Teologia moral

Sum√°rio

1 Li√ß√Ķes da Hist√≥ria

2 √Čtica humana ou moral religiosa?

3 Uma dupla abordagem na moral atual

4 A urgência de uma abordagem científica

5 A busca pelo bem maior

6 Consciência  como tema central

7 Pecado e culpa

8 O pecado coletivo

9 Referências bibliográficas

1 Li√ß√Ķes da hist√≥ria

N√£o h√° d√ļvida que a teologia moral sofreu uma forte desvaloriza√ß√£o em nosso mundo contempor√Ęneo. Muitas pessoas, educadas em ambiente crist√£o, deixaram de acreditar nos ensinamentos √©ticos recebidos. Durante muito tempo, no entanto, tais ensinamentos √©ticos tiveram forte influ√™ncia entre os crentes e orientavam a vida concreta. O poder da Igreja para interpretar e aplicar estes ensinamentos √©ticos √† diferentes situa√ß√Ķes era considerado uma express√£o expl√≠cita da vontade de Deus. A promessa do Esp√≠rito dava-lhe uma garantia firme para n√£o cometer um erro em seus ensinamentos. Os fi√©is n√£o tiveram alternativas sen√£o a obedi√™ncia e a submiss√£o.

Ainda¬† que se tenha promovido o¬† estudo da teologia moral em boas universidades, sob o ensinamento de grandes te√≥logos, tamb√©m √© verdade que tal disciplina nunca perdeu, ao longo da hist√≥ria, seu interesse principal em ajudar os confessores para o minist√©rio da reconcilia√ß√£o, que era seu centro. O sacerdote expressava o perd√£o e a miseric√≥rdia de Deus, ¬†contudo, tamb√©m como um juiz, era necess√°rio que tivesse o conhecimento exato da seriedade e import√Ęncia do ato cometido. A maioria dos textos de moral, at√© recentemente, tinha-se tornado verdadeiro ‚Äúpecat√īmetros‚ÄĚ, medindo, com precis√£o e imagina√ß√£o, todas as possibilidades (casu√≠stica).

Esta orienta√ß√£o priorit√°ria n√£o impediu, no entanto, as muitas discuss√Ķes que ocorreram ao longo da hist√≥ria sobre temas que se referem a certas quest√Ķes √©ticas. Basta lembrar, por exemplo, as diferentes formas de harmonizar as exig√™ncias da lei com as decis√Ķes de consci√™ncia. Os chamados sistemas morais n√£o se referem, como pode parecer, aos grandes fundamentos da moralidade, mas √† propor√ß√£o diferente defendida entre a obriga√ß√£o legal e a liberdade de cada pessoa para determinar sua escolha em diferentes circunst√Ęncias. Embora as alega√ß√Ķes do passado pare√ßam superadas hoje em dia, sem d√ļvidas ainda s√£o suficientemente influentes para evitar ou induzir a uma vis√£o mais ou menos rigorista (rigorismo).

O mesmo aconteceu com o n√ļcleo b√°sico da moralidade. Ou seja, em rela√ß√£o √†queles limites fundamentais que nunca poderiam ser ultrapassados (lei natural). Sua exist√™ncia tem sido evocada em muitas ocasi√Ķes para impor determinados comportamentos. Aquilo que pertence a esse √Ęmbito possui maior consist√™ncia, contudo, o risco da amplia√ß√£o de suas fronteiras tem sido, n√£o obstante, uma realidade hist√≥rica. A quest√£o de saber at√© onde v√£o suas exig√™ncias permanece ainda como um ponto pouco evidente. Especialmente quando se percebe que entre os autores cl√°ssicos n√£o existe consenso ou hegemonia quanto √† explica√ß√£o.

Para evitar um pluralismo que poderia ser perigoso para a comunidade eclesial, a Igreja encontrou em seu magist√©rio um apoio muito importante. A diferen√ßa cl√°ssica entre √©tica e moral encontrou aqui seu ponto de partida. A moral tinha sua origem na palavra de Deus que a Igreja, com a ajuda especial do Esp√≠rito, tem de interpretar e impor com sua autoridade, de acordo com as diversas situa√ß√Ķes hist√≥ricas e pessoais. Por sua vez, a √©tica se baseava nas exig√™ncias da raz√£o, que n√£o oferecia maior seguran√ßa, estando sujeita a erros humanos. Indicava-se, inclusive, que at√© mesmo suas pr√≥prias conclus√Ķes deveriam estar subordinadas ao conte√ļdo da moralidade. A filosofia foi relegada, por um longo tempo, a ser n√£o mais do que uma simples ajuda para a f√©. N√£o em v√£o, passou a ser considerada como¬† escrava da teologia. N√£o havia outra op√ß√£o que n√£o fosse a obedi√™ncia e submiss√£o, pois o remorso e a amea√ßa de uma condena√ß√£o constitu√≠am uma fonte de extraordin√°ria efic√°cia.

Surge, portanto, inevitavelmente, a abordagem de um novo problema. Como seres racionais, devemos agir com uma convicção interior que justifique o comportamento que adotamos. Um esforço de explicação racional para que nosso comportamento resultante seja sensato e compreensível. Mas, como crentes, não podemos eliminar a nossa dimensão transcendente, que nos faz encontrar em Deus a explicação fundamental de nossa vida. A escuta e a docilidade à sua palavra também faz parte do nosso horizonte ético.

2 √Čtica humana ou moral religiosa?

O problema metodol√≥gico que emerge √© saber qual deve ser nosso ponto de partida. Se partimos da raz√£o para construir uma √©tica humana, razo√°vel, v√°lida e universal para todos, ou se √© a revela√ß√£o que nos deve garantir, como crentes, a firmeza e a seguran√ßa plena de nossa conduta. Devemos evitar as opini√Ķes extremistas, tanto daqueles que, por um lado, negam a baliza da f√© em defesa da plena autonomia humana, quanto, por outro lado, a vis√£o daqueles que desejam recorrer apenas √† palavra literal das Escrituras. A √©tica secular seria um bom representante da primeira op√ß√£o. Proclama e defende a consist√™ncia humana das regras e obriga√ß√Ķes, sem fazer uso de justificativas externas. Na divindade se encontrava a resposta √† ignor√Ęncia que impedia de descobrir um fundamento racional. A hip√≥tese de um Deus que se revela ou de uma igreja que ensina com autoridade passou para o museu da hist√≥ria. O progresso cient√≠fico certificou sua morte definitiva.

A resposta protestante, ao contr√°rio, defende um radicalismo antag√īnico. Para o crist√£o n√£o existe outra op√ß√£o que a de uma √©tica puramente religiosa. Somente se pode agir honestamente quando se faz ouvinte da palavra e se deixa dirigir pela mensagem da revela√ß√£o. Qualquer outra tentativa de guiar a vida atrav√©s de valores humanos conduz a um completo fracasso, j√° que n√£o h√° capacidade no ser humano para descobrir o bem a partir de si mesmo. Nenhum moralista pode usurpar o trono de Deus para determinar o que √© bom e o que √© inaceit√°vel, como se possu√≠sse a compet√™ncia que s√≥ a Deus pertence. Surge, ent√£o, uma manifesta contradi√ß√£o entre os imperativos √©ticos e as exig√™ncias religiosas. No horizonte religioso, a √ļnica categoria √©tica existente √© a do absurdo, como a intrigante postura de Abra√£o que, a fim de obedecer a Deus, se v√™ disposto a sacrificar seu pr√≥prio filho.

N√£o tenho a pretens√£o de explicar agora as nuances existentes em ambas posturas. Quero ressaltar somente que, dentro do catolicismo, sempre se defendeu uma posi√ß√£o intermedi√°ria. As dimens√Ķes humanas e religiosas n√£o s√£o duas realidades mutuamente excludentes ou contradit√≥rias. Entre f√© e raz√£o existe uma harmonia complementar, sem que nenhuma perca seu valor e utilidade. Busca-se pensar uma √©tica que seja profundamente religiosa, sobrenatural e transcendente, mas que n√£o deixe de ser, ao mesmo tempo, verdadeiramente humana, racional e compreens√≠vel.

3 Uma dupla abordagem na moral atual

Entre os autores cat√≥licos, a similitude de pensamento sobre este pressuposto b√°sico alcan√ßa sua unanimidade. Contudo, a insist√™ncia e a √™nfase colocadas sobre cada um deles levam a uma dupla abordagem que levanta pol√™micas dentro da comunidade eclesial. Trata-se da inclina√ß√£o ou para uma √©tica aut√īnoma, na qual se enfatiza mais a racionalidade dos conte√ļdos √©ticos, ou para uma moral da f√©, que coloca mais acento nos dados da revela√ß√£o. O problema n√£o √© apenas uma quest√£o especulativa, mas deve nos preocupar por causa de suas implica√ß√Ķes pastorais.

Em suma, poder√≠amos dizer que a √©tica aut√īnoma possui maior confian√ßa na capacidade da raz√£o humana, apesar de seus limites e restri√ß√Ķes. Busca tornar os valores √©ticos compreens√≠veis num mundo secular e adulto, que exige explica√ß√£o racional para a sua pr√≥pria convic√ß√£o. O homem de f√© sabe que esta capacidade lhe foi dada como um dom de Deus (autonomia theonomous), contudo sem ¬†destruir sua justifica√ß√£o ou autonomia humana. A moral da f√© manifesta certas reservas sobre essa abordagem, acreditando que √© bastante ing√™nua e otimista, pois sem a ajuda da revela√ß√£o cair√≠amos em muitos erros. √Č preciso dizer que Jo√£o Paulo II foi um defensor entusiasta da primazia e da necessidade da f√© sobre qualquer tentativa de fundamenta√ß√£o meramente racional da moral.

A quest√£o essencial consiste em saber se √© poss√≠vel uma moralidade sem o aux√≠lio da f√©, ¬†se acaso esta n√£o nos proporciona conte√ļdos √©ticos imposs√≠veis de serem descobertos sem a ajuda da revela√ß√£o. Dito de outra forma, consiste em saber se os valores que nos humanizam podem ou n√£o serem descobertos sem a ajuda do sobrenatural. Da decis√£o tomada ante esta alternativa, pode-se prever o desabrochar de uma moral especificamente crist√£, cujo conte√ļdos n√£o poder√£o ser conhecidos a partir de outra perspectiva. Ou, de outra forma, se reconhece que, ¬†mesmo sem levar em conta a dimens√£o sobrenatural do crente,¬† podemos encontrar uma plataforma comum, patrim√īnio de todos os seres humanos.

As diverg√™ncias inevit√°veis n√£o est√£o ‚Äč‚Äčbaseadas apenas nestes diferentes pontos de vista. Todo o valor √©tico √© um apelo que sentimos para nos realizarmos como pessoas. Nascemos inacabados, e n√£o √© poss√≠vel atingir esse objetivo (o da humaniza√ß√£o[1]) deixando-nos levar pelos impulsos prim√°rios que experimentamos. O ser humano, por meio das ren√ļncias e compensa√ß√Ķes que experimenta em sua educa√ß√£o, tem a tarefa de descobrir qual a configura√ß√£o que deseja dar a todos os elementos encontrados em sua natureza. √Čtica nada mais √© que o estilo de vida que cada pessoa decide dar √† sua exist√™ncia.

√Č interessante notar que Santo Tom√°s, quando ¬†explica em que consiste a ofensa a Deus, o faz a partir de uma perspectiva profundamente humanista: “Deus n√£o √© ofendido por n√≥s, a n√£o ser na medida em que agimos contra ¬†nosso pr√≥prio bem” (Summa Contra Gentios, III, 122).

4 A urgência de uma abordagem científica

Quero dizer que tudo que é moralmente considerado inaceitável ou, do ponto de vista religioso, é classificado como um pecado, tampouco é, do ponto de vista humano, a melhor maneira de se realizar como pessoa.

Tudo isso significa que n√£o √© poss√≠vel uma moral aut√™ntica sem que se apoie em bases cient√≠ficas, pois, de outro modo, supor√≠amos a defesa de uma ¬†moral sem fundamenta√ß√£o. A dificuldade est√° no fato de que a ci√™ncia nem sempre possui conclus√Ķes un√Ęnimes que permitem a avalia√ß√£o do comportamento. O campo da bio√©tica √© um exemplo claro dessa dificuldade. Tamb√©m √© digno de nota que, com o progresso e as novas descobertas da ci√™ncia, as solu√ß√Ķes que t√™m sido tomadas antecipadamente devem ser repensadas ou reinterpretadas de forma diferente para que possam integrar as novas possibilidades.

Neste contexto, existe o perigo de que a moral se torne um obst√°culo ao progresso, ao condenar imediatamente qualquer nova possibilidade que n√£o se ajuste completamente √†s normas e ensino anterior. O conflito surge, ent√£o, entre a fidelidade a um valor, tal como apresentado na tradi√ß√£o, e a fidelidade a uma nova verdade que pode enriquecer a perspectiva precedente. A pr√≥pria cultura, que se desenvolve ao longo do tempo, oferece perspectivas diferentes que permitem valorizar qualquer realidade. Inclusive dentro do mesmo √Ęmbito cultural, como √© o caso da Igreja, tem ocorrido mudan√ßas significativas que afetam a formula√ß√£o da √©tica concreta. Durante s√©culos, aceitou-se com naturalidade o fen√īmeno da escravid√£o; e quase ningu√©m ficou escandalizado com o fato de que os hereges fossem queimados na fogueira.

Finalmente, existe hoje uma dupla forma de aplicar √† realidade alguns valores √©ticos. ¬†Nem tudo que na teoria √© apresentado como princ√≠pio v√°lido e aceit√°vel pode ser aplicado em situa√ß√Ķes concretas. Valores evidentes e aceit√°veis como n√£o mentir, respeitar a vida, pagar a cada um conforme seu merecimento etc., devem ser analisados verificando se vale a pena cumpri-los na eventual possibilidade de que sua execu√ß√£o provoque uma mal maior. A mesma moral tradicional afirma que quando uma a√ß√£o implica consequ√™ncias boas e negativas, no caso de perplexidade, todos devem escolher o mal que parece menor. O chamado princ√≠pio do duplo efeito, a lei da gradualidade, a distin√ß√£o entre a coopera√ß√£o formal e material e a virtude da epiqueia indicam que n√£o se pode julgar uma a√ß√£o enquanto n√£o se considere especificamente como ela se realiza concretamente.

5 A busca por um bem maior

Devemos descobrir, portanto, qual √© o valor mais elevado que precisamos buscar e situar acima de tudo. Ou se, a fim de evitar consequ√™ncias negativas piores, devemos optar pela elimina√ß√£o de algum bem. Essa moralidade concreta busca-se hoje a partir de um duplo caminho, atrav√©s de uma argumenta√ß√£o deontol√≥gica, ou atrav√©s de um racioc√≠nio teleol√≥gico. A diferen√ßa entre as duas posi√ß√Ķes pode ser sintetizada como se segue. Uma teoria normativa ser√° deontol√≥gica quando a moralidade de um determinado comportamento for deduzida atrav√©s da an√°lise de sua natureza, sem dar qualquer import√Ęncia √†s consequ√™ncias ou efeitos negativos que podem resultar de tal comportamento (deontologia). J√° uma teoria normativa na dimens√£o teleol√≥gica, pelo contr√°rio, mesmo que¬† tamb√©m considere a natureza da a√ß√£o, ¬†n√£o se atreve a valoriz√°-la sem antes considerar as consequ√™ncias que possa produzir (teleologia).

N√£o me parece que esta √ļltima perspectiva, √† qual a maioria dos atuais moralistas se inclina, seja contra os ensinamentos fundamentais da Igreja, embora a doutrina oficial fa√ßa cr√≠ticas a muitas de suas formula√ß√Ķes. Tampouco penso que com essa abordagem estejamos entrando em uma moral de pura efic√°cia ou de benef√≠cios imediatos. Tamb√©m n√£o se nega a exist√™ncia das chamadas a√ß√Ķes intrinsecamente pecaminosas, quando n√£o existe nenhuma raz√£o ou motivo que pudesse justificar a sua n√£o observ√Ęncia. Contudo, √© verdade que nem sempre coincidem na mesma valora√ß√£o.

6 Consciência como tema central

A partir da sua compreens√£o como o nucleus secretissimus atque sacrarium hominis, in quo solus est cum Deo (Santo Agostinho), o Conc√≠lio Vaticano II define a doutrina da consci√™ncia: ‚ÄúNo fundo da pr√≥pria consci√™ncia, o homem descobre uma lei que n√£o se imp√īs a si mesmo, mas √† qual deve obedecer; essa voz, que sempre o est√° a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu cora√ß√£o: faze isto, evita aquilo. O homem tem no cora√ß√£o uma lei escrita pelo pr√≥prio Deus; a sua dignidade est√° em obedecer-lhe, e por ela √© que ser√° julgado. A consci√™ncia √© o centro mais secreto e o santu√°rio do homem, no qual se encontra a s√≥s com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. Gra√ßas √† consci√™ncia, revela-se de modo admir√°vel aquela lei que se realiza no amor de Deus e do pr√≥ximo‚ÄĚ (Gaudium et spes n.16).

Chamado √† comunh√£o com Deus, o ser humano est√° em escuta cont√≠nua de sua Palavra e a conserva no cora√ß√£o (Jr 17,1; 31,31-34; Ez 14,1-5; 36,26), cujo √ļnico habitante √© Deus (Jr 11,20). O Evangelho de Jesus, manso e humilde de cora√ß√£o (Mt 11,28-30), germina no mais √≠ntimo da pessoa (Mt 13,19). Deste n√ļcleo brotam as palavras, atitudes e comportamentos humanos (Mc 7,18-23). O ap√≥stolo Paulo interpreta a tradi√ß√£o sem√≠tica do cora√ß√£o e a traduz na no√ß√£o grega de consci√™ncia (syneidesis) como express√£o √≠ntima da nova criatura e de seu existir em Cristo (Hb 9,12).

A chave de compreens√£o da moral crist√£ √© o discernimento (dokim√°zein): capacidade de tomar, em determinada situa√ß√£o, a decis√£o moral conforme o Evangelho e com conhecimento das implica√ß√Ķes da hist√≥ria da salva√ß√£o. O discernimento aponta para o car√°ter pneumatol√≥gico da consci√™ncia. O conte√ļdo prim√°rio do discernimento crist√£o √© a vontade de Deus em Jesus Cristo (Rm 12,2; Ef 5,17). O discernimento √© o pr√≥prio exerc√≠cio da consci√™ncia, √© a consci√™ncia moral adulta em a√ß√£o (Hb 5,14). A Igreja se apresenta como uma comunidade de discernimento: ‚Äúque possais discernir o que √© melhor ou o que √© bom, o que √© mais importante ou o que mais conv√©m e agrada a Deus‚ÄĚ ( Rm 2,18; 12,2; Fl 1,10; Ef 5,10). Essa perspectiva √© o fundamento do sensus fidelium. ‚ÄúOs fi√©is leigos devem ter consci√™ncia n√£o s√≥ de pertencer √† Igreja, mas de ser Igreja” (Catecismo da Igreja Cat√≥lica n.899). Todo batizado tem o direito, em raz√£o de seu pr√≥prio conhecimento, compet√™ncia e reconhecimento, de manifestar √† comunidade eclesial sua opini√£o sobre aquilo que pertence ao bem da Igreja.

A liberdade de consci√™ncia tem a √ļltima palavra a respeito das prescri√ß√Ķes morais concretas da Igreja. Cada fiel, deixando interpelar-se pela sua consci√™ncia, pela Palavra de Deus e pela Tradi√ß√£o est√° chamado a assumir-se fazendo a escolha √©tica de forma respons√°vel. Ningu√©m pode ser for√ßado a agir contra a pr√≥pria consci√™ncia nem sequer em assuntos de religi√£o (C√≥digo de Direito Can√īnico, 748, 2): ‚ÄúA consci√™ncia √© o primeiro de todos os vig√°rios de Cristo‚ÄĚ (Catecismo da Igreja Cat√≥lica, 1778 – cita√ß√£o do Cardeal Neumann). A decis√£o pessoal adquire, portanto, um relevo extraordin√°rio (decis√£o moral). Somente a pr√≥pria (consci√™ncia) possui a √ļltima e definitiva palavra para a moralidade de nossas a√ß√Ķes, mas sem esquecer a validade e obrigatoriedade das normas √©ticas(norma moral).

Pode-se dizer que, para o legalista, a regra conserva sempre sua validez, como o caminho mais seguro para evitar erros. O antinomista, pelo contr√°rio, anula sua validez a fim de seguir os ditames de sua decis√£o pessoal (√©tica situacional). J√° a pessoa madura aceita, por um lado, a obrigatoriedade das exig√™ncias √©ticas, mas sabe tamb√©m relativiz√°-las quando se encontra diante de outros valores importantes, desde que tais a√ß√Ķes n√£o sejam consideradas intrinsecamente pecaminosa, como j√° dissemos.

Esta vis√£o personalista da consci√™ncia integra harmoniosamente a dial√©tica entre a dupla dimens√£o objetiva e subjetiva da moral, sem cair nos extremos de uma moral legalista ou ¬†de uma √©tica subjetivista. Uma pedagogia da moral deveria consistir em despertar consci√™ncias livres e respons√°veis‚Äč‚Äč, ¬†que se deixem conduzir sempre pelo¬† chamado ou apelo a um bem maior.

7 Pecado e culpa

Como tamb√©m aconteceu com outras quest√Ķes, a imagem do pecado sofreu uma profunda mudan√ßa em nossa sociedade. A pr√≥pria Igreja, em alguns de seus documentos, expressou sua preocupa√ß√£o. Tamb√©m aqui s√£o muitos os fatores que causaram esta situa√ß√£o, como nos aponta, na Exorta√ß√£o Apost√≥lica sobre a Reconcilia√ß√£o e Penit√™ncia, o Papa Jo√£o Paulo II. Cito, brevemente, tr√™s aspectos que considero importantes.

O primeiro, sem d√ļvidas, √© a perda da vis√£o sobrenatural. O terr√≠vel de um acidente n√£o reside no fato de que o carro tenha ficado destru√≠do, mas a vida que se perdeu entre seus destro√ßos. Pecar n√£o √© simplesmente quebrar uma lei ou n√£o cumprir uma obriga√ß√£o, mas implica a ruptura de uma amizade com o Deus que nos salva. Quando esta dimens√£o transcendente se esvai, como acontece em nossas sociedades secularizadas, a imagem ¬†do pecado tamb√©m desaparece.

S√£o muitos os que n√£o querem reconhecer a sua pr√≥pria sua culpa, como se fosse uma decis√£o que brota dela pr√≥pria. O erro e o equ√≠voco fazem parte do nosso patrim√īnio, como uma consequ√™ncia inevit√°vel de nossa finitude. A falta, no entanto, n√£o se deve √† liberdade de quem assim atua, mas constitui um fracasso pelo qual ningu√©m pode sentir-se respons√°vel. √Č um evento que nos deixa chateado e magoado, que nos comove, pois afeta as fibras mais √≠ntimas da personalidade, mas sobre o ser humano, mesmo que ele cometa o mal, n√£o se pode lan√ßar qualquer condena√ß√£o acusat√≥ria. Ningu√©m escolhe algo contra si e, por isso, quando rejeita Deus ou recusa um valor √©tico, √© porque encontrou outra atra√ß√£o pela qual se sente inevitavelmente seduzido sem outra possibilidade de elei√ß√£o.

Ainda que pare√ßa estranho, n√£o √© f√°cil uma prova evidente de nossa liberdade. Aquele que insiste em neg√°-la ver√°, por detr√°s de cada escolha, um mundo de certas experi√™ncias, press√Ķes, lembran√ßas, interesses, expectativas etc., que inclinam a balan√ßa para um lado de uma forma inevit√°vel. A hip√≥tese de sua exist√™ncia, no entanto, n√£o √© um dado anticient√≠fico. Os m√ļltiplos mecanismos que a amea√ßam n√£o tem porque destruir a capacidade b√°sica da¬† autodetermina√ß√£o. Contudo, n√£o devemos defend√™-la com uma ingenuidade excessiva. S√£o muitos fatores que a condicionem, embora n√£o a eliminem. √Č poss√≠vel que, √†s vezes, queiramos e n√£o possamos, contudo, mais frequente √© a situa√ß√£o na qual podemos e n√£o queremos. A liberdade √© tamb√©m uma conquista que cada pessoa deve realizar com o seu esfor√ßo.

√Č l√≥gico que a pessoa que n√£o quis responder ao chamado de um valor que o desumaniza, ou como crente encontra-se fechado para a amizade com Deus, experimente internamente algum desconforto. O fracasso de um projeto humano ou religioso, embora n√£o absoluto e definitivo, deve produzir determinadas rea√ß√Ķes internas que n√£o nos deixem tranquilos e imut√°veis, como se nada tivesse acontecido. A culpa, como a dor ou ¬†a febre nos mecanismos biol√≥gicos, ¬†faz sentir o mau funcionamento da pessoa e o desejo de uma cura eficaz.

Este sentimento de culpa poderia ser causado por diferentes fatores. Uma sensa√ß√£o de ang√ļstia por medo de uma perda, ou por medo de uma puni√ß√£o. O que d√≥i n√£o √© o mal praticado, mas as m√°s consequ√™ncias dele decorrentes. Em outras ocasi√Ķes, √© a ferida que causa o pr√≥prio narcisismo. √Č um fato que destr√≥i o Eu ideal, que humilha e corr√≥i, com um remorso que se faz companheiro constante de caminhada. Quando, em sua natureza mais profunda, radica na vergonha de haver atentado contra o meu pr√≥prio bem, causado danos aos outros e, sobretudo, ter quebrado a minha amizade com Deus.

8 O pecado coletivo

Sempre se analisou o conceito de pecado a partir de uma vis√£o demasiado individualista. O importante era n√£o sentir-se culpado com o desempenho individual. Se ¬†apesar da pr√≥pria honestidade ainda continua existindo o pecado, semelhante situa√ß√£o ser√°, ent√£o, produto de outras pessoas que colaboram com o mal existente. Uma abordagem como essa se faz completamente incompreens√≠vel em nossa cultura atual, na qual a dimens√£o pol√≠tica possui¬† uma extraordin√°ria relev√Ęncia.

J√° o Conc√≠lio Vaticano II, ¬†na Constitui√ß√£o sobre a Igreja no mundo moderno, havia desmascarado claramente essa abordagem: “A profunda e r√°pida transforma√ß√£o da vida exige com suma urg√™ncia que n√£o haja ningu√©m que, por despreocupa√ß√£o frente √† realidade ou por pura in√©rcia, conforme-se com uma √©tica meramente individualista” (n1 30). O pecado coletivo √© uma realidade evidente, como apontaram os ¬†bispos latino-americanos, nas assembleias de Medell√≠n e Puebla.

A reflexão fundamental poder-se-ia concentrar em torno dessa questão básica: qual deve ser a atitude ética e cristã da pessoa consciente de seu compromisso, frente às injustiças e pecados sociais que não dependem dela nem que ela poderá eliminar?

Eduardo Lopez Azpitarte, SJ – Facultad Teologica de Granada, Espa√Īa. Texto original en espanhol. Tradu√ß√£o: Jos√© Sebasti√£o Gon√ßalves

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[1] Elucidação do tradutor.