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{"id":2735,"date":"2022-12-30T11:15:37","date_gmt":"2022-12-30T14:15:37","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2735"},"modified":"2024-01-03T15:31:51","modified_gmt":"2024-01-03T18:31:51","slug":"teologias-indigenas-da-america","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2735","title":{"rendered":"Teologias ind\u00edgenas da Am\u00e9rica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Pluralidade de teologias ind\u00edgenas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Teologias dos povos origin\u00e1rios antes da conquista<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Teologias dos povos origin\u00e1rios depois da conquista<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Teologias ind\u00edgenas recentes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Alguns desafios do di\u00e1logo de teologias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usar as categorias <em>Teologia<\/em> e <em>Ind\u00edgena<\/em> para falar do pensamento religioso dos povos que habitaram milenarmente o continente agora chamado Am\u00e9rica \u00e9 fazer uso de algo emprestado do mundo exterior. Isso causa problemas tanto para os pr\u00f3prios nativos como para os especialistas nesses assuntos, especialmente dentro das igrejas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos di\u00e1logos com a Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, ficou imediatamente demonstrado que a aplica\u00e7\u00e3o do termo <em>teologia<\/em> \u00e0 sabedoria religiosa dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o est\u00e1 isenta de preocupa\u00e7\u00f5es. Isso sucede, em parte, porque, na Igreja, continua prevalecendo a ideia de que a palavra dos pobres sobre Deus \u00e9 t\u00e3o imperfeita e est\u00e1 t\u00e3o contaminada que n\u00e3o merece ser considerada como verdadeira <em>ci\u00eancia teol\u00f3gica<\/em>. Al\u00e9m disso, os intelectuais ind\u00edgenas de hoje t\u00eam s\u00e9rias reservas em aceitar que se aplique acriticamente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o intelectual de seus povos as categorias do pensamento ocidental, do qual surgiu a palavra<em> teologia<\/em>. Portanto, est\u00e1, por um lado, o preconceito a respeito do valor das ferramentas gnosiol\u00f3gicas populares e, por outro, o medo de usar categorias de pensamento que, como ponto de partida, desvalorizam o ser e o conhecer ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para superar esse impasse, um setor importante dos povos ind\u00edgenas que j\u00e1 s\u00e3o crist\u00e3os se atreveu a reiniciar o di\u00e1logo inter-religioso que, durante 500 anos, n\u00e3o p\u00f4de ser estabelecido diretamente no interior da Igreja. Nesse tempo, a teologia do vencido foi desqualificada e condenada categoricamente pelo vencedor como palavra diab\u00f3lica, mesmo depois das primeiras tentativas de comunica\u00e7\u00e3o nas quais os s\u00e1bios de ent\u00e3o apresentaram sinais do seu saber profundo sobre Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, reavivou-se o otimismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para que os povos origin\u00e1rios possam tirar do escondimento e mostrar, com clareza e explicitamente, a riqueza de sua sabedoria milenar. Os principais atores desse novo momento consideram que, mesmo com risco de equ\u00edvocos, vale a pena tentar reabrir sem medo o di\u00e1logo de teologias, uma vez que a clandestinidade e o ocultamento deixaram de ser a melhor estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia desses povos. Por isso, insistem em manter uma atitude dialogante e em fazer alian\u00e7as cr\u00edticas e prof\u00edcuas com outros setores da sociedade circundante e das Igrejas. Eles est\u00e3o convencidos de que as culturas ind\u00edgenas hoje podem reformular-se e recriar-se no encontro com as demais culturas e com a proposta crist\u00e3. Desse modo, essas culturas poder\u00e3o n\u00e3o apenas continuar vivas, mas tamb\u00e9m ser, no futuro, mais din\u00e2micas em assuntos religiosos e em todos os demais \u00e2mbitos da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender melhor esse ressurgir ind\u00edgena \u2013 que carrega nos ombros n\u00e3o s\u00f3 suas tristezas e ang\u00fastias, mas tamb\u00e9m suas flores e seus cantos, contidos em sua sabedoria milenar \u2013, \u00e9 necess\u00e1rio distinguir os matizes multicolores de sua palavra sobre Deus, sobre a humanidade e sobre o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Pluralidade de teologias ind\u00edgenas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, n\u00e3o existe uma \u00fanica teologia ind\u00edgena, mas muitas teologias ind\u00edgenas que se diversificam por raz\u00f5es geogr\u00e1ficas, culturais e metodol\u00f3gicas. \u00c9 necess\u00e1rio considerar essa ampla diversidade para compreender integralmente o fen\u00f4meno da chamada \u201cteologia ind\u00edgena\u201d. Certamente, a express\u00e3o Teologia Ind\u00edgena, no singular, \u00e9 uma generaliza\u00e7\u00e3o, aceita deliberadamente para simplificar as coisas e mostrar a condi\u00e7\u00e3o de prostra\u00e7\u00e3o na qual se encontram os povos origin\u00e1rios do continente. Assim, encontra-se um enfoque comum que pode aglutinar a todos diante da adversidade, que procede de fontes que n\u00e3o s\u00e3o plurais. Entretanto, existem muitas teologias sob essa nomenclatura e \u00e9 necess\u00e1rio analisar as raz\u00f5es que explicam a diversidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes da conquista europeia, existia, nos povos deste continente, uma variedade de fun\u00e7\u00f5es e categorias cujo objetivo era expressar a multiforme atividade teol\u00f3gica de seus membros. Muitas dessas categorias e fun\u00e7\u00f5es, ainda que enfraquecidas ou reformuladas no contexto crist\u00e3o, foram mantidas at\u00e9 nossos dias. Conv\u00e9m recordar que existem tr\u00eas grandes momentos da sabedoria teol\u00f3gica dos povos origin\u00e1rios:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(1) O momento anterior ao contato com a cristandade, quando os habitantes deste continente podiam elaborar por si mesmos, sem interfer\u00eancias transcontinentais, os conte\u00fados e formas de express\u00e3o de sua f\u00e9. \u00c9 o que se poderia chamar <em>Teologias <\/em><em>Origin\u00e1rias<\/em>, ou originais. Essas teologias tiveram um longo per\u00edodo de desenvolvimento \u2013 alguns falam de 15 mil anos, outros de 25 mil, e outros, inclusive, de 50 mil \u2013 e estiveram marcadas pelas distintas vicissitudes da hist\u00f3ria de cada povo e bloco cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(2) Durante os 500 anos de coloniza\u00e7\u00e3o, no qual as teologias origin\u00e1rias foram negadas ou agredidas e se converteram em resist\u00eancia ou \u201cdi\u00e1logo\u201d imposto. S\u00e3o propriamente as <em>Teologias Ind\u00edgenas<\/em> que se refugiaram nas montanhas, que se disfar\u00e7aram de cristianismo, que se recriaram nos espa\u00e7os dispon\u00edveis ou que se fizeram clandestinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(3) Nos tempos atuais, nos quais as Teologias de nossos povos saem do escondimento e se convertem em proposta de vida n\u00e3o s\u00f3 para eles, mas tamb\u00e9m para os demais. \u00c9 o momento no qual h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es novas para o di\u00e1logo enriquecedor, porque o mundo volta o olhar para os ind\u00edgenas como reserva de humanidade, na qual podem revitalizar-se as sociedades e as igrejas. Talvez o nome de Teologias Ind\u00edgenas j\u00e1 n\u00e3o seja, ent\u00e3o, a express\u00e3o mais adequada e seja preciso adotar ou elaborar novas nomenclaturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As teologias origin\u00e1rias foram, por milhares de anos, matrizes e companheiras do projeto de vida dos povos. As teologias ind\u00edgenas, no choque conquistador, foram apoio da f\u00e9 agredida da popula\u00e7\u00e3o nativa. Durante a sociedade colonial, tais teologias se fizeram ref\u00fagio, amparo e consolo vitalizador da f\u00e9 do povo vencido; tornaram-se teologias apocal\u00edpticas para manter vivas as esperan\u00e7as ut\u00f3picas dos pobres. As teologias ind\u00edgenas dos tempos atuais se esfor\u00e7am por ser consci\u00eancia cr\u00edtica diante do projeto dominador e por ser teologias prof\u00e9ticas dos oprimidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todos os casos, as teologias ind\u00edgenas s\u00e3o din\u00e2micas, porque n\u00e3o apenas recitam textos ind\u00edgenas do passado, mas, sob a inspira\u00e7\u00e3o de tais textos, elaboram a palavra, o conselho e a luz que s\u00e3o necess\u00e1rios para a vida atual do povo. \u00c9 o que as e os servidores pr\u00f3prios das comunidades fazem ordinariamente e que depois partilham nos encontros regionais e latino-americanos, nos quais est\u00e3o se dando grandes consensos para continuar caminhando na hist\u00f3ria e assim construir juntos \u2013 ou em sinodalidade, como se diz agora \u2013 o futuro desejado. A seguir, apresentamos alguns apontamentos que s\u00e3o mostras dessa diversidade que vai sendo partilhada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Teologias dos povos deste continente antes da conquista<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os primeiros habitantes deste continente que agora chamamos Am\u00e9rica forjaram aqui, por mil\u00eanios, uma ampla variedade de teologias que deram sentido e orienta\u00e7\u00e3o transcendente \u00e0 sua vida desde que eles chegaram a estas terras e a embelezaram com sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos relatos mais antigos, a Divindade (<em>Huehuet\u00e9otl<\/em> = \u201cDeus velho\u201d, na l\u00edngua n\u00e1huatl) est\u00e1 vinculada ao fogo sagrado, sem forma nem figura, que deu origem a tudo o que agora vemos. E o fez sacrificando-se e organizando, com as partes de seu corpo, o c\u00e9u, a terra e todas as demais criaturas do universo. Assim sendo, n\u00e3o somente tudo est\u00e1 feito por Ele-Ela, mas tudo est\u00e1 formado d\u2019Ele-Ela. Por isso, cada uma, cada um \u00e9 uma pequena por\u00e7\u00e3o de seu amor, como dizem os guaranis do sul do Continente. E, se cada ser \u00e9 parte do corpo da Divindade, ningu\u00e9m est\u00e1 separado do resto, tudo est\u00e1 interconectado e interligado, como afirmam enfaticamente os amaz\u00f4nicos. A cria\u00e7\u00e3o e os humanos somos a presen\u00e7a tang\u00edvel de Deus \u2013 que em si mesmo \u00e9 invis\u00edvel e impalp\u00e1vel. Os humanos somos <em>macehualme<\/em>, ou seja, os merecedores da penit\u00eancia da Divindade <em>Omet\u00e9otl<\/em>, Pai-M\u00e3e, que pode receber quatrocentos nomes devido \u00e0s suas incont\u00e1veis presen\u00e7as. Ser seus colaboradores na obra da cria\u00e7\u00e3o e da manuten\u00e7\u00e3o da harmonia da vida d\u00e1 aos humanos uma dignidade e responsabilidade de enormes dimens\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo do tempo, a sabedoria cient\u00edfica, cultural e religiosa que as av\u00f3s e os av\u00f4s do passado foram colecionando, nos processos de acumula\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de saberes, levou-os a construir admir\u00e1veis civiliza\u00e7\u00f5es, com grandes concentra\u00e7\u00f5es urbanas que articulavam, numa vis\u00e3o mais globalizada, o conjunto das pequenas unidades vitais existentes em territ\u00f3rios de milhares de quil\u00f4metros. \u00c9 o caso dos Maias, dos Mexicas ou Astecas, dos Incas e dos Guaranis. Com esse poder civilizat\u00f3rio, que os fez semelhantes a Deus, alcan\u00e7aram uma grandeza humana a servi\u00e7o do <em>Bem Viver<\/em> para todos. Essa grandeza durou em torno de mil anos, pois funcionou efetivamente para o bem do conjunto. Entretanto, quando o poder corrompeu os dirigentes, que oprimiram ou esqueceram os irm\u00e3os menores, esses \u00faltimos abandonaram as metr\u00f3poles. E, assim, sobreveio o colapso das grandes cidades h\u00e1 mais de mil anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, os habitantes dos povoados menores come\u00e7aram a buscar outro modelo de vida que fosse mais conforme ao ideal sonhado por Deus e pelos pobres; um modelo que surgisse desde baixo, a partir daqueles que haviam carregado o peso das grandes cidades; um modelo que recolhesse o melhor das etapas anteriores. No caso da Mesoam\u00e9rica, foi o tempo da espera do retorno de <em>Quetzalc\u00f3atl,<\/em> ou seja, do Deus pobre e simples; e, em outras regi\u00f5es, foi o momento da utopia da <em>Terra sem males<\/em>, da <em>Casa Grande<\/em> ou <em>Casa Comunit\u00e1ria<\/em>, onde coubesse dignamente todas as filhas e filhos da Divindade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 As teologias dos povos origin\u00e1rios depois da conquista<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na chegada dos europeus a este continente, h\u00e1 pouco mais de 500 anos, as possibilidades de encontro de povos e culturas eram favor\u00e1veis. Isso aconteceu n\u00e3o somente pela crise civilizat\u00f3ria que houve aqui, ou unicamente pela expectativa do retorno de Quetzalc\u00f3atl e pela busca do Bem Viver e da Terra sem males, mas tamb\u00e9m porque os povos do continente haviam elaborado esquemas culturais e religiosos que permitiam o encontro entre nacionalidades e culturas diferentes, a partir de sua perspectiva religiosa. Havia a consci\u00eancia de que existiam muitas modalidades de entender a vida e de nela situar a Deus, que poderiam ser acrescentadas em conjuntos polissint\u00e9ticos ou polif\u00f4nicos. Consequentemente, o Deus crist\u00e3o podia sentar-se, sem nenhum problema, no <em>petate<\/em> ou esteira dos povos amer\u00edndios. A maneira de entender e viver com Deus das s\u00e1bias e dos s\u00e1bios era perfeitamente compat\u00edvel com a nova f\u00e9 que chegava. Assim o propuseram os te\u00f3logos nativos aos mission\u00e1rios no famoso \u201cDi\u00e1logo dos Doze\u201d (1525).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, os europeus n\u00e3o tiveram a mesma atitude dialogante. O fato de terem ganho a guerra lhes dava a certeza de que seu Deus (ou melhor dito, sua teologia) era o \u00fanico verdadeiro. Portanto, o Deus ind\u00edgena devia ser aniquilado. Isso foi o que propuseram no final do suposto <em>Di\u00e1logo<\/em>:<em> \u201c<\/em>\u00c9-lhes muito necess\u00e1rio desprezar e odiar, descartar e abominar e cuspir em todos estes que agora t\u00eam por Deuses e a quem adoram, porque, na verdade, n\u00e3o s\u00e3o Deuses, mas enganadores e zombadores<em>\u201d <\/em>(PORTILLA, 1986, p. 89)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maioria dos habitantes deste continente n\u00e3o compreendeu o racioc\u00ednio de intoler\u00e2ncia religiosa dos rec\u00e9m-chegados e n\u00e3o o levaram a s\u00e9rio. Simplesmente, ajustaram sua viv\u00eancia espiritual e elabora\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica \u00e0s margens do raio de a\u00e7\u00e3o da sociedade colonial e segundo sua situa\u00e7\u00e3o de vencidos lhes permitia. E seguiram em frente, fazendo elabora\u00e7\u00f5es e reelabora\u00e7\u00f5es de seus esquemas de compreens\u00e3o de Deus e da vida. O resultado desse processo \u00e9 o que agora chamamos <em>Religiosidade, Espiritualidade <\/em>ou<em> Piedade Popular<\/em>, cujo ingrediente principal tem a ver com as m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es da chamada <em>Teologia Ind\u00edgena<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, ap\u00f3s a conquista material e espiritual europeia, as teologias aqui preexistentes n\u00e3o desapareceram, mas, por meio de processos de justaposi\u00e7\u00e3o, sobreposi\u00e7\u00e3o, substitui\u00e7\u00e3o e s\u00ednteses, fusionaram-se com a proposta do exterior. Isso se deu n\u00e3o somente por conveni\u00eancia ou sobreviv\u00eancia, mas tamb\u00e9m porque encontraram, em ambos os caminhos, o mesmo Deus, que acompanha a todos os povos do mundo, e o mesmo projeto de vida, que se deve manter harmonizado entre os humanos e com a cria\u00e7\u00e3o inteira. Essa atitude n\u00e3o teve correspond\u00eancia nos conquistadores e tampouco em todos os mission\u00e1rios, pois a maioria atacou as cren\u00e7as desses povos, classificando-as como diab\u00f3licas ou heterodoxas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso explica porque, da \u00e9poca colonial at\u00e9 agora, a maior parte da busca de Deus impulsionada por ind\u00edgenas \u2013 e tamb\u00e9m por afro-americanos \u2013 ficou fora das igrejas e de suas teologias oficiais, continuando na chamada <em>religiosidade popular<\/em>, que gerou um <em>cristianismo indigenizado<\/em> ou uma r<em>eligi\u00e3o ind\u00edgena (ou afro) cristianizada<\/em>, partilhada at\u00e9 nossos dias com os demais pobres da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4<\/strong><strong> Teologias ind\u00edgenas dos tempos recentes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A incultura\u00e7\u00e3o feita pelo povo simples, durante a \u00e9poca colonial, est\u00e1 recebendo, nos \u00faltimos 60 anos, o apoio de importantes membros da hierarquia eclesi\u00e1stica que se transformaram em aliados da causa ind\u00edgena e afro, alcan\u00e7ando mudan\u00e7as na atitude institucional em rela\u00e7\u00e3o a esses grupos humanos. Nesse processo, o elemento mais valioso \u00e9 que os pr\u00f3prios ind\u00edgenas e afrodescendentes dos tempos atuais, formados dentro das igrejas com esquemas frequentemente contr\u00e1rios a seus povos, atreveram-se a uma reapropria\u00e7\u00e3o da teologia de sua gente. Assim, v\u00e3o visibilizando e demonstrando que as teologias ancestrais s\u00e3o o motor mais forte das lutas afro-amer\u00edndias e v\u00e3o repensando a necessidade de um di\u00e1logo aberto e transparente entre essas teologias e a f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja Cat\u00f3lica e algumas igrejas evang\u00e9licas est\u00e3o unindo for\u00e7as para acompanhar esse di\u00e1logo macroecum\u00eanico, a fim de encontrar tudo o que de <em>nobre <\/em>e <em>bom <\/em>nos une, al\u00e9m de elucidar os pontos nevr\u00e1lgicos que requerem uma aten\u00e7\u00e3o especial. Os avan\u00e7os que v\u00e3o acontecendo manifestam o <em>kair\u00f3s <\/em>aberto recentemente nas igrejas como dom do Esp\u00edrito e como conquista de quem lutou por faz\u00ea-lo poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O melhor fruto disso tudo \u00e9 que os pr\u00f3prios ind\u00edgenas e afros agora se identificam mais com a teologia de seus povos e com o dinamismo que ela gera, levando \u00e0 pr\u00e1tica os ideais teol\u00f3gicos de seus ancestrais que coincidem com os do Reino de vida, de justi\u00e7a, de paz, de \u00e1gape (partilha) que Jesus, o Filho de Deus, ao colocar sua morada entre n\u00f3s, trouxe para todos. Por isso, cada vez aumenta o consenso eclesial sobre a import\u00e2ncia, para o conjunto de vozes teol\u00f3gicas das igrejas, dessas teologias da periferia com seus sujeitos comunit\u00e1rios, seus conte\u00fados humanistas, sua linguagem simb\u00f3lica e suas pr\u00f3prias metodologias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda permanece o maio desafio: dialogar com as teologias ind\u00edgenas e afros que n\u00e3o procuram o aval das igrejas e, principalmente, dialogar com o mundo moderno que obriga as teologias ancestrais e as igrejas a reformularem suas propostas em esquemas mais urbanos do que rurais, mais seculares do que religiosos, mais voltados para o presente e o futuro do que para o passado, mais em dire\u00e7\u00e3o ao conjunto da humanidade do que somente ao interior de cada povo ou de cada igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5<\/strong><strong> Alguns desafios <\/strong><strong>do di\u00e1logo de teologias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No S\u00ednodo Panamaz\u00f4nico de outubro de 2019 e no IX Encontro Latino-americano de Teologia Ind\u00edgena (2020), evidenciou-se que os conte\u00fados e o modo como os povos amer\u00edndios elaboram suas teologias colocam os seguintes desafios:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(1) Superar a colonialidade teol\u00f3gica, ainda presente nas igrejas, que est\u00e1 estreitamente ligada \u00e0s culturas e aos esquemas dominantes do primeiro mundo, para se abrir e receber humildemente a pluralidade multicolor <em>das flores e dos canto<\/em>s teol\u00f3gicos da humanidade que est\u00e1 na periferia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(2) Passar da perspectiva da verdade sobre Deus, que \u00e9 objeto de racioc\u00ednios e se coloca em teses e livros, para chegar \u00e0 proposta do bem viver e conviver, segundo o plano de Deus, que se constr\u00f3i na unidade de esfor\u00e7os. Dito de outro modo, passar de uma teologia como doutrina, que busca satisfazer a raz\u00e3o, para alcan\u00e7ar uma teologia como \u201cVidalogia\u201d, que se vivencia a partir do cora\u00e7\u00e3o ou se <em>sentipensa <\/em>com o conjunto de nosso ser, de modo a responder \u00e0s exig\u00eancias da vida em todos os seus aspectos, a partir do projeto de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(3) Assumir a integralidade da teologia dos pobres, que sabem que nada nem ningu\u00e9m est\u00e1 fora do amor de Deus, retomando o que, desde a antiguidade, Santo Irineu sustentava: <em>\u201cO que n\u00e3o \u00e9 assumido n<\/em><em>\u00e3o \u00e9 redimido\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(4) Levar a s\u00e9rio, nas igrejas, que o verdadeiro sujeito da f\u00e9 e da teologia \u00e9 a comunidade crente, e n\u00e3o apenas os grandes personagens desconectados do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(5) Assumir conscientemente a linguagem anal\u00f3gica ou simb\u00f3lica do povo como a melhor maneira de falar de Deus, saboreando o viver e o estar com Ele-Ela, sem se ocupar tanto em querer entender, com ideais claras e distintas, o mist\u00e9rio divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(6) Reconhecer e acompanhar a a\u00e7\u00e3o de Deus presente nos povos origin\u00e1rios e afro-americanos, aceitando humildemente que n\u00e3o se trata de outro deus, mas do mesmo Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, que leva adiante seu projeto salv\u00edfico em todos os povos do mundo e em toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Eleazar L\u00f3pez Hern\u00e1ndez. Do povo zapoteca de Oaxaca, M\u00e9xico. Colaborador em\u00e9rito do \u201cCentro Nacional de Ayuda a las Misiones Ind\u00edgenas\u201d. \u00a0Texto enviado: 30\/09\/2022; aprovado: 30\/10\/2022; publicado: 30\/12\/2022. Original espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HERN\u00c1NDEZ, Eleazar L\u00f3pez. La teolog\u00eda india y su lugar en la Iglesia. CIMI, 2008. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/cimi.org.br\/2008\/01\/26934%3e.\">https:\/\/cimi.org.br\/2008\/01\/26934&gt;.<\/a> Acesso: 28 set. 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HERN\u00c1NDEZ, Eleazar L\u00f3pez. <em>Di\u00e1logo de la Iglesia con el mundo ind\u00edgena: <\/em>flores y espinas. Centro Nacional de Ayuda a Misiones Ind\u00edgenas, M\u00e9xico, 2004. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.missiologia.org.br\/cms\/UserFiles\/cms_artigos_pdf_27.pdf\">http:\/\/www.missiologia.org.br\/cms\/UserFiles\/cms_artigos_pdf_27.pdf<\/a>&gt;. Acesso: 28 set. 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HERN\u00c1NDEZ, Eleazar L\u00f3pez. Teolog\u00edas Indias de hoy. In: <em>Teolog\u00eda India<\/em>. Tomo II. Segundo Encuentro Taller Latinoamericano. Panam\u00e1, 29 de noviembre al 3 de diciembre de 1993, M\u00e9xico\/Ecuador: Cenami\/Abya\u2011Yala. pp. 22\u201123.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HERN\u00c1NDEZ, Eleazar L\u00f3pez. <em>Teolog\u00eda india<\/em>. Tomo I. Memoria del Primer Encuentro Taller Latinoamericano. Quito: <em>Abya Yala<\/em>, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SAHAG\u00daN, Bernardino <em>et al<\/em>. <em>Coloquios y doctrina cristiana<\/em>: con que los doce frailes de San Francisco, enviados por el papa Adriano VI y por el emperador Carlos V, convirtieron a los indios de la Nueva Espa\u00f1a (1524). Edici\u00f3n facsimilar, introducci\u00f3n, paleograf\u00eda, versi\u00f3n del N\u00e1huatl y notas de Miguel Le\u00f3n-Portilla, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SUESS, Pablo <em>et al<\/em>. <em>Desarrollo hist\u00f3rico de la teolog\u00eda india<\/em>. Quito: Abya-Yala, 1998. (Colecci\u00f3n Iglesia de Pueblos y Culturas, n. 48-49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> O texto original \u00e9 dos freis franciscanos, enviados pelo rei Carlos V \u00e0 Nova Espanha. A cita\u00e7\u00e3o \u00e9 da edi\u00e7\u00e3o fac-simile, com introdu\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00e3o e notas de Miguel Le\u00f3n Portilla, publicada em 1986.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Pluralidade de teologias ind\u00edgenas 2 Teologias dos povos origin\u00e1rios antes da conquista 3 Teologias dos povos origin\u00e1rios depois da conquista 4 Teologias ind\u00edgenas recentes 5 Alguns desafios do di\u00e1logo de teologias Refer\u00eancias Introdu\u00e7\u00e3o Usar as categorias Teologia e Ind\u00edgena para falar do pensamento religioso dos povos que habitaram milenarmente o continente agora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-2735","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-fundamental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2735","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2735"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2735\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3033,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2735\/revisions\/3033"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2735"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2735"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2735"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}