Pastoral/Pastoreio

Sumário                                                            

1 Perspectiva bíblica

1.1 Antigo Testamento

1.2 Novo Testamento

2 Perspectiva patrística

3 Da cura de almas ao cuidado pastoral

4 Perspectiva teológica

5 Pastoral no Concílio Vaticano II

6 A convers√£o pastoral

7 Referências bibliográficas

Por ação pastoral entende-se a totalidade da ação da Igreja e dos cristãos, a partir da prática de Jesus, para instaurar o Reino de Deus. A pastoral, portanto, é o serviço salvífico da Igreja, cujo fundamento encontra-se no desígnio universal de salvação de Deus. Em Jesus Cristo, Deus confiou à Igreja a realização desse serviço como continuidade da obra pascal e escatológica de Cristo, por meio do Espírito em Pentecostes, na esperança da realização plena do Reino de Deus na parusia.

Essa atuação implica uma interpretação do mundo e da história e, igualmente, uma concepção sobre a adequada ação pastoral diante da realidade. Duas hermenêuticas, portanto, se entrecruzam na pastoral: a eclesial e a social.  O pastoreio, desse modo, relaciona-se sempre com as duas partes envolvidas na história da Salvação: Deus e o ser humano. Por ser responsável diante de Deus e da sua revelação, a pastoral deve ser também um serviço ao ser humano.

1 Perspectiva bíblica

A palavra pastoral ou pastoreio, originalmente, conota a tarefa do pastor na cultura de Israel. A Bíblia é marcada pela imagem da caminhada do Povo de Deus sob a guia do Pastor divino. Ele conduz e reconduz Israel nas vicissitudes de sua história (cf. VON RAD, 1973).

1.1 Antigo Testamento

No Antigo Testamento, aparecem três características fundamentais relacionadas ao termo pastor:

a) expressa o amor de Deus revelado na história de Israel. Os cuidados divinos traduzem-se na retirada do povo da escravidão, para conduzi-lo pelo deserto. Essa ação é comparada à imagem do pastor que conduz o rebanho e suas ovelhas (cf. Sl 78,52);

b) designa os servidores de Deus que dirigem o povo. Deus mesmo pastoreia o rebanho por meio de pastores que elege. Os servidores tinham Moisés como protótipo (cf. Sl 77,21). Josué sucede a Moisés para garantir que a comunidade não seja como um rebanho sem pastor (cf. Nm 27,17). Davi é eleito para apascentar o povo de Deus (cf. 2 Sm 5,2) e torna-se um pastor poeta e forte. A pastoral desses homens é avaliada de acordo com o cuidado pastoral de Deus. Há bons e maus pastores de acordo com a fidelidade ou infidelidade à Aliança estabelecida com o Senhor; e

c) indica os tempos messi√Ęnicos anunciados pelos profetas como a salva√ß√£o futura. Eles convidam o povo para ser fiel √† Alian√ßa e denunciam os maus pastores de Israel que conduzem o rebanho √† ru√≠na. Isa√≠as descreve o Senhor como o pastor que cuida do rebanho (cf. Is 31,4). Jeremias alerta que Deus mesmo providenciar√° pastores segundo o seu cora√ß√£o (cf. Jr 3,15). Ezequiel afirma que o rebanho conhecer√° o √ļnico e verdadeiro pastor (cf. Ez 37,24).

A figura do pastor, portanto, passa a descrever o comportamento de Deus relativo aos cuidados que Ele dispensa aos seres humanos. Deus ama seu povo, por isso conduz, alimenta, defende e acompanha no caminho (BOSETTI, 1992, p.9).

1.2 Novo Testamento

Jesus de Nazar√© √© a encarna√ß√£o do amor pastoral de Deus que confirma o seu povo como a comunidade da Nova Alian√ßa, da qual participar√£o os exclu√≠dos e os perdidos.¬† A miss√£o de Jesus revela-se como o pastor anunciado e esperado no Antigo Testamento. Sua fidelidade ao Pai se expressa na media√ß√£o que realiza entre Deus e a humanidade. ¬†No Novo Testamento, encontram-se tr√™s situa√ß√Ķes fundamentais para a utiliza√ß√£o do voc√°bulo pastor:

a) o povo vive numa situação comparada a de um rebanho sem pastor (cf. Mt 9,36; Mc 6,34): o que provoca a compaixão de Jesus que age para tirar o povo do abandono;

b) Jesus mesmo se apresenta como o Bom Pastor anunciado nos tempos messi√Ęnicos. No Evangelho de Jo√£o, encontram-se diversas imagens que expressam esse pastoreio: a porta do redil; aquele que caminha √† frente do rebanho; aquele que d√° a vida pelo rebanho (cf. Jo 10,1-18);

c) a eleição dos discípulos pode ser entendida como o chamado de pastores para cuidar do novo Povo de Deus. A terminologia pastoral não é abundante ao caracterizar a ação dos discípulos, mas sua escolha e seu envio remetem à continuidade da missão de Cristo. Justifica-se essa relação no diálogo do Ressuscitado com Pedro e na recomendação para que o apóstolo apascente os cordeiros de Cristo (cf. Jo 21,15-17). O pastoreio de Jesus continua na pastoral daqueles que ele envia e, por isso, eles o denominarão Príncipe dos Pastores que entregará a coroa aos pastores fiéis (cf. 1Pd 5,4).

Os ap√≥stolos proclamam o Evangelho como cuidadores do rebanho de Cristo. Eles devem seguir o exemplo do Bom Pastor e considerarem-se servidores das ovelhas (FLORIST√ĀN, 1968, p.22).¬† Na comunidade primitiva, com os ap√≥stolos e profetas, est√£o tamb√©m os pastores com uma fun√ß√£o carism√°tica. A eles s√£o dadas recomenda√ß√Ķes precisas: ‚ÄúApascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, n√£o com for√ßa, mas com mansid√£o segundo Deus; n√£o por lucro, mas com prontid√£o de √Ęnimo; n√£o como dominadores sobre a heran√ßa, mas servindo de exemplo para o rebanho‚ÄĚ (cf. 1Pd 5,2-3).

Enfim, a ação de Jesus Cristo pode ser chamada de ação pastoral entendida como o cuidado que Ele dispensa ao rebanho. Igualmente a ação da Igreja recebe a mesma denominação para identificar a continuidade da missão que ela realiza em nome de Cristo.

2 Perspectiva patrística

Na Patr√≠stica, especialmente nos s√©culos IV e V, desenvolveu-se um perfil pastoral vigoroso nas comunidades crist√£s. Apesar das crises e dos debates sobre as grandes quest√Ķes dogm√°ticas e eclesiol√≥gicas, estabeleceu-se uma rela√ß√£o estreita entre o bispo e sua comunidade. A pastoral cuidava da unidade eclesial, que se manifestava pelos v√≠nculos de comunh√£o entre as Igrejas. As comunidades dedicavam-se √† solidariedade, na m√ļtua ajuda e no apoio aos mais pobres. √Č conhecido o exemplo de S√£o Louren√ßo e seu servi√ßo diaconal em favor dos pobres de Roma. A vida lit√ļrgica era igualmente importante, pois, pela dimens√£o cultual, a comunidade identificava-se a si mesma como societas sancta (BOURGEOIS, 2000, p.81).

A Igreja autocompreende-se como cuidadora da f√© revelada em Jesus Cristo e como pastora pela a√ß√£o sacramental e pelo servi√ßo √† vida dos fi√©is. Os Santos Padres s√£o, ao mesmo tempo, pastores de comunidades e comentadores da Sagrada Escritura. Nesse per√≠odo, a Igreja mant√©m um admir√°vel equil√≠brio entre a Teologia e a Pastoral. Busca harmonizar as responsabilidades do minist√©rio hier√°rquico e a miss√£o dos fi√©is batizados, entre a catolicidade universal e a assembleia local, entre o valor do sacramento e a import√Ęncia da f√© e da convers√£o de vida.

S√£o muitos os escritos dos Santos Padres que expressam a preocupa√ß√£o em integrar catequese, liturgia e vida crist√£. In√°cio de Antioquia descreve uma espiritualidade que abra√ßa tanto a dimens√£o individual da f√© crist√£ quanto as dimens√Ķes comunit√°ria e eclesial. Para ele, o bispo √©, antes de tudo, um homem da Igreja. Esse √© o lugar privilegiado da ora√ß√£o e do encontro com Cristo e os irm√£os. Irineu de Lion insiste na afirma√ß√£o da dignidade da vida humana que consiste na vis√£o de Deus; alinhando a f√© ao cuidado integral das pessoas. Agostinho de Hipona afirma que a caridade √© a alma, o centro e a medida da perfei√ß√£o crist√£. Para ele, existe uma estreita rela√ß√£o entre a contempla√ß√£o e a vida pastoral, pois os pastores dever√£o prestar contas a Deus do exerc√≠cio do seu minist√©rio, afinal, eles t√™m responsabilidade sobre o rebanho.

Um importante escrito é a Regra pastoral, de Gregório Magno, papa de 590 a 604. Trata-se da carta magna para formação dos pastores. Na segunda parte da Regra pastoral, onde se ressaltam as virtudes do pastor, São Gregório reforça:

O pastor tem uma aten√ß√£o plena de compaix√£o para cada pessoa, uma contempla√ß√£o que o desapegue da terra mais que todos os outros: pelas entranhas de sua bondade paternal, ele carregar√° sobre si as enfermidades dos outros, pela sua altura de sua contempla√ß√£o ele se elevar√° acima de si mesmo aspirando aos bens invis√≠veis‚ÄĚ (GREG√ďRIO MAGNO, 2010, p.71).

Ensina tamb√©m: ‚Äúque os pastores se apresentem diante dos fi√©is de tal forma que estes n√£o se envergonhem de confiar os pr√≥prios segredos. Assim, quando s√£o atacados pelas ondas da tenta√ß√£o, como crian√ßas poder√£o se refugiar no cora√ß√£o do seu pastor como no colo de uma m√£e‚ÄĚ (GREG√ďRIO MAGNO, 2010, p.74).¬† Enfim, sugere que o pastor n√£o deixe, pelas ocupa√ß√Ķes exteriores, enfraquecer seu cuidado com a vida interior. Dessa forma, ele critica aqueles que se dedicam demais aos afazeres do mundo com interesses que podem prejudicar o zelo pastoral.

3 Da cura de almas ao cuidado pastoral

Diferentemente do tempo da Patr√≠stica, o per√≠odo medieval se revela limitado na estrutura√ß√£o de uma pastoral org√Ęnica e unit√°ria. A evangeliza√ß√£o expandiu-se para as popula√ß√Ķes rurais, e ocorreu a fragmenta√ß√£o da realidade social da Igreja. Reestruturou-se a rela√ß√£o entre o bispo e seu presbit√©rio. Emergiu uma problem√°tica pastoral porque se considerou a Igreja uma societas perfecta. Implantou-se o Direito Eclesi√°stico, que se converteu num meio de resolver os problemas pastorais. Insistiu-se em garantir a autonomia da Igreja diante do poder secular. A pastoral sacramental adquiriu uma import√Ęncia crescente. O problema da Idade M√©dia foi a determina√ß√£o da vida crist√£ pelo acento na dimens√£o jur√≠dica e disciplinar da f√© (BOURGEOIS, 2000, p.90).

Após o impacto da Reforma Protestante, o Concílio de Trento representou uma recuperação tanto dogmática quanto pastoral da Igreja. A vertente pastoral de Trento procurou definir o lugar e o significado da Igreja como dispensadora do dom da salvação para a humanidade. O Concílio decretou ser errado acreditar que a economia da graça teria como base a destruição da natureza como resultado do pecado original. De maneira diferente dos reformadores, o Concílio afirmou o poder da graça que salva a natureza ferida pelo pecado, mas que conserva a grandeza e a dignidade conferidas pelo Criador. Unificou, assim, a sacramentalidade da Igreja com a sacramentalidade da criação (BOURGEOIS, 2000, p.92).  Por isso, a pastoral será tida como cuidado das almas para a salvação.

O termo mais utilizado para a ação da Igreja era cura animarum, indicando o cuidado das almas dos fiéis por parte dos pastores da Igreja. A palavra pastoral, entendida como cura de almas, foi criada especialmente no final do século XVIII e passou por uma evolução, recebendo muitos significados, alguns com certos reducionismos e ambiguidades. Alguns entenderam que pastoral seria um conjunto de atividades sob a responsabilidade exclusiva dos clérigos, orientada para atender apenas às necessidades religiosas e culturais dos cristãos. O sentido espiritualista reduziu a pastoral à dimensão religiosa e especificamente sacramental da fé cristã.

A Sagrada Escritura, por√©m, descreve o cuidado pastoral na integralidade do ser humano, na intera√ß√£o com toda a comunidade crist√£, estendendo seu olhar sobre toda a ¬†humanidade. Partindo desse sentido original, √© poss√≠vel aprofundar o significado da express√£o cura de almas, libertando-a das falsas compreens√Ķes que ela recebeu ao longo da hist√≥ria. Originalmente, o termo cura, em latim quaera, era empregado num contexto de rela√ß√Ķes de amizade e amor, indicando atitudes de preocupa√ß√£o e cuidado para com algu√©m muito estimado. O cuidado pastoral deveria ser compreendido como interesse, aten√ß√£o e preocupa√ß√£o. Essa solicitude, esse zelo e essa aten√ß√£o traduzem-se na a√ß√£o do pastor ou sacerdote que tem a miss√£o de cuidar e acompanhar as pessoas em seu caminho espiritual. O agir pastoral, portanto, implica tanto a aten√ß√£o para com as pessoas quanto a inquieta√ß√£o e ocupa√ß√£o do pastor para que todos se sintam afetivamente cuidados. Seu olhar n√£o exclui a sociedade nem as diversas inst√Ęncias com as quais a vida humana est√° envolvida.

4 Perspectiva teológica

A fonte de toda a pastoral √© a Sant√≠ssima Trindade: do Pai procede o des√≠gnio da salva√ß√£o; o Filho √© enviado para revelar esse projeto de amor, sendo o sacerdote, pastor eterno e mensageiro do Reino; e o Esp√≠rito Santo √© quem atualiza a a√ß√£o salv√≠fica do Pai e do Filho, para que todos tenham vida em abund√Ęncia (cf. Jo 10,10). A a√ß√£o pastoral de Cristo pretende ‚Äúreunir em um s√≥ povo todos os filhos de Deus que est√£o dispersos‚ÄĚ (cf. Jo 11,52), para que haja ‚Äúum s√≥ rebanho e um s√≥ pastor‚ÄĚ (cf. Jo 10,18).

A Igreja √© sacramento de salva√ß√£o, e todas suas a√ß√Ķes est√£o marcadas pelo amor cuidador e salv√≠fico da Trindade. O resultado da a√ß√£o pastoral traduz-se na convers√£o das pessoas, na edifica√ß√£o da comunidade e na transforma√ß√£o da sociedade como sinal antecipado do Reino que Cristo inaugurou. O pastoreio da Igreja, desse modo, continua a a√ß√£o de Jesus, o Bom Pastor, que doa sua vida pelas ovelhas. Trata-se da a√ß√£o real, sacerdotal e prof√©tica da comunidade crist√£ que testemunha, anuncia e serve ao Reino de Deus acolhendo todas as pessoas e as amando como Jesus ensinou. Exerce-se, dessa maneira, o tr√≠plice m√ļnus que os ap√≥stolos receberam de Cristo (cf. Mt 28,8-20). Trata-se da miss√£o prof√©tica de proclamar a Palavra de Deus em todas as inst√Ęncias (evangeliza√ß√£o, catequese, prega√ß√£o); da miss√£o sacerdotal, exercida no minist√©rio lit√ļrgico de celebrar os mist√©rios do culto crist√£o; e da miss√£o real, com as tarefas de governo, disciplina, caridade e promo√ß√£o integral da vida humana.

A pastoral estrutura-se, fundamentalmente, nas dimens√Ķes: eclesial, pessoal, social, c√≥smica e escatol√≥gica. Na dimens√£o eclesial, est√° o princ√≠pio formal de toda pastoral, pois Deus √© a causa principal da salva√ß√£o da qual Cristo √© o √ļnico mediador. Na dimens√£o pessoal, faz-se a defesa da vida, especialmente dos pobres e exclu√≠dos, √© a a√ß√£o que liberta de todo pecado e escravid√£o. A dimens√£o social impele a cuidar das pessoas para que na sociedade se estabele√ßam rela√ß√Ķes de liberdade, justi√ßa e paz. A dimens√£o c√≥smica interessa-se pela cria√ß√£o, pelas quest√Ķes ecol√≥gicas e pelo destino de todo o universo criado. E a perspectiva escatol√≥gica faz a Igreja voltar-se para o futuro da hist√≥ria e do mundo; quando o pastoreio pretende colaborar para que Cristo seja tudo em todos.

5 Pastoral no Concílio Vaticano II

O Concílio Vaticano II destacou a pastoral e a ação evangelizadora da Igreja para que ela seja sinal de Cristo no mundo. Para isso, é preciso considerar que as mudanças na Igreja, especialmente na sua forma de evangelizar, constituem a sua identidade de acolher o que o Espírito Santo revela em diferentes momentos históricos. A eclesiologia do Concílio Vaticano II (cf. Lumen Gentium) entende que a pastoral é o ministério da Igreja, Povo de Deus, guiado pelo Espírito Santo que atualiza a ação evangelizadora de Cristo, com o objetivo de expandir o Reino de Deus no mundo.

A Constitui√ß√£o Pastoral Gaudium et Spes responde ao amadurecimento da consci√™ncia de que a Igreja existe na hist√≥ria e nela aprofunda sua miss√£o e sua natureza.¬† A Igreja √© Povo de Deus em comunh√£o, o qual possui a caracter√≠stica de ser sujeito hist√≥rico, que vive no tempo, que cumpre sua miss√£o aproximando-se dos problemas culturais e sociais de cada √©poca. A Igreja empenha-se em apresentar ao mundo o Evangelho da salva√ß√£o e colabora com a humanidade na busca da verdade, da justi√ßa e da paz. Desse modo, a pastoral supera a excessiva aten√ß√£o que √© dada aos assuntos internos da Igreja e abre-se √† intera√ß√£o com o ser humano, com suas alegrias e tristezas, ang√ļstias e esperan√ßas. A partir da Gaudium et Spes, a pastoral n√£o pode ser compreendida apenas com a dimens√£o pr√°tica da doutrina eclesial, pois integra e reconcilia os planos te√≥rico e pr√°tico do Cristianismo.

Outra importante insist√™ncia do Conc√≠lio Vaticano II est√° na dignidade de todo batizado. Todo crist√£o √© sujeito da a√ß√£o pastoral da Igreja (RAMOS, 2006, p.78). Pelo batismo, o crist√£o pertence ao Povo de Deus, e essa incorpora√ß√£o √© anterior a toda divis√£o de carismas e minist√©rios. O batismo faz com que todo crist√£o participe do sacerd√≥cio comum, recebendo a tarefa de transformar a realidade a partir do Reino de Deus. A dignidade batismal insiste na especial voca√ß√£o do apostolado dos leigos. Isso implica superar uma vis√£o de pastoral como atividade preferencial de cl√©rigos. A pastoral √© a a√ß√£o de todo o Povo de Deus, n√£o √© um minist√©rio exclusivo da hierarquia eclesi√°stica, pois todos os fi√©is participam da a√ß√£o pastoral com seus m√ļltiplos carismas e minist√©rios, de acordo com sua voca√ß√£o espec√≠fica.

6 A convers√£o pastoral

A express√£o convers√£o pastoral foi formulada pela Confer√™ncia do Episcopado Latino-Americano em Santo Domingo (1992) e retomada na Confer√™ncia do Episcopado Latino-Americano em Aparecida (2007). Ela remete √† supera√ß√£o de uma pastoral de conserva√ß√£o pela renova√ß√£o do Conc√≠lio Vaticano II e √† tradi√ß√£o latino-americana e pretende uma nova evangeliza√ß√£o. Trata-se de uma convers√£o pessoal e comunit√°ria. √Č preciso renovar, em cada batizado, o ardor de ser disc√≠pulo de Jesus Cristo e mission√°rio da Boa Nova do Reino de Deus. Emprega-se o termo convers√£o para indicar a mudan√ßa que se faz necess√°ria. √Č preciso arrepender-se de um estilo de pastoral de manuten√ß√£o para assumir uma nova postura mission√°ria. H√° muitos batizados e at√© agentes de pastoral que n√£o fizeram o encontro pessoal com Jesus Cristo, que muda a vida e converte a pessoa. Alguns vivem o Cristianismo de forma sacramentalista, sem deixar que o Evangelho renove sua vida. Outros perderam o sentido do discipulado e esqueceram a dimens√£o mission√°ria da f√© crist√£.

A falta de consci√™ncia comunit√°ria, que o individualismo moderno instalou at√© mesmo entre os l√≠deres da pastoral, e a cultura do ego√≠smo e do isolamento suscitam mudan√ßas na a√ß√£o pastoral. H√° muitas pessoas que buscam a experi√™ncia com o sagrado sem compromisso com a fraternidade e a solidariedade. Vivem a f√© crist√£ buscando atender apenas √†s demandas pessoais. Fazer uma a√ß√£o eclesial sem converter essas buscas √© sustentar uma religiosidade que n√£o √© evang√©lica, portanto, carece do cuidado pastoral que Jesus prop√Ķe.

Somente com uma profunda conversão de pessoas e estruturas será possível superar uma pastoral de mera conservação ou manutenção, para assumir uma pastoral decididamente missionária (CELAM, 2007, n.370).  A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium explicitou as consequências dessa conversão:

A reforma das estruturas, que a convers√£o pastoral exige, s√≥ se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais mission√°rias, que a pastoral ordin√°ria em todas as suas inst√Ęncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‚Äúsa√≠da‚ÄĚ e, assim, favore√ßa a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade (FRANCISCO, 2013b, p.27).

Enfim, a pastoral √© a a√ß√£o de Deus por meio do seu Esp√≠rito. O ator principal da pastoral √© o Esp√≠rito Santo, que atualiza a pr√°tica de Jesus; esta √© a norma de todo o minist√©rio pastoral da Igreja. Somente o que possibilita atualizar a presen√ßa de Jesus na Igreja e no mundo pode receber o t√≠tulo de pastoral. Por isso √© importante tamb√©m a evangeliza√ß√£o, o an√ļncio da Boa Nova, a prega√ß√£o do Reino de Deus. Pastoral e evangeliza√ß√£o n√£o se separam. N√£o pode haver pastoral sem a prioridade da evangeliza√ß√£o integral e mission√°ria. N√£o basta cuidar de manter o culto, a catequese e a caridade. √Č preciso ser mission√°rio, capaz de atrair muitos outros que acolham o des√≠gnio universal de salva√ß√£o.¬† A pastoral da Igreja jamais pode ser fechada √†s diversas realidades que afetam o seu contexto. N√£o se trata de um grupo que satisfaz apenas sua dimens√£o religiosa, mas que integra toda experi√™ncia pessoal, comunit√°ria e social a partir da f√© em Jesus Cristo. Para o Papa Francisco, a ‚Äúpastoral nada mais √© que o exerc√≠cio da maternidade da Igreja. Ela gera, amamenta, faz crescer, corrige, alimenta, conduz pela m√£o… por isso, faz falta uma Igreja capaz de redescobrir as entranhas da miseric√≥rdia‚ÄĚ (FRANCISCO, 2013a, p.54).

Leomar Ant√īnio Brustolin ‚Äď PUC RS, Brasil. Texto original portugu√™s.

7 Referências bibliográficas

BOSETTI, Elena.  La tenda e il bastone: figure e simboli della pastorale biblica. Cinisello Balsamo: Paoline, 1992.

CELAM. V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Documento de Aparecida. São Paulo: Paulus; Paulinas, 2007.

FLORISTAN, S. C.; USEROS, C. M. Teologia de la acción pastoral. Madrid: BAC, 1968.

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FRACISCO. Pronunciamentos do Papa Francisco no Brasil. S√£o Paulo: Paulus, 2013a.

FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulinas, 2013b.

RAMOS, J. A. Teología pastoral. Madrid: BAC, 2006.

SZENTM√ĀRTONI, Mihaly.¬† Introdu√ß√£o √† Teologia Pastoral. ¬†S√£o Paulo: Loyola, 1999.

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Para saber mais

ARNOLD, F. X. Teología e historia de l’acción pastoral. Barcelona: Herder, 1969.

BOURGEOIS, Daniel. La pastorale de l‚Äô√Čglise. Paris: Cerf, 1993.

BRIGHENTI, Agenor.  A pastoral dá o que pensar: a inteligência da prática transformadora da fé. São Paulo: Paulinas; Valência: Siquém, 2006.

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FLORIST√ĀN, S. Casiano. ¬†Teologia pr√°ctica: teoria y pr√°xis de la acci√≥n pastoral. Salamanca: S√≠gueme, 1991.

ZULEHNER, Paul M. Teologia pastorale. Brescia: Queriniana, 1992.