogiosos da religiosidade popular na América Latina, dizendo:

‚Äúaquele amado Continente, onde uma multid√£o imensa de crist√£os exprime a sua f√© atrav√©s da piedade popular, os Bispos chamam-na tamb√©m ¬ęespiritualidade popular¬Ľ ou ¬ęm√≠stica popular¬Ľ. Trata-se de uma verdadeira ¬ęespiritualidade encarnada na cultura dos simples¬Ľ.‚ÄĚ (EG, 124).

Junto com elementos positivos n√£o faltam elementos negativos na religiosidade popular. Entre os elementos positivos podemos apontar, entre outros, os seguintes: a presen√ßa trinit√°ria em devo√ß√Ķes e na iconografia; sentido da provid√™ncia de Deus Pai; Cristo, celebrado no seu mist√©rio da encarna√ß√£o, na sua crucifica√ß√£o, na Eucaristia, na devo√ß√£o ao Cora√ß√£o de Jesus; amor afetuoso e terno a Maria (talvez o tra√ßo mais caracter√≠stico da religiosidade da Am√©rica Latina); as festas patronais; as peregrina√ß√Ķes; a f√© na vida ap√≥s a morte. Entre os aspectos negativos apontamos, entre outros, os de origem ancestral (supersti√ß√£o, magia,¬† fatalismo); aqueles resultantes de uma catequese pobres (ignor√Ęncia, sincretismo, redu√ß√£o da f√© a um mero contrato, sacramentalismo vazio, ritualismo); os origem ambiental (incoer√™ncia entre a f√© e a vida, falsos messias, alcoolismo em festas) (ver Doc. Puebla n. 454 e 456 e Doc. Aparecida n. 258-259).

3.3 Religiosidade popular e liturgia

Os limites entre o lit√ļrgico e a religiosidade popular n√£o devem tornar-se fronteiras. Nossas liturgias deveriam reconhecer mais plenamente a import√Ęncia da piedade popular, como insinua a Sacrosanctum Concilium (n. 9 e 13). Dever√≠amos ter mais em conta as culturas, as etnias e as l√≠nguas minorit√°rias. Al√©m disso, na religiosidade popular deveria promover-se a valoriza√ß√£o da Palavra de Deus, a prega√ß√£o,¬† a participa√ß√£o na ora√ß√£o comunit√°ria e nas assembleias dominicais, a prepara√ß√£o para os sacramentos, uma s√≥lida catequese no n√≠vel dos ritos e a purifica√ß√£o de aquilo que desmente a f√©¬† e a vida crist√£.

4 Encontro de fé e cultura no simbólico sacramental

4.1 Import√Ęncia do simb√≥lico sacramental

A comunica√ß√£o no n√≠vel humano e¬† religioso funciona por s√≠mbolos. A pessoa humana √© um ser ritual. Se expressa e se disse atrav√©s de sua corporeidade, da sua palavra, dos ¬†seus gestos, dos seus s√≠mbolos e dos seus ritos. Isto nos √© lembrado pela religiosidade e piedade popular de nossos povos: basta pensar na import√Ęncia das imagens, cantos, b√™n√ß√£os, devo√ß√Ķes,¬† ora√ß√£o em fam√≠lia, prociss√Ķes, confrarias, dan√ßas religiosas, festas patronais e santu√°rios em cada cidade. Tamb√©m a comunica√ß√£o no n√≠vel divino salv√≠fico funciona por s√≠mbolos. Deus se mostrou atrav√©s de sinais: a cria√ß√£o, os profetas, a Palavra revelada, Cristo e seus gestos, a comunidade eclesial e humana, os gestos sacramentais, o pobre… Porque Deus nos fez corp√≥reos e se tornou corp√≥reo.

4.2 O evangelho chega até nós através de símbolos e  ritos

O evangelho n√£o √© simplesmente uma hist√≥ria de dois mil anos atr√°s. A Boa Nova n√£o √© apenas uma hist√≥ria de algo que aconteceu “in illo tempore“. Se fosse assim n√≥s admirar√≠amos um homem excepcional, mas n√£o mais. O que Jesus fez na Palestina √© atualizado hoje “per ritus et preces” (Sacrosanctum Concilium n. 48), ou seja, atrav√©s da a√ß√£o lit√ļrgica de assembleias realizadas em seu nome e invocando a for√ßa do seu Esp√≠rito nas celebra√ß√Ķes. O S√≠mbolo da F√© (Credo), n√£o s√≥ expressa a f√© da Igreja: ao profess√°-lo nos une, nos identifica e nos ajuda a crescer como Igreja. A liturgia √© isto: n√£o √© simples cerim√īnia, n√£o √© mera mem√≥ria, e n√£o √© mera repeti√ß√£o. Cristo est√° presente no sinal da Palavra, Cristo nos alimenta com Seu p√£o celestial, Cristo nos une em seu corpo pela for√ßa do seu Esp√≠rito. Sem esses sinais e sem o Esp√≠rito Santo, Cristo permaneceria distante.

4.3 As culturas devem entrar no rito e progredir com ele

Hoje n√£o podemos falar de uma √ļnica cultura. Vivemos em um mundo plural. Tamb√©m a igreja una √© uma Igreja plural. √Č cat√≥lica n√£o √© porque ela se expresse em um idioma e cultura, mas porque na pluralidade de l√≠nguas e culturas celebra uma mesma f√©. Em Pentecostes, o dom de l√≠nguas fez que cada povo entendesse em seu idioma a mensagem que os ap√≥stolos professavam em sua pr√≥pria l√≠ngua. Hoje, o dom de l√≠nguas deve consistir em que a boa nova do Evangelho seja recebida, se celebre e se encarne na multiplicidade de l√≠nguas, salvaguardada a f√©. A Igreja Cat√≥lica √© universal, porque nela h√° espa√ßo para cada cultura, l√≠ngua, express√£o ritual e¬† art√≠stica. A incultura√ß√£o ritual n√£o √© moda; √© uma tarefa.

 Conclusão

A encarna√ß√£o do Filho de Deus √© um fato que nos convida a concentrar-nos e encontrar-nos na pessoa de Jesus. A irrup√ß√£o do Esp√≠rito de Jesus na comunidade de Pentecostes nos convida a alargar o horizonte para ver que Jesus, presente na sua Igreja, abra√ßa todas as culturas, povos e l√≠nguas e nos abre a humanizar e divinizar o mundo. A igreja na sua liturgia¬† (embora n√£o apenas nela) tem uma tarefa importante: mostrar que o Senhor est√° presente em nossa hist√≥ria, em nossas vidas, em nossas culturas. Para isso, a liturgia deve abra√ßar cada cultura, encarnar-se nelas e traduzir a mensagem para a l√≠ngua de hoje, a de cada povo e cada cultura. √Ārdua miss√£o, a longo prazo, mas n√£o imposs√≠vel. Trata-se n√£o de mudar tudo e desperdi√ßar um tesouro de vinte s√©culos; mas de evitar uma liturgia de museu (antiquada), inexpressiva (de rotina) ou discordante com a cultura de um povo : √© a tarefa de todos, especialmente dos que a presidem,¬† especialmente se eles est√£o inseridos pelo nascimento e batismo naquela cultura.

L. Palomera, S.J. Universidad Catolica de Bolívia, Cochabamba, Bolívia. Texto original espanhol

5 Referências bibliográficas

CHUPUNGCO, Anscar, ‚ÄúAdaptaci√≥n‚ÄĚ en: Nuevo Diccionario de Liturgia, ed. D. Sartore y A.M. Triacca, Madrid: Paulinas, 1987.

DI SANTE, Carmine, ‚ÄúCultura y liturgia‚ÄĚ en: Nuevo Diccionario de Liturgia, ed. D. Sartore y A.M. Triacca, Madrid: Paulinas, 1987.

FILTHAUT, Teodoro, Teología de los Misterios. Exposición de la controversia, Bilbao: Desclée de Brouwer, 1963.

PALOMERA,¬† Luis, ‚ÄúLe rite za√Įrois de la messe. Opinion d‚Äôun liturgiste de l‚ÄôAm√©rique latine‚ÄĚ, en Telema 29 (1982) 73-76.

Para aprofundar mais:

ALDAZ√ĀBAL, J. et al., La inculturaci√≥n en la liturgia, Cuadernos Phase 35, Barcelona: Centre de Pastoral Lit√ļrgica , 1992.

CASEL, Odo, El Misterio del culto cristiano, San Sebasti√°n: Dinor, 1953.

CONSEJO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO, Iglesia y Religiosidad popular en América Latina. Ponencias y Documento final, Bogotá, 1977.

DEPARTAMENTO DE LITURGIA DEL CELAM, El Medellín de la Liturgia, Bogotá, 1973.

EQUIPO SELADOC, Religiosidad popular, Salamanca: Sígueme, 1976.

 [1] Para um maior aprofundamento cf. DI SANTE: p. 518-530.

[2] Para um maior aprofundamento cf. CHUPUNGCO: p. 45-48.