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{"id":592,"date":"2015-02-24T14:22:15","date_gmt":"2015-02-24T17:22:15","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=592"},"modified":"2016-03-31T21:21:35","modified_gmt":"2016-04-01T00:21:35","slug":"cristianismo-medieval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=592","title":{"rendered":"Cristianismo Medieval"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>1 Significado hist\u00f3rico de \u201cCristianismo Medieval\u201d<\/p>\n<p>2 Circunscrevendo a cristandade latina\u00a0 (s\u00e9culos V-X)<\/p>\n<p>2.1 A <em>Ecclesia<\/em> e a nova situa\u00e7\u00e3o do Ocidente<\/p>\n<p>2.2 O papel do monasticismo<\/p>\n<p>2.3 A cristandade carol\u00edngia<\/p>\n<p>3 Circunscrevendo a cristandade papal (s\u00e9culos XI-XV)<\/p>\n<p>3.1 O significado hist\u00f3rico da afirma\u00e7\u00e3o do papado<\/p>\n<p>3.2 O avan\u00e7o do poder papal<\/p>\n<p>3.3 As universidades e a escol\u00e1stica medieval<\/p>\n<p>3.4 O cristianismo e o disciplinamento da sociedade<\/p>\n<p>3.4.1 As cruzadas<\/p>\n<p>3.4.2 O tribunal da inquisi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>4 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Significado hist<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>rico de <\/strong><strong>\u201c<\/strong><strong>Cristianismo Medieval<\/strong><strong>\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum acontecimento ou caracter\u00edstica particular nos autoriza a tomar por <em>medieval<\/em>, isto \u00e9, \u201cpor oposi\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0ou supera\u00e7\u00e3o\u201d da antiguidade, o cristianismo que se desenvolveu no Ocidente ap\u00f3s a deposi\u00e7\u00e3o do imperador romano R\u00f4mulo Augusto, em 476.\u00a0Do ponto de vista pol\u00edtico, as Igrejas do Ocidente mantiveram, da\u00ed\u00a0em diante, a mesma tradi\u00e7\u00e3o oriental de serem protegidas e, de certo modo, governadas pela autoridade imperial romana e, na falta dela, pelos monarcas romano-germ\u00e2nicos, fazendo repercutir historicamente o modelo social da cristandade (<em>christianitas<\/em>) definido ap\u00f3s a chamada \u201cguinada constantiniana\u201d de 313. Do ponto de vista teol\u00f3gico, os debates em torno das naturezas de Cristo e de sua vontade, o lugar e a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo na Trindade e na hist\u00f3ria continuaram a povoar a mente dos bispos orientais e ocidentais, e a inquietar os governadores do Imp\u00e9rio que prosseguiram no costume de convocar conc\u00edlios ecum\u00eanicos e regionais, para buscar a paz e o consenso entre as muitas teologias da Igreja. Isso n\u00e3o impede que mudan\u00e7as profundas tenham vindo a marcar o futuro dessa hist\u00f3ria, como, por exemplo, o gradativo afastamento cultural, teol\u00f3gico e disciplinar entre as igrejas orientais e as igrejas ocidentais (entre os s\u00e9culos V-XI), o surgimento de igrejas nacionais, com a forma\u00e7\u00e3o dos reinos b\u00e1rbaros (s\u00e9culos V-VI), a ascens\u00e3o do papado como centro de governo eclesial disposto a ocupar o ponto mais alto de autoridade na\u00a0<em>Ecclesia<\/em>\u00a0(s\u00e9culos V-XI), o acirramento dos sistemas persecut\u00f3rios dos desvios dogm\u00e1ticos e morais, que aos poucos foram assumindo caracter\u00edsticas sempre mais sociais e pol\u00edticas (s\u00e9culos VIII-XIV), e atraindo para si um significado hist\u00f3rico de primeira grandeza no Ocidente latino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Circunscrevendo a cristandade latina (s<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>culos V-X)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.1 A Ecclesia e a nova situa<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o do Ocidente<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo romano, no s\u00e9culo V, conheceu uma importante reviravolta em sua hist\u00f3ria, com consequ\u00eancias ingentes para a hist\u00f3ria do cristianismo: popula\u00e7\u00f5es estrangeiras, que os romanos chamavam de b\u00e1rbaras (godos, burg\u00fandios, suevos e v\u00e2ndalos), instalaram-se definitivamente nas regi\u00f5es ocidentais do imp\u00e9rio (GEARY, 2005). Tais popula\u00e7\u00f5es provavelmente n\u00e3o eram crist\u00e3s antes da entrada no territ\u00f3rio romano, e o processo de cristianiza\u00e7\u00e3o desses povos \u00e9 bastante amplo e complexo, marcado, <em>grosso modo<\/em>, por uma ado\u00e7\u00e3o coletiva do cristianismo, ocorrida como parte da instaura\u00e7\u00e3o dos chamados reinos federados (ou romano-germ\u00e2nicos), isto \u00e9, substitutos da autoridade romana nas prov\u00edncias ocidentais (DUM\u00c9ZIL, 2005, p.143-64); tratava-se, portanto, de um ato pol\u00edtico feito a partir da decis\u00e3o dos governantes b\u00e1rbaros e extens\u00edvel \u00e0s popula\u00e7\u00f5es que reconheciam a autoridade deles (WICKHAM, 2013, p.118-9). Enquanto os cidad\u00e3os do imp\u00e9rio, no Ocidente, professavam a f\u00e9 defendida pelos conc\u00edlios de Niceia (325), Constantinopla (381), \u00c9feso (431) e Calced\u00f4nia (451), as popula\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras adotaram um outro tipo de cristianismo, definido nos conc\u00edlios regionais de Sel\u00eaucia e Rimini, em 359, cuja doutrina foi pejorativamente chamada \u201cariana\u201d porque, segundo seus cr\u00edticos, tratava-se ainda de defender a subalternidade de Cristo em rela\u00e7\u00e3o ao Pai, premissa defendida por \u00c1rio de Alexandria e recha\u00e7ada pelo Conc\u00edlio de Niceia. No entanto, para os b\u00e1rbaros, a quest\u00e3o n\u00e3o era o dogma, mas a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade coletiva para grupos multi\u00e9tnicos, como os godos e v\u00e2ndalos, que encontraram no cristianismo um modo de se afirmarem como comunidade distinta dos romanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, enquanto o episcopado latino (niceno) via os b\u00e1rbaros como \u201carianos\u201d, isto \u00e9, hereges, os b\u00e1rbaros viam os crist\u00e3os nicenos (latinos) como romanos: duas posturas, dois tipos de igreja (FRIGHETTO, 2010, p.114-30). Os reinos romano-germ\u00e2nicos instalados no Ocidente possu\u00edam uma hierarquia eclesi\u00e1stica particular que formava igrejas pr\u00f3prias, nacionais, que se identificavam com as popula\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras e por elas eram defendidas como marca de sua identidade comunit\u00e1ria. Com exce\u00e7\u00e3o dos v\u00e2ndalos, no Norte da \u00c1frica, os crist\u00e3os ditos arianos n\u00e3o costumavam indispor-se ou intimidar os crist\u00e3os nicenos, com quem conviviam nas mesmas cidades, n\u00e3o destitu\u00edam os bispos nicenos, n\u00e3o confiscavam seus bens e muito menos pretendiam converter os latinos, atitude muito praticada por esses. O episcopado latino (niceno) procurou principalmente influenciar os mecanismos de governo destes reis que, apesar de n\u00e3o nicenos, pretendiam adotar a tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica romana e, por isso, viram no episcopado latino um importante vetor de romaniza\u00e7\u00e3o. Tal demanda suscitou uma alian\u00e7a entre o governo e a f\u00e9, por\u00e9m com caracter\u00edsticas bastante diferentes daquela alian\u00e7a dos tempos de Teod\u00f3sio I (380). No Oriente, o chefe vis\u00edvel da Igreja era o imperador, mas no Ocidente, sem autoridade imperial desde 476, este cargo ficou vago, pois os reis, n\u00e3o sendo de f\u00e9\u00a0nicena, eram legalmente her\u00e9ticos e, neste sentido, n\u00e3o podiam ser vistos pelos bispos na mesma condi\u00e7\u00e3o dos imperadores. Assim, o episcopado cat\u00f3lico latino tomou para si a miss\u00e3o de evangelizar os reis e de ensin\u00e1-los a governar. E, dentre todos os bispos, o de Roma assumiu um posto destacado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de haver, no Ocidente, apenas uma S\u00e9 apost\u00f3lica, a de Roma, al\u00e7ou a autoridade de seu bispo a uma posi\u00e7\u00e3o \u00edmpar entre os bispos das diversas igrejas que, apesar de latinas, ainda n\u00e3o se reconheciam como dependentes de uma tradi\u00e7\u00e3o romano-papal, como \u00e9 o caso da igreja ib\u00e9rica ou da igreja norte-africana. A situa\u00e7\u00e3o era um pouco diversa nas G\u00e1lias, onde, por for\u00e7a pol\u00edtica, o imperador Valentiniano III, em 444, vinculara a igreja galicana \u00e0 igreja de Roma, fazendo seus bispos obedecerem a todas as leis can\u00f4nicas sancionadas pelo papa, a aceitarem as advert\u00eancias que viesse a proferir, podendo, inclusive, serem punidos politicamente, caso o papa os denunciasse ao governador da prov\u00edncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 595, quando o papa Greg\u00f3rio Magno enviou quarenta monges romanos ao reino de Kent (sul da atual Inglaterra), ainda pag\u00e3o, com a miss\u00e3o de converter o rei Etelberto e fundar a igreja no reino (597), vinculou juridicamente aquela igreja, chefiada por Agostinho de Cantu\u00e1ria, seu antigo colaborador em Roma, \u00e0 autoridade papal; a marca desta depend\u00eancia, in\u00e9dita na hist\u00f3ria da Igreja, ficou evidente no rito de concess\u00e3o papal do p\u00e1lio pastoral ao bispo primaz de Cantu\u00e1ria.\u00a0 Ora, este gesto viria a ser repetido com outro monge-bispo mission\u00e1rio, Bonif\u00e1cio (673-754), que, sob as ordens de outro papa chamado Greg\u00f3rio (Greg\u00f3rio II, papa de 715 a 731), tomou a peito a evangeliza\u00e7\u00e3o das \u00e1reas germ\u00e2nicas da Sax\u00f4nia, Hesse e Bav\u00e1ria: uma evangeliza\u00e7\u00e3o conturbada, violenta e impositiva que elevou ao paroxismo a tend\u00eancia dos reinos b\u00e1rbaros de serem convertidos juntos com seus reis (BROWN, 1999, p.273). A entrega do p\u00e1lio, que marcava a extens\u00e3o da autoridade papal sobre igrejas de miss\u00e3o, tornou-se, depois, obrigat\u00f3ria para todos os bispos metropolitanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.2 O papel do monasticismo<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os monges e seus mosteiros se tornaram os principais vetores da evangeliza\u00e7\u00e3o do Ocidente porque souberam adaptar o cristianismo \u00e0s regi\u00f5es n\u00e3o romanizadas. Em primeiro lugar, \u00e9 preciso ter presente que a primitiva implanta\u00e7\u00e3o das comunidades crist\u00e3s sempre dependeu do sistema administrativo romano das <em>civitates <\/em>(cidades): tal pressuposto era bastante dif\u00edcil de existir em \u00e1reas n\u00e3o romanizadas ou em regi\u00f5es ao norte de Europa, onde n\u00e3o havia cidades ou onde elas eram muito raras. Ao passo que era preciso haver uma cidade para que houvesse um bispo, os mosteiros podiam ser constru\u00eddos em regi\u00f5es ermas, com ou sem popula\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, com ou sem um sistema pol\u00edtico definido, propriedades e hierarquias eclesi\u00e1sticas. Nesse sentido, os mosteiros sempre foram mais pl\u00e1sticos, mais adapt\u00e1veis aos mais diversos ambientes, dado que o monasticismo, em si mesmo considerado, n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o, mas um modo de vida; al\u00e9m disso, numa regi\u00e3o de forte predomin\u00e2ncia de comunidades rurais de pequenas propor\u00e7\u00f5es ou ainda frente \u00e0 exist\u00eancia de um sistema cl\u00e2nico ou tribal, como era o caso da Irlanda no s\u00e9culo V (DUM\u00c9ZIL, 2006, p.58), os mosteiros adaptavam-se a toda sorte de ambientes e, em todos eles, implantavam igrejas e ofereciam os sacramentos e a prega\u00e7\u00e3o, reproduzindo, assim, aquilo que antes apenas a <em>ecclesia mater<\/em> do bispo, presente numa cidade, era capaz de oferecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembremo-nos ainda de que o monasticismo do Ocidente, inspirado no modelo oriental, concebia a sua forma de vida a partir de uma profunda ascese que se traduzia, muitas vezes, no enfrentamento concreto dos perigos e desafios que as regi\u00f5es mais in\u00f3spitas e as popula\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o cristianizadas tinham a oferecer. N\u00e3o podemos interpretar a <em>fuga mundi<\/em>, um dos grandes temas da vida mon\u00e1stica, como um desinteresse pelo mundo enquanto campo de a\u00e7\u00e3o da vida espiritual. Os mosteiros jamais foram fechados \u00e0 sociedade circunvizinha e, a partir da experi\u00eancia cenob\u00edtica proposta pela <em>Regra<\/em> de S\u00e3o Bento de N\u00farsia (480-543), sempre se apresentaram como <em>escolas do servi<\/em><em>\u00e7<\/em><em>o do Senhor<\/em>, tanto para o vocacionado que chegava, quanto para os habitantes das redondezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a igreja episcopal, implantada somente nas cidades, constitu\u00eda um espa\u00e7o p\u00fablico de culto, os mosteiros podiam ser constru\u00eddos por particulares em propriedades privadas, o que, de um lado, abria a possibilidade de haver tantos mosteiros quantos fossem seus benfeitores e, de outro, associava o mosteiro ao patrim\u00f4nio de uma fam\u00edlia que procurava, pela sua constru\u00e7\u00e3o, ligar-se a um capital espiritual inesgot\u00e1vel, facultar a exist\u00eancia de um lugar de mem\u00f3ria para a sua parentela, ali sepultada, bem como encontrar um futuro para os filhos e filhas que n\u00e3o tivessem conseguido bons casamentos: o mosteiro reproduzia o <em>status<\/em> aristocr\u00e1tico da fam\u00edlia (LE JAN, 2006, p.56-82). A Regra de Bento, por exemplo, valorizava a pr\u00e1tica da doa\u00e7\u00e3o de filhos crian\u00e7as aos mosteiros (os oblatos), junto com a d\u00e1diva monet\u00e1ria ou patrimonial que assegurava a sua educa\u00e7\u00e3o, o que tornou as abadias verdadeiras casas aristocr\u00e1ticas. Desse modo, o cenobitismo de observ\u00e2ncia beneditina correspondia bem \u00e0s caracter\u00edsticas nobili\u00e1rquicas das sociedades romano-b\u00e1rbaras que se desenvolveram no Ocidente, entre os s\u00e9culos V-VIII, e isso constituiu importante explica\u00e7\u00e3o para o sucesso da vida mon\u00e1stica ocidental no processo de cristianiza\u00e7\u00e3o, na medida em que o avan\u00e7o do evangelho foi interpretado como o avan\u00e7o das estruturas sociopol\u00edticas dos reinos romano-germ\u00e2nicos simultaneamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em regi\u00f5es germ\u00e2nicas que n\u00e3o haviam conhecido a romaniza\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o, as comunidades crist\u00e3s l\u00e1 fundadas, a partir do s\u00e9culo VII, dependeram exclusivamente da a\u00e7\u00e3o de monges, como S\u00e3o Bonif\u00e1cio, que, ao construir mosteiros como base primeva do in\u00edcio da evangeliza\u00e7\u00e3o, deram origem a verdadeiras cidades, desta vez constru\u00eddas exclusivamente sobre a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e segundo um pressuposto crist\u00e3o. Isso porque os mosteiros de matriz beneditina organizam-se como n\u00facleos aut\u00f4nomos de produ\u00e7\u00e3o de bens, miniaturizando e adaptando o sistema urbano nos limites do claustro e da\u00ed ao seu redor, donde a sua import\u00e2ncia na reprodu\u00e7\u00e3o dos sistemas sociopol\u00edticos do Ocidente crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como vimos, Bonif\u00e1cio estava investido da autoridade mission\u00e1ria conferida pelo papa de Roma, e era militarmente protegido pelas armas do reino franco. Ora, a comunh\u00e3o de interesses entre os monges mission\u00e1rios de S\u00e3o Bonif\u00e1cio, a S\u00e9 papal e o poder carol\u00edngio \u00e9 que deram vigor ao modelo de <em>cristandade<\/em> latina, tendo seu centro espiritual em Roma e seu centro pol\u00edtico na G\u00e1lia. Embora a a\u00e7\u00e3o dos carol\u00edngios, que instauraram um imp\u00e9rio crist\u00e3o no Ocidente, sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os dos sucessores de S\u00e3o Pedro, tenha abrangido uma reforma social mediante uma reforma completa do clero, eles contaram com o apoio irrestrito dos monges, qual falange her\u00f3ica de contemplativos-mission\u00e1rios que, no caso da evangeliza\u00e7\u00e3o da Fr\u00edsia (atual Holanda), reviveram o antigo esp\u00edrito martirial das origens. Entre os s\u00e9culos VII-IX, os mosteiros foram, de fato, os centros intelectuais da cristandade latina, pois os carol\u00edngios, a\u00ed inclu\u00eddos seus ide\u00f3logos, entendiam que o imp\u00e9rio crist\u00e3o n\u00e3o era apenas um imp\u00e9rio de armas, mas de palavra e, sobretudo, da Palavra, no sentido evang\u00e9lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os mosteiros se tornaram oficinas de manuscritos, de gram\u00e1tica, de arte, de pensamento: ali estudavam os funcion\u00e1rios da burocracia imperial que, depois, fundariam as escolas catedrais (s\u00e9c. IX) e, futuramente, as faculdades que deram origem ao sistema universit\u00e1rio ocidental (s\u00e9c. XII). Isso n\u00e3o significou que os monges tenham se apropriado da cultura escrita, patrim\u00f4nio universal, e impedido que os leigos se acercassem dele; ao contr\u00e1rio, a cultura romano-b\u00e1rbara, pr\u00f3pria do per\u00edodo carol\u00edngio, segmentava a sociedade em categorias quase profissionais, reservando para os contemplativos o of\u00edcio das letras, para os aristocratas leigos, o of\u00edcio das armas e para os n\u00e3o-aristocratas, os demais trabalhos manuais. Assim, devemos aos mosteiros grande parte de toda a cultura crist\u00e3 do Ocidente, a\u00ed inclu\u00eddas a arte, a filosofia e o pensamento pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.3 A cristandade carol<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>ngia<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dinastia carol\u00edngia deve seu nome a Carlos Martel (686-741), av\u00f4 de Carlos Magno (747?-814) e pai de Pepino III (715-768): Carlos deu origem \u00e0 fam\u00edlia aristocr\u00e1tica que promoveu um golpe de Estado (WICKHAM, 2013, p.472) no reino franco, em 751, depondo o rei merov\u00edngio Childerico III. Este golpe contou com o aval e a coniv\u00eancia do bispo de Roma, o papa Zacarias (741-752), e com seus sucessores imediatos que, um a um, foram aprovando e dotando de privil\u00e9gios a nova fam\u00edlia reinante: os papas concederam aos carol\u00edngios o t\u00edtulo de reis, os ungiram, os coroaram, fizeram-nos imperadores de todo o Ocidente, implementaram com eles um projeto que devia tornar todo o territ\u00f3rio ocidental uma s\u00f3 cristandade, capaz de rivalizar e suplantar a cristandade do Oriente, naquela \u00e9poca governada por imperadores <em>iconoclastas<\/em>. A uni\u00e3o do papado com os carol\u00edngios teve uma import\u00e2ncia medonha para o futuro da hist\u00f3ria da Igreja: de um lado, ratificou o golpe de Estado, tornando-o vontade de Deus; de outro lado, blindou o papado das investidas dos reis lombardos, que insistiam em n\u00e3o reconhecer a superioridade pol\u00edtica dos papas na pen\u00ednsula italiana. Esta \u00e9poca marca o in\u00edcio decisivo de uma caminhada institucional que al\u00e7ar\u00e1 os bispos de Roma \u00e0 qualidade de soberanos pont\u00edfices, processo que demorou s\u00e9culos e que exigiu grande esfor\u00e7o. Mas, no s\u00e9culo VIII, a autoridade apost\u00f3lica da S\u00e9 de Roma, reconhecida por todas as igrejas do Ocidente, ainda n\u00e3o significava a superemin\u00eancia dos papas sobre os bispos ou sobre os reis. Assim, a cristandade que vemos se descortinar nesse per\u00edodo deve mais propriamente se chamar carol\u00edngia ou franca porque suas fronteiras ainda coincidiam com aquelas do reino franco-carol\u00edngio. De fato, os ide\u00f3logos do poder r\u00e9gio, a\u00ed inclusos cl\u00e9rigos da cepa de Alcu\u00edno de York (735-804) e Teodulfo de Orle\u00e3s (750-821), bem como os diversos conc\u00edlios e s\u00ednodos episcopais, como aquele de Frankfurt, de 794, insistiam em tomar por sin\u00f4nimos os termos <em>ecclesia<\/em> (igreja) e <em>imperium<\/em> (imp\u00e9rio) (DE JONG, 2003, p.1255). Ora, tal fato calhava bem com a proposta de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Carlos Magno, que promoveu uma aproxima\u00e7\u00e3o entre seu reino e aquele do antigo Israel, governado por Davi, Salom\u00e3o e Josias, tr\u00eas figuras que aparecem sempre citadas nos documentos emanados da corte r\u00e9gia e representados nas igrejas de seus pal\u00e1cios. No fundo, esperava-se que o reino dos francos superasse aquele dos israelitas do Antigo Testamento porque constitu\u00eda o reino de Cristo e, portanto, era universal e escatol\u00f3gico. Dentro desta perspectiva, as a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e militares de Carlos Magno e, depois, Lu\u00eds o Piedoso (778-840) foram encetadas e interpretadas segundo o mote veterotestament\u00e1rio do exterm\u00ednio dos inimigos de Deus, agora identificados com os mu\u00e7ulmanos, os pag\u00e3os e todo tipo de hereges.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por ser um imp\u00e9rio-igreja, as celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, bem como as defini\u00e7\u00f5es doutrinais, assumiam um posto de primeira import\u00e2ncia e preocupavam sobremaneira os imperadores carol\u00edngios, afinal eram as preces que mantinham a invencibilidade do reino e a expans\u00e3o da f\u00e9: no s\u00e9culo IX, era em territ\u00f3rio franco que se encontravam os mais brilhantes liturgistas, os te\u00f3logos de renome com suas escolas mon\u00e1sticas ou episcopais. A corte de Carlos Magno, justamente chamada de <em>sacrum palatium<\/em>, em Aix-la-chapelle, era vista, pelos bispos do Ocidente, como o centro da perfeita liturgia, modelo para as diversas igrejas particulares. Foi dos mosteiros de Carlos que saiu talvez a maior reforma da missa latina, pois misturam-se, adaptando-as, as liturgias galicana e romana, numa s\u00edntese que passou a definir o missal romano, desde ent\u00e3o tornado universal no imp\u00e9rio, e p\u00f4s fim ao missal galicano, que rapidamente caiu em desuso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de reconhecer que, sem os papas, os carol\u00edngios n\u00e3o teriam ido t\u00e3o longe, eles sabiam bem que a cristandade que formavam era completa nela mesma, por conta da fraternidade entre bispos e reis. Nesta \u00e9poca, tanto os bispos como os reis sabiam bem que o poder das chaves, dado a Pedro por Jesus, conforme o Evangelho de Mateus, cap\u00edtulo 16, era extens\u00edvel ao poder episcopal como um todo e que os papas de Roma ainda n\u00e3o tinham a exclusividade nesse campo (DE JONG, 2003). Assim \u00e9 que o conc\u00edlio de Frankfurt, de 794, invalidou, para o Ocidente, os efeitos do Segundo Conc\u00edlio de Niceia (787) que, presidido por uma mulher, a imperatriz Irene, p\u00f4s fim ao cisma iconoclasta; tamanha a autoridade do episcopado carol\u00edngio que, mesmo que o papa de Roma tenha considerado leg\u00edtimo e ecum\u00eanico este conc\u00edlio, foi obrigado a tergiversar e encontrar um ponto de equil\u00edbrio entre as duas eclesiologias. Ora, a igreja carol\u00edngia, ao negar a possibilidade de conferir aos \u00edcones uma rever\u00eancia desmesurada, como pretendia o II Conc\u00edlio de Niceia, procurava assegurar que tanto o sacramento eucar\u00edstico quanto o pr\u00f3prio minist\u00e9rio episcopal n\u00e3o perdessem o exclusivo papel de mediadores entre Deus e os homens. Nesse momento, foi o episcopado comandado por Carlos Magno que manteve a Igreja latina na tradi\u00e7\u00e3o de Greg\u00f3rio Magno, para quem as imagens e \u00edcones eram ve\u00edculos de ensinamento doutrinal e moral e n\u00e3o objetos de venera\u00e7\u00e3o neles mesmos. A forte ideia de que o imp\u00e9rio crist\u00e3o mantinha a integridade da f\u00e9 deu aos cl\u00e9rigos e fi\u00e9is a impress\u00e3o de que viviam, de fato, no reino de Cristo e que esse reino agora se aproximava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais crist\u00e3o que o imp\u00e9rio carol\u00edngio pudesse ser, permanecia o fato de que, teologicamente, a <em>ecclesia<\/em> possu\u00eda uma natureza diferente daquela do reino terreno, nascido, segundo o G\u00eanesis, ap\u00f3s o pecado de Ad\u00e3o; a <em>ecclesia<\/em>, a julgar pela literatura patr\u00edstica, como o <em>Pastor de Hermas<\/em>, antecedia \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do mundo. Ora, a consci\u00eancia dos bispos do per\u00edodo carol\u00edngio e p\u00f3s-carol\u00edngio foi gradativamente aumentando a reflex\u00e3o acerca dos limites do poder r\u00e9gio sobre a no\u00e7\u00e3o mesma de igreja e, com isso, temos o surgimento de inflex\u00f5es eclesiol\u00f3gicas em novas bases. N\u00e3o \u00e9 que o episcopado e, com ele, o papado, fossem j\u00e1 suficientemente fortes a ponto de negarem aos reis e pr\u00edncipes lugar fundamental no conceito de <em>ecclesia<\/em>, mas que j\u00e1 n\u00e3o queriam permitir que o papel por eles desempenhado servisse para diminuir o poder dos bispos, bem como o tamanho de seus bens, frequentemente utilizados para as necessidades dos pr\u00f3prios reis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Circunscrevendo a cristandade papal (s<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>culos XI-XV)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.1 O significado hist<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>rico da afirma<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o do papado<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre os mais frequentes estere\u00f3tipos da chamada Idade M\u00e9dia, encontra-se aquele relativo ao poder temporal dos papas. Pensa-se que tenham sido homens todo-poderosos capazes de vergar reis e imperadores e instaurar a ordem social nos momentos de crise, quando reis e imperadores, por motivos torpes, n\u00e3o eram capazes de cumprir seu papel. Tais estere\u00f3tipos encontram o aval de importantes historiadores, na medida em que, no s\u00e9culo XX, muitos deles viram no papado medieval o in\u00edcio do ordenamento pol\u00edtico-estatal que marcou, inclusive, o fim da Idade M\u00e9dia e o come\u00e7o da modernidade (RUST, 2014). A \u00e9poca dos papas estadistas, monarcas sacerdotais incontestes, parece, hoje, mais o produto de um mito historiogr\u00e1fico moderno do que um fato social instaurado na \u00e9poca de que tratamos. N\u00e3o que os papas n\u00e3o tivessem exercido uma autoridade ampla e est\u00e1vel muito al\u00e9m dos limites da diocese de Roma e de suas <em>igrejas suburbic<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rias<\/em>, mas \u00e9 que devemos distinguir os diversos n\u00edveis e significados do <em>primado romano<\/em> ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.2 O avan<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>o do poder papal<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diversos documentos hist\u00f3ricos nos levam a ver que, a partir do s\u00e9culo XI, os papas come\u00e7aram a reivindicar maior reconhecimento de seu poder temporal. Esta atitude fez parte de um movimento clerical, intelectual e mon\u00e1stico que, aos poucos, come\u00e7ou a querer inverter as regras do jogo, procurando com que o papado despontasse como o \u00fanico poder capaz de governar leg\u00edtima e eficazmente a cristandade. O desenrolar desta hist\u00f3ria ficou conhecido, desde pelo menos a obra de Augustin Fliche (1924), como \u201cReforma Gregoriana\u201d. Diz-se que a reforma movida pelos papas do s\u00e9culo XI foi respons\u00e1vel pela liberta\u00e7\u00e3o da Igreja da influ\u00eancia dos senhores laicos que, por for\u00e7a da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podiam interferir nos assuntos eclesi\u00e1sticos sem desvirtu\u00e1-los e degener\u00e1-los; diz-se tamb\u00e9m que a reforma moralizou o clero, porque afirmou o celibato, excluiu os cl\u00e9rigos casados e instituiu a vida em comunidade como estado ideal para os padres. Diz-se que a reforma tornou os papas independentes das press\u00f5es imperiais e impediu os imperadores de imporem o seu candidato durante o conclave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, sabemos que houve uma tend\u00eancia disciplinar e espiritual, de car\u00e1ter reformador, que questionava a moral dos cl\u00e9rigos e a situa\u00e7\u00e3o da igreja. Mas, essa tend\u00eancia n\u00e3o foi nunca controlada unicamente pelos papas e nem pelos cl\u00e9rigos aliados a eles. Entre aqueles que foram eleitos papas por influ\u00eancia dos imperadores e, depois, depostos por papas opositores, como Clemente III (1029-1100) e Greg\u00f3rio VIII (\u00851137), estavam muitos cl\u00e9rigos que defendiam as mesmas ideias morais de Le\u00e3o IX (1002-1054) e Greg\u00f3rio VII (1020-1085), como o fim das investiduras, o celibato obrigat\u00f3rio e o combate \u00e0 simonia. Os monges e eclesi\u00e1sticos que pregavam a reforma da Igreja conviviam tamb\u00e9m com largos setores do laicado que defendiam os mesmos valores e exigiam uma purifica\u00e7\u00e3o da cristandade. Com isso, dizemos que a renova\u00e7\u00e3o espiritual n\u00e3o op\u00f4s cl\u00e9rigos sedentos de santidade e leigos corrompidos pelo mundo. Estes nunca foram obst\u00e1culos \u00e0 reforma, mas antes, grandes entusiastas: em outras palavras, n\u00e3o foram v\u00edtimas da reforma, mas seus agentes. Neste sentido, \u00e9 bom que evitemos pensar que a reforma do s\u00e9culo XI foi gregoriana e clerical, pois, na verdade, era um anseio instaurado na base da sociedade crist\u00e3 e contou com o apoio dos leigos, como a condessa Matilde de Canossa (1046-1115), bra\u00e7o direito do papa Greg\u00f3rio VII. De todo modo, teologicamente, o papado saiu do s\u00e9culo XI muito fortificado: como escrevia Congar (1997, p.104), aos olhos da c\u00faria romana, n\u00e3o era mais a <em>Ecclesia<\/em> que constitu\u00eda a realidade fundamental da f\u00e9, mas o papa: sem papa, n\u00e3o havia igreja. Tal discurso eclesiol\u00f3gico contou com o apoio irrestrito de homens como Greg\u00f3rio VII, Pedro Dami\u00e3o (1007-1072), Bernardo de Claraval (1090-1153) e tantos outros oriundos de mosteiros justamente al\u00e7ados \u00e0 imunidade por benepl\u00e1cito papal. Ora, aceitar a premissa de que \u00e9 o papa quem instaura a <em>Ecclesia<\/em> \u00e9 admitir que as igrejas patriarcais e autoc\u00e9falas do Oriente n\u00e3o eram propriamente igrejas e, com isso, temos um verdadeiro cisma. Mas, mesmo no Ocidente, aqueles bispos e te\u00f3logos que, movidos pela autoridade da tradi\u00e7\u00e3o, defendiam a antiga eclesiologia, foram taxados de her\u00e9ticos simon\u00edacos porque duvidavam de que s\u00f3 os papas \u00e9 que podiam gerir a igreja, defensores que eram de uma igreja imperial (constantiniana) que usurpava os poderes papais: o principal campo de observa\u00e7\u00e3o destes embates est\u00e1, a meu ver, no processo de escolha de novos bispos, os quais, segundo o antigo costume, eram eleitos pelo clero e pelo povo da igreja local, mas que, durante os s\u00e9culos IX-X, passou a ser atributo do sistema imperial; ora, o papado dos s\u00e9culos XI e XII procurou retirar tanto do clero\/povo quanto do imp\u00e9rio esta prerrogativa, centralizando a escolha dos bispos nas m\u00e3os da C\u00faria romana. Pode-se entender esta ascens\u00e3o do papado, por um lado, como parte do processo da pr\u00f3pria ascens\u00e3o do Ocidente e do avan\u00e7o de uma eclesiologia romanoc\u00eantrica que tinha, naquela \u00e9poca, muita avers\u00e3o pelas eclesiologias orientais. Mas tamanha mudan\u00e7a de perspectiva n\u00e3o teria alcan\u00e7ado os n\u00edveis que conquistou sem os arranjos estrat\u00e9gicos entre o papado e ordens mon\u00e1sticas poderosas, como Cluny e Cister, ordens essas que pretendiam controlar a sociedade senhorial (ou feudal) mais do que fazer desaparecer uma suposta igreja mundanizada (IOGNA-PRAT, 1998).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.3 As universidades e a escol<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>stica medieval<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O surgimento das universidades, entre os s\u00e9culos XII e XIII, deu ainda maior sustenta\u00e7\u00e3o ao sistema sociopol\u00edtico da cristandade latina, pois forneceu-lhe n\u00e3o s\u00f3 o ve\u00edculo difusor, mas tamb\u00e9m as ideias a serem difundidas e que cimentariam a universalidade da sociedade crist\u00e3: assim, ao lado da autoridade dos papas e do poder dos imperadores e reis, a universidade nasceu como uma terceira for\u00e7a (o <em>studium<\/em>, ou em outros termos, a ci\u00eancia) que, como num trip\u00e9, ajudava a manter erguidos os dois outros poderes: nas palavras de Lima Vaz (2002, p.21), a universidade era um \u201c\u00f3rg\u00e3o institucional do corpo religioso-pol\u00edtico da cristandade\u201d que explicitava o seu car\u00e1ter docente. As universidades foram fundadas em cidades como Paris (1200), Bolonha (1158), Montpellier (1220) e Oxford (1208) e organizavam-se como corpora\u00e7\u00e3o de of\u00edcio, isto \u00e9, uma associa\u00e7\u00e3o de mestres e\/ou de alunos preocupados em protegerem o <em>status quo<\/em> da profiss\u00e3o intelectual. Nesse sentido \u00e9 que se pode dizer que as universidades ultrapassaram os limites jur\u00eddicos, cient\u00edficos e did\u00e1ticos das escolas catedrais e mon\u00e1sticas que haviam marcado a hist\u00f3ria da Igreja latina nos s\u00e9culos anteriores. N\u00e3o mais atreladas \u00e0 autoridade de um bispo (como a escola catedral) ou de um abade (como a escola mon\u00e1stica), as universidades nasceram do desejo de garantir liberdade e autonomia institucional para o que veio a se chamar de faculdades, divididas em dois tipos: o primeiro, a faculdade preparat\u00f3ria de artes, que ensinava as disciplinas liberais (l\u00f3gica, gram\u00e1tica, ret\u00f3rica, aritm\u00e9tica, m\u00fasica, geometria e astronomia) e tornou-se, em meados do s\u00e9culo XIII, propriamente uma faculdade de filosofia especializada nos estudos aristot\u00e9licos e judeu-mu\u00e7ulmanos; o segundo tipo eram as faculdades superiores, basicamente divididas em tr\u00eas: a faculdade de teologia, considerada a arte das artes, a faculdade de direito (can\u00f4nico e civil) e a faculdade de medicina. Como enfatiza Verger (1999, p.82), a autonomia pretendida pelas universidades visava \u00e0 capacidade de a institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria gerir a sua pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o interna, estabelecendo seus estatutos, curr\u00edculos, metodologias, t\u00edtulos, cursos etc.; tinha tamb\u00e9m o intuito de impedir a instrumentaliza\u00e7\u00e3o desses centros de saber por parte de poderes ex\u00f3genos a eles, laicos ou eclesi\u00e1sticos, reservando aos mestres e tamb\u00e9m, em alguns casos, aos alunos o poder decis\u00f3rio sobre os mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o do saber e a gest\u00e3o dos recursos ali investidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 curioso, a meu ver, o fato de que as universidades, express\u00e3o concreta de uma cristandade que se pensa e se projeta, lan\u00e7aram m\u00e3o da heran\u00e7a filos\u00f3fica greco-romana que s\u00f3 era acess\u00edvel atrav\u00e9s das comunidades que a cristandade exclu\u00eda de si, como os mu\u00e7ulmanos, os crist\u00e3os ortodoxos (\u201ccism\u00e1ticos\u201d para os latinos) e os judeus: esses \u00e9 que tinham acesso aos mais antigos manuscritos, \u00e0s tradu\u00e7\u00f5es sir\u00edacas e \u00e1rabes por meio das quais os textos gregos chegaram ao medievo ocidental. Isso nos leva a ver que, no universo das belas letras, n\u00e3o havia fronteiras \u00e9tnicas e religiosas: a sabedoria antiga percorria o Mediterr\u00e2neo de leste a oeste em c\u00f3pias diversas que se multiplicavam em escolas habitadas por mestres mu\u00e7ulmanos, crist\u00e3os (orientais e latinos) e judeus, num relacionamento amig\u00e1vel que a mentalidade euroc\u00eantrica de hoje tem dificuldade em aceitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista acad\u00eamico, as universidades da cristandade foram marcadas por um m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o que, em latim, chamava-se <em>disputatio<\/em> (debate) e que consistia na proposi\u00e7\u00e3o de uma quest\u00e3o (<em>quaestio<\/em>) por um mestre que expunha seus alunos, dispostos ao seu redor, aos embates de teses conflitantes, a silogismos e contra-argumenta\u00e7\u00f5es, at\u00e9 chegar \u00e0 conclus\u00e3o considerada mais adequada ao jogo da filosofia. Nas palavras de Alain de Libera (1999, p.148), o pensamento universit\u00e1rio medieval \u00e9 profundamente agon\u00edstico, \u201ca lei da discuss\u00e3o se imp\u00f5e a todos\u201d. Ao lado das disputas, o coment\u00e1rio aos textos das grandes autoridades (<em>auctoritates<\/em>) da cultura crist\u00e3 (B\u00edblia, Padres da Igreja e fil\u00f3sofos greco-romanos e \u00e1rabes) constitu\u00eda outra importante vertente da inquiri\u00e7\u00e3o escolar: no caso da teologia, comentar o <em>Livro das Senten<\/em><em>\u00e7<\/em><em>as<\/em> de Pedro Lombardo constitu\u00eda etapa fundamental para a obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de <em>baccalarius theologiae;<\/em> parafraseando Tom\u00e1s de Aquino (<em>Liber de coelo et mundo<\/em>, I, lect. 28, n.8), pode-se dizer que o coment\u00e1rio n\u00e3o era apenas a tentativa de entender o que as autoridades haviam dito, mas um modo de se buscar a verdade das coisas. \u00c9 assim, por meio de debates e coment\u00e1rios, de sumas e tratados, que pensadores como Tom\u00e1s de Aquino, Alberto Magno, Alexandre de Hales e Boaventura de Bagnor\u00e9gio, s\u00f3 para citar os mais conhecidos, se notabilizaram por aprofundar o di\u00e1logo entre cristianismo e helenismo, entre revela\u00e7\u00e3o e filosofia: legaram para o Ocidente uma reflex\u00e3o filos\u00f3fica original e suficientemente madura que, em muitos aspectos, contribuiu para o desenvolvimento da filosofia moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, \u00e9 bom que se diga, permanece paradoxal o fato de homens como Tom\u00e1s de Aquino e Boaventura de Bagnor\u00e9gio terem se tornado os nomes mais famosos dentre os te\u00f3logos medievais. Oriundos das duas importantes ordens mendicantes, ambos os mestres n\u00e3o fizeram teologia como voca\u00e7\u00e3o primeira, pois partilhavam o ideal fundacional de suas congrega\u00e7\u00f5es pelo qual a erudi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica estava a servi\u00e7o do an\u00fancio do Evangelho contra os inimigos da Igreja. Dominicanos e franciscanos, antes de serem te\u00f3logos, deviam ser pregadores e este of\u00edcio, renovado desde o Conc\u00edlio de Latr\u00e3o IV (1215), dirigia-se mais propriamente \u00e0 convers\u00e3o dos hereges e infi\u00e9is do que ao an\u00fancio kerigm\u00e1tico <em>ad gentes<\/em>. O significado hist\u00f3rico desta op\u00e7\u00e3o para a consolida\u00e7\u00e3o dos estudos teol\u00f3gicos n\u00e3o pode ser minimizado. Por cerca de vinte anos (de 1254 a 1274), os mestres universit\u00e1rios de Paris, membros do clero secular, levantaram suas armas intelectuais contra os mendicantes e seu ensino: combatiam a \u201chipocrisia de sua pobreza\u201d e criticavam a maneira pouco corporativa de lidar com o ensino (CONGAR, 1961). Assim, o papado precisou intervir para assegurar aos frades a perman\u00eancia em suas c\u00e1tedras e, com isso, ao mesmo tempo, refor\u00e7ar a pr\u00f3pria autoridade sobre as universidades. A alian\u00e7a mendicantes-papado fez das universidades, sobretudo da faculdade de teologia, um instrumento para alargar e fortalecer o tom conquistador da cristandade principalmente num per\u00edodo de grande questionamento das bases religiosas e morais do programa cat\u00f3lico. Os frades mendicantes, nascidos sob a \u00e9gide da defesa da f\u00e9 contra os inimigos da Igreja, buscaram as universidades para terem ainda mais condi\u00e7\u00f5es de lutarem pela causa da cristandade; os papas, desde Inoc\u00eancio III, se n\u00e3o antes, dedicaram cuidado especial pelas universidades porque dali sa\u00edam os discursos apolog\u00e9ticos da sociedade crist\u00e3 presidida pela S\u00e9 apost\u00f3lica: a faculdade de teologia, a despeito de toda contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento filos\u00f3fico, estava a servi\u00e7o da reforma da Igreja, o que inclu\u00eda certamente o embate com os dissidentes, os infi\u00e9is, os pag\u00e3os: a produ\u00e7\u00e3o do saber era a consequ\u00eancia de uma luta renhida entre as for\u00e7as de Cristo, em sua Igreja, e as do anticristo, entendido como o oposto da sociedade crist\u00e3 latina (a imagem inversa de si mesma, vis\u00edvel nas terras isl\u00e2micas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.4 O cristianismo e o disciplinamento da sociedade<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9\u00a0comum ouvirmos ou lermos afirma\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas acerca dos m\u00e9todos violentos, grotescos e nada razo\u00e1veis com que a Igreja ou o imp\u00e9rio crist\u00e3o latino se valia para coagir, cercear e at\u00e9 executar a vida de homens e mulheres que, por algum motivo, enfrentavam a sua autoridade. Nomes como inquisi\u00e7\u00e3o, cruzadas, heresia suscitam um sem fim de sentimentos que, misturados \u00e0 imper\u00edcia no campo da hist\u00f3ria, resultam danosos para a compreens\u00e3o do per\u00edodo. Antes de mais nada, devemos pontuar que o cristianismo, enquanto sistema religioso antigo, distingue-se das religi\u00f5es mediterr\u00e2nicas justamente por incluir, em seu sistema de cren\u00e7as, uma moral estritamente definida em termos de rea\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura mediterr\u00e2nica generalizada pelo Imp\u00e9rio romano; neste sentido, n\u00e3o bastava a retid\u00e3o do culto ou da f\u00e9 (ortodoxia); era necess\u00e1rio que o crente apresentasse tamb\u00e9m a retid\u00e3o da conduta, em \u00e2mbito privado e p\u00fablico (ortopraxia), traduzida numa vida disciplinada e asc\u00e9tica. Esta caracter\u00edstica crist\u00e3 \u00e9 t\u00e3o marcante que, nas mais antigas elabora\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas acerca da legitimidade dos poderes pol\u00edticos, pensadores crist\u00e3os, como o Ap\u00f3stolo Paulo, admitiam que, em nome da corre\u00e7\u00e3o dos v\u00edcios, Deus se valia da for\u00e7a f\u00edsica, exercida pelos governantes, ou da for\u00e7a espiritual, desempenhada pelos leg\u00edtimos pastores e ministros eclesiais e, na medida em que a coa\u00e7\u00e3o proporcionava a pr\u00e1tica do bem, ela era boa e merit\u00f3ria (SENELLART, 2006, p.72). Ora, o minist\u00e9rio episcopal sempre foi concebido a partir desta matriz disciplinadora e moralizante que colocava os bispos na posi\u00e7\u00e3o de fiscais das condutas de seu rebanho, sempre a postos para exortar, corrigir e at\u00e9 punir. A hist\u00f3ria do sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o e dos mecanismos de readmiss\u00e3o \u00e0 comunh\u00e3o eclesial daqueles que dela sa\u00edram mostra o quanto era grande o car\u00e1ter disciplinador da comunidade crist\u00e3. Nos tempos ditos medievais, esta caracter\u00edstica se acentua na medida em que os ideais de edifica\u00e7\u00e3o do novo povo de Deus, confundido com o reino franco carol\u00edngio e, no limite, com a pr\u00f3pria cristandade latina, exigiam que houvesse uma concreta adequa\u00e7\u00e3o moral compat\u00edvel com a unidade doutrinal. Isso s\u00f3 era poss\u00edvel e justificava-se diante de uma cultura que, ao contr\u00e1rio da nossa, priorizava a sincronia, em que passado, presente e futuro estavam sempre implicados no agora, e o comunitarismo, isto \u00e9, a cren\u00e7a de que a vida comunit\u00e1ria \u00e9 a express\u00e3o mais elevada da caridade, tornava a sociedade um s\u00f3 corpo, tendo os indiv\u00edduos por seus membros. Da\u00ed que a doen\u00e7a moral de uma pessoa implicava necessariamente a sa\u00fade espiritual de todo o organismo social e por isso todo pecado, v\u00edcio ou erro precisavam ser corrigidos para a manuten\u00e7\u00e3o da ordem social (MIATELLO, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.4.1 As cruzadas<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As cruzadas foram parte de um movimento priorit\u00e1ria, mas n\u00e3o exclusivamente, militar, de inspira\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica, milenarista e penitencial, oriundo de uma ideia de cristandade expansionista, pr\u00f3pria da experi\u00eancia carol\u00edngia, e ligado aos diversos problemas e crises pol\u00edtico-sociais que marcaram a hist\u00f3ria do Ocidente latino; seu objetivo imediato era a liberta\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e dos demais lugares santos da vida terrena de Cristo que, desde o s\u00e9culo VII, estavam sob o poder pol\u00edtico do imp\u00e9rio mu\u00e7ulmano. Tal compromisso comportava todos os demais objetivos de instaurar a ordem crist\u00e3 romano-germ\u00e2nica, por meios militares, nos espa\u00e7os dominados pela ortodoxia bizantina (ou qualquer outro tipo de ortodoxia), pelo islamismo e por qualquer outra eclesiologia que n\u00e3o se adequasse aos pressupostos ocidentais de inspira\u00e7\u00e3o carol\u00edngio-papal. Cronologicamente, o movimento cruzadista pode ser situado entre finais do s\u00e9culo XI (1095) estendendo-se at\u00e9 1272, pelo menos. Em termos gerais, as cruzadas somavam duas situa\u00e7\u00f5es bastante importantes da cristandade latina: a dimens\u00e3o guerreira, constitutiva dos aristocratas e reis crist\u00e3os, e a peregrina\u00e7\u00e3o que, de longa data, era um dos mais relevantes mecanismos de penit\u00eancia e, portanto, de reinser\u00e7\u00e3o social daqueles que pecaram e quebraram a unidade do corpo que era a sociedade crist\u00e3. Embora a aristocracia guerreira tenha sempre encontrado lugar e fun\u00e7\u00e3o eclesiais, a inven\u00e7\u00e3o da cavalaria, por volta do s\u00e9culo XI, trouxe \u00e0 tona, mais uma vez, o debate sobre a legitimidade da viol\u00eancia e do uso de armas no seio da sociedade crist\u00e3 (FLORI, 2013): uma vez pacificada, acredita-se que a cristandade n\u00e3o poderia ver-se cindida em grupos rivais, em luta fratricida, exatamente o que nunca deixou de ocorrer, uma vez que a cristandade, apesar de forte, jamais conseguiu apagar por completo o peso da tradi\u00e7\u00e3o regionalista das grandes parentelas que davam origem aos senhorios, principados e at\u00e9 reinos. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Deste modo, os l\u00edderes da cristandade precisaram encontrar um mecanismo que, a despeito das diverg\u00eancias internas, congregasse os guerreiros numa causa superior e pertinente \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o, a defesa do reino de Cristo e a vit\u00f3ria sobre seus inimigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concomitantemente, a peregrina\u00e7\u00e3o, enquanto penit\u00eancia, tamb\u00e9m propiciava para os guerreiros adequada ocasi\u00e3o de atrelarem a sua fun\u00e7\u00e3o social ao projeto de uma <em>societas christiana <\/em>que procurava reformar-se para conquistar. Na medida em que Jerusal\u00e9m era excessivamente distante e estava fora dos limites da cristandade, oferecia aquela carga de perigos e sacrif\u00edcios que tornava a cidade o lugar perfeito para uma penit\u00eancia completa e, quem sabe, definitiva. Apesar de haver quem interprete as cruzadas a partir de seus pressupostos pol\u00edticos e econ\u00f4micos, supondo que foi uma empresa vantajosa, seu funcionamento tantas vezes prec\u00e1rio e deficit\u00e1rio contou com a for\u00e7a simb\u00f3lica que Jerusal\u00e9m evocava para a cultura religiosa daquela \u00e9poca: afinal, o reino de Deus que os crist\u00e3os latinos esperavam fazer triunfar misturava aquela teocracia do Antigo Israel, cujo centro era Jerusal\u00e9m, com o significado m\u00edstico e aleg\u00f3rico que esta cidade adquiriu na cultura crist\u00e3 primitiva. Profecias, expectativas milenaristas, prega\u00e7\u00e3o popular, redespertar evang\u00e9lico, \u00edmpeto penitencial, as cruzadas foram muito mais impulsionadas por for\u00e7as espirituais do que por interesses materiais e seu significado social reside no triunfo da ideia de cristandade entendida como um Estado m\u00edstico que elabora seus projetos pol\u00edticos \u00e0 luz da teodiceia crist\u00e3 e cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os valores que uma sociedade proclama n\u00e3o dissimulam a hipocrisia de suas a\u00e7\u00f5es; as cruzadas, inspiradas na penit\u00eancia e na escatologia, foram, muitas vezes, caminho de viol\u00eancia pura e gratuita, sobretudo quando seus agentes, imbu\u00eddos de sentimentos que podemos classificar de xen\u00f3fobos e fan\u00e1ticos, usavam a for\u00e7a para arrasar e destruir n\u00e3o s\u00f3 soldados opositores, mas gente indefesa. Parece sintom\u00e1tico o fato de que, aos olhares mu\u00e7ulmanos, principais alvos dos ataques, os cruzados n\u00e3o eram identificados como \u201ccrist\u00e3os\u201d, mas como \u201cfrancos\u201d, t\u00edtulo que designava os s\u00faditos do antigo imp\u00e9rio carol\u00edngio, a <em>Francia<\/em>, antes da Fran\u00e7a. Assim, aquilo que os filhos da cristandade chamavam de empresa espiritual, os isl\u00e2micos viam como ato guerreiro, de natureza conquistadora, militar e material. \u00c9 certo que tanto o Isl\u00e3 quanto a cristandade n\u00e3o distinguiam pol\u00edtica e religi\u00e3o; mas, no pormenor da cruzada, os isl\u00e2micos identificaram bem que toda aquela guerra n\u00e3o tinha s\u00f3 o fito de reaver Jerusal\u00e9m, mas de destruir os Estados mu\u00e7ulmanos e, quem sabe, a pr\u00f3pria religi\u00e3o do Profeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.4.2 O tribunal da inquisi<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papel da inquisi\u00e7\u00e3o n\u00e3o diverge muito das finalidades e procedimentos da cruzada. Mas, para entendermos melhor o fen\u00f4meno que foi a inquisi\u00e7\u00e3o, devemos nos recordar que, numa sociedade que se cr\u00ea m\u00edstica, os desvios doutrinais significam o abalo dos la\u00e7os sociais, de natureza espiritual, que mant\u00eam de p\u00e9 esta sociedade; neste sentido, a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s heresias deve ser interpretada mais como tentativa de supera\u00e7\u00e3o de crises sociopol\u00edticas do que um problema dogm\u00e1tico: isto pode ser verificado, por exemplo, nos v\u00e1rios documentos papais que, ao lan\u00e7arem a acusa\u00e7\u00e3o de heresia, identificavam como hereges grupos inteiros de certas cidades, sobretudo italianas, que professavam, na verdade, uma pol\u00edtica pr\u00f3-imperial e antipapal, o que fatalmente fazia do advers\u00e1rio pol\u00edtico um herege potencial: aos olhos dos agentes pontif\u00edcios, todo gibelino, isto \u00e9, o partid\u00e1rio do imperador, podia vir a ser um herege se n\u00e3o respeitasse os limites concedidos para a oposi\u00e7\u00e3o. Com isso dizemos que a heresia \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o daqueles que governam (ZERNER, 2009): n\u00e3o \u00e9, portanto, uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 uma igreja, mas oposi\u00e7\u00e3o ao mundo que se deixa governar por uma igreja em particular. Se deixarmos este aspecto de lado e n\u00e3o distinguirmos a heresia da Baixa Idade M\u00e9dia do que era a heresia na Antiguidade, deixaremos de entender por que os mecanismos de identifica\u00e7\u00e3o e supress\u00e3o da heresia estiveram sempre atrelados aos direitos pol\u00edticos, \u00e0s autoridades pol\u00edticas e \u00e0s suas institui\u00e7\u00f5es (tanto nas cidades comunais quanto nos reinos e principados) e por que a tortura, neste caso, foi adotada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As origens da inquisi\u00e7\u00e3o devem ser buscadas no IV Conc\u00edlio de Latr\u00e3o, celebrado em Roma, em 1215. Esse conc\u00edlio representou o momento de uma imensa e geral revis\u00e3o da cristandade: foi a hora de se procurar um reordenamento interno que fosse capaz de dotar os crist\u00e3os de for\u00e7a moral para vencerem o Isl\u00e3; por isso, o horizonte do conc\u00edlio foi a cruzada, uma nova cruzada, feita por crist\u00e3os aut\u00eanticos, visto que as demais cruzadas fracassaram, segundo o entendimento da \u00e9poca, pela fal\u00eancia moral dos cruzados e pelos pecados dos crist\u00e3os, sendo que o principal deles era a heresia. O c\u00e2non III do Conc\u00edlio de Latr\u00e3o estabelecia os procedimentos de exclus\u00e3o e repress\u00e3o: os her\u00e9ticos deviam ser identificados pelos poderes clericais, punidos pelos poderes seculares, tendo seus bens confiscados; os suspeitos tamb\u00e9m sofreriam: deviam ser colocados no ostracismo social at\u00e9 que provassem a inoc\u00eancia, enquanto isso, incorreriam na penalidade dos culpados, sendo que o prazo para a defesa seria de um ano. Se o problema fosse t\u00e3o-somente eclesi\u00e1stico, dever\u00edamos nos perguntar por que o C\u00e2non III insiste em definir as puni\u00e7\u00f5es em termos pol\u00edticos: os servidores p\u00fablicos que n\u00e3o trabalhassem para a extirpa\u00e7\u00e3o da <em>pravitas haeretica<\/em> seriam destitu\u00eddos dos cargos e todos os seus s\u00faditos poderiam desobedec\u00ea-lo: tratava-se de verdadeira anula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tanto do herege quanto de quem n\u00e3o o perseguia; perdiam-se os direitos de votar\/ser votado, prestar juramento e ocupar cargo p\u00fablico (perda de direitos pol\u00edticos); n\u00e3o podia-se fazer testamento ou receber heran\u00e7a; se fosse juiz ou advogado, seus atos jur\u00eddicos perderiam a validade (perda de direitos civis); n\u00e3o podiam receber os sacramentos ou ter cemit\u00e9rio crist\u00e3o (perda de direitos religiosos). A identifica\u00e7\u00e3o de tais desviados seria feita mediante a vigil\u00e2ncia m\u00fatua, em primeiro lugar, dos pastores (padres e bispos), nos espa\u00e7os paroquiais e diocesanos; em segundo lugar, pelos vizinhos, uns sobre os outros e, mediante o denuncismo, o erro devia ser apontado; por isso \u00e9 que, nesta \u00e9poca, as par\u00f3quias receberam forte est\u00edmulo para reformarem-se e incrementar os mecanismos de controle sobre as atitudes particulares de seus fregueses; os bispos foram novamente advertidos a visitarem as par\u00f3quias com frequ\u00eancia e a redigirem relat\u00f3rios e, uma vez identificados\u00a0 os erros, deviam lev\u00e1-los a julgamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ainda n\u00e3o ter sido fundado, o tribunal da inquisi\u00e7\u00e3o j\u00e1 se antecipava nesses procedimentos. Faltava apenas que a decis\u00e3o fosse tomada, o que de fato aconteceu, sob o papa Greg\u00f3rio IX, em 1239. Interessante pensar que este papa, muito antes de sua elei\u00e7\u00e3o (quando se chamava Hugolino de Segni), fora um eficiente agente das determina\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio de Latr\u00e3o IV; como legado apost\u00f3lico, percorria o norte de It\u00e1lia para arrecadar dinheiro para a V Cruzada e, simultaneamente, implementar a pol\u00edtica antier\u00e9tica do conc\u00edlio. Quando se tornou papa, em 1227, elevou \u00e0 m\u00e1xima pot\u00eancia seu desejo de ordenar a cristandade segundo a eclesiologia pontif\u00edcia. Para tanto, contou com o apoio de dois importantes movimentos, que h\u00e1 pouco foram elevados \u00e0 categoria de ordens religiosas, os Frades Pregadores, ou dominicanos, e os Frades Menores, ou franciscanos, cujos fundadores conviveram com o cardeal Hugolino e, ap\u00f3s a morte, foram canonizados por Greg\u00f3rio IX. Este papa, muito sens\u00edvel aos novos movimentos de reforma religiosa, usou os frades para agilizar tanto a pacifica\u00e7\u00e3o das cidades quanto a repress\u00e3o her\u00e9tica. Concedeu-lhes poderes de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nas cidades, inclusive poderes superiores aos dos bispos, para que agissem em nome do papa. Baseados em procedimentos jur\u00eddicos, tendo a reconcilia\u00e7\u00e3o por finalidade e a defesa da verdade como horizonte te\u00f3rico, os frades inquisidores procuravam identificar o erro e corrigi-lo mediante a exorta\u00e7\u00e3o e, caso n\u00e3o fosse suficiente, com as puni\u00e7\u00f5es j\u00e1 previstas pelo conc\u00edlio. A investiga\u00e7\u00e3o acurada (<em>inquisitio<\/em>) dos poss\u00edveis erros de f\u00e9 era tamb\u00e9m chamada de <em>negotium fidei<\/em>, ali\u00e1s, o mesmo nome dado ao tribunal que investigava os candidatos a santos, procedimento que conhecemos como processo de canoniza\u00e7\u00e3o, novidade instaurada por Inoc\u00eancio III, 1198. Assim, do mesmo modo que se devia provar a santidade de um crist\u00e3o falecido, devia-se provar a ortodoxia de um crist\u00e3o vivo acusado de heresia. Iguais procedimentos: instaura\u00e7\u00e3o de uma banca de \u00e1rbitros (juiz, promotor, relator, advogado), oitiva de testemunhas, questionamento dos acusados etc.; at\u00e9, pelo menos, 1252 n\u00e3o podemos dizer que este tribunal usasse qualquer meio truculento de arrancar a verdade; no entanto, com o assassinato do grande inquisidor, Pedro de Verona (1205-1252), da ordem dos dominicanos, neste mesmo ano, em Mil\u00e3o, o ent\u00e3o papa Inoc\u00eancio IV, afrontado em sua autoridade, lan\u00e7ou uma contraofensiva: canonizou Pedro, doravante chamado S\u00e3o Pedro M\u00e1rtir, e endureceu ainda mais os procedimentos de investiga\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o: \u00e9 neste momento que entram em cena as torturas. No entanto, jamais podemos confundir a inquisi\u00e7\u00e3o fundada pelo papa no s\u00e9culo XIII (justamente chamada de inquisi\u00e7\u00e3o pontif\u00edcia) com aquela que os reis ib\u00e9ricos (portugueses e espanh\u00f3is), mediante o direito de <em>padroado<\/em>, utilizaram para perseguir seus opositores pol\u00edticos, do s\u00e9culo XV em diante (chamada de inquisi\u00e7\u00e3o ib\u00e9rica, espanhola ou moderna). S\u00e3o institui\u00e7\u00f5es, procedimentos, finalidades e resultados ami\u00fade distintos. Apesar de isto n\u00e3o servir de justificativa, a inquisi\u00e7\u00e3o pontif\u00edcia, segundo os documentos hist\u00f3ricos, n\u00e3o atingiu nunca os \u00edndices persecut\u00f3rios que imaginamos. Na verdade, havia uma verdadeira pol\u00edtica de retardar a instaura\u00e7\u00e3o do tribunal ou as puni\u00e7\u00f5es, uma vez que nem sempre tais procedimentos correspondiam \u00e0 vontade das lideran\u00e7as locais, muitas vezes implicadas com os acusados e sentenciados. Deste modo, os casos dr\u00e1sticos de interven\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia devem ser vistos dentro do acirramento de quest\u00f5es pol\u00edticas regionais e moment\u00e2neas e n\u00e3o a l\u00f3gica efetiva que controlava a institui\u00e7\u00e3o. Assim, a inquisi\u00e7\u00e3o pontif\u00edcia, ou medieval, articulava-se dentro de uma perspectiva sociopol\u00edtica de cristandade em que, apesar da sincronia entre o poder secular e o religioso, a simples distin\u00e7\u00e3o entre os representantes de ambos os poderes (reis e papas, respectivamente) impedia que a inquisi\u00e7\u00e3o fosse inteiramente instrumentalizada pela raz\u00e3o de Estado que marcou a inquisi\u00e7\u00e3o ib\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Andr<\/em><em>\u00e9<\/em> <em>Miatello, <\/em>UFMG\/FAJE. Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BROWN, Peter. <em>A ascens<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o do cristianismo no Ocidente<\/em>. Trad.: Eduardo Nogueira. Lisboa: Editorial Presen\u00e7a, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONGAR, Yves. Aspects eccl\u00e9siologiques de la querelle entre mendiants et s\u00e9culiers dans la seconde moiti\u00e9 du XIIIe si\u00e8cle et le d\u00e9but du XIVe. In\u00a0: <em>Archives d<\/em><em>\u2019<\/em><em>Histoire doctrinale et litt<\/em><em>\u00e9<\/em><em>raire du Moyen <\/em><em>\u00c2<\/em><em>ge,<\/em> p. 35-151. 1961.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Igreja e papado. <\/em>Perspectivas hist\u00f3ricas. Trad.: Marcelo Rouanet. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DE JONG, Mayke. Sacrum palatium et ecclesia: L\u2019autorit\u00e9 religieuse royale sous le Carolingien (790-840). In: <em>Annales. Histoire, Sciences Sociales<\/em>. Ano 58, n.6, p.1243-69. 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUM\u00c9ZIL, Bruno. <em>Les racines chr<\/em><em>\u00e9<\/em><em>tiennes de l<\/em><em>\u2019<\/em><em>Europe<\/em>. Conversion et libert\u00e9 dans le royaumes barbares, Ve.-VIIIe. si\u00e8cle. Paris: Fayard, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FLICHE, Augustin. <em>La R<\/em><em>\u00e9<\/em><em>forme Gr<\/em><em>\u00e9<\/em><em>gorienne<\/em>: la formation des id\u00e9es gr\u00e9goriennes. Louvain: Spicilegium Sacrum Lovaniense, 1924.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FLORI, Jean. <em>Guerra Santa<\/em>. Forma\u00e7\u00e3o da ideia de cruzada no Ocidente crist\u00e3o. Trad.: Ivone Benedetti. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRIGHETTO, Renan. Religi\u00e3o e pol\u00edtica na Antiguidade Tardia: os godos entre o arianismo e o paganismo no s\u00e9culo IV. In: <em>Dimens<\/em><em>\u00f5<\/em><em>es<\/em> (Revista de Hist\u00f3ria da UFES). V.25, p. 114-30. 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GEARY, Patrick. <em>O mito das na<\/em><em>\u00e7\u00f5<\/em><em>es. <\/em>A inven\u00e7\u00e3o do nacionalismo. Trad.: F\u00e1bio Pinto. S\u00e3o Paulo: Conrad, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IOGNA-PRAT, Dominique. <em>Ordonner et exclure<\/em>. Cluny et la soci\u00e9t\u00e9 chr\u00e9tienne face \u00e0 l\u2019h\u00e9r\u00e9sie au juda\u00efsme et \u00e0 l\u2019Islam (1000-1150). Paris: Aubier, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JENKINS, Philip. <em>Guerras Santas<\/em>. Como 4 patriarcas, 3 rainhas e 2 imperadores decidiram em que os crist\u00e3os acreditariam pelos pr\u00f3ximos 1500 anos. Trad.: Carlos Szlak. Rio de Janeiro: Leya, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LE JAN, R\u00e9gine. <em>La Soci<\/em><em>\u00e9<\/em><em>t<\/em><em>\u00e9<\/em> <em>du Haut Moyen <\/em><em>\u00c2<\/em><em>ge<\/em> (VIe-IXe si\u00e8cle). Paris: Armand Colin, 2006. p.56-82.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LIBERA, Alain de. <em>Pensar na Idade M<\/em><em>\u00e9<\/em><em>dia<\/em>. Trad.: Paulo Neves. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LIMA VAZ, Henrique C. <em>Escritos de Filosofia<\/em>. Problemas de fronteira. V.1. 3.ed. S\u00e3o Paulo: Ed. Loyola, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MIATELLO, Andr\u00e9 Luis Pereira. Governar os corpos e reger as almas: a rela\u00e7\u00e3o entre \u201cigreja\u201d e \u201ccidade\u201d na correspond\u00eancia de S. Greg\u00f3rio Magno. In: <em>Revista Opsis<\/em> (UFG-Catal\u00e3o). V.10, p. 11-26. 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUST, Leandro Duarte. <em>A reforma papal<\/em> (1050-1150). Cuiab\u00e1: Edufmt, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SENELLART, Michel. <em>As artes de governar. <\/em>Do <em>regimen <\/em>medieval ao conceito de governo. Trad.: Paulo Neves. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WICKHAM, Chris. <em>El legado de Roma<\/em>. Una historia de Europa de 400 a 1000. Trad.: Cecilia Belza e Gonzalo Garc\u00eda. Barcelona: Passado &amp; Presente, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZERNER, Monique (org.).<em> Inventar a heresia?<\/em> Discursos pol\u00eamicos e poderes antes da Inquisi\u00e7\u00e3o. Campinas: Editora da Unicamp, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Significado hist\u00f3rico de \u201cCristianismo Medieval\u201d 2 Circunscrevendo a cristandade latina\u00a0 (s\u00e9culos V-X) 2.1 A Ecclesia e a nova situa\u00e7\u00e3o do Ocidente 2.2 O papel do monasticismo 2.3 A cristandade carol\u00edngia 3 Circunscrevendo a cristandade papal (s\u00e9culos XI-XV) 3.1 O significado hist\u00f3rico da afirma\u00e7\u00e3o do papado 3.2 O avan\u00e7o do poder papal 3.3 As [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-592","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-da-teologia-e-do-cristianismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/592","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=592"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/592\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1091,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/592\/revisions\/1091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=592"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=592"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=592"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}