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{"id":2952,"date":"2023-12-31T17:08:29","date_gmt":"2023-12-31T20:08:29","guid":{"rendered":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2952"},"modified":"2024-01-03T15:37:05","modified_gmt":"2024-01-03T18:37:05","slug":"dei-filius-constituicao-do-vaticano-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2952","title":{"rendered":"Dei Filius (Constitui\u00e7\u00e3o do Vaticano\u00a0I)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Contexto e hist\u00f3ria da reda\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Pressupostos teol\u00f3gicos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Alguns t\u00f3picos da <em>Dei Filius<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1 Presen\u00e7a constante de Cristo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.2 Duas vertentes anti-tridentinas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.3 Descri\u00e7\u00e3o de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.4 Tematiza\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o divina<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.5 Uso do paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.6 Diferen\u00e7a da Reforma Protestante<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.7 Dois tipos de conhecimentos sobre Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.8 Ades\u00e3o \u00e0 revela\u00e7\u00e3o mediante f\u00e9 sobrenatural<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.9 Motivos para credibilidade na revela\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.10 Rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 sobrenatural e raz\u00e3o natural<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.11 C\u00e2nones de condena\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cConstitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica sobre a F\u00e9 Cat\u00f3lica <em>Dei Filius<\/em>\u201d \u00e9 o documento aprovado pelo Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I e pelo Papa Pio\u00a0IX em 24 de abril de 1870. O t\u00edtulo <em>Dei Filius<\/em> corresponde \u00e0s primeiras palavras do longo documento, que come\u00e7a assim: \u201cO Filho de Deus e redentor do g\u00eanero humano, Nosso Senhor Jesus Cristo\u201d (\u201c<em>Dei Filius et generis humani Redemptor Dominus Noster Iesus Christus<\/em>\u201d). Os termos que precedem o t\u00edtulo e que fornecem a categoria do documento significam que a <em>Dei Filius<\/em> aborda quest\u00f5es dogm\u00e1ticas e especulativas \u2013 e n\u00e3o de Moral ou Direito \u2013 sobre o tema da f\u00e9 no <em>Filho de Deus<\/em> referido no t\u00edtulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Dei Filius<\/em> \u00e9 fruto e consequ\u00eancia da linha eclesial amplamente majorit\u00e1ria na \u00e9poca. Por sua vez, ela suscitou efeitos duradouros e sua influ\u00eancia \u00e9 imensa. Por exemplo, ela permanece sendo referida por documentos papais. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo\u00a0II a cita na enc\u00edclica <em>Fides et Ratio,<\/em> de 1998, e Papa Francisco a menciona na enc\u00edclica <em>Lumen Fidei,<\/em> de 2013. \u00c9 tamb\u00e9m presen\u00e7a indispens\u00e1vel nos manuais e cursos de Teologia Fundamental (ALLEN, 2016, p. 139).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente ser\u00e3o considerados o contexto e a hist\u00f3ria da reda\u00e7\u00e3o da <em>Dei Filius<\/em>. Depois ser\u00e3o tratados quatro pressupostos teol\u00f3gicos da constitui\u00e7\u00e3o. Enfim, ser\u00e3o examinados os grandes temas aos quais a <em>Dei Filius<\/em> se dedica, todos eles no campo da Teologia Fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas principais obras espec\u00edficas sobre a <em>Dei Filius<\/em> s\u00e3o ainda o livro de Jean-Michel-Alfred Vacant, publicado no final do s\u00e9culo\u00a0XIX em dois volumes num total de 1.300 p\u00e1ginas, e o de Hermann Pottmeyer, de 1968. Tamb\u00e9m obras n\u00e3o espec\u00edficas sobre a <em>Dei Filius<\/em> s\u00e3o refer\u00eancias importantes. As cita\u00e7\u00f5es da <em>Dei Filius<\/em> ser\u00e3o feitas, na medida do poss\u00edvel, mediante o <em>Comp\u00eandio dos S\u00edmbolos<\/em> de Denzinger-H\u00fcnermann (daqui para a frente referido como DH), que n\u00e3o reproduz, contudo, o texto integral da constitui\u00e7\u00e3o. Este encontra-se disponibilizado na p\u00e1gina-web do Vaticano, que ser\u00e1 aqui referida quando a passagem n\u00e3o se encontrar no Denzinger.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Contexto e hist\u00f3ria da reda\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O contexto mais imediato da reda\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Filius<\/em> foi o da perda paulatina, pelo bispo de Roma, do Estado Pontif\u00edcio, reino sobre o qual ele detinha pleno poder temporal. No s\u00e9culo XIX fazia mais de mil anos que os papas exerciam soberania temporal sobre um territ\u00f3rio composto pela regi\u00e3o onde se situa Roma, mais regi\u00f5es pr\u00f3ximas com oscila\u00e7\u00f5es ao longo dos s\u00e9culos. Tratava-se de um Estado independente com muitas cidades e consider\u00e1vel popula\u00e7\u00e3o, chegando a ser no s\u00e9culo XIV um dos maiores da pen\u00ednsula. A revolu\u00e7\u00e3o francesa precipitou o ocaso do Estado Pontif\u00edcio. Em 1796 Napole\u00e3o Bonaparte chantageou o Papa Pio\u00a0VI para n\u00e3o invadir seu reino. Em 1809 Napole\u00e3o transformou o Estado Pontif\u00edcio em possess\u00e3o francesa, mas em 1815 o Congresso de Viena o restaurou. Em 1848 Pellegrino Rossi, primeiro-ministro de Pio\u00a0IX, foi assassinado em Roma, e o papa precisou fugir da cidade. Entre 1849 e 1850 tropas da regi\u00e3o do Piemonte, chefiadas por Giuseppe Garibaldi, for\u00e7aram novamente o sumo pont\u00edfice a sair de Roma, retornando com ajuda militar de Fran\u00e7a e \u00c1ustria. Em seguida a uma s\u00e9rie de guerras de unifica\u00e7\u00e3o, em 1861 formou-se o Reino da It\u00e1lia e o Estado Pontif\u00edcio ficou reduzido a sua m\u00ednima express\u00e3o: apenas a cidade de Roma na qual se realizou o Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I (ERCOLE, 1935, p. 45-46; STATO PONTIFICIO, 2022, sem pagina\u00e7\u00e3o; O\u2019MALLEY, 2019, p. 17-19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da perda gradual do Estado Pontif\u00edcio, os confrontos plurisseculares da Igreja Cat\u00f3lica com a Reforma Protestante e o Iluminismo \u2013 em suas v\u00e1rias correntes \u2013 completavam um amplo espectro de hostilidades (SANCHEZ, 2015, p. 183). Tratava-se de ataques \u201cque estavam associados a novos modelos de pensamento pol\u00edtico e social\u201d (CHAPPIN, 2017, p. 857). Limitando-nos a temas de Teologia Fundamental, a Reforma Protestante recusava a Tradi\u00e7\u00e3o e afirmava o princ\u00edpio da sufici\u00eancia revelativa da B\u00edblia (<em>sola Scriptura<\/em>), negando o papel da Igreja Cat\u00f3lica na transmiss\u00e3o e na interpreta\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o divina. O Iluminismo, no conjunto das v\u00e1rias correntes, asseverava uma s\u00e9rie de princ\u00edpios ainda hoje vigorosos em c\u00edrculos intelectuais e acad\u00eamicos. Sobre Deus, que ele n\u00e3o existiria ou que, se existisse, n\u00e3o interferiria no mundo. Sobre Cristo, que os relatos evang\u00e9licos seriam inven\u00e7\u00f5es e que Jesus teria sido um ser humano comum. Sobre a revela\u00e7\u00e3o, que ela seria apenas inven\u00e7\u00e3o. Sobre a B\u00edblia, que a Escritura conteria apenas hist\u00f3ria humana, n\u00e3o passando o resto de relatos inventados. Sobre a Igreja, que ela n\u00e3o seria necess\u00e1ria. Sobre a raz\u00e3o e a f\u00e9, que a racionalidade seria a forma adulta da pessoa humana, e que a f\u00e9 religiosa seria degrau infantil (POTTMEYER, 1968, p. 17-44; THEOBALD, 2006, p. 195-198; LIBANIO, 1992, p. 383).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi nesse abrangente contexto hostil que o Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I aconteceu na cidade de Roma, ent\u00e3o equivalente ao Estado Pontif\u00edcio em sua m\u00ednima express\u00e3o, nos \u00faltimos meses de sua exist\u00eancia, entre dezembro de 1869 e outubro de 1870. Uma grande novidade do Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I foi seu car\u00e1ter exclusivamente eclesial. \u201cNenhum governante das na\u00e7\u00f5es estava ali representado, contrariamente ao que havia acontecido nos conc\u00edlios ecum\u00eanicos anteriores, em que de antem\u00e3o os soberanos civis tinham lugar garantido\u201d (BRUGERETTE; AMANN, 1950, p. 2549).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os trabalhos preparat\u00f3rios para o Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I haviam come\u00e7ado em 6 de dezembro de 1864, quando o Papa Pio\u00a0IX reuniu-se com a Sagrada Congrega\u00e7\u00e3o dos Ritos e informou reservadamente aos presentes sua inten\u00e7\u00e3o de convocar um conc\u00edlio ecum\u00eanico. Pio\u00a0IX solicitou aos cardeais do grupo, e aos demais da C\u00faria Romana, que lhe enviassem cada um o pr\u00f3prio parecer sobre tal convoca\u00e7\u00e3o. Sem unanimidade, mas com expressiva maioria, as respostas foram afirmativas e forneceram as duas linhas que norteariam o conc\u00edlio. Por um lado, a preocupa\u00e7\u00e3o pastoral de expor positiva e claramente a doutrina da Igreja sobre os temas tratados. Por outro, conviria levar em considera\u00e7\u00e3o o contexto bastante hostil e condenar nitidamente os erros contr\u00e1rios \u00e0 religi\u00e3o: jansenismo, espiritismo, racionalismo, materialismo, pante\u00edsmo, naturalismo, ate\u00edsmo e socialismo. A enc\u00edclica <em>Quanta Cura<\/em> e seu anexo <em>Syllabus Errorum<\/em>, que Pio\u00a0IX havia acabado de publicar em dezembro de 1864, deveriam fornecer subs\u00eddios para os trabalhos. O <em>Syllabus Errorum<\/em> (\u201cResumo dos erros\u201d), em particular, era uma lista que reprovava oitenta proposi\u00e7\u00f5es manifestadas em formula\u00e7\u00f5es do racionalismo, materialismo, ate\u00edsmo e liberalismo. A primeira comiss\u00e3o de trabalho, intitulada <em>Congrega\u00e7\u00e3o Diretora dos Assuntos do Futuro Conc\u00edlio Geral<\/em>, que tinha o papa como presidente, foi institu\u00edda por ele em mar\u00e7o de 1865. Para o trabalho pr\u00e9-conciliar, essa primeira comiss\u00e3o criou seis outras a ela subordinadas: a) doutrinal ou teol\u00f3gico-dogm\u00e1tica; b) pol\u00edtico-eclesi\u00e1stica; c) miss\u00f5es e Igrejas Orientais; d) disciplina; e) clero religioso; f) ritos e cerim\u00f4nias (VACANT, 1895, p. 17-22; POTTMEYER, 1968, p. 45-47).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a comiss\u00e3o doutrinal pr\u00e9-conciliar que redigiu a primeira vers\u00e3o, ou <em>schema<\/em>, da futura constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Filius<\/em>. A primeira reuni\u00e3o dessa comiss\u00e3o aconteceu em 24 de setembro de 1867. O presidente da comiss\u00e3o doutrinal era o Cardeal Luigi Bilio, barnabita. Os demais vinte e tr\u00eas membros da comiss\u00e3o pr\u00e9-conciliar eram os bispos Cardona, Corcoran, Jacquenet, Monaco La Valetta, Pecci, Petacci, Schwetz e Weathers, e os padres Adragna, Alzog, Bonfigli Mura, Cossa, De Ferrari, Franzelin, Gay, Guidi, Hettinger, Labrador, Martinelli, Perrone, Schrader, Spada e Tosa (VACANT, 1895, p. 20). O t\u00edtulo desse texto pr\u00e9-conciliar era \u201cSobre a doutrina cat\u00f3lica contra os muitos erros derivados do racionalismo\u201d (<em>De Doctrina catholica contra multiplices errores ex rationalismo derivatos<\/em>). Este era apenas o primeiro de um total de 50 textos pr\u00e9-conciliares elaborados pelas seis comiss\u00f5es. Seu t\u00edtulo refletia os dois prop\u00f3sitos do futuro conc\u00edlio: exposi\u00e7\u00e3o da doutrina e condena\u00e7\u00e3o dos erros contra a religi\u00e3o. O \u00faltimo membro da comiss\u00e3o doutrinal a rever esse texto pr\u00e9-conciliar, com o encargo de dar-lhe a fei\u00e7\u00e3o final, foi o jesu\u00edta Johann Baptist Franzelin. Esse texto pr\u00e9-conciliar tinha tr\u00eas partes: a) Doutrina cat\u00f3lica e erros do materialismo, pante\u00edsmo e racionalismo, com dois cap\u00edtulos; b) Doutrina cat\u00f3lica e erros do semirracionalismo, com nove cap\u00edtulos; c) Doutrina cat\u00f3lica e outros erros diversos, com quatro cap\u00edtulos. A constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Filius<\/em> resultaria das duas primeiras partes acima mencionadas (VACANT, 1895, p. 22-33; POTTMEYER, 1968, p. 48-55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 29 de junho de 1868, Pio\u00a0IX publicou a bula <em>Aeterni Patris<\/em> com a qual convocava o conc\u00edlio ecum\u00eanico a ter in\u00edcio no final do ano seguinte. \u201cO Conc\u00edlio Vaticano [Primeiro] come\u00e7ou em 8 de dezembro de 1869, na ala do bra\u00e7o direito da Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro convertida em audit\u00f3rio. O imenso contingente de vinte mil peregrinos que vieram a Roma demonstrava o grande interesse que esse evento vinha suscitando em todas as partes do mundo\u201d (BRUGERETTE; AMANN, 1950, p. 2548). O Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I teve 89 reuni\u00f5es de discuss\u00e3o em assembleia, entre 10 de dezembro de 1869 e 1<u><sup>o<\/sup><\/u> de setembro de 1870. Nesse \u00ednterim, o texto \u201cSobre a doutrina cat\u00f3lica\u201d, foi discutido em duas fases: de 30 de dezembro de 1869 a 10 de janeiro de 1870, e de 18 de mar\u00e7o a 19 de abril de 1870. Entre uma fase e outra, ele foi retrabalhado e cortado conforme as demandas expressas em assembleia. Por encargo confiado pela nova Comiss\u00e3o da F\u00e9, escolhida pelo voto conciliar em 14 de dezembro de 1869, o trabalho foi feito pelo bispo alem\u00e3o Konrad Martin, da diocese de Paderborn, com subsequente aprova\u00e7\u00e3o pela Comiss\u00e3o da F\u00e9. Os onze primeiros cap\u00edtulos do texto pr\u00e9-conciliar foram remodelados e transformados em quatro, e esse conjunto recebeu j\u00e1 na ocasi\u00e3o o t\u00edtulo de \u201cConstitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica sobre a F\u00e9 Cat\u00f3lica\u201d. As linhas mestras da revis\u00e3o foram: adicionar um pr\u00f3logo com a situa\u00e7\u00e3o religiosa do povo crist\u00e3o, manter a subst\u00e2ncia do texto, abrevi\u00e1-lo, retirar express\u00f5es muito t\u00e9cnicas da Teologia Escol\u00e1stica, e dot\u00e1-lo de tonalidade mais consoante ao papel da Igreja que fala, como m\u00e3e aflita, dos erros dos filhos. Na segunda fase, ap\u00f3s a discuss\u00e3o sobre o texto remodelado, sucederam-se novas altera\u00e7\u00f5es do texto, al\u00e9m de uma s\u00e9rie de vota\u00e7\u00f5es e novas modifica\u00e7\u00f5es. Em 24 de abril de 1870 procedeu-se \u00e0 vota\u00e7\u00e3o final do texto completo, com o <em>placet<\/em> de todos os 667 padres conciliares, e o Papa Pio\u00a0IX aprovou e proclamou a Constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Filius<\/em> (VACANT, 1895, p. 28-39).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I prosseguiu ordinariamente seus trabalhos at\u00e9 julho de 1870, quando a maior parte dos padres conciliares saiu da cidade \u00e0s pressas, mas ainda com seguran\u00e7a. \u201cAs tr\u00eas \u00faltimas sess\u00f5es, de 23 de agosto a 1<u><sup>o<\/sup><\/u> de setembro, contaram com a presen\u00e7a, respectivamente, de 136, 127 e 104 participantes\u201d (BRUGERETTE; AMANN, 1950, p. 2577). Em 20 de setembro, Roma foi finalmente invadida pelas tropas do Reino da It\u00e1lia (O\u2019MALLEY, 2019, p. 222-223), e um decreto do rei, em 9 de outubro de 1870, declarou a anexa\u00e7\u00e3o da cidade (REGIO DECRETO, 1870, sem pagina\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Pressupostos teol\u00f3gicos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As afirma\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas da <em>Dei Filius<\/em> s\u00e3o constru\u00eddas sobre pressupostos. O significado delas s\u00f3 \u00e9 alcan\u00e7ado levando-os em considera\u00e7\u00e3o (POTTMEYER, 1969, p. 82-107). A <em>Dei Filius<\/em> presume elementos fulcrais da Teologia Escol\u00e1stica que se encontravam na reflex\u00e3o de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, no s\u00e9culo XIII, 600 anos antes da constitui\u00e7\u00e3o conciliar (LONERGAN, 1968, p. 56):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) Distin\u00e7\u00e3o entre <em>natural<\/em> e <em>sobrenatural<\/em>. Na Teologia Escol\u00e1stica, sobretudo a partir de Tom\u00e1s de Aquino, por um lado, o mundo das realidades sens\u00edveis, com as for\u00e7as e capacidades que o compunham, era chamado de <em>Natureza<\/em>. Em particular as faculdades, iniciativas e a\u00e7\u00f5es dos seres humanos \u2013 como a raz\u00e3o \u2013 pertenciam a esse \u00e2mbito <em>natural<\/em>. Por outro lado, acima da Natureza havia uma ordem superior e transcendente, o \u00e2mbito do sobrenatural. <em>Supernaturalis<\/em> designa um plano superior \u00e0 Natureza: o \u00e2mbito de Deus, do incriado. Esse \u00e2mbito do sobrenatural inclu\u00eda as iniciativas, for\u00e7as e capacidades de Deus, mesmo quando se manifestavam \u201cembaixo\u201d, no \u00e2mbito do mundo sens\u00edvel (natural), como, por exemplo, os milagres e a revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) Paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o. O processo revelativo dependia totalmente da iniciativa divina: Deus foi seu autor, e por isso a revela\u00e7\u00e3o era sobrenatural. No mundo sens\u00edvel em que vive o ser humanos antes da morte, o objeto da revela\u00e7\u00e3o (aquilo que foi revelado) era pensado de maneira coisificada: o que Deus revelou nesse mundo consistia em <em>algo<\/em> \u2013 palavras \u2013 que vieram do \u00e2mbito sobrenatural para o natural. Essas coisas ou palavras reveladas abrangiam dois assuntos: o ser interno de Deus e os decretos divinos para a humanidade ser salva. A garantia principal da sobrenaturalidade das palavras reveladas estava em sua origem, a boca de Cristo, que \u00e9 divino e humano. Para a salva\u00e7\u00e3o eterna, que significava chegar ao estado de vis\u00e3o perfeita da bem-aventuran\u00e7a, o ser humano necessitava crer em algo que superava o conhecimento obtido pela raz\u00e3o (natural). \u201cO conhecimento natural n\u00e3o lhe bastava para sua perfei\u00e7\u00e3o, mas era necess\u00e1rio outro conhecimento, o sobrenatural\u201d (ST\u00a0II-II, q.2, a.3,\u00a0ad 1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) F\u00e9 sobrenatural para alguns. Diante da prega\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, e especialmente diante dos sobrenaturais milagres e revela\u00e7\u00e3o, Tom\u00e1s de Aquino se indagava pelas causas internas no sujeito que explicariam por que motivo, de um lado, alguns criam, e de outro, os demais n\u00e3o criam na verdade revelada. O grande te\u00f3logo dominicano levou em conta apenas duas vari\u00e1veis internas \u00e0 pessoa humana (ST\u00a0II-II, q.6, a.1\u00a0c\u00a0). Uma causa interna era do \u00e2mbito natural, o livre-arb\u00edtrio, mas esta n\u00e3o explicava a diferen\u00e7a, porque os dois grupos a tinham em comum. A outra causa interna, de ordem sobrenatural, \u00e9 que explicaria a diferen\u00e7a: uma a\u00e7\u00e3o divina em algumas pessoas, mas n\u00e3o em outras, \u00e9 que moveria interiormente o indiv\u00edduo a crer na veracidade daquelas coisas. Tom\u00e1s de Aquino resumia assim essa quest\u00e3o: \u201ccrer \u00e9 um ato do intelecto que adere \u00e0 verdade divina sob a mo\u00e7\u00e3o da vontade, que Deus move pela gra\u00e7a\u201d (ST\u00a0II-II, q.\u00a02, a.\u00a09, c\u00a0). Essa a\u00e7\u00e3o divina, que se aplicava a uma parte dos indiv\u00edduos, era designada de <em>f\u00e9 sobrenatural<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) Conhecimento natural sobre Deus suscet\u00edvel de ser obtido por qualquer um. Algumas coisas a respeito de Deus podiam ser conhecidas sem qualquer revela\u00e7\u00e3o. Bastava para isso que os seres humanos aplicassem com afinco a raz\u00e3o (natural), a atividade humana do intelecto, e refletissem sobre as coisas da Natureza, para chegar \u00e0 conclus\u00e3o de alguns conhecimentos acerca de Deus. Quando isso acontecia, tais conhecimentos n\u00e3o se originavam \u201cacima\u201d, n\u00e3o procediam do \u00e2mbito sobrenatural e n\u00e3o eram revela\u00e7\u00e3o, pois eram obtidos pelo mero esfor\u00e7o intelectual humano. Tratava-se de conhecimento sobre Deus que podia ser obtido pela media\u00e7\u00e3o das criaturas em geral, a cria\u00e7\u00e3o (LONERGAN, 1968, p. 55). Contudo, dado que os conhecimentos naturais sobre Deus exigem muito tempo e esfor\u00e7o para serem obtidos, e que poucas pessoas os obtinham dessa maneira, foi conveniente que eles fossem tamb\u00e9m revelados por Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XIX, esses quatro elementos eram amplamente conhecidos, tanto nos semin\u00e1rios cat\u00f3licos como no \u00e2mbito da forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica protestante. A diferen\u00e7a era que, para os cat\u00f3licos, o imenso conjunto de palavras reveladas, portanto sobrenaturais, encontrava-se tanto na palavra escrita na B\u00edblia como nas tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o escritas, enquanto, para os protestantes, estaria apenas no Livro Sagrado: era o princ\u00edpio da sufici\u00eancia revelativa da B\u00edblia, a <em>sola Scriptura<\/em>. Em base a tais elementos \u00e9 que as afirma\u00e7\u00f5es da constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Filius<\/em> foram desenvolvidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Alguns t\u00f3picos da <em>Dei Filius<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Dei Filius<\/em> divide-se em dois blocos. O primeiro, composto de pr\u00f3logo e quatro cap\u00edtulos, \u00e9 a parte teol\u00f3gico-pastoral com o ensinamento cat\u00f3lico sobre aquilo que se deve crer e seguir em temas-chave. O segundo, com quatro subdivis\u00f5es, cont\u00e9m o elenco das reprova\u00e7\u00f5es de cunho jur\u00eddico, emanadas pelo conc\u00edlio no g\u00eanero liter\u00e1rio \u201cc\u00e2none\u201d, condenando aquilo que \u00e9 inadmiss\u00edvel (O\u2019MALLEY, 2019, p. 168-171; AUBERT, 1964, p. 191-194). Apresenta-se a seguir uma s\u00edntese dos temas principais da <em>Dei Filius<\/em>, quase todos do primeiro bloco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.1 Presen\u00e7a constante de Cristo<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira frase do pr\u00f3logo afirma a perman\u00eancia real e ben\u00e9fica de Cristo com a Igreja em todos os dias. O mesmo par\u00e1grafo introdut\u00f3rio faz a rela\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de eventos positivos que demonstram essa constante presen\u00e7a. O pr\u00f3logo est\u00e1 quase totalmente ausente no Denzinger, mas \u00e9 relevante para a correta compreens\u00e3o da <em>Dei Filius<\/em> (THEOBALD, 2006, p. 218). Seu in\u00edcio afirma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Filho de Deus e redentor do g\u00eanero humano, Nosso Senhor Jesus Cristo, quando estava para voltar ao Pai celestial, prometeu que permaneceria com sua Igreja militante na terra todos os dias at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o dos tempos. Portanto ele nunca, em tempo algum, deixou de estar pronto para ajudar sua amada esposa, para ajud\u00e1-la como mestre, para aben\u00e7o\u00e1-la na a\u00e7\u00e3o, para resgat\u00e1-la no perigo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja n\u00e3o se desencaminha ou conduz a erro porque Jesus Cristo prometeu estar com ela na terra \u201ctodos os dias at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o dos tempos\u201d e \u201cnunca, em tempo algum\u201d (\u201c<em>nullo unquam tempore<\/em>\u201d) deixou de cumprir tal promessa. A afirma\u00e7\u00e3o da <em>Dei Filius<\/em> foi e continua relevante em situa\u00e7\u00f5es nas quais papas e conc\u00edlios at\u00e9 hoje s\u00e3o erroneamente acusados de desvios e heresias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.2 Duas vertentes anti-tridentinas<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida ao primeiro par\u00e1grafo em tom positivo, ainda no pr\u00f3logo, a <em>Dei Filius<\/em> identifica as duas principais vertentes que se opuseram \u00e0s diretrizes do Conc\u00edlio de Trento. Uma \u00e9 a Reforma Protestante, caracterizada ali por sua divis\u00e3o em m\u00faltiplas seitas, pela primazia atribu\u00edda ao ju\u00edzo do indiv\u00edduo acerca das coisas religiosas e por considerar a B\u00edblia como \u00fanica fonte para a doutrina. Outra \u00e9 o Iluminismo, identificado ali primeiramente pela rejei\u00e7\u00e3o da f\u00e9 em Cristo e do car\u00e1ter divino da B\u00edblia, tida como cole\u00e7\u00e3o de inven\u00e7\u00f5es m\u00edticas. Algumas correntes iluministas s\u00e3o nomeadas: racionalismo, naturalismo, pante\u00edsmo, materialismo e ate\u00edsmo. Manifesta-se assim j\u00e1 no pr\u00f3logo que uma das inten\u00e7\u00f5es fundamentais do <em>Syllabus Errorum<\/em> de Pio\u00a0IX em 1864 \u2013 aquela de proscrever, sem nuances, opini\u00f5es e doutrinas \u2013 foi determinante para a reda\u00e7\u00e3o da <em>Dei Filius<\/em> visando preservar a f\u00e9 cat\u00f3lica num contexto repleto de vozes discordantes e efetivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.3 Descri\u00e7\u00e3o de Deus<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo 1 \u00e9 dedicado a descrever Deus em seus atributos e na sua rela\u00e7\u00e3o com aquilo que ele criou. Os conceitos e linguagem utilizados s\u00e3o todos devedores da grandiosa empresa teol\u00f3gica metaf\u00edsica de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, e guardam dist\u00e2ncia das maneiras sens\u00edveis, concretas e permeadas de afeto empregadas para se falar de Deus na Sagrada Escritura \u2013 os Evangelhos em particular \u2013 e nos Padres da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.4 Tematiza\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o divina<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela primeira vez na hist\u00f3ria da Igreja um conc\u00edlio ecum\u00eanico dedica pelo menos um cap\u00edtulo \u2013 neste caso o de n\u00famero 2 \u2013 \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o do tema da revela\u00e7\u00e3o. Nunca anteriormente um conc\u00edlio havia dedicado tanto espa\u00e7o a esse tema. A raz\u00e3o principal para tal ineditismo foi a novidade representada pela nega\u00e7\u00e3o de qualquer divindade e qualquer revela\u00e7\u00e3o por parte de marcantes correntes iluministas. O Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I aproveitou esse inovador cap\u00edtulo para inserir ali t\u00f3picos nesse campo que resultavam do confronto com a Reforma Protestante e que j\u00e1 haviam sido afirmados em 1546 pelo Conc\u00edlio de Trento no \u201cDecreto sobre as Escrituras Can\u00f4nicas\u201d (<em>Decretum de Canonicis scripturis<\/em>; DH\u00a01501), como a inspira\u00e7\u00e3o e o c\u00e2non da B\u00edblia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.5 Uso do paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo 2 sobre a revela\u00e7\u00e3o divina deixa claro que o <em>autor<\/em> da revela\u00e7\u00e3o \u00e9 Algu\u00e9m (Deus), mas concebe o <em>objeto<\/em> da revela\u00e7\u00e3o (o que \u00e9 revelado) como diferente e distinto de Deus: coisas ou palavras. Trata-se de um paradigma de revela\u00e7\u00e3o que caracterizava a Teologia cat\u00f3lica desde a \u00c9poca Escol\u00e1stica, especialmente em S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino. Em tal concep\u00e7\u00e3o, a revela\u00e7\u00e3o que, depois dos ap\u00f3stolos, os fi\u00e9is t\u00eam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o no tempo antes da morte, seria composta apenas por palavras. No s\u00e9culo XIII Tom\u00e1s havia resumido assim:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade divina, que supera o intelecto humano, desceu at\u00e9 n\u00f3s sob forma de revela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o, por\u00e9m, como se tivesse sido mostrada \u00e0 maneira de uma vis\u00e3o, mas como frases que foram apresentadas de tal forma que podemos acreditar nelas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trezentos anos depois, na \u00e9poca do Conc\u00edlio de Trento, esse paradigma coisificado caracterizava a reflex\u00e3o teol\u00f3gica em geral (tanto cat\u00f3lica como reformada) e estava consolidado tamb\u00e9m no Magist\u00e9rio, formado \u00e0 luz do tomismo. No Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I, o paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o atingiu o p\u00edncaro da gl\u00f3ria ao ser usado na Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica <em>Dei Filius<\/em> acompanhado de cita\u00e7\u00e3o \u00e0 letra do decreto tridentino:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta revela\u00e7\u00e3o sobrenatural, segundo a doutrina da Igreja universal, definida pelo santo S\u00ednodo de Trento, est\u00e1 contida \u2018nos livros escritos e tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o escritas que, recebidas da boca do pr\u00f3prio Cristo pelos ap\u00f3stolos, ou por ditado do Esp\u00edrito Santo entregues como que em m\u00e3o dos pr\u00f3prios ap\u00f3stolos, chegaram at\u00e9 n\u00f3s\u2019<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.6 Diferen\u00e7a da Reforma Protestante<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o caracterizasse tanto o \u00e2mbito cat\u00f3lico como o protestante, havia diferen\u00e7a entre os dois lados. Segundo Trento e a <em>Dei Filius<\/em>, conforme a cita\u00e7\u00e3o anterior, depois do tempo dos ap\u00f3stolos tais palavras podem ser encontradas tanto na B\u00edblia como em tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o escritas. Para a Reforma, um princ\u00edpio importante era o da <em>sola Scriptura<\/em>, ou sufici\u00eancia revelativa da B\u00edblia: palavras reveladas seriam apenas aquelas que se encontram no Livro Sagrado. No pr\u00f3logo, em trecho que n\u00e3o consta no <em>Denzinger<\/em>, a <em>Dei Filius<\/em> faz alus\u00e3o a essa posi\u00e7\u00e3o protestante. A constitui\u00e7\u00e3o fala ali de heresias que paulatinamente se fragmentaram em diversas seitas, mas que, mesmo combatendo entre si, para elas \u201ca B\u00edblia Sagrada [&#8230;] era afirmada como \u00fanica fonte e juiz para a doutrina crist\u00e3\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem Trento nem a <em>Dei Filius<\/em>, contudo, especificaram o conte\u00fado das \u201ctradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o escritas\u201d, e tampouco onde elas se encontram e como fazer para distinguir as \u201ctradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o escritas\u201d reveladas daquelas muitas outras que t\u00eam origem meramente humana. Na apresenta\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica do paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o, essas graves lacunas deixaram amplo espa\u00e7o a ser indevidamente preenchido com os arroubos de grupos aferrados a tardios costumes medievais, mas desvinculados do <em>dep\u00f3sito da f\u00e9<\/em> manifestado na revela\u00e7\u00e3o fundamental cuja plenitude \u00e9 o evento da vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.7 Dois tipos de conhecimentos sobre Deus<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Dei Filius<\/em> tamb\u00e9m elevou ao \u00e1pice da gl\u00f3ria a cl\u00e1ssica distin\u00e7\u00e3o tomista entre, por um lado, os conhecimentos sobre Deus aos quais pode-se chegar utilizando a raz\u00e3o natural e, por outro, os conhecimentos sobre Deus aos quais s\u00f3 se chega mediante revela\u00e7\u00e3o divina, junto ao esclarecimento de que, como os conhecimentos naturais sobre Deus exigem tempo e esfor\u00e7o para serem conseguidos e s\u00e3o assim obtidos por poucos, foi conveniente que eles tamb\u00e9m fossem revelados por Deus, de modo sobrenatural. A ideia do car\u00e1ter sobrenatural da revela\u00e7\u00e3o \u00e9 o objeto principal da <em>Dei Filius<\/em> (THEOBALD, 2006, p. 231). Tal distin\u00e7\u00e3o tardia do segundo mil\u00eanio, que caracterizava a Teologia Escol\u00e1stica a partir de precisos pressupostos, galgou na <em>Dei Filius<\/em> ao n\u00edvel de defini\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio. No cap\u00edtulo 4 sobre a articula\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o o documento afirma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O constante sentir da Igreja Cat\u00f3lica tem tamb\u00e9m sustentado e sustenta que h\u00e1 duas ordens de conhecimento distintas [&#8230;]. Em uma conhecemos pela raz\u00e3o natural e na outra, pela f\u00e9 divina; [&#8230;] al\u00e9m daquilo que a raz\u00e3o natural pode atingir, s\u00e3o propostos para crermos mist\u00e9rios escondidos em Deus, que n\u00e3o podemos conhecer sem a divina revela\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No cap\u00edtulo 2 a <em>Dei Filius<\/em> declara:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mesma santa m\u00e3e Igreja sustenta e ensina que Deus, princ\u00edpio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da raz\u00e3o humana, a partir das coisas criadas, [&#8230;] mas que aprouve \u00e0 sua miseric\u00f3rdia e bondade revelar sobre si mesmo e os eternos decretos da sua vontade \u00e0 humanidade por outra via, e esta sobrenatural<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como exemplos de verdades sobre Deus que podem ser obtidas de modo meramente natural, Tom\u00e1s de Aquino indicava a exist\u00eancia e a unicidade divina (SCG\u00a0I,\u00a03). S\u00e3o conhecimentos a respeito de Deus que podem ser obtidos por qualquer um desde que aplique com afinco a raz\u00e3o na an\u00e1lise das coisas criadas. Quando isso acontece, segundo Tom\u00e1s de Aquino e agora solenemente na <em>Dei Filius<\/em>, esse conhecimento verdadeiro n\u00e3o \u00e9 revela\u00e7\u00e3o, mas mero fruto do esfor\u00e7o intelectual humano. Contudo, como os conhecimentos naturais sobre Deus requerem muito tempo e esfor\u00e7o para serem obtidos, foi conveniente que eles fossem tamb\u00e9m revelados por Deus, de modo a serem tamb\u00e9m acess\u00edveis \u00e0 grande maioria que n\u00e3o consegue alcan\u00e7\u00e1-los de modo meramente natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, como exemplo de conhecimento sobrenatural a respeito de Deus, Tom\u00e1s mostrava a verdade de que Deus, sendo \u00fanico, \u00e9 trino. Para Tom\u00e1s, e agora na <em>Dei Filius<\/em>, s\u00f3 a categoria sobrenatural de conhecimentos \u00e9 que deve ser chamada de revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese, alguns conhecimentos sobrenaturais (revelados) sobre Deus podem tamb\u00e9m serem alcan\u00e7ados de maneira meramente natural, sem revela\u00e7\u00e3o (por exemplo, que Deus existe e que \u00e9 \u00fanico), mas outros n\u00e3o, s\u00f3 podem ser acessados porque anteriormente Deus os comunicou \u00e0 humanidade, e a mera labuta da raz\u00e3o humana n\u00e3o conseguiria atingi-los sozinha (por exemplo, que o \u00fanico Deus \u00e9 trino).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os conhecimentos sobrenaturais devem ser aqui compreendidos \u00e0 luz do paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o. Trata-se de verdades proposicionais, isto \u00e9, enunciados lingu\u00edsticos compostos de sujeito, verbo e atributo. Eles abrangem dois campos: os atributos de Deus e os decretos a serem seguidos pelos humanos. \u00c9 esse o alcance da frase da <em>Dei Filius<\/em>: \u201caprouve \u00e0 sua miseric\u00f3rdia e bondade revelar sobre si mesmo e os eternos decretos da sua vontade [\u201c<em>se ipsum ac aeterna voluntatis suae decreta<\/em> [&#8230;] <em>revelare<\/em>\u201d] \u00e0 humanidade por outra via, e esta sobrenatural\u201d. \u201cRevelar sobre si mesmo\u201d deve ser compreendido como mera transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es verbais a respeito dos atributos e da vida interior de Deus. A <em>Dei Filius<\/em> n\u00e3o intenciona expressar ali uma \u201cautocomunica\u00e7\u00e3o\u201d divina, isto \u00e9, uma rela\u00e7\u00e3o dialogal na qual o objeto da revela\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio Deus (Algu\u00e9m), al\u00e9m das palavras (algo). Isso s\u00f3 ser\u00e1 feito solenemente d\u00e9cadas depois, no Conc\u00edlio Vaticano\u00a0II, pela Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica <em>Dei Verbum<\/em>, com a qual a Igreja Cat\u00f3lica resgatou o paradigma personalista de revela\u00e7\u00e3o que caracterizava tanto o Israel do Antigo Testamento e o tempo de Cristo e dos ap\u00f3stolos (o <em>dep\u00f3sito da f\u00e9<\/em>), como tamb\u00e9m a Igreja dos primeiros s\u00e9culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.8 Ades\u00e3o \u00e0 revela\u00e7\u00e3o mediante f\u00e9 sobrenatural<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo 3 da <em>Dei Filius<\/em> eleva ao patamar magisterial outra reflex\u00e3o tardia, do segundo mil\u00eanio: a an\u00e1lise feita por Tom\u00e1s de Aquino sobre as causas internas de ades\u00e3o ou n\u00e3o \u00e0 revela\u00e7\u00e3o. O grande te\u00f3logo conclu\u00eda que uma a\u00e7\u00e3o divina (portanto sobrenatural) especial sobre algumas pessoas \u00e9 que as levava a crer na verdade que havia sido revelada. Agora a <em>Dei Filius<\/em> declara:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta f\u00e9, que \u00e9 o in\u00edcio da salva\u00e7\u00e3o humana, a Igreja a professa como virtude sobrenatural que, pela divina gra\u00e7a que insufla e auxilia, cremos ser verdade o que Deus revela<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a revela\u00e7\u00e3o que prov\u00e9m de Deus, mas tamb\u00e9m a f\u00e9 nessa revela\u00e7\u00e3o. Uma passagem do cap\u00edtulo\u00a04 resume assim: \u201cDeus, que revela os mist\u00e9rios e infunde a f\u00e9\u201d (\u201c<em>Deus, qui mysteria revelat et fidem infundit<\/em>\u201d; DH\u00a03017). Seguem-se os passos de Tom\u00e1s de Aquino, que levou em considera\u00e7\u00e3o apenas dois fatores humanos internos a influenciar a ades\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o: o geral livre-arb\u00edtrio natural e uma especial a\u00e7\u00e3o divina sobrenatural. Nessa \u00f3tica, h\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o divina especial em alguns que os leva a crer como verdadeiro o conte\u00fado revelado. Outras causas internas da resposta humana, hoje claros e ineg\u00e1veis, n\u00e3o s\u00e3o sequer vislumbrados dentro do horizonte da <em>Dei Filius<\/em>. Isso, que seria aceit\u00e1vel no s\u00e9culo XIII e toler\u00e1vel at\u00e9 no s\u00e9culo XIX, hoje em dia patenteia apenas considera\u00e7\u00e3o redutiva das causas internas das decis\u00f5es humanas, que v\u00e3o al\u00e9m dessas duas vari\u00e1veis no que concerne tanto ao \u00e2mbito da criatura como ao do que \u00e9 incriado, a a\u00e7\u00e3o divina. Dentro do horizonte da <em>Dei Filius<\/em>, o inevit\u00e1vel passo seguinte \u00e9 declarar a separa\u00e7\u00e3o sem matizes entre dois lados ant\u00edpodas: \u201cde modo algum \u00e9 igual a condi\u00e7\u00e3o daqueles que, pelo dom celeste da f\u00e9, aderiram \u00e0 verdade cat\u00f3lica, e a dos que, guiados por opini\u00f5es humanas, seguem uma religi\u00e3o falsa\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.9 Motivos para credibilidade na revela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A especial a\u00e7\u00e3o interna divina em algumas pessoas, que as leva a crer na verdade divina revelada, combina-se com fatores externos, importantes porque geram credibilidade. A ades\u00e3o de f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 acompanhada pela raz\u00e3o cega, mas mobiliza vontade e intelecto. O cap\u00edtulo 3 da <em>Dei Filius<\/em> explicita tr\u00eas fatores externos ao indiv\u00edduo que dinamizam vontade e intelecto e geram a credibilidade. Primeiramente, os milagres e as profecias (DH\u00a03009), que j\u00e1 tinham esse papel na reflex\u00e3o de Tom\u00e1s de Aquino. Um terceiro fator \u00e9 acrescentado pela <em>Dei Filius<\/em>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, a Igreja em si mesma, por sua admir\u00e1vel propaga\u00e7\u00e3o, ex\u00edmia santidade e inesgot\u00e1vel fecundidade em todos os bens, por sua unidade cat\u00f3lica e invicta estabilidade, \u00e9 um grande e perp\u00e9tuo motivo de credibilidade<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto das marcantes hostilidades que h\u00e1 tempos a confrontavam, o autoju\u00edzo da Igreja era sem \u00f3bices e invencivelmente enaltecedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.10 Rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 sobrenatural e raz\u00e3o natural<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste campo, tamb\u00e9m pela primeira vez na hist\u00f3ria da Igreja um conc\u00edlio dedica pelo menos um cap\u00edtulo \u2013 aqui o de n\u00famero 4 \u2013 \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre f\u00e9 e raz\u00e3o. O texto explicita que f\u00e9 e raz\u00e3o s\u00e3o relacion\u00e1veis e que entre elas os v\u00ednculos podem se estabelecer de maneira saud\u00e1vel:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que a f\u00e9 esteja acima da raz\u00e3o, jamais pode haver verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus, que revela os mist\u00e9rios e infunde a f\u00e9, dotou o esp\u00edrito humano da luz da raz\u00e3o, e Deus n\u00e3o pode negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais contradizer a verdade<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Dei Filius<\/em> enfatiza o valor da Ci\u00eancia moderna e do seu m\u00e9todo, e reconhece os frutos ben\u00e9ficos que desta se originam:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja, longe de se opor ao cultivo das artes e das ci\u00eancias humanas, antes de muitos modos as auxilia e promove. Pois n\u00e3o ignora nem despreza as vantagens que delas dimanam para a vida humana; pelo contr\u00e1rio, ensina que, como elas procedem de Deus, o Senhor das ci\u00eancias, assim, quando bem empregadas, conduzem a Deus, com o aux\u00edlio de sua gra\u00e7a. Nem pro\u00edbe que tais disciplinas, cada qual em seu respectivo \u00e2mbito, fa\u00e7am uso de seus princ\u00edpios e m\u00e9todos pr\u00f3prios<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de defesa expl\u00edcita da liberdade da Ci\u00eancia moderna. Na <em>Dei Filius<\/em>, as Ci\u00eancias, enquanto alicerce da modernidade, s\u00e3o avaliadas positivamente: \u201cprocedem de Deus\u201d (\u201c<em>a Deo <\/em>[&#8230;] <em>profectae sunt<\/em>\u201d). A via para o di\u00e1logo com a Ci\u00eancia moderna, sem confus\u00e3o de objetivos e m\u00e9todos, \u00e9 aplainada. O cap\u00edtulo\u00a04 afirma que \u201cexiste, no fundo, uma harmonia entre a revela\u00e7\u00e3o divina e o conhecimento humano\u201d (CHAPPIN, 2017, p. 858), mas n\u00e3o ignora erros como as afirma\u00e7\u00f5es radicais, por um lado, da autossufici\u00eancia da raz\u00e3o cient\u00edfica e, por outro, da autossufici\u00eancia da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.11 C\u00e2nones de condena\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo bloco da <em>Dei Filius<\/em> comp\u00f5e-se de 18 reprova\u00e7\u00f5es de cunho jur\u00eddico emanadas no g\u00eanero liter\u00e1rio \u201cc\u00e2none\u201d. Elas s\u00e3o subdivididas em quatro se\u00e7\u00f5es, cada uma referida aos quatro cap\u00edtulos do primeiro bloco. A primeira se\u00e7\u00e3o condena 5 afirma\u00e7\u00f5es a respeito de Deus, que abrangem polite\u00edsmo, ate\u00edsmo, materialismo, positivismo e pante\u00edsmo. A segunda se\u00e7\u00e3o reprova 4 afirma\u00e7\u00f5es que concernem a revela\u00e7\u00e3o, como fide\u00edsmo, tradicionalismo, racionalismo, ate\u00edsmo, de\u00edsmo, positivismo, Teologia Liberal e protestantismo. A terceira se\u00e7\u00e3o condena 6 afirma\u00e7\u00f5es sobre a f\u00e9, que abrangem racionalismo, subjetivismo e pluralismo. A \u00faltima se\u00e7\u00e3o reprova 3 afirma\u00e7\u00f5es a respeito da rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o, como naturalismo, Teologia Liberal e cientificismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se tomado isoladamente, este segundo bloco com os c\u00e2nones de reprova\u00e7\u00e3o assemelha-se ao feitio do <em>Syllabus Errorum<\/em> que Pio\u00a0IX havia publicado apenas seis anos antes do Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I, em 1864, sob forma de uma lista que reprovava oitenta proposi\u00e7\u00f5es. Contudo, no conjunto da constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Filius<\/em>, esses c\u00e2nones de agora ostentam diferen\u00e7a importante: eles n\u00e3o mais comp\u00f5em o foco do documento, que visa em primeiro lugar a apresenta\u00e7\u00e3o positiva da doutrina no belicoso contexto de uma Igreja Cat\u00f3lica hostilizada de quase todos os lados (SCHEFFCZYK, 1968, p. 87).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Dei Filius<\/em> foi fruto de contexto no qual a doutrina da f\u00e9 cat\u00f3lica estava em situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. Sobretudo as hostilidades das correntes derivadas do Iluminismo executavam duros golpes contra a ess\u00eancia da f\u00e9 e a exist\u00eancia da Igreja. A <em>Dei Filius<\/em> foi a inst\u00e2ncia doutrinal na qual a Igreja Cat\u00f3lica encarou e respondeu \u2013 mesmo que de modo incompleto e redutivo \u2013 a esses ataques no campo da revela\u00e7\u00e3o e da f\u00e9, no \u00e2mago da Teologia Fundamental. O documento quis \u201csalvaguardar os fundamentos da possibilidade da revela\u00e7\u00e3o de Deus, contra uma raz\u00e3o por demais pretensiosa e contra uma vis\u00e3o pessimista da raz\u00e3o humana\u201d (LIBANIO, 1992, p. 385). O exame da <em>Dei Filius<\/em>, portanto, precisa tamb\u00e9m passar ao crivo a modernidade com a qual o documento se defronta (BAUMEISTER, 2020, p. 14). As correntes que desferiam os golpes carregavam em si, n\u00e3o menos que a Igreja Cat\u00f3lica, o trigo e o joio. A modernidade expressa em tais correntes mostrou com o tempo que tamb\u00e9m possui potencialidades forjadoras de movimentos que a corrompem \u2013 comunismo, Teologia da Prosperidade, teoria do pluralismo religioso \u2013 ou interrompem \u2013 nazismo, tradicionalismo. Eram correntes de pensamento que, de maneira eficaz, n\u00e3o raramente sustentavam elementos antagonistas a aspectos essenciais da f\u00e9 crist\u00e3 (CHAPPIN, 2017, p. 858-859). Em virtude do contexto de hostilidades em que foi gestada, a <em>Dei Filius<\/em> n\u00e3o foi exposi\u00e7\u00e3o serena a respeito da f\u00e9 e da revela\u00e7\u00e3o, nem ofereceu exposi\u00e7\u00e3o completa a respeito. O que vem afirmado na constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Filius<\/em> precisa ser suscet\u00edvel aos not\u00e1veis resgates posteriores feitos pela Teologia e pelo Magist\u00e9rio imbu\u00eddos da \u201cvolta \u00e0s fontes\u201d ou <em>ressourcement<\/em>, que recobraram elementos fulcrais sobre revela\u00e7\u00e3o e f\u00e9 encontrados no evento de Jesus Cristo e nos textos dos Padres da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">C\u00e9sar Andrade Alves SJ. Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia \u2013 Belo Horizonte, Brasil. Texto enviado em 30\/05\/2023, aprovado em 20\/10\/2023, postado em 31\/12\/203. Texto original em portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALLEN, J.A. 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The natural knowledge of God. <em>Proceedings of the Catholic Theological Society of America<\/em>, Washington, D.C., v.\u00a023, p.\u00a054-69, June 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O\u2019MALLEY, J.W. <em>El Vaticano\u00a0I<\/em>. Malia\u00f1o: Sal Terrae, 2019. (Presencia Teol\u00f3gica, 272).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">POTTMEYER, H.J. <em>Der Glaube vor dem Anspruch der Wissenschaft: die Konstitution \u00fcber den katholischen Glauben Dei Filius des Ersten Vatikanischen Konzils und die unver\u00f6ffentlichten theologischen Voten der vorbereitenden Kommission<\/em>. Freiburg: Herder 1968. (Freiburger theologische Studien, 87).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">REGIO DECRETO 9 ottobre 1870, n. 5903. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.normattiva.it\/eli\/id\/1870\/10\/09\/070U5903\/ORIGINAL\">https:\/\/www.normattiva.it\/eli\/id\/1870\/10\/09\/070U5903\/ORIGINAL<\/a> Acesso em: 5.fevereiro.2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SANCHEZ, W.L. Conc\u00edlio Vaticano\u00a0I. In: PASSOS,\u00a0J.D.; SANCHEZ,\u00a0W.L. (orgs.). <em>Dicion\u00e1rio do Conc\u00edlio Vaticano\u00a0II<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus-Paulinas, 2015. p. 183-184.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHEFFCZYK, L. Die dogmatische Konstitution \u201c\u00dcber den katholischen Glauben\u201d des Vatikanum\u00a0I und ihre Bedeutung f\u00fcr die Entwicklung der Theologie. <em>M\u00fcnchener theologische Zeitschrift<\/em>, M\u00fcnchen, v.\u00a022, n.\u00a01-2, p.\u00a076-94, Januar\/Juni 1971.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">STATO PONTIFICIO. In: ENCICLOPEDIA TRECCANI. Roma: Treccani, 2022. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.treccani.it\/enciclopedia\/stato-pontificio\/\">https:\/\/www.treccani.it\/enciclopedia\/stato-pontificio\/<\/a> Acesso em: 5.fevereiro.2023.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">THEOBALD, C. Do Vaticano\u00a0I a 1950. In: SESBO\u00dc\u00c9,\u00a0B. (org.). <em>Hist\u00f3ria dos Dogmas<\/em>: a Palavra da Salva\u00e7\u00e3o. v.\u00a04. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2006. p. 191-384.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VACANT, J.-M.-A. <em>\u00c9tudes th\u00e9ologiques sur les constitutions du Concile du Vatican d\u2019apr\u00e8s les actes du Concile: la constitution Dei Filius<\/em>. 2 v. Paris: Delhomme et Briguet, 1895.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>Dei Filius et generis humani Redemptor Dominus Noster Iesus Christus, ad Patrem caelestem rediturus, cum Ecclesia sua in terris militante, omnibus diebus usque ad consummationem saeculi futurum se esse promisit. Quare dilectae sponsae praesto esse, adsistere docenti, operanti benedicere, periclitanti opem ferre nullo unquam tempore destitit<\/em> (CONC\u00cdLIO VATICANO\u00a0I, 1870, sem pagina\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u00a0<em>D<\/em><em>ivina veritas, intellectum humanum excedens, per modum revelationis in nos descendit, non tamen quasi demonstrata ad videndum, sed quasi sermone prolata ad credendum<\/em> (Suma Contra Gentios\u00a0IV,\u00a01).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Haec porro supernaturalis revelatio, secundum universalis Ecclesiae fidem a sancta Tridentina Synodo declaratam continetur \u2018in libris scriptis et sine scripto traditionibus, quae ipsius Christi ore ab Apostolis acceptae, aut ab ipsis Apostolis Spiritu Sancto dictante quasi per manus traditae, ad nos usque pervenerunt\u2019<\/em> (DH\u00a03006).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u00a0\u201c<em>sacra Biblia<\/em> [&#8230;] <em>christianae doctrinae unicus fons et iudex asserebantur<\/em>\u201d (CONC\u00cdLIO VATICANO\u00a0I, 1870, sem pagina\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> \u201c<em>hoc quoque perpetuus Ecclesiae catholicae consensus tenuit et tenet, duplicem esse ordinem cognitionis<\/em> [&#8230;] <em>distinctum<\/em> [&#8230;]; <em>in altero naturali ratione, in altero fide divina cognoscimus; <\/em>[&#8230;] <em>praeter ea, ad quae naturalis ratio pertingere potest, credenda nobis proponuntur mysteria in Deo abscondita, quae, nisi revelata divinitus, innotescere non possunt<\/em><em>\u201d<\/em> (DH\u00a03015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> \u201c<em>Eadem sancta mater Ecclesia tenet et docet, Deum, rerum omnium principium et finem, naturali humanae rationis lumine e rebus creatis certo cognosci posse, [&#8230;] attamen placuisse eius sapientiae et bonitati, alia eaque supernaturali via se ipsum ac aeterna voluntatis suae decreta humano generi revelare<\/em><em>\u201d<\/em> (DH\u00a03004).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> \u201c<em>Hanc vero fidem, quae humanae salutis initium est, Ecclesia catholica profitetur, virtutem esse supernaturalem, qua, Dei aspirante et adiuvante gratia, ab eo revelata vera esse credimus<\/em><em>\u201d<\/em> (DH\u00a03008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> \u00a0\u201c<em>minime par est condicio eorum, qui per caeleste fidei donum catholicae veritati adhaeserunt, atque eorum, qui ducti opinionibus humanis falsam religionem sectantur<\/em>\u201d (DH\u00a03014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> \u00a0\u201c<em>Quin etiam Ecclesia per se ipsa, ob suam nempe admirabilem propagationem, eximiam sanctitatem et inexhaustam in omnibus bonis foecunditatem, ob catholicam unitatem invictamque stabilitatem magnum quoddam et perpetuum est motivum credibilitatis<\/em>\u201d (DH\u00a03013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> \u201c<em>Verum etsi fides sit supra rationem, nulla tamen umquam inter fidem et rationem vera dissensio esse potest: cum idem Deus, qui mysteria revelat et fidem infundit, animo humano rationis lumen indiderit, Deus autem negare se ipsum non possit, nec verum vero umquam contradicere<\/em>\u201d (DH\u00a03017)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> \u201c<em>Ecclesia humanarum artium et disciplinarum culturae obsistat, ut hanc multis modis iuvet atque promoveat. Non enim commoda ab iis ad hominum vitam dimanantia aut ignorat aut despicit; fatetur immo, eas, quemadmodum a Deo scientiarum Domino profectae sunt, ita, si rite pertractentur, ad Deum iuvante eius gratia perducere. Nec sane ipsa vetat, ne huiusmodi disciplinae in suo quaeque ambitu propriis utantur principiis et propria methodo<\/em>\u201d (DH\u00a03019).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Contexto e hist\u00f3ria da reda\u00e7\u00e3o 2 Pressupostos teol\u00f3gicos 3 Alguns t\u00f3picos da Dei Filius 3.1 Presen\u00e7a constante de Cristo 3.2 Duas vertentes anti-tridentinas 3.3 Descri\u00e7\u00e3o de Deus 3.4 Tematiza\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o divina 3.5 Uso do paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o 3.6 Diferen\u00e7a da Reforma Protestante 3.7 Dois tipos de conhecimentos sobre Deus 3.8 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-2952","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-fundamental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2952"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3037,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2952\/revisions\/3037"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}