Pastoral dos LGBT

Sum√°rio

1 Um novo contexto na sociedade e na Igreja

2 A Bíblia e a história

3 O ensinamento moral da Igreja em perspectiva inclusiva

4 Palavras e gestos proféticos

5 Caminhos a percorrer

6 Referências bibliográficas

1 Um novo contexto na sociedade e na Igreja

¬†Quando o papa Francisco retornou do Brasil a Roma, em 2013, disse algo que teve muita repercuss√£o: ‚ÄúSe uma pessoa √© gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para a julgar? [‚Ķ] N√£o se deve marginalizar estas pessoas por isso‚ÄĚ (FRANCISCO, 2003b). Nesse mesmo ano, ele convocou o S√≠nodo dos Bispos para tratar da fam√≠lia e de seus desafios atuais. No question√°rio preparat√≥rio, enviado a todas as dioceses do mundo, perguntou-se que aten√ß√£o pastoral se pode dar √†s pessoas que escolheram viver em uni√Ķes do mesmo sexo e, caso adotem crian√ßas, o que fazer para lhes transmitir a f√© (S√ćNODO, 2013).

A Igreja Cat√≥lica vive um tempo de renova√ß√£o pastoral impulsionada pelo papa. Ele a convoca a ir √†s ‚Äúperiferias existenciais‚ÄĚ, ao encontro dos pobres e dos que sofrem com as diversas formas de injusti√ßas, conflitos e car√™ncias. √Č preciso abrir-se √† novidade que Deus traz √† nossa vida, que nos realiza e nos d√° a verdadeira alegria e serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas nosso bem. Francisco critica uma Igreja ensimesmada, entrincheirada em estruturas caducas incapazes de acolhimento e fechada aos novos caminhos que Deus lhe apresenta.¬†A a√ß√£o do Esp√≠rito Santo ergue o olhar dos fi√©is para o horizonte, impelindo-os a essas periferias (FRANCISCO, 2013a).

Um dos sinais mais notáveis do mundo atual é a ampla visibilidade da população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Convém esclarecer os termos. Travestis são pessoas que vivenciam papéis femininos, mas não se reconhecem como homens ou como mulheres. Transexuais são pessoas que não se identificam com o sexo que lhes é atribuído ao nascerem, e sim com o outro sexo. Pode haver homem transexual, que reivindica o reconhecimento social e legal como homem, e mulher transexual, que reivindica o reconhecimento social e legal como mulher. Tanto travestis como transexuais são transgênero, isto é, pessoas que não se identificam com o sexo que lhes é atribuído ao nascerem. O contrário são cisgênero, pessoas identificadas com o sexo atribuído ao nascerem (JESUS, 2012).

No passado, muitos deles viviam à margem da sociedade ou mesmo no anonimato. Vários gays e lésbicas se escondiam no casamento tradicional, constituído pela união heterossexual. Alguns formavam guetos em espaços de convivência bastante reservados, como forma de se protegerem. Mas hoje, os LGBT fazem grandes paradas, estão presentes em filmes e telenovelas, buscam reconhecimento, exigem ser respeitados e reivindicam os mesmos direitos e deveres dos demais cidadãos. Esta população está em toda parte. Quem não faz parte dela tem parentes próximos ou distantes que fazem, velada ou manifestamente, bem como vizinhos ou colegas de trabalho.

A ampla visibilidade tamb√©m manifesta os problemas que afligem essa popula√ß√£o. H√° uma forte avers√£o a homossexuais: a homofobia; e a travestis e transexuais: a transfobia. Essa avers√£o produz diversas formas de viol√™ncia f√≠sica, verbal e simb√≥lica contra estas pessoas. H√° pais de fam√≠lia que j√° disseram: ‚Äúprefiro um filho morto a um filho gay‚ÄĚ. Entre os palavr√Ķes mais ofensivos que existem, constam a refer√™ncia √† condi√ß√£o homossexual e ao sexo anal, comum no homoerotismo masculino. Ou seja, √© xingamento. Muitas vezes, quando se diz que algu√©m √© ‚Äúhomem‚ÄĚ ou ‚Äúmulher‚ÄĚ, entende-se que √© heterossexual, excluindo da masculinidade ou da feminilidade a pessoa homossexual. No Brasil e em muitos pa√≠ses, s√£o frequentes os homic√≠dios, sobretudo de travestis. H√° tamb√©m suic√≠dio de muitos adolescentes que se descobrem gays ou l√©sbicas, e mesmo de adultos. Eles chegam a esta atitude extrema por pressentirem a rejei√ß√£o hostil da pr√≥pria fam√≠lia e da sociedade. Tal hostilidade gera in√ļmeras formas de discrimina√ß√£o e, mesmo que n√£o leve √† morte, traz frequentemente tristeza profunda ou depress√£o.

O padre J√ļlio Lancellotti trabalha na cidade de S√£o Paulo com a popula√ß√£o de rua. Ele relata a situa√ß√£o dram√°tica que encontra:

 Na missão pastoral tenho conversado com vários LGBT que estão pelas ruas da cidade, alguns doentes, feridos, abandonados. Muitos relatam histórias de violência, abuso, assédio, torturas e crueldades. Alguns contam como foram expulsos das igrejas e comunidades cristãs, rejeitados pelas famílias em nome da moral. Testemunhei lágrimas, feridas, sangue e fome. Impossível não reconhecer neles a presença do Senhor Crucificado! (LANCELLOTTI, 2015).

¬†H√° tamb√©m muitos LGBT na Igreja Cat√≥lica. S√£o pessoas que nasceram e foram criados neste ambiente, t√™m f√© e em certo momento descobriram esta condi√ß√£o. V√°rios deles participam ativamente de suas comunidades, mas n√£o poucos se afastaram, e se afastam, por se depararem com incompreens√£o e hostilidade. √Č preciso que eles encontrem fi√©is e ministros religiosos sens√≠veis √†s suas feridas e dificuldades, e tamb√©m aos seus talentos e potencialidades. N√£o h√° d√ļvida que os LGBT se situam nas periferias existenciais apontadas pelo papa. A solicitude pastoral da Igreja tamb√©m deve contempl√°-los. Com a devida compreens√£o da sua realidade, eles podem ser ajudados na busca de Deus e de sentido para a vida, no cultivo da vida espiritual e da autoestima, na cura de feridas exteriores e interiores, no fomento do apoio m√ļtuo, da vida eclesial, do apostolado e da a√ß√£o no mundo. Para melhor ajud√°-los neste caminho, conv√©m refletir sobre sua realidade com alguns subs√≠dios teol√≥gico-pastorais.

 2 A Bíblia e a história

¬†A Igreja ensina que a lei de toda a evangeliza√ß√£o √© pregar a Palavra de Deus de maneira adaptada √† realidade dos povos, como diz o Conc√≠lio Vaticano II (1962-1965). Deve haver um interc√Ęmbio permanente entre a Igreja e as diversas culturas. Para isto, ela necessita da ajuda dos que conhecem bem as v√°rias institui√ß√Ķes e disciplinas, sejam eles crentes ou n√£o. Os fi√©is precisam saber ouvir e interpretar as v√°rias linguagens ou sinais do nosso tempo para avali√°-los adequadamente √† luz da Palavra de Deus, de modo que a verdade revelada seja melhor percebida, compreendida e apresentada de um modo conveniente (GS 44). A correta evangeliza√ß√£o, portanto, √© uma estrada de duas m√£os, de interc√Ęmbio entre a Igreja e as culturas contempor√Ęneas. A f√© crist√£ necessita dialogar com os saberes leg√≠timos. S√≥ se pode saber o que a Palavra de Deus significa hoje, e que implica√ß√Ķes ela tem, com um suficiente conhecimento da realidade atual, que inclui a visibilidade da popula√ß√£o LGBT, o reconhecimento de seus direitos humanos e de sua cidadania.

N√£o se pode negligenciar o que o livro sagrado dos crist√£os diz sobre a atra√ß√£o entre pessoas do mesmo sexo, nem os desdobramentos hist√≥ricos que da√≠ se seguiram. Mas √© preciso se tratar deste assunto com a devida profundidade, indo al√©m da leitura ao p√© da letra. A Revela√ß√£o divina testemunhada na B√≠blia √© expressa de diversos modos. Segundo o Conc√≠lio, o leitor deve buscar o sentido que os autores sagrados, em determinadas circunst√Ęncias, segundo as condi√ß√Ķes do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir servindo-se dos g√™neros liter√°rios ent√£o usados. Devem-se levar em conta as maneiras pr√≥prias de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como tamb√©m os modos que se empregavam frequentemente nas rela√ß√Ķes entre os homens daquela √©poca (DV 12).

No juda√≠smo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. Sup√Ķe-se uma heterossexualidade universal, expressa no imperativo ‚Äúcrescei e multiplicai-vos‚ÄĚ (Gn 1,28). Isto foi escrito no tempo do ex√≠lio judaico na Babil√īnia. Para o povo expulso de sua terra e submetido a uma pot√™ncia estrangeira, crescer era fundamental para a sobreviv√™ncia da na√ß√£o e da religi√£o. N√£o se nega o des√≠gnio divino que a humanidade se espalhe pela terra, mas a necessidade de sobreviv√™ncia do povo judeu naquele tempo era urgente.

O s√™men do homem supostamente continha o ser humano inteiro, e devia ser colocado no ventre da mulher assim como a semente √© depositada na terra. N√£o se conhecia o √≥vulo. O pr√≥prio nome s√™men est√° ligado a semente. Ele jamais deveria ser desperdi√ßado, como mostra a hist√≥ria de On√£. Ele se casou com Tamar, vi√ļva de seu irm√£o Her, que morreu sem ter descendente. Conforme a lei (Dt 25,5-10), On√£ deveria suscitar uma posteridade a seu irm√£o, e o primeiro filho homem deveria ter o nome deste irm√£o falecido, Her. Mas On√£ praticou coito interrompido, ejaculando fora da vagina de sua esposa e impedindo-a de conceber. On√£ foi fulminado por Deus, como puni√ß√£o por esta transgress√£o (Gn 38,1-10).

√Č neste contexto que a rela√ß√£o sexual entre dois homens era inadmiss√≠vel. Israel devia se distinguir das outras na√ß√Ķes de v√°rias maneiras, com o seu culto, sua lei e seus costumes, segundo o c√≥digo de santidade do livro do Lev√≠tico. A√≠ se inclui a proibi√ß√£o do homoerotismo, considerado abomina√ß√£o (Lv 18,22). Pro√≠be-se tamb√©m, e com rigor: trabalhar no s√°bado, comer carne de porco ou frutos do mar, aparar o cabelo e a barba, tocar em mulher menstruada durante sete dias, usar roupa tecida com duas esp√©cies de fio, plantar esp√©cies diferentes de semente em um mesmo campo e acasalar animais de esp√©cies distintas. Quando o cristianismo, nascido em Israel, expandiu-se entre os povos n√£o judeus, a santidade do Lev√≠tico n√£o se tornou norma para estes povos, mas a proibi√ß√£o do homoerotismo sim, conforme se ver√° adiante.

A esta proibi√ß√£o somou-se a hist√≥ria de Sodoma e Gomorra, cujo pecado clamou aos c√©us e resultou no castigo divino destruidor (Gn 19). O pecado foi recusar a hospitalidade aos que visitavam o patriarca L√≥, a ponto de tentarem violentar sexualmente estes visitantes. Com frequ√™ncia, a viol√™ncia sexual era uma forma de humilha√ß√£o imposta por ex√©rcitos vencedores aos vencidos. Inicialmente, o delito de Sodoma era visto como ‚Äúorgulho, alimenta√ß√£o excessiva, tranquilidade ociosa e desamparo do pobre e do indigente‚ÄĚ (Ez 16,49). Atrav√©s do profeta, o Senhor diz: ‚ÄúTornaram-se arrogantes e cometeram abomina√ß√Ķes em minha presen√ßa‚ÄĚ (Ez 16,50). V√°rios s√©culos depois, tal pecado foi identificado com o homoerotismo, mas na origem ele nada tem a ver com o amor entre pessoas do mesmo sexo, ou mesmo com rela√ß√Ķes sexuais livremente consentidas entre pessoas adultas do mesmo sexo.

No Novo Testamento, a Carta aos Romanos afirma que quem ama o pr√≥ximo cumpriu a lei, pois os mandamentos se resumem em amar ao pr√≥ximo como a si mesmo (Rm 13,8-10). Este √© o esp√≠rito dos mandamentos e o crit√©rio de sua interpreta√ß√£o. Mas ao refutar o polite√≠smo, o ap√≥stolo Paulo o associa ao homoerotismo (Rm 1,18-32). Os pag√£os s√£o acusados de n√£o adorar o Deus √ļnico, mas as criaturas, e de permitir essa pr√°tica sexual vista como abomina√ß√£o pelos judeus. Tal comportamento √© considerado castigo divino por causa de uma pr√°tica religiosa errada: ‚ÄúPor tudo isso, Deus os entregou a paix√Ķes vergonhosas‚ÄĚ. Outros escritos paulinos t√™m a mesma posi√ß√£o, em que prov√°veis refer√™ncias ao homoerotismo est√£o ligadas √† idolatria e √† irreligi√£o (1Cor 6,9-11; 1Tm 1,8-11). No contexto judaico-crist√£o da Antiguidade, este argumento era compreens√≠vel. N√£o havia o conceito de ‚Äúorienta√ß√£o sexual‚ÄĚ, estrutura profundamente enraizada na pessoa, com relativa estabilidade, levando-a √† atra√ß√£o pelo sexo oposto ou pelo mesmo sexo. A ‚Äúorienta√ß√£o sexual‚ÄĚ nada tem a ver com a cren√ßa em um ou em v√°rios deuses, ou com qualquer pr√°tica religiosa. Mas, no contexto da Antiguidade, a Igreja herdou a vis√£o antropol√≥gica judaica da heterossexualidade universal com suas interdi√ß√Ķes. Hoje, tudo isto deve ser levado em conta.

A religi√£o crist√£ se expandiu e se tornou hegem√īnica em muitos pa√≠ses, chegando a se tornar religi√£o de Estado. O homoerotismo foi classificado como ‚Äúsodomia‚ÄĚ e criminalizado por muitos s√©culos. Para a Igreja, a sodomia era um crime horrendo: provocava tanto a ira de Deus a ponto de causar tempestades, terremotos, pestes e fome, que destru√≠am cidades inteiras. Era algo indigno de ser nomeado, um ‚Äúpecado nefando‚ÄĚ do qual nem se deve falar, e muito menos se cometer (VIDE, 2007, p. 331-332). Tribunais civis e mesmo eclesi√°sticos, como a Inquisi√ß√£o, julgavam os acusados deste delito. Os culpados eram entregues ao poder civil para serem punidos, at√© mesmo com a morte.

Com o advento do Iluminismo e da raz√£o aut√īnoma, independente da Revela√ß√£o, a pr√°tica sexual exercida sem viol√™ncia ou indec√™ncia p√ļblica n√£o devia cair sob o dom√≠nio da lei. Teve in√≠cio uma crescente descriminaliza√ß√£o da sodomia. A modernidade, impulsionada pelo Iluminismo, trouxe a separa√ß√£o entre Igreja e Estado, a autonomia das ci√™ncias e os direitos humanos, que restringem o poder do soberano sobre o s√ļdito e ampliam a liberdade da pessoa em rela√ß√£o √† coletividade. No s√©culo XIX, o termo sodomia foi substitu√≠do por ‚Äúhomossexualidade‚ÄĚ. A quest√£o √© trazida do √Ęmbito religioso e moral para o √Ęmbito m√©dico. O que at√© ent√£o era visto como abomina√ß√£o passa a ser considerado doen√ßa. Por muitas d√©cadas, pessoas homossexuais eram internadas em sanat√≥rios. Chegou-se at√© mesmo ao uso de choque el√©trico no tratamento m√©dico dessas pessoas.

A partir dos anos 1970, houve uma progressiva despatologiza√ß√£o da homossexualidade, impulsionada pelo crescimento do movimento gay. Nos anos 1990, a Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde a retirou da lista de doen√ßas. Organiza√ß√Ķes de m√©dicos e de psic√≥logos declararam que a homossexualidade n√£o √© doen√ßa, nem dist√ļrbio, nem pervers√£o; e proibiram seus profissionais de colaborarem em servi√ßos que prop√Ķem o seu tratamento e cura. Assim, algumas pessoas s√£o gays ou l√©sbicas e o ser√£o por toda a vida. N√£o se trata de op√ß√£o, mas de condi√ß√£o ou orienta√ß√£o. Com rela√ß√£o a travestis e a transexuais, permitem-se hoje tratamentos de transexualiza√ß√£o, inclusive na rede p√ļblica de sa√ļde. A mudan√ßa do nome social √© prevista em certos casos, podendo-se at√© chegar √† mudan√ßa do nome no registro civil.

 3 O ensinamento moral da Igreja em perspectiva inclusiva

¬†Alguns princ√≠pios da modernidade foram assimilados pela Igreja Cat√≥lica no Conc√≠lio Vaticano II. Al√©m do novo enfoque da evangeliza√ß√£o e da leitura da B√≠blia, o Conc√≠lio legitimou a separa√ß√£o entre Igreja e Estado, a autonomia da ci√™ncia e reconheceu a liberdade de consci√™ncia, que √© o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consci√™ncia, e o dever de n√£o agir contra ela. Nela est√° o ‚Äúsacr√°rio da pessoa‚ÄĚ, onde Deus est√° presente e se manifesta. Pela fidelidade √† voz da consci√™ncia, os crist√£os est√£o unidos aos outros homens no dever de buscar a verdade, e de nela resolver os problemas morais que surgem na vida individual e social (GS 16). Nenhuma palavra externa substitui a reflex√£o e o ju√≠zo da pr√≥pria consci√™ncia. O Catecismo da Igreja Cat√≥lica aprofunda este ensinamento e cita o cardeal Newman: ‚Äúa consci√™ncia √© o primeiro de todos os vig√°rios de Cristo‚ÄĚ (n.1778). √Č ela quem primeiro representa Cristo para o fiel. A vida espiritual e a reflex√£o muito ajudam o fiel a ouvir a voz do Senhor e a discernir os seus sinais.

Certa vez, o papa Bento XVI afirmou que o cristianismo n√£o √© um conjunto de proibi√ß√Ķes, mas uma op√ß√£o positiva. E acrescentou que √© muito importante evidenciar isso novamente, porque essa consci√™ncia hoje quase desapareceu completamente (BENTO XVI, 2006). √Č muito bom que um Papa tenha reconhecido isto, pois h√° no cristianismo uma hist√≥ria multissecular de insist√™ncia na proibi√ß√£o, no pecado, na culpa, na amea√ßa de condena√ß√£o e no medo. Pode-se falar de uma ‚Äúpastoral do medo‚ÄĚ, que com veem√™ncia culpabiliza as pessoas e as amea√ßa de condena√ß√£o eterna para obter a sua convers√£o. Isto n√£o se restringe ao passado. Ainda hoje, em diversas igrejas e ambientes crist√£os, muitos interpretam a doutrina de maneira extremamente restritiva e condenat√≥ria, com obsess√£o pelo pecado, sobretudo a respeito de sexo. As proibi√ß√Ķes ligadas √† mensagem crist√£ frequentemente repercutem mais do que o seu conte√ļdo positivo. Isto se observa tanto dentro da Igreja, entre os fi√©is, quanto fora, entre os que a criticam. H√° um foco excessivo na proibi√ß√£o. √Č fundamental buscar na mensagem crist√£ o seu componente positivo, para que ela seja boa nova, Evangelho.

O papa Francisco segue esta linha com determina√ß√£o. Ele diz que ‚Äúo an√ļncio do amor salv√≠fico de Deus precede a obriga√ß√£o moral e religiosa. Hoje, por vezes, parece que prevalece a ordem inversa‚ÄĚ (FRANCISCO, 2013c). Este an√ļncio deve concentrar-se no essencial, que √© tamb√©m o que mais apaixona e atrai, procurando curar todo tipo de ferida e fazer arder o cora√ß√£o, como o dos disc√≠pulos de Ema√ļs que se encontraram com Cristo ressuscitado. A proposta evang√©lica deve ser mais simples, profunda e irradiante. √Č desta proposta que v√™m depois as consequ√™ncias morais. Nesta perspectiva, o confession√°rio n√£o √© uma sala de tortura, mas um lugar de miseric√≥rdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos (FRANCISCO, 2013c).

O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e nos salva, reconhecendo-o nos outros e saindo de n√≥s mesmos para procurar o bem de todos. A Igreja n√£o deve ser uma alf√Ęndega dos sacramentos, mas a casa paterna onde h√° lugar para todos que enfrentam fadigas em suas vidas. Todos podem participar da vida eclesial e fazer parte da comunidade. A Eucaristia, plenitude da vida sacramental, n√£o √© um pr√™mio para os perfeitos, mas um rem√©dio generoso e um alimento para os que necessitam de for√ßas (EG 39 e 47).

O conhecimento da verdade √© progressivo, observa o papa. A compreens√£o do homem muda com o tempo, e sua consci√™ncia se aprofunda. Recorde-se o tempo em que a escravatura era aceita e a pena de morte era admitida sem nenhum problema. Os exegetas e os te√≥logos, como tamb√©m as outras ci√™ncias e a sua evolu√ß√£o, ajudam a Igreja a amadurecer o pr√≥prio ju√≠zo. Como consequ√™ncia, h√° normas e preceitos eclesiais secund√°rios que em outros tempos foram eficazes, mas que hoje perderam valor ou significado. Uma vis√£o da doutrina da Igreja como um bloco monol√≠tico a ser defendido sem matizes √© errada (FRANCISCO, 2013c). Portanto, os fi√©is crist√£os, incluindo os LGBT, devem procurar ser adultos na f√©, atentos √†s contribui√ß√Ķes das ci√™ncias que ajudam a Igreja a amadurecer seu ju√≠zo. Eles n√£o devem se encapsular em posturas intransigentes avessas √† reflex√£o cr√≠tica e ao di√°logo.

O Conc√≠lio afirma que h√° uma ordem ou hierarquia de verdades no ensinamento da Igreja, segundo o seu nexo com o fundamento da f√© crist√£. Alguns conte√ļdos s√£o mais importantes por estarem estreitamente ligados a este fundamento. Outros, por sua vez, s√£o menos importantes por estarem menos ligados a ele (UR 11). Para Francisco, esta ordem √© v√°lida tanto para os dogmas de f√© como para os demais ensinamentos da Igreja, incluindo a sua mensagem moral. Nesta, h√° uma¬†hierarquia¬†nas virtudes e a√ß√Ķes. A miseric√≥rdia √© a maior das virtudes. As obras de amor ao pr√≥ximo s√£o a manifesta√ß√£o externa mais perfeita da gra√ßa interior do Esp√≠rito. Os preceitos dados por Cristo e pelos Ap√≥stolos ao povo de Deus s√£o pouqu√≠ssimos. E os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja devem ser exigidos com modera√ß√£o, para n√£o tornar pesada a vida aos fi√©is e nem transformar a religi√£o numa escravid√£o (EG 36-37 e 43).

Nesta moral matizada que o papa exp√Ķe, tem grande import√Ęncia o bem poss√≠vel. Sem diminuir o valor do ideal evang√©lico, √© preciso acompanhar, com miseric√≥rdia e paci√™ncia, as poss√≠veis etapas de crescimento das pessoas, que v√£o se construindo dia a dia. Um pequeno passo no meio de grandes limita√ß√Ķes humanas pode ser mais agrad√°vel a Deus do que uma vida externamente correta, de quem n√£o enfrenta maiores dificuldades. A consola√ß√£o e a for√ßa do amor salvador de Deus devem chegar a todos. Deus opera misteriosamente em cada pessoa, para al√©m dos seus defeitos e das suas quedas. Um cora√ß√£o mission√°rio n√£o renuncia ao bem poss√≠vel, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada (EG 44-45).

A moral sexual tem como uma de suas principais refer√™ncias o mandamento do Dec√°logo ‚Äún√£o pecar contra a castidade‚ÄĚ. Originalmente, o mandamento √© ‚Äún√£o cometer√°s adult√©rio‚ÄĚ (Ex 20,14), mas a catequese crist√£ nele incorporou outros ensinamentos b√≠blicos e tradicionais relativos √† sexualidade. O Catecismo define hoje a castidade primeiramente como a integra√ß√£o da sexualidade na pessoa, na sua unidade de corpo e alma (n.2337). Esta integra√ß√£o √© um caminho gradual, um crescimento pessoal em etapas, que passa por fases marcadas pela imperfei√ß√£o e at√© pelo pecado (n.2343). A gradualidade na aplica√ß√£o da lei moral √© quase desconhecida em muitos ambientes cat√≥licos, e por isso deveria ser amplamente ensinada. Muitas vezes h√° o triunfo do tudo ou nada, fruto de um radicalismo est√©ril, e n√£o a busca do bem poss√≠vel. E s√≥ pode haver uma integra√ß√£o bem-sucedida se a pessoa viver em paz com a sua pr√≥pria sexualidade, amando o seu semelhante e a si mesma. Os caminhos e as condutas neste campo n√£o podem prescindir jamais desta integra√ß√£o.

Uma carta pastoral da C√ļria Romana afirma que nenhum ser humano √© um mero homo ou heterossexual. Ele √©, acima de tudo, criatura de Deus e destinat√°rio de sua gra√ßa, que o torna filho de Deus e herdeiro da vida eterna (CDF, 1986, n.16). Isto tamb√©m vale para o restante da diversidade sexual. Seja a pessoa LGBT ou n√£o, ela √© criatura divina, destinada a participar da vida em Cristo e da sua salva√ß√£o. A carta acrescenta que toda viol√™ncia f√≠sica ou verbal contra pessoas homossexuais √© deplor√°vel, merecendo a condena√ß√£o dos pastores da Igreja onde quer que se verifique. Os atos homossexuais, por sua vez, s√£o considerados intrinsecamente desordenados e, como tais, n√£o podem ser aprovados em nenhum caso. Sobre a culpabilidade da pessoa, por√©m, deve haver prud√™ncia no julgamento. S√£o reconhecidos certos casos em que a tend√™ncia homossexual n√£o √© fruto de op√ß√£o deliberada da pessoa, e que esta pessoa n√£o tem alternativa e √© compelida a se comportar de modo homossexual. Por conseguinte, em tal situa√ß√£o ela age sem culpa. Alerta-se para o risco de generaliza√ß√Ķes, mas podem existir circunst√Ęncias que reduzem ou at√© mesmo eliminam a culpa da pessoa (CDF, 1986, n.10, 3 e 11). Nesta situa√ß√£o, portanto, n√£o se pode dizer jamais que a pessoa est√° em pecado mortal e que deve se afastar dos sacramentos.

N√£o √© simples propor aos LGBT viverem a castidade no celibato. Como a castidade √© a integra√ß√£o da sexualidade na pessoa, na sua unidade de corpo e alma, n√£o se deve anular a pessoa afetiva e humanamente. Na forma√ß√£o para o sacerd√≥cio, por exemplo, ensina-se que o caminho formativo deve ser interrompido no caso de um candidato ter excessiva dificuldade com o celibato, ‚Äúvivido como uma obriga√ß√£o t√£o penosa a ponto de comprometer o equil√≠brio afetivo e relacional‚ÄĚ (CEC, 2007, n.10). Esta norma √© s√°bia. √Č algo que conv√©m tamb√©m aos religiosos de congrega√ß√Ķes e aos fi√©is leigos, incluindo pessoas homossexuais e trans. N√£o se deve viver o celibato a qualquer pre√ßo.

As confer√™ncias episcopais tamb√©m trazem contribui√ß√Ķes importantes √† pastoral, que s√£o fruto de reflex√Ķes e pr√°ticas contextualizadas em diferentes realidades com suas necessidades e urg√™ncias. Francisco menciona um documento dos bispos franceses sobre o reconhecimento civil da uni√£o homossexual (EG 66, nota 60). Eles se opuseram √† lei que equipara totalmente esta uni√£o √† uni√£o heterossexual. Mas n√£o s√≥. Os bispos repudiam a homofobia, e felicitam a evolu√ß√£o do direito que hoje condena toda discrimina√ß√£o e incita√ß√£o ao √≥dio em raz√£o da orienta√ß√£o sexual. Reconhecem que muitas vezes n√£o √© f√°cil para a pessoa homossexual assumir a sua condi√ß√£o, pois os preconceitos s√£o duradouros e as mentalidades s√≥ mudam lentamente, inclusive nas comunidades e nas fam√≠lias cat√≥licas. Estas fam√≠lias s√£o chamadas a acolher toda a pessoa como filha de Deus, qualquer que seja a sua situa√ß√£o. E numa uni√£o dur√°vel entre pessoas do mesmo sexo, para al√©m do aspecto meramente sexual, a Igreja estima o valor da solidariedade, da liga√ß√£o sincera, da aten√ß√£o e do cuidado com o outro (CEF, 2012).

Estes passos s√£o muito importantes. Se n√£o h√° um ambiente livre de hostilidade que possibilite √†s pessoas homossexuais assumirem a sua condi√ß√£o, se n√£o h√° qualquer reconhecimento social ou estima pelas uni√Ķes entre indiv√≠duos do mesmo sexo, a homofobia presente na sociedade as leva a contra√≠rem uni√Ķes heterossexuais para fugirem do preconceito. Isto acontece h√° s√©culos e traz muito sofrimento √†s pessoas envolvidas. √Č necess√°rio p√īr fim a esta situa√ß√£o opressiva. Conforme o direito eclesi√°stico, o sacramento do matrim√īnio nestas circunst√Ęncias √© inv√°lido (CDC, C√Ęn. 1095, n.3). √Č preciso que os fi√©is saibam disto. A uni√£o heterossexual n√£o √© solu√ß√£o para a pessoa homossexual.

Os bispos brasileiros t√™m um documento sobre a renova√ß√£o pastoral das par√≥quias, em que se contemplam as novas situa√ß√Ķes familiares com realismo e abertura, incluindo as uni√Ķes do mesmo sexo. Os bispos reconhecem que, nas par√≥quias, participam pessoas unidas sem o v√≠nculo sacramental e outras em segunda uni√£o. H√° tamb√©m as que vivem sozinhas sustentando os filhos, av√≥s que criam netos e tios que sustentam sobrinhos. H√° crian√ßas adotadas por pessoas solteiras ou do mesmo sexo, que vivem em uni√£o est√°vel. Os bispos exortam a Igreja, fam√≠lia de Cristo, a acolher com amor todos os seus filhos. Conservando o ensinamento crist√£o sobre a fam√≠lia, √© necess√°rio usar de miseric√≥rdia. Constata-se que muitos se afastaram e continuam se afastando das comunidades porque se sentiram rejeitados, porque a primeira orienta√ß√£o que receberam consistia em proibi√ß√Ķes e n√£o em viver a f√© em meio √† dificuldade. Na renova√ß√£o paroquial, deve haver convers√£o pastoral para n√£o se esvaziar a Boa Nova anunciada pela Igreja e, ao mesmo tempo, n√£o deixar de se atender √†s novas situa√ß√Ķes da vida familiar. ‚ÄúAcolher, orientar e incluir‚ÄĚ nas comunidades os que vivem em outras configura√ß√Ķes familiares s√£o desafios inadi√°veis (CNBB, 2014, n.217-218).

 4 Palavras e gestos proféticos

 O Sínodo dos Bispos sobre a família gerou um debate amplo e fecundo, e teve como fruto uma exortação pós-sinodal do papa. Ele reitera o seu apelo à Igreja de ir ao encontro dos que vivem nas mais variadas periferias existenciais. A Igreja é chamada a conformar a sua ação à de Cristo, que em um amor sem fronteiras ofereceu-se por todos sem exceção. Aos que manifestam a orientação homossexual, deve-se assegurar um acompanhamento respeitoso para que possam dispor dos auxílios necessários para compreender e realizar a vontade de Deus em suas vidas (AL 312 e 250). Francisco faz um alerta incisivo contra o moralismo que muitas vezes reina em ambientes cristãos e na hierarquia da Igreja Católica, visando fomentar o devido respeito à consciência e à autonomia dos fiéis:

¬†(…) nos custa dar espa√ßo √† consci√™ncia dos fi√©is, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites, e s√£o capazes de realizar o seu pr√≥prio discernimento perante situa√ß√Ķes onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consci√™ncias, n√£o a pretender substitu√≠-las. (AL 37)

¬†Al√©m desta palavra oportuna, o papa fez um gesto surpreendente em 2015, recebendo em sua casa a visita do transexual espanhol Diego Neria e de sua companheira. A hist√≥ria de Diego √© emblem√°tica da condi√ß√£o transexual, do preconceito atroz e do seu enfrentamento. Ele nasceu com corpo de mulher, mas desde crian√ßa sentia-se homem. No Natal, escrevia aos reis magos pedindo como presente tornar-se menino. Ao crescer, resignou-se √† sua condi√ß√£o. ‚ÄúMinha pris√£o era meu pr√≥prio corpo, porque n√£o correspondia absolutamente ao que minha alma sentia‚ÄĚ, confessa. Diego escondia esta realidade o quanto podia. Sua m√£e pediu-lhe que n√£o mudasse o seu corpo enquanto ela vivesse. E ele acatou este desejo at√© a morte dela. Quando ela morreu, Diego tinha 39 anos. Um ano depois, ele come√ßou o tratamento transexualizador. Na igreja que frequentava, despertou a indigna√ß√£o das pessoas: ‚Äúcomo se atreve a entrar aqui na sua condi√ß√£o? Voc√™ n√£o √© digno‚ÄĚ. Certa vez, chegou a ouvir de um padre: ‚ÄúVoc√™ √© filha do diabo‚ÄĚ! Mas, felizmente, ele teve o apoio do bispo de sua diocese, que lhe deu √Ęnimo e consolo. Isto encorajou Diego a escrever ao papa Francisco e a pedir um encontro com ele. O papa o recebeu e o abra√ßou no Vaticano, na presen√ßa da sua companheira. Hoje, Diego Neria √© um homem em paz (HERN√ĀNDEZ, 2015).

Ocorreram outros encontros do papa com LGBT, como a visita a um pres√≠dio na It√°lia, em que ele teve uma refei√ß√£o √† mesa na companhia de presos transexuais. Nos Estados Unidos, Francisco se encontrou, na nunciatura apost√≥lica, com seu antigo aluno e amigo gay Yayo Grassi, e com o companheiro dele. Grassi j√° tinha apresentado o seu companheiro ao papa dois anos antes. Este relacionamento homoafetivo nunca foi problema na amizade entre Grassi e o papa (GRASSI, 2015). Sobre os encontros que teve com pessoas homossexuais, transexuais e seus respectivos companheiros, o papa comentou: ‚Äúas pessoas devem ser acompanhadas como as acompanha Jesus. (…) em cada caso, acolh√™-la, acompanh√°-la, estud√°-la, discernir e integr√°-la. Isto √© o que Jesus faria hoje‚ÄĚ (FRANCISCO, 2016).

Gestos como estes do papa valem mais que mil palavras. Se todas as famílias que têm filhos ou parentes LGBT fizessem o mesmo, recebendo-os em casa com seus companheiros, muitos problemas e dramas humanos seriam resolvidos.

 5 Caminhos a percorrer

¬†A realidade dos LGBT √© complexa e delicada, traz apelos urgentes e constitui um desafio √† evangeliza√ß√£o. A leitura cr√≠tica da Sagrada Escritura, a devida aten√ß√£o aos resultados das ci√™ncias, os diversos matizes da moral e a fidelidade √† pr√≥pria consci√™ncia s√£o elementos que tornam o ensinamento da Igreja um conte√ļdo rico e din√Ęmico na vida dos fi√©is. Estes elementos podem ajudar muito a a√ß√£o evangelizadora junto √†quela popula√ß√£o. N√£o se deve buscar no ensinamento da Igreja, e nem mesmo na B√≠blia, um manual de instru√ß√Ķes de eletrodom√©stico ou um c√≥digo moral completo, universal e imut√°vel. Muitas vezes se fazem cita√ß√Ķes descontextualizadas da B√≠blia e simplifica√ß√Ķes indevidas da doutrina, com extrema rigidez e um terr√≠vel √≠mpeto condenat√≥rio dirigido aos LGBT. Alguns falam de ‚Äútextos do terror‚ÄĚ ou de ‚Äúbalas b√≠blicas‚ÄĚ usadas contra estas pessoas. A prega√ß√£o, em vez de curar feridas e aquecer o cora√ß√£o, traz mais devasta√ß√£o, e a Palavra do Deus da vida se torna palavra de morte. N√£o se deve jamais tratar estes indiv√≠duos como endemoninhados a serem exorcizados, ou submet√™-los √† ora√ß√£o de ‚Äúcura e liberta√ß√£o‚ÄĚ para mudarem a sua condi√ß√£o ou identidade.

Na Igreja Cat√≥lica, hoje, h√° diferentes tipos de apostolado junto aos LGBT. Um deles √© o grupo Courage, apoiado pela Confer√™ncia dos Bispos Cat√≥licos dos Estados Unidos, que desaconselha pessoas homossexuais a se definirem primeiramente pela sua inclina√ß√£o sexual, bem como de participarem de ‚Äúsubculturas gays‚ÄĚ, que tendem a promover um estilo de vida imoral (USCCB, 2006, p.22 e nota 44). H√° outros grupos cuja √™nfase √© a inclus√£o e a cidadania dos LGBT na Igreja e na sociedade, a cura das feridas, o crescimento na f√© e o respeito pela consci√™ncia nas escolhas de vida. Estes grupos formaram a Rede Global de Cat√≥licos Arco-√≠ris (GNRC, 2015). A Diocese de Westminster (Inglaterra), que abrange a cidade de Londres, possui a Capelania LGBT (LGBT Chaplaincy) para atendimento pastoral a estes fi√©is. As Arquidioceses de Santiago, Chile (ALDEA, 2013), e de Belo Horizonte (CIPRIANI, 2017) possuem a Pastoral da Diversidade Sexual.

N√£o faltam diverg√™ncias e conflitos a respeito da diversidade sexual e de g√™nero. Mas tamb√©m n√£o √© necess√°rio esperar a sua resolu√ß√£o. H√° posi√ß√Ķes e pr√°ticas j√° legitimadas que podem ser adotadas e difundidas. A descriminaliza√ß√£o da homossexualidade e da transexualidade no mundo inteiro deve ser defendida com vigor, bem como o enfrentamento da viol√™ncia f√≠sica, verbal e simb√≥lica feita aos LGBT. O exemplo do papa Francisco, recebendo-os em sua casa com seus companheiros, deve ser seguido. √Č atrav√©s deste acolhimento que o verdadeiro encontro se torna poss√≠vel, dando √†s pessoas a oportunidade de se conhecer mutuamente e de interagir positivamente, sem escamotear realidades vitais e sem deixar que o preconceito e o medo criem fantasmas.

Acolher, orientar e incluir, como diz a CNBB sobre as novas configura√ß√Ķes familiares, √© uma ponte que conduz √†s periferias existenciais. N√£o faltam √† Igreja recursos te√≥ricos e testemunhos marcantes para pregar a Palavra de Deus de maneira adaptada √† realidade dos povos, a fim de que a vida em Cristo seja comunicada, as feridas curadas e os cora√ß√Ķes aquecidos.

Certa vez, uma senhora devota me procurou desconsolada por descobrir que seu filho era gay. Tivemos uma boa conversa, e eu lhe recomendei o filme Ora√ß√Ķes para Bobby (MULCAHY, 2009).¬†Tempos depois, ela me disse exultante: ‚ÄúJesus tirou o preconceito do meu cora√ß√£o‚ÄĚ! De fato, Jesus age na vida das pessoas e liberta do preconceito. O seu Esp√≠rito impele a Igreja a transpor as estruturas caducas, externas e internas, incapazes de acolhimento. Os disc√≠pulos de Jesus devem acolher com amor pessoas homossexuais e trans para manifestar ao mundo o rosto do seu mestre, e alegrar-se com as b√™n√ß√£os de Deus Pai. Se muitos LGBT sentem que precisam da Igreja, cabe reconhecer que ela tamb√©m precisa deles.

Luís Corrêa Lima, SJ. PUC-Rio. Texto original em português.

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