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{"id":2978,"date":"2023-12-31T17:43:27","date_gmt":"2023-12-31T20:43:27","guid":{"rendered":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2978"},"modified":"2024-01-03T15:26:36","modified_gmt":"2024-01-03T18:26:36","slug":"mistica-e-praxis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2978","title":{"rendered":"M\u00edstica e Pr\u00e1xis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 M\u00edstica e Pr\u00e1xis, defini\u00e7\u00e3o dos termos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 M\u00edstica e Pr\u00e1xis, intera\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 M\u00edstica e Pr\u00e1xis nas espiritualidades origin\u00e1rias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 M\u00edstica e as Pr\u00e1xis da Ecumenicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 M\u00edstica e Pr\u00e1xis da Liberta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 M\u00edstica e Pr\u00e1xis, defini\u00e7\u00e3o dos termos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00edstica e Pr\u00e1xis s\u00e3o termos poliss\u00eamicos, usados com valora\u00e7\u00f5es diferentes, segundo os per\u00edodos hist\u00f3ricos e tamb\u00e9m de acordo com as culturas nas quais florescem. A pr\u00f3pria palavra M\u00edstica nasceu do adjetivo grego <em>mystik\u00f2s<\/em>, derivado da raiz indoeuropeia <em>my<\/em>, presente em <em>myein<\/em>, que significa fechar os olhos e fechar a boca. Portanto, remete a algo secreto do qual n\u00e3o se pode falar (VELASCO, 2004, p. 16). Em geral, o termo M\u00edstica \u00e9 usado para falar de uma profunda experi\u00eancia interior, frequente em muitas religi\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es espirituais da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tradi\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas sempre conheceram os homens e mulheres do Esp\u00edrito, capazes de visitar outros mundos e entrar em contato com os esp\u00edritos da natureza. As correntes espirituais do Oriente honram os Sanyasi que se tornam uma coisa s\u00f3 com todo o universo e sabem nos ensinar a unir a alma individual (<em>Athma<\/em>) ao esp\u00edrito universal (<em>Brahma<\/em>). A sabedoria budista leva m\u00edsticos e m\u00edsticas \u00e0 budeidade, ou seja, \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o interior. Em religi\u00f5es como o Juda\u00edsmo, o misticismo e a Cabala ganharam for\u00e7a desde os s\u00e9culos XV e XVI na Europa. O rabino Israel ben Eliezer fundou o Juda\u00edsmo hass\u00eddico na Ucr\u00e2nia, baseado nos ensinamentos de Cabala do rabino Isaac Luria, para o qual todo ser humano e todo o universo s\u00e3o fagulhas da divindade. No mundo mu\u00e7ulmano, desde a Idade M\u00e9dia, m\u00edsticas como Rabi\u2019a al &#8211; Adawiyya de Basra, no Iraque (s\u00e9culo VIII), e m\u00edsticos como Al Hallaj (s\u00e9culo X) e Jalal al-Din Rumi (s\u00e9culo XIII), desenvolveram o Sufismo, movimento espiritual que une m\u00edstica e ascetismo na f\u00e9 mu\u00e7ulmana. No Cristianismo, desde os tempos antigos, sempre houve correntes m\u00edsticas, conhecidas atrav\u00e9s de figuras como Clemente de Alexandria (s\u00e9culo III), Dion\u00edsio Areopagita (s\u00e9culo IV) e os pais da Igreja como Greg\u00f3rio de Nissa e, mais tarde, S\u00e3o Sime\u00e3o, o Te\u00f3logo, que propunham uma Teologia M\u00edstica, isto \u00e9, a partir da experi\u00eancia interior e onde se tenta expressar o que vai al\u00e9m das palavras e do racional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a pr\u00e1xis, em 1986, Enrique Dussel iniciava o seu livro <em>\u00c9tica Comunit\u00e1ria<\/em>: <em>Liberta o pobre<\/em>!, com uma afirma\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m pode contestar:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lemos na Sagrada Escritura: \u201cFrequentavam com assiduidade a doutrina dos ap\u00f3stolos, as reuni\u00f5es em comum (Koinonia), o partir do p\u00e3o e as ora\u00e7\u00f5es\u201d. [&#8230;] E todos os que tinham f\u00e9 viviam unidos e colocavam todos os bens em comum. Vendiam as propriedades e os bens e dividiam com todos, segundo a necessidade de cada um. Todos os dias, se reuniam un\u00e2nimes no templo. Partiam o p\u00e3o nas casas e comiam com alegria e simplicidade de cora\u00e7\u00e3o, louvando a Deus entre a simpatia de todo o povo\u201d (Pr\u00e1xis dos Ap\u00f3stolos 2,42-47).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses \u201cfatos\u201d (na realidade feitos, ou Atos dos Ap\u00f3stolos, se escreve em grego <em>Pr\u00e1xeis Apost\u00f3lon<\/em> que devemos traduzir por \u201cPr\u00e1xis\u201d dos Ap\u00f3stolos), nos lembram que a ess\u00eancia da vida crist\u00e3 \u00e9 a comunidade, o estar junto com os outros; e tamb\u00e9m \u00e9 a ess\u00eancia do Reino: \u201cestar junto a Deus\u201d, face a face com ele em comunidade (DUSSEL, 1986, p. 17).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed vemos como Dussel une a Pr\u00e1xis como compromisso \u00e9tico e comunit\u00e1rio com o \u201cestar face a face com Deus\u201d, ou mergulhado\/a no Mist\u00e9rio, ou seja, a M\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer pessoa que estuda a hist\u00f3ria das diversas religi\u00f5es organizadas e, especificamente, a hist\u00f3ria do Cristianismo, sabe que esse modo de ligar M\u00edstica e Pr\u00e1xis nunca chegou a ser consenso, nem sempre fez parte dos ensinamentos m\u00edsticos. No entanto, se fazemos uma hermen\u00eautica que vai al\u00e9m dos textos \u201ce por tr\u00e1s das Palavras\u201d, tamb\u00e9m na hist\u00f3ria da M\u00edstica, podemos ir al\u00e9m dos escritos e perceber como, na hist\u00f3ria, a maioria dos m\u00edsticos e m\u00edsticas sempre uniu a intimidade com o Divino e o amor social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Idade M\u00e9dia, no Ocidente, tivemos grandes figuras m\u00edsticas, como o Mestre Echkart, e muitas m\u00edsticas, como Hildegarda de Bingen e as beguinas do territ\u00f3rio onde hoje \u00e9 a B\u00e9lgica, Matilde de Magdeburg, Beatriz de Nazar\u00e9, Hadewijch, Marguerite Porete e muitas outras m\u00edsticas e escritoras. Mais tarde, no s\u00e9culo XVI, na Espanha, Santa Teresa de \u00c1vila e S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todos estes diferentes movimentos ou correntes da M\u00edstica Crist\u00e3, a M\u00edstica sempre \u00e9 vista como surgindo da experi\u00eancia interior e da pr\u00e1tica do amor. Isso pode ser dito, de um modo ou de outro, das mais diferentes escolas de M\u00edstica nas diversas tradi\u00e7\u00f5es espirituais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas religi\u00f5es, durante s\u00e9culos, eram chamadas de \u201cexperi\u00eancias m\u00edsticas\u201d, \u00eaxtases, vis\u00f5es e estados alterados da consci\u00eancia, que caracterizariam um grau mais elevado de contato com o Divino. Entretanto, m\u00edsticos e m\u00edsticas de diversas religi\u00f5es concordam que, embora o amor sempre seja uma experi\u00eancia inef\u00e1vel e maravilhosa, a m\u00edstica pode ter esses momentos extraordin\u00e1rios, mas n\u00e3o se define por eles (Cf. LONGCHAMP, 2004, p. 1161). A M\u00edstica vem da experi\u00eancia \u00edntima e pessoal e, de certa forma, a transcende, no sentido de que vai al\u00e9m daquilo que se pode compreender racionalmente (L\u00d3PEZ-BARALT, 2009, p. 373- 375).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de afirmar que a M\u00edstica vem da pr\u00e1tica n\u00e3o quer dizer imediatamente que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia entre M\u00edstica e Pr\u00e1xis. Devemos distinguir a pr\u00e1tica como modo de viver no sentido pessoal ou interior e a Pr\u00e1xis como, em geral, \u00e9 compreendida por pensadores como Antonio Gramsci, Paulo Freire e pelos atuais movimentos sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como o termo M\u00edstica, tamb\u00e9m a palavra Pr\u00e1xis tem sentido variado. Na Filosofia grega cl\u00e1ssica, desde Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, a pr\u00e1xis era o termo para designar a atitude ou postura de vida e parecia oposto \u00e0 teoria, como contempla\u00e7\u00e3o pura (<em>the\u00f4ria<\/em>) devendo, por isso, ser a ela subordinado.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Karl Marx inverteu o paradigma aristot\u00e9lico e atribuiu \u00e0 pr\u00e1xis um lugar privilegiado, sustentando que, na transforma\u00e7\u00e3o intencional do mundo pelos seres humanos, eles criam a si mesmos, bem como ao mundo ao seu redor (BONINO, 2005, p. 920).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Paulo Freire, a educa\u00e7\u00e3o se d\u00e1 a partir da consci\u00eancia de que toda pessoa \u00e9 um ser inacabado e em constante constru\u00e7\u00e3o. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo pelo qual, atrav\u00e9s do di\u00e1logo e da intera\u00e7\u00e3o entre si e com o mundo, as pessoas v\u00e3o se construindo e reconstruindo. Nessa perspectiva, a pr\u00e1xis consiste no pr\u00f3prio processo educativo e une em si teoria e pr\u00e1tica em uma rela\u00e7\u00e3o complementar e interativa (FREIRE, 2021, p. 37). Assim, podemos dizer que toda pr\u00e1xis \u00e9 pr\u00e1tica, mas nem toda pr\u00e1tica \u00e9 pr\u00e1xis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro Casald\u00e1liga e Jos\u00e9 Maria Vigil afirmam:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nosso continente, uma \u2018<em>pedagogia do oprimido\u2019<\/em> sintetizada paradigmaticamente por Paulo Freire, com todo o trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o das massas ou comunidades, grupos e l\u00edderes, vem sendo realizada num vaiv\u00e9m de teoria e pr\u00e1tica, de a\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o que desemboca novamente na pr\u00e1xis (CASALD\u00c1LIGA; VIGIL, 1996, p. 74- 75).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, em todo o mundo, movimentos populares como a Via Campesina e, na Am\u00e9rica Latina, movimentos do campo e da cidade, t\u00eam se apropriado do termo M\u00edstica para designar din\u00e2micas e express\u00f5es celebrativas que ajudam as pessoas a se manterem firmes em suas convic\u00e7\u00f5es e a aprofundarem as motiva\u00e7\u00f5es mais profundas das causas pelas quais lutam (Cf. RODRIGUES DE SOUZA, 2012, p. 47). De todo modo, mesmo se os caminhos da espiritualidade sempre v\u00e3o al\u00e9m do campo propriamente religioso, no caso dos movimentos sociais, a busca de uma M\u00edstica sociorrevolucion\u00e1ria teve sua inspira\u00e7\u00e3o na espiritualidade religiosa crist\u00e3 ou de tradi\u00e7\u00f5es negras e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a partir dessa compreens\u00e3o que buscamos aprofundar a rela\u00e7\u00e3o entre M\u00edstica e Pr\u00e1xis. Vamos tomar como ponto de partida a reflex\u00e3o da Teologia Latino-americana e a perspectiva das culturas origin\u00e1rias e do Cristianismo da Liberta\u00e7\u00e3o em perspectiva decolonial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 M\u00edstica e Pr\u00e1xis, intera\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser o que se \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar o que se cr\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crer no que se prega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viver o que se proclama<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias (CASALD\u00c1LIGA).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que M\u00edstica e qual Pr\u00e1xis?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queremos aqui aprofundar a M\u00edstica no sentido da profunda viv\u00eancia interior que \u00e9 como mergulho no Amor Divino. Esta experi\u00eancia m\u00edstica existe nas mais diferentes correntes espirituais e religiosas e pode tamb\u00e9m ser vivida nos processos sociais e pol\u00edticos de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos compreender a Pr\u00e1xis n\u00e3o apenas como a pr\u00e1tica que decorre de uma teoria justa e adequada. \u00c9 certo que a Pr\u00e1xis est\u00e1 muito ligada a esse sentido de coer\u00eancia pessoal entre o que se cr\u00ea e o que se pratica. No entanto, no pensamento \u00e9tico latino-americano, representado, por exemplo, por Enrique Dussel, a Pr\u00e1xis \u00e9 mais do que a coer\u00eancia entre teoria e pr\u00e1tica. \u00c9 como ato primeiro e fundamentado na <em>\u00c9tica comunit\u00e1ria<\/em> (DUSSEL, 1986, p. 17) e sempre diz respeito \u00e0 pr\u00e1tica social e pol\u00edtica de car\u00e1ter libertador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez haja quem ainda estranhe ver o termo M\u00edstica associado a processos sociais e pol\u00edticos, como a motiva\u00e7\u00e3o mais profunda pela qual as pessoas assumem as lutas sociais e pol\u00edticas. Esse uso j\u00e1 est\u00e1 consolidado e devemos aceit\u00e1-lo exatamente porque ele vem da Pr\u00e1xis e n\u00e3o s\u00f3 da teoria. No entanto, aqui pensamos a M\u00edstica no sentido das tradi\u00e7\u00f5es espirituais e da hist\u00f3ria mais ampla que considera a M\u00edstica como o cora\u00e7\u00e3o da espiritualidade. Entretanto, \u00e9 bom lembrar que o saudoso padre Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz classificava a M\u00edstica em tr\u00eas tipos: a M\u00edstica prof\u00e9tica, a mist\u00e9rica e a especulativa (VAZ, 2000, p. 29-75).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, em uma vis\u00e3o mais pluralista, podemos crer que toda corrente espiritual cont\u00e9m algo de revela\u00e7\u00e3o divina. Portanto, toda M\u00edstica, seja qual for sua linguagem e cultura, tem algo de prof\u00e9tico. \u00c9 inspira\u00e7\u00e3o divina e se desenvolve pela gra\u00e7a. Esta dimens\u00e3o prof\u00e9tica \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o do Mist\u00e9rio do Amor Divino ao mundo. Mesmo se n\u00e3o tem explicitamente nenhuma mensagem diretamente social, guarda sempre um v\u00ednculo com a comunidade e a sua base que \u00e9 a caridade, ou seja, a solidariedade amorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse processo de intera\u00e7\u00e3o entre M\u00edstica e Pr\u00e1xis libertadora, h\u00e1 uma forte diferencia\u00e7\u00e3o de grau e mesmo de natureza. Evidentemente, a M\u00edstica desenvolvida pelos monges yoguis do Himalaia n\u00e3o tem a mesma intensidade da Pr\u00e1xis social de um poeta e profeta m\u00edstico como na Am\u00e9rica Latina tivemos Ernesto Cardenal, Pedro Casald\u00e1liga, ou a monja poetisa Agostinha Vieira de Mello, entre muitos outros e outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa rela\u00e7\u00e3o entre M\u00edstica e Pr\u00e1xis, alguns pontos ainda t\u00eam de ser aprofundados. Na maioria das tradi\u00e7\u00f5es, a M\u00edstica tem sido vista comumente como algo interior e \u00edntimo de cada pessoa e a no\u00e7\u00e3o de Pr\u00e1xis aqui exposta \u00e9 de a\u00e7\u00e3o eminentemente relacional e social. Como podem se articular, ent\u00e3o, a M\u00edstica que \u00e9 interioridade e a Pr\u00e1xis que \u00e9 social?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez, possamos aprender com as culturas origin\u00e1rias da Abya Yala e com as comunidades de matriz africana as ra\u00edzes sociais e o teor comunit\u00e1rio da M\u00edstica que n\u00e3o perde em nada do seu car\u00e1ter de interioridade, inclusive com direito a transes e possess\u00f5es ext\u00e1ticas, mas como elementos sempre vividos na comunidade e orientados para o bem-comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, em diversas Igrejas latino-americanas inseridas na caminhada do povo, o mart\u00edrio foi uma realidade por demais presente. Muitos dos irm\u00e3os e irm\u00e3s que deram a sua vida pela causa do reinado divino da justi\u00e7a e da liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram em si religiosos, mas viviam uma M\u00edstica no sentido de intensa paix\u00e3o pela vida e pela justi\u00e7a. Muitos e muitas eram crist\u00e3os de comunidades eclesiais e pastorais sociais. A maioria desses\/as m\u00e1rtires partiram da \u00c9tica de liberta\u00e7\u00e3o e se alimentaram de uma profunda M\u00edstica prof\u00e9tica para enfrentar o risco do mart\u00edrio e ser fi\u00e9is at\u00e9 o fim \u00e0 causa pela qual deram a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 <\/strong><strong>M\u00edstica e Pr\u00e1xis nas espiritualidades origin\u00e1rias<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verdadeiro Pai \u00d1amandu, o primeiro, estando para fazer descer \u00e0 morada terrena o bom conhecimento para as gera\u00e7\u00f5es dos que levam a ins\u00edgnia da masculinidade e o emblema da feminilidade, disse a Jakir\u00e1 Ru Et\u00e9: [\u2026] Olha meu Filho Tup\u00e3 Ru Et\u00e9, aquele que eu concebi para o meu refrescamento, faz com que Ele se aloje no centro do cora\u00e7\u00e3o de nossos filhos. Unicamente assim, os numerosos seres que se erguer\u00e3o na morada terrena, ainda que queiram desviar-se do verdadeiro amor, viver\u00e3o na harmonia (AYVU RAPYTA, 1997, p. 57).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todas as comunidades origin\u00e1rias, algo que sempre chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a dimens\u00e3o profundamente m\u00edstica da espiritualidade. Toda a vida \u00e9 permeada por ritos, preces e experi\u00eancias m\u00edsticas. De fato, como os povos ind\u00edgenas e as comunidades negras poderiam ter sobrevivido a uma guerra assassina de mais de 500 anos, a tantos massacres e a uma pol\u00edtica sistematicamente genocida da sociedade escravagista, se n\u00e3o fosse movida por forte M\u00edstica de amor \u00e0 vida, de solidariedade comunit\u00e1ria e de op\u00e7\u00e3o pela alegria e pela beleza, como caminhos de intimidade com o Mist\u00e9rio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 verdade que a conquista e a coloniza\u00e7\u00e3o provocaram na Am\u00e9rica \u201co maior genoc\u00eddio da hist\u00f3ria da humanidade: mais de 70 milh\u00f5es de v\u00edtimas entre os povos origin\u00e1rios\u201d (GRONDINO\/VIEZZER, 2021, p. 24- 25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos desses povos origin\u00e1rios mant\u00eam sua peculiaridade cultural e sua espiritualidade pr\u00f3pria. Por isso, seria superficial ou leviano falar em \u201cm\u00edstica ind\u00edgena\u201d ou querer resumir em poucas frases a riqueza dessa diversidade. A primeira observa\u00e7\u00e3o a fazer \u00e9 que para entrar nesta terra sagrada e martirial (custou o sangue de muitos pais e m\u00e3es da f\u00e9 e da espiritualidade), temos de entrar de p\u00e9s descal\u00e7os, nus de qualquer pretens\u00e3o de julgamento ou classifica\u00e7\u00e3o e de cora\u00e7\u00e3o aberto a acolher interiormente a Palavra do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes, o Xamanismo e a Pajelan\u00e7a, como \u00e9 conhecido este fen\u00f4meno no norte do Brasil, se apresentam como atividades de cura individual. As fun\u00e7\u00f5es xam\u00e2nicas n\u00e3o s\u00e3o cargos ou profiss\u00f5es estruturadas e sim experi\u00eancias m\u00edsticas que homens e mulheres assumem carismaticamente como for\u00e7as espirituais que existem em todos\/as e s\u00e3o vividas comunitariamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo se s\u00e3o diferentes umas das outras, essas tradi\u00e7\u00f5es t\u00eam em comum o fato de serem instrumentos de comunica\u00e7\u00e3o das pessoas e comunidades com o esp\u00edrito presente e atuante em cada ser vivo e na natureza. Quase sempre, visam reconstituir a sa\u00fade das pessoas e o bem-viver coletivo e pessoal, ou seja, o equil\u00edbrio de rela\u00e7\u00f5es entre a humanidade e a natureza. Em geral, fazem isso atrav\u00e9s do transe, \u00eaxtase ou sonho de revela\u00e7\u00e3o (BALDUS, 1966, p. 87).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas dessas tradi\u00e7\u00f5es incorporam em seus ritos bebidas consideradas de poder ou fumos, elementos que possibilitam sonhos prof\u00e9ticos, transes e estados alterados de consci\u00eancia. Muitos desenvolvem rela\u00e7\u00f5es especiais com animais e a comunica\u00e7\u00e3o com o esp\u00edrito do animal-totem serve como elemento de cura e harmoniza\u00e7\u00e3o da vida. Quase todas fazem parte de um caminho inici\u00e1tico e por isso secreto. S\u00e3o guardi\u00e3es de tradi\u00e7\u00f5es ancestrais que v\u00e3o se entrecruzando e assimilando elementos de outras culturas e mesmo da sociedade dominante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucos brasileiros sabem que antes de existirem no Brasil, no s\u00e9culo XVII, os quilombos de negros e negras que fugiam da escravid\u00e3o e se refugiavam comunitariamente nas matas, j\u00e1 na metade do s\u00e9culo XVI, foram os \u00edndios Tupinamb\u00e1s no Nordeste (Bahia) que formaram as primeiras comunidades de \u00edndios e \u00edndias fugidos da escravid\u00e3o e da catequese jesu\u00edta. \u00c9 sintom\u00e1tico que os jesu\u00edtas deram a essas comunidades coordenadas por Xam\u00e3s ou Paj\u00e9s, o nome de \u201cSantidade\u201d. No in\u00edcio, esse nome (na l\u00edngua tupi: caraimonhang) era dado aos rituais nos quais os paj\u00e9s entravam em contato com os ancestrais mortos, algumas vezes, os encarnavam e exortavam o grupo \u00e0 resist\u00eancia mesmo armada e \u00e0 busca da terra sem males. Os estudos mostram que at\u00e9 o s\u00e9culo XVIII, os movimentos de levantes ind\u00edgenas e suas migra\u00e7\u00f5es para longe da escravid\u00e3o eram ainda chamados de Santidade (VAINFAS, 1998, p. 79).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda essa hist\u00f3ria \u00e9 secreta. Podemos simplesmente intuir que at\u00e9 hoje, muitas pr\u00e1xis de resist\u00eancia ind\u00edgena t\u00eam por tr\u00e1s essa M\u00edstica. Mesmo quando lembramos a insurg\u00eancia zapatista dos \u00edndios do Sul do M\u00e9xico, \u00e9 bom valorizar a fun\u00e7\u00e3o dos Xam\u00e3s e das Pessoas do Esp\u00edrito nas mobiliza\u00e7\u00f5es sociais e na resist\u00eancia dos povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades negras, n\u00e3o h\u00e1 ainda um estudo conclusivo sobre como se manifestavam as espiritualidades de matriz africana antes da organiza\u00e7\u00e3o dos Candombl\u00e9s e da institui\u00e7\u00e3o oficial da Umbanda no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. No entanto, \u00e9 evidente a rela\u00e7\u00e3o entre a M\u00edstica negra e a pr\u00e1xis de liberta\u00e7\u00e3o, seja nas comunidades negras crist\u00e3s que usavam as confrarias como instrumentos de compra e liberta\u00e7\u00e3o de escravos, seja no pr\u00f3prio fato de grupos negros que guardaram as tradi\u00e7\u00f5es e foram capazes de uni-las para formar as espiritualidades negras propriamente brasileiras, ou colombianas ou cubanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a Pr\u00e1xis atual dessas espiritualidades origin\u00e1rias, podemos destacar alguns elementos como:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>M\u00edsticas de car\u00e1ter ecoc\u00f3smico.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">As espiritualidades \u00edndias e negras nos ensinam que al\u00e9m de interligado, tudo cont\u00e9m de alguma forma a vida. Tudo cont\u00e9m esp\u00edrito. Os povos ind\u00edgenas do Nordeste nos falam nos Encantados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do di\u00e1logo com as espiritualidades dos povos origin\u00e1rios da Austr\u00e1lia e da Polin\u00e9sia, em um livro recente, o te\u00f3logo irland\u00eas Diarmuid O\u2019Murchu escreve:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a maior parte das principais religi\u00f5es define Deus como Esp\u00edrito transcendente (uma realidade desencarnada para al\u00e9m do tempo e do espa\u00e7o, mas com impacto profundo sobre o tempo e o espa\u00e7o), a vis\u00e3o do Grande Esp\u00edrito descreve a presen\u00e7a \u00edntima e permanente de Deus atrav\u00e9s de toda a vida org\u00e2nica, em primeiro lugar, dentro e atrav\u00e9s da pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o material. \u00c9 atrav\u00e9s da nossa intera\u00e7\u00e3o c\u00f3smica com o terrestre que encontramos e experimentamos o Grande Esp\u00edrito (MURCHU, 2018, p. 164).<\/p>\n<\/blockquote>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li>M\u00edsticas que valorizam o corpo e o cotidiano da vida<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elas nos ensinam a redescobrir o Esp\u00edrito na beleza do corpo, na valoriza\u00e7\u00e3o do erotismo, na comida, na bebida, na dan\u00e7a e assim por diante. Mostram que o equil\u00edbrio humano est\u00e1 ligado aos animais e \u00e0s plantas. Em algumas espiritualidades origin\u00e1rias, a natureza est\u00e1 dentro da gente. Por isso, no Candombl\u00e9, algu\u00e9m \u00e9 filho de Xang\u00f4, isso \u00e9, do raio, outra pessoa \u00e9 filha ou filho do vento, filho das \u00e1guas etc. Em povos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica do Norte, voc\u00ea tem um animal de poder que guia ou acompanha a sua vida.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li>Uma M\u00edstica social e pol\u00edtica do bem-viver<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas m\u00edsticas ind\u00edgenas, o comunitarismo \u00e9 fundamental. Em alguns povos, o fato de algu\u00e9m abstrair-se da vida comum \u00e9 considerado perigoso para a pessoa e para todo o grupo. Pode atrair energias negativas e at\u00e9 a morte. \u00c9 isso que tem ajudado tanto as comunidades \u00edndias a resistirem e at\u00e9 a se reestruturarem nas \u00faltimas d\u00e9cadas, assim como \u00e9 isso que est\u00e1 na raiz de um novo projeto social e pol\u00edtico latino-americano para um socialismo do s\u00e9culo XXI. Para quem aceita se inserir nessa vis\u00e3o, \u00e9 preciso buscar novo estilo de economia e de pol\u00edtica que, como j\u00e1 vimos, \u00e9 o <em>suma kawsat<\/em> do povo qu\u00e9chua, suma<em> qama\u00f1a<\/em> dos aymara, teko-por\u00e3 dos Guaranis ou simplesmente <em>o bem-viver<\/em>. E a teologia decolonial mostrou um profundo di\u00e1logo e sintonia entre o Bem viver ind\u00edgena e a proposta de Jesus do reino de Deus (Cf. CUNHA, 2019). \u00c9 uma proposta pol\u00edtica que os representantes dos povos andinos conseguiram colocar como objetivo do Estado pluri\u00e9tnico, tanto na nova Constitui\u00e7\u00e3o da Bol\u00edvia, como na Constitui\u00e7\u00e3o do Equador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 M\u00edstica e as Pr\u00e1xis da Ecumenicidade.<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Meu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberto a todas as formas:<\/p>\n<p>\u00c9 uma pastagem para as gazelas,<\/p>\n<p>E um claustro para os monges crist\u00e3os,<\/p>\n<p>Um templo para os \u00eddolos,<\/p>\n<p>A Caaba do peregrino,<\/p>\n<p>As t\u00e1buas da Tor\u00e1,<\/p>\n<p>E o livro do Cor\u00e3o.<\/p>\n<p>Professo a religi\u00e3o do amor,<\/p>\n<p>Em qualquer dire\u00e7\u00e3o que avancem seus camelos;<\/p>\n<p>A religi\u00e3o do amor<\/p>\n<p>Ser\u00e1 minha religi\u00e3o e minha f\u00e9 (IBN ARABI, apud TEIXEIRA, 2015, p. 56).<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o basta afirmar que a M\u00edstica para ser verdadeira e profunda transcende tradi\u00e7\u00f5es particulares e abra\u00e7a a dimens\u00e3o universal do Amor. De certo modo, M\u00edsticos e M\u00edsticas das mais diversas correntes espirituais e em todos os tempos podem afirmar como Ibn Arabi a religi\u00e3o do Amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso sublinhar que, como esse Amor \u00e9 o Amor criador da vida e do bem-viver, a M\u00edstica se expressa em uma Pr\u00e1xis ecum\u00eanica que tem natureza comunit\u00e1ria e libertadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria do Ecumenismo, muitas vezes, o di\u00e1logo inter-f\u00e9 e inter-religioso avan\u00e7ou muito mais atrav\u00e9s da abertura espiritual dos m\u00edsticos e m\u00edsticas do que propriamente pelo trabalho teol\u00f3gico de criar pontes e consensos doutrinais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos afirmar que o Di\u00e1logo \u00e9 um g\u00eanero liter\u00e1rio inventado pelas religi\u00f5es antigas e faz parte da M\u00edstica. Nas mais diversas correntes espirituais, o Divino se torna acess\u00edvel \u00e0 humanidade atrav\u00e9s do di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os hinos do Rig-Veda s\u00e3o em di\u00e1logo. O Bhagavad-Gita cont\u00e9m os di\u00e1logos de Krisna. As escrituras budistas nos transmitem os di\u00e1logos de Buda. Na China, se conservaram as conversas de Conf\u00facio e os ensinamentos de Lao-Ts\u00e9. No Avesta, Zaratustra fala com Arim\u00e3. Na B\u00edblia, Abra\u00e3o, Mois\u00e9s e os profetas t\u00eam a experi\u00eancia m\u00edstica ou inici\u00e1tica do di\u00e1logo com Deus. Escutam a voz de Deus. Os evangelhos contam que quase todas as par\u00e1bolas e ensinamentos de Jesus s\u00e3o dados a partir de perguntas e em forma de di\u00e1logo. Muitos mishna do Talmud s\u00e3o feitos de di\u00e1logo entre rabinos e disc\u00edpulos. O Monaquismo passou do Oriente ao Ocidente, atrav\u00e9s das Cola\u00e7\u00f5es ou Col\u00f3quios dos monges contados por Jo\u00e3o Cassiano (s\u00e9culo IV). Na Ar\u00e1bia do s\u00e9culo VII, o profeta Muhamad (Maom\u00e9) escuta o anjo Gabriel e com ele dialoga para escrever o Cor\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tornou-se c\u00e9lebre na Hist\u00f3ria a busca do di\u00e1logo e a aproxima\u00e7\u00e3o entre Francisco de Assis e o sult\u00e3o mu\u00e7ulmano em meio ao ambiente das Cruzadas. Na hist\u00f3ria da M\u00edstica crist\u00e3, o di\u00e1logo espiritual teve muitos exemplos, como o <em>Libre de l\u2019amie et l\u2019amant,<\/em> de R. Lulle (1277), as vis\u00f5es e o <em>Libro della divina dottrina,<\/em> de Catarina de Sena (1378). Mesmo no campo teol\u00f3gico, em plena Idade M\u00e9dia, temos os di\u00e1logos inter-religiosos fict\u00edcios como o <em>Dialogus inter philosophum, judaeum et christianum, <\/em>de Abelardo (1141) e o <em>Dialogus de Deo abscondito entre Christianus et Gentilis, <\/em>de Nicolau de Cusa (1453).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XVI, Francisco Xavier (1506-1552) se destacou pelo di\u00e1logo espiritual com os religiosos da religi\u00e3o japonesa (BASSET, 1996, p. 73). No s\u00e9culo XX, o irm\u00e3o Charles de Foucauld retoma a m\u00edstica da irmandade universal e a ecumenicidade do amor junto aos Tuareg do norte da \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda metade do s\u00e9culo XX, a campanha contra a guerra do Vietn\u00e3, a luta pac\u00edfica contra o armamentismo e a rela\u00e7\u00e3o entre M\u00edstica e Pr\u00e1xis de Justi\u00e7a e Liberta\u00e7\u00e3o contou com o protagonismo, entre outros, de um monge trapista dos Estados Unidos: Thomas Merton. Ao mesmo tempo em que sua palavra tomava a defesa dos movimentos pela Paz e contra a guerra, ele se inseria no di\u00e1logo com o Dalai Lama e os monges budistas de diversas tradi\u00e7\u00f5es. Em Calcut\u00e1 (1969), um dia antes de falecer, em sua \u00faltima confer\u00eancia interreligiosa entre monges crist\u00e3os e budistas, Thomas Merton afirmou:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O n\u00edvel mais profundo da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o, mas a comunh\u00e3o. Ela \u00e9 sem palavras. Ela est\u00e1 al\u00e9m das palavras, al\u00e9m dos discursos, al\u00e9m dos conceitos. Na solidariedade aos pequeninos do mundo, n\u00e3o estamos descobrindo uma unidade nova. Descobrimos uma unidade antiga. Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, n\u00f3s j\u00e1 somos Um. Mas imaginamos n\u00e3o ser. O que temos de reencontrar \u00e9 nossa unidade original. Apenas, temos de ser o que j\u00e1 somos (BASSET, 1996, p. 122).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 essa perspectiva de comunh\u00e3o que moveu m\u00edsticos como Luis Massillon, crist\u00e3o franc\u00eas do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, no di\u00e1logo e inser\u00e7\u00e3o espiritual com a f\u00e9 mu\u00e7ulmana. Levou monges beneditinos como Henri le Saux, Bede Griffits e outros a viverem como Sanyasis hindu\u00edstas na \u00cdndia sem deixar de ser monges crist\u00e3os (Cf. TEIXEIRA, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa mesma M\u00edstica conduziu o te\u00f3logo, qu\u00edmico e fil\u00f3sofo Raimon Panikkar a unir Cristianismo e Hindu\u00edsmo no Cosmoteandrismo que ele propunha (TEIXEIRA, 2010, p. 363).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui no Brasil, na d\u00e9cada de 1970, o padre franc\u00eas Fran\u00e7ois de l\u2019Espinay se inseriu em Salvador, BA, na comunidade de Candombl\u00e9 da M\u00e3e Olga de Alaketu e viveu inserido nessa comunidade, como Ob\u00e1 de Xang\u00f4, sem perder sua f\u00e9 crist\u00e3 e a voca\u00e7\u00e3o presbiteral (L\u2019ESPINAY, 1987, p. 639).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa perspectiva, o Conselho Mundial de Igrejas realizou em Kyoto, em 1987, um encontro sobre Espiritualidade no Di\u00e1logo inter-religioso, analisando a import\u00e2ncia da espiritualidade e da M\u00edstica para as rela\u00e7\u00f5es inter-religiosas. De certa forma, podemos afirmar que a M\u00edstica \u00e9 a primeira pr\u00e1tica concreta do ecumenismo crist\u00e3o e tamb\u00e9m do que, na Am\u00e9rica Latina, desde 1992, costumamos chamar de \u201cmacro-ecumenismo\u201d, ou seja, a ecumenicidade no caminho do reino de Deus que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 inter-religioso, mas intercultural e em todas as dimens\u00f5es do humano.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria do Ecumenismo crist\u00e3o, desde o in\u00edcio, \u201ca tradi\u00e7\u00e3o do Cristianismo Pr\u00e1tico\u201d tem sido poderoso componente do Movimento Ecum\u00eanico. Ele encontrou express\u00e3o pol\u00eamica no slogan: \u201ca doutrina divide, mas a a\u00e7\u00e3o une\u201d. Na realidade, os encontros de di\u00e1logo t\u00eam conseguido reconciliar doutrina e a\u00e7\u00e3o, M\u00edstica e Pr\u00e1xis (BONINO, 2005, p. 920).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, desde o come\u00e7o da caminhada das Igrejas inseridas nos movimentos populares e na vida das Comunidades de Base, pastorais com lavradores, \u00edndios, oper\u00e1rios ou sofredores da rua, conviveram bem com a ecumenicidade das lutas pac\u00edficas no campo e na cidade. Lavradores de v\u00e1rias Igrejas crist\u00e3s e de outras religi\u00f5es ou mesmo sem religi\u00e3o lutam juntos pela Reforma Agr\u00e1ria e pela justi\u00e7a no campo. Do mesmo modo, oper\u00e1rios, \u00edndios e trabalhadores\/as dos mais variados setores. Se, em meio a essa luta ecum\u00eanica, n\u00e3o se procura tamb\u00e9m explicitar um caminho de di\u00e1logo e comunh\u00e3o na express\u00e3o da f\u00e9, pouco a pouco, se pratica uma separa\u00e7\u00e3o de f\u00e9 e vida, contra a qual lutamos nas Igrejas mais tradicionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 para a pr\u00f3pria efic\u00e1cia da a\u00e7\u00e3o social, a uni\u00e3o entre M\u00edstica e Pr\u00e1xis sup\u00f5e que as pastorais chamadas sociais, \u00e0 medida que assumem a ecumenicidade das lutas, assumam e aprofundem tamb\u00e9m a dimens\u00e3o ecum\u00eanica da f\u00e9 e da espiritualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 M\u00edstica e Pr\u00e1xis da Liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018H\u00e1 tempos em que a melhor maneira de dizer \u00e9 fazer\u2019 (Jos\u00e9 Mart\u00ed). Cremos que h\u00e1 lugares em que a melhor maneira de dizer liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 faz\u00ea-la. Todos os latino-americanos e latino-americanas que vivem com esp\u00edrito, fazem da pr\u00e1xis a verifica\u00e7\u00e3o de seus ideais e de seu destino. Aqui a ideologia \u00e9 milit\u00e2ncia. A fidelidade \u00e0 pend\u00eancia \u00e9 ortopr\u00e1xis, e a f\u00e9 \u00e9 amor. \u2018Obras s\u00e3o amores\u2019 (CASALD\u00c1LIGA; VIGIL, 1996, p. 74).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em termos de f\u00e9 ecum\u00eanica e de um Cristianismo fiel ao seguimento de Jesus Cristo, n\u00e3o podemos distinguir M\u00edstica e M\u00edstica da Liberta\u00e7\u00e3o, assim como soa incoerente falar em Pastorais Sociais, como se houvesse alguma Pastoral que n\u00e3o devesse ser verdadeiramente social. Do mesmo modo, em seu pr\u00f3prio DNA, mesmo que seja impl\u00edcita, toda M\u00edstica tem uma dimens\u00e3o social e libertadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que em algumas pessoas e culturas, a dimens\u00e3o social e libertadora se expressa na veracidade das rela\u00e7\u00f5es e na solidariedade b\u00e1sica do amor social. Em outras, em entrega da vida t\u00e3o forte \u00e0 caridade (amor solid\u00e1rio) que esta expresse a M\u00edstica Amorosa da intimidade divina. Em outros e outras, enfim, essa dimens\u00e3o m\u00edstica toma a express\u00e3o de uma profecia social e pol\u00edtica de car\u00e1ter explicitamente libertador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro caso, podemos compreender, assim, a M\u00edstica de algu\u00e9m como Etty Hillesum. Na segunda parte do s\u00e9culo XX, se tornaram conhecidos os escritos (cartas) e o Di\u00e1rio dessa jovem holandesa de fam\u00edlia judaica, aos 28 anos, morta pelos nazistas no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz, em novembro de 1943. Principalmente, o Di\u00e1rio, iniciado em mar\u00e7o de 1941 e conclu\u00eddo em outubro de 1942, revela uma jovem que n\u00e3o frequenta sinagoga, nem Igreja. No entanto, escreve:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando oro, nunca oro por mim mesma. Oro sempre pelos outros, ou dialogo de maneira louca, infantil ou ser\u00edssima com a parte mais profunda de mim mesmo que, por comodidade, chamo de Deus. E mais tarde: E isso, provavelmente, expressa melhor o meu amor pela vida (HILLESUM, 1985, p. 13).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 essa m\u00edstica pela vida e pelo amor solid\u00e1rio que fez com que, quando viu o seu povo ser preso e mandado a campos de concentra\u00e7\u00e3o, mesmo se poderia ter escapado, visto que namorava um oficial alem\u00e3o, se apresentou aos nazistas como judia e foi presa. At\u00e9 hoje, frases do seu Di\u00e1rio ressoam no mundo inteiro, clamando por mudan\u00e7a no modo em que as pessoas pensam em Deus.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro de mim, h\u00e1 um po\u00e7o muito profundo. Nem consigo ver o seu fundo. \u00c0s vezes, me parece coberto de pedras e lixo. Para mim, Deus est\u00e1 sepultado. Em alguns momentos, consigo desenterr\u00e1-lo e posso at\u00e9 ajudar outras pessoas a desenterrarem-no em seus cora\u00e7\u00f5es. Percebo que em uma situa\u00e7\u00e3o como essa, \u00f3 Deus, tu n\u00e3o podes nos ajudar. Mas, n\u00f3s podemos fazer muito por ti. Podemos ajudar-te a n\u00e3o te deixar sepultado em n\u00f3s e a ser testemunhas do teu amor em uma realidade na qual todo amor \u00e9 abolido e chacinado (HILLESUM, 1985, p. 169).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 essa revolu\u00e7\u00e3o na concep\u00e7\u00e3o de Deus que, conforme os Evangelhos, Jesus de Nazar\u00e9 tinha proposto e que foi o elemento revolucion\u00e1rio mais dif\u00edcil de ser absorvido, seja pelos imp\u00e9rios do mundo, seja pelas religi\u00f5es e, at\u00e9 hoje, o \u00e9 pelas pr\u00f3prias Igrejas que se dizem crist\u00e3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No segundo caso, a M\u00edstica do cotidiano, podemos compreend\u00ea-la no sentido do que o Papa Francisco escreveu:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam seus filhos com tanto amor, nos homens e nas mulheres que trabalham a fim de trazer o p\u00e3o para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. (&#8230;) Essa \u00e9, muitas vezes \u2018<em>a santidade ao p\u00e9 da porta\u2019<\/em>, daqueles\/as que vivem perto de n\u00f3s e s\u00e3o um reflexo da presen\u00e7a de Deus\u201d (Gaudete et Exsultate, n. 7).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tratar do cuidado com o outro, a CNBB, no Manual da Campanha da Fraternidade de 2020, tomou como refer\u00eancia a figura da Irm\u00e3 Dulce dos pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas express\u00f5es mais universais n\u00e3o diminuem em nada o terceiro tipo ou mais precisamente \u201ca m\u00edstica da caminhada libertadora\u201d, que, na Am\u00e9rica Latina, desde a 2\u00aa confer\u00eancia dos bispos em Medell\u00edn (1968), tem sido t\u00e3o forte e tem suscitado tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s que aprofundaram a M\u00edstica e dos quais n\u00e3o poucos viveram o Mart\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, quando se fala em M\u00edstica da caminhada, imediatamente, nos v\u00eam \u00e0 mente e ao cora\u00e7\u00e3o figuras como Pedro Casald\u00e1liga, no Brasil, Ernesto Cardenal, na Nicar\u00e1gua, a poetisa J\u00falia Esquivel, em Guatemala, e tantos outros irm\u00e3os e irm\u00e3s que viveram e muitos vivem ainda a busca da mais profunda intimidade divina no compromisso com a liberta\u00e7\u00e3o integral de nossos povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas pessoas testemunham que o desafio da M\u00edstica n\u00e3o \u00e9 apenas fornecer uma motiva\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica forte para a luta, como pode parecer nas din\u00e2micas dos encontros de alguns movimentos sociais. Sem negar essa possibilidade justa e necess\u00e1ria, a M\u00edstica tem como voca\u00e7\u00e3o ir mais longe. Revela que toda luta pela justi\u00e7a e pela liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 lugar de encontro e intimidade com o Divino, como a B\u00edblia revela que foi no meio do deserto da luta, que os hebreus receberam de Deus a alian\u00e7a de amor. Durante toda a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, o \u00caxodo da liberta\u00e7\u00e3o sempre foi considerado \u201co tempo do namoro com Deus\u201d (Jr 2,2) e o povo de Deus sempre foi chamado a \u201cretomar o primeiro amor\u201d (Ap 2,5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa M\u00edstica da Liberta\u00e7\u00e3o \u00e9, antes de tudo, M\u00edstica da Vida, como expressava Etty Hillesum e, na perspectiva propriamente crist\u00e3, expressa a te\u00f3loga Maria Clara Bingemer:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 crist\u00e3 afirma ser a experi\u00eancia do encontro com esse Deus em Jesus Cristo a experi\u00eancia de um sentido radical do existir, uma teonomia fundante da liberdade e responsabilidade pessoais, enraizamento experiencial da pessoa e do Incondicionado no Absoluto com nome pr\u00f3prio e rosto amoroso que lhe assegura, a um s\u00f3 tempo, a liberdade e o limite (BINGEMER, 2013, p. 287).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o precisamos aqui retomar toda a Hist\u00f3ria das lutas sociais e das conquistas civis para ver o lugar dos m\u00edsticos e m\u00edsticas no cerne dessa aventura pela vida e pela liberta\u00e7\u00e3o. J\u00e1 no s\u00e9culo XIX, na Arg\u00e9lia, a luta contra a invas\u00e3o francesa foi liderada pelo Emir Abd-al-Qadir, praticante da M\u00edstica sufi (Cf. Livro das Religi\u00f5es, Globo, p. 282). No s\u00e9culo XX, a linguagem espiritual e m\u00edstica do pastor Martin-Luther King mobilizou negros crist\u00e3os, mu\u00e7ulmanos e de tradi\u00e7\u00f5es ancestrais contra o racismo e pela dignidade de todas as pessoas humanas. J\u00e1 antes, na \u00cdndia, a atividade do Mahatma Gandhi uniu pessoas de v\u00e1rias correntes espirituais no movimento de independ\u00eancia, assim como depois, o arcebispo Desmond Tutu e o ativista social Nelson Mandela uniram a \u00c1frica do Sul e todas as pessoas de boa vontade do mundo contra o apartheid.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria imposs\u00edvel aqui enumerar a experi\u00eancia m\u00edstica de tantas pessoas que viveram a M\u00edstica mais profunda a partir da inser\u00e7\u00e3o amorosa e solid\u00e1ria \u00e0s lutas do povo. No s\u00e9culo XX, na Fran\u00e7a, tivemos o exemplo de uma pensadora e m\u00edstica como Simone Weil, que soube unir fortemente \u00c9tica solid\u00e1ria, Pr\u00e1xis de comunh\u00e3o com as classes de trabalhadores\/as oprimidos\/as e a busca da intimidade com Deus (Cf. BINGEMER, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Hist\u00f3ria e os livros registram os M\u00edsticos e M\u00edsticas que se destacaram e se tornaram famosos. Na Am\u00e9rica Latina e no Brasil, a caminhada de liberta\u00e7\u00e3o tem uma comunidade imensa de m\u00edsticos e m\u00edsticas que nasceram e viveram no meio dos mais pobres e podem ser para n\u00f3s mestres e mestras dessa M\u00edstica a partir da Pr\u00e1xis de solidariedade e liberta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tantos nomes no campo e nas cidades, m\u00edsticos e m\u00edsticas da caminhada eclesial, mas tamb\u00e9m de outras tradi\u00e7\u00f5es espirituais, como tamb\u00e9m pessoas que nem se identificam com nenhuma corrente religiosa, mas vivem a M\u00edstica da Vida e do Amor solid\u00e1rio. Podemos lembrar a figura excepcional do nosso profeta Helder Camara que, com justi\u00e7a, foi considerado como um dos pais da Igreja na Am\u00e9rica Latina (COMBLIN, 2009, p. 620). Como pai da Igreja, em todo o seu trabalho pastoral e no seu testemunho de f\u00e9 prof\u00e9tica, principalmente, no Conc\u00edlio Vaticano II (1962- 1965) e na 2\u00aa Confer\u00eancia do episcopado latino-americano em Medell\u00edn (1968), uniu e ensinou a unir a dimens\u00e3o prof\u00e9tica da f\u00e9 com seu alicerce m\u00edstico e espiritual. A express\u00e3o de sua M\u00edstica foi toda a luta para tornar eficaz no mundo a A\u00e7\u00e3o Justi\u00e7a e Paz, a partir da N\u00e3o-viol\u00eancia ativa e do que ele chamou \u201cas minorias abra\u00e2micas\u201d. Do mesmo modo, n\u00e3o podemos deixar de recordar a figura de Oscar Romero, arcebispo m\u00e1rtir de San Salvador, assim como de uma multid\u00e3o de irm\u00e3os e irm\u00e3s que, como diz a Carta aos Hebreus, se constituem para n\u00f3s como \u201cuma grande nuvem de testemunhas\u201d (Hb 12,1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos esses irm\u00e3os e irm\u00e3s nos ensinam, entre outras coisas, duas li\u00e7\u00f5es importantes: a primeira \u00e9 que a M\u00edstica n\u00e3o \u00e9 algo extraordin\u00e1rio, acess\u00edvel apenas a uma elite espiritual ou religiosa. Todos\/as n\u00f3s somos chamados\/as a viver a intimidade com o Mist\u00e9rio e podemos viver essa experi\u00eancia na Pr\u00e1xis da caminhada libertadora. A segunda \u00e9 que quanto mais aprofundamos a op\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica libertadora mais podemos viver a M\u00edstica prof\u00e9tica do Deus que \u00e9 Amor e s\u00f3 pode amar. Essa uni\u00e3o entre o mais \u00edntimo dentro de n\u00f3s e a dimens\u00e3o social e pol\u00edtica se faz quando assumimos o Amor n\u00e3o s\u00f3 como sentimento, mas como postura de vida. Como, no s\u00e9culo IV, escreveu Santo Agostinho: \u201cApontem-me algu\u00e9m que ame e ele sente o que estou dizendo. Deem-me algu\u00e9m que deseje, que caminhe neste deserto, algu\u00e9m que tenha sede e suspira pela fonte da vida. Mostre-me esta pessoa e ela saber\u00e1 o que quero dizer\u201d (AGOSTINHO, Coment\u00e1rio sobre o evangelho de Jo\u00e3o 26,4, 2023).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todos os caminhos espirituais, a M\u00edstica \u00e9 o mergulho no mais profundo da experi\u00eancia interior e se d\u00e1 por uma progressiva educa\u00e7\u00e3o para a amorosidade. Ela \u00e9 \u00edntima e pessoal, mas n\u00e3o individualista ou isolada do social. Ao contr\u00e1rio, nas tradi\u00e7\u00f5es mais antigas e nas espiritualidades negras e ind\u00edgenas, ela se d\u00e1 sempre no seio da comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, conforme alguns dos mais antigos textos b\u00edblicos, o pr\u00f3prio fen\u00f4meno da profecia se dava a partir do transe m\u00edstico (1Sm 10,5-6). No entanto, essa experi\u00eancia interior se expressa na pr\u00e1xis que \u00e9 a \u00e9tica comunit\u00e1ria e garantidora de profunda humaniza\u00e7\u00e3o. No Cristianismo, a M\u00edstica significa abrir-se radicalmente \u00e0 a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Divino que conduz cada pessoa e a hist\u00f3ria da humanidade para a plenitude do Reino. Como afirma o livro da Sabedoria: \u201cO Esp\u00edrito do Senhor enche toda a terra e abrangendo tudo, tem conhecimento de cada som e cada palavra\u201d (Sb 1,7).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Marcelo Barros \u00e9 monge beneditino e escritor. Foi coordenador latino-americano da Associa\u00e7\u00e3o Ecum\u00eanica de Te\u00f3logos\/as do Terceiro Mundo (ASETT) de 2010-2018. Assessor de movimentos sociais e comunidades eclesiais de base. Texto submetido em 30\/11\/2022; aprovado em 30\/10\/2023; postado em 31\/12\/2023. Original portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AGOSTINHO. <em>Coment\u00e1rio sobre o Evangelho de Jo\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ASURMENDI, J. <em>O profetismo<\/em>. Das origens a \u00e9poca moderna. SP: Paulinas, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BALDUS, Herbert. 0 Xamanismo. In <em>Revista do Museu Paulista<\/em>. N. S.. vol. 16, Sa\u0303o Paulo. 1965\/66, n. 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BASSET, Jean-Claude. <em>Le Dialogue Interreligieux. <\/em>Histoire et avenir. Paris: Cerf, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BINGEMER, Maria Clara. <em>O Mist\u00e9rio e o mundo<\/em>. Paix\u00e3o por Deus em tempos de descren\u00e7a. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WEIL, Simone. <em>A for\u00e7a e a fraqueza do amor<\/em>. S\u00e3o Paulo: Rocco, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BONINO, Jos\u00e9 Miguez. Pr\u00e1xis<strong>. <\/strong>In LOSSKY, Nicholas; BONINO, Jos\u00e9 Miguez et alii. <em>Dicion\u00e1rio do Movimento Ecum\u00eanico.<\/em> Petr\u00f3polis: Vozes, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ADOGAN, Le\u00f3n. Ayvu Rapyta<strong>. <\/strong><em>Textos M\u00edsticos dos Mby\u00e1-Guaran\u00ed del Guair\u00e1.<\/em> Asunci\u00f3n del Paraguay: Biblioteca Paraguaya de Antropologia, vol XVI, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASALD\u00c1LIGA, Pedro e VIGIL, Jos\u00e9 Maria. <em>Espiritualidade da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>. Petr\u00f3polis, Vozes, 4\u00aa ed. 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COMBLIN, Jos\u00e9. Os santos Pais da Am\u00e9rica Latina. In <em>Concilium<\/em> 333 (2009), p. 626- 628.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CUNHA, Carlos. <em>Encontros Decoloniais entre o Bem-viver e o Reino de Deus. <\/em>Campinas: Ed. Saber Criativo, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUSSEL, Enrique. <em>Para uma \u00c9tica da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em><strong>. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Loyola, 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUSSEL, Enrique. <em>\u00c9tica Comunit\u00e1ria. <\/em>Petr\u00f3polis: Vozes, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FREIRE, Paulo. <em>Pedagogia do Oprimido. <\/em>17\u00aa. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FREIRE, Paulo. <em>Pedagogia da autonomia.<\/em> 8\u00aa Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora a Paz e Terra fez uma edi\u00e7\u00e3o especial e art\u00edstica deste livro: Paz e Terra, 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GRONDIM, Marcelo; VIEZZER, Moema. <em>Abya Yala!<\/em> Genoc\u00eddio, Resist\u00eancia e Sobreviv\u00eancia dos Povos Origin\u00e1rios das Am\u00e9ricas<em>. <\/em>Rio de Janeiro: Bambual Editora, 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HILLESUM, Etty. <em>Diario<\/em><strong> \u2013 <\/strong>1941- 1943. Milano: Adelphi Edizioni, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u2019ESPINAY, Padre Fran\u00e7ois de. A religi\u00e3o dos Orix\u00e1s: outra palavra do Deus \u00fanico? In <em>REB<\/em> 1987 (setembro de 1987), pp. 639- 650<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u2019ESPINAY, Padre Fran\u00e7ois de. Igreja e religi\u00e3o africana do Candombl\u00e9 no Brasil. In <em>REB <\/em>188 (dezembro de 1987), pp. 860- 890.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LOPEZ-BARALT, Luce. M\u00edstica. In TAMAYO, Juan Jos\u00e9, (org). <em>Novo Dicion\u00e1rio de Teologia.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulus, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MENDON\u00c7A, Jos\u00e9 Tolentino. <em>A m\u00edstica do instante<\/em>. O tempo e a promessa. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MURCHU, Diarmuid O. Orizzonti dello Spirito nel XXI secolo. In a cura di FANTI, Claudia e VIGIL, Jos\u00e9 Maria. <em>Il Cosmo come rivelazione.<\/em> Una nuova storia sacra per l\u2019umanit\u00e0. Verona: Gabrielli, 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RODRIGUES DE SOUZA, Rafael Bellan. <em>A M\u00edstica no MST: <\/em>Media\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis formadora de sujeitos hist\u00f3ricos. (Tese apresentada ao programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia, da Faculdade de Ci\u00eancias e Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Araraquara, como requisito para a obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de Doutor em Sociologia. Ver: <a href=\"https:\/\/agendapos.fclar.unesp.br\/agenda-pos\/ciencias_sociais\/2607.pdf\">https:\/\/agendapos.fclar.unesp.br\/agenda-pos\/ciencias_sociais\/2607.pdf<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SERRATO, Andreia Cristina e SOUZA, Waldir. <em>Pr\u00e1xis m\u00edstico-\u00e9tica em <\/em>SPONVILLE, A.-C. <em>Dicion\u00e1rio filos\u00f3fico<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TEIXEIRA, Faustino. O sufismo e a acolhida da diversidade religiosa. In <em>Revista Pistis Praxis. Teol. Pastor.<\/em>, Curitiba, v. 7, n. 1, jan.\/abr. 2015, p. 45-63.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PANIKKAR, Raimon<strong>. <\/strong><em>Buscadores do Di\u00e1logo:<\/em> itiner\u00e1rios inter-religiosos. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VAINFAS, Ronaldo. Deus contra Palmares<strong>. <\/strong>Representa\u00e7\u00f5es senhoriais e ideias jesu\u00edticas. In REIS, Jo\u00e3o Jos\u00e9 e GOMES, Fl\u00e1vio dos Santos (Org.). <em>Liberdade por um Fio.<\/em> Hist\u00f3ria dos Quilombos no Brasil<em>. <\/em>S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VAZ, Henrique. C. L. <em>Experi\u00eancia m\u00edstica e filosofia na tradi\u00e7\u00e3o ocidental.<\/em> S\u00e3o Paulo: Loyola, 2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 M\u00edstica e Pr\u00e1xis, defini\u00e7\u00e3o dos termos 2 M\u00edstica e Pr\u00e1xis, intera\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas. 3 M\u00edstica e Pr\u00e1xis nas espiritualidades origin\u00e1rias 4 M\u00edstica e as Pr\u00e1xis da Ecumenicidade. 5 M\u00edstica e Pr\u00e1xis da Liberta\u00e7\u00e3o Conclus\u00e3o Refer\u00eancias 1 M\u00edstica e Pr\u00e1xis, defini\u00e7\u00e3o dos termos M\u00edstica e Pr\u00e1xis s\u00e3o termos poliss\u00eamicos, usados com valora\u00e7\u00f5es diferentes, segundo os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2978","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade-e-formacao-de-cristaos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2978"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2978\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3031,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2978\/revisions\/3031"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}