Ecumenismo

Sum√°rio

1 O significado do termo ‚Äúecumenismo‚ÄĚ

2 A história do movimento ecumênico

2.1 Associa√ß√Ķes crist√£s

2.2 A missão em perspectiva ecumênica

2.3 Dois movimentos da unidade crist√£

2.4 O Conselho Mundial de Igrejas

2.5 As assembleias do Conselho Mundial de Igrejas

3 As Igrejas e o movimento ecumênico

4 O ecumenismo no Concílio Vaticano II

4.1 O Decreto Unitatis redintegratio

4.2 O Diretório ecumênico

4.3 As estruturas ecumênicas

5 O ecumenismo na América Latina

6 Frutos do ecumenismo

7 Desafios para o ecumenismo na atualidade

8 Referências bibliográficas

 

1 O significado do termo ‚Äúecumenismo‚ÄĚ

O termo ‚Äúecumenismo‚ÄĚ, tradu√ß√£o portuguesa do conceito grego oikoumene, √© encontrado pela primeira vez em Her√≥doto (s√©c. V). Designa a ‚Äúterra habitada‚ÄĚ, no sentido geogr√°fico. Desse sentido, passa-se ao de ‚Äúhabitantes da terra‚ÄĚ, indicando toda a humanidade. Para os gregos, o elemento que unifica a oikoumene √© a cultura hel√™nica. Os romanos traduzem esse termo como ecumene, colocando como elemento unitivo a ordem jur√≠dica, a organiza√ß√£o pol√≠tica da orbis romanus.

√Č neste sentido profano que se encontra o termo ‚Äúecumenismo‚ÄĚ na b√≠blia. Na tradu√ß√£o dos LXX, ele est√°, sobretudo, nos salmos e no livro de Isa√≠as. No segundo testamento, oikoumene aparece 15 vezes: com o sentido de ‚Äúa terra habitada‚ÄĚ (Mt 24,14; Lc 4,5; 21,26; Rm 10,18; Hb 1,6), ‚Äúos habitantes da terra‚ÄĚ (At 17,31; 19,27; Ap 12,9), e em rela√ß√£o com a orbis romanus (Lc 2,1; At 24,5).

Na b√≠blia, ‚Äúecumenismo‚ÄĚ ganha tamb√©m um sentido religioso, indicando o mundo inteiro e que tudo o que esse possui recebeu de Deus criador e a Deus pertence: ‚Äúa mim pertence o mundo e o que ele cont√©m‚ÄĚ (Sl 49,12; tamb√©m Is 10,14). A oikoumene/mundo √© onde se realiza a hist√≥ria da salva√ß√£o, onde acontece o pecado, a a√ß√£o dos profetas, a encarna√ß√£o. Deus julgar√° o mundo (Is 10,14-23; Lc 21,6; Ap 3,10; At 17,31); envia os profetas e os ap√≥stolos para mostrar o caminho da salva√ß√£o (Sl 48,2; Mt 24,14); o mundo ser√° salvo, enfim, por Cristo que o glorificar√° (Hb 2,5).

Na patr√≠stica, ecumenismo ganha sentido eclesiol√≥gico, associado com frequ√™ncia √† Igreja cat√≥lica espalhada por toda a terra. Os termos ‚Äúcat√≥lico‚ÄĚ e ecumene se justap√Ķe: a Igreja √© cat√≥lica, isto √©, espalhada por toda a terra (oikoumene). Or√≠genes entende que a doutrina e a piedade crist√£s encheram a terra (De principiis, L. IV, n.5) e trata dos que habitam a oikoumene da Igreja de Deus (Ps., XXXII, 8). Para Bas√≠lio, a Igreja deve ser difundida por toda a terra e chegar a todas as pessoas, agrupando nela a diversidade das condi√ß√Ķes humanas (Homilia in Ps., 48).

Ao longo da hist√≥ria do cristianismo, o termo ecumenismo foi considerado como express√£o de comunh√£o na f√© pela ades√£o √†s doutrinas definidas nos ‚Äúconc√≠lios ecum√™nicos‚ÄĚ. Com a divis√£o dos crist√£os, sobretudo a partir do s√©culo XVI, o ecumenismo vai ganhando o sentido de esfor√ßo para restabelecer a unidade rompida. √Č nesse sentido que, a partir do s√©culo XIX, surgem iniciativas de di√°logo entre Igrejas separadas, dando origem ao atual ‚Äúmovimento ecum√™nico‚ÄĚ.

2 A história do movimento ecumênico

¬†2.1 Associa√ß√Ķes crist√£s

No final do s√©culo XVIII, surgiram na Europa fen√īmenos pol√≠ticos, sociais e culturais como a Revolu√ß√£o Francesa, o racionalismo, a revolu√ß√£o industrial, o capitalismo e o socialismo, o liberalismo, que exigiram um posicionamento das Igrejas. Esse posicionamento foi diferenciado conforme cada igreja, entre o fechamento e a condena√ß√£o da realidade social, de um lado, e a integra√ß√£o e di√°logo com essa realidade, de outro.

Nesse contexto surgiram v√°rias associa√ß√Ķes crist√£s, que influenciariam decisivamente no futuro movimento ecum√™nico. Destacam-se: a Associa√ß√£o Crist√£ de Jovens (1844) e Associa√ß√£o Crist√£ de Mulheres Jovens (1854), a Federa√ß√£o Mundial de Estudantes Crist√£os (1895). A preocupa√ß√£o n√£o era, na verdade, aproximar as Igrejas mas evangelizar a sociedade e os meios universit√°rios, buscando a ‚Äúamplia√ß√£o do Reino de Deus entre a juventude‚ÄĚ (NEILL, p.327-9). Entretanto, essas associa√ß√Ķes favoreceram as rela√ß√Ķes e interc√Ęmbios entre as Igrejas. Tr√™s elementos contribu√≠ram para isso: 1) o internacionalismo das associa√ß√Ķes, que fundam novas sedes e isso exige um contato estreito com as Igrejas; 2) a compet√™ncia para organizar eventos internacionais, que torna seus l√≠deres peritos das futuras assembleias ecum√™nicas; 3) a preocupa√ß√£o mission√°ria, com interesse sobretudo pelas ‚Äúigrejas jovens‚ÄĚ da √Āsia e da √Āfrica, ajudando as demais Igrejas a uma unidade na miss√£o (NAVARRO, p.121).

A confer√™ncia para a paz, celebrada em Haia (1907), deu origem √† Alian√ßa Mundial para a Amizade Internacional, congregando as Igrejas para, na imin√™ncia da Guerra Mundial, atuarem na promo√ß√£o da paz. Uma confer√™ncia protestante realizada em Lausanne e outra cat√≥lica em Lieja, ambas em agosto de 1914,¬† redigiram resolu√ß√Ķes em favor da paz. N√£o evitaram a guerra, mas desenvolveram a coopera√ß√£o ecum√™nica em favor da paz e do atendimento aos atingidos.

2.2 A missão em perspectiva ecumênica

Tais iniciativas prepararam o terreno para as Igrejas realizarem debates sobre a rela√ß√£o entre miss√£o e unidade (Londres, 1888; Nova Iorque, 1890). Sentia-se a necessidade da coopera√ß√£o, do testemunho comum, da intera√ß√£o ecum√™nica nos projetos mission√°rios confessionais. Chegou-se, assim, ao grande evento que marca, de fato, a origem do movimento ecum√™nico moderno, a Confer√™ncia Mission√°ria Internacional, realizada em Edimburgo, em 1910. Participaram dessa Confer√™ncia 1.200 delegados de 159 sociedades mission√°rias. O tema da Confer√™ncia foi ‚ÄúProblemas que surgem no confronto entre miss√Ķes crist√£s e religi√Ķes n√£o-crist√£s‚ÄĚ. Dessa Confer√™ncia surge, em 1921, o Conselho Mission√°rio Internacional (Lake Mohonk, EUA), que se integrar√° ao Conselho Mundial de Igrejas na Assembleia Geral em Nova Delhi (1961).

2.3 Dois movimentos da unidade crist√£

Dois outros movimentos s√£o criados para fortalecerem a aspira√ß√£o ecum√™nica manifestada em Edimburgo: 1) Vida e A√ß√£o, que busca unir as Igrejas em projetos de a√ß√£o social. A inspira√ß√£o foi do arcebispo luterano da Su√©cia, Nathan Soderblom (1866-1931), que buscava unir as hierarquias eclesi√°sticas dos pa√≠ses em guerra. Em 1920, Soderblom convocou uma confer√™ncia mundial com o nome de Vida e A√ß√£o, que se realizou em Estocolmo, em 1925, tratando de quest√Ķes sociais como a economia, a moral, as rela√ß√Ķes internacionais, a educa√ß√£o crist√£, os m√©todos de coopera√ß√£o e federa√ß√£o. N√£o se tratou de quest√Ķes dogm√°ticas, por entender-se que ‚Äúa doutrina divide, a a√ß√£o une‚ÄĚ. Em 1937, foi realizada uma segunda confer√™ncia em Oxford, refletindo sobre ‚ÄúIgreja, Na√ß√£o, Estado‚ÄĚ, condenando o fascismo e o Estado transformado em √≠dolo.

2) O segundo movimento √© F√© e Constitui√ß√£o, que surgiu por iniciativa do bispo anglicano¬†Charles H. Brent (1862-1929), na Confer√™ncia realizada em Lausanne, em 1927, debatendo quest√Ķes doutrinais como a unidade, a evangeliza√ß√£o, a natureza da Igreja, a confiss√£o da f√©, o minist√©rio, os sacramentos. Uma segunda confer√™ncia¬†realizada em Edimburgo, em 1937, refletiu sobre a gra√ßa de Jesus Cristo, a Igreja de Cristo e a palavra de Deus, a comunh√£o dos santos, a Igreja, o minist√©rio e os sacramentos, a unidade da Igreja na vida e no culto.

2.4 O Conselho Mundial de Igrejas

Os dois movimentos vistos acima tentaram formar um Conselho Mundial de Igrejas numa reunião em Utrecht, em 1938. Mas isso só aconteceu de fato em 1948, em Amsterdã.

O Conselho Mundial de Igrejas √© o fruto mais maduro da aspira√ß√£o pela supera√ß√£o da divis√£o dos crist√£os. Ele √© hoje composto por 349 Igrejas de todas as tradi√ß√Ķes eclesiais, exceto o catolicismo, e busca manter entre as igrejas-membros um di√°logo est√°vel e projetos de coopera√ß√£o que fortale√ßam as rela√ß√Ķes fraternais. A ideia de um conselho de Igrejas se manifestava com frequ√™ncia desde a Confer√™ncia de Edimburgo (1910). Foi proposta pelo patriarcado de Constantinopla em 1920 como uma liga de igrejas, e pelos bispos anglicanos na Confer√™ncia de Lambeth (1920), al√©m da tentativa dos movimentos Vida e A√ß√£o e F√© e Constitui√ß√£o, em Utrech (1937). Dessa √ļltima tentativa, surgiu o ‚ÄúComit√™ dos Quatorze‚ÄĚ, que em 1938 reuniu-se novamente em Utrech e criou um comit√™ provis√≥rio para pensar a cria√ß√£o de um Conselho de Igrejas. Ap√≥s duas reuni√Ķes desse comit√™ (Clarens, na Su√≠√ßa, em 1938 e Saint-Germain, na Fran√ßa, em 1939), os trabalhos foram dificultados por causa da Guerra, at√© 1948, quando se realizou a assembleia de funda√ß√£o do Conselho Mundial de Igrejas, em Amsterd√£, com a presen√ßa de 147 Igrejas.

O Conselho Mundial de Igrejas n√£o √© uma ‚Äúsuper Igreja‚ÄĚ, nem a Igreja universal, nem a Una Sancta. Ele n√£o toma decis√Ķes em nome das Igrejas e a sua teologia n√£o expressa uma concep√ß√£o particular de igreja confessional, como tamb√©m as Igrejas n√£o consideram relativas suas eclesiologias por causa de sua perten√ßa ao Conselho (Wisser¬īt Hooft, p.278). Para ser membro do Conselho √© necess√°rio aceitar a base doutrinal aprovada na Assembleia em Nova Delhi (1961):

(…) o Conselho Mundial de Igrejas √© uma associa√ß√£o fraternal de Igrejas que creem em Nosso Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador segundo as Escrituras e se esfor√ßam por responder conjuntamente √† sua voca√ß√£o comum para a gl√≥ria do √ļnico Deus, Pai, Filho e Esp√≠rito Santo (Nouvelle-Delhi, 1961, Rapport de la Troisi√®me ¬†Assembl√©e – Delaxaus et Niestl√©, Neuch√Ętel, 1962, 147-148).

2.5 As assembleias do Conselho Mundial de Igrejas

¬†O Conselho Mundial de Igrejas desenvolve suas atividades por muitas formas e atrav√©s de diferentes meios, como o Instituto Ecum√™nico de Bossey, o escrit√≥rio do Conselho em Nova Iorque, o departamento de comunica√ß√Ķes, com seus boletins, revistas, livros e grava√ß√Ķes em diferentes l√≠nguas, bem como a biblioteca que possui em sua sede em Genebra. Mas o trabalho de articula√ß√£o maior entre as Igrejas acontece nas Assembleias Gerais, dez j√° realizadas ao longo de sua hist√≥ria. A saber:

1) Amsterd√£, 1948 ‚Äď participam 147 Igrejas de 44 pa√≠ses. O tema geral foi ‚ÄúA desordem do homem e o des√≠gnio de Deus‚ÄĚ; 2)¬†Evanston, 1954 ‚Äď participaram 162 Igrejas, tendo como¬†tema geral ‚ÄúCristo, √ļnica esperan√ßa do mundo‚ÄĚ; 3) New Delhi, 1961, com a presen√ßa de 198 Igrejas crist√£s e o tema geral ‚ÄúCristo, luz do mundo‚ÄĚ; 4)¬†Upsala, 1968 ‚Äď o tema foi ‚ÄúEu torno novas todas as coisas‚ÄĚ; 5)¬†Nair√≥bi, 1975 ‚Äď contou com 286 Igrejas-membros e refletiu sobre o tema ‚ÄúJesus Cristo liberta e une‚ÄĚ; 6)¬†Vancouver, 1983 ‚Äď teve como tema geral ‚ÄúJesus Cristo, vida do mundos‚ÄĚ; 7) Camberra, 1991 – ¬†participaram 317 Igrejas e o tema geral foi ‚ÄúVem, Esp√≠rito Santo, renova toda a cria√ß√£o‚ÄĚ; ¬†8) Harare (Zimbabwe), 1998, com o tema ‚ÄúBuscar a Deus com a alegria da esperan√ßa‚ÄĚ; 9) Porto Alegre, 2006, com o tema ‚ÄúDeus, em tua gra√ßa transforma o mundo‚ÄĚ; 10) Busan (Coreia do Sul), 2013, com o tema: ‚ÄúSenhor da vida, conduz-nos √† justi√ßa e √† paz‚ÄĚ.

3 As Igrejas e o movimento ecumênico

As diferentes tradi√ß√Ķes crist√£s logo se integraram no movimento ecum√™nico, desde suas origens. Nas associa√ß√Ķes e no movimento mission√°rio, havia representantes de praticamente todas as Igrejas do protestantismo, do anglicanismo e das tradi√ß√Ķes ortodoxas. Os crist√£os protestantes s√£o pioneiros das iniciativas ecum√™nicas. Dentre eles destacam-se o metodista John Mott (1865-1955), o luterano Nathan Soderblon (1866-1931), o reformado holand√™s Willem Adolf Visser’t Hooft (1901-1985), os metodistas Philip Potter (1921) e Em√≠lio Castro (1927-2013). Esses, entre muitos outros, contribu√≠ram significativamente para que as Igrejas luteranas, reformadas e metodistas aderissem ao movimento ecum√™nico desde suas origens.

Os anglicanos foram impulsionados ao di√°logo ecum√™nico pelo Movimento de Oxford (1833-1845), que buscava recuperar as tradi√ß√Ķes primitivas do cristianismo, que muito favoreceu para o di√°logo com a Igreja cat√≥lica, sobretudo pelos esfor√ßos de Henry Newmann (1801-1890). Esse di√°logo foi fortalecido pelas Conversa√ß√Ķes de Malinas (1921- 1926), junto com o padre Portal e o cardeal Mercier.¬† A Confer√™ncia de Lambeth, em 1920, apresentou quatro elementos fundamentais para a reconstitui√ß√£o da unidade da Igreja: as Escrituras, o S√≠mbolo de Niceia e dos Ap√≥stolos, os sacramentos e os minist√©rios. Com rela√ß√£o aos ortodoxos, ainda em 1902, o patriarca Joaquim III de Constantinopla publicou uma enc√≠clica que muito incentiva o ecumenismo. Em 1920, os doze metropolitas do S√≠nodo de Constantinopla tamb√©m publicaram uma carta enc√≠clica propondo a cria√ß√£o de uma liga das igrejas e apresentando elementos pastorais para isso.

A Igreja cat√≥lica teve duas posi√ß√Ķes frente ao movimento ecum√™nico: a) resist√™ncia ao di√°logo ‚Äď reiteradas vezes as autoridades cat√≥licas recusaram o convite para participarem das iniciativas ecum√™nicas. Entre outras: em 1910, pela ocasi√£o da Confer√™ncia de Edimburgo; em 1925, na cria√ß√£o do Movimento Vida e A√ß√£o; em 1927, na cria√ß√£o do Movimento F√© e Constitui√ß√£o; em 1948, na assembleia de funda√ß√£o do Conselho Mundial de Igrejas. A primeira vez que a Igreja romana enviou delegados oficiais em um encontro ecum√™nico foi em 1961, na assembleia do Conselho Mundial de Igrejas, em Nova Delhi. ¬†b) integra√ß√£o na caminhada ecum√™nica: a abertura para o ecumenismo na Igreja cat√≥lica surge apenas em meados do s√©culo XX, com a instru√ß√£o do Santo Of√≠cio Ecclesia Catholica (conhecida como De motione oecumenica), de 20 de dezembro de 1949, reconhecendo a import√Ęncia do movimento ecum√™nico e apresentando os crit√©rios para os cat√≥licos dele participarem. Trata-se do primeiro pronunciamento oficial da Igreja Cat√≥lica Romana que valoriza o movimento ecum√™nico, entendendo-o como uma ‚Äúinspira√ß√£o da gra√ßa do Esp√≠rito Santo‚ÄĚ.

O caminho da Igreja cat√≥lica para o ecumenismo foi aberto¬†em cinco dire√ß√Ķes:

1) na teologia ‚Äď as primeiras intui√ß√Ķes ecum√™nicas no meio cat√≥lico s√£o encontradas em te√≥logos do s√©culo XIX, sobretudo¬†Johann Adam M√∂hler (1796-1838) e John Henry Newmann (1801-1890), que propunham uma concep√ß√£o de unidade eclesial que supera a perspectiva institucionalista, juridicista e visibilista, pr√≥pria da eclesiologia da ‚Äúsociedade perfeita‚ÄĚ de ent√£o. Mas os esfor√ßos mais consequentes surgem mesmo no s√©culo¬† XX, tendo como marco a obra de Y. M. J. Congar, Chr√©tiens D√©sunis. Principes d¬īun oecum√©nisme catholique (1937). Na mesma dire√ß√£o est√£o K. Rahner, H. Urs Von Balthasar e J. Danielou, apenas para citar os que mais influ√™ncia tiveram no Conc√≠lio Vaticano II.

2) na espiritualidade ‚Äď o Papa Le√£o XIII, no seu Breve Providae Matris (1865), ¬†recomendou uma Semana de Ora√ß√£o pela Unidade dos Crist√£os na primeira semana de Pentecostes. Em 1867, escreve, na Carta Enc√≠clica Divinum illud m√ļnus, sobre o valor da ora√ß√£o em que se pede que o bem da unidade dos crist√£os possa amadurecer. A Semana de Ora√ß√£o ganha for√ßa originalmente no meio protestante e anglicano, a partir de 1908. Quando a Society of the Atonement se tornou corporativamente membro da Igreja cat√≥lica, o Papa Pio X concedeu, em 1909, a sua b√™n√ß√£o oficial √† Semana de Ora√ß√£o pela Unidade dos Crist√£os no m√™s de janeiro. Mas foi Bento XV que a introduziu de maneira definitiva na Igreja cat√≥lica. Em 1937, o padre Paul Couturier (1881-1953), junto com Paul Wattson (1863-1940), fortaleceram ainda mais a Semana de Ora√ß√£o pela Unidade, integrando decididamente as comunidades cat√≥licas. √Č significativo o fato de o papa Jo√£o XXIII ter anunciado a realiza√ß√£o do Conc√≠lio Vaticano II no dia 25 de janeiro de 1959, encerramento da Semana de Ora√ß√£o pela Unidade dos Crist√£os.

3) na cria√ß√£o de organismos ecum√™nicos ‚Äď o monge beneditino Lambert Beauduin (1873-1960) fundou, em 1925, os ‚Äúmonges da uni√£o‚ÄĚ, na B√©lgica, e, em 1939, a revista Irenikon, ainda hoje uma das principais nos meios ecum√™nicos. Uma s√©rie de outros organismos ecum√™nicos v√£o surgindo pela iniciativa de cat√≥licos romanos, como o Centro Istina (Paris), o movimento Una Sancta (Alemanha), o Centro Pro Unione (Roma).

4) na busca do di√°logo est√°vel ‚Äď entre os anos 1921 e 1925, um grupo de te√≥logos anglicanos e cat√≥licos romanos desenvolveram conversa√ß√Ķes doutrinais (Malines) de fundamental import√Ęncia para a unidade das duas Igrejas.

5) na a√ß√£o social ‚Äď crist√£os de diferentes igrejas solidarizaram-se nos esfor√ßos pela promo√ß√£o humana, sobretudo durante os dois grandes conflitos mundiais.

4 O ecumenismo no Concílio Vaticano II

O Conc√≠lio Vaticano II (1962-1965) teve como um dos seus principais objetivos promover a unidade dos crist√£os (Unitatis redintegratio, n.1). Na inten√ß√£o do papa Jo√£o XXIII, o ecumenismo n√£o era um tema de segunda import√Ęncia, mas um dos elementos que configuram a Igreja conciliar, em seu ser e em seu agir. E para se fortalecer como um objetivo do Vaticano II, o ecumenismo perpassa a teologia, a espiritualidade, a eclesiologia, a missiologia do conc√≠lio. Tornou-se uma perspectiva da discuss√£o dos padres conciliares em praticamente todos os 16 documentos conclusivos do conc√≠lio, tendo como passagens mais significativas: LG 8.13.15; CD 16; OT 16; DV 22; AA 27; GS 92; PO 9; AG 6.15.29.36.39.

O Vaticano II foi um fato ecumênico. Mostram isso o seu objetivo, a explicitação da dimensão ecumênica das diferentes temáticas do concílio, a presença dos observadores cristãos não católicos romanos na Assembleia dos padres conciliares.[1] A publicação do Decreto sobre o Ecumenismo, Unitatis Redintegratio, em 21 de novembro de 1964, foi a expressão maior da convicção ecumênica da Igreja conciliar.

4.1 O Decreto Unitatis redintegratio 

O Decreto sobre o De oecumenismo foi tratado nos tr√™s per√≠odos do conc√≠lio. Isso serviu como atualiza√ß√£o ecum√™nica aos padres conciliares, o que possibilitou o documento final, em tr√™s cap√≠tulos: princ√≠pios do ecumenismo (cap. I), a pr√°tica do ecumenismo (cap. II) e a rela√ß√£o com as tradi√ß√Ķes eclesiais do Oriente e do Ocidente, considerando as especificidades de cada uma (cap. III).

O Decreto entende que a divis√£o dos crist√£os ‚Äúcontradiz abertamente a vontade de Cristo‚ÄĚ, √© ‚Äúesc√Ęndalo‚ÄĚ e prejudica a prega√ß√£o do Evangelho (UR n.1). Para mudar essa realidade surge o movimento ecum√™nico, por mo√ß√£o do Esp√≠rito Santo, como uma ‚Äúdivina voca√ß√£o‚ÄĚ e ‚Äúgra√ßa‚ÄĚ a todos os crist√£os. Dentre os princ√≠pios que orientam a a√ß√£o ecum√™nica, o conc√≠lio destaca: o entendimento que a Igreja de Cristo √© una e √ļnica, pois sendo Cristo um s√≥, uma s√≥ √© a comunidade que Ele quer para todos seus disc√≠pulos (Jo 17,21); a unidade crist√£ √© significada e realizada na Eucaristia; tem como princ√≠pio o Esp√≠rito Santo e como modelo a Trindade; √© vivida em uma s√≥ f√©, num mesmo culto e na fraterna conc√≥rdia; e se organiza na hist√≥ria em fidelidade aos Doze, tendo Pedro √† sua frente (UR n.2). √Č reconhecida a eclesialidade das Igrejas oriundas das reformas dos s√©culos XVI-XVIII, conferida pelos elementos ou bens da Igreja de Cristo nelas presente, como a Palavra de Deus, a vida da gra√ßa, a f√©, a esperan√ßa e a caridade (UR n.3; LG n.15). Por esses elementos, ‚Äúo Esp√≠rito de Cristo n√£o recusa a servir-se delas como meios de salva√ß√£o‚ÄĚ (UR n.3).¬† ¬†

Nas orienta√ß√Ķes pr√°ticas para a a√ß√£o ecum√™nica, o Decreto destaca: os esfor√ßos por eliminar palavras, ju√≠zos e a√ß√Ķes que separam os crist√£os (UR n.4). E enfatiza: o¬†ecumenismo deve interessar a todos, fi√©is e pastores (UR n.5); ele possibilita a renova√ß√£o da Igreja e a fidelidade √† sua pr√≥pria voca√ß√£o (UR n.6); exige a convers√£o do cora√ß√£o e da mente, a humildade e a generosidade para com os outros (UR n.7); se fortalece na ora√ß√£o comum, ‚Äúalma de todo o movimento ecum√™nico‚ÄĚ (UR n.8); √© fundamental o conhecimento m√ļtuo, pelo estudo das doutrinas, espiritualidades e costumes das tradi√ß√Ķes eclesiais (UR n.9), bem como a forma√ß√£o ecum√™nica (UR n.10); prop√Ķe¬†um m√©todo na exposi√ß√£o da doutrina que considere a hierarquia das verdades (UR n.11); incentiva a¬† coopera√ß√£o das Igrejas na a√ß√£o social (UR n.12).

4.2 O Diretório ecumênico               

A partir das orienta√ß√Ķes ecum√™nicas do Conc√≠lio Vaticano II, o ent√£o Secretariado para a Unidade dos Crist√£os emanou normas e crit√©rios para a atua√ß√£o ecum√™nica dos crist√£os cat√≥licos. O principal documento √©¬†o Diret√≥rio para a aplica√ß√£o dos princ√≠pios e normas sobre o ecumenismo, publicado em etapas: em 1967, tratando das comiss√Ķes ecum√™nicas diocesanas e nacionais, o m√ļtuo reconhecimento do batismo, e a comunh√£o nas coisas espirituais; em 1970, apresentando os princ√≠pios e a pr√°tica ecum√™nica na forma√ß√£o em col√©gios, universidades e semin√°rios; e em 1993, atualizando as mudan√ßas ocorridas no C√≥digo de Direito Can√īnico (1983).

O Diret√≥rio ecum√™nico visa ‚Äúfornecer normas gerais universalmente aplic√°veis para orientar a participa√ß√£o cat√≥lica na atividade ecum√™nica‚ÄĚ (n.7). √Č composto por cinco cap√≠tulos: as raz√Ķes da busca da unidade dos crist√£os; a organiza√ß√£o do servi√ßo da unidade no interior da Igreja romana; a forma√ß√£o para o ecumenismo; a comunh√£o de vida e de atividade espiritual entre os batizados; e a coopera√ß√£o ecum√™nica, o di√°logo e o testemunho comum. Esses temas s√£o apresentados √† luz do Conc√≠lio, buscando ‚Äúrefor√ßar as estruturas que foram j√° preparadas para manter e orientar a atividade ecum√™nica a todos os n√≠veis da Igreja‚ÄĚ (n.6).

4.3 As estruturas ecumênicas

A realiza√ß√£o do ideal da unidade exige condi√ß√Ķes estruturais que possibilitem sua concretude, destacando-se:

a) Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos

No dia 5 de junho de 1960, o papa Jo√£o XXIII instituiu o Secretariado para a Unidade dos Crist√£os para ajudar a Igreja cat√≥lica a melhor integrar-se no movimento ecum√™nico, contribuindo para que todos os crist√£os encontrem ‚Äúmais facilmente a estrada para alcan√ßar aquela unidade pela qual Cristo rezou‚ÄĚ. A atua√ß√£o do Secretariado foi fundamental para colocar o ecumenismo em foco no Conc√≠lio. Ele foi respons√°vel pelas conversa√ß√Ķes com as Igrejas para que enviassem seus representantes no Conc√≠lio e para que enviassem tamb√©m suas observa√ß√Ķes sobre os temas a serem estudados.¬† A ele coube a responsabilidade dos documentos promulgados pelo Conc√≠lio sobre ecumenismo, liberdade religiosa (Dignitatis Humanae), rela√ß√Ķes da Igreja com as religi√Ķes (Nostra Aetate) e divina revela√ß√£o (Dei Verbum), este √ļltimo preparado conjuntamente com a comiss√£o teol√≥gica. O Secretariado foi tamb√©m respons√°vel pelas rela√ß√Ķes religiosas da Santa S√© com os hebreus, criando o comit√™ internacional de rela√ß√Ķes entre cat√≥licos e hebreus. Ap√≥s o Conc√≠lio, em 3 de janeiro de 1966, o papa Paulo VI confirmou o Secretariado como institui√ß√£o permanente da C√ļria Romana, especificando sua estrutura e compet√™ncias. Esse organismo continua como¬†o respons√°vel, no √Ęmbito universal, pela orienta√ß√£o ecum√™nica dos crist√£os cat√≥licos e a articula√ß√£o do¬† di√°logo da Igreja cat√≥lica com as outras Igrejas e organiza√ß√Ķes ecum√™nicas. Em 1989, o papa Jo√£o Paulo II reestruturou o Secretariado dando-lhe o nome de Conselho Pontif√≠cio para a Promo√ß√£o da Unidade dos Crist√£os.

b) As comiss√Ķes de di√°logo bilateral e multilateral

A partir das rela√ß√Ķes oficiais estabelecidas com as Igrejas, formaram-se comiss√Ķes (bilaterais e multilaterais) de di√°logo com organismos representantes das mais diferentes tradi√ß√Ķes eclesiais. Em nossos dias, consolidou-se, no n√≠vel nacional e internacional, uma vasta rede de di√°logos bilaterais e multilaterais, envolvendo quase todas as Igrejas. Esses di√°logos s√£o oficiais, porque autorizados pelas respectivas autoridades eclesi√°sticas, que nomeiam delegados para tratarem de quest√Ķes doutrinais, buscando superar as diverg√™ncias na compreens√£o e viv√™ncia da f√© no Evangelho e na Igreja. Atualmente, a Igreja cat√≥lica participa de 70 dos 120 Conselhos de Igrejas existentes no mundo; em 14 Conselhos Nacionais e em 3 dos 7 Conselhos Regionais. Al√©m disso, ela comp√Ķe 16 comiss√Ķes de di√°logo bilateral tratando das mais variadas quest√Ķes, como autoridade na Igreja, Eucaristia, minist√©rios, eclesiologia, etc.[2]

c) As comiss√Ķes nacionais e diocesanas para o ecumenismo

Para que as orienta√ß√Ķes ecum√™nicas do Vaticano II cheguem √†s igrejas diocesanas e √†s comunidades paroquiais, o Conc√≠lio Vaticano II confiou o trabalho ecum√™nico especialmente ‚Äúaos Bispos de todo o mundo, para que o promovam e orientem com discernimento‚ÄĚ. Esta diretiva, muitas vezes aplicada individualmente por Bispos, por S√≠nodos das Igrejas Orientais Cat√≥licas ou por Confer√™ncias Episcopais, foi inclu√≠da nos C√≥digos de Direito Can√īnico (can.755). Mais, orienta-se que em cada confer√™ncia episcopal exista alguma organiza√ß√£o, comiss√£o ou setor, que motive a recep√ß√£o e viv√™ncia das orienta√ß√Ķes ecum√™nicas do Conc√≠lio. A eles cabe incentivar para que tamb√©m nas dioceses exista alguma estrutura que motive a a√ß√£o ecum√™nica da igreja local, fun√ß√£o desenvolvida pelo delegado e uma comiss√£o diocesana para o ecumenismo (Diret√≥rio, n. 44).

5 O ecumenismo na América Latina

O ponto de partida do movimento ecum√™nico na Am√©rica Latina pode ser encontrado no descontentamento dos mission√°rios latino-americanos sobre a forma como a Confer√™ncia Mission√°ria, realizada em Edimburgo (1910), desconsiderou a Am√©rica Latina de suas preocupa√ß√Ķes. Esses realizaram uma reuni√£o em Nova Iorque (1913) onde criaram um Comit√™ de Coopera√ß√£o para a Am√©rica Latina. O Comit√™ realizou o Congresso da A√ß√£o Crist√£ na Am√©rica Latina, no Panam√° (1916) ‚Äď primeiro evento ecum√™nico latino-americano ‚Äď com o objetivo de compreender os desafios para a miss√£o no continente e estabelecer pistas de coopera√ß√£o intereclesial. Outros congressos semelhantes foram realizados, como Montevid√©u (1925) e La Habana (1929), at√© se chegar a realiza√ß√£o de v√°rias Confer√™ncias Evang√©licas Latino-Americanas – CELA (Argentina, 1949; Peru, 1961; Buenos Aires, 1969, entre outras). Essas confer√™ncias deixaram clara a necessidade de se dar uma express√£o org√Ęnica aos anseios de um maior interc√Ęmbio, coopera√ß√£o e coordena√ß√£o das rela√ß√Ķes intereclesiais, o que deu origem √† Unidade Evang√©lica Latino-Americana – UNELAM (Campinas, 1969). Essas iniciativas possibilitaram desenvolvimento da consci√™ncia ecum√™nica numa significativa parte do mundo evang√©lico latino-americano, e logo sentiu-se a necessidade de um novo¬†organismo que possibilitasse a afirma√ß√£o do projeto ecum√™nico na regi√£o, frente aos novos desafios que emergiam, tanto do interior das Igrejas quanto da realidade social a partir dos anos 70 do s√©culo XX. Surgiu, assim, o Conselho Latino-Americano de Igrejas – CLAI (Peru, 1982), principal organismo ecum√™nico no √Ęmbito evang√©lico no continente na atualidade, constitu√≠do por cerca de 150 Igrejas batistas, congregacionais, episcopais, evang√©licas unidas, luteranas, mor√°vias, menonitas, metodistas, nazarenas, ortodoxas, pentecostais, presbiterais, reformadas, valdenses, assim como organismos crist√£os especializados em √°reas de pastoral da juventude, educa√ß√£o teol√≥gica, educa√ß√£o crist√£, em 21 pa√≠ses da Am√©rica Latina e do Caribe.

O CLAI tem como objetivos principais: promover a unidade entre as Igrejas; apoiar a tarefa evangelizadora de seus membros; promover a reflex√£o e o di√°logo sobre a miss√£o e o testemunho crist√£o no continente. Assim, o CLAI se prop√Ķe como espa√ßo de encontro, forma√ß√£o, di√°logo, coopera√ß√£o, incid√™ncia p√ļblica e articula√ß√£o, em rela√ß√£o a processos, dentro do universo ecum√™nico, inter-religioso e em rela√ß√£o √† sociedade civil e aos organismos multilaterais. Est√° estruturado em cinco Secretarias Regionais: M√©xico e Mesoam√©rica (Man√°gua, Nicar√°gua), Caribe e Gr√£-Col√īmbia (Barranquillla, Col√īmbia); Andina (Santiago, Chile); Rio da Prata (Buenos Aires, Argentina) e Brasil (Londrina).

Naturalmente, n√£o s√£o apenas as Igrejas evang√©licas que realizam o ecumenismo na Am√©rica Latina. As Igrejas anglicanas, ortodoxas e cat√≥lica romana tamb√©m t√™m suas organiza√ß√Ķes ecum√™nicas e tamb√©m integram organismos ecum√™nicos com a presen√ßa de Igrejas evang√©licas em cada na√ß√£o, a exemplo do Conselho Nacional de Igrejas Crist√£s do Brasil ‚Äď CONIC (1982). Situam-se aqui, por exemplo, o setor de ecumenismo nas confer√™ncias episcopais da Igreja cat√≥lica em cada pa√≠s e o Departamento de Comunh√£o Eclesial e Di√°logo, do Conselho Episcopal Latino-Americano ‚Äď CELAM (1955), que tem a responsabilidade de promover o ecumenismo nos meios cat√≥licos em todo o continente.

6 Frutos do ecumenismo

Em seus 100 anos de exist√™ncia, o movimento ecum√™nico produziu significativos frutos nos esfor√ßos de aproxima√ß√£o e unidade das Igrejas, nos campos da doutrina, da pastoral, da espiritualidade e da coopera√ß√£o na a√ß√£o social. Os crist√£os separados n√£o mais se consideram estranhos, concorrentes ou inimigos, mas irm√£os e irm√£s, linguagem desconhecida at√© bem pouco tempo. Em sua enc√≠clica sobre o ecumenismo, Ut Unum Sint (1995), o papa Jo√£o Paulo II afirma que √© a ‚Äúprimeira vez na hist√≥ria que a a√ß√£o em prol da unidade dos crist√£os assumiu propor√ß√Ķes t√£o amplas e se estendeu a um √Ęmbito t√£o vasto‚ÄĚ (UUS n.41). O mesmo papa reconhece como frutos do di√°logo: a fraternidade reencontrada pelo reconhecimento do √ļnico Batismo e pela exig√™ncia que Deus seja glorificado na sua obra; a solidariedade no servi√ßo √† humanidade; converg√™ncias na palavra de Deus e no culto divino; o apre√ßo m√ļtuo dos bens nas diferentes tradi√ß√Ķes eclesiais; o reconhecimento de que ‚Äúaquilo que une √© mais forte do que o que divide‚ÄĚ (UUS n.20.41-49).

Esses frutos permitem elencar cinco aspectos de crescimento nas rela√ß√Ķes ecum√™nicas: a) nas rela√ß√Ķes dos dirigentes das Igrejas, existe a localiza√ß√£o de pontos de encontro e m√ļtua procura de avizinhamento e di√°logo; b) no n√≠vel teol√≥gico-doutrinal, chegou-se a importantes converg√™ncias e consensos sobre v√°rios elementos da f√© crist√£ e eclesial[3]; c) nas comunidades dos fi√©is, cresce o conv√≠vio entre crist√£os de diferentes confiss√Ķes, vencendo-se preconceitos e hostilidades; d) no campo pastoral, a coopera√ß√£o ecum√™nica √© realidade em muitos ambientes; e) cresce a sensibilidade ecum√™nica na espiritualidade.

7 Desafios para o ecumenismo na atualidade

Mas permanecem s√©rios desafios a serem superados na caminhada ecum√™nica. Verifica-se em nossos dias pouca disponibilidade ao di√°logo em muitas inst√Ęncias das Igrejas, mesmo nas que prop√Ķem o ecumenismo em seus documentos normativos. A tend√™ncia √© o ¬†recentramento identit√°rio das Igrejas provocado, por um lado, pelo contexto plural que exige uma redefini√ß√£o do seu ser e agir; por outro lado, por tens√Ķes internas que tendem a fragilizar as convic√ß√Ķes ecum√™nicas. Aumenta a tens√£o entre o esp√≠rito de abertura e di√°logo e a necessidade de salvaguardar a pr√≥pria identidade. Em fun√ß√£o disso, em alguns ambientes os fi√©is sentem-se obrigados a caminhar de um jeito pr√≥prio, no ecumenismo popular, por vezes distanciando-se das orienta√ß√Ķes oficiais. E as estruturas eclesiais tendem a voltar-se para si mesmas, sentindo-se amea√ßadas pelo dinamismo das iniciativas ecum√™nicas populares. A consequ√™ncia √© que as convic√ß√Ķes ecum√™nicas apresentadas nos documentos e nos pronunciamentos oficiais das Igrejas n√£o se articulam com a vida concreta das comunidades dos fi√©is.

Assim, h√° um desencontro entre ecumenismo e Igreja, como se fossem realidades separadas ou que se tocam apenas superficialmente. Isso manifesta-se por uma setoriza√ß√£o do compromisso ecum√™nico, quase exclusivo aos ambientes oficialmente vinculados √†s rela√ß√Ķes intereclesiais e n√£o na comunidade eclesial como um todo; na car√™ncia de estruturas, de pessoas e de recursos destinados ao trabalho ecum√™nico; na pouca forma√ß√£o teol√≥gica e pastoral que priorize o di√°logo como o jeito de ser e de agir da Igreja. Acresce-se a esses desafios a realidade social de divis√£o e a pluralidade do campo religioso; a intensa pr√°tica do proselitismo, o fundamentalismo e o conservadorismo; a perda de sentido da perten√ßa eclesial; a privatiza√ß√£o da pr√°tica de f√© dos crist√£os; o tr√Ęnsito dos crist√£os de uma confiss√£o para outra em busca de uma experi√™ncia religiosa satisfat√≥ria; o hibridismo dos s√≠mbolos religiosos.

Enfim, o status quaestionis da divis√£o dos crist√£os se configura atualmente em 6 principais horizontes: 1) Teologia ‚Äď as Igrejas est√£o divididas na interpreta√ß√£o dos elementos que constituem a natureza e o conte√ļdo da f√© crist√£, como a doutrina da gra√ßa os sacramentos, a natureza da Igreja e os minist√©rios, entre outros; 2) Estruturas eclesiais ‚Äď as Igrejas divergem tanto sobre os elementos estruturais da Igreja, quanto sobre a compreens√£o teol√≥gica que se tem deles; 3) Espiritualidade ‚Äď a compreens√£o da f√© e a vida eclesial s√£o alimentadas por espiritualidades diferentes no interior de cada tradi√ß√£o eclesial. Esse fato ‚Äď que poderia ser apenas manifesta√ß√£o da diversidade da atua√ß√£o do Esp√≠rito ‚Äď num contexto de divis√£o manifesta tens√Ķes e o distanciamento de uma tradi√ß√£o eclesial em rela√ß√£o √†s outras; 4) Pastoral ‚Äď as diverg√™ncias nos t√≥picos anteriores leva as Igrejas a se dividirem quanto ao conte√ļdo e ao m√©todo da evangeliza√ß√£o; 5) √Čtica ‚Äď existem tamb√©m divis√Ķes no horizonte da √©tica e dos costumes, na sua origem, express√£o e fundamenta√ß√£o teol√≥gica; 6) Quest√Ķes sociopol√≠ticas ‚Äď n√£o h√° consenso entre as Igrejas na compreens√£o da sociedade e no modo de situar-se nos conflitos que nela ocorrem.

Elias Wolff, PUC Paran√°. Brasil

 8 Referências bibliográficas 

CONSELHO Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Diretório para a Aplicação dos Princípios e Normas sobre o Ecumenismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS. Declaração de Toronto, 1950.

_______. Nouvelle-Delhi, 1961, Rapport de la Troisi√®me Assembl√©e. Neuch√Ętel: Delaxaus et Niestl√©, 1962.

GRATIEUX, A. L¬īAmiti√© au servisse de l¬īunion, Lord Halifax et l¬īabb√© Portal. Paris: Bonne Presse, 1950.

JOÃO PAULO II. Ut Unum Sint. São Paulo: Paulinas, 1995.

NAVARRO, J. B. Para Compreender o Ecumenismo. S√£o Paulo: Loyola, 1995. p.121.

ROUSE, R. Voluntary Movements in the Second Half-Century. In: ______; NEILL, Stephen (eds.) A History of the Ecumenical Movement (1517-1948). Londres: SPCK, 1967.

THILS, G. Historia Doctrinal del Movimiento Ecumenico. Madri: Ediciones Rialp, 1965.

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______. The Genesis and Formation of the World Council of Churches. Genebra: WCC, 1982.

WOLFF, Elias. Caminhos do Ecumenismo no Brasil. S√£o Paulo: Paulus, 2002.

______. A Unidade da Igreja. S√£o Paulo: Paulus, 2007.

______. Vaticano II ‚Äď 50 Anos de ecumenismo na Igreja Cat√≥lica.¬† S√£o Paulo, Paulus, 2014.

[1] Delegados das Igrejas que participaram do Conc√≠lio: 1¬™ sess√£o: 49 delegados de 17 Igrejas; 2¬™ sess√£o: 66 delegados de 22 Igrejas; 3¬™ sess√£o: 76 delegados de 23 Igrejas; 4¬™ sess√£o: 103 delegados de 29 Igrejas. Cf. Bravo, Ernesto. ‚ÄúAspectos hist√≥ricos do ecumenismo na Am√©rica Latina‚ÄĚ. In: Congresso Ibero Americano sobre la Nueva Evangelizacion y Ecumenismo. Madrid: Gr√°ficas Lormo, 1992. p.99-110.

[2] Os resultados dos trabalhos das comiss√Ķes, no n√≠vel internacional, encontram-se em Enchiridion Oecumenicum. Bologna: EDB, vol. I, 1988; vol. III, 1995; vol. VII, 2006.

[3] Exemplos: com os ortodoxos, foi alcan√ßado um amplo consenso na doutrina trinit√°ria (cristologia e pneumatologia); com a Comunh√£o Anglicana avan√ßa o di√°logo sobre a autoridade na Igreja; com os metodistas, foi alcan√ßado um acordo sobre a tradi√ß√£o apost√≥lica; com a Federa√ß√£o Luterana Mundial, foi alcan√ßado um¬† ‚Äúconsenso diferenciado‚ÄĚ sobre a doutrina da justifica√ß√£o. Em todas as Igrejas, atingiu-se um amplo consenso sobre a rela√ß√£o entre ecumenismo e miss√£o.