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{"id":596,"date":"2015-02-24T22:45:08","date_gmt":"2015-02-25T01:45:08","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=596"},"modified":"2016-03-31T21:35:45","modified_gmt":"2016-04-01T00:35:45","slug":"cristianismo-moderno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=596","title":{"rendered":"Cristianismo Moderno"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 O per\u00edodo moderno<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Os descobrimentos e a expans\u00e3o da cristandade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 A evangeliza\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1 Os amer\u00edndios<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.2 Os povos da \u00c1frica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.3 A escravid\u00e3o colonial e o catolicismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 As Reformas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.1 As reformas protestantes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2 As Igrejas Crist\u00e3s<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.3 Reforma Cat\u00f3lica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.4 Novas e velhas ordens e congrega\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 A religiosidade popular latino-americana<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 O per\u00edodo moderno<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No alvorecer do que chamamos per\u00edodo moderno (a partir do s\u00e9culo XV), uma s\u00e9rie de inst\u00e2ncias da vida social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica mudou drasticamente. Desde o cisma gerado pelo papado em Avinh\u00e3o, a autoridade dos papas vinha sendo minada pelo desejo de autonomia dos soberanos nacionais em seus Estados em forma\u00e7\u00e3o. Esta transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que substitui a descentraliza\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica do sistema feudal por uma centraliza\u00e7\u00e3o, extrapola a esfera da pol\u00edtica estatal e se desdobra em outras \u00e1reas. Exemplos da a\u00e7\u00e3o do Estado em outras esferas s\u00e3o o mercantilismo econ\u00f4mico, que se baseia na prerrogativa real de estruturar a economia por meio da concess\u00e3o de monop\u00f3lios e a preserva\u00e7\u00e3o de estancos reais; e o controle que, progressivamente, os monarcas exerceram sobre o catolicismo ou sobre o processo de Reforma nos seus dom\u00ednios (liderando, como na Inglaterra, administrando, como na Fran\u00e7a, ou impedindo, como no caso dos Ib\u00e9ricos). \u00c9 poss\u00edvel pensar que at\u00e9 mesmo a geografia e a demografia mudaram abissalmente com a integra\u00e7\u00e3o das Am\u00e9ricas e da \u00c1frica no sistema pol\u00edtico, econ\u00f4mico e religioso do Ocidente moderno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal per\u00edodo se finda com o advento do liberalismo republicano, sendo esse filho da Ilustra\u00e7\u00e3o que tem in\u00edcio ainda no s\u00e9culo XVII, com fil\u00f3sofos como John Locke e Thomas Hobbes, na Inglaterra. Esses pensadores acabam por romper com a aura divina que legitimava o poder dos reis absolutistas. Em seus textos, o governo mon\u00e1rquico surge como uma necessidade da vida em sociedade \u2013 Hobbes \u2013 e as distin\u00e7\u00f5es nobili\u00e1rquicas n\u00e3o mais s\u00e3o produzidas por diferen\u00e7as inatas, mas constru\u00e7\u00f5es sociais \u2013 Locke. O trabalho desses fil\u00f3sofos vai preparar e ajudar a fundamentar o pensamento iluminista do s\u00e9culo seguinte. Embora pouco se diga sobre isso, os dois grupos, ingleses do s\u00e9culo XVII e franceses do XVIII, operam com conceitos que j\u00e1 eram usados por te\u00f3logos do s\u00e9culo XVI, como o dominicano Francisco de Vit\u00f3ria, considerado o fundador do direito internacional, e o jesu\u00edta Lu\u00eds de Molina (ZERON, 2011, p.203 et seq.). Ambos, assim como outros te\u00f3logos de sua \u00e9poca, operavam largamente com a ideia de direitos naturais, como direitos inerentes a todos os homens. Os jesu\u00edtas foram inclusive acusados de propagandear o regic\u00eddio, por defenderem o direito de se opor \u00e0 tirania, o que sem d\u00favida contribuiu para a sua supress\u00e3o. (ANDR\u00c9S-GALLEGO, s.d., p.168 et seq.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Os descobrimentos e a expans\u00e3o da cristandade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00a0per\u00edodo moderno foi, sem d\u00favida, marcado pela mudan\u00e7a no escopo de rela\u00e7\u00f5es da cristandade com o mundo externo a ela. Se nos prim\u00f3rdios do cristianismo e no medievo o palco de tais rela\u00e7\u00f5es foi o Mediterr\u00e2neo, agora os espa\u00e7os privilegiados para estes encontros ser\u00e3o o Atl\u00e2ntico e o \u00cdndico. Ser\u00e1 por a\u00ed que as trocas mercantis e culturais passar\u00e3o a acontecer com uma frequ\u00eancia cada vez maior. Novos povos ser\u00e3o conhecidos, uma nova geografia ser\u00e1 desenhada e novos desafios ao cristianismo tamb\u00e9m aparecer\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os novos contatos ser\u00e3o, na verdade, fruto de velhos conhecidos. A expans\u00e3o europeia se inicia com os portugueses a partir da expuls\u00e3o dos mouros que habitavam seu territ\u00f3rio na pen\u00ednsula Ib\u00e9rica havia cerca de sete s\u00e9culos. Da\u00ed para Ceuta, em 1415, j\u00e1 apresentando o padr\u00e3o de conjun\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o militar, com a expans\u00e3o da f\u00e9 e os objetivos mercantis que marcaram as conquistas da modernidade ib\u00e9rica. Ceuta, uma pra\u00e7a comercial de grande import\u00e2ncia no extremo norte da \u00c1frica, no estreito de Gibraltar, era a conflu\u00eancia entre o mar conhecido e o novo, uma esp\u00e9cie de esquina entre a pen\u00ednsula e as novas possibilidades africanas. Foi, por isso mesmo, a ponta de lan\u00e7a para a busca de novas regi\u00f5es com ganhos potenciais mais ao sul. Passava-se assim dos mouros aos povos animistas, tamb\u00e9m chamados de pag\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas foi sem d\u00favida com o infante D. Henrique, o navegador, que a expans\u00e3o lusitana teve seu maior impulso. Esse filho do rei D. Jo\u00e3o I, o fundador da dinastia de Avis (1385-1581), foi o articulador da tomada de Ceuta e da consequente s\u00e9rie de conquistas que lhe sucedeu. Na sequ\u00eancia vieram: as ilhas do Atl\u00e2ntico (arquip\u00e9lago da Madeira, os A\u00e7ores e outras ilhas menores) e a passagem do cabo Bojador por Gil Eanes em 1434, depois foram a foz do rio Senegal e o arquip\u00e9lago do Cabo Verde em 1456. Seu nome aparece explicitamente na bula <em>Romanus Pontifex<\/em>, de Nicolau V, datada de 1455, que, ainda impregnada do esp\u00edrito das Cruzadas, lhe autoriza a conquista militar como mecanismo para a expans\u00e3o da f\u00e9 sobre os sarracenos (mu\u00e7ulmanos) e outros infi\u00e9is (povos animistas subsaarianos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo Mediterr\u00e2neo, o com\u00e9rcio dos artigos vindos da \u00c1sia era monop\u00f3lio de italianos desde a quarta cruzada (1202-1204), quando foi fundado o reino latino de Constantinopla \u2013 hoje Istambul. Assim, a Europa era, na primeira metade do s\u00e9culo XV, inundada de produtos vindos da \u00c1frica, pela pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, e da \u00c1sia, pela pen\u00ednsula It\u00e1lica. No entanto, este quadro muda drasticamente depois que os turcos do Imp\u00e9rio otomano conquistam a pra\u00e7a mercantil de Constantinopla em 1453, data que foi usada por muito tempo como marco fundamental da passagem do medievo para a idade moderna. Deste momento em diante, a incerteza do abastecimento e a eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os tomaram conta dos principais mercados consumidores de produtos asi\u00e1ticos (especiarias, lou\u00e7as, sedas e outros produtos finos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abre-se, assim, a demanda por novas rotas comerciais para o Oriente, seja pelo Atl\u00e2ntico sul \u2013 passando o Cabo das Tormentas \u2013, com os portugueses, seja buscando a circum-navega\u00e7\u00e3o da terra com os espanh\u00f3is. Esses \u00faltimos, por terem conclu\u00eddo o processo de expuls\u00e3o dos mouros e a unifica\u00e7\u00e3o das casas de Arag\u00e3o e Castela somente em 1492, ano em que a mesquita de C\u00f3rdoba cai em m\u00e3os espanholas, estavam em consider\u00e1vel desvantagem frente aos lusitanos. Certamente por isso, a Coroa espanhola apostou uma pequena soma de dinheiro, se comparada aos vultosos gastos da corte madrilena, numa expedi\u00e7\u00e3o de tr\u00eas embarca\u00e7\u00f5es chefiada por Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, que partiu rumo ao ocidente naquele mesmo ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo da expedi\u00e7\u00e3o de Colombo era chegar ao reino do grande Kan, apresentado por Marco Polo em suas cr\u00f4nicas. O plano era simples, chegar ao paralelo das ilhas Can\u00e1rias, marco divis\u00f3rio do oceano Atl\u00e2ntico entre portugueses e espanh\u00f3is desde o Tratado de Alc\u00e1\u00e7ovas, de 1479, e seguir para oeste at\u00e9 as chamadas \u00cdndias. A base dos c\u00e1lculos de Colombo estava completamente equivocada. Sobre isso, ali\u00e1s, o advertiram os ge\u00f3grafos da Universidade de Salamanca. \u00c9 preciso que se diga que, n\u00e3o obstante sejam estes estudiosos cat\u00f3licos frequentemente apresentados como equivocados e curtos de entendimento frente ao vision\u00e1rio Colombo, a realidade foi bem outra. Longe de acreditarem que a terra era plana, os professores de Salamanca se apoiavam nos c\u00e1lculos de Erat\u00f3stenes, da Gr\u00e9cia antiga, que calculou a linha em torno do equador como equivalente a cerca 40.000 km (a medida exata \u00e9 40.072 km). Enquanto Colombo se apoiava em c\u00e1lculos feitos Ptolomeu de Alexandria, que usou um m\u00e9todo que o induziu ao erro e chegou a um valor cerca de 20% menor que o de Erat\u00f3stenes. Logo, o debate que antecedeu a partida das embarca\u00e7\u00f5es rumo ao oriente pelo ocidente era sobre a viabilidade da viagem em termos da sua dura\u00e7\u00e3o; do tempo que ficariam \u00e0 merc\u00ea dos ventos e ondas, sem \u00e1gua pot\u00e1vel e sem entrepostos de abastecimento. No entanto, foi a partir deste equ\u00edvoco que os europeus contataram uma nova gama de popula\u00e7\u00f5es com indiv\u00edduos genericamente chamados de \u201c\u00edndios\u201d, j\u00e1 que, comprovando o equ\u00edvoco cometido pelo c\u00e9lebre navegador, esse julgou ter chegado ao arquip\u00e9lago do Jap\u00e3o (toda a por\u00e7\u00e3o do mundo a leste de Jerusal\u00e9m era designada pelo termo \u00cdndias).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De qualquer maneira, um fato merece destaque: a expans\u00e3o da f\u00e9 cat\u00f3lica, ainda nos moldes das Cruzadas, sempre esteve presente nas viagens da Expans\u00e3o Ib\u00e9rica; da autoriza\u00e7\u00e3o papal \u00e0s dezenas de men\u00e7\u00f5es \u00e0 f\u00e9 e a Deus no di\u00e1rio de Colombo, h\u00e1 fartas evid\u00eancias de que a amplia\u00e7\u00e3o do mundo crist\u00e3o, pelo crescimento dos dom\u00ednios dos Reis cat\u00f3licos, sempre pairou no imagin\u00e1rio e nos cora\u00e7\u00f5es dos envolvidos neste processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 A evangeliza\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.1 Os amer\u00edndios<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de coloniza\u00e7\u00e3o foi marcado por uma s\u00e9rie de ambiguidades, o interesse na coloniza\u00e7\u00e3o foi apenas uma delas. Por um lado muitos europeus que desembarcaram na Am\u00e9rica vieram imbu\u00eddos do ideal de obten\u00e7\u00e3o de ganhos materiais e sociais, como t\u00edtulos e cargos na governan\u00e7a do Novo Mundo, usando como pano de fundo a expans\u00e3o da f\u00e9 cat\u00f3lica como autorizava Nicolau V. Por outro, a Bula <em>Sublimis Deus<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>, do papa Paulo III, de 1537, o mesmo que referendou o instituto da Companhia de Jesus, apontava para outra diretriz geral para o contato com os habitantes das novas terras. Segundo essa bula, a vida, a liberdade e as propriedades de todos os povos contatados pelos europeus deveriam ser preservadas e o processo de convers\u00e3o s\u00f3 poderia ser feito pela prega\u00e7\u00e3o e bom exemplo. Assim, desembarcam na Am\u00e9rica conquistadores e mission\u00e1rios com percep\u00e7\u00f5es distintas da terra e dos habitantes e com objetivos igualmente distintos para esses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso da Am\u00e9rica espanhola, ainda que os jesu\u00edtas tenham tido um papel importante, os primeiros mission\u00e1rios a chegarem foram os padres das ordens mendicantes, em especial os franciscanos. No entanto, foram os frades dominicanos, especialmente Pedro de C\u00f3rdoba, Antonio Montesinos, Juli\u00e1n Garc\u00e9s (bispo de Tlaxcala) e Bartolom\u00e9 de las Casas, os que mais se notabilizaram na defesa da vida e da liberdade dos ind\u00edgenas, com que se preocupava o papa Paulo III. Os dois primeiros viajaram a S\u00e3o Domingos, na ilha <em>La Espa\u00f1ola<\/em>, em 1510, fundando a primeira casa da ordem nas Am\u00e9ricas. Foi exatamente uma prega\u00e7\u00e3o dur\u00edssima em favor dos \u00edndios, proferida pelo frei Antonio de Montesinos em nome de todos os seus companheiros, em 1511, que impactou las Casas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este, at\u00e9 ent\u00e3o, havia participado de combates contra grupos ind\u00edgenas que resultaram na morte de dezenas de espanh\u00f3is e de milhares de nativos, possu\u00edra \u00edndios como escravos (na verdade, em <em>encomienda<\/em>, uma modalidade de trabalho n\u00e3o remunerado imposta aos ind\u00edgenas), n\u00e3o obstante j\u00e1 se dedicasse ao trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o e batismo da popula\u00e7\u00e3o local. Segundo Carlos Josaphat, na pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o que las Casas faz dos resultados da pr\u00e9dica de Montesinos, ele os coloca em uma esp\u00e9cie de grada\u00e7\u00e3o: \u201chouve quem ficasse \u2018at\u00f4nito\u2019, outros \u2018empedernidos\u2019 e uns poucos \u2018compungidos\u2019, mas ningu\u00e9m convertido\u201d (JOSAPHAT, 2000, p.59). Se isto de fato ocorreu, las Casas estava ao menos entre os compungidos, j\u00e1 que n\u00e3o tardou para que se convertesse em grande defensor dos povos nativos da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cren\u00e7a que perdurou desde o s\u00e9culo XIX at\u00e9 bem pouco tempo, de que os povos poderiam ser classificados entre avan\u00e7ados e primitivos, foi largamente utilizada para explicar o fen\u00f4meno da conquista. S\u00f3 dos anos 1980 para c\u00e1 \u00e9 que os pesquisadores \u2013 historiadores, soci\u00f3logos e antrop\u00f3logos \u2013 se despiram do velho mito euroc\u00eantrico que aferia o grau de evolu\u00e7\u00e3o de cada cultura pela semelhan\u00e7a que esta guardava com a cultura ocidental coeva. A grande quest\u00e3o historiogr\u00e1fica a ser respondida era como um grupo t\u00e3o pequeno de colonizadores p\u00f4de dizimar uma popula\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande de nativos (ROMANO, 1972, p.97-106). Na verdade, isso pouco tem a ver com o fato de algumas culturas possu\u00edrem Estado com poder coercitivo e outras n\u00e3o. Se deve muito mais \u00e0 caracter\u00edstica americana de sua popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se constituir uma totalidade, portanto se organizam em grupos que possuem interesses espec\u00edficos e, para alcan\u00e7\u00e1-los, estabelecem estrat\u00e9gias pr\u00f3prias, como alian\u00e7as com os colonizadores. Isso aconteceu com os povos tribut\u00e1rios dos astecas repetindo-se, de modo semelhante por toda a Am\u00e9rica, inclusive nas alian\u00e7as entre franceses e tamoios, na ba\u00eda de Guanabara. Nesse cen\u00e1rio de diversidade e conflitos, potencializado pela presen\u00e7a de europeus interessados em tirar proveito das disputas entre os povos nativos, \u00e9 que atuaram os mission\u00e1rios; ora de maneira pac\u00edfica, ora ampliando um dos lados beligerantes, em nome do que acreditavam ser a implanta\u00e7\u00e3o da f\u00e9 numa terra \u00e0 merc\u00ea do dem\u00f4nio. Era uma equa\u00e7\u00e3o simples: perder corpos (inclusive os seus) e salvar almas (inclusive as suas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os jesu\u00edtas chegaram \u00e0 Am\u00e9rica espanhola encontraram toda uma obra de catequese e convers\u00e3o dos ind\u00edgenas que j\u00e1 vinha sendo empreendida pelos mendicantes. No caso dos dom\u00ednios portugueses, os mission\u00e1rios da Companhia de Jesus foram os protagonistas nesse processo de cristianiza\u00e7\u00e3o. No Brasil, os membros das ordens mendicantes atuaram em menor escala. Sabe-se apenas que o celebrante da primeira missa no Brasil, e portanto capel\u00e3o na esquadra cabralina, era o bispo franciscano Dom frei Henrique de Coimbra, que ia como mission\u00e1rio para Calicute.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 os padres jesu\u00edtas chegaram junto com o primeiro governador-geral Tom\u00e9 de Souza, em 1549. Era um grupo pequeno liderado pelo padre Manuel da N\u00f3brega, que imediatamente come\u00e7ou a percorrer as aldeias catequisando e batizando os \u00edndios. Atendendo a um pedido de N\u00f3brega, ent\u00e3o j\u00e1 ciente do tamanho da tarefa evangelizadora, alguns anos mais tarde, quando chega o segundo governador-geral Duarte da Costa, aporta um novo grupo com Jos\u00e9 de Anchieta. Este novo grupo se desloca para o sul, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 capitania de S\u00e3o Vicente, fundando ali o col\u00e9gio S\u00e3o Paulo de Piratininga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo se percebe nas cartas enviadas pelos mission\u00e1rios, a evangeliza\u00e7\u00e3o destes povos tinha uma curta dura\u00e7\u00e3o, consistindo em uma efusiva aceita\u00e7\u00e3o inicial, seguida do completo abandono t\u00e3o logo os padres se ausentavam da tribo (CASTELNAU-L\u2019ESTOILE, 2006, p.109). A solu\u00e7\u00e3o para esse dilema da \u201cvinha est\u00e9ril\u201d foi a cria\u00e7\u00e3o do aldeamento. Por meio dos chamados descimentos e de ades\u00f5es volunt\u00e1rias ou pressionadas pelo risco da escraviza\u00e7\u00e3o pelos bandeirantes, os \u00edndios se integravam em comunidades controladas pelos padres jesu\u00edtas, constituindo um espa\u00e7o de civiliza\u00e7\u00e3o e ordem, que garantia uma maior durabilidade da sua cristianiza\u00e7\u00e3o. Nos aldeamentos, os nativos se organizavam em torno da lideran\u00e7a dos padres da Companhia, passando a adotar os h\u00e1bitos crist\u00e3os, aprendendo of\u00edcios e se sedentarizando. Este conjunto de elementos representava, na \u00f3tica dos padres, o suporte para uma convers\u00e3o mais duradoura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0As miss\u00f5es jesu\u00edticas ficaram famosas como lugares de abrigo para a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no Brasil, mas eram frequentemente fornecedoras de for\u00e7a militar e de trabalho alugada pelos padres \u00e0s C\u00e2maras municipais, aos particulares que solicitassem ou \u00e0s outras ordens que necessitassem. Na expuls\u00e3o dos franceses que resultou na funda\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro, em 1555, os \u00edndios aldeados foram de suma import\u00e2ncia do ponto de vista militar. Do mesmo modo, os \u00edndios aldeados pelos jesu\u00edtas na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, desde a primeira metade do s\u00e9culo XVII, compuseram a m\u00e3o de obra predominante na coleta das chamadas drogas do sert\u00e3o. Nos s\u00e9culos XVII e XVIII, a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica dos \u00edndios aldeados em v\u00e1rias partes da Am\u00e9rica \u2013 escultura, pintura, m\u00fasica e confec\u00e7\u00e3o de instrumentos musicais \u2013, que inicialmente era apenas um dos mecanismos da catequese, foi adquirindo caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, passando a ser conhecida como arte missioneira ou barroco missioneiro. Uma das caracter\u00edsticas desta arte \u00e9 a influ\u00eancia de elementos est\u00e9ticos ind\u00edgenas nas produ\u00e7\u00f5es. Com a expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas do Imp\u00e9rio portugu\u00eas em 1759 e no Imp\u00e9rio espanhol em 1767, as miss\u00f5es foram entregues a outras ordens \u2013 em geral mendicantes \u2013 ou a administradores civis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.2 Os povos da \u00c1frica<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto os mission\u00e1rios mendicantes quanto os padres da Companhia de Jesus atuaram nas repetidas tentativas de cristianiza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica. Os resultados deste processo variaram muito, de regi\u00e3o para regi\u00e3o, sempre com avan\u00e7os e retrocessos. Para que se possa abordar minimamente esta hist\u00f3ria \u00e9 preciso compreender que a \u00c1frica \u00e9 um continente extremamente vasto e que seus habitantes s\u00e3o diferentes de regi\u00e3o a regi\u00e3o e de povo a povo. H\u00e1 pelo menos duas grandes matrizes religiosas na \u00c1frica, mas uma imensid\u00e3o de possibilidades de combina\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es entre elas: a isl\u00e2mica e a animista. A isl\u00e2mica se instalou com a expans\u00e3o do isl\u00e3 pelo norte do continente e posteriormente com as vagas de expans\u00e3o intracontinental atrav\u00e9s do Saara. J\u00e1 a animista, mais caracter\u00edstica dos povos subsaarianos, \u00e9 profundamente ligada \u00e0 natureza e aos seus fen\u00f4menos, atribuindo-lhes esp\u00edritos. Al\u00e9m disso, incorpora elementos sociais divinizados, como l\u00edderes, guerreiros ou personalidades muito marcantes, que, junto com os mitos de cria\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o do mundo, v\u00e3o compor o pante\u00e3o dos orix\u00e1s. Com isso pode-se compreender a imensa tarefa de cristianizar uma \u00e1rea que \u00e9 quase quatro vezes maior que o Brasil de hoje. Vamos apresentar, apenas a t\u00edtulo de exemplo, os casos de Angola, Congo e Guin\u00e9, regi\u00f5es que mais sofreram os efeitos dos contatos com os europeus, dentre os quais se destaca deploravelmente o tr\u00e1fico de escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As facilidades ou dificuldades para a evangeliza\u00e7\u00e3o da costa sul-ocidental do continente que hoje \u00e9 a da Angola, derivou das alian\u00e7as entre portugueses e os chefes locais <em>sobas<\/em>, subordinados ao grande soberano Ngola, que governava o reino Ndongo. Essas alian\u00e7as tinham como fundamento tanto os ganhos pol\u00edticos e comerciais, quanto os interesses religiosos. Segundo a conveni\u00eancia do momento, os <em>sobas<\/em> se convertiam ao catolicismo ou voltavam ao animismo, ou ainda se aproximavam dos reformados. Um dos maiores interesses na proximidade com os sobas \u00e9 que, devido \u00e0 grande autonomia com que governavam seus territ\u00f3rios, eram eles que controlavam grande parte do tr\u00e1fico de escravos de Angola para a Am\u00e9rica. Sua convers\u00e3o sempre foi vista com certa desconfian\u00e7a pelos jesu\u00edtas, posto que, com grande frequ\u00eancia, n\u00e3o era duradoura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Os portugueses chegaram \u00e0 costa do Congo nos primeiros anos do s\u00e9culo XVI, dando in\u00edcio ao processo de evangeliza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. Na <em>Cronica d\u2019el Rei D. Jo\u00e3o II<\/em>, de aproximadamente 1502, seu autor Rui de Pina relata que tanto o chefe local <em>mani Soyo<\/em>, com alguns dos seus ministros, como chefe da regi\u00e3o, o <em>mani Congo<\/em>, com muitos seguidores, aceitaram o batismo e a f\u00e9 cat\u00f3lica prontamente, dando origem a todo um processo sincr\u00e9tico que envolve n\u00e3o apenas religi\u00e3o, mas tamb\u00e9m pol\u00edtica e alian\u00e7as comerciais. Para come\u00e7ar, muitos autores, como Marina Melo de Souza, acreditam que a cruz j\u00e1 era para a cultura do congo um s\u00edmbolo m\u00edstico e divinat\u00f3rio, o que facilitaria a absor\u00e7\u00e3o do crucifixo cat\u00f3lico como s\u00edmbolo religioso, bem como a associa\u00e7\u00e3o das imagens de santos e ter\u00e7os aos <em>minkisi<\/em>, denomina\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de objetos m\u00e1gicos ou de culto religioso naquela regi\u00e3o (SOUZA, 2005). Outra mostra desta simbiose \u00e9 que, a partir de 1509, os soberanos congoleses passaram a ostentar nomes portugueses associados aos seus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso da Guin\u00e9, ainda mais ao norte, o jesu\u00edta Baltazar Barreira, respons\u00e1vel pela miss\u00e3o de Angola e fundador do col\u00e9gio de Cabo Verde, assume no princ\u00edpio do s\u00e9culo XVII a miss\u00e3o de evangelizar o povo daquelas terras. Barreira e seus companheiros enfrentaram a concorr\u00eancia dos <em>bexerins<\/em>, como eram chamados os sacerdotes isl\u00e2micos, e dos <em>jambacouse<\/em>, como eram designados os sacerdotes locais, incumbidos de identificar os feiticeiros e comedores de almas que, segundo a cren\u00e7a local, produziam doen\u00e7as e mortes. Como n\u00e3o poderia deixar de ser, com tantas matrizes religiosas disputando espa\u00e7o nos cora\u00e7\u00f5es e mentes dos habitantes, o sincretismo foi tal que, em pouco tempo, os jesu\u00edtas passaram a ser chamados de bexerins dos crist\u00e3os (SANTOS, 2011, p.187-213). Ali tamb\u00e9m, relatou Barreira, a gente crist\u00e3, pela pouca doutrina e pelo muito contato com os animistas, facilmente voltava aos seus antigos cultos. Al\u00e9m desta concorr\u00eancia, havia os problemas com o tr\u00e1fico de escravos. Os sacerdotes animistas e os bexerins tamb\u00e9m funcionavam como agenciadores e atravessadores no com\u00e9rcio de escravos transaariano, que levava escravos \u2013 principalmente mulheres como futuras esposas \u2013 para as regi\u00f5es isl\u00e2micas (LOVEJOY, 2011, p.32). Tudo isso se soma ainda ao tr\u00e1fico de escravos para a Am\u00e9rica, que gerava muitas cr\u00edticas dos jesu\u00edtas aos demais religiosos cat\u00f3licos, acusando-os de n\u00e3o pregarem, nem catequizarem, apenas traficarem. No entanto, os padres jesu\u00edtas tamb\u00e9m possu\u00edam escravos. Embora pouco se saiba quantitativamente da participa\u00e7\u00e3o desses no com\u00e9rcio de africanos, \u00e9 certo que esta houve. De modo geral, a alta mortalidade de sacerdotes, a concorr\u00eancia com outros grupos religiosos mais bem estruturados e respaldados pela sociedade local, al\u00e9m do parco investimento da Coroa portuguesa, pode explicar o relativo fracasso da miss\u00e3o de converter os africanos no litoral atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo geral, a presen\u00e7a europeia na \u00c1frica foi, como no in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica, costeira. O cristianismo, enla\u00e7ado no mesmo processo, tamb\u00e9m. A diferen\u00e7a \u00e9 que, na Am\u00e9rica, progressivamente a coloniza\u00e7\u00e3o foi se interiorizando. Ocupando, ainda que parcamente, \u00e1reas cada vez mais ao interior, levava consigo a catequese e a Cruz, fen\u00f4meno que n\u00e3o se deu na \u00c1frica, onde o principal interesse era a administra\u00e7\u00e3o de \u00e1reas litor\u00e2neas para controlar o com\u00e9rcio, principalmente o de escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.3 A escravid\u00e3o colonial e o Catolicismo<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso que se esclare\u00e7a, antes de abordar t\u00e3o delicado assunto, que durante boa parte de sua vig\u00eancia a escravid\u00e3o n\u00e3o apenas era legal, bem como moralmente l\u00edcita. Isso n\u00e3o implica dizer que, vista dos dias de hoje, se possa consider\u00e1-la, ou a qualquer condi\u00e7\u00e3o de trabalho an\u00e1loga a ela, minimamente aceit\u00e1vel. O que se constata aqui \u00e9 restrito ao per\u00edodo que se encerra na metade do s\u00e9culo XIX, sen\u00e3o antes. Esta constata\u00e7\u00e3o se faz necess\u00e1ria para compreendermos como era poss\u00edvel que escravos alforriados tamb\u00e9m comprassem escravos para trabalharem em seu lugar, e como um grupo pequeno de feitores poderia controlar uma quantidade de escravos, n\u00e3o raras vezes, dez vezes maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes que se pense em passividade, \u00e9 preciso considerar a autonomia que estas pessoas escravizadas tinham de estipular suas pr\u00f3prias estrat\u00e9gias cotidianas, que n\u00e3o eram necessariamente a clara revolta e o recurso \u00e0 viol\u00eancia, embora as in\u00fameras rebeli\u00f5es de escravos atestem ser este recurso vi\u00e1vel n\u00e3o apenas para os senhores, mas tamb\u00e9m para os escravos. Por\u00e9m, o n\u00famero de vezes em que os escravos recorreram \u00e0 viol\u00eancia da rebeldia foi muito menor do que o n\u00famero de vezes em que o c\u00e1lculo de perdas e ganhos levou-os a tomarem outro caminho, por certo menos arriscado. Deve-se considerar que, frequentemente, historiadores e outros autores colocam nas cabe\u00e7as e bocas de personagens hist\u00f3ricos discursos que s\u00f3 chegaram a eles muito depois. No caso da escravid\u00e3o, o conceito iluminista de liberdade s\u00f3 aportou na Am\u00e9rica para os letrados entre o final do s\u00e9culo XVIII e o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, e significava a autonomia econ\u00f4mica e o direito \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O significado da liberdade muda com o passar do tempo. Assim, quando falamos de escravid\u00e3o colonial estamos tratando de um costume ou regra t\u00e1cita da sociedade que a perpassava de alto a baixo. Muitas rebeli\u00f5es foram apaziguadas quando certas condi\u00e7\u00f5es de trabalho foram estabelecidas (REIS e SILVA, 1989, p.103).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a essa escravid\u00e3o que os textos do clero colonial cat\u00f3lico se referem. De fato, n\u00e3o s\u00e3o textos libert\u00e1rios, e nem teriam como s\u00ea-lo. Estariam mais bem classificados como ut\u00f3picos, que lidam com uma escravid\u00e3o em que o senhor desempenha fun\u00e7\u00f5es paternas: ensinar, tutelar, alimentar e corrigir. Veja-se o que diz o jesu\u00edta Jorge Benci, em seu livro intitulado <em>Economia Crist\u00e3 dos Senhores no Governo dos Escravos<\/em>, escrito pelos idos de 1700: \u201cDeve o senhor ao servo o p\u00e3o para que n\u00e3o desfale\u00e7a\u201d (BENCI, 1977, p.53). No primeiro dos quatro discursos do livro, o autor coloca sob a rubrica <em>p\u00e3o<\/em> uma s\u00e9rie de obriga\u00e7\u00f5es do senhor para com o seu escravo: comida, vestimenta e cuidados na enfermidade.\u00a0 No segundo discurso, a argumenta\u00e7\u00e3o come\u00e7a com a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201ccomo os servos s\u00e3o criaturas racionais, que constam de corpo e alma, n\u00e3o s\u00f3 deve o senhor dar-lhes o sustento corporal para que n\u00e3o pere\u00e7a o seu corpo, mas o espiritual para que n\u00e3o desfale\u00e7am suas almas\u201d (BENCI, 1977, p.83). Isso nos permite perceber que o mito afirmando que o clero cat\u00f3lico defendia a teoria de que os escravos n\u00e3o tinham alma \u00e9 completamente infundado. O esfor\u00e7o do clero cat\u00f3lico em catequisar, coerentemente \u00e0s suas cren\u00e7as, batizar, casar sacramentalmente e sepultar segundo o rito crist\u00e3o os escravos, \u00e9 evid\u00eancia mais que bastante para mostrar que a postura geral entre o clero cat\u00f3lico era bem oposta a essa. Ademais, Benci tamb\u00e9m chama veementemente a aten\u00e7\u00e3o dos senhores a respeito da sua obriga\u00e7\u00e3o religiosa para com os seus escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensamento colonial cat\u00f3lico acerca da escravid\u00e3o parece ter tido in\u00edcio com Alonso de Sandoval, reitor do col\u00e9gio jesu\u00edtico de Cartagena de las \u00cdndias (1605-1617). Em seu livro <em>Um tratado sobre a escravid\u00e3o<\/em>, apresenta um longo estudo voltado para a compreens\u00e3o e o ensino dos povos rec\u00e9m-chegados da \u00c1frica ao porto de Cartagena. Na verdade, mais que um programa catequ\u00e9tico, Sandoval desenvolve uma verdadeira \u201csoteriologia\u201d dos escravizados. O primeiro passo desta \u201csoteriologia\u201d foi classificar todos os negros africanos e das ilhas do \u00cdndico como et\u00edopes, que j\u00e1 eram associados \u00e0 descend\u00eancia de Cam, amaldi\u00e7oada pelo pecado deste contra seu pai, No\u00e9. Da\u00ed se desenvolve o pensamento de Sandoval, apontando que, segundo Isidoro de Sevilha, na divis\u00e3o do mundo a \u00c1frica correspondia aos descendentes de Cam. Portanto, a escravid\u00e3o nos moldes crist\u00e3os, onde os senhores assumem fun\u00e7\u00f5es paternais para com seus escravos, representaria a reden\u00e7\u00e3o da maldi\u00e7\u00e3o de Cam. Isso por representar a inser\u00e7\u00e3o dos \u201cet\u00edopes\u201d no novo povo eleito: a Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m em Cartagena de las \u00cdndias, atuou S\u00e3o Pedro Claver que ali viveu e evangelizou durante quase toda a primeira metade do s\u00e9culo XVII. Na regi\u00e3o portu\u00e1ria da cidade, acolhia, alimentava e confortava os africanos escravizados que desembarcavam, sem medir gastos (SPLENDIANI e ARISTIZABAL, 2002, p.86). Aferia os conhecimentos doutrin\u00e1rios, para checar se haviam sido batizados na \u00c1frica e se tal batismo era v\u00e1lido<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, catequizava a todos e batizava, ocasionalmente \u201csob condi\u00e7\u00e3o\u201d, os escravizados, colocando em seus pesco\u00e7os uma medalhinha de chumbo, que de um lado tinha a face de Jesus e no outro a de Maria, para poder reconhecer os seus batizados na cidade. Em seu processo de beatifica\u00e7\u00e3o consta que tinha constantes desentendimentos com as senhoras da cidade, por recolher pelas ruas e pra\u00e7as os negros para a celebra\u00e7\u00e3o da missa, apesar do mau cheiro que esses exalavam, por suas feridas e prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de higiene que lhes eram impostas (SPLENDIANI e ARISTIZABAL, 2002, p.90 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 As Reformas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo reforma, embora de conte\u00fado sem\u00e2ntico pouco delimitado, foi utilizado durante toda a Idade M\u00e9dia como o chamado \u00e0 mudan\u00e7a e \u00e0 corre\u00e7\u00e3o tanto dos fi\u00e9is, no sentido da convers\u00e3o e santidade, quanto da corre\u00e7\u00e3o dos problemas de disciplina e \u00e9tica dentro do clero cat\u00f3lico. Em v\u00e1rios contextos medievais o uso do termo reforma esteve vinculado \u00e0 busca da purifica\u00e7\u00e3o e da santifica\u00e7\u00e3o dentro da Igreja. Somente ap\u00f3s o surgimento e a afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do movimento luterano \u00e9 que o termo ganha aspecto de ruptura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradicionalmente, o fen\u00f4meno da emerg\u00eancia da Reforma Protestante vem sendo explicado a partir de suas causas internas. As mais antigas vias historiogr\u00e1ficas situam em Lutero e nas 95 teses publicadas na catedral de Wittenberg o foco explicativo da Reforma. Posteriormente, a historiografia marxista incorporou a venda das indulg\u00eancias do clero alem\u00e3o, extrapolando o fen\u00f4meno como pr\u00e1tica generalizada do catolicismo, e transformou Lutero numa esp\u00e9cie de revolucion\u00e1rio lan\u00e7ando-se contra as estruturas opressivas do poder financeiro eclesi\u00e1stico. Tanto em uma quanto em outra vertente, o peso da ruptura reca\u00eda totalmente nos desvios e \u201cabusos\u201d comportamentais do clero cat\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, para uma melhor compreens\u00e3o do fen\u00f4meno, as raz\u00f5es do surgimento e da afirma\u00e7\u00e3o da Reforma devem ser pensadas de modo mais amplo. Em primeiro lugar, os \u201cabusos\u201d do clero n\u00e3o s\u00e3o causa suficientes para a Reforma, afinal o movimento reformador j\u00e1 existia dentro da pr\u00f3pria Igreja desde a Idade M\u00e9dia e nunca se tinha visto grupos que propusessem rupturas na propor\u00e7\u00e3o que come\u00e7a a se ter a partir de vozes como Lutero e os anabatistas. Al\u00e9m disso, as principais refer\u00eancias a abusos nos textos dos reformadores s\u00e3o relativas a pr\u00e1ticas lit\u00fargicas e costumes cat\u00f3licos, como a comunh\u00e3o em apenas uma esp\u00e9cie, e n\u00e3o sobre as eventuais pr\u00e1ticas privadas do clero. Muitos cr\u00edticos n\u00e3o eram separatistas, como Erasmo de Roterd\u00e3, por exemplo. Por \u00faltimo, pode-se pensar que, alguns anos mais tarde quando a Reforma Cat\u00f3lica corrigiu grande parte dos desvios de conduta generalizados entre cl\u00e9rigos, os reformadores n\u00e3o propuseram o retorno (DELUMEAU, 1989, p.59 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente as causas mais profundas da Reforma est\u00e3o ligadas \u00e0s angustias coletivas do final do medievo. A principal delas era a morte e a consequente ida para o inferno. N\u00e3o por acaso, os conc\u00edlios na baixa Idade M\u00e9dia \u2013 Lyon (1274) e Floren\u00e7a (1438-1445) \u2013 e no in\u00edcio da era moderna \u2013 Trento (1545-1563) \u2013 se ocupam deste ponto doutrin\u00e1rio. Fen\u00f4menos como a peste negra, a guerra dos Cem Anos, o Grande Cisma no Ocidente, que gerou tr\u00eas homens alegando serem o verdadeiro papa, a amea\u00e7a dos turcos otomanos, foram, enfim, uma s\u00e9rie de problemas que abalaram e desorientaram as consci\u00eancias do europeu em geral. O horror ao pecado e o medo da morte foram algumas das consequ\u00eancias deste processo, para o qual a solu\u00e7\u00e3o apresentada pelas correntes reformadoras era mais acess\u00edvel se comparada ao purgat\u00f3rio cat\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, pela teologia reformada, o pessimismo dominante gerava uma solu\u00e7\u00e3o simplificada para o bin\u00f4mio pecado\/inferno: a Gra\u00e7a advinda da f\u00e9, que era bastante e suficiente para tornar justo o homem, por si s\u00f3 inerentemente pecador. A novidade dos reformadores era propor uma f\u00e9 individual que resgatasse individualmente do pecado. Consequ\u00eancia deste postulado era que cada indiv\u00edduo era seu pr\u00f3prio sacerdote, reduzindo ao m\u00ednimo a eclesiologia e praticamente extinguindo os minist\u00e9rios ordenados. Como muitos sacerdotes possu\u00edam vida conden\u00e1vel, e desde a propaga\u00e7\u00e3o da <em>Devotio Moderna<\/em> muitos leigos buscavam uma vida santificada, a ideia reformada de um sacerd\u00f3cio universal n\u00e3o foi dif\u00edcil de ser propagada. De igual modo, a leitura do texto b\u00edblico, que neste per\u00edodo j\u00e1 n\u00e3o era rara fora do ambiente lit\u00fargico, tamb\u00e9m passa a ser de individual dire\u00e7\u00e3o. Como aponta Jean Delumeau (1989, p.78), \u201cos reformadores n\u00e3o \u2018deram\u2019 aos Crist\u00e3os os livros santos traduzidos em l\u00edngua vulgar que a Igreja teria anteriormente lhes recusado\u201d. O que aconteceu \u00e9 que a profus\u00e3o de c\u00f3pias em l\u00ednguas diferentes do latim gerou a familiaridade e o desejo de ler e interpretar as Sacras Letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.1 As reformas protestantes<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f4meno das reformas posteriormente chamadas de protestantes n\u00e3o teve in\u00edcio com Lutero, mas sem d\u00favida alguma teve nele seu primeiro grande protagonista. O frei agostiniano Martinho Lutero, que ingressou na ordem como cumprimento de uma promessa quando em perigo de morte, tornou-se um monge diligente e escrupuloso. Provavelmente j\u00e1 lhe atormentava a consci\u00eancia a grande quest\u00e3o que o levaria \u00e0 ruptura com o catolicismo: a justifica\u00e7\u00e3o do homem. Ademais de uma mir\u00edade de cr\u00edticas comportamentais, como a cobran\u00e7a pelas indulg\u00eancias praticada por parte do clero de sua pr\u00f3pria terra, a grande quest\u00e3o de Lutero sempre foi a da salva\u00e7\u00e3o ou dana\u00e7\u00e3o das almas, o que era uma quest\u00e3o comum \u00e0 \u00e9poca. No fundo, as normalmente supervalorizadas noventa e cinco teses publicadas na catedral de Wittenberg e a viagem a Roma n\u00e3o est\u00e3o no centro da Reforma Luterana. Ao contr\u00e1rio do que muitos autores afirmam, Jean Delumeau, baseado em textos do pr\u00f3prio Lutero, diz que \u201cesta viagem a Roma n\u00e3o parece ter sido determinante na evolu\u00e7\u00e3o interior\u201d do futuro reformador (DELUMEAU, 1989, p.86). J\u00e1 sobre as teses que foram copiadas e impressas por toda a Europa \u00e9 preciso notar que, quando inquirido sobre essas no cap\u00edtulo dos Agostinianos reunido em Heidelberg (abril de 1518), Lutero deu menos import\u00e2ncia \u00e0 quest\u00e3o das indulg\u00eancias do que \u00e0 sua doutrina sobre a justifica\u00e7\u00e3o (DELUMEAU, 1989, p.90).\u00a0 A vis\u00e3o do agostiniano alem\u00e3o era fortemente marcada por uma leitura pessimista da obra de Santo Agostinho, decalcando no ser humano uma total inoper\u00e2ncia contra o pecado, ficando esse, ent\u00e3o, \u00e0 merc\u00ea da Gra\u00e7a divina e nada mais. Assim, irremediavelmente pecador, o homem, enquanto indiv\u00edduo, s\u00f3 teria uma solu\u00e7\u00e3o: a f\u00e9 individual. Nas palavras do pr\u00f3prio Lutero: \u201cO livre-arb\u00edtrio depois da queda n\u00e3o \u00e9 mais que uma palavra v\u00e3; fazendo-lhe o que \u00e9 poss\u00edvel o homem peca mortalmente\u201d (DELUMEAU, 1989, p.106).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, persistindo na sua doutrina da justifica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel apenas pela f\u00e9, Lutero abre as portas para outros pensadores proporem doutrinas aut\u00f4nomas e estabelecerem confiss\u00f5es pr\u00f3prias. E foi exatamente o que fez o humanista franc\u00eas Jo\u00e3o Calvino. Por insist\u00eancia do pai formou-se, inicialmente, em direito. Com a morte desse, torna-se te\u00f3logo em Paris, todavia n\u00e3o sendo ordenado sacerdote. Aderiu \u00e0 Reforma e por isso foi expulso de Paris junto com outros huguenotes. Seguiu para Basil\u00e9ia e depois para Genebra, onde se estabeleceu. O marco inicial da doutrina calvinista foi a publica\u00e7\u00e3o, em 1536, ainda em Basileia, da sua obra <em>Institutio Religionis Christianae<\/em>, onde come\u00e7a a se apresentar efetivamente como reformador. Nela Calvino segue a eclesiologia luterana, ensinando que a Igreja \u00e9 o conjunto dos eleitos, cujos nomes s\u00f3 Deus conhece, sendo portanto essencialmente invis\u00edvel. Mas em uma edi\u00e7\u00e3o posterior (1541), apresentar\u00e1 a Igreja vis\u00edvel como alvo de grande estima e obrigat\u00f3ria comunh\u00e3o. Dada a sua percep\u00e7\u00e3o de uma dist\u00e2ncia incomensur\u00e1vel entre Deus e o homem, fomenta a iconoclastia, reafirmando que apenas as Escrituras podem oferecer um caminho para conhecer Deus. Partilhando do pessimismo do reformador de Wittemberg, Calvino amplia a sua reflex\u00e3o quando publica, em 1552, um tratado sobre a predestina\u00e7\u00e3o, explorando a premissa de que Deus concede a sua gra\u00e7a a quem assim o desejar. Os grupos que aderem ao calvinismo abra\u00e7am a predestina\u00e7\u00e3o, porque Deus escolhe a quem d\u00e1 a sua Gra\u00e7a e que, consequentemente, ser\u00e1 salvo. Aos que n\u00e3o foram eleitos para a salva\u00e7\u00e3o s\u00f3 restaria o inferno. Como nesta doutrina uma das maneiras de tornar percept\u00edvel ao mundo o grupo dos eleitos era frutificar o trabalho diligente e o comportamento austero em riquezas, esta cren\u00e7a se figurava muito atraente aos burgueses \u2013 principalmente aos financistas \u2013, que eram tidos como pecadores pelo catolicismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima das tr\u00eas grandes vertentes de reformadores \u00e9 a anglicana. O rei Henrique VIII era um cat\u00f3lico fervoroso, tendo at\u00e9 mesmo chegado a escrever um manifesto contra os erros de Lutero. Ao que parece, esta devo\u00e7\u00e3o s\u00f3 se sustentou enquanto o rei acreditava que o papa lhe seria sempre favor\u00e1vel. Quando o papa Clemente VII negou o pedido de anula\u00e7\u00e3o do casamento para o qual Henrique havia pedido licen\u00e7a a J\u00falio II, o rei percebeu que n\u00e3o tinha em Clemente o aliado incondicional de que necessitava. Para ele, era necess\u00e1rio um segundo matrim\u00f4nio na busca por um herdeiro masculino, que evitaria o retorno das guerras e conflitos pelo trono ingl\u00eas. Da\u00ed surge a ruptura da Inglaterra, por uma lei \u2013 o Ato de Supremacia (1534) \u2013 sem nenhuma quest\u00e3o teol\u00f3gica ou disciplinar a propor ao catolicismo. Esta reforma era meramente uma quest\u00e3o de obedi\u00eancia e jurisdi\u00e7\u00e3o. Ao rei cabia, a partir de ent\u00e3o, a dupla jurisdi\u00e7\u00e3o que tantos conflitos causara na Idade M\u00e9dia: a temporal e a religiosa, a mitra e a coroa repousando na mesma cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.2 As Igrejas Crist\u00e3s<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como consequ\u00eancia do movimento reformista iniciado no s\u00e9culo XVI, o que se observa no cen\u00e1rio religioso \u00e9 o aprofundamento das rupturas entre as v\u00e1rias vertentes do cristianismo. \u00c0 antiga divis\u00e3o entre Oriente e Ocidente, que, a bem das tentativas feitas no ocaso do medievo, pouco se avan\u00e7ou concretamente rumo ao reencontro, soma-se a fratura da reforma e as m\u00faltiplas divis\u00f5es colaterais \u00e0 doutrina da livre interpreta\u00e7\u00e3o das escrituras. Este ponto espec\u00edfico, comum \u00e0 grande maioria das vertentes doutrin\u00e1rias, associado \u00e0 emerg\u00eancia do indiv\u00edduo como refer\u00eancia e agente relevante, ensejou a prolifera\u00e7\u00e3o e a fragmenta\u00e7\u00e3o das correntes reformadoras em uma mir\u00edade de credos. Assim, ao longo dos cem anos seguintes aos processos fundadores reformistas, as comunidades confessionais se multiplicaram pela Europa (JEDIN, 1972, p. 577).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, as identidades nacionais nascentes se associaram \u00e0s identidades religiosas, o que conduziu \u00e0s disputas e guerras de cunho religioso, em especial na Fran\u00e7a, com a Noite de S\u00e3o Bartolomeu, quando os cat\u00f3licos massacraram os protestantes em Paris, e a Guerra dos Trinta Anos, que tinha, entre as causas dos conflitos, disputas entre cat\u00f3licos e protestantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A multiplica\u00e7\u00e3o de denomina\u00e7\u00f5es foi inevit\u00e1vel e, at\u00e9 certo ponto, previs\u00edvel. A livre interpreta\u00e7\u00e3o das Escrituras e a eclesiologia que atribui um papel quase nulo \u00e0 igreja vis\u00edvel dariam, inevitavelmente, em dissen\u00e7\u00f5es e dissen\u00e7\u00f5es das dissen\u00e7\u00f5es. Ademais do protestantismo cl\u00e1ssico de Lutero, Calvino e Zu\u00ednglio, acrescenta-se o anglicanismo. E nesse, os fi\u00e9is de influ\u00eancia calvinista, cr\u00edticos das reminisc\u00eancias cat\u00f3licas do anglicanismo, iniciam o movimento puritano, que se desdobrar\u00e1 entre os colonizadores da Am\u00e9rica do Norte e os que, na Fran\u00e7a, formariam os huguenotes. Igualmente derivados do grupo calvinista, surgiram os presbiterianos, que se distinguem pelo governo dos anci\u00e3os (presb\u00edteros). Ainda derivados dos anglicanos, os batistas surgem dos ingleses que viviam na Holanda, em 1608, caracterizando-se pela defesa do imersionismo para o ritual do batismo. Nos s\u00e9culos seguintes surgir\u00e3o pietistas, metodistas, adventistas, pentecostais, al\u00e9m de novas separa\u00e7\u00f5es do catolicismo no s\u00e9culo XIX: as igrejas veterocat\u00f3licas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.3 Reforma Cat\u00f3lica<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da parte cat\u00f3lica, j\u00e1 havia um movimento reformista iniciado ainda na Idade M\u00e9dia, conhecido como Reforma Gregoriana, em alus\u00e3o ao papa Greg\u00f3rio VII (1073-1085), e que teve avan\u00e7os e retrocessos ao longo dos s\u00e9culos. Entretanto, fazia-se urgente que os reformadores tivessem uma resposta. Esta era uma demanda do clero cat\u00f3lico e uma exig\u00eancia do imperador Carlos V. Esse, preocupado por ter seu Imp\u00e9rio dividido entre cat\u00f3licos e reformados, buscava impor uma solu\u00e7\u00e3o conciliat\u00f3ria, que preservasse a unidade de seus dom\u00ednios. Nessa tens\u00e3o, celebra-se o Conc\u00edlio de Trento, cerne da Reforma Cat\u00f3lica moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a Dieta de Worms, reunida em 1521, na qual Lutero refirmou a sua doutrina sobre a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 na presen\u00e7a do imperador Carlos V, na cristandade j\u00e1 se demandava um conc\u00edlio (ALBERIGO, 1995, p.325). N\u00e3o apenas pela gravidade da ruptura que amea\u00e7ava se alastrar, mas certamente tamb\u00e9m por influ\u00eancia da doutrina conciliarista, ainda em voga. Um dos maiores defensores de um novo conc\u00edlio geral era o pr\u00f3prio Lutero, ainda que provavelmente para ganhar tempo em seu processo de excomunh\u00e3o (JEDIN, 1960, p.99). A escolha da cidade onde teria lugar a assembleia foi dif\u00edcil e complexa. Para os luteranos, grandes fomentadores da ideia de um conc\u00edlio reformador, a sede do conc\u00edlio deveria ser na Alemanha, onde nasceu o conflito. No entanto, o tempo passava, os papas se sucediam, e a oposi\u00e7\u00e3o de Roma \u00e0 sua convoca\u00e7\u00e3o era evidente. N\u00e3o apenas pela avers\u00e3o \u00e0 doutrina conciliarista da qual a proposta estava impregnada, mas tamb\u00e9m pelo fato de que, ao menos em parte, uma tentativa semelhante fracassara em Augsburgo. O conc\u00edlio s\u00f3 come\u00e7ou a se configurar de forma efetiva depois de um encontro de Carlos V com o Papa Paulo III, ocorrido em Roma, na primavera de 1536.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve ent\u00e3o uma primeira convoca\u00e7\u00e3o, no ano seguinte, para a cidade de M\u00e2ntua, que n\u00e3o foi poss\u00edvel pela guerra entre Carlos V e Francisco I e pelas exig\u00eancias feitas pelo duque de M\u00e2ntua para abrigar o conc\u00edlio. Em outubro de 1537, o conc\u00edlio foi transferido para Vicenza, igualmente sem sucesso. Quando a expans\u00e3o das doutrinas reformadas j\u00e1 havia avan\u00e7ado muito e amea\u00e7ava penetrar na pen\u00ednsula It\u00e1lica, revestiu-se de urg\u00eancia uma a\u00e7\u00e3o por parte da C\u00faria romana. Esta a\u00e7\u00e3o foi a efetiva convoca\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio para a cidade de Trento, estrategicamente localizada no Tirol, ainda pertencente ao Imp\u00e9rio, mas de f\u00e1cil acesso aos prelados italianos. Ainda assim, o Conc\u00edlio foi realizado num per\u00edodo turbulento, entremeado de guerras que fizeram com que os trabalhos fossem suspensos e recome\u00e7assem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo de in\u00edcio, a diverg\u00eancia entre a C\u00faria e o imperador ficou clara: enquanto \u00e0 C\u00faria interessava a imediata condena\u00e7\u00e3o do luteranismo, o imperador desejava a reforma da C\u00faria para ent\u00e3o entabular um di\u00e1logo com a vertente reformada e preservar a unidade confessional do Imp\u00e9rio (ALBERIGO, 1995, p.334). A primeira das tr\u00eas etapas do Conc\u00edlio (1545-1548) foi a mais importante. Nela foram celebradas 10 sess\u00f5es, nas quais foram reafirmadas as fontes de autoridade no catolicismo \u2013 Escrituras e Tradi\u00e7\u00e3o \u2013, a doutrina do pecado original, a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 e pelas obras e a validade dos sacramentos. Na segunda etapa (1551-1552), quando tiveram lugar 6 sess\u00f5es, foram acertados c\u00e2nones sobre a eucaristia, penit\u00eancia e extrema-un\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s longa interrup\u00e7\u00e3o, o Papa Pio IV convoca um terceiro per\u00edodo (1562-1563), no qual ainda foram celebradas 9 sess\u00f5es. Este \u00faltimo per\u00edodo foi marcado por decretos disciplinares que objetivavam uma reforma na C\u00faria, ainda alvo de duras cr\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos pontos centrais do Conc\u00edlio, principalmente na primeira etapa, foi a quest\u00e3o da justifica\u00e7\u00e3o do homem, tema central na reforma luterana. Para Carlos V e seus aliados dentro do Conc\u00edlio, a defini\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica deveria admitir duas formas de justifica\u00e7\u00e3o alternativas: a f\u00e9 e as obras, que poderiam vir juntas ou preferencialmente a f\u00e9. Desse modo, \u00e0s novas vertentes do cristianismo ficaria resguardada a cren\u00e7a na f\u00e9 como forma de justifica\u00e7\u00e3o, e aos cat\u00f3licos reservado o direito de acrescentar as obras como necess\u00e1rias \u00e0 salva\u00e7\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o dos padres jesu\u00edtas Diego Laynez, que sucederia In\u00e1cio de Loyola no controle da Companhia de Jesus, e Alfonso Salm\u00e9ron, grande erudito e exegeta, contribuiu decisivamente para a distin\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria marcada no texto final do conc\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m desta quest\u00e3o central, os conciliares em Trento procuraram estabelecer com m\u00e1xima clareza os saberes e as pr\u00e1ticas envolvidas em cada um dos sacramentos. N\u00e3o apenas por estarem estes sendo postos em quest\u00e3o pelo movimento reformador, mas por considerar que \u00e9 deles que nasce a verdadeira santidade, e se esta for perdida \u00e9 por onde se a recobra ou ainda se a aumenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.4 Novas e velhas ordens e congrega\u00e7\u00f5es<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento de car\u00e1ter espiritual que surgiu no final da Idade M\u00e9dia, conhecido em sua totalidade como <em>Devotio Moderna<\/em>, assenta-se na emerg\u00eancia da refer\u00eancia ao individual em diversas esferas da vida cotidiana, inclusive na religiosa. Erwin Iserloh, se referindo ao ocaso do medievo, afirma que<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;) se hab\u00eda puesto en marcha un proceso de individualizaci\u00f3n, que descubr\u00eda lo particular en lo universal, y se liberaron enormes fuerzas espirituales, art\u00edsticas y religiosas. En conexi\u00f3n con ese movimiento est\u00e1 el despertar de un laicismo consciente de su responsabilidad, la evoluci\u00f3n de las ciudades y la formaci\u00f3n de los estados nacionales ( HUBERT, 1973, p.573)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0indicando que o mesmo fator est\u00e1 na raiz de distintos fen\u00f4menos. Trata-se da progressiva emerg\u00eancia do indiv\u00edduo como refer\u00eancia, que tanto redunda no laicismo crescente no cen\u00e1rio religioso europeu dos s\u00e9culos seguintes, quanto fundamenta as novas formas de relacionamento com o divino que se instauram dentro da pr\u00f3pria Igreja. Se n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o deste novo modelo de piedade, ao menos a partir dele, a reforma cat\u00f3lica vai p\u00f4r em marcha uma reforma das ordens religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Ao se tratar das reformas nas ordens religiosas, \u00e9 preciso que se distinga a que foi empreendida na Espanha pelo cardeal Cisneros, a pedido do papa Alexandre VI e com apoio da monarquia cat\u00f3lica. Essa distin\u00e7\u00e3o deve ser feita n\u00e3o apenas pela sua import\u00e2ncia interna, mas pelos desdobramentos que esta reforma vai ter na Am\u00e9rica, com a vinda de mission\u00e1rios de ordens j\u00e1 reformadas para o trabalho catequ\u00e9tico e mission\u00e1rio. Por influ\u00eancia de Cisneros, os franciscanos e beneditinos espanh\u00f3is foram reformados, retornando ao rigor na observ\u00e2ncia de suas regras, ent\u00e3o perdido. De modo semelhante, sob a lideran\u00e7a de Santa Tereza d\u2019\u00c1vila, o foram as carmelitas. Aos frades carmelitas \u00e9 S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz que estende o mesmo esp\u00edrito reformista. Acresce-se a esses m\u00edsticos S\u00e3o Jo\u00e3o de \u00c1vila, o ap\u00f3stolo da Andaluzia, que pregava a reforma do clero e o aprofundamento espiritual, e Santo In\u00e1cio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, autor dos Exerc\u00edcios Espirituais. Curiosamente, o esp\u00edrito antirreformista tamb\u00e9m se fazia notar; basta dizer que todos os quatro santos de esp\u00edrito m\u00edstico e reformador tiveram que se haver, de uma maneira ou de outra, com a inquisi\u00e7\u00e3o espanhola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A Companhia de Jesus assumiu caracter\u00edsticas singulares frente \u00e0s ordens mendicantes e \u00e0s demais. Destas, a mais distintiva foi a instaura\u00e7\u00e3o do quarto voto: o de obedi\u00eancia especial ao papa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s miss\u00f5es. Al\u00e9m disso, n\u00e3o habitavam em mosteiros e n\u00e3o se fixavam em um s\u00f3 lugar, sendo fundamentalmente mission\u00e1rios de inspira\u00e7\u00e3o paulina. Basta considerar que muitos dos col\u00e9gios e miss\u00f5es fundados nos primeiros anos eram dedicados \u00e0 mem\u00f3ria de S\u00e3o Paulo: Piratininga, Luanda, Goa etc. Logo ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o, foram enviadas as primeiras miss\u00f5es para dentro da pr\u00f3pria Europa, buscando recobrar os cat\u00f3licos que haviam migrado para as doutrinas reformadas. Logo em seguida foram enviados mission\u00e1rios jesu\u00edtas para cristianizar os rinc\u00f5es mais distantes no planeta: da Am\u00e9rica ao Jap\u00e3o. Um grande exemplo de mission\u00e1rio jesu\u00edta foi S\u00e3o Francisco Xavier, um dos companheiros de In\u00e1cio de Loyola na funda\u00e7\u00e3o da Companhia, enviado \u00e0 \u00cdndia e ao Jap\u00e3o, ap\u00f3s um acordo entre os jesu\u00edtas e a Coroa portuguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Outras ordens foram fundadas neste esp\u00edrito de reforma do clero regular: Santo Ant\u00f4nio Maria Zaccaria (1502-1537) fundou os Cl\u00e9rigos regulares de S\u00e3o Paulo, chamados de barnabitas, por seu monast\u00e9rio de S\u00e3o Barnab\u00e9; a\u00a0Ordem dos Cl\u00e9rigos Regulares de Somasca, os somascos, foi fundada por S\u00e3o Jer\u00f3nimo Emiliano, um leigo consagrado que se dedicou ao cuidado dos \u00f3rf\u00e3os. S\u00e3o Jer\u00f4nimo era muito pr\u00f3ximo de S\u00e3o Caetano de Thiene, que fundou a ordem dos teatinos. O santo da alegria, S\u00e3o Felipe Neri, fundou uma comunidade de cl\u00e9rigos seculares conhecida como Congrega\u00e7\u00e3o do Orat\u00f3rio, ou oratorianos. Algumas mulheres tamb\u00e9m criaram ordens regulares neste movimento, como Santa Angela de Merici (1474-1540), que foi fundadora da <em>Compagnia delle dimesse di Santa Orsola<\/em> (as chamadas ursulinas), destinada ao abrigo e educa\u00e7\u00e3o de meninas abandonadas. \u00c9 importante notar que o Estado n\u00e3o cumpria as fun\u00e7\u00f5es de cura, sustento e educa\u00e7\u00e3o dos s\u00faditos. Cabia a institui\u00e7\u00f5es caritativas, em geral ligadas \u00e0s iniciativas do clero cat\u00f3lico, desempenhar este papel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>5<\/strong>\u00a0<strong>A religiosidade popular latino-americana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>O termo religiosidade popular refere-se, por si s\u00f3, \u00e0s leituras e interpreta\u00e7\u00f5es do povo e da rela\u00e7\u00e3o que esse estabelece com o sagrado (NASCIMENTO, 2009, p.119-30). Frequentemente, constitui-se do am\u00e1lgama entre tradi\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as de origens diversas com a doutrina e a liturgia cat\u00f3lica, resultando em formas de culto, cren\u00e7as e devo\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s cat\u00f3licas, mas com significados deslocados pelos saberes populares. Sem sombra de d\u00favidas, as pr\u00e1ticas religiosas populares de Portugal e Espanha, passadas quase sempre pela via materna, deram origem, no encontro com os ritos locais amer\u00edndios e os importados da \u00c1frica, ao catolicismo popular latino-americano (DUSSEL, 1983, p.200).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para uma melhor compreens\u00e3o desta simbiose de formas e conte\u00fados religiosos, \u00e9 preciso considerar que, do ponto de vista da antropologia cultural, a religiosidade \u00e9 a forma com a qual as sociedades lidam com o inesperado e com o que lhes escapa ao controle \u2013 como o resultado das colheitas, o regime das chuvas, os problemas de sa\u00fade e a morte. O cristianismo, como religi\u00e3o revelada, transcende este aspecto primeiro, mas acaba dialogando com ele, na medida em que se propaga por meio da prega\u00e7\u00e3o de suas verdades. Na medida em que foi alcan\u00e7ando grupos cada vez mais distantes em termos de padr\u00f5es culturais, o conte\u00fado da prega\u00e7\u00e3o passou por filtros cada vez mais variados e foi associado a formas de crer e ver o mundo cada vez mais distintas da judaico-europeia, da qual saiu o modelo cat\u00f3lico que chega \u00e0 idade moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, os mission\u00e1rios cat\u00f3licos, preocupados em garantir a salva\u00e7\u00e3o dos menos letrados, empreenderam enormes esfor\u00e7os catequ\u00e9ticos. No entanto, neste contexto de confronto religioso com os reformadores, o povo cat\u00f3lico iletrado e os povos \u00e1grafos foram, no mais das vezes, subavaliados na sua capacidade de aprendizado e de compreens\u00e3o doutrin\u00e1ria. Nos s\u00e9culos XVI e XVII, abundavam na cristandade os catecismos resumidos para as crian\u00e7as, os rudes, os brutos e todos considerados curtos de intelig\u00eancia (MU\u00d1OZ, 2006, p.417). Em cada espa\u00e7o do globo havia rudes e brutos espec\u00edficos, mas de modo geral eram os camponeses, os pobres, os \u00edndios e os africanos, neste \u00faltimo caso tantos os que viviam l\u00e1 quanto os que foram trazidos para a Am\u00e9rica e seus descendentes. \u00c9 em meio a este povo de <em>rudes e brutos<\/em> que um modelo muito particular de catolicismo vai se desenvolver na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 poss\u00edvel considerar que neste processo de evangeliza\u00e7\u00e3o sob condi\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas, ou seja, em um contexto de coloniza\u00e7\u00e3o e conquista, construiu-se um catolicismo mesti\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que a cultura popular e a sua religiosidade encontraram, nas formas cat\u00f3licas de culto ou de express\u00e3o de seus valores, mecanismos para viabilizar suas cren\u00e7as ancestrais, assim como suas necessidades imediatas. Por isso, antes das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, havia uma grande dist\u00e2ncia entre a devo\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica aos santos e o pedido de sua intercess\u00e3o, e a cren\u00e7a popularesca no poder atribu\u00eddo aos santos de fazer milagres, com poderes que lhes seriam pr\u00f3prios \u2013 apenas para citar um exemplo. Do mesmo modo, a doutrina cat\u00f3lica como expressa em Trento sobre os sacramentos dista em muito da interpreta\u00e7\u00e3o que deles se fazia nas camadas mais populares \u2013 dos rudes e brutos \u2013 menos afeitas a complexos conceitos teol\u00f3gicos. At\u00e9 as irmandades de leigos, lugar do catolicismo n\u00e3o clerical por excel\u00eancia, eram n\u00e3o raras vezes usadas muito mais como lugares para visibilidade e status sociais que efetivamente de culto e adora\u00e7\u00e3o (BOSCHI, 1986, p.14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A populariza\u00e7\u00e3o da doutrina e os movimentos de leigos incrementados pelo Conc\u00edlio Vaticano II tenderam a diminuir a dist\u00e2ncia entre o que a Igreja ensina e o que o povo mais engajado no catolicismo cr\u00ea. No entanto, fora dos c\u00edrculos estritamente cat\u00f3licos, as cren\u00e7as perpassadas de figura\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas ainda se mant\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em>Carlos Engemann, <\/em>Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Refer\u00eancias <\/strong><strong>bibliogr\u00e1ficas<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALBERIGO, Giuseppe (org.). <em>Hist\u00f3ria dos Conc\u00edlios Ecum\u00eanicos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ANDR\u00c9S-GALLEGO, Jos\u00e9. <em>Por qu\u00e9 los jesuitas<\/em>: raz\u00f3n y sinraz\u00f3n de una decisi\u00f3n capital.\u00a0 Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.larramendi.es\/i18n\/consulta\/registro.cmd?id=1221\">www.larramendi.es\/i18n\/consulta\/registro.cmd?id=1221<\/a>. Acesso em 6 out 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BENCI, Jorge. <em>Economia Crist\u00e3 dos Senhores no Governo dos Escravos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Grijalbo, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOSCHI, Caio C\u00e9sar. <em>Os leigos e o poder<\/em> \u2013 irmandades leigas e pol\u00edtica colonizadora em Minas Gerais. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASTELNAU-L\u2019ESTOILE, Charlotte de<em>. Oper\u00e1rios de uma vinha est\u00e9ril<\/em>: os jesu\u00edtas e a convers\u00e3o dos \u00edndios no Brasil 1580-1620. Bauru: Edusc, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COXITO, Am\u00e2ndio A. Luis de Molina e a escravatura. In: <em>Revista Filos\u00f3fica de Coimbra<\/em>. n.15, p.117-36. 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DELUMEAU, Jean. <em>Nascimento e afirma\u00e7\u00e3o da Reforma<\/em>. S\u00e3o Paulo: Pioneira, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DIXON, C. 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O arcebispo de Sevilha D. Pedro de Castro y Qui\u00f1ones proferiu, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, uma instru\u00e7\u00e3o que se tornou modelar para a catequese de africanos e nela recomendava que se questionasse se o indiv\u00edduo havia ouvido catequese, se a tinha compreendido, se a tinha aceitado e se havia desejado ser batizado. Claver utilizava essa instru\u00e7\u00e3o no seu trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 O per\u00edodo moderno 2 Os descobrimentos e a expans\u00e3o da cristandade 3 A evangeliza\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s 3.1 Os amer\u00edndios 3.2 Os povos da \u00c1frica 3.3 A escravid\u00e3o colonial e o catolicismo 4 As Reformas 4.1 As reformas protestantes 4.2 As Igrejas Crist\u00e3s 4.3 Reforma Cat\u00f3lica 4.4 Novas e velhas ordens e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-596","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-da-teologia-e-do-cristianismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/596","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=596"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/596\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1096,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/596\/revisions\/1096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}