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{"id":2976,"date":"2023-12-31T17:42:53","date_gmt":"2023-12-31T20:42:53","guid":{"rendered":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2976"},"modified":"2024-01-03T15:23:02","modified_gmt":"2024-01-03T18:23:02","slug":"mistica-contemporanea-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2976","title":{"rendered":"M\u00edstica Contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Caracter\u00edsticas da m\u00edstica contempor\u00e2nea<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Encontrar o mist\u00e9rio divino hoje: entre secularidade e pluralidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 M\u00edstica: experi\u00eancia, pr\u00e1tica e linguagem do amor<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 M\u00edstica contempor\u00e2nea: caminho contracultural<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e9poca em que vivemos \u00e9 nomeada de diferentes modos: modernidade, modernidade tardia, hipermodernidade, p\u00f3s-modernidade, entre outras. Tal como diz a V Confer\u00eancia do Episcopado Latino-americano, em Aparecida, 2007, n\u00e3o se trata apenas de uma \u00e9poca de mudan\u00e7as, mas de uma \u201cmudan\u00e7a de \u00e9poca\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos impactos mais profundos que essa mudan\u00e7a de \u00e9poca apresenta, sem d\u00favida, \u00e9 o que incide sobre a religi\u00e3o. Se no iluminismo a raz\u00e3o humana come\u00e7a a ganhar destaque e passa a ser o princ\u00edpio fundamental que rege a vida humana e se constitui como c\u00e2non inapel\u00e1vel da verdade, hoje a configura\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia \u00e9 outra. A crise da modernidade vai ser sucedida por um novo estado de coisas que o conhecimento humano est\u00e1 longe de haver assimilado exaustivamente. No s\u00e9culo XX esse novo processo aparece com mais clareza. E no que j\u00e1 se viveu do s\u00e9culo XXI, alguns elementos se confirmaram e houve igualmente o surgimento de novas perspectivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Cristianismo hist\u00f3rico, religi\u00e3o at\u00e9 aqui indiscutivelmente majorit\u00e1ria e hegem\u00f4nica no hemisf\u00e9rio ocidental, ver\u00e1 surgir bem perto de si e mesmo em suas fileiras fen\u00f4menos como o te\u00edsmo, o secularismo, o ate\u00edsmo e o agnosticismo. Suas fileiras come\u00e7ar\u00e3o a ser drenadas por novos cristianismos de caracter\u00edsticas mais extrinsecistas e cat\u00e1rticas que trazem consigo novas concep\u00e7\u00f5es de mundo, incidindo n\u00e3o apenas na perten\u00e7a religiosa em geral, mas na configura\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica dos estados que se autocompreendiam como laicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raz\u00e3o iluminista, potente e soberana, questiona todo o sistema de compreens\u00e3o e entendimento que antes imperava. J\u00e1 n\u00e3o mais autocompreendida como imp\u00e9rio da raz\u00e3o, nossa \u00e9poca assiste \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o das grandes narrativas e utopias e \u00e9 obrigada a repensar e ressignificar todos ou quase todos os conceitos que antes lhe davam sustenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00e9culo XX \u00e9 chamado s\u00e9culo sem Deus, Nele at\u00e9 as divindades s\u00e3o ef\u00eameras e fugazes, identificando-se com objetos de consumo. Esse estado de coisas se prolonga no s\u00e9culo XXI, intensificando alguns de seus aspectos: a fragmenta\u00e7\u00e3o, a diversidade, a fluidez das rela\u00e7\u00f5es e das identidades. Nesse contexto, as experi\u00eancias \u201creligiosas\u201d, no entanto, continuam a multiplicar-se, desconhecendo, por\u00e9m, muitas vezes os limites das institui\u00e7\u00f5es propriamente ditas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, as experi\u00eancias ditas m\u00edsticas, entendidas como de uni\u00e3o com o mist\u00e9rio e o divino, e mesmo as correntes e escolas m\u00edsticas continuam a acontecer na contemporaneidade. Trazem, por\u00e9m, uma nova configura\u00e7\u00e3o, rompendo espa\u00e7os, fronteiras e realizando s\u00ednteses novas e inusitadas. Os estudos da m\u00edstica voltam novamente a acontecer, mas n\u00e3o se restringem aos limites das igrejas ou das religi\u00f5es institucionais. Acontecem em uma transdisciplinaridade sempre mais acentuada, correspondente \u00e0 pluralidade religiosa que marca hoje a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com a transcend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica hoje \u00e9 objeto de busca e de estudo por pesquisadores de v\u00e1rias \u00e1reas; te\u00f3logos ou cientistas da religi\u00e3o; estudiosos oriundos de outras \u00e1reas, como a literatura, a filosofia, a antropologia; leitores mais ou menos letrados ou mesmo n\u00e3o crentes de todos os cortes e configura\u00e7\u00f5es institucionais. Talvez isso se deva \u00e0 perda de import\u00e2ncia no espa\u00e7o p\u00fablico, por parte da Igreja institui\u00e7\u00e3o, que fez a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00edstica \u201cmigrar\u201d de dentro de seus limites para outras \u00e1reas exteriores a ela. J\u00e1 em 2012, o te\u00f3logo estadunidense Roger Haight, em entrevista a Junges e Dalla Rosa, na revista do Instituto Humanitas da Unisinos, declarava que a Igreja perdeu relev\u00e2ncia p\u00fablica, o que estimulou o \u201csurgimento da espiritualidade em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o porque a Igreja n\u00e3o \u00e9 mais vista como uma fonte de espiritualidade human\u00edstica\u201d (JUNGES; DALLA ROSA, 2012, p. 18-21). Evidentemente Haight pensava aqui na Igreja Cat\u00f3lica Romana, da qual faz parte, inclusive enquanto religioso jesu\u00edta. Mas o mesmo se poderia dizer de outras igrejas crist\u00e3s hist\u00f3ricas. Em uma \u00e9poca como a nossa, os vest\u00edgios de Deus s\u00e3o quase invis\u00edveis e as religi\u00f5es parecem tomar uma forma nebulosa e \u201cvaga\u201d.\u00a0 Isso n\u00e3o impede, por\u00e9m, que as experi\u00eancias m\u00edsticas continuam a acontecer forte e inesperadamente, ainda que com diferentes s\u00ednteses em rela\u00e7\u00e3o a \u00e9pocas anteriores<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender, portanto, a m\u00edstica na contemporaneidade examinaremos algumas circunst\u00e2ncias que cercam a vida dos m\u00edsticos que viveram e vivem nesta mesma \u00e9poca.\u00a0 N\u00e3o pretendemos nem poder\u00edamos esgotar aqui todos os homens e mulheres que fazem em sua vida a experi\u00eancia interior profunda e inef\u00e1vel de sentir-se unidos ao mist\u00e9rio por uma iniciativa que muitas vezes n\u00e3o saberiam dizer de onde vem, mas com respeito \u00e0 qual t\u00eam uma certeza: n\u00e3o vem deles mesmos nem por eles mesmos foi produzida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Caracter\u00edsticas da m\u00edstica contempor\u00e2nea<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os m\u00edsticos e as m\u00edsticas contempor\u00e2neos n\u00e3o ser\u00e3o mais encontrados principalmente dentro dos espa\u00e7os sagrados, entendendo-se por tais os claustros, os conventos, as igrejas, as ordens religiosas. Sua exist\u00eancia ser\u00e1 descoberta nas f\u00e1bricas, em meio ao barulhento e estressante ritmo das m\u00e1quinas e das ind\u00fastrias. Ou nas ruas com os mais pobres e exclu\u00eddos do progresso. Ou na pris\u00e3o, devido a sua atividade e a seu compromisso, considerados perigosos pelas autoridades estabelecidas. Ou no inferno dos <em>lagers <\/em>e <em>gulags <\/em>de todas as origens e formatos ideol\u00f3gicos, sendo ali levados por seu comportamento fora dos padr\u00f5es considerados \u201cnormais\u201d ou por posi\u00e7\u00f5es tomadas em defesa dos mais fracos e vulner\u00e1veis e contrapoderes opressores. Poder\u00e3o ser encontrados igualmente em meio a comunidades e pessoas de outras religi\u00f5es, comungando em tudo de sua vida, embora professando interiormente uma f\u00e9 diferente. Ou ainda em meio ao cosmos e \u00e0 natureza, reinventando uma nova forma de rela\u00e7\u00e3o entre e com todos os outros seres vivos, vivendo sua condi\u00e7\u00e3o de criatura de uma nova maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que nos diz que esses homens e mulheres s\u00e3o \u201cm\u00edsticos\u201d e n\u00e3o apenas ativistas pol\u00edticos, pessoas \u00e9ticas e honestas que se comprometem com as mais importantes lutas da humanidade como tantos outros que n\u00e3o identificam a transcend\u00eancia em suas experiencias e pr\u00e1ticas? Pode-se identific\u00e1-los por sua experi\u00eancia radical do Sentido \u00daltimo da vida e da realidade ao qual a teologia nomearia de Deus, mas que em seus l\u00e1bios pode tomar outros nomes como justi\u00e7a, equidade, consci\u00eancia ecol\u00f3gica, liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das caracter\u00edsticas da m\u00edstica na contemporaneidade, portanto, \u00e9 o fato da exist\u00eancia de uma sensibilidade que busca a experi\u00eancia direta com o mist\u00e9rio da Realidade \u00faltima. E essa busca de experi\u00eancia direta j\u00e1 n\u00e3o apresenta contornos institucionais n\u00edtidos, mas, pelo contr\u00e1rio, aponta para uma tend\u00eancia transreligiosa, em que o contato buscado se d\u00e1 com o fundo mais profundo, o segredo \u00faltimo da realidade, que n\u00f3s chamamos Deus e que os estudiosos das religi\u00f5es identificam como o denominador comum, o n\u00facleo de todas as religi\u00f5es (DUCQUOC, 2002, p. 125).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estudiosos da religi\u00e3o hoje identificam uma clara e ineg\u00e1vel insatisfa\u00e7\u00e3o com a religi\u00e3o predominante e institucionalizada. As experi\u00eancias que surgem tomam sempre mais a forma de uma busca mais pessoal e experiencial do divino (HEISSIG, 2005, p. 246). O risco dessa escolha \u00e9 a superficialidade que pode ocorrer ao pretender fazer voo livre, independentemente de qualquer inst\u00e2ncia ou institui\u00e7\u00e3o. Desligada de qualquer espessura ou opacidade, a busca espiritual pode perder-se ou dissolver-se em uma pluralidade mal compreendida, onde n\u00e3o h\u00e1 enraizamento ou identifica\u00e7\u00e3o com o que quer que seja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, h\u00e1 que reconhecer o aspecto extremamente positivo que a\u00ed reside: a comprova\u00e7\u00e3o da liberdade de Deus, que n\u00e3o se deixa aprisionar por nenhuma institui\u00e7\u00e3o, c\u00f3digo ou sistema, ainda que religiosos. A experi\u00eancia m\u00edstica em nossa \u00e9poca n\u00e3o esperou a reforma das Igrejas ou institui\u00e7\u00f5es religiosas para efetuar sua pr\u00f3pria busca. Tampouco a b\u00ean\u00e7\u00e3o da academia. Os m\u00edsticos contempor\u00e2neos entrecruzam vocabul\u00e1rios, conceitos e s\u00edmbolos de todas as proced\u00eancias e cidadanias &#8211; inclusive religiosas e eclesiais \u2013 a fim de dizer sua busca de Deus sem pedir permiss\u00e3o aos representantes acad\u00eamicos, religiosos ou eclesi\u00e1sticos (MARDONES, 2005, p. 201-202).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, se acontece em forte independ\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es eclesiais ou religiosas, tamb\u00e9m \u00e9 fato que a m\u00edstica na contemporaneidade se caracteriza pela vincula\u00e7\u00e3o indissol\u00favel com a \u00e9tica e tudo o que dela deriva, a saber: a a\u00e7\u00e3o transformadora no mundo, o compromisso pol\u00edtico, as pautas e lutas da humanidade no momento hist\u00f3rico que lhes \u00e9 dado viver, a valoriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e da emo\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas da raz\u00e3o, o cuidado da cria\u00e7\u00e3o, o elogio das diferen\u00e7as como as de g\u00eanero, ra\u00e7a, etnia, o di\u00e1logo com outras experi\u00eancias religiosas. Em suma, a m\u00edstica na contemporaneidade, se parece distante de um religioso institucional e situado, mostra uma profunda alian\u00e7a com o mundo, sobretudo naquilo que apresenta de conflitivo e vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os m\u00edsticos contempor\u00e2neos buscam sim uma experi\u00eancia profunda de uni\u00e3o com o divino. Por\u00e9m, esse divino n\u00e3o \u00e9 por eles e elas encontrado \u201cfora\u201d das coisas deste mundo. M\u00edstica, \u00e9tica e pr\u00e1tica estabelecem claramente diversos tipos de intersec\u00e7\u00e3o. Pois, se o Sentido \u00faltimo da exist\u00eancia \u2013 ao qual chamamos Deus \u2013 sujeito maior da m\u00edstica, se deixa encontrar em todas as coisas; se no mundo, tal como ele \u00e9, \u00e9 poss\u00edvel experimentar sua presen\u00e7a inef\u00e1vel, ent\u00e3o o agir humano na realidade est\u00e1 definitivamente \u201cconsagrado\u201d e \u00e9 parte integrante da esfera do sagrado e do divino. E isso dentro mesmo de sua condi\u00e7\u00e3o de profano e secular, e n\u00e3o dela abdicando ou escapando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Encontrar o mist\u00e9rio divino hoje: entre secularidade e pluralidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio a essa secularidade atravessada por uma sempre maior diversidade, um fio condutor assinala um consenso axial: todos os m\u00edsticos, de qualquer g\u00eanero, tempo ou espa\u00e7o, s\u00e3o pessoas apaixonadas. O divino entra em suas vidas com a for\u00e7a e a viol\u00eancia de uma tremenda paix\u00e3o e toma-os por inteiro, subjugando-os com o imperativo de seu amor. Na rela\u00e7\u00e3o com esse divino experimentam gozo e dor, aus\u00eancia e presen\u00e7a, cada um em seu estilo pr\u00f3prio e original. Mas todos e todas, sem exce\u00e7\u00e3o, tiveram certeza de que estavam no interior da experi\u00eancia do mist\u00e9rio mais profundo e santo, Aquele que as religi\u00f5es procuraram nomear e as ideologias conceituar, mas que sempre escapa a toda tentativa humana de circunscrev\u00ea-lo e capt\u00e1-lo por inteiro. E essa experi\u00eancia invadiu-os e tomou-os para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">. Lendo os escritos desses \u201camantes de Deus\u201d (MEROZ, 1982, p. 27-49), sobretudo aqueles mais autobiogr\u00e1ficos, que cont\u00eam o relato de suas experi\u00eancias, \u00e9 poss\u00edvel perceber neles o rosto divino que se delineia. Embora alguns deles ou delas sejam pensadores de alta relev\u00e2ncia, ao escrever sobre suas experi\u00eancias, o pensamento vai precedido pela paix\u00e3o. A pergunta por Deus e a sede por sua presen\u00e7a surgem no mais profundo de seu interior a partir da percep\u00e7\u00e3o da dor pela injusti\u00e7a existente no mundo e pelo desamparo no sofrimento. Trata-se da \u201chist\u00f3ria da paix\u00e3o do mundo que no fundo \u00e9 tamb\u00e9m paix\u00e3o de Deus e por gra\u00e7a do mesmo, origina a paix\u00e3o por Deus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal percep\u00e7\u00e3o da dor no e do mundo conduz al\u00e9m da discuss\u00e3o entre te\u00edsmo ou ate\u00edsmo. Ante o sofrimento humano, esbarra-se na universal quest\u00e3o da teodiceia, ou seja, na dificuldade de acreditar na exist\u00eancia de um Deus todo-poderoso e cheio de bondade que \u201ca tudo rege magnificamente\u201d e que parece n\u00e3o responder aos clamores dos infelizes. A indigna\u00e7\u00e3o, a ira que clama, a voz que se levanta, d\u00e3o testemunho da nostalgia do \u201cinteiramente Outro\u201d. \u00c9, como diz Max Horkheimer, \u201ca nostalgia de que o assassino n\u00e3o deveria triunfar sobre sua v\u00edtima inocente\u201d. Sem a paix\u00e3o pela justi\u00e7a no mundo e por aquele que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 seu fiador, n\u00e3o pode haver um desejo por uma experi\u00eancia do Sentido maior da vida e um sofrimento consciente por causa da injusti\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da\u00ed surgem as voca\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas e m\u00edsticas que acolhem e tomam sobre si o sofrimento das v\u00edtimas assumindo sua defesa. Neste ponto, transforma-se, igualmente, o pensar humano sobre o mundo. Este mundo, tal como \u00e9 em realidade, n\u00e3o pode mais ser definido como um espelho da divindade. O espelho est\u00e1 quebrado. E defini-lo em termos de perfei\u00e7\u00e3o e harmonia implica idolatria. Isto significa na pr\u00e1tica: se o ser humano se desabitua \u00e0s perguntas absolutas sobre o sentido \u00faltimo e a justi\u00e7a, acabar\u00e1 dando-se por satisfeito e habituando-se \u00e0 defici\u00eancia das circunst\u00e2ncias. A m\u00edstica contempor\u00e2nea \u00e9 caracterizada por uma insatisfa\u00e7\u00e3o e um inconformismo com as situa\u00e7\u00f5es injustas e opressoras, justamente porque desfiguram o mundo t\u00e3o amado pelo Amado que apaixona os homens e mulheres de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica contempor\u00e2nea busca e encontra na injusti\u00e7a, no sofrimento humano e nas situa\u00e7\u00f5es insuport\u00e1veis deste mundo o marco da pergunta pelo sentido \u00faltimo da vida como justi\u00e7a, e, no fundo de sua experi\u00eancia de uni\u00e3o inef\u00e1vel, se sente convocada para uma pr\u00e1tica solid\u00e1ria. Neste caminho de solidariedade pr\u00e1tica, os m\u00edsticos contempor\u00e2neos se destacar\u00e3o como os que escolhem n\u00e3o eludir o sofrimento e com ele lidar desde o exterior, mas o atravessam desde dentro, n\u00e3o desejando estar separados da dor que atinge seus semelhantes a fim de, com eles e elas e como eles e elas, revelar o sentido da vida humana a partir do padecido em suas pr\u00f3prias exist\u00eancias e entranhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mesma m\u00edstica contempor\u00e2nea igualmente rompe fronteiras por muito tempo estabelecidas, inclusive eclesiais e religiosas. Os m\u00edsticos contempor\u00e2neos ent\u00e3o ser\u00e3o encontrados em profundo di\u00e1logo com outras denomina\u00e7\u00f5es e confiss\u00f5es religiosas, inclusive participando de seus rituais e mesmo de seus processos de inicia\u00e7\u00e3o, a fim de conhec\u00ea-las por dentro. S\u00e3o conhecidos os casos de Henri Le Saux (LE SAUX, 1986), de Christian de Cherg\u00e9 (BINGEMER, 2018) e outros. Assim tamb\u00e9m crescem as experi\u00eancias de dupla perten\u00e7a religiosa no mundo inteiro, inclusive na Am\u00e9rica Latina, onde religiosos cat\u00f3licos s\u00e3o ao mesmo tempo filhos de santo no Candombl\u00e9 e onde, no dizer de Gilbraz Arag\u00e3o, a dan\u00e7a dos orix\u00e1s e o canto dos santos muitas vezes se encontram e realizam uma nova s\u00edntese (ARAG\u00c3O, 1997).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 M\u00edstica: experi\u00eancia, pr\u00e1tica e linguagem do amor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso nos faz chegar \u00e0 defini\u00e7\u00e3o da m\u00edstica contempor\u00e2nea como experi\u00eancia do amor &#8211; e da comunh\u00e3o por ele gerada &#8211; como \u00fanica realidade digna de f\u00e9 (COMTE SPONVILLE, 2016). O amor deixa os amantes expostos ante uma aus\u00eancia de seguran\u00e7as absolutas, caminhando entre o ser e o n\u00e3o ser, entre palavra e sil\u00eancio, entre presen\u00e7a e aus\u00eancia. Na experi\u00eancia do amor, os amantes recebem um novo ser que lhes \u00e9 dado pelo tu amado. Ou seja, a for\u00e7a do amor est\u00e1 limitada ao acontecimento do amor em si mesmo. Da\u00ed derivam sua suprema for\u00e7a e sua debilidade e amorosa impot\u00eancia. O amor n\u00e3o pode se impor a n\u00e3o ser com e como amor. Diante do mal em a\u00e7\u00e3o e da injusti\u00e7a que mutila e agride, n\u00e3o pode revidar. S\u00f3 pode sofrer e compadecer-se. Diante da diferen\u00e7a da f\u00e9 e da religi\u00e3o do outro, n\u00e3o pode fazer outra coisa a n\u00e3o ser entrar em comunh\u00e3o e compartilhar interiormente dando testemunho vis\u00edvel e palp\u00e1vel de tal experi\u00eancia. Por a\u00ed passam alguns dos principais caminhos de encontro com Deus na contemporaneidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os m\u00edsticos e espirituais experimentam, ent\u00e3o, que o amor \u00e9 vulner\u00e1vel e pass\u00edvel de ser afetado pelo Amor que convida \u00e0 comunh\u00e3o, que faz o m\u00edstico ou a m\u00edstica abrir-se ao que n\u00e3o \u00e9 ele e se deixar ferir pela solidariedade suprema e radical com a alteridade humana, sobretudo quando a mesma sofre situa\u00e7\u00f5es de intoler\u00e2ncia, opress\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o. Assim fazendo, a m\u00edstica contempor\u00e2nea responde \u00e0 pergunta posta pelo pensamento judaico no p\u00f3s-holocausto; \u00e0 pergunta das v\u00edtimas de todas as guerras \u201cunilaterais\u201d e sem sentido; de todas as intoler\u00e2ncias religiosas; \u00e0 pergunta crist\u00e3 latino-americana que brota e se faz ouvir a partir dos pobres da terra e das v\u00edtimas da opress\u00e3o: \u201cComo falar de Deus a partir do sofrimento do inocente?\u201d (GUTIERREZ, 1987).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os m\u00edsticos contempor\u00e2neos, que viveram e vivem a experi\u00eancia teop\u00e1tica, da passividade configurada pelo amor divino e pela uni\u00e3o com o mist\u00e9rio, s\u00e3o mediadores adequados para dizer no mundo de hoje quem \u00e9 Deus e anunci\u00e1-lo em meio a um mundo secular e plural que deseja e busca a Transcend\u00eancia, o Esp\u00edrito, mas parece haver perdido o rumo da linguagem sobre seu mist\u00e9rio. Seu testemunho \u00e9 uma forma de media\u00e7\u00e3o pela qual o divino hoje tenta dizer-se e expressar-se (PIERRON, 2006, p. 30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00e9culo XX, chamado s\u00e9culo sem Deus, n\u00e3o est\u00e1 vazio da presen\u00e7a divina e continua seduzindo e apaixonando homens e mulheres que buscam sua experi\u00eancia e ao faz\u00ea-la, dela d\u00e3o testemunho na pra\u00e7a p\u00fablica. Mas, talvez, esta presen\u00e7a se fa\u00e7a vis\u00edvel de outra maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica contempor\u00e2nea, com suas caracter\u00edsticas de n\u00e3o institucionalidade, de transdenominacionalidade, de tr\u00e2nsito inter-religioso, traz profundas interpela\u00e7\u00f5es \u00e0 teologia. Vemo-nos diante da rela\u00e7\u00e3o entre a teologia e a espiritualidade considerada em sua bidirecionalidade, isto \u00e9: da rela\u00e7\u00e3o que a teologia mant\u00e9m com a espiritualidade e da rela\u00e7\u00e3o que esta mant\u00e9m com aquela. Esta rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua constitui um ponto cr\u00edtico, pois na verdade a rela\u00e7\u00e3o entre a teologia e a espiritualidade sempre foi crucial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A retrospectiva hist\u00f3rica da rela\u00e7\u00e3o entre teologia e espiritualidade apontaria o quanto e o tanto das variadas formas que esta rela\u00e7\u00e3o assumiu em diferentes \u00e9pocas, tradi\u00e7\u00f5es e escolas. Do relato dessa rela\u00e7\u00e3o aparecem, ao longo da hist\u00f3ria da teologia crist\u00e3, dois polos extremos. De um lado, aparece a hip\u00f3tese de que o discurso teol\u00f3gico a\u00e7ambarca de tal maneira o discurso espiritual que, ou bem o suprime, assumindo-o em sua pr\u00f3pria discursividade, ou bem o comprime, reduzindo-o a uma das muitas poss\u00edveis teologias existentes no genitivo, \u00e0s vezes adjetivas e pouco substanciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, a teologia crist\u00e3 nasceu como hermen\u00eautica da Santidade. Da Santidade do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo manifestada na humanidade chamada a participar dessa santidade, portanto como experi\u00eancia da Santidade de Deus que santifica o ser humano e o faz ingressar e progredir em um conhecimento amoroso sempre maior do mist\u00e9rio divino. Os racioc\u00ednios aparentemente abstratos das especula\u00e7\u00f5es trinit\u00e1rias jamais visaram outra coisa sen\u00e3o afirmar contundentemente a realidade da salva\u00e7\u00e3o e da santifica\u00e7\u00e3o humanas, realizada pela autocomunica\u00e7\u00e3o de Deus. A teologia nasceu ent\u00e3o de uma experi\u00eancia inici\u00e1tica e mistag\u00f3gica e a servi\u00e7o dessa experi\u00eancia, crendo e afirmando que a experi\u00eancia precede a raz\u00e3o e a experi\u00eancia de Deus, portanto, precede qualquer tentativa de pensamento ou discurso organizado sobre o mesmo Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui procuramos demonstrar como a m\u00edstica contempor\u00e2nea \u00e9 aberta e plural e como pode acontecer em meio a elementos e coisas que tradicionalmente foram classificados como alheios \u00e0 sua identidade. Se voltamos nosso olhar mais especificamente para a m\u00edstica crist\u00e3, de t\u00e3o rica tradi\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria, veremos que na verdade a m\u00edstica contempor\u00e2nea redescobre dentro de si mesma elementos que s\u00e3o parte constitutiva de sua identidade desde as origens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica crist\u00e3 \u00e9 uma experi\u00eancia do Esp\u00edrito Santo que ensina e profere apenas duas palavras: Abba, Pai, e Senhor Jesus. O m\u00edstico e a m\u00edstica crist\u00e3os s\u00e3o, portanto, guiados e conduzidos pelo Esp\u00edrito Santo para experimentar e seguir a carne do Filho e seu percurso terrestre e hist\u00f3rico para finalmente receber a revela\u00e7\u00e3o de sua Ressurrei\u00e7\u00e3o dentre os mortos que \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o maior da vida plena e eterna. Por ter em seu centro o mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o, a m\u00edstica crist\u00e3 nunca p\u00f4de nem deveu afastar-se do mundo e dos seres humanos que o povoam. E a experi\u00eancia m\u00edstica dentro do cristianismo \u00e9, pois, insepar\u00e1vel desse mundo e da carne que o habita. Em suma, da vida que pulsa sob suas mais diversas formas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que caracteriza a m\u00edstica crist\u00e3, portanto, n\u00e3o \u00e9 nem jamais foi a sublimidade imaterial, porque o Esp\u00edrito n\u00e3o se op\u00f5e ao mundo, mas o vivifica. O Esp\u00edrito n\u00e3o foge do mundo, mas desce por sobre as realidades a fim de impregn\u00e1-las de sua Santidade. O Esp\u00edrito, portanto, n\u00e3o se refugia no intimismo, mas abre o interior daquele que faz a experi\u00eancia de Deus, &#8211; de quem Ele sonda as profundezas (1 Cor 2,10) &#8211; para expandir-se e dilatar-se. Aquele que, segundo Agostinho, tem como nome pr\u00f3prio a palavra Dom, manifesta o seu poder na capacidade que d\u00e1 aos crentes de seguir Jesus, saindo de si mesmos para a doa\u00e7\u00e3o ao outro (VAZQUEZ, 2016).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse sentido que a experi\u00eancia m\u00edstica tem a forma da experi\u00eancia \u00e9tica. A sua intencionalidade e o seu fundo mais profundo visam ao amor, \u00e0 bondade e \u00e0 justi\u00e7a, e n\u00e3o, em primeiro lugar, \u00e0 beleza ou \u00e0 verdade. N\u00e3o porque estas sejam secund\u00e1rias, mas porque no ser humano devem ser segundas em rela\u00e7\u00e3o ao amor que \u00e9, inseparavelmente, amor a Deus e amor ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida no Esp\u00edrito, portanto, \u00e9 e sempre foi viv\u00eancia de amor e express\u00e3o do amor, compromisso com as obras do amor, portanto, \u00e9 ao mesmo tempo, experi\u00eancia espiritual e \u00e9tica. A m\u00edstica contempor\u00e2nea, com sua abertura \u00e0 secularidade e \u00e0 pluralidade e \u00e0 diversidade, traz essa primordialidade do amor entendido como compromisso hist\u00f3rico e transformador e solidariedade universal para o centro do viver e do pensar. Pode parecer incr\u00edvel \u2013 e de certa maneira o \u00e9 \u2013 que em uma cultura que parece desejar exilar o transcendente para fora do cotidiano ou reduzi-lo a um objeto de consumo, seja justamente a m\u00edstica que possa contribuir para resgatar a espessura da vida humana e das experi\u00eancias humanas mais profundas em toda a sua for\u00e7a. Trata-se de um desmentido radical e definitivo \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es que punham sob suspeita a m\u00edstica como aliena\u00e7\u00e3o ou fuga da realidade. A m\u00edstica contempor\u00e2nea resgata para sempre essa alian\u00e7a da m\u00edstica com a realidade e a responsabilidade humana para com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 M\u00edstica contempor\u00e2nea: caminho contracultural<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crescimento em import\u00e2ncia da m\u00edstica em todas as suas formas e filia\u00e7\u00f5es, mesmo em suas formas seculares e por assim dizer desinstitucionalizadas, mesmo em suas formas sincr\u00e9ticas ou plurirreligiosas ou multifacetadas, constitui algo de extrema import\u00e2ncia em nossa conturbada contemporaneidade. O caminho da m\u00edstica hoje \u2013 inclu\u00edda a\u00ed a m\u00edstica crist\u00e3 \u2013 \u00e9 um caminho contracultural, em que a humaniza\u00e7\u00e3o do ser humano e a experi\u00eancia que lhe d\u00e1 sentido \u00e0 vida se d\u00e3o, por assim dizer, na contram\u00e3o da sociedade onde vive e do que nela \u00e9 veiculado como proposta pass\u00edvel de conduzir \u00e0 felicidade. A m\u00edstica contempor\u00e2nea, nesse sentido, \u00e9 uma inst\u00e2ncia cr\u00edtica da sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cultura de prazer e sensa\u00e7\u00f5es sedutoras e seduzidas, a experi\u00eancia m\u00edstica leva a sair de si e deixar-se afetar pelo outro, sua diferen\u00e7a, sua alteridade, sua necessidade. Este caminho ao encontro da alteridade do rosto do outro implica um profundo e radical desprendimento e uma rigorosa ascese, implicando acolher a dor alheia e faz\u00ea-la sua, ser um espa\u00e7o onde a dor possa abrigar-se, um b\u00e1lsamo para as feridas daqueles que sofrem. Assim expressou seu mais profundo desejo a jovem Etty Hillesum, m\u00edstica judia que viveu os horrores do holocausto, sendo assassinada nas c\u00e2maras de g\u00e1s de Auschwitz: \u201cdesejaria ser um b\u00e1lsamo para todas as feridas\u201d (HILLESUM, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seduzido por Deus, o m\u00edstico n\u00e3o se refugia em catarses exteriorizantes e na maior parte das vezes, est\u00e9reis, mas entra sem defesas e sem volta em uma aventura em que esta sedu\u00e7\u00e3o o levar\u00e1 at\u00e9 \u00e0 perda de si mesmo na comunh\u00e3o radical com a dor do outro, acolhida e padecida em carne pr\u00f3pria. Aqui se poderia citar outros m\u00edsticos contempor\u00e2neos al\u00e9m de Etty Hillesum. Por exemplo, a judia que se tornou carmelita Edith Stein, o arcebispo salvadorenho Oscar Romero, o monge trapista Christian de Cherg\u00e9, a fil\u00f3sofa francesa de origem judaica Simone Weil, o padre jesu\u00edta oper\u00e1rio Egide van Broeckhoeven, o bispo catal\u00e3o radicado no Araguaia, Pedro Casald\u00e1liga e in\u00fameros outros e outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cultura consumista, a propaganda assegura que o m\u00e1ximo de felicidade consiste em ter, sempre, cada vez mais, descartando e substituindo o mais rapidamente poss\u00edvel tudo aquilo que se possui \u2013 de objetos a pessoas \u2013 aumentando a volatilidade e a velocidade da fren\u00e9tica degluti\u00e7\u00e3o dos bens e valores. Frente a isto, a experi\u00eancia m\u00edstica prop\u00f5e a experi\u00eancia do dom, da entrega, do cuidado pelo outro, sobretudo por aquele e aquela que est\u00e3o mais desprovidos de qualquer amparo e se encontram infelizes e abandonados. E tudo isso em meio \u00e0 mais absoluta gratuidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cultura que proclama a liberdade entendida como autonomia que a ningu\u00e9m presta contas e se rege segundo seus desejos mais imediatos, cultivando a soberba de tudo poder, mesmo \u00e0 custa daquilo que \u00e9 dos outros, de direito e de fato, a experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 por excel\u00eancia receptiva e passiva, e, sobretudo, consciente de sua impot\u00eancia. Experi\u00eancia teop\u00e1tica, que acolhe e recebe o que \u00e9 dado, padecendo em si a presen\u00e7a e a a\u00e7\u00e3o de Deus sem nada poder fazer para produzi-la, a m\u00edstica faz o elogio da humildade e da passividade, da a\u00e7\u00e3o n\u00e3o agente que, no dizer da m\u00edstica Simone Weil, \u00e9 a atitude primordial de todo ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cultura em que o poder \u00e9 glorificado, a experi\u00eancia m\u00edstica ensina que o ser humano \u00e9 paciente mesmo quando agente (RAHNER, 1989, p. 37-59), porque \u00e9 incapaz de dar-se o ser que faz existir e configura a identidade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cultura onde a aspira\u00e7\u00e3o m\u00e1xima \u00e9 devorar avidamente tudo o que se apresenta, consumindo sem digerir, passando em seguida ao consumo de outra coisa ou de outra pessoa, a experi\u00eancia m\u00edstica ensina que a realiza\u00e7\u00e3o humana reside no desejo de dar-se, despossuir-se e entregar-se para ser consumido, para servir em tudo \u00e0s necessidades dos outros, para distribuir-se eucaristicamente em alimento para todos (Cf. CAVANAUGH, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cultura injusta, quando os recursos s\u00e3o distribu\u00eddos segundo a manipula\u00e7\u00e3o ego\u00edsta e totalit\u00e1ria de alguns em detrimento de outros; onde o bem-estar de alguns \u00e9 conseguido \u00e0 custa da perda e do empobrecimento progressivo e sistem\u00e1tico de muitos, a experi\u00eancia m\u00edstica ensina a praticar a justi\u00e7a e viver segundo seus par\u00e2metros. N\u00e3o, por\u00e9m, de uma justi\u00e7a retributiva, que d\u00e1 a cada um o que merece, mas, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Deus, de uma justi\u00e7a restaurativa, que d\u00e1 ao outro aquilo de que ele precisa e necessita para viver. E para que essa justi\u00e7a se fa\u00e7a, o m\u00edstico paga o pre\u00e7o com sua pr\u00f3pria pessoa, expondo-se e arriscando-se para que outros possam ter mais vida e vida em abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cultura na qual o planeta \u00e9 agredido e sugados seus recursos; quando o corpo vivo da m\u00e3e e irm\u00e3 terra se esteriliza e a ordem do universo se desordena pela inescrupulosa explora\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o em nome da gan\u00e2ncia e da explora\u00e7\u00e3o, a m\u00edstica aponta para uma experi\u00eancia de comunh\u00e3o com essa mesma terra, tratando-a com o carinho de um esposo devotado, como Thomas Merton ou celebrando nela uma grande eucaristia como Teilhard de Chardin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cultura onde reina a injusti\u00e7a, a experi\u00eancia m\u00edstica ensina a n\u00e3o querer estar do lado dos vencedores, mas dos vencidos; a n\u00e3o desejar desfrutar das benesses do progresso enquanto h\u00e1 tantos que n\u00e3o t\u00eam acesso a elas. Leva a solidarizar-se com as v\u00edtimas da injusti\u00e7a partilhando sua condi\u00e7\u00e3o e sofrendo a mesma injusti\u00e7a em sua pr\u00f3pria pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cultura onde a viol\u00eancia impera e faz v\u00edtimas fatais todo dia e a toda hora, a experi\u00eancia m\u00edstica contempor\u00e2nea ensina que o \u00fanico lugar para estar \u00e9 junto \u00e0s v\u00edtimas, pois qualquer outra op\u00e7\u00e3o seria refor\u00e7ar a posi\u00e7\u00e3o dos algozes e carrascos. Antes, aquele ou aquela que experimentou a presen\u00e7a potente e amorosa de Deus como mist\u00e9rio santo, atravessa a viol\u00eancia e assume sobre si mesmo as consequ\u00eancias desta mesma viol\u00eancia, procurando construir uma paz que n\u00e3o \u00e9 simplesmente aus\u00eancia de guerras, mas amor ativo e redentor que a tudo restaura e renova a face da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que aqui foi dito da m\u00edstica contempor\u00e2nea se aplica diretamente ao cristianismo, mas n\u00e3o s\u00f3. Como foi afirmado desde o in\u00edcio, a experi\u00eancia m\u00edstica na contemporaneidade n\u00e3o se d\u00e1 apenas dentro das institui\u00e7\u00f5es e das igrejas, mesmo das institui\u00e7\u00f5es religiosas. Ela acontece em todo lugar onde homens e mulheres saem de si e ultrapassam os pr\u00f3prios limites para praticar o amor e transformar o mundo guiados por uma experi\u00eancia de transcend\u00eancia. Alguns e algumas vivem esse \u00eaxodo em seu cotidiano simples e sem muita visibilidade. Outros acedem \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica, expondo-se e arriscando a pr\u00f3pria seguran\u00e7a e a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro ou fora da Igreja e das institui\u00e7\u00f5es religiosas, nelas comprometidos radicalmente ou \u00e0s margens de suas fronteiras, os m\u00edsticos nos ensinam que experimentar o mist\u00e9rio de Deus no meio do mundo conduz a uma paix\u00e3o ardente por este mesmo mundo e a trabalhar sem cessar por sua reden\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o. Seja qual for seu estado de vida, sua condi\u00e7\u00e3o social, suas capacidades intelectuais, os m\u00edsticos e as m\u00edsticas contempor\u00e2neos recolhem-se \u00e0 c\u00e2mara nupcial onde a experi\u00eancia do amor acontece com plenitude e del\u00edcia para mergulhar de cheio na realidade desfigurada do mundo em que vivem, buscando configur\u00e1-la segundo o mist\u00e9rio do amor que experimentam como dom e gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Maria Clara Bingemer. PUC Rio. Texto enviado no dia 03\/03\/2023; aprovado no dia 10\/10\/2023; postado dia 31\/12\/2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARAG\u00c3O, Gilbraz S. A Dan\u00e7a dos Orix\u00e1s e o canto dos Santos. In <em>Symposium<\/em>. Nova fase &#8211; Ano 36 (1997), v. 1, p. 39-74.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BINGEMER, M. C. 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Tal como diz a V [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2976","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade-e-formacao-de-cristaos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2976","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2976"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2976\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3030,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2976\/revisions\/3030"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2976"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2976"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2976"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}