Sacramentos, centro da liturgia

Sum√°rio

 1 A renovação conciliar da Liturgia

2 Os sete sacramentos

3 A eucaristia, memorial da P√°scoa do Senhor, sacramento dos sacramentos

4 Iniciação cristã pelo batismo e a unção com o santo crisma

5 Os outros sacramentos

6 Resumindo

7 Referências bibliográficas

 1 A renovação conciliar da Liturgia

¬†O que √© a liturgia? O Conc√≠lio Vaticano II, sabiamente, n√£o prop√Ķe uma defini√ß√£o da liturgia. Definir significa delimitar a partir de conceitos, e como delimitar as insond√°veis riquezas do mist√©rio de Cristo, que √© o mist√©rio de nossa salva√ß√£o celebrado na Liturgia? Mas ‚Äí ao mostrar, desde diversos √Ęngulos, como a liturgia torna presente no mundo, mediante a Igreja, o mist√©rio de Cristo ‚Äí o Conc√≠lio abre um caminho fecundo √† teologia dos sacramentos, apresentados na Constitui√ß√£o dogm√°tica Sacrosanctum Concilium como o n√ļcleo da liturgia. O caminho que deve ser procurado na tradi√ß√£o eclesial da pr√≥pria pr√°tica lit√ļrgica, em sua rica diversidade. Afirma-se no documento conciliar que pela liturgia, principalmente no divino Sacrif√≠cio da eucaristia, ‚Äúse atua a obra de nossa Reden√ß√£o‚ÄĚ, com uma express√£o tirada dos pr√≥prios textos lit√ļrgicos, a ora√ß√£o sobre as oferendas do segundo domingo depois de Pentecostes do antigo Missal. A Liturgia ‚Äí afirma tamb√©m a Constitui√ß√£o ‚Äí √© ‚Äúo cume para o se encaminha a a√ß√£o da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua for√ßa‚ÄĚ (SC n.10).

Ao apresentar os sacramentos como centro da Liturgia, caracterizada como fonte e cume da vida eclesial, o Conc√≠lio indica √† Teologia o ponto de partida da reflex√£o sobre os sacramentos: o mist√©rio pascal de Cristo celebrado na pr√≥pria tradi√ß√£o lit√ļrgica. Superam-se, assim, as limita√ß√Ķes da apresenta√ß√£o dos sacramentos a partir de conceitos da filosofia escol√°stica e devolve-se √† liturgia a sua grandeza e a sua relev√Ęncia teol√≥gica. Consequentemente, a SC determina que a Liturgia seja estudada, nas faculdades de Teologia e nos semin√°rios, como uma das disciplinas mais importantes ‚Äútanto no aspecto teol√≥gico e hist√≥rico, quanto espiritual, pastoral e jur√≠dico‚ÄĚ (n.16). Determina√ß√£o √≥bvia da compreens√£o da Liturgia em conson√Ęncia com a mais antiga tradi√ß√£o. Segundo o conhecido aforismo dos Pais da Igreja: a eucaristia faz a Igreja, a Igreja faz a eucaristia.

Até um passado relativamente recente, em muitas faculdades de Teologia e seminários, a disciplina da Liturgia limitava-se ao estudo das rubricas e os sacramentos eram estudados sem muita relação com a forma concreta da celebração do mistério de Cristo na liturgia. O tratado dogmático dos sacramentos era introduzido por uma noção comum de sacramento, que, embora analógica, tendia a ocultar a singularidade da manifestação do mistério celebrada em cada sacramento.

A reforma lit√ļrgica promovida pela Sacrosantum Conc√≠lium tende a aproximar as liturgias do Ocidente e do Oriente, devendo-se isso, em parte, √† presen√ßa no Conc√≠lio de Bispos orientais. Enquanto nas Igrejas de rito latino os sacramentos se compreendem a partir da no√ß√£o de sacramento, no oriente se mant√©m o termo mais b√≠blico mysterium, que os relaciona mais intuitivamente com o mist√©rio do Cristo.

A partir do Conc√≠lio de Trento, no ocidente o crist√£o aprendia no catecismo que os sacramentos eram sete e tanto a pr√°tica lit√ļrgica como a reflex√£o foram influenciadas pela forma fragmentada de v√™-los. Se algu√©m perguntasse a um crist√£o dos primeiros s√©culos pelos ‚Äúsete sacramentos‚ÄĚ esse ficaria surpreso e n√£o saberia como responder. Falaria, por√©m, com entusiasmo dos santos mist√©rios, celebrados de forma eminente na ceia do Senhor, como presen√ßa viva e atuante do mist√©rio de Cristo, e do batismo que esteve unido desde muito cedo √† un√ß√£o com o myron ou santo crisma. Em torno a eles, outros muitos ritos, de forma diversa, celebravam esse √ļnico mist√©rio.

O termo latino sacramentum, contudo, n√£o √© sen√£o a tradu√ß√£o do termo grego mystńďrion, cujo sentido original √© o de consagra√ß√£o, e aproxima-se, assim, do sentido de mystńďrion. Tendo, por√©m, um aspecto mais est√°tico, ir√° acentuando, no ocidente crist√£o, o aspecto jur√≠dico, embora somente nos s√©culo XII e XIII, por influ√™ncia da filosofia aristot√©lica, esse aspecto se tornasse predominante. Os sacramentos foram definidos como sinais exteriores da santifica√ß√£o interior realizada por Cristo. A defini√ß√£o √© correta, mas s√≥ revelar√° o sentido profundo do sacramento quando sinal for entendido como s√≠mbolo, criador de comunh√£o e for melhor articulada a rela√ß√£o entre s√≠mbolo e sacramento, o que s√≥ acontecer√° com o desenvolvimento da filosofia da linguagem e do corpo como lugar das rela√ß√Ķes inter-humanas.

 2 Os sete sacramentos

¬†A defini√ß√£o dos sete sacramentos teve o m√©rito de destacar, dentre as muitas a√ß√Ķes sacramentais da Igreja, as mais importantes para a vida crist√£ e para a miss√£o da Igreja. Em contrapartida, trouxe o inconveniente de desvalorizar algumas a√ß√Ķes lit√ļrgicas em que se manifesta a a√ß√£o de Cristo na vida crist√£. Essas foram denominadas, com um adjetivo substantivado, ‚Äúsacramentais‚ÄĚ, em contraposi√ß√£o aos ‚Äúsacramentos‚ÄĚ. Inconveniente maior foi reduzir a um denominador comum os sete sacramentos, na tentativa de encontrar uma defini√ß√£o de sacramento.

O que est√° na base da apresenta√ß√£o conciliar dos sacramentos √© que a totalidade da a√ß√£o da Igreja √© compreendida como sacramental (Lumen gentium n.1): ‚ÄúA Igreja, em Cristo, √© como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da √≠ntima uni√£o com Deus e da unidade de todo o g√™nero humano‚ÄĚ. O Vaticano II afasta-se da apresenta√ß√£o preponderantemente jur√≠dica dos sacramentos ao afastar-se da vis√£o da Igreja como sociedade perfeita, vendo-a preferentemente como mystńďrion ou sacramento.

O que significa isso? Significa que a Igreja n√£o oferece ao mundo uma salva√ß√£o da qual seria a autora e que poderia reivindicar como pr√≥pria, mas que todas as suas palavras, gestos e a√ß√Ķes querem manifestar e tornar presente a a√ß√£o de outro: o Cristo, que viveu, morreu e ressuscitou para a salva√ß√£o do mundo, ou seja, o mist√©rio pascal. A Igreja realiza a miss√£o de ser o Sacramento do Cristo n√£o apenas com os sete sacramentos, mas com toda a sua vida. Quando isso n√£o acontece, a Igreja trai sua miss√£o. Por isso deve reconhecer-se santa e pecadora, necessitada em cada instante de receber o perd√£o e a santifica√ß√£o do Cristo, para ser seu sacramento.

No entanto, a tradi√ß√£o da Igreja, no ocidente, reservou a designa√ß√£o de sacramentos √†s a√ß√Ķes sacramentais que s√£o a fonte e manifesta√ß√£o privilegiada do agir da Igreja como sacramento de Cristo. Nem tudo √© liturgia afirmou o Conc√≠lio. Mas a liturgia mostra que toda a a√ß√£o de Igreja nasce da liturgia. O trabalho crist√£o pela justi√ßa nasce da ‚Äúvida em Cristo‚ÄĚ que nos √© dada pelo batismo e celebramos na eucaristia. Se a celebra√ß√£o da eucaristia n√£o conduz ao viver cotidiano em comunh√£o fraterna deixa de ser a mesa do Senhor, como sugere a censura de Paulo aos Cor√≠ntios pelo modo como se comportavam em algumas das suas celebra√ß√Ķes (Cf. 1 Cor 11, 19 s). Por a√≠ se v√™ a complexidade da compreens√£o dos sacramentos e a impossibilidade de classific√°-los a partir de uma no√ß√£o pr√©via de sacramento.

¬†As ambiguidades come√ßam ao aplicar-se aos sacramentos, por um lado, as categorias aristot√©licas do hilemorfismo e, por outro, os conceitos de causa eficiente e principal ou instrumental, que dificilmente escapam de representa√ß√Ķes produtivistas e objetivantes. Sob o vi√©s do hilemorfismo, a palavra de Cristo √© considerada a forma do sacramento que unida √† mat√©ria (o elemento vis√≠vel: √°gua, p√£o etc.) o constitui como sinal da salva√ß√£o. Do ponto de vista da causalidade, Deus √© afirmado como agente principal do sacramento, sendo o ministro seu instrumento. N√£o que isso seja falso. Mas √© uma explica√ß√£o exterior ao mist√©rio, que n√£o √© outro sen√£o o mist√©rio pascal que se torna presente no memorial que a Igreja faz dele.

As ambiguidades aumentaram ao querer distinguir as a√ß√Ķes sagradas ‚Äúinstitu√≠das‚ÄĚ por Cristo (os sete sacramentos) de outras que seriam criadas pela Igreja. Na ‚Äúinstitui√ß√£o por Cristo‚ÄĚ, buscavam alguns uma a√ß√£o do Jesus hist√≥rico, o que levou √† dissid√™ncia luterana nesse ponto e a admitir s√≥ dois sacramentos: a eucaristia e o batismo ‚Äď do qual, no entanto, n√£o se pode afirmar a institui√ß√£o por Jesus em sua vida terrena. Em realidade, na teologia dos grandes escol√°sticos, pense-se em Tom√°s de Aquino ‚Äí ao dizer que os sacramentos s√£o institu√≠dos ‚Äí, afirma-se que Cristo √© o autor, ‚Äúautor‚ÄĚ no sentido de ‚Äúator‚ÄĚ, dos sacramentos, aquele que realiza a a√ß√£o salv√≠fica visibilizada pelo sinal sacramental. A igreja n√£o inventa os sacramentos, como n√£o inventa nenhuma a√ß√£o que pretenda tornar presente a a√ß√£o salvadora de Cristo: os recebe do Cristo na miss√£o de ser sacramento do mist√©rio pascal do Cristo.

Relativiza-se assim (n√£o se suprime), a distin√ß√£o dos sete sacramentos de outras muitas a√ß√Ķes de Cristo pelo car√°ter de institu√≠dos por Cristo, e tamb√©m a proced√™ncia da efic√°cia das a√ß√Ķes dos sacramentos em rela√ß√£o a outras a√ß√Ķes da Igreja que celebram e manifestam na liturgia sua miss√£o de ser sacramento da salva√ß√£o. A efic√°cia das primeiras era chamada ex opere operato e a das √ļltimas ex opere operantis Ecclesiae, distin√ß√Ķes v√°lidas no interior do sistema escol√°stico, expostas √† deturpa√ß√£o quando n√£o se domina a terminologia do sistema. A no√ß√£o de ex opere operato mostra que a efic√°cia do sacramento procede do fato de ser a√ß√£o de Cristo. Mal entendida, abriu as portas a sacramentalismo, com a concep√ß√£o da efic√°cia quase-m√°gica dos sacramentos, esquecendo que tamb√©m os sacramentais recebem sua efic√°cia do fato de serem a√ß√Ķes de Cristo e que, tanto uns como os outros, s√£o sinais do agir do Cristo e exigem a viv√™ncia da f√© no seio da Igreja. Exigem sempre dois atores: Deus agindo por seu filho Jesus Cristo e a Igreja movida pela f√©, dom do Esp√≠rito.

A fragilidade das sutis distin√ß√Ķes da escol√°stica torna-se evidente quando a teologia, ajudada pela hermen√™utica b√≠blica, compreende n√£o ser poss√≠vel distinguir os sacramentos de outras a√ß√Ķes de Cristo a partir de um ato instituinte de Jesus, no tempo da sua vida mortal, e que a efic√°cia ex opere operato √© propriedade da gra√ßa divina e consequentemente de toda a√ß√£o de Cristo mediante a sua Igreja. Mais ainda, √© propriedade de toda a√ß√£o divina para salva√ß√£o da humanidade presente no mundo desde a sua origem, dentro ou fora da Igreja. E todas elas postulam do homem a livre acolhida do dom divino.

Essas distin√ß√Ķes surgiram ao tentar explicar os sacramentos com ajuda da causalidade eficiente (principal ou instrumental), deixando na sombra que os sacramentos, os mystńďria da terminologia grega, mais enraizada na linguagem b√≠blica, s√£o a√ß√Ķes sagradas simb√≥licas, que agem mediante o mesmo ato de simbolizar. Em outras palavras: s√£o sacramento e memorial do mist√©rio do Cristo, ‚Äúo segredo (mystńďrion) escondido por s√©culos e gera√ß√Ķes, e agora revelado aos seus santos (‚Ķ) que √© Cristo para v√≥s, esperan√ßa da gl√≥ria‚ÄĚ (Cl 1, 26s).

 3 A eucaristia, memorial da Páscoa do Senhor, sacramento dos sacramentos

¬†A constitui√ß√£o Sacrosanctum Concilium situa-se nessa perspectiva: a liturgia √© presen√ßa e revela√ß√£o do Mystńďrion que √© o pr√≥prio Cristo. Ao tratar dos sacramentos, a SC come√ßa pela eucaristia e s√≥ depois fala dos outros sacramentos, principiando pelo batismo que, com o santo Crisma, inicia a vida crist√£ introduzindo o catec√ļmeno na assembleia lit√ļrgica, mediante a participa√ß√£o progressiva na celebra√ß√£o eucar√≠stica (a liturgia da palavra √© parte constitutiva desta), at√© a plena participa√ß√£o ‚Äúpela comunh√£o do corpo e sangue do Senhor‚ÄĚ.

A eucaristia, conforme a vis√£o dos primeiros s√©culos, que permanece at√© hoje viva na Igreja ‚Äí embora de maneira mais acentuada talvez na Igreja oriental ‚Äí, n√£o √© um mystńďrion na Igreja (um dos sete sacramentos), mas o mystńďrion ou sacramento da mesma Igreja. √Č o mystńďrion dos mystńďria, o sacramento dos sacramentos. Isso significa que todos os outros sacramentos est√£o ordenados √† eucaristia e encontram nela sua plenitude. Em consequ√™ncia, todo sacramento √© sempre um evento da Igreja, na Igreja e para a Igreja, aspectos ocultados tanto pela pr√°tica sacramental da igreja latina, quanto pela teologia dos sacramentos anteriores ao Conc√≠lio, que a reforma lit√ļrgica tenta reestabelecer, embora ainda reste um longo e √°rduo caminho a percorrer.

M√©rito da reforma conciliar foi p√īr em evid√™ncia essa conex√£o √≠ntima de todos os sacramentos com a eucaristia. Os novos rituais recomendam, por exemplo, a celebra√ß√£o do batismo na assembleia eucar√≠stica e preveem tamb√©m uma forma de celebra√ß√£o da un√ß√£o dos enfermos dentro da missa. As ordena√ß√Ķes, a confirma√ß√£o e, com frequ√™ncia, o matrim√īnio j√° vinham celebrando-se tradicionalmente dessa forma. A penit√™ncia √© o √ļnico sacramento cuja celebra√ß√£o dentro da eucaristia, estranhamente, n√£o √© prevista pelos novos rituais. Na antiguidade, a penit√™ncia realizava-se como longo processo de convers√£o que come√ßava pela exclus√£o da comunh√£o (eclesial e eucar√≠stica) e terminava pela imposi√ß√£o das m√£os do bispo. Desde o s√©culo IV esta reconciliatio altaris tinha lugar no contexto da celebra√ß√£o eucar√≠stica da quinta-feira santa.

Dizer que o sacramento √© uma a√ß√£o simb√≥lica, que age significando, implica afirmar que a Palavra b√≠blica proclamada na celebra√ß√£o dos sacramentos tem car√°ter sacramental, faz parte constitutiva do sacramento e que sua acolhida na f√© (s√≥ poss√≠vel como dom do Esp√≠rito) √© um dos meios pelo qual Deus age mediante o sacramento. Claro que isso implica estender o car√°ter de sacramento ao conjunto dos ritos que formam sua celebra√ß√£o e n√£o reduzi-lo √†s palavras que a teologia cl√°ssica considerava como a ‚Äúmat√©ria e forma‚ÄĚ do sacramento, exigidos pelo direito para a validez. Esta forma de conceber os sacramentos deve ser superada e a melhor maneira de compreender a raz√£o disso √© pensar o sacramento como mystńďrion: memorial sacramental do mist√©rio de Cristo para a salva√ß√£o do mundo confiado √† Igreja. Os escritos dos Pais da Igreja sobre os sacramentos testemunham essa concep√ß√£o ampla e o cuidado que se tinha para que todo o ritual fosse revelador do mist√©rio celebrado.

Compreende-se facilmente agora o que significa afirmar que os sacramentos s√£o institu√≠dos por Cristo, embora n√£o seja poss√≠vel encontrar atos instituintes de Jesus na sua vida terrena determinando-lhes o ritual. Na atual hermen√™utica da Escritura, nem o batismo pode ser reconduzido a uma institui√ß√£o verbal do Cristo e na g√™nese da eucaristia p√≥s-pascal n√£o deve ser procurada apenas a √ļltima ceia. A Ceia n√£o √© a primeira de uma s√©rie de eucaristias, mas o fundamento de sua institui√ß√£o, junto com: 1) a experi√™ncia das frequentes refei√ß√Ķes de Jesus com os disc√≠pulos, abertas aos pecadores e publicanos, como sinal da abertura da mesa messi√Ęnica a todos e, sobretudo, 2) a experi√™ncia p√≥s-pascal da presen√ßa do Ressuscitado na assembleia dos disc√≠pulos reunidos em seu nome, em virtude da promessa da ceia.

Os sacramentos v√£o nascendo da obedi√™ncia da Igreja p√≥s-pascal ao testamento do Cristo na Ceia. Num gesto simb√≥lico, enraizado na celebra√ß√£o da p√°scoa judaica e levando-a √† plenitude, Jesus, obediente √† vontade do Pai, entrega aos disc√≠pulos a sua morte, acolhida livremente como gesto derradeiro do seu amor. Com o gesto da ceia, Jesus d√° sentido √† morte violenta, absurda e sem-sentido, que lhe √© injustamente imposta, e pede aos disc√≠pulos que fa√ßam, em sua mem√≥ria, o que ele fez: viver para os demais at√© a entrega da pr√≥pria vida se for preciso. O mandato dado na Ceia √© mais que repetir um ritual. √Č imitar a entrega do Senhor na cruz em favor da humanidade. Da obedi√™ncia criativa, inspirada pelo esp√≠rito dos disc√≠pulos de Jesus, ir√£o surgindo na Igreja os sacramentos como celebra√ß√Ķes da mem√≥ria do mist√©rio pascal.

Comecemos pelo sacramento dos sacramentos. A Igreja faz a eucaristia por mandato do Senhor. N√£o a inventa. Celebra a eucaristia por fidelidade ao testamento de Jesus na √ļltima ceia: amar como o seu Senhor, at√© a entrega da vida se for preciso. O desenvolvimento progressivo e diferenciado do ritual √© gerado pelo cuidado de reencontrar, em cada celebra√ß√£o, o significado que Jesus deu ao gesto do p√£o e do vinho: como sacramentos da sua entrega na cruz. O ritual expressar√° que comunh√£o no sacramento da entrega do Cristo na cruz faz da Igreja o corpo de Cristo pela a√ß√£o do Esp√≠rito. E o suplicar√°, de diversas formas nas ora√ß√Ķes eucar√≠sticas.

Reduzir ou mesmo apenas focar o sacramento da eucaristia na transforma√ß√£o do p√£o e do vinho no corpo e sangue sacramentais de Cristo deturpa o gesto de Jesus na Ceia. Oculta a miss√£o da Igreja de ser, com toda sua vida, sacramento do Cristo para a salva√ß√£o da humanidade. Isto foi, sem d√ļvida, em maior ou menor grau, uma das consequ√™ncias da teologia dos sacramentos que n√£o se deixou guiar totalmente pela pr√≥pria tradi√ß√£o das pr√°ticas lit√ļrgicas na sua rica variedade eclesial.

Quando se compreende a a√ß√£o sacramental da eucaristia a partir da sua celebra√ß√£o e n√£o mediante teologias e pr√°ticas lit√ļrgicas redutoras, ao querer determinar o m√≠nimo essencial para a validade do sacramento, as palavras precisas que realizam o sacramento e o momento exato em que isso acontece, superam-se muitas dificuldades e controv√©rsias entre oriente e ocidente. Pense-se na dilatada controv√©rsia entre as igrejas do oriente e ocidente, de saber se s√£o as palavras da institui√ß√£o ou a epiclese as que consagram.

A pr√°tica lit√ļrgica mostra que o sacramento da eucaristia √© constitu√≠do pela a√ß√£o do Cristo, presente como anfitri√£o da Ceia desde o come√ßo e ao longo de toda a celebra√ß√£o, em di√°logo com a assembleia, convidando-a a acolher o dom se sua vida ‚Äúpor n√≥s e para nossa salva√ß√£o‚ÄĚ, que culminou na Cruz, e a deixar-se transformar pela comunh√£o do sacramento do seu corpo e do seu sangue entregues na cruz por amor de todos. Eternizado na ressurrei√ß√£o, o gesto de Cristo na ceia, consumado na cruz, se torna presente em cada assembleia lit√ļrgica, para fazer da Igreja o seu corpo, pelo Esp√≠rito que jorra da Cruz. A ora√ß√£o eucar√≠stica √© uma a√ß√£o de gra√ßas mediante o memorial da a√ß√£o redentora de Cristo, acolhido na f√©. Uma f√© que deve ir crescendo no desenrolar da vida pela a√ß√£o do sacramento e, por isso, a proclama√ß√£o da Palavra divina, ‚Äúa mem√≥ria dos atos e palavras de Jesus (Justino), e a escuta amorosa dessa Palavra foram, desde as origens, momentos constitutivos do sacramento da eucaristia, e n√£o apenas pre√Ęmbulos, cf. IGMR n.8. N√£o se pode negar o car√°ter sacramental a toda a celebra√ß√£o.

Isso vale analogicamente para o batismo e para os outros sacramentos. Todos s√£o sacramentos do mist√©rio pascal nas diversas circunst√Ęncias, minist√©rios e miss√Ķes da Igreja. S√≠mbolos da miss√£o a ela confiada pelo Senhor, de ser seu sacramento em todas as conjunturas da vida.

 4 Iniciação cristã pelo batismo e a unção com o santo crisma

¬†A partir desse princ√≠pio √© f√°cil compreender o batismo, na diversidade de suas configura√ß√Ķes hist√≥ricas. O batismo na √°gua desde as origens √© acompanhado da un√ß√£o com o santo Crisma, e ordenado √† eucaristia, configurando-se assim como sacramento da inicia√ß√£o √† vida na comunidade crist√£. No catecumenato antigo, que inspirou o rito atual do batismo de adultos, era celebrado em etapas sucessivas ap√≥s a liturgia da Palavra da celebra√ß√£o eucar√≠stica. Essa forma tradicional da celebra√ß√£o mostra claramente que a eucaristia √© o sacramento dos sacramentos. Ela n√£o pode ser simplesmente catalogada como um a mais entre os sete sacramentos, nem sequer como um entre os sacramentos de inicia√ß√£o.

Os atores que configuram e constituem a ‚Äúa√ß√£o sacramental‚ÄĚ do batismo ‚Äí como acontece em todos os sacramentos ‚Äí s√£o sempre o Cristo e a Igreja, presencializada pela assembleia lit√ļrgica, mesmo quando o sacramento visa a conferir um dom, uma miss√£o, um servi√ßo a um ou v√°rios membros da assembleia. A celebra√ß√£o do batismo na missa da comunidade paroquial torna transparente o sentido do batismo de uma crian√ßa nascida no seio de uma fam√≠lia crist√£. Cristo a acolhe enquanto crian√ßa, no mesmo ato da comunidade que a acolhe e compromete-se em inici√°-la progressivamente √† pr√≥pria vida de f√©.

A un√ß√£o com o santo crisma manifesta e confere o dom do Esp√≠rito, que mediante a catequese, iniciada na fam√≠lia e continuada na comunidade, ir√° configurando, progressivamente, o pensar e o agir da crian√ßa √† vida da Igreja enquanto corpo de Cristo. Para isso a catequese, desde seus come√ßos, configurou-se como hist√≥ria de Jesus, como mostram os quatro evangelhos. Com que argumentos se negaria o car√°ter e a efic√°cia sacramentais a essa un√ß√£o que segue o batismo, acompanhada das palavras do ritual que explicitam seu sentido e seu alcance? ‚ÄúPelo batismo, Deus Pai te libertou do pecado e te fez renascer pela √°gua e pelo Esp√≠rito Santo. Fazes agora parte do povo de Deus. Que ele te consagre com o √≥leo santo, para que, como membro do Cristo sacerdote, profeta e rei, continues no seu povo at√© a vida eterna‚ÄĚ.

Segundo a pr√°tica atual do rito latino, na adolesc√™ncia ou na idade adulta, celebra-se o sacramento da confirma√ß√£o. Mas isso n√£o esvazia de maneira alguma, antes confirma, a validade da un√ß√£o recebida na inf√Ęncia e seu car√°ter de sacramento. Ao confirmar o crist√£o, ao chegar √† idade adulta, a f√© recebida na inf√Ęncia, Deus confirma o dom, agora melhor compreendido. Aparece, assim, a relativa liberdade da Igreja na configura√ß√£o dos sacramentos a partir da obedi√™ncia ao mandato de configurar sua vida pelo mist√©rio pascal. Abre-se, ao mesmo tempo, um caminho para o di√°logo ecum√™nico entre as Igrejas e suas diferentes pr√°tica sacramentais.

A participa√ß√£o na mesa eucar√≠stica pela comunh√£o do corpo e sangue do Senhor deveria acontecer logo que a crian√ßa for capaz de distinguir o p√£o eucar√≠stico do p√£o comum ‚Äí permito-me emprestar uma express√£o de Pio X ‚Äí, sem esperar √† conclus√£o de uma determinada etapa da catequese. Comungando ela ira aprendendo com Jesus, que entregou sua vida por n√≥s, a sair do ego√≠smo e viver para os demais. Isso deveria ser √≥bvio para todo disc√≠pulo daquele que corrigiu severamente os disc√≠pulos que queriam impedir que as crian√ßas chegassem perto dele. Uma assembleia que p√Ķe barreiras √†s crian√ßas em suas celebra√ß√Ķes n√£o se configura como Igreja de Jesus.

A prática diversa da Igreja oriental de dar a comunhão às crianças mostra, de outra forma, a eficácia do sacramento por ser ação de Cristo em diálogo com a fé da comunidade que acolhe no colo as crianças.

 5 Os outros sacramentos

¬†Os outros sacramentos que completam o n√ļmero de sete, segundo a defini√ß√£o de Trento, s√£o: a ordena√ß√£o, o matrim√īnio, a penit√™ncia e a un√ß√£o dos enfermos. Quando a Igreja, em Trento, os define como as sete a√ß√Ķes sacramentais baseia-se, em primeiro lugar, na pr√°tica eclesial recebida da tradi√ß√£o. As raz√Ķes que na √©poca se davam para a defini√ß√£o dos sete sacramentos podem ser questionadas. A teologia atual mostra a import√Ęncia desses sacramentos pelo fato deles manifestarem a sacramentalidade da Igreja como sacramento de Cristo, por sua import√Ęncia para a edifica√ß√£o da Igreja e para a viv√™ncia do ser crist√£o em momentos essenciais da vida. N√£o podem ser compreendidos a partir de um conceito un√≠voco de sacramento. Aqui apresentaremos brevissimamente sua rela√ß√£o com a sacramentalidade da Igreja manifestada plenamente na eucaristia.

A ‚Äúordena√ß√£o‚ÄĚ relaciona-se imediatamente com a eucaristia e se ordena a ela. A eucaristia √© celebrada por toda a assembleia lit√ļrgica, mas nem ela, nem qualquer um dos seus membros, a poderia celebrar sem a presid√™ncia do Cristo. O minist√©rio ordenado manifesta que todo o poder de celebrar a ceia do Senhor procede do Cristo.

O sacramento do ‚Äúmatrim√īnio‚ÄĚ faz que a uni√£o conjugal do homem e da mulher, renascidos no batismo para a nova vida do Ressuscitado, seja imagem da uni√£o do Cristo e da Igreja. Ao mesmo tempo manifesta na menor comunidade dos disc√≠pulos, a fam√≠lia crist√£, que Cristo √© a rocha sobre a qual se edifica a Igreja.

A unção dos enfermos mostra a presença especial de Jesus na situação crucial da doença, que mesmo não sendo muito grave, coloca o ser humano diante da sua condição mortal. Como não sentir, nesse momento, a necessidade da presença da oração da Igreja e do apoio acolhedor de seus braços, sacramento dos braços abertos na cruz do próprio Cristo?

A necessidade de um sacramento para a reconciliação foi inspirada pelo Espírito à Igreja, perante a situação de cristãos que tendo recebido no batismo o dom inestimável do perdão divino e a vida nova em Cristo o rejeitaram pelo pecado, às vezes até negação da fé, e sentiram-se na iminência de cair no desespero, rejeitados por Deus e pela Igreja de Cristo. Por isso, o sacramento nasce como reconciliação com Deus, que passa pela reconciliação com a Igreja. Mais tarde, o sacramento da reconciliação foi configurando-se de formas muito diversas.

A sacramentalidade de alguns dos ritos sacramentais, que passaram na Igreja por configura√ß√Ķes hist√≥ricas, s√≥ pode ser compreendida no estudo hist√≥rico e teol√≥gico de cada um deles. A sua celebra√ß√£o apresenta problemas especiais para que, como postula a SC (n.34), ‚Äúos ritos resplande√ßam de nobre simplicidade, sejam transparentes por sua brevidade e evitem as repeti√ß√Ķes in√ļteis, sejam acomodados √† compreens√£o dos fi√©is e, em geral, n√£o care√ßam de muitas explica√ß√Ķes‚ÄĚ.

Em todos os sacramentos deveria ser transparente que se celebra o mist√©rio pascal, que os atores s√£o sempre Cristo e a Igreja e que se ordenam √† eucaristia. Na implementa√ß√£o da reforma lit√ļrgica, que desde os seus come√ßos se apresentou conflitiva ap√≥s s√©culos de rigidez ritual, a Sacrosanctum Concilium afirma prudentemente, para n√£o dizer condescendentemente, que na celebra√ß√£o dos sacramentos se prefira a celebra√ß√£o comunit√°ria. Nesse mesmo esp√≠rito, os rituais recomendam a celebra√ß√£o dos sacramentos na eucaristia dominical da comunidade. Se a pr√°tica se tornar comum, ir-se-√£o abrindo caminhos surpreendentes para sua compreens√£o. Claro que isto exigir√° uma renova√ß√£o dos minist√©rios para que toda comunidade possa celebrar facilmente a eucaristia.

 6 Resumindo

Se quer-se recuperar a riqueza da teologia contida na pr√≥pria tradi√ß√£o lit√ļrgica das a√ß√Ķes sacramentais que concretizam a a√ß√£o da Igreja enquanto sacramento do Cristo, deve-se obedecer aos seguintes princ√≠pios:

1) Toda a√ß√£o lit√ļrgica √© de alguma forma a√ß√£o sacramental enquanto a√ß√£o de Cristo realizada mediante a sua Igreja para a edifica√ß√£o do seu corpo, para anunciar e tornar presente a salva√ß√£o em todas as realidades da hist√≥ria humana.

2) A teologia deve abandonar definitivamente a explicação os sacramentos a partir de uma previa noção genérica do sacramento aplicada a cada um deles, mesmo com a ressalva de ser aplicação analógica.

3) Para melhor compreens√£o dos sacramentos, √© conveniente come√ßar, como faz a SC, pela eucaristia, memorial do mist√©rio da morte e ressurrei√ß√£o do Senhor, o mist√©rio dos mist√©rios ou o sacramento dos sacramentos, por ser o sacramento da pr√≥pria Igreja e conter, como dizia Tom√°s de Aquino, totum mysterium nostrae salutis, ‚Äúa totalidade do mist√©rio da salva√ß√£o‚ÄĚ ou, como afirmavam os Pais, porque a eucaristia faz a Igreja.

Juan Ruiz de Gopegui, SJ. FAJE. Texto original português.

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