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{"id":2914,"date":"2023-12-31T14:46:34","date_gmt":"2023-12-31T17:46:34","guid":{"rendered":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2914"},"modified":"2024-01-03T15:14:07","modified_gmt":"2024-01-03T18:14:07","slug":"experiencias-espirituais-dos-povos-em-abya-yala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2914","title":{"rendered":"Experi\u00eancias espirituais dos povos em Abya Yala"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Os mundos dos quais somos parte<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Cosmoviv\u00eancias hol\u00edsticas nutridas nas fontes ancestrais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Sendo e estando em rela\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Espiritualidades relacionais c\u00f3smicas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.1 Relacionalidade rec\u00edproca<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.2 A dualidade complementar<\/em><\/p>\n<p><em>4.3 A cria\u00e7\u00e3o m\u00fatua da vida<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 O desafio de seguir sendo e estando sustentados pelas espiritualidades<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presente texto apresenta o entrela\u00e7amento das cosmoviv\u00eancias e espiritualidades relacionais cosmog\u00f4nicas dos povos que, nas suas ra\u00edzes ancestrais, se reconhecem situados nos territ\u00f3rios colonizados de <em>Abya Yala<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Objetiva-se, com tal abordagem, continuar estabelecendo o equil\u00edbrio e a harmonia por meio das rela\u00e7\u00f5es de mutualidade e correspond\u00eancia com as diversas comunidades de vida, a partir do reconhecimento de sermos filhas e filhos da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Os mundos dos quais somos parte <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na aproxima\u00e7\u00e3o aos territ\u00f3rios e contextos de <em>Abya Yala<\/em>, n\u00e3o se pode negar o predom\u00ednio da extens\u00e3o do sistema colonial. Nele prima o paradigma hegem\u00f4nico de uma cultura dominante, refor\u00e7ada pelo pensamento moderno, que formulou a no\u00e7\u00e3o universal dela. Nos nossos territ\u00f3rios, esse paradigma se dilatou por meio da configura\u00e7\u00e3o dos Estados na\u00e7\u00f5es, que deram continuidade \u00e0s miragens do capitalismo, apresentado como \u201cdesenvolvimento\u201d. Tudo isso sup\u00f4s uma expans\u00e3o das economias extrativistas, favorecendo uma elite dominante e impulsionando uma s\u00e9rie de pol\u00edticas de exterm\u00ednio em rela\u00e7\u00e3o aos povos ind\u00edgenas. Tais povos eram considerados como um empecilho para o desenvolvimento que tem sua refer\u00eancia no mundo ocidental, sendo-lhe dif\u00edcil reconhecer os outros modos de saberes e seres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os diversos povos vinculados a suas ra\u00edzes milenares se reconhecem nos territ\u00f3rios que sofrem, h\u00e1 mais de quinhentos anos, a submiss\u00e3o extrativa e o exterm\u00ednio sistem\u00e1tico por meio das pol\u00edticas genocidas. S\u00e3o pol\u00edticas vistas como amea\u00e7a aos mundos plurais ancestrais. Esses resistem a morrer, lutando para continuar sendo e estando em v\u00ednculo com seus territ\u00f3rios-terra e as diversas for\u00e7as vitais, e com seu sentido, que \u00e9 nomeado de diversos modos, segundo a cosmogonia de cada povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu reconhecimento e a livre determina\u00e7\u00e3o na sua organiza\u00e7\u00e3o comunal n\u00e3o \u00e9 respeitada nas sociedades constru\u00eddas sobre a base colonial do \u201c\u00edndio\u201d, como o prop\u00f5e Bonfil:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A categoria \u2018\u00edndio\u2019 designa o setor colonizado e faz necessariamente refer\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o colonial. O \u00edndio surge com o estabelecimento da ordem colonial europeia na Am\u00e9rica; antes, n\u00e3o h\u00e1 \u00edndios, mas povos diversos com suas pr\u00f3prias identidades. O europeu cria o \u00edndio, porque toda situa\u00e7\u00e3o colonial exige a defini\u00e7\u00e3o global do colonizado como diferente e inferior (desde uma perspectiva total: racial, cultural, intelectual, religiosa etc.); com base nessa categoriza\u00e7\u00e3o de \u00edndio, o colonizador racionaliza e justifica a domina\u00e7\u00e3o e sua posi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio (BONFIL, 1988, p. 19).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso sup\u00f4s para algumas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas a nega\u00e7\u00e3o de si, assumindo-se a partir do sistema que o nega, associando-se \u00e0s popula\u00e7\u00f5es consideradas mesti\u00e7as que se constituem a partir de uma identidade configurada pela no\u00e7\u00e3o do \u201cbranco\u201d. S\u00e3o privilegiados o saber e os modos de vida ocidentais, completamente desvinculados do que se considera a natureza, isto \u00e9, da rela\u00e7\u00e3o com a terra e suas inter-rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos povos procuraram a forma de n\u00e3o serem completamente aculturados e, depois de longos per\u00edodos vivendo na clandestinidade a qual foram relegados, buscaram sair dela. Ainda que o processo ocorra nos diversos territ\u00f3rios, \u00e9 significativo o que acontece no vasto territ\u00f3rio da Amaz\u00f4nia. Nela encontra-se a maior parte dos povos ancestrais que conservaram seus saberes, sabedorias e espiritualidades; todas elas entrela\u00e7adas a partir da bela polifonia de l\u00ednguas milenares e da surpreendente biodiversidade que habita nos seus territ\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos nossos contextos, a partir do discurso do multiculturalismo, reconhece-se o passado de muitos povos, proscritos e presentes nos museus e no folclore. Apesar disso, a promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de assimila\u00e7\u00e3o \u2013 que se implementam por meio de diversos programas considerados de \u201cinclus\u00e3o social\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s denominadas minorias \u00e9tnicas \u2013 refor\u00e7ou processos de acultura\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es mais jovens. Essas gera\u00e7\u00f5es ficam nas margens das cidades e nos seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios, por meio da educa\u00e7\u00e3o bil\u00edngue intercultural, que sup\u00f5e, em muitos casos, a tradu\u00e7\u00e3o do conte\u00fado do saber ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consequ\u00eancia da din\u00e2mica colonial \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o ou ruptura com a ancestralidade. Entretanto, \u00e9 importante reconhecer que, at\u00e9 os anos 1990, os povos \u201c\u00edndios\u201d, apoiados por essa identidade atribu\u00edda, reconhecem que, apesar dos quinhentos anos de dom\u00ednio e explora\u00e7\u00e3o, eles resistiram. Trata-se de um tempo no qual se evoca a mem\u00f3ria da resist\u00eancia e do caminho para recriar a vida dos povos em rela\u00e7\u00e3o com outros. Esse interc\u00e2mbio de saberes ancestrais ajuda a resistir aos sistemas extrativos que est\u00e3o levando a uma devasta\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, o tecido das espiritualidades ind\u00edgenas, que se entrela\u00e7am com a esperan\u00e7a de se fortalecerem em rela\u00e7\u00e3o com sua ancestralidade, possibilita-lhes nomear-se e reconhecer-se como povos, nacionalidades e comunidades que se reconhecem nas hist\u00f3rias dos fins e renascimentos dos mundos. A partir dessas hist\u00f3rias, buscam curar o territ\u00f3rio e os corpos, seguindo o princ\u00edpio de equil\u00edbrio e harmonia, que precisa continuar sendo cuidado a partir das rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Cosmoviv\u00eancias hol\u00edsticas nutridas nas fontes ancestrais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evocamos a for\u00e7a da palavra zapatista, da selva Lacandona de Chiapas, que se vincula com as seivas dos diversos povos ancestrais: \u201cqueremos um mundo onde caibam muitos mundos\u201d. S\u00e3o palavras que refletem n\u00e3o s\u00f3 o anseio, mas a realidade do grande pluriverso de povos milenares em <em>Abya Yala<\/em>, que rompe com a no\u00e7\u00e3o homog\u00eanea do \u201c\u00edndio\u201d. O tecido das espiritualidades que se cultivam em cada territ\u00f3rio, compartilha a no\u00e7\u00e3o c\u00f3smica e tel\u00farica que abarca os diversos povos no v\u00ednculo com o territ\u00f3rio habitado. \u00c9 isso o que expressa Aura Cumes: \u201c\u00e9 muito paradoxal que digamos \u2018M\u00e3e Natureza\u2019, porque, nos nossos senti\u00addos de mundo, n\u00e3o h\u00e1 uma dissocia\u00e7\u00e3o en\u00adtre ser humano homem e algo chamado natureza\u201d (CUMES, 2021, p. 19). Isso porque cada povo se reconhece na terra como parte da grande rede de vida que flui nela, como fica tamb\u00e9m expressado nas palavras de Eduardo Galeano:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem dono a terra? Como assim? Como se h\u00e1 de vender? Como se h\u00e1 de comprar? Se ela n\u00e3o nos pertence: n\u00f3s somos dela, seus filhos somos. Sempre assim, sempre. Terra viva. Como cria seus vermes, assim nos cria. Tem ossos e sangue. Leite tem, e nos amamenta. Cabelo tem, pasto, palha, \u00e1rvores. Ela sabe parir batatas. Faz nascer casas. Gente faz nascer. Ela cuida de n\u00f3s e n\u00f3s cuidamos dela. Ela bebe chicha, aceita nosso convite. Filhos seus somos. Como se h\u00e1 de vender? Como se h\u00e1 de comprar? (GALEANO, 1998, p. 38).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dessa conex\u00e3o, entrela\u00e7am-se as espiritualidades, como diria a s\u00e1bia Maya Ernestina L\u00f3pez, \u201ccom os fios quebrados e queimados\u201d, pelo despojamento da religi\u00e3o imposta, que sup\u00f4s a extirpa\u00e7\u00e3o e a substitui\u00e7\u00e3o como m\u00e9todos usados nos processos de evangeliza\u00e7\u00e3o. \u201cJustap\u00f4s-se uma imagem sobre a outra e se reverteram os significados da cren\u00e7a de participa\u00e7\u00e3o na cosmologia de origem\u201d (CORDERO, 2003, p. 5). Portanto, n\u00e3o se trata de um sincretismo como tal, pois muito do que se considera como sincr\u00e9tico responde a certas pr\u00e1ticas religiosas do catolicismo popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por esse motivo, as popula\u00e7\u00f5es que tiveram pouca influ\u00eancia crist\u00e3, conservam muito mais o sentido da espiritualidade enraizada nas rela\u00e7\u00f5es, apresentando-se como fontes ancestrais que convidam a fazer um caminho de retorno a elas. Isso, no contexto andino, \u00e9 o <em>Kuti<\/em>: \u201ca invers\u00e3o, a volta, o regresso, restitui\u00e7\u00e3o, retorno, revolu\u00e7\u00e3o ou transforma\u00e7\u00e3o\u201d (MONTES, 1999, p. 144). Portanto, trata-se do fim de um tempo e do in\u00edcio de outro. Para a cosmogonia Maya, o ano 2012 foi o fim do quinto sol e o in\u00edcio de um novo ciclo que traz suas pr\u00f3prias transforma\u00e7\u00f5es, a fim de que a comunidade humana desate os n\u00f3s herdados nas rela\u00e7\u00f5es desiguais e de domina\u00e7\u00e3o que se estendem at\u00e9 as outras comunidades de viventes, provocando o desequil\u00edbrio no cosmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um tempo de cura que procura restabelecer o equil\u00edbrio e a harmonia no cosmos habitado, para continuar despertando, nos diversos saberes e sabedorias, a partir da consci\u00eancia c\u00f3smica. H\u00e1 realidades e situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser compreendidas apenas a partir dos sentipensamentos humanos. S\u00e3o tamb\u00e9m requeridas rela\u00e7\u00f5es de mutualidade, de escuta e observa\u00e7\u00e3o do ritmo das diversas comunidades de vida e a rela\u00e7\u00e3o com as diversas fontes vitais que se reconhece em cada territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o tempo e espa\u00e7o a partir dos quais se leem as hist\u00f3rias transgressoras que buscaram, uma e outra vez, a cura dos territ\u00f3rios-terras e dos territ\u00f3rios-corpos, pois compreenderam que seus corpos violentados tinham a possibilidade de se incorporarem e resistirem diante dos sistemas extrativistas que invadem e subjugam a terra, territ\u00f3rios e territorialidades. Tempo no qual se busca tecer a organiza\u00e7\u00e3o comunal, a partir da livre determina\u00e7\u00e3o e do respeito dos territ\u00f3rios, que orientam o caminho das re-exist\u00eancias sustentadas nos seus saberes, sabedorias e espiritualidades relacionais para continuar sendo e estando como povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Sendo e estando em rela\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir das espiritualidades entrela\u00e7adas das sabedorias que s\u00e3o cultivadas, inclusive estando fora dos territ\u00f3rios de origem, muitas popula\u00e7\u00f5es dos diversos povos recriam os vestu\u00e1rios impostos, sabores, tecidos, rituais, idiomas. Elas conservam assim o cuidado rec\u00edproco da vida a partir do v\u00ednculo com os territ\u00f3rios de origem, pois a\u00ed habita a ancestralidade que sustenta os sentidos de sua vida, suas fam\u00edlias e suas organiza\u00e7\u00f5es comunais. Por isso, a rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o habitado ser\u00e1 fundamental, uma vez que se parte do princ\u00edpio de que tudo tem vida, tudo vive. Desse modo, supera-se a oposi\u00e7\u00e3o entre vida e morte, pois se concebe outros modos de vida e de rela\u00e7\u00f5es, que prosseguem na terra, como se expressa nos povos andinos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas palavras de um anci\u00e3o <em>aymara<\/em>, temos tr\u00eas vidas e dois nascimentos. A primeira vida \u00e9 o ventre materno e desemboca num primeiro nascimento; a segunda \u00e9 a vida neste mundo. A morte \u00e9 o segundo nascimento, que nos conduz \u00e0 terceira vida. O ventre da m\u00e3e humana e o ventre da M\u00e3e Terra s\u00e3o fonte de nova e maior vida nos diversos momentos deste grande ciclo vital, que \u00e9, ao mesmo tempo, pessoal, social e c\u00f3smico (ALB\u00d3, 2006, p. 372).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio vivente prop\u00f5e outras maneiras de ser e estar no cosmos. Implica inter-rela\u00e7\u00f5es com os diversos mundos, o que sup\u00f5e a abordagem da antropologia da vida que ajuda a compreender o fluxo de energia ou for\u00e7a vital dentro da vida, como o expressa o s\u00e1bio Guarani do Mato Grosso:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossos antepassados ensinavam que cada um de n\u00f3s tem um c\u00e2ntico pr\u00f3prio, um canto que s\u00f3 a pr\u00f3pria pessoa conhece no seu interior. Tamb\u00e9m os animais e as plantas, assim como o rio e a floresta t\u00eam um canto dentro de si. At\u00e9 a terra possui seu pr\u00f3prio canto. Os homens dos sonhos sabem descobrir o canto da terra\u2026\u201d (BARROS, 1996, p. 58).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses outros modos de ser s\u00e3o reconhecidos a partir das ontologias relacionais, nas quais se assume que todos os tipos de seres viventes dependem de outros para sua exist\u00eancia, uma vez que n\u00e3o se consideram como separados, mas em constantes inter-rela\u00e7\u00f5es. As diversas exist\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o concebidas como for\u00e7as solit\u00e1rias, mas em cont\u00ednua rela\u00e7\u00e3o. Por isso, ser\u00e1 importante a no\u00e7\u00e3o da comunidade nos territ\u00f3rios assumidos como espa\u00e7o-tempo vitais. Nela, como o expressa Jorge Apaza, manifesta-se a exist\u00eancia continuada do pluriverso, que resgata o sentido das rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas, um dos princ\u00edpios importantes que propicia a cria\u00e7\u00e3o m\u00fatua da vida. No contexto andino, esse princ\u00edpio \u00e9 a <em>uywa\u00f1a o uyway<\/em>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo andino \u00e9 um mundo de cria\u00e7\u00f5es; todos criam e se deixam criar. Por isso, essa qualidade de cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 atributo do homem, mas \u00e9 denominador comum de todos os membros que conformam a coletividade natural. Em cada <em>pacha<\/em> local, conversa-se com tudo o que existe e de distintas formas ou maneiras; o andino \u00e9 um conversador por excel\u00eancia. Essa enorme capacidade de conversar com a natureza faz com que se estabele\u00e7am rela\u00e7\u00f5es ou simbioses estreitas e permanentes entre todos os membros que conformam o <em>ayllu<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Sua \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 viver melhor e da maneira mais harmoniosa poss\u00edvel e em equil\u00edbrio com todos; ent\u00e3o, a plenitude da vida se alcan\u00e7a criando-se mutuamente (APAZA, 1997, p. 103).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de cria\u00e7\u00f5es ou de cuidados da vida, que \u00e9 partilhada nos diversos povos ancestrais, aponta para o sentido das rela\u00e7\u00f5es em reciprocidade, uma vez que as a\u00e7\u00f5es afetam as rela\u00e7\u00f5es, como se expressa na sabedoria do povo Tojolabal:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo vivente \u00e9, pois, irm\u00e3o ou irm\u00e3 dos humanos. Esperam que nos comuniquemos com eles, que os tratemos como irm\u00e3os e os visitemos. Que falemos com eles, cuidemos deles e os cumprimentemos. Isto \u00e9, que sejamos conscientes de estar entre viventes e que os tratemos como tais (LENKERSDORF, 2008, p. 128).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de modos de ser que se distanciam das espiritualidades dualistas, que separam a vida entre mat\u00e9ria e esp\u00edrito, e das ontologias centradas nos humanos como seres superiores. A partir delas, apresenta-se uma concep\u00e7\u00e3o do sagrado fora da realidade, que deriva na grave deteriora\u00e7\u00e3o da integralidade c\u00f3smica e das inter-rela\u00e7\u00f5es na Grande Rede da Vida. A esse respeito, prossegue Lenkersdorf, apresentando os sentipensamentos do povo Tojolabal, nos quais se aprecia de que modo, para as cosmogonias ancestrais, s\u00e3o compreendidos os parentescos ampliados nas outras comunidades de vida:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o somos os que est\u00e3o no topo dos viventes, mas somos irm\u00e3os de uma fam\u00edlia muito extensa que tamb\u00e9m nos influi. Assim, nossas casas, que habitamos e edificamos, tamb\u00e9m nos formam no nosso modo de ser. Nosso milharal nos sustenta. Nosso cachorro nos cuida e nos acompanha. Vivemos, pois, em meio de um todo vivente que nos acompanha; e formamo-nos mutuamente. Como viventes, finalmente, temos que escutar esse todo, assim como nos escuta (LENKERSDORF, 2008, p. 125).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o, portanto, modos de ser entrela\u00e7ados de inter-rela\u00e7\u00f5es, que permanecem como testemunhas da tenacidade da vida que se recria a partir das sinergias que se correspondem entre as diversas comunidades de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Espiritualidades relacionais c\u00f3smicas <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para muitos povos, o termo espiritualidade \u00e9 mais pr\u00f3ximo de suas cosmoviv\u00eancias, pelas inter-rela\u00e7\u00f5es com os diversos mundos vitais, aqueles que se veem e aqueles que n\u00e3o se veem, mas que est\u00e3o presentes, que transcendem a no\u00e7\u00e3o dualista do bem e do mal. A partir da influ\u00eancia crist\u00e3, usa-se esse l\u00e9xico. Entretanto, muitas s\u00e1bias e s\u00e1bios prop\u00f5em que n\u00e3o h\u00e1 for\u00e7as ou energias boas e m\u00e1s, mas que todas requerem um tratamento diferenciado. Al\u00e9m disso, compreende-se que as for\u00e7as denominadas como m\u00e1s s\u00e3o for\u00e7as ou energias que precisam de uma rela\u00e7\u00e3o de muito mais respeito e cuidado, pois, assim como cuidam, podem gerar destrui\u00e7\u00e3o, enfermidade, pragas, secas ou inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A espiritualidade \u00e9 assumida a partir do princ\u00edpio do equil\u00edbrio e da harmonia, que cada povo nomeia de maneiras diversas, pois significa uma busca constante no processo c\u00edclico c\u00f3smico, no qual se situam os ciclos de todas as formas de vida. Trata-se de cultivar o sentido das rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas, pois qualquer ruptura gera desequil\u00edbrios que fragmentam a vida. Por isso, nos tratamentos das doen\u00e7as, s\u00e3o necess\u00e1rios ritos de harmoniza\u00e7\u00e3o com as for\u00e7as vitais que habitam no territ\u00f3rio local, a fim de restabelecer a energia ou a for\u00e7a que acompanha o corpo, para dialogar com ela e saber do que precisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o espiritualidades ancestrais que se recriam para revitalizar a vida. As resist\u00eancias e as articula\u00e7\u00f5es como povos se sustentam na espiritualidade, sendo essa parte de tempos e lugares, pois se seguem os ciclos c\u00f3smicos por meio de rituais pessoais e comunit\u00e1rios. Mesmo que, algumas vezes, essas espiritualidades se disfarcem sob pr\u00e1ticas do catolicismo popular ou de outras express\u00f5es religiosas, elas \u201crevelam sua particularidade epist\u00eamica e uma diverg\u00eancia significativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o hegem\u00f4nica\u201d (MARCOS, 2002, p. 4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seguir, ser\u00e3o expostos os princ\u00edpios relacionais que procedem das sabedorias ancestrais, a partir das quais se entrela\u00e7am as espiritualidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.1 Relacionalidade rec\u00edproca<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reciprocidade \u00e9 um dos princ\u00edpios que orienta as rela\u00e7\u00f5es, de modo que os rituais buscam gerar correspond\u00eancias m\u00fatuas entre os\/as diversos seres. Isso pode ser visto nos ritos das sementes, com as quais se fala e \u00e0s quais se oferece comida, bebida, em reciprocidade pelo cuidado oferecido por meio de seus frutos. Geralmente, as encarregadas de tal rito s\u00e3o as mulheres, que entrela\u00e7am seus saberes com seus fazeres: dar e receber para voltar a entregar, a fim de que os ciclos c\u00f3smicos n\u00e3o se interrompam e suas sabedorias continuem propagando-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os diversos ritos seguem o princ\u00edpio de que \u201ctudo tem seu tempo e espa\u00e7o\u201d. Isso possibilita a no\u00e7\u00e3o c\u00edclica da vida e das rela\u00e7\u00f5es que precisam ser cuidadas, a fim de respeitar os ciclos vitais que n\u00e3o podem ser alterados. Essa no\u00e7\u00e3o engloba o sentido integrador da vida, j\u00e1 que, a partir do reconhecimento de que tudo tem seu espa\u00e7o, integra-se aquilo que prov\u00e9m de algum interc\u00e2mbio de saberes e de seres. Por isso, pede-se permiss\u00e3o \u00e0s for\u00e7as vitais para incorpor\u00e1-las e para que possam conviver em harmonia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dessa perspectiva hol\u00edstica, situa-se a rela\u00e7\u00e3o com o cristianismo. Em muitas comunidades n\u00e3o se assume tudo, mas apenas alguns elementos que podem ser integrados ao territ\u00f3rio vivente. Por isso, os templos crist\u00e3os requerem respeito, assim como seus representantes; e, em algumas circunst\u00e2ncias, at\u00e9 se ter\u00e1 necessidade de seus ritos, a fim de gerar a harmoniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Esse aspecto pode oferecer pistas para compreender as rela\u00e7\u00f5es entre o cristianismo e as espiritualidades andinas, para al\u00e9m da no\u00e7\u00e3o pejorativa do sincretismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.2 A dualidade complementar <\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como uma esp\u00e9cie de desenvolvimento da reciprocidade, assume-se a complementariedade, uma vez que muitos povos concebem as rela\u00e7\u00f5es duais como express\u00e3o do sentido da integralidade da vida. Isso ocorre porque n\u00e3o se assume que existam for\u00e7as solit\u00e1rias e individuais, mas outra for\u00e7a \u00e9 requerida, a fim de que possibilite as rela\u00e7\u00f5es de equil\u00edbrio e harmonia. Assim, concebe-se a rela\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9u e a terra, o tempo e espa\u00e7o, \u00e1gua e terra, sol e lua\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que, \u00e0s vezes, a linguagem as designe como for\u00e7as femininas e masculinas, tendendo a sexualizar essas rela\u00e7\u00f5es (nas que se situam as rela\u00e7\u00f5es entre o homem e a mulher), a dualidade transcende essa categoriza\u00e7\u00e3o que tende ao binarismo e ao dualismo. A melhor express\u00e3o do sentido de dualidade \u00e9 oferecida no altar Maya, que reflete as correspond\u00eancias dos quatro pontos cardeais, situando no centro a <em>U\u2019k\u2019ux Kaj<\/em> (cora\u00e7\u00e3o do c\u00e9u) e a <em>U\u2019k\u2019ux Ulew<\/em> (cora\u00e7\u00e3o da terra), o encontro do tel\u00farico e do c\u00f3smico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de no\u00e7\u00f5es de tempo e espa\u00e7o, assumidas nos povos como o princ\u00edpio orientador da vida e das rela\u00e7\u00f5es. Por isso, a associa\u00e7\u00e3o da cruz crist\u00e3 \u2013 que foi imposta \u2013 \u00e9 assumida, a partir de sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o, como a integra\u00e7\u00e3o das for\u00e7as da vida a partir dos quatro pontos cardeais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.3 A cria\u00e7\u00e3o m\u00fatua da vida\u00a0 <\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sacralidade da vida, ou respeito, \u00e9 entendida a partir da for\u00e7a vital que atravessa todas as formas de vida. Por isso, a cria\u00e7\u00e3o m\u00fatua de todos\/as os\/as seres tem a ver com o cuidado, o respeito, o amor, a ternura, a prote\u00e7\u00e3o, inclusive daquelas for\u00e7as que podem gerar morte ou doen\u00e7a. Isso porque as rela\u00e7\u00f5es com todos os seres s\u00e3o imprescind\u00edveis para a conviv\u00eancia harm\u00f4nica nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cria\u00e7\u00e3o m\u00fatua implica certos c\u00f3digos \u00e9ticos de conviv\u00eancia num determinado territ\u00f3rio, associado a ritos e comportamentos \u201ccomo parte de um contrato social que deve ser entendido nas suas dimens\u00f5es filos\u00f3ficas e no seu poder de realizar o retorno de um sistema ecol\u00f3gico inst\u00e1vel a um n\u00edvel melhor\u201d (ARNOLD, 2016, p. 113). Trata-se de uma cria\u00e7\u00e3o m\u00fatua, na qual \u201ccada ser vive seu pr\u00f3prio desenvolvimento adquirindo a vitalidade de outros seres. Pois nenhuma forma de vida \u00e9 permanente, mas sumamente mut\u00e1vel\u201d (ARNOLD, 2016, p. 114).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a cria\u00e7\u00e3o tem a ver com as no\u00e7\u00f5es de equil\u00edbrio que o ser humano deve considerar, em reciprocidade com os\/as protetores\/as dos animais, dos produtos agr\u00edcolas e dos outros seres aos\/\u00e0s quais se deve dar de comer e beber, como mostra de gratid\u00e3o por proporcionar a vida desses seres e por proteg\u00ea-los. Nessa rela\u00e7\u00e3o, consegue-se estabelecer o consumo respons\u00e1vel e necess\u00e1rio. Por isso, a ca\u00e7a indiscriminada ou o maltrato de qualquer ser ser\u00e3o censurados na comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, a cria\u00e7\u00e3o m\u00fatua da vida se estende \u00e0 rela\u00e7\u00e3o: \u201cnas comunidades humanas, animais e plantas, trata-se de interven\u00e7\u00f5es no fluxo constante de energia, em di\u00e1logos, conversa\u00e7\u00f5es, interc\u00e2mbios e pactos entre os seres do cosmos e nas negocia\u00e7\u00f5es permanentes para restabelecer e renovar os acordos\u201d (ARNOLD, 2016, p. 134).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 O desafio de seguir sendo e estando sustentados pelas espiritualidades <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os povos em <em>Abya Yala<\/em>, o estigma colonial do \u201cn\u00e3o ser\u201d e a designa\u00e7\u00e3o de suas espiritualidades como diab\u00f3licas \u00e9 um peso forte, que sustenta seu n\u00e3o reconhecimento como povos com direitos. Lamentavelmente, essa vis\u00e3o se fundamenta na no\u00e7\u00e3o do religioso como uma porta que possibilita a invas\u00e3o e a expropria\u00e7\u00e3o. Em nossos tempos, a criminaliza\u00e7\u00e3o da defesa dos territ\u00f3rios \u00e9 feita a partir da invalida\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com os territ\u00f3rios vitais habitados por diversas comunidades de vida, que s\u00e3o designadas como supersticiosas, pante\u00edstas, pag\u00e3s, idol\u00e1tricas, folcl\u00f3ricas, essencialistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As diversas articula\u00e7\u00f5es ecum\u00eanicas iniciaram caminhos de di\u00e1logos que derivaram no caminhar das Teologia \u00cdndias\/Ind\u00edgenas e suas respectivas organiza\u00e7\u00f5es locais. Contudo, n\u00e3o se pode negar o crescente fundamentalismo de diversas denomina\u00e7\u00f5es crist\u00e3s que afetam as organiza\u00e7\u00f5es comunais, gerando divis\u00f5es nas tomadas de decis\u00f5es. Elas tendem n\u00e3o s\u00f3 ao fundamentalismo religioso, mas tamb\u00e9m ao fundamentalismo pol\u00edtico partid\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os povos vivem rupturas internas que esvaziam o sentido dos princ\u00edpios ancestrais e suas espiritualidades, por causa de influ\u00eancias externas e das migra\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas de suas popula\u00e7\u00f5es. Apesar de tudo, existem processos significativos de adapta\u00e7\u00e3o, inclusive diante da \u201cemerg\u00eancia clim\u00e1tica\u201d, pois muitos s\u00e1bios e s\u00e1bias reconhecem que os tempos mudaram e procuram encontrar orienta\u00e7\u00f5es para escutar \u00e0 M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, a volta \u00e0 terra implica uma conex\u00e3o profunda com as sabedorias e espiritualidades que sustentam a vida dos povos, para al\u00e9m de sua folcloriza\u00e7\u00e3o e sua exoticidade. E isso permite reconhecer o belo pluriverso, expresso em cores, rostos, linguagens, sons, sabores, festividades c\u00edclicas, ritos relacionais, e o cuidado dos territ\u00f3rios habitados pela grande diversidade de comunidades de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de no\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas e idealistas, como \u00e9 criticado nos espa\u00e7os dos saberes ocidentais, mas de esfor\u00e7os permanentes em suas pr\u00e1ticas de n\u00e3o seguir a rota do colonialismo capitalista e patriarcal vigente. Esse colonialismo promove a ruptura das rela\u00e7\u00f5es com as diversas comunidades de vida. Isso leva \u00e0 ca\u00e7a e pesca ilimitadas, \u00e0 depreda\u00e7\u00e3o dos montes sagrados, \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, rios, mares, fontes, \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o de outras esp\u00e9cies e sementes transg\u00eanicas, \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do monocultivo, e \u00e0 ruptura nas rela\u00e7\u00f5es c\u00f3smico-sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de buscar o caminho das inter-rela\u00e7\u00f5es profundas que devolvam \u00e0 pessoa seu lugar no cosmos, no qual as reciprocidades e complementariedades com os outros seres s\u00e3o fundamentais para possibilitar a vida. S\u00f3 a volta \u00e0 terra pode oferecer esse caminho, pois dela depende a alimenta\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a harmonia e as reciprocidades, que possibilitam o Bem Viver, a Terra sem males, a Loma Santa, a Vida Digna, a Plenitude da Vida, a Vida bela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos processos de recria\u00e7\u00f5es dos sentidos profundos do seu ser e estar no cosmos, a mem\u00f3ria se antecipa no caminho da vida, procurando o v\u00ednculo com a ancestralidade. Uma ancestralidade que n\u00e3o se situa num espa\u00e7o et\u00e9reo, mas que se faz parte do cosmos relacionado com as diversas fontes vitais, das que procedem a compreens\u00e3o da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de for\u00e7as ancestrais c\u00f3smicas que despertam a mem\u00f3ria dos povos, como se expressam nos territ\u00f3rios onde ainda habita a mem\u00f3ria dos povos subjugados e destru\u00eddos. \u00c9 isso que explica Perfecto S\u00e1nchez a partir das territorialidades denominadas do Caribe:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A origem ta\u00edna persistiu at\u00e9 hoje; essa heran\u00e7a, junto \u00e0s provas hist\u00f3ricas da sobreviv\u00eancia ta\u00edna, presentes ainda hoje na nossa cultura dominicana, evidencia que o povo ta\u00edno nunca foi extinto. Ainda que os colonizadores tenham exterminado essa cultura, [o povo ta\u00edno] sobreviveu nas margens da sociedade colonial at\u00e9 o presente (SANCHEZ, 2017, p. 36).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a for\u00e7a dos territ\u00f3rios habitados pela ancestralidade que narram e cantam suas hist\u00f3rias, como se afirma profundamente na palavra viva de Popol Vuh: \u201cArrancaram nossos frutos, cortaram nossos ramos, queimaram nossos troncos, mas n\u00e3o conseguiram matar nossas ra\u00edzes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Sof\u00eda Chipana Quispe. Membro da comunidade de Te\u00f3logas andinas de Abya Yala. Coordena o Centro de Saberes Alternativos\u00a0<em>Thakicha\u00f1ani<\/em>, em El Alto de La Paz, Bol\u00edvia.\u00a0 Texto submetido em 30\/05\/2022; aprovado em 30\/08\/2022, postado em 31\/12\/2023. Texto original em espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALB\u00d3, X. Teolog\u00eda narrativa de la muerte andina, fuente de nueva vida. In: ESTERMANN, J. (Ed.). <em>Teolog\u00eda andina:<\/em> El tejido diverso de la fe ind\u00edgena. Tomo II.\u00a0 La Paz: ISEAT y Plural, 2006, p. 369-406.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">APAZA, J. Cosmovisi\u00f3n andina en la crianza de la papa. In: van KESSEL, J.; LARRAIN, H. (Eds.). <em>Manos sabias para criar la vida, tecnolog\u00eda<\/em>.\u00a0 Quito: Hombre y Ambiente, 1997, p. 101-125.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARNOLD, D. Territorios animados: los ritos al Se\u00f1or de los Animales como una base \u00e9tica para el desarrollo productivo en los Andes. In: ROM\u00c1N, A.; GALARZA, H. (Eds.).<em> S\u00edmbolos, desarrollo y espiritualidades: <\/em>el papel de las subjetividades andinas en transformaci\u00f3n social. La Paz: ISEAT, 2016, p. 111-159.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARROS, M. La tierra y los cielos se casan en la alabanza. <em>RIBLA<\/em>, Quito, n. 21, p. 57-73, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BATALLA, G. <em>Utop\u00eda y revoluci\u00f3n<\/em>. El pensamiento pol\u00edtico contempor\u00e1neo de los indios de Am\u00e9rica Latina. M\u00e9xico: Nueva imagen, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CUMES, A.; GIL, Y. La Dualidad complementaria y el Popol Vuj: patriarcado, capitalismo y despojo. <em>Revista de la Universidad de M\u00e9xico<\/em>, 2021. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.revistadelauniversidad.mx\/articles\/8c6a441d-7b8a-4db5-a62f-98c71d32ae92\/entrevista-con-aura-cumes-la-dualidad-complementaria-y-el-popol-vuj\">https:\/\/www.revistadelauniversidad.mx\/articles\/8c6a441d-7b8a-4db5-a62f-98c71d32ae92\/entrevista-con-aura-cumes-la-dualidad-complementaria-y-el-popol-vuj<\/a>&gt;. Acesso em: 15 jan. 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CORDERO, V. V\u00edrgenes y diosas en Am\u00e9rica Latina: la resignificaci\u00f3n de lo sagrado. <em>Con-spirando<\/em>, Santiago de Chile, n. 45, p. 3-7, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GALEANO, E. <em>\u00daselo y T\u00edrelo: <\/em>el mundo del fin del milenio visto desde una ecolog\u00eda Latinoamericana. Buenos Aires: Planeta Bolsillo, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LENKERSDONF, C. <em>Aprender a escuchar<\/em>: ense\u00f1anzas maya-tojolabales. M\u00e9xico: Plaza y Vald\u00e9s, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARCOS, S. <em>Mujeres, ind\u00edgenas, rebeldes, zapatistas<\/em>. M\u00e9xico: E\u00f3n, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MONTES, F. <em>La m\u00e1scara de piedra:<\/em> simbolismo y personalidad aymaras en la historia. La Paz: Armon\u00eda, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00c1NCHEZ, P. En tiempos est\u00e9riles, hablemos de fertilidad desde nuestras ra\u00edces ta\u00edna-caribe\u00f1as. In: GALARZA, H. (Ed.). <em>Cuidando la vida II<\/em>. La Paz: ISEAT, 2017, p. 29- 37.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>Abya Yala<\/em> prov\u00e9m da l\u00edngua do povo Kuna ou Guna do Panam\u00e1 e significa \u201cterra em plena maturidade\u201d, \u201cterra f\u00e9rtil\u201d, \u201cterra florescente\u201d. Usamos esse termo, pois a designa\u00e7\u00e3o \u201cAm\u00e9rica Latina\u201d \u00e9 euroc\u00eantrica e colonial. Por isso, em 1977, depois de sua visita aos povos Kuna, Constantino Mamani (Takir Mamani) prop\u00f4s esse nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Ayllu<\/em>: povo com sentido de pertencimento, que pode estar em um mesmo territ\u00f3rio ou em espa\u00e7os geogr\u00e1ficos distintos. [N.T.]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Os mundos dos quais somos parte 2 Cosmoviv\u00eancias hol\u00edsticas nutridas nas fontes ancestrais 3 Sendo e estando em rela\u00e7\u00e3o 4 Espiritualidades relacionais c\u00f3smicas 4.1 Relacionalidade rec\u00edproca 4.2 A dualidade complementar 4.3 A cria\u00e7\u00e3o m\u00fatua da vida 5 O desafio de seguir sendo e estando sustentados pelas espiritualidades Refer\u00eancias Introdu\u00e7\u00e3o O presente texto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2914","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade-e-formacao-de-cristaos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2914","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2914"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2914\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3027,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2914\/revisions\/3027"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2914"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2914"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2914"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}