Eclesiologia

Sum√°rio

1 Dificuldades atuais da Igreja

2 Princípios sociológicos e teológicos para compreender a Igreja

3 Fundamentos bíblicos da Igreja

4 Os três milênios eclesiológicos

4.1 Primeiro milênio: Igreja, mistério de comunhão

4.2 Segundo milênio: Igreja de Cristandade

4.3 Terceiro milênio: Igreja que volta a suas origens e se abre aos sinais dos tempos

5 Linhas de força da eclesiologia

6 Desafios para a Igreja do futuro

7 Referências bibliográficas

Antes de começar a refletir sobre a matriz eclesiológica, gostaríamos de dizer, para ser honestos, que nosso horizonte eclesiológico é aberto e, embora apresente a eclesiologia desde a perspectiva católica, poderá ser enriquecido ecumenicamente por outras abordagens eclesiológicas protestantes, anglicanas e ortodoxas.

1 Dificuldades atuais da Igreja

Depois do entusiasmo eclesial do s√©culo XIX (Vaticano I) e de in√≠cios do XX, que culminou no conc√≠lio eclesiol√≥gico Vaticano II, seguiu um tempo de crise eclesial, expressado em formula√ß√Ķes como ‚ÄúCristo sim, Igreja n√£o‚ÄĚ, ‚Äúcren√ßa sem perten√ßa eclesial‚ÄĚ, ‚Äúespiritualidade sim, mas institui√ß√£o n√£o‚ÄĚ, ‚Äúcrist√£os do √°trio‚ÄĚ, ‚Äúinverno eclesial‚ÄĚ, ‚Äútodas as religi√Ķes s√£o iguais‚ÄĚ etc.

Os motivos s√£o numerosos e variados: esc√Ęndalos sexuais de ministros da Igreja e esc√Ęndalos econ√īmicos das finan√ßas vaticanas, pouco respeito aos direitos humanos dentro da Igreja, estreiteza de vis√£o do magist√©rio moral, patriarcalismo, autoritarismo e centralismo hier√°rquico, alian√ßa da Igreja com os poderosos etc. Em todos estes casos se identifica a Igreja com a hierarquia (papa, c√ļria vaticana, bispos, presb√≠teros), embora¬† n√£o esteja constitu√≠da apenas pela hierarquia, nem seja o Reino de Deus, nem¬† possa substituir a Jesus Cristo, que √© ‚Äúo caminho, a verdade e a vida‚ÄĚ (Jo¬† 14,6). A Igreja tamb√©m n√£o tem a exclusividade do Esp√≠rito, pois ele tamb√©m age fora da Igreja nas culturas e religi√Ķes. O que √©, ent√£o, a Igreja?

2 Princípios sociológicos e teológicos para compreender a Igreja

Do ponto de vista sociológico, qualquer iniciativa pessoal, tanto de ordem política quanto cultural e religiosa, não pode ser duradoura se não se institucionaliza, pois toda instituição precisa de um centro de unidade e governo. Sem a institucionalização comunitária, eclesial, o movimento iniciado por Jesus de Nazaré teria desaparecido.

No entanto, teologicamente, √© preciso ir al√©m: Deus √© um mist√©rio de comunh√£o, √© uma comunidade trinit√°ria e seu projeto de salva√ß√£o (o Reino de Deus) √© comunit√°rio no seu conte√ļdo (filia√ß√£o divina e fraternidade humana) e encarnat√≥rio (se realiza em Cristo). Desta maneira, o des√≠gnio divino se realiza na hist√≥ria impulsionada pela a√ß√£o do Esp√≠rito nas comunidades: o Israel do Antigo ou Primeiro Testamento, a comunidade de Jesus e seus disc√≠pulos, a Igreja comunidade vis√≠vel e encarnada na hist√≥ria da humanidade. Seu centro √© o mandamento do amor, o amor trinit√°rio que se abre e comunica √† humanidade.

A Igreja n√£o √© uma ideologia, mas um fato hist√≥rico. Por isso, n√£o √© poss√≠vel compreender a Igreja sem recorrer √† hist√≥ria da Igreja. No entanto, a Igreja n√£o √© apenas um problema, mas um mist√©rio que s√≥ pode ser acessado a partir da f√©. E, por ser um mist√©rio ligado ao mist√©rio trinit√°rio (LG I), a Igreja nunca pode ser plenamente apreendida nem definida. Assim, coexistem, tanto na Escritura quanto na Tradi√ß√£o teol√≥gica, diversas reflex√Ķes sobre a Igreja (ou eclesiologias), que n√£o s√£o excludentes nem contradit√≥rias, mas que se complementam e enriquecem mutuamente. Por esta mesma raz√£o, procuraremos nos aproximar metodologicamente da Igreja desde seus diversos momentos hist√≥ricos, desde as diversas eclesiologias que t√™m ¬†aparecido. N√£o apenas a partir das eclesiologias oficiais, mas tamb√©m das eclesiologias que t√™m surgido da base do Povo de Deus e mais concretamente da Am√©rica Latina.

3 Fundamentos bíblicos da Igreja

Sem entrar na quest√£o da rela√ß√£o da Igreja de Jesus com as outras religi√Ķes (matriz cf. di√°logo inter-religioso), podemos dizer que a igreja crist√£ tem uma longa pr√©-hist√≥ria no Primeiro Testamento: do plano comunit√°rio de salva√ß√£o de Deus contido ¬†simbolicamente nos 11 primeiros cap√≠tulos do G√™nesis (comunidade inter-humana, c√≥smica e religiosa) e que parece fracassar depois de Babel (Gn 11), Deus escolhe Abra√£o para que seja cabe√ßa de um povo que lhe sirva com fidelidade e pratique a justi√ßa, de modo que seja luz para todas as na√ß√Ķes (Gn 12,1-3;18,18). Este povo,¬† libertado por Deus, atrav√©s de Mois√©s, da escravid√£o do Egito (Ex 14), ser√° o Povo de Deus, com quem Yahweh estabelecer√° uma estreita alian√ßa (Ex 20). Contudo, o Povo de Deus, que passou da √©poca da confedera√ß√£o tribal √† monarquia, quebrou muitas vezes essa alian√ßa, sobretudo no tempo da monarquia e, apesar da voz cr√≠tica dos profetas, terminou no ex√≠lio (Sl 137). Yahweh o salva de novo, e do ex√≠lio surge um resto de Israel fiel a Deus, os pobres de Yahweh (anawim), do qual brotar√£o Jo√£o Batista, Maria e Jesus. No Antigo Testamento, j√° se prefigura e prepara a Igreja do futuro (LG 2).

Jesus pertence ao povo de Israel e, com sua vida, morte e ressurreição, abre um horizonte novo; forma uma comunidade de discípulos (Mc 3,13-19 e paralelos) para renovar Israel: os doze representam as doze tribos de Israel; depois da Páscoa e Pentecostes, esses discípulos constituíram a base da comunidade cristã, da Igreja (ver cristologia).

O Novo Testamento pressup√Ķe a exist√™ncia de comunidades crist√£s e recolhe as reflex√Ķes e exorta√ß√Ķes pastorais das primeiras testemunhas de Jesus em torno √†s diversas comunidades crist√£s; o Novo Testamento se origina na tradi√ß√£o viva da Igreja que antecedeu os escritos. O Esp√≠rito ilumina e inspira os escritores em fun√ß√£o da forma√ß√£o da Igreja. No Novo Testamento, n√£o h√° uma eclesiologia sistem√°tica, mas uma pluralidade de viv√™ncias pastorais e de reflex√Ķes eclesiol√≥gicas.

Para Paulo, a Igreja √© Povo de Deus (Rm 11), Corpo de Cristo (1Cor 12,13) e Templo do Esp√≠rito (1Cor 3,16). As Cartas pastorais, escritas em um momento posterior,¬† apresentam a Igreja como Casa de Deus (1Tm¬† 3.5.15), que deve manter a fidelidade¬† doutrinal e a estrutura ministerial de governo. As Cartas do cativeiro veem a Igreja como Cabe√ßa de Cristo (Cl 1,18) e Esposa do Senhor (Ef 5,21-23). Lucas ‚Äď no seu evangelho ‚Äď e, sobretudo, nos Atos dos Ap√≥stolos, nos apresenta o tempo da Igreja (At 1,8) que prossegue e leva adiante o tempo de Jesus, sob a for√ßa do Esp√≠rito. Para Mateus, a Igreja √© o verdadeiro Israel (Mt 21,33-46), dentro do qual Pedro √© o rochedo e possui as chaves do Reino (Mt 16,19). A tradi√ß√£o joanina reflete uma dimens√£o mais pessoal da f√© como ades√£o a Cristo, mas n√£o faltam imagens com resson√Ęncia eclesial como o bom pastor (Jo 10), a alegoria da videira (Jo 15) e a par√°bola eclesial da pesca milagrosa que culmina com o encargo a Pedro de apascentar as ovelhas (Jo 21). A 1¬™ Carta de Pedro se dirige a uma comunidade crist√£ em situa√ß√£o de di√°spora e a anima recordando-lhe que √© Povo de Deus, linhagem escolhida e sacerd√≥cio santo (1Pd, 2,9-10). A Carta de Santiago salienta a prioridade dos pobres na Igreja (Tg 2,1-7). A Carta aos Hebreus apresenta Jesus como o sacerdote fiel e compassivo, que nos abriu a entrada ao santu√°rio do c√©u (Hb 9). Apocalipse quer consolar e animar uma Igreja em situa√ß√£o de persegui√ß√£o pelo Imp√©rio romano e oferece imagens femininas da Igreja: a mulher que vence o drag√£o (Ap 12), a Esposa do Cordeiro (Ap 19), a Nova Jerusal√©m (Ap 21).

Atrav√©s destes diversos escritos, aparecem os tra√ßos essenciais da Igreja do Novo Testamento: uma comunidade que vive uma radical igualdade e fraternidade entre todos seus membros, com pluralidade de carismas e minist√©rios, um dos quais √© o governo que vela pela unidade de f√© e a comunh√£o. √Č uma comunidade centrada em Cristo e no Esp√≠rito, uma comunidade encarnada na hist√≥ria que caminha para o Reino de Deus seguindo o estilo pobre e simples de Jesus de Nazar√©, uma comunidade na qual os pobres ocupam um lugar privilegiado, uma comunidade que anuncia a boa nova do evangelho de Jesus, celebra a frac√ß√£o do p√£o e serve o mundo inteiro.

4 Os três milênios eclesiológicos

Não basta conhecer a eclesiologia bíblica, nem a Igreja que Jesus queria, também é preciso conhecer como a Igreja se desenvolveu na história através dos séculos. Podemos distinguir três milênios eclesiais e eclesiológicos.

4.1 Primeiro milênio: Igreja mistério de comunhão

√Č a passagem da Igreja Apost√≥lica √† Igreja p√≥s-apost√≥lica, quando a experi√™ncia de Jesus √© refletida no Novo Testamento, a comunidade se organiza e se estrutura internamente (bispos, presb√≠teros, di√°conos). Abre-se a todos os povos e culturas, reage e se defende frente √†s heresias trinit√°rias e cristol√≥gicas, padece persegui√ß√Ķes e mart√≠rio.¬† A mesma que, sobretudo depois da paz constantiniana, est√° dotada de grandes santos que tamb√©m s√£o pensadores e escritores, os denominados Padres da Igreja. Esta Igreja possui um impulso que durar√° at√© o ano mil.

√Č uma Igreja que se concebe como mist√©rio de comunh√£o, comunh√£o trinit√°ria, comunh√£o eucar√≠stica, comunh√£o fraterna e pastoral, comunh√£o solid√°ria com os pobres. A reflex√£o teol√≥gica, a eclesiologia, √© mais vital, pastoral, b√≠blica e lit√ļrgica que sistem√°tica. A Igreja se introduz no credo no terceiro artigo sobre a f√© no Esp√≠rito, para expressar que ela existe sob a for√ßa do Esp√≠rito que a santifica, unifica, a mant√©m fiel √† tradi√ß√£o apost√≥lica e aberta √† universalidade cat√≥lica: por isto se proclama una, santa, cat√≥lica e apost√≥lica.

Foram desenvolvidas pastoralmente algumas imagens da Igreja, como a lua que brilha, n√£o com luz pr√≥pria, mas pela luz do sol que √© Jesus; a barca de Pedro, que atravessa o mar do mundo, guiada pelo piloto que √© Cristo e pela for√ßa do Esp√≠rito; a Igreja que √© santa e pecadora, casta e prostituta, nunca abandonada pelo Esp√≠rito. √Č uma Igreja que vive fortemente a dimens√£o local, mas reconhece a primazia na caridade da Igreja de Roma, uma sede santificada pelo mart√≠rio de Pedro e Paulo. √Č uma Igreja participativa e ativa que procura resolver as tens√Ķes internas com esp√≠rito de di√°logo e que faz da eucaristia o lugar de comunh√£o eclesial: a Igreja faz a eucaristia, a eucaristia faz a Igreja.

4.2 Segundo milênio: Igreja de Cristandade

Ainda que a Cristandade esteja enraizada no tempo de Constantino e Teod√≥sio (s√©c. IV), ela n√£o se consolidou definitivamente at√© o s√©culo XI, com a reforma de Greg√≥rio VII, que, para defender a liberdade da Igreja contra os senhores feudais, centraliza a Igreja e refor√ßa a autoridade papal, em detrimento das igrejas locais e da participa√ß√£o da comunidade. √Č uma Igreja fortemente clerical, juridicista e triunfalista. A eclesiologia sistem√°tica nasce no s√©culo XIV como defesa do poder papal (o sol) contra o imperador (a lua).

Nesta Igreja, come√ßa a divis√£o entre cl√©rigos e leigos, a ruptura entre a Igreja Ocidental Latina e a Igreja do Oriente, entre a Igreja Romana e as Igrejas da Reforma, entre a Igreja e a sociedade moderna ilustrada. Esta tend√™ncia autorit√°ria e fechada ao mundo secular aumenta depois da Revolu√ß√£o Francesa (s√©c. XVIII), se consolida no Conc√≠lio Vaticano I (s√©c. XIX) e atingir√° o seu auge com o pontificado de Pio XII. √Č certamente a Igreja das catedrais e das sumas teol√≥gicas, uma Igreja com grandes santos e santas, m√≠sticos e m√≠sticas, mas √© tamb√©m a Igreja das cruzadas, da Inquisi√ß√£o, e das guerras de religi√£o entre crist√£os.

Neste segundo mil√™nio n√£o faltam movimentos prof√©ticos que pedem um retorno √†s origens evang√©licas: o monacato, os movimentos de leigos dos s√©culos XI ao XIII, os mendicantes, a Reforma, os bispos e mission√°rios do s√©culo XVII defensores dos ind√≠genas na Am√©rica Latina, a minoria teol√≥gica do Vaticano I, que postulava uma Igreja mais comunit√°ria, pneumatol√≥gica e trinit√°ria. Em meados do s√©culo XX, surgem, no contexto ocidental europeu, uma s√©rie de movimentos teol√≥gicos e pastorais¬† (movimento b√≠blico, lit√ļrgico, patr√≠stico, ecum√™nico, social‚Ķ) que se cristalizar√£o no Vaticano II, convocado por Jo√£o XXIII; o Vaticano II representa uma mudan√ßa de modelo eclesial, √© o fim da Cristandade, √© a passagem √† Igreja do Terceiro mil√™nio.

4.3 Terceiro milênio: Igreja que volta a suas origens e se abre aos sinais dos tempos

O Conc√≠lio Vaticano II (1962-1965) √© um verdadeiro Pentecostes eclesial que recupera a dimens√£o comunit√°ria da Igreja de comunh√£o e dialoga com a sociedade moderna. De Igreja clerical passa a ser Igreja Povo de Deus (LG II); de Igreja juridicista passa a ser Igreja mist√©rio e sacramento de unidade entre Deus e a humanidade (LG I, 1, 9, 48); de Igreja triunfalista passa a ser uma Igreja que peregrina em dire√ß√£o √† escatologia (LG VII). A eclesiologia do conc√≠lio √© uma eclesiologia de comunh√£o. Uma s√©rie de reformas conciliares configura um tempo de primavera eclesial que n√£o durou muito, pois os movimentos reacion√°rios e fundamentalistas que queriam voltar √† Igreja de Cristandade (como Lef√®bvre) junto ao exagero de alguns grupos extremistas provocaram fortes tens√Ķes eclesiais e, de Roma, come√ßa um recuo e freio do Vaticano II, por medo de rupturas internas e, sobretudo, por temor que a Igreja perdesse sua identidade crist√£. Iniciou-se, assim, um longo inverno eclesial, uma hermen√™utica da continuidade do Vaticano II, muito afastada do aggiornamento ou atualiza√ß√£o que queria Jo√£o XXIII, e que se manteve vigente, sobretudo nos pontificados de Jo√£o Paulo II e Bento XVI.

A nomeação de Francisco oxigenou o ambiente eclesial e há sintomas de uma nova primavera eclesial: é retomado o impulso do Vaticano II e se deseja voltar às atitudes evangélicas das origens da Igreja.

N√£o √© por acaso que Francisco √© o primeiro papa latino-americano, uma vez que na Am√©rica Latina houve uma recep√ß√£o criativa e evang√©lica do Conc√≠lio Vaticano II, que resultou em ouvir o grito dos pobres (Medell√≠n, 1968), na op√ß√£o pelos pobres (Puebla, 1979), na incultura√ß√£o nas culturas ind√≠genas e afro-americanas (Santo Domingo, 1992), no impulso para um discipulado mission√°rio e numa Igreja em estado de miss√£o (Aparecida, 2007). Nos anos 1960-80, surgiu na Am√©rica Latina a imagem da Igreja dos pobres, com bispos que foram verdadeiros Santos Padres da Igreja dos pobres, comunidades eclesiais de base (CEBs), leigos empenhados na justi√ßa, mulheres defensoras dos direitos humanos, agentes pastorais e movimentos apost√≥licos, a teologia da liberta√ß√£o e numerosos m√°rtires‚Ķ tudo o que lembra os momentos da Igreja do primeiro mil√™nio. Estas correntes teol√≥gicas e pastorais se abriram nas √ļltimas d√©cadas a novos sujeitos e a novos campos: √†s mulheres, aos ind√≠genas e afro-americanos, aos jovens, √†s novas identidades sexuais, √† ecologia, √† religiosidade do povo, √† piedade e m√≠stica popular, etc.

A eclesiologia de Am√©rica Latina historizou a salva√ß√£o (liberta√ß√£o) e o pecado (estruturas que matam) e oferece uma imagem de Igreja dos pobres e diferentes, ao servi√ßo da vida, para que o povo tenha vida plena e em abund√Ęncia, come√ßando pelo m√≠nimo que √© o p√£o de cada dia.

5 Linhas de força da eclesiologia

Esta diversidade de imagens e reflex√Ķes eclesiais tem o risco de nos conduzir a uma dispers√£o e relativismo eclesiol√≥gico, se n√£o procuramos estabelecer os princ√≠pios estruturadores da Igreja e da eclesiologia.

Podemos dizer claramente que os princ√≠pios estruturadores da Igreja s√£o trinit√°rios, a Igreja √© Ecclesia de Trinitate, mas esta Trindade se manifesta ad extra¬† nas duas miss√Ķes trinit√°rias que constituem o princ√≠pio cristol√≥gico e o princ√≠pio pneumatol√≥gico, ou do Esp√≠rito.

Princ√≠pio cristol√≥gico: a Igreja √© a Igreja de Jesus, preparada e prefigurada profeticamente no Antigo Testamento, centrada em Jesus de Nazar√©, Filho de Deus e Palavra encarnada, enviado pelo Pai para realizar seu projeto de filia√ß√£o e fraternidade universal, o Reino de Deus. A vida de Jesus de Nazar√©, suas op√ß√Ķes, sua cruz e sua ressurrei√ß√£o revelam e fazem presente o projeto do Pai. Jesus n√£o queria fundar uma comunidade separada de Israel, mas de fato sua comunidade de ap√≥stolos e disc√≠pulos, depois da P√°scoa, ser√° o n√ļcleo da Igreja futura da qual Jesus √© fundamento e pedra angular. A Igreja √© o corpo comunit√°rio de Jesus na hist√≥ria, at√© que chegue sua segunda vinda na Parusia. Jesus √© a riqueza, a beleza e a luz da Igreja, sem ele a Igreja √© est√©ril e miser√°vel, a Igreja n√£o significa nada se n√£o √© testemunha e sacramento de Jesus.

Princípio pneumatológico: a Igreja não nasce em Belém ou Nazaré, mas na Páscoa com a efusão do Espírito Santo, que preparou a vinda de Jesus, o ungiu no batismo, o guiou na sua vida e o ressuscitou dentre os mortos. Esse mesmo Espírito faz nascer a Igreja e a guia através da história, a santifica, vivifica e rejuvenesce continuamente com os sacramentos e com diversos carismas e dons (LG 12) para que realize o projeto do Pai inaugurado por Jesus (LG 4). Sem o Espírito, a Igreja se reduziria a uma simples organização humanitária e social que faz propaganda do evangelho. Com o Espírito, a Igreja é a comunhão trinitária. Sua missão é um Pentecostes continuado. No entanto, o Espírito age além da Igreja católica e das Igrejas cristãs e faz com que a salvação chegue a todos os que, por caminhos misteriosos para nós, podem ser associados ao mistério pascoal (GS 22).

Não há uma Igreja sem Espírito (tentação do cristomonismo ou de Cristo sozinho) nem um Espírito sem Jesus (espiritualismo, iluminismo, gnosticismo, new age…). O Filho encarnado em Jesus e no Espírito são os dois braços do Pai que desde a criação acompanham e guiam toda a humanidade (Irineu[1]). A Igreja é ícone da Trindade.

Essa Igreja se manifesta como an√ļncio e testemunha do evangelho (kerigma e mart√≠rio), celebra√ß√£o eucar√≠stica e sacramental (liturgia), servi√ßo ao mundo, sobretudo aos pobres (diaconia) e tudo isso em comunidade e comunh√£o (koinonia).

Desde o Vaticano II, a Igreja pode ser definida como sacramento[2], isto √©, um sinal e instrumento da uni√£o com Deus e com a humanidade (LG 1; 9; 48), n√£o √© uma simples institui√ß√£o hier√°rquica, nem um entusiasmo sem media√ß√£o sacramental. N√£o √© o Reino, mas semente do Reino (LG 5).¬† √Č sacramento hist√≥rico de liberta√ß√£o (teologia da liberta√ß√£o), foi convocada pelo Pai para fazer mem√≥ria e seguir o caminho de Jesus para o Reino, pela for√ßa do Esp√≠rito. Seu √≠cone √© a figura de Maria, tipo e modelo da Igreja (LG VIII). S√£o retomadas as imagens paulinas e trinit√°rias da Igreja: Povo de Deus, Corpo de Cristo, Templo do Esp√≠rito.

6 Desafios da Igreja para o futuro

S√£o muitos os desafios atuais da Igreja para o futuro. Em geral, podemos dizer que o maior desafio √© levar a bom termo o que o Conc√≠lio Vaticano II prop√īs e ainda n√£o foi poss√≠vel realizar, por exemplo, potencializar a colegialidade episcopal e as Igrejas locais, o desenvolvimento dos leigos, respeitar a leg√≠tima autonomia da cria√ß√£o‚Ķ No entanto, h√° outros temas que o conc√≠lio n√£o abordou e que devem ser enfrentados hoje: reforma do Papado e da c√ļria, promover a ordena√ß√£o de homens casados (viri probati), revisar o papel da mulher na Igreja, repensar a moral e pastoral sexual e matrimonial, dialogar com os te√≥logos e te√≥logas, assumir o desafio ecol√≥gico‚Ķ

Al√©m disso, no momento de mudan√ßa epocal e axial que vivemos, a Igreja deve iniciar no mist√©rio de Deus (mistagogia) e dialogar com todas as religi√Ķes para procurar¬† conjuntamente a justi√ßa, a paz e a integridade da cria√ß√£o.

Contudo, podemos afirmar que todas estas mudan√ßas estruturais, ainda que sejam necess√°rias, s√£o insuficientes e, finalmente, invi√°veis se a Igreja como Povo de Deus n√£o volta de novo ao evangelho de Jesus de Nazar√© e se deixa guiar pelo Esp√≠rito do Senhor. As mudan√ßas na Igreja e na sociedade normalmente v√™m de baixo. O Esp√≠rito do Senhor age a partir de baixo. De uma Igreja convertida ao evangelho poder√° nascer uma Igreja simples, pobre e dos pobres, sincera, acolhedora, que promova o di√°logo, a proximidade e a ternura, que sinta a alegria de conhecer, viver e anunciar o evangelho; uma Igreja que d√™ testemunho ao mundo do amor e da miseric√≥rdia do Pai, que suscite esperan√ßa, uma Igreja preocupada, antes de tudo, com dor e sofrimento humanos, que denuncie a idolatria do dinheiro e as estruturas econ√īmicas que excluem e matam o povo; uma Igreja que saia √†s ruas, que possa ir √†s fronteiras e √†s margens sociais e existenciais, que respeite os que pensam diferente e n√£o os julgue, uma Igreja que seja casa e lar de portas abertas e n√£o queira reconquistar o poder e prest√≠gio perdidos nem voltar a uma nova Cristandade, mas ser levedura e fermento em um mundo pluralista. N√£o √© esta a imagem de Igreja que promove o Papa Francisco? A todos os batizados corresponde sermos audazes e criativos para ir configurando uma Igreja fiel √†s suas origens e que possa discernir os novos sinais dos tempos.

Concluamos com uma defini√ß√£o de Igreja de Jo√£o Cris√≥stomo, que pode resumir tudo o que discutimos: ‚ÄúS√≠nodo √© o nome da Igreja‚ÄĚ,[3] ¬†ou seja, uma comunidade unida pelo Esp√≠rito do Senhor caminha com a humanidade para o Reino de Deus, dando testemunho do evangelho de Jesus de Nazar√©.

Víctor Codina sj. Universidad Católica de Bolivia, Cochabamba, Bolivia. Texto original espanhol.

7 Referências bibliográficas

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______. Para comprender la eclesiología desde América Latina. Estella: Verbo Divino, 2008. (nova edição atualizada)

KASPER, Walter. A Igreja católica. São Leopoldo: Unisinos, 2012.

Para saber mais

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[1] Adv Haer IV,7,4;II, 25,1; IV 20,1.3.4; V 1,3; V 6,1;V 16,1.

[2] Essa concepção de Igreja-sacramento tem raízes tradicionais na eclesiologia e nos anos anteriores ao Vaticano II foi elaborada principalmente por K. Rahner e Semmelroth.

[3] PG 55, 493.