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{"id":2731,"date":"2022-12-30T11:13:04","date_gmt":"2022-12-30T14:13:04","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2731"},"modified":"2023-12-31T15:30:06","modified_gmt":"2023-12-31T18:30:06","slug":"as-cinco-conferencias-gerais-do-episcopado-latino-americano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2731","title":{"rendered":"As cinco confer\u00eancias gerais do episcopado latino-americano"},"content":{"rendered":"<p><strong>As cinco Confer\u00eancias gerais do Episcopado Latino-americano<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>1 Confer\u00eancia do Rio<\/p>\n<p>2 Confer\u00eancia de Medell\u00edn<\/p>\n<p>3 Confer\u00eancia de Puebla<\/p>\n<p>4 Confer\u00eancia de Santo Domingo<\/p>\n<p>5 Confer\u00eancia de Aparecida<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja cat\u00f3lica da Am\u00e9rica Latina conheceu uma importante evolu\u00e7\u00e3o desde a funda\u00e7\u00e3o do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), deixando de ser, progressivamente, \u201cIgreja espelho\u201d para tornar-se \u201cIgreja fonte\u201d, como dizia Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz referindo-se ao Brasil, o que tamb\u00e9m pode ser aplicado a todo o continente (VAZ, 1968, p. 17-22). Nesse processo, as confer\u00eancias do episcopado da regi\u00e3o foram fundamentais. No come\u00e7o, na confer\u00eancia do Rio de Janeiro, em 1965, o foco de aten\u00e7\u00e3o estava mais voltado para o centro romano. Por\u00e9m, a partir de Medell\u00edn, em 1968, houve uma verdadeira virada, que afetou n\u00e3o apenas o catolicismo latino-americano e caribenho, mas tamb\u00e9m, principalmente com o pontificado de Francisco, o conjunto da Igreja cat\u00f3lica. O presente texto prop\u00f5e uma s\u00edntese dos eixos principais de cada uma das cinco confer\u00eancias<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>1 Confer\u00eancia do Rio<\/strong><\/p>\n<p>A primeira Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano foi convocada por Pio XII e aconteceu no Rio de Janeiro, em 1955. Ele pr\u00f3prio assim o expressa:<\/p>\n<blockquote><p>Pareceu-nos oportuno, recolhendo ademais o voto que Nos apresentou o Episcopado da Am\u00e9rica Latina, que a Hierarquia Latino-americana se reunisse para realizar o estudo aprofundado dos problemas e dos meios mais aptos para resolv\u00ea-los, com essa prontid\u00e3o e plenitude que as necessidades exigem (PIO XII, 1955).<\/p><\/blockquote>\n<p>O mais not\u00e1vel dessa Confer\u00eancia foi, sem d\u00favida, o acordo de cria\u00e7\u00e3o do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM): \u201cA Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano aprovou, por unanimidade, pedir, e atentamente pede \u00e0 Santa S\u00e9 Apost\u00f3lica, a cria\u00e7\u00e3o de um Conselho Episcopal Latino-americano\u201d (DR 97). A miss\u00e3o que lhe \u00e9 atribu\u00edda \u00e9 preparar as Confer\u00eancias Gerais do Episcopado, al\u00e9m do exerc\u00edcio da pastoral org\u00e2nica atrav\u00e9s de cinco subsecretariados (DR 97)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, tamb\u00e9m deve-se destacar que os bispos, instru\u00eddos pelos mais carism\u00e1ticos, realmente se encontraram como bispos da P\u00e1tria Grande e debateram os temas.<\/p>\n<p>A maior limita\u00e7\u00e3o, contudo, foi que tanto o presidente da Confer\u00eancia como seu ajudante foram italianos eleitos pelo papa, que tamb\u00e9m foi quem deu o tom, o enfoque e a tem\u00e1tica. A carta que lhes enviou antes das sess\u00f5es foi quase literalmente a guia para a Declara\u00e7\u00e3o inicial e para as Conclus\u00f5es. Assim o reconhecem os pr\u00f3prios bispos: \u201cas important\u00edssimas Letras Apost\u00f3licas \u2018<em>Ad Ecclesiam Christi<\/em>\u2019 [que] constitu\u00edram para n\u00f3s a \u2018Magna Carta\u2019 nos trabalhos e nas conclus\u00f5es da Confer\u00eancia\u201d (DR, Declara\u00e7\u00e3o). No entanto, isso n\u00e3o deve ser visto como uma inger\u00eancia, porque os bispos estavam de acordo em que eles eram, digamos, os bra\u00e7os do papa.<\/p>\n<p>As necessidades, segundo o papa e os bispos, eram, primeiramente, as da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica. Assim o testemunham na Declara\u00e7\u00e3o e o repetiram no documento conclusivo: \u201ca Confer\u00eancia teve como objetivo central de seus trabalhos o problema fundamental que aflige nossas na\u00e7\u00f5es, a saber: a escassez de sacerdotes\u201d. Qualificam-no como \u201ca necessidade mais urgente da Am\u00e9rica Latina\u201d. Por isso, a insist\u00eancia na promo\u00e7\u00e3o de voca\u00e7\u00f5es e na sua prepara\u00e7\u00e3o nos semin\u00e1rios, assim como, de modo mais geral, na instru\u00e7\u00e3o religiosa. O valor da doutrina crist\u00e3 n\u00e3o poderia ser mais enaltecido:<\/p>\n<blockquote><p>A Santa Igreja, por disposi\u00e7\u00e3o de Deus, \u00e9 a deposit\u00e1ria da doutrina crist\u00e3 que, fundando-se nos princ\u00edpios eternos e indestrut\u00edveis da verdade divina, d\u00e1 a solu\u00e7\u00e3o a todos aqueles problemas que tocam, direta ou indiretamente, a vida espiritual e moral do homem, para que este realize plenamente sua condi\u00e7\u00e3o de filho de Deus e se torne digno das promessas do C\u00e9u (DR, Declara\u00e7\u00e3o).<\/p><\/blockquote>\n<p>Esse valor da doutrina e da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, que \u00e9 sua deposit\u00e1ria, \u00e9 t\u00e3o grande que, ao recomendar o que chamam de \u201cas Sagradas Letras\u201d, insistem em que \u00e9 preciso faz\u00ea-lo \u201cdestacando os textos mais importantes e fundamentais, como os relativos \u00e0 Primazia de Pedro, \u00e0 infalibilidade do Magist\u00e9rio Eclesi\u00e1stico, ao valor da Tradi\u00e7\u00e3o etc.\u201d (DR 72). Como se percebe, a B\u00edblia e principalmente os Evangelhos n\u00e3o s\u00e3o a narra\u00e7\u00e3o de um acontecimento salv\u00edfico, proclamado para que nos integremos a ele, mas um repert\u00f3rio de textos que ratificam a sacralidade e a autoridade da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>A partir dessa absolutiza\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, o Papa e posteriormente os bispos se referem aos inimigos. Citemos o Papa:<\/p>\n<blockquote><p>Muitos s\u00e3o, desgra\u00e7adamente, os ataques de astutos inimigos e, para rejeit\u00e1-los, \u00e9 necess\u00e1ria en\u00e9rgica vigil\u00e2ncia: como os enganos ma\u00e7\u00f4nicos, a propaganda protestante, as diversas formas do laicismo, de supersti\u00e7\u00e3o e de espiritismo, que quanto mais grave \u00e9 a ignor\u00e2ncia das coisas divinas e mais adormecida a vida crist\u00e3 tanto mais facilmente se difundem, ocupando o lugar da verdadeira F\u00e9 e satisfazendo enganosamente as \u00e2nsias do povo sedento de Deus. A elas se acrescentam as perversas doutrinas dos que, sob o falso pretexto de justi\u00e7a social e de melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida das classes mais humildes, tendem a arrancar da alma o inestim\u00e1vel tesouro da religi\u00e3o (PIO XII, 1955).<\/p><\/blockquote>\n<p>Por isso, para venc\u00ea-los, insistem tanto na difus\u00e3o da doutrina e da moral cat\u00f3licas.<\/p>\n<p>Tendo em conta a escassez de sacerdotes, animam os leigos que \u201cmilitam em uma ou outra organiza\u00e7\u00e3o de apostolado, com plena submiss\u00e3o \u00e0s diretrizes e disposi\u00e7\u00f5es dos Romanos Pont\u00edfices e da Sagrada Hierarquia\u201d (PIO XII, 1955). Reconhecem que<\/p>\n<blockquote><p>o apostolado, mesmo sendo miss\u00e3o pr\u00f3pria do sacerdote, n\u00e3o \u00e9 exclusiva dele, mas tamb\u00e9m compete a eles, por seu pr\u00f3prio car\u00e1ter de crist\u00e3os, sempre sob a obedi\u00eancia dos Bispos e dos P\u00e1rocos e dentro das formas e of\u00edcios que n\u00e3o s\u00e3o privativos do minist\u00e9rio sacerdotal (DR 43).<\/p><\/blockquote>\n<p>Seu conte\u00fado \u00e9 absolutamente eclesioc\u00eantrico:<\/p>\n<blockquote><p>al\u00e9m de um esfor\u00e7o cont\u00ednuo por conservar e defender inteiramente a f\u00e9 cat\u00f3lica, deve ser um apostolado mission\u00e1rio de conquista para a dilata\u00e7\u00e3o do reino de Cristo em todos os setores e ambientes, particularmente onde n\u00e3o possa chegar a a\u00e7\u00e3o direta do sacerdote (DR 46).<\/p><\/blockquote>\n<p>No entanto, queremos destacar que, apesar de tanta interven\u00e7\u00e3o, reconhecem o que posteriormente ser\u00e1 enfatizado no Vaticano II: a miss\u00e3o lhes compete a eles como crist\u00e3os, ou seja, pelo batismo.<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica social \u00e9 sublinhada pelo papa por sua \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com a vida religiosa: \u201co campo social: tema que \u00e9 merecedor da maior considera\u00e7\u00e3o em todos os povos, mas nas Na\u00e7\u00f5es Latino-americanas h\u00e1 motivos particulares para reclamar a solicitude pastoral da Sagrada Hierarquia, j\u00e1 que se trata de quest\u00e3o intimamente ligada com a vida religiosa\u201d (PIO XII, 1955). Os bispos, na mesma sintonia, insistiram que o disc\u00edpulo de Cristo deve ver tal problem\u00e1tica como um dever moral. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 vista fundamentalmente a partir da perspectiva do subdesenvolvimento: \u201cmuitos de seus habitantes \u2013 especialmente entre os trabalhadores do campo e da cidade \u2013 ainda vivem numa situa\u00e7\u00e3o angustiante\u201d (DR, Declara\u00e7\u00e3o). Por isso, a eleva\u00e7\u00e3o das classes necessitadas acontecer\u00e1 com o progresso e colaborar para que ele aconte\u00e7a \u00e9 um dever moral para o crist\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>O pensamento crist\u00e3o, de acordo com os ensinamentos pontif\u00edcios, contempla como elemento important\u00edssimo a eleva\u00e7\u00e3o das classes necessitadas, cuja realiza\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica e generosa surge para todo disc\u00edpulo de Cristo n\u00e3o somente como um progresso temporal, mas como o cumprimento de um dever moral (DR, Declara\u00e7\u00e3o).<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa eleva\u00e7\u00e3o, tratando-se do ind\u00edgena, \u00e9 entendida como passar da barb\u00e1rie \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o: \u201cum trabalho perseverante para que o \u2018\u00edndio\u2019 se incorpore com honra no seio da verdadeira civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (DR, Declara\u00e7\u00e3o). Como se percebe, identificam a cultura ocidental com a cultura e, consequentemente, as culturas ind\u00edgenas como barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Concretizando um poco mais, referem-se \u00e0 justi\u00e7a social, que implica chegar \u00e0 harmonia entre o capital e o trabalho: \u201csolucionar esses problemas, procurando, principalmente, estabelecer a harmonia crist\u00e3 entre o capital e o trabalho\u201d (DR 80). A a\u00e7\u00e3o da Igreja deveria orientar-se fundamentalmente para impregnar o mundo econ\u00f4mico com sua doutrina e com o esp\u00edrito de harmonia que a anima: \u201ca presen\u00e7a ativa da Igreja \u00e9 requerida, a fim de influir no mundo econ\u00f4mico-social, orientando-o com a luz de sua doutrina e animando-o com seu esp\u00edrito\u201d (DR, Declara\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Seguindo o Papa, referem-se especificamente \u00e0 \u201cassist\u00eancia espiritual aos emigrantes\u201d (PIO XII, 1955).<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 alus\u00e3o \u00e0s causas dessa situa\u00e7\u00e3o de falta do essencial para as maiorias, nem \u2013 est\u00e1 claro \u2013 nenhuma den\u00fancia. Pareceria que a difus\u00e3o da doutrina crist\u00e3 e o cumprimento do dever moral seriam suficientes para conseguir um desenvolvimento que basicamente solucionaria o problema. Por isso, Fernando Torres Londo\u00f1o, depois de uma an\u00e1lise precisa, na qual reconhece tudo que h\u00e1 de positivo, conclui que essa primeira Confer\u00eancia,<\/p>\n<blockquote><p>por seu esp\u00edrito, pela tem\u00e1tica que tratou e pelas conclus\u00f5es \u00e0s quais chegou, situa-se na mesma trajet\u00f3ria do Concilio Plen\u00e1rio Latino-americano de 1899. A Primeira Confer\u00eancia mostra uma Igreja que ainda se pensa e se concebe em fun\u00e7\u00e3o dela mesma e de suas estruturas clericais (LONDO\u00d1O, 1995).<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>2 Confer\u00eancia de Medell\u00edn<\/strong><\/p>\n<p>Para entender Medell\u00edn, \u00e9 necess\u00e1rio compreender seu modo de produ\u00e7\u00e3o. \u00c0 primeira vista, pareceria que se recolher num semin\u00e1rio, no centro de um bosque, n\u00e3o ajudaria a assumir a realidade, mas o isolamento provocou que o grupo como tal surgisse: os bispos, os peritos e os observadores se compenetraram nas eucaristias e nas confer\u00eancias iniciais, nos grupos de trabalho e na partilha das comidas e do descanso, de maneira que todos se deixaram conquistar pelo tema e o enfocaram a partir de um mesmo esp\u00edrito. Assim, as diferen\u00e7as, na maior parte dos casos, chegaram a ser internas e todos se abriram para contribuir com o melhor de cada um para a elabora\u00e7\u00e3o conjunta. \u201cAo longo de duas semanas, uns 250 participantes da assembleia, cardeais, bispos, observadores, religiosos e leigos homens e mulheres, partilharam tudo: o trabalho, a mesa e a liturgia\u201d (SCATENA, 2019, p. 14). Por isso, com exce\u00e7\u00e3o de dois cap\u00edtulos (o da pastoral popular e o das elites), o restante possui uma unidade org\u00e2nica muito dif\u00edcil de se alcan\u00e7ar em documentos elaborados em grupo. Por essa raz\u00e3o, \u201cnessa experi\u00eancia, se imp\u00f4s a mem\u00f3ria de muitos dos protagonistas, a ideia de uma efus\u00e3o palp\u00e1vel do Esp\u00edrito de Pentecostes, como depois disse o argentino Pironio\u201d (SCATENA, 2019, p. 12). Ou como ponderou o cardeal Land\u00e1zuri em seu discurso de encerramento:<\/p>\n<blockquote><p>O novo Pentecostes do qual v\u00e1rias vezes falamos a respeito dessa reuni\u00e3o \u00e9 a grande ideia, o grande acontecimento. A consci\u00eancia prof\u00e9tica, que nesses dias se despertou e se vivificou, \u00e9 a nova luz para a igreja, o novo Pentecostes para a P\u00e1tria Grande. Um novo Pentecostes que aconteceu no mesmo momento em que a igreja latino-americana decidiu encarar a nova realidade latino-americana em vez de olhar para si mesma (SCATENA, 2019, p. 27-28).<\/p><\/blockquote>\n<p>De fato, o t\u00edtulo da Confer\u00eancia foi: \u201cA Igreja na atual transforma\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina \u00e0 luz do concilio\u201d, ou seja, o tema n\u00e3o foi ela mesma, mas a Am\u00e9rica Latina. A Igreja foi o sujeito que discernia \u2013 sendo parte certamente do tema \u2013 e os bispos foram capazes de interpretar profeticamente a transforma\u00e7\u00e3o que estava acontecendo, tanto no social, no econ\u00f4mico e no pol\u00edtico, como no antropol\u00f3gico, tanto nas elites desenvolvimentistas, como nos professionais solid\u00e1rios e no povo. Como contemplavam a transforma\u00e7\u00e3o em curso a partir de Jesus de Nazar\u00e9, olhavam-na n\u00e3o de cima, mas a partir do povo, de sua inser\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria nele e, por isso, a partir da escolha de um modo de vida atento ao indispens\u00e1vel. Essa perspectiva foi t\u00e3o decisiva que a op\u00e7\u00e3o pelos pobres se tornou um eixo transversal e a perspectiva para ver e julgar a realidade e a a\u00e7\u00e3o da Igreja, refletindo-se principalmente na considera\u00e7\u00e3o dos pobres como sujeitos na sociedade (DM 2,27) e na Igreja, e tamb\u00e9m no compromisso dos bispos de estarem pr\u00f3ximos dos pobres e, at\u00e9 certo ponto, serem pobres (DM 14: A pobreza da Igreja).<\/p>\n<p>A metodologia de Medell\u00edn \u00e9 ver, julgar e agir, mas tendo presente a intera\u00e7\u00e3o das tr\u00eas fases. As pessoas que redigiram os documentos j\u00e1 estavam numa a\u00e7\u00e3o pastoral. A ela chegaram por uma vis\u00e3o e tomada de posi\u00e7\u00e3o crist\u00e3s e \u00e9 a partir da\u00ed que contemplam a situa\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o ponto de partida dos inspiradores documentos de Medell\u00edn. Eles os relan\u00e7am sobre a Igreja e a opini\u00e3o p\u00fablica de uma maneira mais objetiva: come\u00e7ando com a vis\u00e3o da realidade, iluminando-a com a revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e propondo os compromissos que derivam da consci\u00eancia do que Deus nos exige para responder a essa situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que os que n\u00e3o partilham a op\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o partilhar\u00e3o sua vis\u00e3o de continente, ainda que n\u00e3o rejeitem os dados.<\/p>\n<p>Os documentos veem a situa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina atrav\u00e9s de indicadores que a descrevem e de vetores que indicam suas linhas de for\u00e7a. Os indicadores comp\u00f5em uma situa\u00e7\u00e3o de subdesenvolvimento. J\u00e1 os vetores das for\u00e7as sociais mais organizadas v\u00e3o em duas dire\u00e7\u00f5es: uma moderniza\u00e7\u00e3o desenvolvimentista e uma revolu\u00e7\u00e3o estrutural. Entretanto, sem coincidir com nenhuma delas, est\u00e1 a conscientiza\u00e7\u00e3o e a mobiliza\u00e7\u00e3o das massas populares por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, pela supera\u00e7\u00e3o de opress\u00f5es injustas e por uma maior personaliza\u00e7\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os documentos incluem quatro diagn\u00f3sticos gerais do estado da Am\u00e9rica Latina e de sua din\u00e2mica, que caracterizam certeiramente os aspectos mais decisivos do quadro latino-americano. Tamb\u00e9m cont\u00eam uma tipologia dos atores sociais organizados (DM 7,5-8). Al\u00e9m disso, descrevem a situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia (DM 3,1-3), da educa\u00e7\u00e3o (DM 4,2-6), da juventude (DM 5,1-3,9) e do impacto dos meios de comunica\u00e7\u00e3o (DM 16,1-2.6). Mas, principalmente no documento sobre a Paz, desenvolvem uma vis\u00e3o estrutural do subcontinente. Concentram-se, em primeiro lugar, nas tens\u00f5es entre as classes: marginalidade e frustra\u00e7\u00f5es crescentes, desigualdades excessivas, opress\u00e3o e repress\u00e3o. Caracterizam o dom\u00ednio das classes altas sobre as demais como colonialismo interno, e preveem que ser\u00e1 dif\u00edcil manter a paz pela insensibilidade dos \u201cde cima\u201d, a crescente conscientiza\u00e7\u00e3o dos \u201cde baixo\u201d e o interesse dos revolucion\u00e1rios em exacerbar as contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Posteriormente, caracterizam como neocolonialismo a situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es transnacionais e ao capital financeiro mundializado, denominando-a imperialismo internacional do dinheiro. A distor\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional, a fuga de dividendos e capitais econ\u00f4micos e humanos, a evas\u00e3o de impostos, o endividamento progressivo e o intervencionismo pol\u00edtico e at\u00e9 militar seriam os \u00edndices mais decisivos. Por \u00faltimo, referem-se \u00e0s tens\u00f5es entre os pa\u00edses latino-americanos e \u00e0 corrida armamentista.<\/p>\n<p>Os bispos distanciam-se dos que promovem revolu\u00e7\u00f5es armadas como via para superar essa situa\u00e7\u00e3o. Mesmo reconhecendo a nobreza de suas motiva\u00e7\u00f5es, insistem que as consequ\u00eancias ser\u00e3o um agravamento da situa\u00e7\u00e3o (DM 2,15.19). Acusam os que se op\u00f5em \u00e0s necess\u00e1rias reformas de serem os causantes das revolu\u00e7\u00f5es do desespero que podem sobrevir (DM 2,17). Prop\u00f5em o desenvolvimento integral. Colocam o amor como a grande for\u00e7a libertadora da injusti\u00e7a e da opress\u00e3o e inspiradora da justi\u00e7a social, entendida como concep\u00e7\u00e3o de vida e como impulso para o desenvolvimento integral (DM 1,5). Entendem o desenvolvimento integral como a passagem de condi\u00e7\u00f5es de vida menos humanas a condi\u00e7\u00f5es mais humanas:<\/p>\n<blockquote><p>A passagem da mis\u00e9ria para a posse do necess\u00e1rio, a vit\u00f3ria sobre as calamidades sociais, a amplia\u00e7\u00e3o dos conhecimentos, a aquisi\u00e7\u00e3o da cultura [&#8230;], o aumento na considera\u00e7\u00e3o da dignidade dos demais, a orienta\u00e7\u00e3o para o esp\u00edrito de pobreza, a coopera\u00e7\u00e3o no bem comum, a vontade de paz, [&#8230;] a f\u00e9 [&#8230;] e a unidade na caridade de Cristo, que nos chama a todos a participar como filhos na vida de Deus vivo, Pai de todos os homens (DM Introdu\u00e7\u00e3o,6; cf. DM 2,14a).<\/p><\/blockquote>\n<p>Esse processo requer mudan\u00e7as tanto estruturais como pessoais. A situa\u00e7\u00e3o \u201cexige transforma\u00e7\u00f5es globais, audazes, urgentes e profundamente renovadoras\u201d (DM 2,16). Isso implica vencer o temor aos \u201csacrif\u00edcios e riscos pessoais que implica toda a\u00e7\u00e3o audaciosa e realmente eficaz\u201d (DM 2,17). O risco aumenta pela oposi\u00e7\u00e3o dos que det\u00eam esse poder injusto e opressor. Por isso, falam da \u201cenergia forte e pac\u00edfica das obras construtivas\u201d (DM 2,19). S\u00e3o as que se mencionam nos documentos sobre a fam\u00edlia, a educa\u00e7\u00e3o, a juventude e os leigos. Tamb\u00e9m s\u00e3o aquelas propostas nos documentos sobre Justi\u00e7a e sobre Paz, de car\u00e1ter mais global, ou seja, cidad\u00e3o e pol\u00edtico, com sua inevit\u00e1vel dimens\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Como a Am\u00e9rica Latina se considerava um continente cat\u00f3lico, como os governantes se entendiam como tais, e igualmente o faziam as for\u00e7as vitais do continente, dizendo-se ambos representantes de povos cat\u00f3licos, esse diagn\u00f3stico lhes resultou intoler\u00e1vel. Empreenderam, ent\u00e3o, uma campanha virulenta de persegui\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica contra bispos e te\u00f3logos identificados com essa linha, acusando-os de comunistas.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o de ser e a inspira\u00e7\u00e3o de base desse documento, e tamb\u00e9m sua justifica\u00e7\u00e3o crist\u00e3, \u00e9 que Jesus se encarnou na humanidade. Por ele, que se fez n\u00e3o somente um de n\u00f3s, mas especificamente nosso Irm\u00e3o, Deus se \u201clan\u00e7ou \u00e0 sorte\u201d com a humanidade. Por sua vez, a humanidade n\u00e3o pode se entender adequadamente sem a refer\u00eancia a ele, n\u00e3o unicamente como Criador, mas tamb\u00e9m como Pai, atrav\u00e9s de seu Filho \u00fanico, que se fez para sempre nosso Irm\u00e3o e precisamente como pobre e, portanto, a partir dos pobres. Por isso, \u201ctodo \u2018crescimento em humanidade\u2019 capacita-nos a \u2018reproduzir a imagem do Filho, para que ele seja o primog\u00eanito entre muitos irm\u00e3os\u2019\u201d (DM 4,9)<\/p>\n<p>Essa unidade entre cristianismo e humanidade \u00e9 o que o documento sobre a Catequese insiste que deva ser ressaltado:<\/p>\n<blockquote><p>Sem cair em confus\u00f5es ou em identifica\u00e7\u00f5es simplistas, deve-se expressar sempre a unidade profunda que existe entre o plano divino de salva\u00e7\u00e3o, realizado em Cristo, e as aspira\u00e7\u00f5es do homem; entre a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o e a hist\u00f3ria humana; entre a Igreja, povo de Deus, e as comunidades temporais; entre a a\u00e7\u00e3o reveladora de Deus e a experi\u00eancia do homem; entre os dons e carismas sobrenaturais e os valores humanos. (DM 8,4).<\/p><\/blockquote>\n<p>Por isso, ao contemplar essa situa\u00e7\u00e3o a partir de dentro, os bispos a qualificam como \u201cviol\u00eancia institucionalizada\u201d (DM 2,16) que constitui uma situa\u00e7\u00e3o de pecado (DM 2,1). Com efeito,<\/p>\n<blockquote><p>A paz com Deus \u00e9 o fundamento \u00faltimo da paz interior e da paz social. Por isso mesmo, onde a paz social n\u00e3o existe, onde h\u00e1 injusti\u00e7as, desigualdades sociais, pol\u00edticas, econ\u00f4micas e culturais, rejeita-se o dom da paz do Senhor; mais ainda, rejeita-se o pr\u00f3prio Senhor (DM 2,14 c).<\/p><\/blockquote>\n<p>Como se percebe, n\u00e3o se trata de uma an\u00e1lise meramente social nem de um ju\u00edzo meramente pol\u00edtico, mas de uma tomada de posi\u00e7\u00e3o fundamentalmente crist\u00e3.<\/p>\n<p>Por isso, a alternativa deve ser trabalhar para que o ser humano assuma sua dignidade e responsabilidade e, assim, se empenhe em transformar as estruturas que impedem a vida e a humanidade de se desenvolverem:<\/p>\n<blockquote><p>A originalidade da mensagem crist\u00e3 n\u00e3o consiste tanto na afirma\u00e7\u00e3o da necessidade de uma mudan\u00e7a de estruturas, quanto na insist\u00eancia que devemos p\u00f4r na convers\u00e3o do homem. N\u00e3o teremos um continente novo, sem novas e renovadas estruturas, mas sobretudo n\u00e3o haver\u00e1 continente novo sem homens novos, que \u00e0 luz do Evangelho saibam ser verdadeiramente livres e respons\u00e1veis (DM 1,3).<\/p><\/blockquote>\n<p>O que mais caracteriza o Documento \u00e9 seu car\u00e1ter respons\u00e1vel (TRIGO, 2018, p. 33-57): atribuem \u00e0 Igreja, da qual s\u00e3o respons\u00e1veis, o equivalente ao que apontam para a sociedade e, em ambos os campos, est\u00e3o dispostos a coloc\u00e1-lo em pr\u00e1tica, tanto como dirigentes quanto como cidad\u00e3os e membros do povo de Deus (DM Introdu\u00e7\u00e3o 3). Antes de mais nada, exortam os privilegiados (DM 2,17), os passivos (DM 2,18) e os violentos (DM 2,19), assim como os crist\u00e3os, a assumirem sua responsabilidade e promoverem a paz trabalhando pela justi\u00e7a (DM 2,14.16.22). Nessa dire\u00e7\u00e3o, devem encaminhar-se as diversas express\u00f5es da pastoral (DM 2,24), nossas escolas, semin\u00e1rios e universidades (DM 2,25), a espiritualidade dos leigos (DM 10,17) e a tarefa do bispo (DM 15,17).<\/p>\n<p>A alternativa tem que come\u00e7ar por uma mudan\u00e7a pessoal (DM 1,3), que \u00e9, simultaneamente, personaliza\u00e7\u00e3o e coes\u00e3o fraterna (DM Introdu\u00e7\u00e3o 4) e conscientiza\u00e7\u00e3o da realidade (DM 2,7). A isso s\u00e3o exortados os educadores (DM 4,8; 5,14), o que, crist\u00e3mente falando, \u00e9 uma convers\u00e3o (DM Mensagem; DM 14,17; 6,8.15). Por isso, os bispos dizem que lhes corresponde educar as consci\u00eancias em todos esses aspectos (DM 2,20-21) e tamb\u00e9m fomentar os h\u00e1bitos comunit\u00e1rios em vistas \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o (DM 1,17). Essa consci\u00eancia cr\u00edtica da realidade \u00e9 fundamental para os crist\u00e3os (DM 1,6) e, por isso, parte inelud\u00edvel da catequese (DM 1,17), uma vez que, para conhecer a Deus, \u00e9 preciso conhecer o ser humano e em Jesus de Nazar\u00e9 se manifesta o mist\u00e9rio humano (DM Introdu\u00e7\u00e3o 1). Essa participa\u00e7\u00e3o tem que chegar \u00e0 pol\u00edtica como exerc\u00edcio de caridade (DM 1,16).<\/p>\n<p>A proposta de uma educa\u00e7\u00e3o personalizante (DM 4,4.8.11) se expressa para a Igreja como necessidade de colocar em marcha uma catequese integral (DM 8,1.6). Prop\u00f5em que sejam participativas tanto a sociedade (DM 7,21;5,1; 2,15;1,7;4,12; 1,12.16) como a Igreja (DM 15,3.6; 5,13,14; 11,16.19). \u00c0 necessidade de que a sociedade se reestruture a partir das comunidades de base (DM 2,14.27) corresponde a de que a Igreja o fa\u00e7a a partir das comunidades crist\u00e3s de base (DM 15,10.13;8,10;6,14). Ocorre tamb\u00e9m correspond\u00eancia entre a proposta de planifica\u00e7\u00e3o participativa para a sociedade (DM 1,15;7,21) e a da pastoral de conjunto (org\u00e2nica) para a Igreja (DM 15,5.9.23; 9,13; 15,10). Essa mesma correspond\u00eancia podemos observar entre as express\u00f5es societ\u00e1rias segundo as diversas culturas (DM 4,3;5,11) e a incultura\u00e7\u00e3o da pastoral (DM 8,15; 6,1; 8,8; 9,7.10-11).<\/p>\n<p>Uma correspond\u00eancia especialmente relevante e significativa \u00e9 a que acontece entre a exig\u00eancia de que as elites cedam seus privil\u00e9gios em favor dos de baixo (DM 14,10; 2,5.17) e a decis\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica de mudan\u00e7a de destinat\u00e1rio privilegiado, de condi\u00e7\u00e3o social e de situa\u00e7\u00e3o (DM 14,9.11.15.16).<\/p>\n<p>Se consideramos bem o que foi a primeira confer\u00eancia episcopal, ser\u00e1 f\u00e1cil compreender o assombro diante dessas conclus\u00f5es de Medell\u00edn, tanto entre os meios de comunica\u00e7\u00e3o e os intelectuais e, de forma mais geral, entre as elites latino-americanas, como na c\u00faria vaticana e na cristandade do Ocidente e do terceiro mundo. Tal surpresa se notou principalmente na maior parte da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica latino-americana e dos cat\u00f3licos clericalizados, que, em sua maioria, n\u00e3o tinham tomado conhecimento da novidade do Vaticano II ou n\u00e3o se abriram a ela e, por isso, n\u00e3o puderam aceitar o que era, na verdade, sua recep\u00e7\u00e3o criativamente fiel.<\/p>\n<p>O pressuposto de todos eles era que, no episcopado latino-americano, n\u00e3o havia sujeito com s\u00e3 autonomia, com qualidade crist\u00e3 e perspic\u00e1cia hist\u00f3rica. Por isso, n\u00e3o se via de onde havia sa\u00eddo o documento de Medell\u00edn. Parecia-lhes imposs\u00edvel que refletisse o pensar e o sentir, a posi\u00e7\u00e3o vital e o discernimento dos bispos latino-americanos. Por essa raz\u00e3o, \u00e9 especialmente digno de men\u00e7\u00e3o que o papa Pablo VI, que tinha presidido a inaugura\u00e7\u00e3o da confer\u00eancia, lhe desse um voto de confian\u00e7a e aprovasse suas conclus\u00f5es antes de l\u00ea-las.<\/p>\n<p><strong>3 Confer\u00eancia de Puebla<\/strong><\/p>\n<p>Essa desconfian\u00e7a da c\u00faria romana em rela\u00e7\u00e3o ao rumo que o episcopado latino-americano estava tomando se expressou institucionalmente quando interveio no CELAM, em 1972, impondo, por meio do n\u00fancio, a L\u00f3pez Trujillo como secret\u00e1rio (COMBLIN, 2011, p. 147). Ele preparou o documento de trabalho para Puebla e tamb\u00e9m prop\u00f4s coordenar a reuni\u00e3o. Entretanto, o presidente da assembleia, Lorscheider, submeteu o assunto a vota\u00e7\u00e3o e a assembleia rejeitou ambas as medidas. Ainda que o discurso inicial do Papa imp\u00f4s, em alguma medida, os temas de Jesus Cristo, o ser humano e a Igreja, a assembleia trabalhou com liberdade e referendou Medell\u00edn em v\u00e1rios textos (DP 12, 15, 25, 96, 142, 235, 260, 462, 480, 550, 590, 648, 1134, 1165, 1247). No entanto, nem todas as orienta\u00e7\u00f5es seguiram essa linha. Por isso, podemos considerar o documento como um compromisso entre as diversas correntes (TRIGO, 1979, p. 98-107).<\/p>\n<p>A proposta da minoria consistia em contrastar o radical substrato cat\u00f3lico da cultura latino-americana e o secularismo da adveniente cultura universal e em optar por uma moderniza\u00e7\u00e3o sem secularismo. O documento, por\u00e9m, insiste de modo contundente no fato escandaloso de que \u201cem povos de f\u00e9 crist\u00e3 enraizada se impuseram estruturas geradoras de injusti\u00e7a\u201d, o que \u00e9 \u201csinal acusador de que a f\u00e9 n\u00e3o teve a for\u00e7a necess\u00e1ria para penetrar os crit\u00e9rios e as decis\u00f5es dos setores respons\u00e1veis da lideran\u00e7a\u201d (DP 437).<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar pelo m\u00e9todo, Puebla assume o m\u00e9todo ver, jugar e agir, utilizado em Medell\u00edn: come\u00e7a com a vis\u00e3o pastoral da realidade latino-americana, continua com os des\u00edgnios de Deus sobre a realidade da Am\u00e9rica Latina, prossegue com os centros, os agentes e os meios de evangelizar, e finaliza com as op\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es preferenciais. Para p\u00f4r em marcha as conclus\u00f5es da assembleia, prop\u00f5e um processo de participa\u00e7\u00e3o educando \u201cnuma metodologia de an\u00e1lise da realidade, para depois refletir sobre essa realidade do ponto de vista do Evangelho, optar pelos objetivos e meios mais aptos, e seu uso mais racional na a\u00e7\u00e3o evangelizadora\u201d (DP 1307).<\/p>\n<p>A fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica do m\u00e9todo \u00e9 que a salva\u00e7\u00e3o acontece na hist\u00f3ria, mas a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 epifania de Deus. Assim sendo,<\/p>\n<blockquote><p>para que tudo isso se fa\u00e7a de acordo com o esp\u00edrito de Cristo, devemos exercitar-nos no discernimento das situa\u00e7\u00f5es e dos chamados concretos que o Senhor faz em cada tempo. Isto exige atitude de convers\u00e3o e de abertura e s\u00e9rio compromisso com aquilo que foi reconhecido como autenticamente evang\u00e9lico (DP 338).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 por essa raz\u00e3o que colocam como primeira op\u00e7\u00e3o pastoral a pr\u00f3pria convers\u00e3o da Igreja, que concretizam muito pertinentemente (DP 973-975).<\/p>\n<p>Para Puebla, a primeira causa de todos os problemas \u00e9 o sistema econ\u00f4mico imperante, que n\u00e3o considera o ser humano como centro da sociedade e, por isso, n\u00e3o se interessa em alcan\u00e7ar uma sociedade justa (DP 64, 129). Em fun\u00e7\u00e3o disso, o efeito desse sistema \u00e9 a polariza\u00e7\u00e3o crescente entre ricos e pobres (DP 1, 28, 30, 38, 47, 129, 138, 494, 542, 778, 1135, 1207-1209, 1264). Como em Medell\u00edn, os bispos qualificam essa situa\u00e7\u00e3o como \u201cde pecado\u201d (DP 28, 70, 73, 281, 452, 487, 509, 1032) e prop\u00f5em tamb\u00e9m a \u201cconvers\u00e3o pessoal e mudan\u00e7as profundas de estruturas\u201d (DP 30; cf. DP 436-438 <em>et passim<\/em>).<\/p>\n<p>O enfoque de Puebla estaria nas culturas e nas ideologias. Como tend\u00eancia hist\u00f3rica dizem: \u201ca programa\u00e7\u00e3o da vida social corresponder\u00e1 cada dia mais aos modelos buscados pela tecnocracia, sem correspond\u00eancia com os anseios de uma ordem internacional mais justa\u201d (DP 129). Ela utilizar\u00e1 os <em>mass media<\/em>: eles \u201cir\u00e3o programando cada vez mais a vida do homem e da sociedade\u201d (DP 128; cf. DP 1072-1073). Puebla capta o deslocamento da cultura tradicional latino-americana para o que chama de \u201cadveniente cultura universal\u201d, que, impulsionada pelas grandes pot\u00eancias, \u201cpretende ser universal. Os povos, as culturas particulares, os diversos grupos humanos s\u00e3o convidados, e mais ainda, obrigados a integrar-se nela\u201d (DP 421). \u201cA Igreja n\u00e3o aceita aquela instrumenta\u00e7\u00e3o da universalidade que equivale \u00e0 unifica\u00e7\u00e3o da humanidade mediante uma injusta e lesante supremacia e dom\u00ednio de uns povos ou setores sociais sobre outros povos e setores\u201d (DP 427). Contudo, reconhece que essa cultura permeou tudo, de tal maneira que \u201cse pode falar, com raz\u00e3o, de uma nova \u00e9poca da hist\u00f3ria humana (GS 54)\u201d (DP 393).<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ideologias, os bispos se referem ao liberalismo capitalista (DP 47, 437, 452), ao coletivismo marxista (DP 48, 437, 543) e \u00e0 Seguran\u00e7a Nacional (DP 49, 547-549). Como vis\u00f5es inadequadas do ser humano, mencionam a determinista (DP 308-309, 335), a psicologista (DP 310), a economicista (DP 311-313), a consumista (DP 311), a liberal (DP 312), a coletivista (DP 313), a estatista (DP 314), a cientista (DP 315).<\/p>\n<p>Insistem nos direitos humanos e na dignidade absoluta da pessoa humana. Ressaltam o n\u00e3o reconhecimento dessa dignidade (e, portanto, a viola\u00e7\u00e3o massiva de seus direitos), a fundamenta\u00e7\u00e3o desses direitos e da apresenta\u00e7\u00e3o positiva a respeito do que significa tal dignidade, al\u00e9m de explicitarem o que fazer para salvaguard\u00e1-la e foment\u00e1-la. Por isso, denunciam o que nega mais radicalmente a pessoa, isto \u00e9, as idolatrias da nossa \u00e9poca: o dinheiro e o poder, combinados, que atuam buscando expandir-se e que, por essa raz\u00e3o, instrumentalizam todo o resto (DP 493-501). \u201c\u00c9 urgente libertar a nossos povos do \u00eddolo do poder absoluto para conseguir uma conviv\u00eancia social em justi\u00e7a e liberdade\u201d (DP 502). Por essa raz\u00e3o, o documento insiste no direito prim\u00e1rio da humanidade aos bens da terra, direito ao qual est\u00e3o subordinados o da propriedade privada e o do livre com\u00e9rcio (DP 492, 542, 747, 1224, 1281).<\/p>\n<p>Essa evangeliza\u00e7\u00e3o tem que penetrar nas culturas. Os bispos optam por duas dire\u00e7\u00f5es complementares: a evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura que foi forjada na Am\u00e9rica Latina nestes cinco s\u00e9culos, por meio da evangeliza\u00e7\u00e3o da religiosidade popular, que \u00e9 seu manancial mais profundo, e dos povos, que s\u00e3o seus portadores; e, simultaneamente, a evangeliza\u00e7\u00e3o da adveniente cultura universal pela evangeliza\u00e7\u00e3o dos construtores da sociedade pluralista que se est\u00e1 forjando nos nossos dias. Contudo, insistem complementarmente em que os pobres tamb\u00e9m s\u00e3o sujeitos evangelizadores:<\/p>\n<blockquote><p>O compromisso com os pobres e oprimidos e o surgimento das Comunidades de Base ajudaram a Igreja a descobrir o potencial evangelizador dos pobres, enquanto estes a interpelam constantemente, chamando-a \u00e0 convers\u00e3o e porque muitos deles realizam em sua vida os valores evang\u00e9licos de solidariedade, servi\u00e7o, simplicidade e disponibilidade para acolher o dom de Deus (DP 1147).<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m disso, a op\u00e7\u00e3o pelos pobres n\u00e3o \u00e9 apenas um dos cap\u00edtulos do documento, mas um eixo transversal que o atravessa completamente (TRIGO, 1979, p. 108-111). Por isso, esse \u00e9 o aspecto de Puebla que possui maior transcend\u00eancia hist\u00f3rica, e que, sendo assumido pela Igreja latino-americana, foi proposto repetidamente pelo Papa Jo\u00e3o Paulo II \u00e0 Igreja universal. Em Puebla, essa op\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o crucial que a podemos considerar, juntamente com a apresenta\u00e7\u00e3o de Jesus de Nazar\u00e9, como o que dinamiza, estrutura e unifica todo o documento. \u00c9 particularmente pertinente sua fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica: Deus toma sua defesa e os ama, porque \u201ccriados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus para serem seus filhos, esta imagem est\u00e1 obscurecida e tamb\u00e9m escarnecida\u201d (DP 1142). E pede que olhemos para rostos muito concretos que a pobreza generalizada toma entre n\u00f3s (DP 32-39), para que reconhe\u00e7amos neles \u201cas fei\u00e7\u00f5es sofredoras de Cristo, o Senhor, que nos questiona e interpela\u201d (DP 31). Por isso, \u201co servi\u00e7o dos pobres \u00e9 a medida privilegiada, embora n\u00e3o exclusiva, de nosso seguimento de Cristo\u201d (DP 1145). Cristo, que em todo o documento \u00e9 inequivocamente Jesus de Nazar\u00e9, que \u201cnasceu e viveu pobre no meio de seu povo de Israel, compadeceu-se das multid\u00f5es e fez o bem a todos\u201d (DP 190).<\/p>\n<p>A medida da integralidade da op\u00e7\u00e3o pelos pobres \u00e9 a pobreza evang\u00e9lica que \u00e9 \u201cexigida a todos os crist\u00e3os\u201d (DP 1148) e se caracteriza por tr\u00eas elementos: atitude de abertura confiada em Deus; uma vida simples, s\u00f3bria e austera, que afaste a tenta\u00e7\u00e3o da gan\u00e2ncia e do orgulho; e a comunica\u00e7\u00e3o de bens materiais e espirituais com os pobres (DP 1149-1150). Para os bispos, \u201cesta pobreza \u00e9 um desafio ao materialismo e abre as portas a solu\u00e7\u00f5es alternativas da sociedade de consumo\u201d (DP 1152). Os bispos se alegram ao ver que muitos de seus filhos n\u00e3o pobres vivem essa pobreza crist\u00e3 (DP 1151).<\/p>\n<p>A partir da liberdade que d\u00e1 a pobreza evang\u00e9lica, t\u00eam sentido as propostas que se esbo\u00e7am: a condena\u00e7\u00e3o da pobreza antievang\u00e9lica \u00e0 qual est\u00e1 submetida a maioria da Am\u00e9rica Latina, o esfor\u00e7o por conhecer cada vez mais os mecanismos que causam essa trag\u00e9dia e denunci\u00e1-los, a soma de esfor\u00e7os com os que lutam por desenraiz\u00e1-la e criar um mundo mais justo e humano, o apoio aos trabalhadores que querem ser tratados como livres e respons\u00e1veis e participar nas decis\u00f5es que concernem suas vidas, a defesa do direito a que criem suas pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es (Cf. DM 2,27), e o respeito e apoio \u00e0s culturas ind\u00edgenas (DP 1159-1164).<\/p>\n<p>A partir dessa op\u00e7\u00e3o, compreende-se sua mensagem aos construtores da sociedade pluralista. Destacamos dois elementos: o primeiro diz respeito \u00e0 defesa do sal\u00e1rio dos trabalhadores, do direito a organizar-se e participar nas empresas, e do direito mais geral a uma pol\u00edtica econ\u00f4mica que n\u00e3o se dirija \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do emprego; o segundo refere-se \u00e0 justi\u00e7a no ponto espec\u00edfico dos contratos, al\u00e9m de sua legalidade, aborda-se o ponto mais gen\u00e9rico da destina\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria dos recursos da terra para a humanidade como magnitude real, como sujeito coletivo, a que est\u00e1 subordinada a propriedade privada.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o do povo de Deus aos povos \u00e9 a evangeliza\u00e7\u00e3o. Ela<\/p>\n<blockquote><p>d\u00e1 a conhecer Jesus como o Senhor que nos revela o Pai e nos comunica seu Esp\u00edrito. Ela chama-nos \u00e0 convers\u00e3o que \u00e9 reconcilia\u00e7\u00e3o e vida nova, leva-nos \u00e0 comunh\u00e3o com o Pai que nos torna filhos e irm\u00e3os. Faz brotar, pela caridade derramada em nossos cora\u00e7\u00f5es, frutos de justi\u00e7a, perd\u00e3o, respeito, dignidade e paz no mundo (DP 352).<\/p><\/blockquote>\n<p>O documento insiste no bin\u00f4mio de comunh\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o, tanto como estrutura da Igreja como miss\u00e3o que tem que levar ao mundo. O motivo \u00e9 que o Reino \u201cse realiza de certo modo onde quer que Deus esteja reinando mediante sua gra\u00e7a, seu amor, vencendo o pecado e ajudando os homens a crescerem at\u00e9 conseguir a grande comunh\u00e3o que lhes \u00e9 oferecida em Cristo\u201d (DP 226). O des\u00edgnio de Deus \u00e9 que os seres humanos construam a comunh\u00e3o \u201cem toda a sua vida\u201d, inclusive \u201cna sua dimens\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica\u201d (DP 215). Essa comunh\u00e3o, que \u00e9 a mais genu\u00edna produ\u00e7\u00e3o humana, na perspectiva do plano transcendente, \u00e9 \u201cproduzida pelo Pai, o Filho e Esp\u00edrito Santo\u201d, porque \u201c\u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria comunh\u00e3o trinit\u00e1ria\u201d (DP 215). Por isso, as formas de comunh\u00e3o<\/p>\n<p>humana, nos seus diversos \u00e2mbitos, \u201cs\u00e3o animadas pela gra\u00e7a, prim\u00edcias dela\u201d (DP 218). No entanto,<\/p>\n<blockquote><p>o pecado, for\u00e7a de ruptura, h\u00e1 de impedir constantemente o crescimento no amor e a comunh\u00e3o tanto a partir do cora\u00e7\u00e3o dos homens, como a partir das diversas estruturas por eles criadas, nas quais o pecado de seus autores imprimiu sua marca destruidora. Neste sentido, a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, marginalidade, injusti\u00e7a e corrup\u00e7\u00e3o, que fere nosso Continente, exige do Povo de Deus e de cada crist\u00e3o um aut\u00eantico hero\u00edsmo com seu compromisso evangelizador, a fim de poder superar semelhantes obst\u00e1culos (DP 281).<\/p>\n<p>O Evangelho nos deve ensinar, em face das realidades em que vivemos imersos, que n\u00e3o se pode atualmente na Am\u00e9rica Latina amar de verdade o irm\u00e3o nem portanto a Deus, sem que o homem se comprometa em n\u00edvel pessoal e, em muitos casos, at\u00e9 em n\u00edvel estrutural, com o servi\u00e7o e promo\u00e7\u00e3o dos grupos humanos e dos estratos sociais mais pobres e humilhados, arcando com todas as consequ\u00eancias que se seguem (DP 327).<\/p><\/blockquote>\n<p>Nisso consiste a sacramentalidade da Igreja: em ser sinal cred\u00edvel de comunh\u00e3o. Por isso,<\/p>\n<blockquote><p>cada comunidade eclesial deveria esfor\u00e7ar-se por constituir para o Continente exemplo de modo de conviv\u00eancia onde consigam unir-se a liberdade e a solidariedade, onde a autoridade se exer\u00e7a com o esp\u00edrito do Bom Pastor, onde se viva uma atitude diferente diante da riqueza, onde se ensaiem formas de organiza\u00e7\u00e3o e estruturas de participa\u00e7\u00e3o, capazes de abrir caminho para um tipo mais humano de sociedade (DP 273).<\/p><\/blockquote>\n<p>Para que formem parte desse sinal, os pastores est\u00e3o a servi\u00e7o da Fam\u00edlia de Deus como irm\u00e3os: \u201cS\u00e3o irm\u00e3os chamados a cuidar da vida que o Esp\u00edrito suscita, livremente, nos demais irm\u00e3os. \u00c9 dever dos pastores respeitarem esta vida, acolh\u00ea-la, orient\u00e1-la e promov\u00ea-la, ainda que tenha nascido independentemente da iniciativa deles\u201d (DP 249).<\/p>\n<p><strong>4 Confer\u00eancia de Santo Domingo<\/strong><\/p>\n<p>Esta confer\u00eancia foi celebrada no quinto centen\u00e1rio do \u201cdescobrimento\u201d. O mais l\u00f3gico teria sido realizar um discernimento desses cinco s\u00e9culos, da atua\u00e7\u00e3o do cristianismo neles e fazer propostas para fortalecer o bom e superar o ruim. Entretanto, o Vaticano interveio de modo que, no n\u00edvel estrutural, n\u00e3o foi uma confer\u00eancia do episcopado, uma vez que mais da metade dos presentes n\u00e3o foram eleitos pelos bispos, foi descartado o documento de trabalho, os que a presidiram vieram de Roma e de l\u00e1 tamb\u00e9m veio a normativa e, principalmente, porque n\u00e3o se admitiu a reda\u00e7\u00e3o global do que os grupos de trabalho elaboraram e que, com exce\u00e7\u00e3o dos doutrinais, estavam na linha de Medell\u00edn e Puebla e avan\u00e7avam nessa dire\u00e7\u00e3o. Tampouco se admitiu o m\u00e9todo ver, julgar, agir, que foi substitu\u00eddo por uma doutrina pr\u00e9-conciliar sobre Jesus Cristo e a Igreja. Por pouco a assembleia n\u00e3o descartou tudo. Por fim, por\u00e9m, reestruturou-se o que foi poss\u00edvel e o resultado foi satisfat\u00f3rio para a maioria, considerando que os cap\u00edtulos sobre a promo\u00e7\u00e3o humana e a cultura crist\u00e3 pareciam canais adequados para a pastoral.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o foram favor\u00e1veis nem a separa\u00e7\u00e3o entre o local de alojamento e o lugar de trabalho, nem a hospedagem do episcopado em hot\u00e9is luxuosos, que continuaram funcionando como tais. Nesse sentido, foi o mais oposto a Medell\u00edn.<\/p>\n<p>O tema foi \u201cimpulsionar, com novo ardor, uma Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o que se projete num maior compromisso pela promo\u00e7\u00e3o integral do homem e impregne com a luz do Evangelho as culturas dos povos latino-americanos\u201d (DSD 1). A primeira parte, \u201cJesus Cristo, evangelho do Pai\u201d, infelizmente, n\u00e3o recolhe a riqueza do conhecimento vivo de Jesus de Nazar\u00e9 pela leitura orante feita nas comunidades, uma das grandes riquezas do cristianismo latino-americano que se expressou em Medell\u00edn e em Puebla. Nem sequer diz que foi entregue ao procurador romano para que fosse crucificado como subversivo, pelas autoridades religiosas, especialmente a aristocracia sacerdotal, que ressentia sua lideran\u00e7a com o povo, o que minava seu car\u00e1cter institucional; \u201ctodo mundo vai atr\u00e1s dele\u201d (Jo 12,19).\u00a0 O que se prop\u00f5e \u00e9<\/p>\n<blockquote><p>Provocar nos cat\u00f3licos a ades\u00e3o pessoal a Cristo e \u00e0 Igreja pelo an\u00fancio do Senhor ressuscitado; desenvolver uma catequese que instrua devidamente o povo, explicando o mist\u00e9rio da Igreja, sacramento de salva\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o, a media\u00e7\u00e3o da Virgem Maria e dos santos e a miss\u00e3o da hierarquia (DSD 142).<\/p><\/blockquote>\n<p>Como se v\u00ea, substitui-se a Jesus de Nazar\u00e9 pelo ressuscitado e a catequese, em vez de se centrar no seguimento de Jesus, restringe-se \u00e0 Igreja, \u00e0 hierarquia e \u00e0 devo\u00e7\u00e3o a Maria. Por isso, no documento, a liturgia n\u00e3o \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o da fidelidade no seguimento de Jesus na vida hist\u00f3rica, mas a fonte e o centro, a ser aplicado \u00e0 vida (DSD 34-35). O doutrinarismo \u00e9 tal que chegam a afirmar que os \u201cvalores, crit\u00e9rios, condutas e atitudes\u201d da religiosidade popular, que \u201cconstituem a sabedoria de nosso povo\u201d, \u201cnascem do dogma cat\u00f3lico\u201d (DSD 36).<\/p>\n<p>No entanto, existem muitos textos resgat\u00e1veis: a necessidade de uma<\/p>\n<blockquote><p>nova evangeliza\u00e7\u00e3o surge na Am\u00e9rica Latina como resposta aos problemas que apresentados pela realidade de um continente no qual se d\u00e1 um div\u00f3rcio entre f\u00e9 e vida, a ponto de produzir clamorosas situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a, desigualdade social e viol\u00eancia. Implica enfrentar a grandiosa tarefa de infundir energias ao cristianismo da Am\u00e9rica Latina (DSD 24).<\/p><\/blockquote>\n<p>Os bispos afirmam que \u201co conte\u00fado da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 Jesus Cristo\u201d (DSD 27). Novas situa\u00e7\u00f5es exigem novos caminhos. N\u00e3o pode faltar \u201co testemunho e o encontro pessoal, a presen\u00e7a do crist\u00e3o em todo o humano, assim como a confian\u00e7a no an\u00fancio salvador de Jesus\u201d (DSD 29). O cristianismo e a Igreja t\u00eam \u201cde inculturar-se mais no modo de ser e de viver de nossas culturas. (&#8230;) Assim, a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 na linha da encarna\u00e7\u00e3o do Verbo\u201d (DSD 30).<\/p>\n<p>A proclama\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica e a catequese devem \u201cnutrir-se da Palavra de Deus lida e interpretada na Igreja e celebrada na comunidade\u201d (DSD 33). Realiza-se:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cdifundindo seu testemunho vivo sobretudo com a vida de f\u00e9 e caridade\u201d (LG 12). O testemunho de vida crist\u00e3 \u00e9 a primeira e insubstitu\u00edvel forma de evangeliza\u00e7\u00e3o, como o fez presente vigorosamente Jesus em v\u00e1rias ocasi\u00f5es (cf. Mt 7,21-23; 25,31-46; Lc 10,37; 19,1-10) e o ensinaram tamb\u00e9m os ap\u00f3stolos (cf. Tg 2,14-18). (DSD 33)<\/p><\/blockquote>\n<p>Nessa nova evangeliza\u00e7\u00e3o, pedem \u201cque os batizados n\u00e3o evangelizados sejam os principais destinat\u00e1rios da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. Esta s\u00f3 ser\u00e1 efetivamente levada a cabo se os leigos, conscientes do seu batismo, responderem ao chamado de Cristo a que se convertam em protagonistas da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d (DSD 97). Por isso, deve-se \u201cevitar que os leigos reduzam sua a\u00e7\u00e3o ao \u00e2mbito intraeclesial, impulsionando-os a penetrar os ambientes socioculturais e a serem eles os protagonistas da transforma\u00e7\u00e3o da sociedade \u00e0 luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja\u201d (DSD 98). \u201cUma linha priorit\u00e1ria de nossa pastoral, fruto desta IV Confer\u00eancia, h\u00e1 de ser a de uma Igreja na qual os fi\u00e9is crist\u00e3os leigos sejam protagonistas\u201d (DSD 103).<\/p>\n<p>J\u00e1 insistimos em que o que dizem sobre a promo\u00e7\u00e3o humana \u00e9 fundamentalmente pertinente. Em primeiro lugar, afirmam que<\/p>\n<blockquote><p>os direitos humanos s\u00e3o violados n\u00e3o s\u00f3 pelo terrorismo, repress\u00e3o, assass\u00ednios, mas tamb\u00e9m pela exist\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es de extrema pobreza e de estruturas econ\u00f4micas injustas que originam grandes desigualdades. A intoler\u00e2ncia pol\u00edtica e o indiferentismo diante da situa\u00e7\u00e3o de empobrecimento generalizado mostram desprezo pela vida humana concreta que n\u00e3o podemos calar (DSD 167).<\/p><\/blockquote>\n<p>Especificam-no convincentemente:<\/p>\n<blockquote><p>O crescente empobrecimento a que est\u00e3o submetidos milh\u00f5es de irm\u00e3os nossos, que chega a intoler\u00e1veis extremos de mis\u00e9ria, \u00e9 o mais devastador e humilhante flagelo que vive a Am\u00e9rica Latina e Caribe. Assim o denunciamos tanto em Medell\u00edn como em Puebla e hoje voltamos a faz\u00ea-lo com preocupa\u00e7\u00e3o e ang\u00fastia. As estat\u00edsticas mostram com eloqu\u00eancia que na \u00faltima d\u00e9cada as situa\u00e7\u00f5es de pobreza cresceram tanto em n\u00fameros absolutos como em relativos. A n\u00f3s, pastores, comove-nos at\u00e9 as entranhas ver continuamente a multid\u00e3o de homens e mulheres, crian\u00e7as e jovens e anci\u00e3os que sofrem o insuport\u00e1vel peso da mis\u00e9ria assim como diversas formas de exclus\u00e3o social, \u00e9tnica e cultural; s\u00e3o pessoas humanas concretas e irredut\u00edveis, que veem seus horizontes cada vez mais fechados e sua dignidade desconhecida.<\/p>\n<p>Vemos o empobrecimento de nosso povo n\u00e3o s\u00f3 como um fen\u00f4meno econ\u00f4mico e social, registrado e quantificado pelas ci\u00eancias sociais. N\u00f3s o vemos dentro da experi\u00eancia de muita gente com quem compartilhamos, como pastores, sua luta cotidiana pela vida.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de corte neoliberal que predomina hoje na Am\u00e9rica Latina e no Caribe aprofunda ainda mais as consequ\u00eancias negativas destes mecanismos. Ao desregular indiscriminadamente o mercado, eliminar partes importantes da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e despedir empregados, ao reduzir os gastos sociais que protegiam as fam\u00edlias dos trabalhadores, foram aumentando ainda mais as dist\u00e2ncias na sociedade (DSD 179).<\/p><\/blockquote>\n<p>Por isso, afirmam que \u201cdescobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor (cf. Mt 25,31-46) \u00e9 algo que desafia todos os crist\u00e3os a uma profunda convers\u00e3o pessoal e eclesial\u201d (DSD 178). O texto especifica esses rostos.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9:<\/p>\n<blockquote><p>Assumir com decis\u00e3o renovada a evang\u00e9lica op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, seguindo o exemplo e as palavras do Senhor Jesus, com plena confian\u00e7a em Deus, austeridade de vida e partilha de bens. [\u2026]<\/p>\n<p>Corrigir atitudes e comportamentos pessoais e comunit\u00e1rios, bem como as estruturas e m\u00e9todos pastorais, a fim de que n\u00e3o afastem os pobres, mas que propiciem a proximidade e a partilha com eles.<\/p>\n<p>Promover a participa\u00e7\u00e3o social junto ao Estado, pleiteando leis que defendam os direitos dos pobres (DSD 180).<\/p><\/blockquote>\n<p>Referem-se concretamente \u00e0 realidade do trabalho (DSD 186), avaliam-na crist\u00e3mente e prop\u00f5em desafios e linhas pastorais consonantes (DSD 182-185). Igualmente o fazem sobre as migra\u00e7\u00f5es (DSD 186-189) e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem democr\u00e1tica (DSD 190-193). Destacamos:<\/p>\n<blockquote><p>Corrigir atitudes e comportamentos pessoais e comunit\u00e1rios, bem como as estruturas e m\u00e9todos pastorais, a fim de que n\u00e3o afastem os pobres, mas que propiciem a proximidade e a partilha com eles. Promover a participa\u00e7\u00e3o social junto ao Estado, pleiteando leis que defendam os direitos dos pobres (DSD 180).<\/p><\/blockquote>\n<p>Tamb\u00e9m sobre a nova ordem econ\u00f4mica (DSD 194-203), destacamos:<\/p>\n<blockquote><p>Fomentar a busca e implementa\u00e7\u00e3o de modelos socioecon\u00f4micos que conjuguem a livre iniciativa, a criatividade de pessoas e grupos, a fun\u00e7\u00e3o moderadora do Estado, sem deixar de dar aten\u00e7\u00e3o especial aos setores mais necessitados. Tudo isto, orientado para a realiza\u00e7\u00e3o de economia da solidariedade e da participa\u00e7\u00e3o, expressa em diversas formas de propriedade (DSD 201).<\/p><\/blockquote>\n<p>Da mesma forma, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 integra\u00e7\u00e3o latino-americana (DSD 204-209), ressaltamos o horizonte:<\/p>\n<blockquote><p>Todos sentimos a urg\u00eancia de integrar o disperso e de unir esfor\u00e7os para que a interdepend\u00eancia se torne solidariedade e esta possa transformar-se em fraternidade [\u2026] A Igreja tem consci\u00eancia de seu singular protagonismo e de seu papel orientador quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma mentalidade de perten\u00e7a \u00e0 humanidade e ao fomento de uma cultura solid\u00e1ria e de reconcilia\u00e7\u00e3o (DSD 204).<\/p><\/blockquote>\n<p>Tamb\u00e9m nos parece pertinente o que se diz sobre a fam\u00edlia, ainda que n\u00e3o partilhemos a insist\u00eancia de que todo ato sexual deve estar aberto \u00e0 procria\u00e7\u00e3o (DSD 210-227).<\/p>\n<p>O tratamento da cultura padece do mesmo problema de enfoque que em Puebla, j\u00e1 que, de algum modo, pretende identificar os sinais de identidade cat\u00f3lica, presentes massivamente no continente, com sua condi\u00e7\u00e3o de evangelizado. Tampouco concordo com a pretens\u00e3o de que exista ou possa existir uma cultura crist\u00e3 (DSD 229). A evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura se apoia, sem d\u00favida, em elementos positivos, mas nunca corrigir\u00e1 totalmente os negativos estruturais. Al\u00e9m disso, n\u00e3o concordo que a incultura\u00e7\u00e3o do evangelho consista em introduzir valores (DSD 230): \u00e9 demasiadamente et\u00e9reo.<\/p>\n<p>Coincido com a import\u00e2ncia da catequese, mas estou de acordo com o paradoxo de que coexistem \u201cum desconhecimento da doutrina ao lado de viv\u00eancias cat\u00f3licas enraizadas nos princ\u00edpios do Evangelho\u201d (DSD 247). Insistem, e \u00e9 pertinente faz\u00ea-lo, em \u201capresentar a vida moral como seguimento de Cristo\u201d (DSD 239). Entretanto, por isso mesmo, \u00e9 uma debilidade que, ao apresentar Jesus, omitam a sua vida concreta.<\/p>\n<p>\u00c9 valiosa a indica\u00e7\u00e3o sobre o que significa a evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura negra:<\/p>\n<blockquote><p>Conscientes do problema da marginaliza\u00e7\u00e3o e do racismo que pesa sobre a popula\u00e7\u00e3o negra, a Igreja, na sua miss\u00e3o evangelizadora, quer participar dos seus sofrimentos e acompanh\u00e1-los em suas leg\u00edtimas aspira\u00e7\u00f5es em busca de uma vida mais justa e digna para todos (249).<\/p><\/blockquote>\n<p>O mesmo se aplicas \u00e0s culturas ind\u00edgenas:<\/p>\n<blockquote><p>Contribuir eficazmente para deter e erradicar as pol\u00edticas tendentes a fazer desaparecer as culturas aut\u00f3ctones como meios de for\u00e7ada integra\u00e7\u00e3o; ou, pelo contr\u00e1rio, pol\u00edticas que queiram manter os ind\u00edgenas isolados e marginalizados da realidade nacional (DSD 251).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao se referirem \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o das culturas modernas, os bispos assinalam, desde o in\u00edcio, a \u201cincoer\u00eancia entre os valores do povo, inspirados em princ\u00edpios crist\u00e3os, e as estruturas sociais geradoras de injusti\u00e7as, que impedem o exerc\u00edcio dos direitos humanos\u201d (DSD 253).<\/p>\n<p>A caracteriza\u00e7\u00e3o da cidade e da pastoral proposta para ela revela a falta de uma compreens\u00e3o mais profunda de sua realidade e de adapta\u00e7\u00e3o a ela (DSD 255-262).<\/p>\n<p>\u201cA educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3 desenvolve e assegura a cada crist\u00e3o a sua vida de f\u00e9 e faz com que verdadeiramente nele sua vida seja Cristo\u201d (DSD 264) Afirma-se o que acontece ou o que gostar\u00edamos que acontecesse? Isso est\u00e1 sequer cogitado no que se chama educa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica?<\/p>\n<p>O que \u00e9 afirmado sobre a educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 t\u00e3o pertinente que seria bom que ao menos fosse considerado nos processos de inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3:<\/p>\n<blockquote><p>a educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3 se funda numa verdadeira antropologia crist\u00e3 que significa a abertura do homem para Deus como Criador e Pai, para os outros como seus irm\u00e3os, e para o mundo como aquilo que lhe foi entregue para potenciar suas virtualidades, e n\u00e3o para exercer sobre ele dom\u00ednio desp\u00f3tico que destrua a natureza (DSD 264).<\/p><\/blockquote>\n<p>Os desafios da realidade est\u00e3o bem definidos:<\/p>\n<blockquote><p>a realidade latino-americana nos interpela pela exclus\u00e3o de muita gente da educa\u00e7\u00e3o escolar, mesmo a b\u00e1sica, pelo grande analfabetismo que existe em v\u00e1rios dos nossos pa\u00edses; interpelados pela crise da fam\u00edlia, a primeira educadora, pelo div\u00f3rcio existente entre o Evangelho e a cultura; pelas diferen\u00e7as sociais e econ\u00f4micas que fazem com que para muitos seja dispendiosa a educa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, especialmente nos n\u00edveis superiores. Interpela-nos tamb\u00e9m a educa\u00e7\u00e3o informal que se recebe atrav\u00e9s de tantos comunicadores n\u00e3o propriamente crist\u00e3os, p. ex., televis\u00e3o (DSD 267).<\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 uma consci\u00eancia muito realista da dire\u00e7\u00e3o da demanda:<\/p>\n<blockquote><p>Geralmente nos pedem, com base em crit\u00e9rios secularistas, que eduquemos o homem t\u00e9cnico, o homem apto para dominar seu mundo e viver num interc\u00e2mbio de bens produzidos sob certas normas pol\u00edticas; as m\u00ednimas. Esta realidade nos interpela fortemente para podermos ser conscientes de todos os valores que est\u00e3o nela e pod\u00ea-los recapitular em Cristo (DSD 266).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, ou se tem que discernir o que sim e o que n\u00e3o? Por isso, pedem um di\u00e1logo com o homem t\u00e9cnico e com o humanismo crist\u00e3o, de modo que se chegue \u00e0 sabedoria crist\u00e3 (DSD 268).<\/p>\n<p>A fundamenta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica na qual se baseia o tratamento sobre a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 certeira: \u201cCada pessoa e cada grupo humano desenvolve sua identidade no encontro com os outros (alteridade)\u201d (DSD 279).<\/p>\n<p>O problema \u00e9 bem definido:<\/p>\n<blockquote><p>Damo-nos conta do desenvolvimento da ind\u00fastria da comunica\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina e no Caribe que mostra o crescimento de grupos econ\u00f4micos e pol\u00edticos que concentram cada vez mais em poucas m\u00e3os e com enorme poder a propriedade dos diversos meios e chegam a manipular a comunica\u00e7\u00e3o, impondo uma cultura que estimula o hedonismo e o consumismo e atropela nossas culturas com os seus valores e identidades.<\/p>\n<p>Vemos como a publicidade frequentemente introduz falsas expectativas e cria necessidades fict\u00edcias; vemos tamb\u00e9m como especialmente na programa\u00e7\u00e3o televisiva sobejam a viol\u00eancia e a pornografia, que penetram agressivamente no seio das fam\u00edlias (DSD 280).<\/p><\/blockquote>\n<p>O que se diz sobre comunica\u00e7\u00e3o social e a cultura \u00e9 suficiente, ainda que se reconhe\u00e7a que est\u00e1 apenas come\u00e7ando (DSD 275-286).<\/p>\n<p>Recapitulando: \u201cnos comprometemos a trabalhar em: 1. Uma Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o de nossos povos. 2. Uma promo\u00e7\u00e3o integral dos povos latino-americanos e caribenhos. 3. Uma Evangeliza\u00e7\u00e3o inculturada\u201d (DSD 292). S\u00e3o os tr\u00eas temas propostos pelo Papa e assumidos pela Confer\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>5 Confer\u00eancia de Aparecida<\/strong><\/p>\n<p>O t\u00edtulo da Confer\u00eancia de Aparecida (2007) \u00e9 \u201cDisc\u00edpulos e Mission\u00e1rios de Jesus Cristo, para que nEle nossos povos tenham vida\u201d, um t\u00edtulo que expressa adequadamente nosso ser crist\u00e3o.<\/p>\n<p>O documento gira ao redor da vida e o sujeito que a promove \u00e9 o coletivo dos disc\u00edpulos mission\u00e1rios, ainda que o sujeito transcendente seja Jesus Cristo. A primeira parte, \u201cA vida de nossos povos hoje\u201d, se apresenta como o olhar dos disc\u00edpulos mission\u00e1rios sobre a realidade; a segunda, \u201cA vida de Jesus Cristo nos disc\u00edpulos mission\u00e1rios\u201d, desenvolve sua voca\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade, sua comunh\u00e3o na Igreja e seu itiner\u00e1rio formativo; e a terceira, \u201cA vida de Jesus Cristo para nossos povos\u201d, se refere \u00e0 sua miss\u00e3o de servi\u00e7o em favor da vida, da promo\u00e7\u00e3o da dignidade humana, especialmente dos pobres, dos que sofrem e particularmente da fam\u00edlia e seus membros de diferentes idades e responsabilidades, concluindo com um cap\u00edtulo sobre a evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura.<\/p>\n<p>O objetivo de Aparecida \u00e9 \u201crepensar profundamente e relan\u00e7ar com fidelidade e aud\u00e1cia sua miss\u00e3o nas novas circunst\u00e2ncias latino-americanas e mundiais\u201d (DAp 11). A necessidade desse relan\u00e7amento deriva da novidade da \u00e9poca, que exige evangeliz\u00e1-la e inculturar nela o Evangelho. Por isso, o documento dedicar\u00e1 muitas p\u00e1ginas \u00e0 sua caracteriza\u00e7\u00e3o como oportunidade e risco para a vida humana, e para a qualidade humana dessa vida e, mais especificamente, para a f\u00e9 crist\u00e3. Por\u00e9m, para os bispos, \u00e9 tamb\u00e9m imprescind\u00edvel uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o fundante pela situa\u00e7\u00e3o do catolicismo na nossa regi\u00e3o. De fato, o documento reconhece que, na vida cotidiana da Igreja, \u201caparentemente tudo procede com normalidade, mas na realidade a f\u00e9 vai desgastando-se e diluindo-se em mesquinhez\u201d (DAp 12). Por isso, \u00e9 imprescind\u00edvel um \u201cacontecimento fundante\u201d, que esteja ligado a um \u201cencontro vivificante com Cristo\u201d (DAp 13).<\/p>\n<p>Esse acontecimento diz respeito, de um modo ou outro, a todos os cat\u00f3licos: \u201cA todos nos toca recome\u00e7ar a partir de Cristo, reconhecendo que n\u00e3o se come\u00e7a a ser crist\u00e3o por uma decis\u00e3o \u00e9tica ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que d\u00e1 um novo horizonte \u00e0 vida e, com isso, uma orienta\u00e7\u00e3o decisiva\u201d (DAp 12). Portanto, a revitaliza\u00e7\u00e3o do catolicismo \u201cn\u00e3o depende tanto de grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que encarnem essa tradi\u00e7\u00e3o e novidade, como disc\u00edpulos de Jesus Cristo e mission\u00e1rios de seu Reino\u201d (DAp 11).<\/p>\n<p>A partir desse objetivo, o documento afirma que foi escrito em continuidade com as Confer\u00eancias anteriores (DAp 9, 16, 369, 396, 402, 446, 526), j\u00e1 que elas tamb\u00e9m tiveram o mesmo objetivo de atualizar o Evangelho nas suas pr\u00f3prias circunst\u00e2ncias, tendo em vista contribuir para que os povos latino-americanos tenham vida humana segundo a humanidade de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Queremos salientar a import\u00e2ncia de conectar o encontro com Jesus de Nazar\u00e9 com a entrega ao seu Reino. Uma entrega a Jesus que prescinda da tarefa do Reino n\u00e3o \u00e9 entrega a ele, mas a um Cristo que inventamos, uma vez que ele rejeitou a proposta de Pedro de ficar no Tabor contemplando-o (Mc 9,5-8) ou a da Madalena de permanecer desfrutando de sua pessoa ressuscitada (Jo 20,16-18) e os enviou a prosseguir a miss\u00e3o que o Pai lhe havia encomendado (Jo 20,21). Assim, o encontro com Jesus n\u00e3o pode ser concebido como estar devotamente com ele (nisso consiste o pietismo), mas como o seguimento de sua miss\u00e3o com seu mesmo Esp\u00edrito (DAp 129-153).<\/p>\n<p>O m\u00e9todo \u00e9 partir do olhar crente sobre a realidade para ver nela a passagem de Deus e o que se op\u00f5e ao mundo fraterno das filhas e filhos de Deus, isto \u00e9, ao Reino que Jesus veio instaurar, ou, dito com outras palavras, ouvindo os sinais dos tempos:<\/p>\n<blockquote><p>Os povos da Am\u00e9rica Latina e do Caribe vivem hoje uma realidade marcada por grandes mudan\u00e7as que afetam profundamente suas vidas. Como disc\u00edpulos de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados a discernir os \u2018sinais dos tempos\u2019, \u00e0 luz do Esp\u00edrito Santo, para nos colocar a servi\u00e7o do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e \u2018para que a tenham em plenitude\u2019 (Jo 10, 10) (DAp 33; cf. DAp 366).<\/p><\/blockquote>\n<p>Por isso, o m\u00e9todo adotado, em continuidade com as confer\u00eancias anteriores, \u00e9 o ver, julgar e agir:<\/p>\n<blockquote><p>Este m\u00e9todo nos permite articular, de modo sistem\u00e1tico, a perspectiva crist\u00e3 de ver a realidade; a assun\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios que prov\u00eam da f\u00e9 e da raz\u00e3o para seu discernimento e valoriza\u00e7\u00e3o com sentido cr\u00edtico; e, em consequ\u00eancia, a proje\u00e7\u00e3o do agir como disc\u00edpulos mission\u00e1rios de Jesus Cristo (DAp 19).<\/p><\/blockquote>\n<p>A raz\u00e3o dessa sequ\u00eancia \u00e9 que para fazer o equivalente do que ele fez na sua situa\u00e7\u00e3o, que significa segui-lo (cf. DAp 139), n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1rio conhecer seu modo de lidar com sua realidade, mas tamb\u00e9m com a nossa situa\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>Parece bastante acertado que o tema seja a vida, j\u00e1 que, na Am\u00e9rica Latina, a vida \u00e9 amea\u00e7ada e ultrajada de m\u00faltiplos modos. Por outra parte, existe, na nossa regi\u00e3o, um desejo ineg\u00e1vel de vida realmente humana. Al\u00e9m do mais, para isso Jesus veio ao mundo: para que tiv\u00e9ssemos vida e, inclusive, para nos dar vida com sua vida (DAp 347-364).<\/p>\n<p>\u00c9 decisivo que os crist\u00e3os tenhamos que ser disc\u00edpulos, porque, como o documento reconhece com grande realismo, \u201cse muitas das estruturas atuais geram pobreza, em parte \u00e9 devido \u00e0 falta de fidelidade a compromissos evang\u00e9licos de muitos crist\u00e3os com especiais responsabilidades pol\u00edticas, econ\u00f4micas e culturais\u201d (DAp 501). Tamb\u00e9m \u00e9 um acerto unir a condi\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulos \u00e0 de enviados, porque Jesus escolheu disc\u00edpulos para que participassem de sua miss\u00e3o. Se os teve a seu lado, foi para que, na conviv\u00eancia, se impregnassem por conaturalidade (cf. DAp 336) de sua mentalidade, suas atitudes e seu modo de se relacionar. \u00c9 tamb\u00e9m destac\u00e1vel que n\u00e3o proponha a miss\u00e3o como a maquin\u00e1ria das empresas para vender seus produtos, mas como um acontecimento \u201cque precisa passar de pessoa a pessoa, de casa em casa, de comunidade a comunidade [\u2026], sobretudo entre as casas das periferias urbanas e do interior [\u2026], procurando dialogar com todos em esp\u00edrito de compreens\u00e3o e de delicada caridade.\u201d E continua citando o Papa Bento XVI: \u201cse as pessoas encontradas est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, \u00e9 necess\u00e1rio ajud\u00e1-las, como faziam as primeiras comunidades crist\u00e3s, praticando a solidariedade, para que se sintam amadas de verdade\u201d (DAp 550).<\/p>\n<p>O documento especifica os lugares onde nos encontramos com Jesus de Nazar\u00e9: em primeiro lugar, nos evangelhos (DAp 247, 255), tamb\u00e9m na comunidade (DAp 256), notadamente nos pobres (DAp 257), na religi\u00e3o do povo (DAp 258-265) e, certamente, na Ceia do Senhor (DAp 251).<\/p>\n<p>A partir desse encontro personalizado com Jesus de Nazar\u00e9, passa-se de uma Igreja clericalizada a outra, na qual todos s\u00e3o sujeitos que se edificam mutuamente e participam ativamente na miss\u00e3o (DAp 154, 156, 159, 162). O documento exp\u00f5e os lugares de comunh\u00e3o para a miss\u00e3o: a par\u00f3quia como comunidade de comunidades, as comunidades eclesiais de base e outras pequenas comunidades, e as confer\u00eancias episcopais; em seguida, analisa como cada uma das voca\u00e7\u00f5es na Igreja contribuem para a comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>O documento assinala que essa miss\u00e3o, por sua entrega aos pobres e a defesa deles, ocasionou m\u00e1rtires, um texto que era esperado desde Puebla:<\/p>\n<blockquote><p>Seu empenho a favor dos mais pobres e sua luta pela dignidade de cada ser humano tem ocasionado, em muitos casos, a persegui\u00e7\u00e3o e inclusive a morte de alguns de seus membros, os quais consideramos testemunhas da f\u00e9. Queremos recordar o testemunho corajoso de nossos santos e santas, e aqueles que, inclusive sem terem sido canonizados, viveram com radicalidade o Evangelho e ofereceram sua vida por Cristo, pela Igreja e por seu povo (DAp 98).<\/p><\/blockquote>\n<p>O documento tematiza a rela\u00e7\u00e3o entre Jesus e os pobres de modo paradigm\u00e1tico: \u201cs\u00e3o chamados a contemplar, nos rostos sofredores de seus irm\u00e3os, o rosto de Cristo que nos chama a servi-lo\u201d (DAp 393). A raz\u00e3o \u00e9 que \u201ctudo o que tenha rela\u00e7\u00e3o com Cristo, tem rela\u00e7\u00e3o com os pobres, e tudo o que est\u00e1 relacionado com os pobres clama por Jesus Cristo\u201d (DAp 393). Desse modo, temos que dedicar tempo aos pobres como amigos e procurar que eles sejam sujeitos de sua liberta\u00e7\u00e3o (DAp 394). Por isso, assim como Jesus viveu e prop\u00f4s a reciprocidade de dons,<\/p>\n<blockquote><p>os disc\u00edpulos e mission\u00e1rios de Cristo promovem uma cultura do compartilhar em todos os n\u00edveis em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura dominante de acumula\u00e7\u00e3o ego\u00edsta, assumindo com seriedade a virtude da pobreza como estilo de vida s\u00f3brio para ir ao encontro e ajudar as necessidades dos irm\u00e3os que vivem na indig\u00eancia (DAp 540).<\/p><\/blockquote>\n<p>Os pr\u00f3prios pobres s\u00e3o tamb\u00e9m motivados pelos bispos a isso (DAp 257, 265).<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, prop\u00f5em una globaliza\u00e7\u00e3o alternativa, \u201cque se fundamenta no evangelho da justi\u00e7a, da solidariedade e do destino universal dos bens, e que supere a l\u00f3gica utilitarista e individualista, que n\u00e3o submete os poderes econ\u00f4micos e tecnol\u00f3gicos a crit\u00e9rios \u00e9ticos\u201d (DAp 474<sub>; <\/sub>Cf. DAp 64); \u201cnovas estruturas que promovam uma aut\u00eantica conviv\u00eancia humana, que impe\u00e7am a prepot\u00eancia de alguns e facilitem o di\u00e1logo construtivo para os necess\u00e1rios consensos sociais\u201d (DAp 384). Para possibilit\u00e1-lo, prop\u00f5em<\/p>\n<blockquote><p>apoiar a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil para a reorienta\u00e7\u00e3o e consequente reabilita\u00e7\u00e3o \u00e9tica da pol\u00edtica [\u2026], a cria\u00e7\u00e3o de oportunidades para todos, a luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, a vig\u00eancia dos direitos do trabalho e sindicais [\u2026], promover uma justa regula\u00e7\u00e3o da economia, das finan\u00e7as e do com\u00e9rcio mundial (DAp 406).<\/p><\/blockquote>\n<p>Para que tudo isso seja poss\u00edvel, deve-se superar a divis\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado, t\u00edpica da modernidade, que pode declarar esses temas como assunto de cada um, sem transcend\u00eancia. Pelo contr\u00e1rio,<\/p>\n<blockquote><p>quanta disciplina de integridade moral necessitamos, entendendo essa disciplina no sentido crist\u00e3o do autodom\u00ednio para fazer o bem, para ser servidor da verdade e do desenvolvimento de nossas tarefas sem nos deixar corromper por favores, interesses e vantagens. S\u00e3o necess\u00e1rias muita for\u00e7a e muita perseveran\u00e7a para conservar a honestidade que deve surgir de uma nova educa\u00e7\u00e3o que rompa o c\u00edrculo vicioso da corrup\u00e7\u00e3o imperante (DAp 507).<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso assinalar, no entanto, a limita\u00e7\u00e3o do documento de Aparecida. Al\u00e9m do horizonte que, como em Puebla, e ainda mais em Santo Domingo, concebe a salva\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria e a celebra nos sacramentos, principalmente na Ceia do Senhor, tamb\u00e9m afloram outros dois horizontes incompat\u00edveis: a teologia dos mist\u00e9rios e una vers\u00e3o um tanto fundamentalista da teologia kerigmatica. \u00c9 necess\u00e1rio dizer que os textos mais prof\u00e9ticos foram sistematicamente suprimidos pelos que tinham o controle final da reda\u00e7\u00e3o (por exemplo, o que dizem das CEBs nos n. 193-195 da vers\u00e3o original aprovada pela assembleia e o que ficou nos n. 178-180 da vers\u00e3o definitiva). Isso porque os que promovem afirma\u00e7\u00f5es mais piedosas e transcendentalizadas s\u00e3o os que vivem mais adaptados a essa ordem social. Ambos remetem a Jesus de Nazar\u00e9, mas uns se restringem mais a seu mist\u00e9rio (por isso a abund\u00e2ncia de cita\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o) e s\u00e3o propensos a linguagens doxol\u00f3gicas, muito abundantes nesse documento, j\u00e1 que, para eles, o contato prim\u00e1rio com Cristo \u00e9 o culto. Outros, por sua parte, insistem que o mist\u00e9rio de Jesus reluz na sua hist\u00f3ria (por isso remetem aos sin\u00f3ticos), nessa hist\u00f3ria deve-se descobrir seu sentido e, ao continu\u00e1-la, entra-se em comunh\u00e3o com ele.<\/p>\n<p>Os dois grupos valorizam a missa e gostam dela, mas os primeiros a entendem como o encontro fontal do qual vivem, e os segundos como a celebra\u00e7\u00e3o vivificante e comprometedora do seguimento na vida. Para os primeiros, o Reino se identifica com a pessoa de Jesus. Isso tem duas consequ\u00eancias: a primeira \u00e9 que o acontecimento do reino \u00e9 um acontecimento intraeclesial, cuja porta \u00e9 o batismo e cujo alimento \u00e9 a Palavra e os sacramentos (por exemplo, DAp 382); a segunda, que a miss\u00e3o consistir\u00e1 em p\u00f4r em contato com Jesus, para que se integrem \u00e0 Igreja, na qual est\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o. Para os segundos, Jesus \u00e9 certamente interno ao Reino, mas a raz\u00e3o \u00e9 que nele e s\u00f3 nele somos filhos de Deus e irm\u00e3os de todos os seres humanos (por exemplo, DAp 139, 361).<\/p>\n<p>O objetivo desse texto \u00e9 ajudar na compreens\u00e3o do documento que foi produzido como um compromisso por esses dois grupos e, por fim, favorecer a compreens\u00e3o da Igreja Latino-americana para nos situar conscientemente nela segundo o dom recebido.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Trigo, SJ. Facultad de teolog\u00eda de la Universidad Cat\u00f3lica Andr\u00e9s Bello, Caracas, Venezuela. Texto original espanhol.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p>CELAM. <em>I Conferencia General del CELAM. <\/em>Documento de R\u00edo de Janeiro (DR). Bogot\u00e1: CELAM, 1955. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.celam.org\/conferencias_rio.php\">https:\/\/www.celam.org\/conferencias_rio.php<\/a>. Acesso: 30 ago. 2022.<\/p>\n<p>CELAM. <em>II<\/em> <em>Conferencia General del Episcopado Latinoamericano<\/em>. La Iglesia en la actual transformaci\u00f3n de Am\u00e9rica Latina a la luz del Concilio. Documento de Medell\u00edn. Bogot\u00e1: CELAM, 1968. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/celam.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/2-conferencia-general-medellin.pdf\">https:\/\/celam.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/2-conferencia-general-medellin.pdf<\/a> Acesso: 23 mar. 2022.<\/p>\n<p>CELAM. <em>III Conferencia General del Episcopado Latinoamericano.<\/em> La evangelizaci\u00f3n en el presente y en el futuro de Am\u00e9rica Latina. Documento de Puebla. Bogot\u00e1: CELAM, 1979. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/celam.org\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/3-conferencia-general-puebla.pdf\">Documento de Puebla. III Conferencia General del Episcopado Latinoamericano (celam.org)<\/a> Acesso: 26 mar. 2022.<\/p>\n<p>CELAM. <em>IV Conferencia General del Episcopado Latinoamericano<\/em>. Nueva evangelizaci\u00f3n, promoci\u00f3n humana, cultura crist\u00e3. \u201cJesus Cristo ayer, hoy y siempre. Documento de Santo Domingo. Bogot\u00e1: CELAM, 1992. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/celam.org\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/conferencia-general-santo-domingo.pdf\">IV (celam.org)<\/a> Acesso: 25 mar. 2022.<\/p>\n<p>CELAM. <em>V Conferencia General del Episcopado Latinoamericano<\/em>. Disc\u00edpulos misioneres de Jesus Cristo para que nossos pueblos en \u00c9l tenga vida. Yo soy el camino, la verdad y la vida. Documento de Aparecida. Bogot\u00e1: CELAM, 2007. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/celam.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/5-conferencia-general-aparecida.pdf\">https:\/\/celam.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/5-conferencia-general-aparecida.pdf<\/a> \u00a0Aceso 25 mar. 2022<\/p>\n<p>COMBLIN, J. El significado teol\u00f3gico-pastoral de Puebla. In: AMERINDIA. <em>Construyendo puentes entre teolog\u00edas y culturas<\/em>. Bogot\u00e1: San Pablo, 2011.<\/p>\n<p>DUSSEL, E. <em>Historia de la Iglesia en Am\u00e9rica Latina<\/em>. Nova Terra, Barcelona 1964.<\/p>\n<p>LONDO\u00d1O, F. T. R\u00edo de Janeiro 1955: Fundaci\u00f3n del CELAM. In: IHIg (Instituto de Historia de la Iglesia). <em>Anuario de la historia de la Iglesia V. <\/em>Pamplona: Universidad de Navarra\/Facultad de Teolog\u00eda, 1996. p. 405-416.<\/p>\n<p>PIO XII. Carta apostolica <em>Ad Ecclesiam Christi<\/em> del Papa Pio XII a los obispos latinoamericanos. Roma: Vatican, 1955. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/pius-xii\/es\/apost_letters\/documents\/hf_p-xii_apl_19550629_ad-ecclesiam-christi.html\">Ad Ecclesiam Christi, a los Obispos latinoamericanos (29 de junio de 1955) | PIUS XII (vatican.va)<\/a>. Acceso: 30 ago. 2022.<\/p>\n<p>SCATENA, Silvia. El \u201cSina\u00ed\u201d\u2019 de Medell\u00edn: La conferencia de 1968 como \u201cNuevo Pentecost\u00e9s\u201d para la iglesia latinoamericana\u201d. <em>Revista latinoamericana de teolog\u00eda,<\/em> n. 106, p. 11-28, 2019.<\/p>\n<p>TRIGO, P. Medell\u00edn, una propuesta responsable. In<em> Revista Latinoamericana de Teolog\u00eda,<\/em> n. 103, enero-abril de 2018, p. 33-57.<\/p>\n<p>TRIGO, P. Puebla: un compromiso hist\u00f3rico. <em>Nueva Sociedad,<\/em> n. 41, 1979, p. 98-107.<\/p>\n<p>TRIGO, P. La opci\u00f3n de Puebla. <em>SIC<\/em>, n. 413, 1979, p. 108-111.<\/p>\n<p>TRIGO, P. Leer a Medell\u00edn hoy. In: <em>A esperan\u00e7a dos pobres vive<\/em>, S\u00e3o Paulo: Paulus, 2003. p. 685-700.<\/p>\n<p>TRIGO, P. An\u00e1lisis del juzgar en el documento de Medell\u00edn. In <em>ITER,<\/em> v. 76-77, mayo\/cic. 2018, p. 153-212.<\/p>\n<p>TRIGO, P. Medell\u00edn: una propuesta responsable. In <em>Revista Latinoamericana de Teolog\u00eda<\/em>, v. 103, ene.\/abr. 2018, p. 33-57.<\/p>\n<p>TRIGO, P. Puebla, sobre el pueblo y su cristianismo. In <em>ITER<\/em>, v. 78-79, ene.\/ago.2019, p. 17-51.<\/p>\n<p>TRIGO, P. Puebla: una experiencia espiritual.\u00a0In <em>SIC<\/em>, v. 413, 1979, p. 107. Dispon\u00edvel em: \u201c<a href=\"http:\/\/www.gumilla.org\/biblioteca\/bases\/biblo\/texto\/SIC1979413_107.pdf\">Puebla: una experiencia espiritual\u201d.<\/a> Acesso: 30 ago. 2022.<\/p>\n<p>TRIGO, P. Santo Domingo: IV Conferencia General del Episcopado L. A.: la asamblea y el documento.\u00a0In <em>SIC<\/em>, v. 550, 1992, p. 445-455. Dispon\u00edvel em: \u201c<a href=\"http:\/\/www.gumilla.org\/biblioteca\/bases\/biblo\/texto\/SIC1992550_445-455.pdf\">Santo Domingo: IV Conferencia General del Episcopado L. A: la asamblea y el documento\u201d.<\/a> Acesso: 18 ago. 2022.<\/p>\n<p>VAZ, H. C. de Lima. Igreja reflexo vs Igreja-fonte. <em>Cadernos Brasileiros<\/em>, Rio de Janeiro, n. 46, mar\/abr. 1968, p. 17-22.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Theologica Latinoamericana j\u00e1 publicou o verbere \u201cAs Confer\u00eancias do Conselho Episcopal Latino-Ameriano\u201d, texto de Sandra Arenas, com uma vis\u00e3o geral do conjunto das Confer\u00eancias e dos temas tratados. O presente verbete enriquece o anterior, oferecendo outra chave de leitura.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Dussel, na sua an\u00e1lise dessa Confer\u00eancia, centra-se principalmente em como, a partir dela, come\u00e7a a organiza\u00e7\u00e3o da Igreja latino-americana em todos os campos e a partir de si mesma (DUSSEL, 1964, p. 186-190).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As cinco Confer\u00eancias gerais do Episcopado Latino-americano Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Confer\u00eancia do Rio 2 Confer\u00eancia de Medell\u00edn 3 Confer\u00eancia de Puebla 4 Confer\u00eancia de Santo Domingo 5 Confer\u00eancia de Aparecida Conclus\u00e3o Refer\u00eancias Introdu\u00e7\u00e3o A Igreja cat\u00f3lica da Am\u00e9rica Latina conheceu uma importante evolu\u00e7\u00e3o desde a funda\u00e7\u00e3o do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), deixando de ser, progressivamente, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-2731","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-da-teologia-e-do-cristianismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2731","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2731"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2731\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3281,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2731\/revisions\/3281"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2731"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2731"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2731"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}