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{"id":2688,"date":"2022-12-30T08:33:36","date_gmt":"2022-12-30T11:33:36","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2688"},"modified":"2023-01-28T16:11:06","modified_gmt":"2023-01-28T19:11:06","slug":"a-sapiencia-em-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2688","title":{"rendered":"A sapi\u00eancia em Israel"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do per\u00edodo liter\u00e1rio sapiencial<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.1 Do surgimento ao per\u00edodo dos Ju\u00edzes: Israel pr\u00e9-estatal (1250-1000 aC)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.2 A Monarquia (Israel estatal: 1000-587 aC)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.3 O Ex\u00edlio (587\u2013538 aC)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.4 O p\u00f3s-ex\u00edlio \u2013 \u00e9poca persa (538-332 aC): per\u00edodo de reconstru\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.5 A \u00e9poca grega (333-63 aC): o helenismo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.6 A rea\u00e7\u00e3o ao Helenismo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A sabedoria em Israel<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 Continuidade ou inova\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 A teologia da retribui\u00e7\u00e3o ou da justa recompensa<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.3 Crise da sapi\u00eancia e recome\u00e7o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.4 A sapi\u00eancia e Jesus<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 A literatura sapiencial israelita<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1 A literatura<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2 As formas ou g\u00eaneros liter\u00e1rios sapienciais b\u00e1sicos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sapi\u00eancia de Israel brota da cepa comum dos povos circunvizinhos.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Esse saber evoluiu e se fez livro, do per\u00edodo da tardia reconstru\u00e7\u00e3o p\u00f3s-ex\u00edlica ao in\u00edcio do helenismo, e com finalidades claras. Entre elas, destacam-se a educa\u00e7\u00e3o da pessoa num ambiente em mudan\u00e7a (<em>ad intra<\/em>) e a tentativa de verbalizar a f\u00e9 do povo da alian\u00e7a numa linguagem apta ao di\u00e1logo com os vizinhos e, particularmente, com o mundo \u201cglobalizado\u201d, ou seja, impregnado pelo helenismo, o mundo da <em>sofia<\/em> (<em>ad<\/em> <em>extra<\/em>). A sapi\u00eancia b\u00edblica ter\u00e1 que avaliar pressupostos teol\u00f3gicos como a teologia da retribui\u00e7\u00e3o, passar\u00e1 por crises, se purificar\u00e1 e desembocar\u00e1 no NT, sobretudo, no agir de Jesus e nos Evangelhos. Em termos de literatura, a sapi\u00eancia israelita est\u00e1 condensada no seguinte conjunto de livros: J\u00f3, Pr, Ct, Ecl, Eclo e Sb. Esses aspectos e outras particularidades ser\u00e3o apresentados a seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do per\u00edodo liter\u00e1rio sapiencial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta contextualiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pretende abordar de forma pormenorizada a hist\u00f3ria de Israel. Quer apenas lembrar suas principais etapas e, nelas, pontos relevantes que ajudem a entender em que momento da hist\u00f3ria aparece a <em>literatura<\/em> sapiencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.1 Do surgimento ao per\u00edodo dos Ju\u00edzes: Israel pr\u00e9-estatal (1250-1000 aC)<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cerca de 1250 aC, emerge no Antigo Oriente Pr\u00f3ximo uma nova grandeza que porta o nome de Israel. O evento fundante e catalizador desta nova realidade \u00e9 a sa\u00edda do Egito, o \u00eaxodo, sob a lideran\u00e7a de Mois\u00e9s. Israel \u00e9, na verdade, uma confedera\u00e7\u00e3o de tribos lideradas por <em>ju\u00edzes<\/em> (Jz 2,16.18), isto \u00e9, libertadores (Ex 18,21-26; 1Sm 8,1-3; Rt 1,1), que incialmente atuavam apenas em momentos de crise, e pelos anci\u00e3os (1Sm 8,4). A unidade b\u00e1sica \u00e9 a fam\u00edlia (casa) inserida no seu cl\u00e3 e na sua tribo. A f\u00e9, simbolizada na Arca da Alian\u00e7a, \u00e9 n\u00f4made e hist\u00f3rica. O Deus, YHWH, caminha com seu povo. Israel ainda n\u00e3o \u00e9 um Estado, n\u00e3o \u00e9 reconhecido como na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem um governo central, como lhe caracteriza a frase referida a este per\u00edodo: \u201cnesse tempo n\u00e3o havia rei em Israel\u201d (Jz 17,6; 18,1; 19,1; 21,25), embora, na verdade, Jav\u00e9 reinasse sobre ele (Jz 8,23b; 1Sm 8,7b; 12,12b) num pacto de Alian\u00e7a. Essa etapa ficar\u00e1 conhecida como <em>per\u00edodo dos ju\u00edzes<\/em> ou <em>tribalismo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.2 A Monarquia (Israel estatal: 1000-587 aC)<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em torno da virada para o primeiro mil\u00eanio aC, Israel enfrenta alguns desgastes, como: o arrefecimento da f\u00e9 que os unia, como o caso dos filhos de Eli (1Sm 2,12-17.22-25), a consulta \u00e0 necromante por Saul (1Sm 28) ou a venera\u00e7\u00e3o de Baal (Jz 8,33-34); atritos entre as tribos, como o crime de Gaba\u00e1 (Jz 19) ou a rejei\u00e7\u00e3o de Benjamim (Jz 21,15-25); ju\u00edzes corruptos (1Sm 8,3) e tentados a serem rei, como Gede\u00e3o (Jz 8,22) e Abimelec (Jz 9,1-6). Por outro lado, aparecem as \u201cnovidades\u201d do momento, como: a domestica\u00e7\u00e3o do boi, animal j\u00e1 presente no c\u00f3digo da alian\u00e7a (Ex 20,22\u201323,19) e na primeira guerra de Saul (1Sm 11), associado ao dom\u00ednio do ferro (1Sm 13,19-22) e a comercializa\u00e7\u00e3o do azeite (Ex 23,11) como fatores comerciais; n\u00e3o surpreende o aparecimento de endividados (1Sm 22,2). Um sistema j\u00e1 ineficaz para a defesa \u00e9 confrontado com a amea\u00e7a externa de seguran\u00e7a, como o conflito com os filisteus (1Sm 4,1-11) e os amonitas (1Sm 11,1-11). Esses fatores serviram de pretexto a uma (nova) classe abastada que necessitava de um novo sistema de governo centralizado e que correspondesse a seus interesses. Israel quer ter um rei como as outras na\u00e7\u00f5es (1Sm 8,5.19b-20). Assim, inicia-se o sistema mon\u00e1rquico com Saul e Davi, chegando ao seu pleno desenvolvimento em Salom\u00e3o. Trata-se de um governo central, com ex\u00e9rcito, pal\u00e1cio e corte, com um amplo aparato administrativo que se serve de um esquema de tributa\u00e7\u00e3o, corveia, com\u00e9rcio externo e luxo (1Rs 9\u201310), enquanto encanta o povo com as grandes constru\u00e7\u00f5es (1Rs 5,15\u20137,51). Constr\u00f3i-se um templo para Jav\u00e9, a Arca da Alian\u00e7a ser\u00e1 fixada no templo (2Sm 6; 1Rs 8) e a religi\u00e3o torna-se a-hist\u00f3rica, sedent\u00e1ria, estatizada, a servi\u00e7o da ideologia mon\u00e1rquica. Todo um aparato lit\u00fargico, envolvendo sacerd\u00f3cio, altar e sacrif\u00edcios, corrobora para este fim. Israel agora \u00e9 um Estado, mas desde Davi passa a ser um Estado imperialista (1Rs 5,1). Ora, para gerir tudo isso se pressup\u00f5e a <em>sabedoria<\/em> de Salom\u00e3o (1Rs 5,9-14; 10,1-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de Salom\u00e3o, o reino \u00e9 divido (1Rs 12). O reino do norte, Israel, ser\u00e1 dominado pelos ass\u00edrios com a queda de sua capital, Samaria, em 722 aC, e o reino do sul, Jud\u00e1, ter\u00e1 seu fim com a invas\u00e3o babil\u00f4nica \u00e0 sua capital, Jerusal\u00e9m, em 587 aC. Uma avalia\u00e7\u00e3o da monarquia pode ser vista na f\u00e1bula de Jot\u00e3o (Jz 9,7-15), a prop\u00f3sito do rei Abimelec: os in\u00fateis querem ser reis, mas n\u00e3o passam de espinheiros sobre o povo. A monarquia afundou-se na infidelidade ao Deus da alian\u00e7a, expressa na idolatria e nas injusti\u00e7as sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destaca-se, neste contexto, a figura dos profetas. Poucos comem \u00e0 mesa dos reis. A maioria deles, fi\u00e9is \u00e0 alian\u00e7a e \u00e0 f\u00e9 dos pais, criticam sem descanso os desmandos dos reis e da sociedade, tentando corrigir a rota sociopol\u00edtica e conclamando \u00e0 fidelidade \u00e0 alian\u00e7a. Tentavam, em v\u00e3o, levar \u00e0 interioriza\u00e7\u00e3o dos valores da f\u00e9 e recuperar sua for\u00e7a hist\u00f3rica. Apesar do esfor\u00e7o, n\u00e3o puderam evitar o ex\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.3 O Ex\u00edlio (587\u2013538 aC)<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nabucodonosor, rei da Babil\u00f4nia, e seu ex\u00e9rcito sitiam Jerusal\u00e9m, saqueiam o templo e o pal\u00e1cio do rei e levam cativos a fam\u00edlia real, a elite da cidade e os profissionais de seu interesse (2Rs 24,10\u201325,24; Jr 52). Deixam para tr\u00e1s cerca de 50 a 100 mil pessoas, sobretudo, os pobres (2Rs 25,12; 24,14; Jr 39,10; 40,7b; 52,16). Alguns conseguiram fugir (2Rs 25,22-25; Jr 40,7-12; 42,11-15; 43,7; Is 11,11). A ru\u00edna que os babil\u00f4nicos deixam atr\u00e1s de si, bem como a sorte dos que ficaram, podem ser percebidas a partir do Livro das Lamenta\u00e7\u00f5es. Israel est\u00e1 agora sem terra, sem templo, sem altar, sem sacrif\u00edcios e sem Jerusal\u00e9m. Suas institui\u00e7\u00f5es fracassaram. Daniel, escrito tardio, mas contextualizado no ex\u00edlio (Dn 1,1-2), descreve este quadro: \u201cN\u00e3o h\u00e1 mais, nestas circunst\u00e2ncias, nem chefe, nem profeta, nem pr\u00edncipe, nem holocaustos, nem sacrif\u00edcio, nem obla\u00e7\u00e3o, nem incenso, nem lugar onde oferecermos as prim\u00edcias diante de ti para encontrarmos miseric\u00f3rdia\u201d (Dn 3,38-39a, adi\u00e7\u00e3o grega). Onde foram parar as promessas divinas? Aquelas a Abra\u00e3o (Gn 12,1-3.7), a Davi (2Sm 7,4-17)? Que sorte teve a estabilidade do templo (altar, sacerd\u00f3cio, sacrif\u00edcios) assegurada a Salom\u00e3o? Deus ainda se lembra de seu povo? Onde estava que n\u00e3o evitou a cat\u00e1strofe? O que fazer quando as institui\u00e7\u00f5es fracassam? Abre-se a\u00ed uma grande crise de f\u00e9, uma grande \u201cnoite escura\u201d para o povo. O ex\u00edlio cria um grande problema teol\u00f3gico para Israel. Por conseguinte, depois do ex\u00edlio, ele n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo. Israel precisar\u00e1 reencontrar sua identidade, refazer sua vis\u00e3o de Deus, refazer seu caminho. A cat\u00e1strofe, por\u00e9m, longe de destruir a f\u00e9, a purifica e se reverte em chance. O ex\u00edlio passa a ser visto como ju\u00edzo e n\u00e3o passividade de Deus, n\u00e3o como puni\u00e7\u00e3o, mas ocasi\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o e recome\u00e7o. Era o desafio de ver, na desgra\u00e7a, a gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.4 O p\u00f3s-ex\u00edlio \u2013 \u00e9poca persa (538-332 aC): per\u00edodo de reconstru\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s 50 anos, Ciro, rei da P\u00e9rsia, libera o retorno dos exilados. Nem todos os dispersos voltaram e, dos que voltaram, alguns n\u00e3o foram para Jerusal\u00e9m, mas, certamente, todos mudaram o modo de pensar. Inicia-se a fase da <em>reconstru\u00e7\u00e3o<\/em> (538-332 aC). Ela ser\u00e1 marcada, de um lado, por um Israel repatriado (<em>Gol\u00e1<\/em>), que acaba de viver uma experi\u00eancia de internacionalidade e animado por uma mentalidade aberta de ser <em>servo, luz das na\u00e7\u00f5es<\/em> (Is 42,6; 49,6), retomando a perspectiva universalista iniciada em Abra\u00e3o. Por outro lado, o retorno para Israel n\u00e3o foi s\u00f3 f\u00edsico-geogr\u00e1fico, voltar implicava a preocupa\u00e7\u00e3o de reconstruir sua identidade e a pureza da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo mudou: pol\u00edtica sem monarquia, religi\u00e3o sem templo e seu aparato, sociedade sem rei e sem institui\u00e7\u00f5es. Israel precisa se reinventar, reconstruir sua ideia de Deus, encontrar uma nova forma de se organizar, celebrar, conceber a vida, enfim, a experi\u00eancia gera uma reflex\u00e3o nova, descobre outros crit\u00e9rios para perceber a presen\u00e7a de Deus na trama da vida. Algumas mudan\u00e7as de foco ser\u00e3o not\u00e1veis como: passa-se do rei\/sacerdotes \u00e0 fam\u00edlia; do pal\u00e1cio \u00e0 casa; do templo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e ao cotidiano; de Israel ao universo; do israelita ao ser humano; do profeta ao s\u00e1bio; da teofania \u00e0 experi\u00eancia da vida. Era preciso encontrar nova forma de pensar a rela\u00e7\u00e3o com o divino, com a vida e com o outro.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"151\">&nbsp;<\/td>\n<td width=\"132\"><strong>Pr\u00e9-ex\u00edlio<\/strong><\/td>\n<td width=\"142\"><strong>P\u00f3s-ex\u00edlio<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"151\"><em>Institui\u00e7\u00e3o<\/em><\/td>\n<td width=\"132\">Pal\u00e1cio\/templo<\/td>\n<td width=\"142\">Casa<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"151\"><em>Protagonista<\/em><\/td>\n<td width=\"132\">Rei\/sacerdote<\/td>\n<td width=\"142\">Fam\u00edlia<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"151\"><em>Motivadores<\/em><\/td>\n<td width=\"132\">Profetas<\/td>\n<td width=\"142\">S\u00e1bio<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"151\"><em>Manifesta\u00e7\u00e3o<\/em> <em>de Deus<\/em><\/td>\n<td width=\"132\">Teofania\/revela\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"142\">Experi\u00eancia da vida<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"151\"><em>Foco<\/em><\/td>\n<td width=\"132\">Governo: Israel<\/td>\n<td width=\"142\">Homem: universo<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco mais tarde (ca. 445 aC), n\u00e3o desvinculado da preocupa\u00e7\u00e3o com a identidade, o governador Neemias reconstr\u00f3i os muros de Jerusal\u00e9m (Ne 3) e resgata a ideia do Lev\u00edtico (Lv 20,24-26) de que <em>povo eleito<\/em> \u00e9 povo <em>separado<\/em> (Ne 9,2; 10,29.31; 13,3.23-27.30). Na mesma linha, o governador e sacerdote Esdras, preocupado em oferecer uma base normativa para o povo, reprop\u00f5e a observ\u00e2ncia da Lei (Esd 7,25-26; Ne 8), restabelece o templo com seu aparato (Esd 3; 6) e radicaliza o pensamento de Neemias: quem se casou com mulher estrangeira deve mand\u00e1-la embora com seus filhos (Esd 9,1-2; 10,2-3.11.18-19.44; 6,21). Na sua vis\u00e3o, era preciso purificar a etnia. Com estes tr\u00eas elementos, a lei, o templo e a ra\u00e7a, Esdras coloca as bases daquilo que, mais tarde, vai se chamar Juda\u00edsmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, a abertura inicial dar\u00e1 lugar a um fechamento, uma esp\u00e9cie de \u201cnacionaliza\u00e7\u00e3o da f\u00e9\u201d. \u00c9 o muro f\u00edsico se tornando um muro ideol\u00f3gico. A inten\u00e7\u00e3o de ambos era sadia, restaurar a identidade do povo, mas a leitura estreita do pensamento de ambos contribuir\u00e1, mais tarde, para a fragmenta\u00e7\u00e3o do povo, sobretudo, a partir do per\u00edodo dos Macabeus (167-134 aC). O contraponto a esse pensamento ser\u00e1 oferecido respectivamente nos livros de Jonas e Rute.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, entre 500-322 aC, na Gr\u00e9cia, atuavam figuras como Her\u00f3doto, F\u00eddias, Eur\u00edpedes, S\u00f3focles, S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles. Est\u00e1 em ebuli\u00e7\u00e3o um fen\u00f4meno chamado <em>filosofia<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.5 A \u00e9poca grega (333-63 aC): o helenismo<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 332 aC, emerge Alexandre, o Maced\u00f4nio (1Mc 1,1), na hist\u00f3ria conhecido como Alexandre Magno, e apanha o mundo de surpresa. Ele sonha com um dom\u00ednio mundial, quer ocupar a <em>oikumene<\/em>, isto \u00e9, o mundo habitado de ent\u00e3o. \u201cEmpreendeu, ent\u00e3o, numerosas guerras, apoderou-se de fortalezas e eliminou os reis da terra. Avan\u00e7ou at\u00e9 as extremidades do mundo e tomou os despojos de uma multid\u00e3o de povos, e a terra silenciou diante dele (1Mc 1,2-3)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mentalidade hel\u00eanica come\u00e7a a dominar o mundo. \u00c9 a cultura urbana \u201cglobalizante\u201d, a cultura da <em>polis<\/em>. Ela porta consigo elementos novos: filosofia, economia, cultura, humanismo, administra\u00e7\u00e3o, esportes (2Mc 4,9.12.18), enfim, todo um sistema educacional voltado, sobretudo, para os jovens (<em>eph<\/em><em>\u0113<\/em><em>bos<\/em>). Era, em termos b\u00edblicos, aquilo que, na nossa linguagem moderna, seria a primeira \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jas\u00e3o, um judeu pr\u00f3-helenismo, adquire junto ao rei Ant\u00edoco IV Ep\u00edfanes (175-164 aC), mediante suborno (2Mc 4,7-9), o cargo de sumo sacerdote. \u201cT\u00e3o logo assumiu o poder, come\u00e7ou a fazer passar seus irm\u00e3os de ra\u00e7a para o estilo de vida dos gregos\u201d (2Mc 4,10). Na sequ\u00eancia, o texto classifica os novos costumes como contr\u00e1rios \u00e0 Lei de Israel (v. 11b), estrangeiros (v. 13) e id\u00f3latras (vv. 19-20). Na verdade, encontram-se duas vis\u00f5es da vida e do mundo, duas mentalidades, dois paradigmas, que o autor de Macabeus chama de \u201cestilos de vid<em>a<\/em>\u201d. Trata-se, de um lado, de um Israel rural agarrado \u00e0 Lei, segundo a vis\u00e3o de Esdras e Neemias e, de outro, a vis\u00e3o externa pag\u00e3 helenista, abra\u00e7ada, sobretudo, pela elite urbana de Jerusal\u00e9m e por muitos dentre o povo (1Mc 1,11-15.52). Este quadro culminar\u00e1 na rebeli\u00e3o macabeia mais tarde. O helenismo \u00e9 visto por grande parte como amea\u00e7a \u00e0 f\u00e9 israelita (2Mc 4,13-17a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.6 A rea\u00e7\u00e3o ao helenismo<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jerusal\u00e9m ou Atenas? Israel se encontra diante de dois paradigmas. Tr\u00eas op\u00e7\u00f5es despontam no horizonte: refutar radicalmente o helenismo, deixar-se \u201cengolir\u201d por ele ou dialogar criticamente, uma vez que o helenismo oferecia tamb\u00e9m elementos positivos? Os s\u00e1bios de Israel preferem dialogar com a mentalidade grega. \u00c9 poss\u00edvel abrirem-se \u00e0 influ\u00eancia grega sem, no entanto, trair a originalidade da f\u00e9. Afinal, a abertura para o mundo \u00e9 compat\u00edvel com a f\u00e9 de Abra\u00e3o. Para isso, era preciso codificar os valores de sua f\u00e9 numa linguagem apta a dialogar com a cultura grega. Os s\u00e1bios israelitas verbalizar\u00e3o seu patrim\u00f4nio teol\u00f3gico e cultural numa linguagem que os vizinhos pudessem entender. Ora, a este prop\u00f3sito emerge uma parte significativa da <em>literatura<\/em> sapiencial ou a <em>reda\u00e7\u00e3o<\/em> <em>final<\/em> de algumas destas obras e, mais tarde, a pr\u00f3pria tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia (LXX). Cada autor b\u00edblico (como Ecl, Eclo e Sb) reagir\u00e1, de forma cr\u00edtica, com maior ou menor ader\u00eancia ao helenismo. \u00c9 a f\u00e9 dialogando com a raz\u00e3o, a <em>sapi\u00eancia<\/em> (<em>\u1e25o\u1e35m\u0101h<\/em>) dialogando com a <em>sofia<\/em>!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A sabedoria em Israel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.1 Continuidade ou inova\u00e7\u00e3o?<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria b\u00edblica parte do ambiente e patrim\u00f4nio sapiencial comum do, assim chamado, <em>Crescente F\u00e9rtil.<\/em> Todavia, alcan\u00e7ou grandes propor\u00e7\u00f5es e n\u00e3o foi mera c\u00f3pia, mas releitura criativa \u00e0 luz da f\u00e9 no Senhor. Os s\u00e1bios b\u00edblicos deram continuidade com originalidade. A superioridade da sabedoria israelita pode ser vista j\u00e1 no elogio ufanista ao seu patrono: \u201cA sabedoria de Salom\u00e3o foi maior que a de todos os orientais, maior que toda a sabedoria do Egito. Foi mais s\u00e1bio que qualquer pessoa&#8230;\u201d (1Rs 5,10-14; 10,4-8). E ao povo: \u201cS\u00f3 existe um povo s\u00e1bio e inteligente: \u00e9 essa grande na\u00e7\u00e3o!\u201d (Dt 4,6b). Apresentar-se-\u00e3o a seguir alguns aspectos dessa sabedoria a t\u00edtulo de exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m para o israelita b\u00edblico existe uma ordem c\u00f3smica, criada e mantida por Deus, e o ser humano \u00e9 convidado a espelhar essa ordem da natureza no seu modo de viver. Tudo est\u00e1 interligado e, numa trama de rela\u00e7\u00f5es, a harmonia da cria\u00e7\u00e3o interpela e instiga o ser humano a se organizar e a viver harmonicamente consigo mesmo, com os demais e com o mundo ao seu redor. Portanto, a vis\u00e3o de um cosmo criado, e nele, a nossa exist\u00eancia, que recebem de Deus-criador consist\u00eancia e assist\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 secund\u00e1rio para o s\u00e1bio de Israel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, para o israelita b\u00edblico, esta ordem c\u00f3smica n\u00e3o \u00e9 uma divindade imut\u00e1vel e c\u00edclica na qual o ser humano \u00e9 apenas uma pe\u00e7a passiva. Ele tamb\u00e9m cria, discerne, escolhe, decide, corrige-se, ajusta-se a situa\u00e7\u00f5es imprevistas, \u00e9 livre e atua com habilidade, tem consci\u00eancia, responsabilidade e prud\u00eancia, \u00e9 protagonista, faz hist\u00f3ria, contempla e busca sentido. Enfim, ele se torna artes\u00e3o da pr\u00f3pria vida, faz um caminho, tem as r\u00e9deas da vida na m\u00e3o, d\u00e1 raz\u00f5es \u00e0 sua exist\u00eancia e procura ser feliz. O s\u00e1bio b\u00edblico n\u00e3o delega a responsabilidade de modelar a pr\u00f3pria vida a terceiros, n\u00e3o se conforma em confiar em \u201chor\u00f3scopo\u201d. Por isso, Alonso Sch\u00f6kel prefere definir a sabedoria b\u00edblica como <em>oferta de sensatez, <\/em>que entra na esfera valorativa (SCH\u00d6KEL, 1984, p. 20). De certa forma, a sabedoria de Israel, mais que \u201cbom senso\u201d, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o de vida, um <em>modus vivendi<\/em>. Para Scaiola, \u201ca sapi\u00eancia \u00e9 a arte de dirigir a pr\u00f3pria vida com \u00eaxito\u201d (SCAIOLA, 1997, p. 36). Para Lorenzin, \u201ca sapi\u00eancia \u00e9 a arte de saber pilotar a pr\u00f3pria exist\u00eancia, observando os acontecimentos do mundo, perscrutando a pr\u00f3pria experi\u00eancia e aquela dos outros\u201d (LORENZIN, 2013, p. 9). Portanto, a sabedoria b\u00edblica n\u00e3o \u00e9 apenas saber viver para sobreviver, defender a vida. Lutar pela sobreviv\u00eancia o animal tamb\u00e9m o faz e n\u00e3o \u00e9 s\u00e1bio. A sapi\u00eancia desafia a olhar mais longe, a viver de modo t\u00e3o sensato e prudente que a pessoa se torne <em>feliz<\/em>. Nas palavras do livro de Prov\u00e9rbios: \u201cFeliz o homem que encontrou a sabedoria\u201d (Pr 3,13a; ainda Eclo 14,20).<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> \u00c9 a religi\u00e3o pr\u00e1tica que se traduz numa conduta \u00e9tica diferenciada. Por isso, ser inteligente, saber muito ou tudo ainda n\u00e3o significa ser s\u00e1bio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sensatez humana esbarra em Deus como sua fronteira (Ecl 1,8; Pr 21,30; J\u00f3 11,6-7). Neste aspecto, o saber humano \u00e9 limitado. Isso implica um <em>respeito reverencial<\/em> a Ele como fonte do saber (Br 3,12). \u00c9 o que a literatura sapiencial chama de <em>yir\u2019a\u1e6f YHWH<\/em> (= temor do Senhor), princ\u00edpio do saber (J\u00f3 28,28; Pr 1,7; 9,10; 15,33; Sl 111,10; Eclo 1,14.16.18.20). Assim, o s\u00e1bio israelita descobre que a sabedoria, que adquire como <em>tarefa<\/em> na experi\u00eancia da vida, \u00e9, de fato, um <em>dom<\/em> de Deus (Ecl 2,26; Eclo 1,1.10a; 11,15; 24,3; Pr 2,6; Sl 51,8b; Gn 41,39; Ex 28,3; 31,1-5; 36,2; 1Rs 5,9.26; 10,24; 2Cr 1,12; Jr 10,12; 51,15) e vem, tamb\u00e9m, pela ora\u00e7\u00e3o (Sb 8,21\u20139,18; Eclo 24,2; 1Rs 3,6-14; 2Cr 1,10-11). A sabedoria \u00e9 um atributo divino. Ora, que Deus era s\u00e1bio e dava a sabedoria ao rei, j\u00e1 era conhecido no <em>Crescente F\u00e9rtil<\/em>. Todavia, ganha agora em Israel propor\u00e7\u00f5es e clareza at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o vistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas obras sapienciais tentam vincular a sapi\u00eancia <em>escrita<\/em> com a corte e, particularmente, com Salom\u00e3o (Pr 1,1; 10,1; 25,1; Ecl 1,1; Sb 7,7-9; 9,7-8; Ct 1,1), o grande s\u00e1bio (1Rs 5,9-14). De certa forma, seria algo um tanto anacr\u00f4nico, uma vez que o per\u00edodo de Salom\u00e3o n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a data desses escritos. Por outro lado, hoje se sabe que s\u00f3 a partir do s\u00e9c. VIII-VII aC Israel alcan\u00e7a as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas necess\u00e1rias para investir na escrita e, por conseguinte, na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Al\u00e9m disso, a literatura sapiencial seria redigida no p\u00f3s-ex\u00edlio quando a corte j\u00e1 era coisa do passado. Logo, a atribui\u00e7\u00e3o a Salom\u00e3o se deve ao not\u00f3rio fen\u00f4meno da <em>pseudon\u00edmia<\/em> ou <em>pseudoepigrafia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0s escolas, exceto a atua\u00e7\u00e3o de Qoh\u00e9let, que ensinava o saber ao povo, examinava e corrigia prov\u00e9rbios (Ecl 12,9), e o convite de Sir\u00e1cida (s\u00e9c. II aC) \u201centrem na minha escola\u201d (Eclo 51,23), usando a express\u00e3o <em>bet midrash<\/em> = casa da instru\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, escola, n\u00e3o se sabe praticamente nada a respeito de escolas em Israel. Elas vir\u00e3o a partir desse per\u00edodo, portanto, algo bastante tardio. Assim, corte e escola n\u00e3o s\u00e3o relevantes para a sapi\u00eancia israelita. O foco ser\u00e1, sobretudo, a <em>vida cotidiana<\/em> e, nela, a <em>casa<\/em>, ou seja, a fam\u00edlia (Tb 4,3-21). Certamente, tamb\u00e9m por isso o Dec\u00e1logo focaliza o pai e a m\u00e3e (Ex 20,12; Dt 5,16). Juntamente com os genitores e, particularmente, com o pai, aparece imediatamente o mestre, o s\u00e1bio e o anci\u00e3o. O mestre ganha tamanha estima que \u00e9 chamado de <em>pai<\/em> e o disc\u00edpulo de <em>filho<\/em>. J\u00e1 entre os sum\u00e9rios, o mestre era o \u201cpai da escola\u201d (<em>ummia<\/em>), diferenciando-se do \u201cpai da casa\u201d, e o disc\u00edpulo ou aluno era o \u201cfilho da escola\u201d (CIMOSA, 1997, p. 402). No livro dos Prov\u00e9rbios, por exemplo, em muitas passagens, \u00e9 dif\u00edcil saber se se fala do pai \u201cbiol\u00f3gico\u201d ou do pai-mestre. Ora, a\u00ed na atua\u00e7\u00e3o do pai, mestre e anci\u00e3o emerge outra fonte da sabedoria, a <em>tradi\u00e7\u00e3o<\/em> (Eclo 24,30-34). Outra fonte de sapi\u00eancia em Israel era o <em>interc\u00e2mbio<\/em> com os vizinhos, que n\u00e3o era reduzido ao com\u00e9rcio.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Tudo isso nos permite falar de uma sapi\u00eancia a partir de baixo. Para um povo majoritariamente analfabeto, ela circulava de boca em boca. A <em>literatura<\/em> sapiencial \u00e9 um ato segundo. A corte e a escola, certamente, tiveram um papel em sua coleta, reda\u00e7\u00e3o, sistematiza\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No p\u00f3s-ex\u00edlio:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria como <em>dom<\/em> de Deus. Esse pensamento j\u00e1 era conhecido no Oriente Antigo. Para os cananeus, por exemplo, a sabedoria era um atributo de El, deus supremo, que a concedia ao rei. Agora, por\u00e9m, sobretudo no p\u00f3s-ex\u00edlio, essa dimens\u00e3o teol\u00f3gica passa a ser central na teologia judaica. A f\u00e9 israelita come\u00e7a a ser traduzida ou verbalizada em linguagem sapiencial. O <em>saber<\/em>, a partir do <em>temor<\/em>, \u00e9 sistematizado teologicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria n\u00e3o est\u00e1 vinculada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de gente da corte ou elites, mas a todo ser humano. Ent\u00e3o emerge aos poucos o oficio de mestre e sua respectiva classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela \u00e9 <em>personificada<\/em>. Fala e age como pessoa (Pr 1\u20139; 31,10-31; J\u00f3 28; Eclo 24) e, mais precisamente, como mulher. \u00c9 da fam\u00edlia: m\u00e3e (Sb 7,12) e irm\u00e3 (Pr 7,4). Dela algu\u00e9m pode se enamorar (Sb 8,2) e com ela se casar (Eclo 7,19). Ela convida para um banquete em sua casa (Pr 9,1-6). Est\u00e1 presente em Deus e atua com ele desde a cria\u00e7\u00e3o (Pr 3,19; 8,22-31; Sb 7,21-22). \u00c9 distinta dele, embora proceda da sua boca (Eclo 24,3), mas ele sabe onde ela se esconde (J\u00f3 28,13.20.21.23). Ela manifesta a gl\u00f3ria e a luz divina (Sb 7,25-26). Entretanto, a insensatez ou tolice tamb\u00e9m se personifica e seduz (Pr 9,13-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e1bio e justo. \u00c0 medida em que vai se configurando a figura do s\u00e1bio como algu\u00e9m sensato, prudente e respons\u00e1vel, passa-se a ser visto como algu\u00e9m moralmente bom. Entra-se j\u00e1 na esfera moral. S\u00e1bio passa a ser sin\u00f4nimo de justo. O \u00edmpio, por sua vez, \u00e9 o insensato. \u00c0quele s\u00e3o reservadas a felicidade e a prosperidade e a este a ru\u00edna. Isso \u00e9 claro no Sl 1, por exemplo, um salmo sapiencial. Quando, em determinadas circunst\u00e2ncias ou contexto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel praticar a justi\u00e7a, sobretudo, com a\u00e7\u00f5es mais comunit\u00e1rias, se pode ser justo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sapi\u00eancia e lei. Para o deuteronomista, Israel ser\u00e1 um povo <em>s\u00e1bio<\/em> e inteligente aos olhos dos povos \u00e0 medida em que observa a lei (Dt 4,5-8). O Sir\u00e1cida identificar\u00e1 a sabedoria com a lei (Eclo 24,22-25; 19,20), que passa a ser vista como dom da sabedoria de Deus. <em>S\u00e1bio<\/em> torna-se aquele que perscruta a lei divina (Eclo 6,37; 15,1; 39,1). O salmista transforma isso num ideal de vida: \u00e9 feliz quem faz da lei o centro da vida (Sl 1,1-2). Ambas s\u00e3o como os rios que fertilizam a terra e produzem colheitas (Eclo 24,25-27; Sl 1,3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em se tratando de sapi\u00eancia, o <em>foco<\/em> n\u00e3o \u00e9 Israel, mas o universo, n\u00e3o \u00e9 o israelita, mas o ser humano, n\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria, mas o cotidiano, n\u00e3o \u00e9 Deus, mas o semelhante, n\u00e3o \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o, mas a experi\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 o mandamento, mas o conselho, n\u00e3o s\u00e3o as alturas, mas a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes \u00e9 necess\u00e1rio dizer o \u00f3bvio, ou seja, essa literatura sapiencial, que verbaliza a sabedoria que brota da experi\u00eancia da vida, \u00e9 palavra de Deus, can\u00f4nica. Isso significa que Deus tamb\u00e9m fala atrav\u00e9s da sabedoria popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2 A teologia da retribui\u00e7\u00e3o ou da justa recompensa<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia da retribui\u00e7\u00e3o ou da recompensa. No discurso aos s\u00e1bios, Eli\u00fa defende Deus, dizendo: \u201cEle retribui ao homem segundo suas obras, e d\u00e1 a cada um conforme a sua conduta\u201d (J\u00f3 34,11). Eis a\u00ed o princ\u00edpio da teologia da retribui\u00e7\u00e3o ou da justa recompensa divina. Deus, sendo justo, paga a cada um segundo o que merece, ou seja, segundo suas obras (Sl 62,13b). A base, portanto, \u00e9 a justi\u00e7a divina. Desse modo, o mal se paga com o mal, e o bem com o bem, e nesse mundo, uma vez que a vida futura s\u00f3 ser\u00e1 clara no Livro da Sabedoria e Dn 12,2-3. Nessa perspectiva, a felicidade, a riqueza, o bem-estar s\u00e3o recompensas pela observ\u00e2ncia da lei divina, pela fidelidade a Deus. S\u00e3o sinais de b\u00ean\u00e7\u00e3o! A gra\u00e7a \u00e9 o pr\u00eamio dos fi\u00e9is, dos bons. A enfermidade, o infort\u00fanio, a opress\u00e3o e a pobreza s\u00e3o castigos pela infidelidade e desobedi\u00eancia. A desgra\u00e7a \u00e9 o castigo dos \u00edmpios, dos maus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, isso j\u00e1 era claro em Dt 30,15-20. Embora essa retribui\u00e7\u00e3o visasse o coletivo e n\u00e3o o indiv\u00edduo, de qualquer forma, Deus se apresenta como aquele que assegura a justa recompensa. Para que a lei e os preceitos divinos se a observ\u00e2ncia e a neglig\u00eancia teriam o mesmo resultado? Que valor teria a pr\u00e1xis da justi\u00e7a (Sl 73,13-14)? Portanto, chega-se \u00e0 seguinte equa\u00e7\u00e3o: acolher e praticar a lei = vida pr\u00f3spera; rejeit\u00e1-la = ru\u00edna, desgra\u00e7a. Consequentemente, essa equa\u00e7\u00e3o se desdobra numa outra: <em>rico<\/em> = <em>aben\u00e7oado<\/em>; <em>pobre, sofredor = pregui\u00e7oso, pecador<\/em>. Esquematizando de outro modo: rico = fiel \u00e0 lei = Deus ajuda; pobre = infiel = Deus castiga. Assim, quem cai na desgra\u00e7a \u00e9 porque pecou e ela \u00e9 o castigo merecido. Esse esquema dava seguran\u00e7a. Os s\u00e1bios abra\u00e7aram ingenuamente esta sabedoria (Pr 10,3; 13,25; 14,11; 15,6). O Sl 1, tipicamente sapiencial, faz uma bela s\u00edntese desse esquema polarizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota-se a\u00ed uma propens\u00e3o da sapi\u00eancia em definir (ou possibilitar ler) o modo de atuar de Deus a partir da nossa conduta, como se a gra\u00e7a estivesse condicionada ao m\u00e9rito humano. Ora, a teologia da retribui\u00e7\u00e3o ou da justa recompensa continua atuante disfar\u00e7ada sob o t\u00edtulo de <em>Teologia da Prosperidade<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o passar do tempo, essa equa\u00e7\u00e3o tornou-se engessada numa f\u00f3rmula matem\u00e1tica, mec\u00e2nica, fria. Transformar\u00e1 o pobre, o exclu\u00eddo e o vulner\u00e1vel, em respons\u00e1vel por sua pr\u00f3pria desgra\u00e7a, sua pr\u00f3pria pobreza e vulnerabilidade, enquanto a sociedade rica podia lavar as m\u00e3os, eximir-se de qualquer compromisso com os fracos. J\u00e1 n\u00e3o se questionava o sistema econ\u00f4mico excludente e empobrecedor, nem a proced\u00eancia da riqueza (se vem de explora\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o e rapina). A teologia da retribui\u00e7\u00e3o ser\u00e1 utilizada para legitimar a indiferen\u00e7a social e as injusti\u00e7as, enquanto cala o grito do exclu\u00eddo. Resta-lhe acolher com paci\u00eancia o \u201ccastigo\u201d de Deus. O oprimido torna-se um pecador p\u00fablico e, consequentemente, abandonado por parentes e amigos, seu c\u00edrculo imediato de conv\u00edvio. Perverso, por\u00e9m, \u00e9 colocar tudo isso num esquema religioso, teol\u00f3gico, dif\u00edcil de romper. \u00c9 pobre ou enfermo porque pecou e recebe a merecida paga. Ora, essa leitura da teologia da retribui\u00e7\u00e3o, que foi se cristalizando ao longo do tempo, corresponde \u00e0 realidade da vida? O que est\u00e1 por tr\u00e1s dessa leitura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profeta Jeremias chama a aten\u00e7\u00e3o contra essa leitura ing\u00eanua (ou perversa?): \u201cPor que prosperam os \u00edmpios e vivem em paz os traidores?\u201d (Jr 12,1). O profeta deixa perceber que essa vis\u00e3o teol\u00f3gica n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade. H\u00e1 pessoas justas e trabalhadoras que se d\u00e3o mal na vida, n\u00e3o t\u00eam \u00eaxito, e h\u00e1 \u00edmpios p\u00fablicos que prosperam e seu \u00eaxito \u00e9 tentador para o justo (Sl 73). O sistema econ\u00f4mico que vivemos jamais permitir\u00e1 que uma dom\u00e9stica e um oper\u00e1rio honestos melhorem seu n\u00edvel de vida. A perspectiva de Jeremias ser\u00e1 desenvolvida com toda clareza em J\u00f3. Veja, por exemplo, J\u00f3 21,7-34. O advers\u00e1rio reconhece que J\u00f3 parte da experi\u00eancia ao colocar na boca dele as seguintes palavras: \u201cEu sou justo e Deus me nega o direito. Apesar do meu direito, passo por mentiroso, uma flecha me feriu sem que eu tenha pecado\u201d (J\u00f3 34,5-6). Ora, J\u00f3 \u00e9 ferido e passa por um sofrimento atroz (J\u00f3 2,7.13), mas o texto insiste que ele era \u201cum homem \u00edntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal\u201d (J\u00f3 1,1.8; 2,3). Portanto, J\u00f3 coloca em xeque a sapi\u00eancia: ela n\u00e3o sabe explicar porque o justo e o inocente sofrem. Isso tira o alicerce da leitura feita em base \u00e0 teologia da retribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m nessa linha, Qoh\u00e9let, partindo de suas observa\u00e7\u00f5es da realidade, afirma: \u201cJ\u00e1 vi de tudo em minha vida sem sentido: gente honrada que perece em sua honradez e gente malvada que vive longamente em sua maldade\u201d (Ecl 7,15). Ele questiona seriamente as riquezas (Ecl 2,1-11; 5,9\u20136,8), valor apreciado tamb\u00e9m pelo s\u00e1bio como sinal de b\u00ean\u00e7\u00e3o. Elas n\u00e3o duram e nem bastam para dar seguran\u00e7a, sentido e plenitude \u00e0 vida. Essa vis\u00e3o \u00e9 retomada pelo Sl 49. Qoh\u00e9let questiona a vis\u00e3o mec\u00e2nica da provid\u00eancia divina bem como a mentalidade de que justo \u00e9 sin\u00f4nimo de feliz e de prosperidade sem percal\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, haveria nesse esquema espa\u00e7o para a a\u00e7\u00e3o livre, salv\u00edfica e gratuita de Deus? Teria lugar para o perd\u00e3o e a miseric\u00f3rdia divina? A pessoa, sendo justa e reta, \u00e9 automaticamente salva? Seria ela autora da pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o? Na perspectiva do NT, o patr\u00e3o da par\u00e1bola teria pagado igualmente a todos (Mt 20,1-16)? Jesus teria feito alguma cura, se as enfermidades e as defici\u00eancias fossem a justa paga de Deus? Fica claro que atr\u00e1s da equa\u00e7\u00e3o cristalizada da teologia da retribui\u00e7\u00e3o, de sua vis\u00e3o mec\u00e2nica, se esconde, na verdade, uma falsa ideia de Deus e da rela\u00e7\u00e3o com ele. J\u00f3 \u00e9 categ\u00f3rico ao mostrar que a vis\u00e3o de Deus n\u00e3o pode ser terceirizada, nem reduzida \u00e0 mera tradi\u00e7\u00e3o: \u201cEu te conhecia s\u00f3 de ouvir [tradi\u00e7\u00e3o], mas agora meus olhos te veem [experi\u00eancia]\u201d (J\u00f3 42,5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.3 Crise da sapi\u00eancia e recome\u00e7o<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O confronto da teologia com a realidade da vida e uma nova experi\u00eancia de Deus (espiritualidade) permitiram a J\u00f3 e a Qoh\u00e9let colocarem em xeque a teologia em voga e abrirem os olhos dos s\u00e1bios. Percebem que a sapi\u00eancia tem limites, que o s\u00e1bio n\u00e3o sabe tudo, que os enigmas da vida (como o sofrimento, a morte, o mal gratuito) n\u00e3o se resolvem com abstra\u00e7\u00f5es do n\u00edvel da teologia da retribui\u00e7\u00e3o. A base da rela\u00e7\u00e3o com Deus n\u00e3o pode ser o m\u00e9rito, o desempenho pessoal, mas a gratuidade. O agir humano n\u00e3o condiciona a gra\u00e7a divina, mas decorre dela que sempre o precede. Nesse n\u00edvel, J\u00f3 e Qoh\u00e9let n\u00e3o levam a sapi\u00eancia israelita \u00e0 ru\u00edna, mas lhe possibilitam um recome\u00e7o. Ajudam-na a perceber o mist\u00e9rio insond\u00e1vel, sua fonte. O s\u00e1bio percebe, ent\u00e3o, que sapi\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m dom divino. Quando a raz\u00e3o cansa, o dom continua! Ela se abre para a f\u00e9 e o temor divino e renasce vigorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.4 A sapi\u00eancia e Jesus<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria personificada (Eclo 24) se autoelogia (v. 1) e diz: \u201cArmei a minha tenda (<em>kata-sk\u0113n\u0113\u014d<\/em>) nas alturas&#8230; [&#8230;] e Aquele que me criou armou a minha tenda (<em>sk\u0113n\u0113<\/em>) e disse-me: \u2018acampa (<em>kata-sk\u0113n\u0113\u014d<\/em>) em Jac\u00f3, em Israel recebe a tua heran\u00e7a\u201d (Eclo 24,4a.8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O evangelista recorre a essa linguagem para falar da encarna\u00e7\u00e3o do verbo: \u201cO verbo se fez carne e armou sua tenda (sk\u0113n\u0113\u014d) entre n\u00f3s\u201d (Jo 1,14). \u00c9 a sabedoria criada (Pr 8,22; Eclo 1,4.9; 24,8.9), encontrando no Verbo incriado o seu \u00e1pice. Para ele converge toda a tradi\u00e7\u00e3o sapiencial, tudo que \u00e9 bom e verdadeiro na sabedoria humana. Simultaneamente, a sabedoria, enquanto eterna, est\u00e1 presente junto de Deus e distinta dele, presente na cria\u00e7\u00e3o. Com ela, Deus cria o mundo. Ela, como mestre-de-obras ou art\u00edfice da cria\u00e7\u00e3o, personificada como pessoa, que desceu entre os homens e os convida ao banquete, servir\u00e1 para verbalizar a f\u00e9 no Cristo como Verbo pr\u00e9-existente, primog\u00eanito, sabedoria personificada que desce do c\u00e9u, se faz carne, arma sua tenda entre n\u00f3s, fala em primeira pessoa, como mediador da cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 <em>L\u00f3gos<\/em> junto de Deus e distinto dele (Jo 1,1-3), que revela o Pai (Jo 1,18), assumindo dimens\u00e3o humano-divina. Portanto, a sapi\u00eancia prestar\u00e1 um servi\u00e7o decisivo \u00e0 cristologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus tem postura inequivocamente prof\u00e9tica, mas ensina como um s\u00e1bio. A sua pedagogia \u00e9 sapiencial. Ele ensina, sobretudo, atrav\u00e9s de ditos e par\u00e1bolas e seus interlocutores se maravilham e se interrogam: \u201cde onde lhe v\u00eam essa sapi\u00eancia&#8230;?\u201d (Mt 13,54). Algo mais que Salom\u00e3o (Mt 12,42; Lc 11,31).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Paulo, Jesus \u00e9 a \u201csabedoria de Deus\u201d (1Cor 1,24.30). Nele \u201cse acham escondidos todos os tesouros da sabedoria e conhecimento\u201d (Cl 2,3). Todavia, n\u00e3o se limita \u00e0s categorias gregas ou judaicas, antes apresenta a sabedoria da cruz, a aparente loucura que extrapola tudo que \u00e9 sensato (1Cor 1,22-30). Assim, o ap\u00f3stolo evidencia que o sofredor, longe de ser um castigado por Deus, \u00e9 um <em>lugar<\/em> <em>teol\u00f3gico<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 A<\/strong> <strong>literatura sapiencial israelita <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.1 A literatura <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na opini\u00e3o de alguns autores, a literatura sapiencial b\u00edblica constitui-se numa esp\u00e9cie de \u201cpentateuco\u201d: Pr, J\u00f3, Ecl, Eclo e Sb. N\u00e3o s\u00e3o narrativas, como o Pentateuco e Hist\u00f3ricos, nem leis, como o Pentateuco, n\u00e3o acusam nem denunciam, como os prof\u00e9ticos (ALONSO SCH\u00d6KEL, 1984, p. 17). Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o ora\u00e7\u00f5es, como os salmos, embora encontremos alguns hinos (ex.: Pr 8; Eclo 24; 42-43), bem como salmos ou parte deles que s\u00e3o sapienciais. Enfim, eles apresentam conte\u00fado e forma pr\u00f3prios, que se diferenciam dos demais blocos do Antigo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A B\u00edblia hebraica (TM) inclui esses livros no bloco dos, assim chamados, <em>Escritos<\/em>, excetuando Eclo e Sb por serem gregos. A tradu\u00e7\u00e3o grega (LXX) os classifica como <em>Livros Po\u00e9ticos<\/em> e inclui Ct e Sl. A tradi\u00e7\u00e3o latina (Vulgata) chama-os de <em>Livros Did\u00e1ticos<\/em> e faz o mesmo que a vers\u00e3o grega. A tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica chama-os de <em>Livros<\/em> <em>Sapienciais<\/em>, mantendo o n\u00famero de livros das vers\u00f5es grega e latina, incluindo os, assim chamados, deuterocan\u00f4nicos, Eclo e Sb, isto \u00e9, do 2\u00ba c\u00e2non, o grego. A tradi\u00e7\u00e3o protestante, por sua vez, exclui Eclo e Sb, considerando-os ap\u00f3crifos, seguindo a B\u00edblia hebraica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um lado, os tr\u00eas livros sapienciais hebraicos (J\u00f3, Pr, Ecl) fazem parte dos <em>Escritos<\/em>, mas nada, em n\u00edvel formal, os une, exceto o fato de serem, na sua maior parte, po\u00e9ticos. Ali\u00e1s, a autocr\u00edtica sapiencial de J\u00f3 e Ecl, de certa forma, questiona a sapi\u00eancia otimista de Pr (LORENZIN, 2013, p. 16). Por outro lado, o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, assim como Salmos, aparece junto ao \u201cpentateuco sapiencial\u201d em todas as tradi\u00e7\u00f5es acima apresentadas (TM, LXX, Vg, Cat\u00f3licos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, a sapi\u00eancia do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo e, particularmente, aquela israelita parte da experi\u00eancia da vida, como j\u00e1 se insistiu. Ora, as duas experi\u00eancias fundamentais da vida s\u00e3o o sofrimento e o amor. O sofrimento d\u00e1 consist\u00eancia e purifica o amor. Este, por sua vez, ilumina e d\u00e1 sentido ao sofrimento. S\u00e3o como dois lados da mesma moeda. Em termos de literatura sapiencial b\u00edblica, o sofrimento \u00e9 apresentado de modo mais expl\u00edcito no livro de J\u00f3 e o amor, no livro dos C\u00e2nticos. Jesus une as duas perspectivas. Uma s\u00edntese pode ser vista no verso joanino: \u201ctendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 o fim\u201d (Jo 13,1b). N\u00e3o por acaso, nossa l\u00edngua apresenta um termo de s\u00edntese para ambas as realidades: paix\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em termos de g\u00eanero liter\u00e1rio, os livros de Tb e Est se enquadram entre os <em>relatos<\/em>, mas impregnados do modo sapiencial de pensar. Particularmente Tb 4,3-21; 14,8-11. Muitos autores reconhecem tamb\u00e9m uma clara t\u00f4nica sapiencial em Gn 2\u20133; 37\u201350; 2Sm 9\u201320; 1Rs 1\u20132 e o poema de Br 3,9\u20134,4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, <em>m\u00e1ximas<\/em> sapienciais est\u00e3o espalhadas por toda a B\u00edblia. Portanto, a ideia de um \u201cpentateuco sapiencial\u201d \u00e9 s\u00f3 parcialmente correta, como conclui Lorenzin (2013, p. 16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.2 As formas ou g\u00eaneros liter\u00e1rios sapienciais b\u00e1sicos<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mashal<\/em>. \u00c9 uma forma ou g\u00eanero liter\u00e1rio exclusivamente sapiencial. Originariamente aplicado ao <em>dito popular<\/em> ou <em>refr\u00e3o<\/em>. Trata-se, normalmente, de constru\u00e7\u00f5es breves, de f\u00e1cil memoriza\u00e7\u00e3o, que compactam ou \u201czipam\u201d uma sabedoria, resultante de observa\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias, de valor universal e que circula de boca em boca, isto \u00e9, se transmitem oralmente, da\u00ed o nome <em>ditos<\/em>. A tradu\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima para <em>mashal<\/em> seria <em>prov\u00e9rbio<\/em>, cujo plural corresponde ao nome da obra intitulada Livro dos Prov\u00e9rbios. Mais tarde, o <em>dito<\/em> passa a ser <em>escrito<\/em>. O <em>mashal<\/em> \u00e9 a c\u00e9lula basilar da sapi\u00eancia e est\u00e1 para a <em>par\u00e1bola<\/em> assim como a semente para a planta. Procura-se chegar \u00e0 compreens\u00e3o de algo mediante compara\u00e7\u00e3o ou analogia. Enfim, o <em>mashal<\/em> faz pensar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Senten\u00e7as<\/em> e <em>conselhos<\/em>. No decorrer do tempo, um <em>dito popular<\/em> pode evoluir para a senten\u00e7a ou o conselho ou mesmo ditos mais cultos. A senten\u00e7a e o conselho se distinguem, sobretudo, pela forma verbal: a senten\u00e7a recorre ao indicativo e o conselho, ao imperativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem outras formas sapienciais, mas n\u00e3o exclusivas da sapi\u00eancia como, por exemplo: ditos num\u00e9ricos, enigmas, adivinha\u00e7\u00e3o, di\u00e1logos e debates, discursos, listas (onom\u00e1stico), narra\u00e7\u00f5es autobiogr\u00e1ficas (confiss\u00f5es) ou did\u00e1ticas, poemas (did\u00e1ticos), f\u00e1bulas, alegorias, ora\u00e7\u00f5es (hinos, a\u00e7\u00f5es de gra\u00e7as e salmos), perguntas. Existem ainda os recursos estil\u00edsticos, tamb\u00e9m conhecidos como formas ornamentais ou art\u00edsticas, e tamb\u00e9m n\u00e3o exclusivos da literatura sapiencial como, por exemplo: o paralelismo, os recursos sonoros (paranomasia: asson\u00e2ncia, alitera\u00e7\u00e3o, jogo de sons e palavras); as repeti\u00e7\u00f5es (an\u00e1fora ou repeti\u00e7\u00e3o inicial, repeti\u00e7\u00e3o final, poemas acr\u00f3sticos ou alfab\u00e9ticos, enumera\u00e7\u00f5es, uso de sin\u00f4nimos e as ant\u00edteses); as descri\u00e7\u00f5es ilustradas com exemplos, compara\u00e7\u00f5es, imagens, met\u00e1foras; hip\u00e9rbole, paradoxo; aforismos (marcados pela brevidade e concis\u00e3o); a pergunta ret\u00f3rica, as quest\u00f5es imposs\u00edveis e assim por diante (V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1984, p. 70-71).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profeta parte da revela\u00e7\u00e3o divina, exorta, emite or\u00e1culos e est\u00e1 preocupado com a comunidade da alian\u00e7a, com o povo eleito. Ele se escuda na autoridade divina (expressa na Palavra), em um Deus que se revela do alto e na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00e1bio, por sua vez, parte da experi\u00eancia da vida, aconselha, emite senten\u00e7as. Sua autoridade vem da viv\u00eancia cotidiana e dos anos. Observa a ordem da cria\u00e7\u00e3o e a trama das rela\u00e7\u00f5es humanas e descobre o mundo e o cotidiano como espa\u00e7o da manifesta\u00e7\u00e3o de Deus. Sua preocupa\u00e7\u00e3o extrapola as fronteiras de Israel, ele quer formar o ser humano, confronta-o com seus dramas e ajuda-o a perscrutar os enigmas da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sabedoria b\u00edblica apresenta-se como sensatez que ajuda a pessoa ser feliz. Prepara o ser humano para viver, conviver e pensar. Todavia, a sabedoria que o s\u00e1bio exercita como tarefa descobre tamb\u00e9m nela o dom, que culminar\u00e1 em \u201cCristo, sabedoria de Deus\u201d (I Cor 1,24.30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como cada s\u00e1bio apresentou os resultados de suas observa\u00e7\u00f5es em cada livro sapiencial b\u00edblico que comp\u00f5e esta parte das Escrituras, para cada um desses livros ser\u00e1 elaborado um verbete nesta enciclop\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fr. Rivaldave Paz Torquato, O. Carm<\/em>. Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia (FAJE). Texto original em portugu\u00eas. Enviado: 12\/09\/2022. Aprovado: 15\/11\/2022. Postado: 30\/12\/2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>ALONSO SCH\u00d6KEL, L. Uma oferta de sensatez. Ensayo sobre la literatura sapiencial. In: ALONSO SCH\u00d6KEL, L.; VILCHEZ L\u00cdNDEZ, J. <em>Proverbios.<\/em> Madrid: Cristiandad, 1984, p. 17-37.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CIMOSA, M. Educazione e insegnamento nei libri Sapienziali. In: BONORA, A.; PRIOTTI, M. et al. <em>Libri Sapienziali e altri scritti<\/em>. Turim: Elle Di Ci, 1997 (Logos CSB 4), p. 399-411.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LORENZIN, T. <em>Esperti in umanit\u00e0<\/em>. Introduzione ai libri sapienziali e poetici (Graph\u00e9 4). Turim: Elledici, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NICACCI, A. <em>A casa da sabedoria<\/em>. Vozes e rostos da sabedoria b\u00edblica. S\u00e3o Paulo: Paulinas,1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCAIOLA, D. La Sapienza in Israele e nel Vicino Oriente Antico. In: BONORA, A.; PRIOTTI, M. et al. <em>Libri Sapienziali e altri scritti<\/em>. Turim: Elle Di Ci, 1997 (Logos CSB 4), 29-42.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VILCHEZ L\u00cdNDEZ, J. Historia de la investigacion sobre la literatura sapiencial. In: ALONSO SCH\u00d6KEL, L.; VILCHEZ L\u00cdNDEZ, J. <em>Proverbios.<\/em> Madrid: Cristiandad, 1984, p. 39-82.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VILCHEZ L\u00cdNDEZ, J. <em>Sabedoria e s\u00e1bios em Israel<\/em> (BL \u2013 25). S\u00e3o Paulo: Loyola, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Como pode ser visto no verbete: <em>A sapi\u00eancia no Antigo Oriente Pr\u00f3ximo<\/em> e cuja leitura recomenda-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> A bem-aventuran\u00e7a \u00e9 uma forma liter\u00e1ria comum na sapi\u00eancia. Ela condensa um ideal de vida caracterizado pelo termo <em>feliz<\/em>. Para outros exemplos: J\u00f3 5,17; Pr 8,32b.34; 28,14; Eclo 14,1.2; 28,8.9; 26,1.26b; 31,8; 48,11; 50,28; Sb 3,13.14. Nos Salmos, aparece cerca de 26 vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Certamente \u00e9 isso que tenta mostrar o livro de J\u00f3, ao apresent\u00e1-lo como <em>homem da terra de Hus<\/em> (J\u00f3 1,1); as palavras de Agur e Lamuel, rei de Massa (Pr 30,1; 31,1), s\u00e1bios da Ar\u00e1bia; a cole\u00e7\u00e3o dos s\u00e1bios (Pr 22,17\u201324,22), not\u00e1vel pelo seu paralelo com o eg\u00edpcio <em>Ensinamento de Amen-em-ope<\/em>. Segundo Niccacci, \u201co movimento da sabedoria \u00e9 o que Israel produziu de mais aberto para o exterior\u201d (NICCACCI,1997, p. 49).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do per\u00edodo liter\u00e1rio sapiencial 1.1 Do surgimento ao per\u00edodo dos Ju\u00edzes: Israel pr\u00e9-estatal (1250-1000 aC) 1.2 A Monarquia (Israel estatal: 1000-587 aC) 1.3 O Ex\u00edlio (587\u2013538 aC) 1.4 O p\u00f3s-ex\u00edlio \u2013 \u00e9poca persa (538-332 aC): per\u00edodo de reconstru\u00e7\u00e3o 1.5 A \u00e9poca grega (333-63 aC): o helenismo 1.6 A rea\u00e7\u00e3o ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-2688","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2688"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2688\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2789,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2688\/revisions\/2789"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}