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{"id":2668,"date":"2022-02-01T10:31:55","date_gmt":"2022-02-01T13:31:55","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2668"},"modified":"2023-01-28T15:43:16","modified_gmt":"2023-01-28T18:43:16","slug":"liturgia-das-horas-br","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2668","title":{"rendered":"A sapi\u00eancia no Antigo Oriente Pr\u00f3ximo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 A sabedoria no Oriente Antigo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.1 O que \u00e9 a sapi\u00eancia? \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.1.1 Sapi\u00eancia: saber viver<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.1.2 Sapi\u00eancia: saber fazer<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.1.3 Sapi\u00eancia: saber pensar<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.2 Origem da sabedoria<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.2.1 No tempo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.2.2 No espa\u00e7o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.2.3 No modo e na meta<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.3 Caracter\u00edsticas da sapi\u00eancia antiga<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A literatura sapiencial do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo ou Crescente F\u00e9rtil<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 No Egito<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 Na Mesopot\u00e2mia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A B\u00edblia grega dos Setenta (LXX) ou Septuaginta abre sua Parte II com os, assim chamados, livros <em>po\u00e9ticos<\/em> (RAHLFS, 1979). S\u00e3o eles: Sl, Pr, Ecl, Ct, J\u00f3, Sb e Eclo. A B\u00edblia Hebraica insere-os num conjunto mais amplo, chamado <em>Ket\u00fbb\u00eem = Escritos<\/em>. A vers\u00e3o latina, a Vulgata (Vg), seguindo a Septuaginta, classifica-os como livros <em>did\u00e1ticos<\/em>. Nessa trilha, o c\u00e2non cat\u00f3lico denomina esse grupo de livros (<em>po\u00e9ticos <\/em>e) <em>sapienciais<\/em>, do latim, <em>sapientia<\/em> = <em>sabedoria<\/em>. Trata-se de uma literatura caracterizada por verbalizar um <em>saber<\/em> que brota da experi\u00eancia da vida e visa facilitar a viv\u00eancia humana e suas rela\u00e7\u00f5es. A literatura sapiencial b\u00edblica emerge da experi\u00eancia comum dos povos do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo. Ela nasce no mesmo solo de uma literatura similar j\u00e1 presente. Os livros sapienciais b\u00edblicos s\u00e3o, portanto, ramos de uma cepa comum j\u00e1 existente numa din\u00e2mica de continuidade e inova\u00e7\u00e3o. Para entend\u00ea-los melhor \u00e9 imprescind\u00edvel uma introdu\u00e7\u00e3o naquela sapi\u00eancia comum pr\u00e9-israelita ou contempor\u00e2nea de Israel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, a esse servi\u00e7o disp\u00f5e-se este verbete. Ele pretende definir o que \u00e9 a sapi\u00eancia no Antigo Oriente, apresentar sua origem (no tempo e no espa\u00e7o) e sua finalidade, suas caracter\u00edsticas, bem como a literatura que a codifica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 A sabedoria no Oriente Antigo <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>1.1 O que \u00e9 a sapi\u00eancia? \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em que consiste a sabedoria? O que \u00e9 a sapi\u00eancia? Ora, existe um <em>saber emp\u00edrico<\/em>, cient\u00edfico, mensur\u00e1vel que vem do laborat\u00f3rio, dos experimentos. O cientista descobre que se juntar duas mol\u00e9culas de hidrog\u00eanio com uma de oxig\u00eanio resulta \u00e1gua. \u00c9 um saber n\u00e3o popular. Existe outro tipo de <em>saber te\u00f3rico-especulativo<\/em> que vem da filosofia. Certamente, Arist\u00f3teles diria que se trata do conhecimento dos princ\u00edpios ou das causas primeiras. \u00c9 um saber pouco popular. Existe ainda um saber que brota da <em>experi\u00eancia da vida<\/em>, o <em>saber pr\u00e1tico<\/em>. Talvez, o mesmo Arist\u00f3teles o chamaria de <em>phr\u00f3nesis<\/em>.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Esse saber, que emerge da experi\u00eancia da vida, a B\u00edblia chama de <em>\u1e25o\u1e35m\u0101h<\/em> = <em>sabedoria<\/em>, em latim, <em>sapientia<\/em>, de <em>sapere<\/em>: <em>ter gosto, degustar, perceber, compreender<\/em>. Trata-se de um saber que consiste num degustar as coisas. Tal saber \u00e9, sobretudo, popular, acess\u00edvel a todos. Na linguagem popular: \u201cA vida tamb\u00e9m ensina\u201d ou \u201co mundo \u00e9 uma escola\u201d. O s\u00e1bio sabe viver, sabe fazer e sabe pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.1.1 Sapi\u00eancia: saber viver<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem antigo come\u00e7a a se dar conta que a natureza tem suas leis, percebe que existe uma ordem c\u00f3smica universal. Um campon\u00eas precisa conhecer as esta\u00e7\u00f5es de chuva e seca, frio e calor, e o ciclo da lua para plantar, cruzar os animais ou pescar, descobrir as ervas medicinais, o fluxo do tempo, o calend\u00e1rio, entre outras coisas (Sb 7,17-20). As leis fixas, os ciclos, d\u00e3o seguran\u00e7a. Descobrir essas leis escondidas na natureza que favorecem a vida e ajustar-se a elas \u00e9 tarefa do s\u00e1bio (CRB, 1993, p. 19). Portanto, quanto mais se domina a ordem incrustrada na natureza se vive melhor, se adquire qualidade de vida. Por outro lado, a observa\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias repetidas gera um saber. Desta forma, este tipo de saber n\u00e3o \u00e9 externo, emerge inicialmente de dentro. O \u00eaxito da vida depende de sua maior ou menor harmonia com a ordem natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, povos do Oriente Antigo, como os eg\u00edpcios e os mesopot\u00e2micos, entendiam que essa ordem do cosmo, as leis da natureza, vem da divindade, est\u00e1 vinculada a ela. A cria\u00e7\u00e3o \u00e9 ordenada conforme o querer dos deuses. S\u00e3o eles que estabelecem e mant\u00eam a ordem do mundo. Essa ordem, na qual se espelha a sociedade, os eg\u00edpcios v\u00e3o chamar de <em>Ma\u2019at,<\/em> depois personificada numa divindade, e os sum\u00e9rios de <em>Me<\/em>. Assim, a divindade-criadora atrai a aten\u00e7\u00e3o dos s\u00e1bios. Israel assimilou esse pensamento, fazendo obviamente sua releitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos poucos, portanto, o s\u00e1bio passa a entender que, para viver bem, precisa adequar sua conduta \u00e0s leis da natureza, \u00e0 ordem c\u00f3smica. Logo, \u00e0 ordem c\u00f3smica deve corresponder a ordem <em>\u00e9tica<\/em>. A pessoa deve ordenar a vida moralmente segundo a ordem querida por Deus, manifestada na cria\u00e7\u00e3o. O s\u00e1bio busca espelhar na sua vida a harmonia da cria\u00e7\u00e3o. Nas palavras de Scaiola:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua a\u00e7\u00e3o criadora d\u00e1 consist\u00eancia e ordem a este mundo e \u00e0 vida humana. Tal ordem do mundo preside tamb\u00e9m a vida do homem, o qual deve ordenar moralmente a sua exist\u00eancia segundo a ordem querida por Deus. O s\u00e1bio \u00e9 quem chega a conseguir em si mesmo a harmonia existente na cria\u00e7\u00e3o. (1997, p. 41 \u2013 tradu\u00e7\u00e3o nossa) <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.1.2 Sapi\u00eancia: saber fazer<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num primeiro momento, a sabedoria \u00e9 o dom ou talento que algu\u00e9m tem para fazer algo nas mais variadas \u00e1reas da vida humana. Pense em algu\u00e9m que toca com categoria um instrumento \u201cs\u00f3 de ouvido\u201d, sem nunca ter estudado m\u00fasica. Trata-se, portanto, de uma aptid\u00e3o, destreza, habilidade (t\u00e9cnica), maestria em qualquer esfera do agir humano, particularmente no manuseio de objetos, metais, cer\u00e2mica, madeira e na arte (V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 38-39). \u00c9 o <em>saber fazer<\/em>, \u00e9 o artes\u00e3o. O texto seguinte exemplifica bem isso:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mois\u00e9s disse aos israelitas: \u2018Vede, o Senhor chamou a Beseleel por seu nome&#8230; e o encheu com o esp\u00edrito de Deus, de <em>sabedoria<\/em> (<em>\u1e25o\u1e35m\u0101h<\/em>), entendimento e conhecimento <em>para toda esp\u00e9cie de trabalhos; para elaborar desenhos, para trabalhar o ouro, a prata e o bronze, para lapidar pedras de engaste, para trabalhar a madeira e para realizar toda esp\u00e9cie de trabalho art\u00edstico. <\/em>Tamb\u00e9m lhe disp\u00f4s o cora\u00e7\u00e3o, a ele e a Ooliab,&#8230; para <em>ensinar<\/em> os outros. Encheu-lhes o cora\u00e7\u00e3o de <em>sabedoria<\/em> (<em>\u1e25o\u1e35m\u0101h<\/em>) <em>para executar toda esp\u00e9cie de trabalho, para entalhar, para desenhar, para recamar a p\u00farpura violeta e escarlate, o carmesim e o linho fino, e para tecer; h\u00e1beis em toda esp\u00e9cie de trabalhos e desenhistas de projetos<\/em>. Beseleel, Ooliab e todos os homens de cora\u00e7\u00e3o <em>s\u00e1bio<\/em> (<em>\u1e25\u0101\u1e35\u0101m<\/em>), nos quais o Senhor havia depositado <em>sabedoria<\/em> (<em>\u1e25o\u1e35m\u0101h<\/em>) <em>e entendimento para exercer com per\u00edcia toda esp\u00e9cie de trabalhos<\/em> para o culto do santu\u00e1rio&#8230; (Ex 35,30\u201336,1)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa habilidade, o saber fazer, pode se manifestar tamb\u00e9m na pol\u00edtica<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, no com\u00e9rcio (1Rs 9,26\u201310,43), na agricultura ou na organiza\u00e7\u00e3o da casa (Pr 31,10-31). Esse <em>saber fazer<\/em> pode ser inato, mas tamb\u00e9m se adquire e se transmite. Eis a import\u00e2ncia da rela\u00e7\u00e3o mestre-disc\u00edpulo, pai-filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.1.3 Sapi\u00eancia: saber pensar<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num segundo n\u00edvel, a sabedoria resulta da observa\u00e7\u00e3o dos s\u00e1bios que colhem o saber incrustrado discretamente na natureza (Ecl 1,9) e nas realidades da vida. O s\u00e1bio \u00e9 um observador atento. Esse \u00e9 o caso de Qoh\u00e9let (Ecl 3,10.16; 4,1.4; 6,1; 8,16). Eles ruminam suas observa\u00e7\u00f5es e elaboram ou verbalizam, \u201czipam\u201d o saber em c\u00e1psulas como ditos, prov\u00e9rbios, m\u00e1ximas, senten\u00e7as, conselhos e aforismas que servem para iluminar a pr\u00f3pria vida.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> \u00c9 um saber cuja autoridade est\u00e1 no ensinamento verdadeiro que porta consigo e, atrav\u00e9s dele, se imp\u00f5e. Trata-se de uma sabedoria que goza da for\u00e7a da evid\u00eancia e como tal s\u00f3 resta ser acolhida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Situa\u00e7\u00f5es novas, por\u00e9m, exigem do s\u00e1bio reflex\u00e3o sobre o saber adquirido e sua releitura, de tal modo que o ajude a responder \u00e0s novas circunst\u00e2ncias. O s\u00e1bio questiona(-se) e chega a certas conclus\u00f5es. Chega-se assim \u00e0s atividades espirituais (V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 41). O s\u00e1bio descobre que n\u00e3o s\u00f3 usa as m\u00e3os (art\u00edfice), mas pensa, tem emo\u00e7\u00f5es e transcende, refletindo sobre os mist\u00e9rios da vida e buscando respostas. Por exemplo, por que sofrem o justo e o inocente? Por que os \u00edmpios prosperam? Por que a morte? O foco do s\u00e1bio \u00e9 o ser humano inserido em seu meio (na cria\u00e7\u00e3o e no dia a dia) com seus dramas existenciais e suas alegrias, nas suas rela\u00e7\u00f5es interpessoais e com a divindade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.2 Origem da sabedoria<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.2.1 No tempo <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o <em>homo sapiens<\/em>, encurralado pelos desafios da <em>sobreviv\u00eancia<\/em>, precisou usar a cabe\u00e7a. Ent\u00e3o nasce a <em>\u1e25o\u1e35m\u0101h<\/em>, a sabedoria. Ela aparece a partir das necessidades reais de defesa da vida, para enfrentar os dramas da exist\u00eancia como doen\u00e7a, morte, sofrimento, injusti\u00e7a, inimigo, guerra e espada. Seu foco \u00e9, portanto, a vida humana l\u00e1 onde ela se manifesta. Portanto, a <em>sapi\u00eancia<\/em> aborda quest\u00f5es cotidianas como amor, matrim\u00f4nio, fam\u00edlia, amizade, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, trabalho, organiza\u00e7\u00e3o, governo, justi\u00e7a, e se ocupa de necessidades imediatas como comer, beber, falar, amar, vestir e trabalhar (CRB, 1993, p. 18-19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.2.2 No espa\u00e7o<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os povos e culturas expressam de algum modo a sua experi\u00eancia de vida. Assim, a sapi\u00eancia est\u00e1 incrustrada em todos os lugares onde a presen\u00e7a humana se estabelece. Em se tratando da sapi\u00eancia b\u00edblica, o olhar se volta para o mundo circunvizinho de Israel. Os s\u00e1bios israelitas n\u00e3o inventaram a roda, partiram das ra\u00edzes comuns dos povos do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo, e, mais exatamente, do assim chamado <em>Crescente F\u00e9rtil<\/em> ou <em>Meia Lua<\/em>. Segundo V\u00edlchez L\u00edndez:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Crescente F\u00e9rtil ou Meia Lua compreende a imensa regi\u00e3o em forma de arco (da\u00ed seu nome) que se estende da desembocadura dos rios Eufrates e Tigre, no golfo P\u00e9rsico, ao vale do Nilo, circundando o deserto da Ar\u00e1bia pelo norte e pelo oeste. Nessa regi\u00e3o nasceram, desenvolveram-se e morreram as grandes civiliza\u00e7\u00f5es antigas da Mesopot\u00e2mia e do Egito, bem como as dos povos das regi\u00f5es intermedi\u00e1rias da Anat\u00f3lia, S\u00edria e Palestina. \u00c9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o deserto, cuja import\u00e2ncia na forma\u00e7\u00e3o do povo de Israel foi not\u00e1vel. Segundo a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, o deserto foi o ber\u00e7o da sabedoria e o ponto de refer\u00eancia dos s\u00e1bios de Israel. (1999, p. 17-18)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Mesopot\u00e2mia compreende tr\u00eas grandes civiliza\u00e7\u00f5es interligadas entre si: Sumer (sum\u00e9rios), Babil\u00f4nia e Ass\u00edria. Da S\u00edria, merece destaque sua capital Ebla, grande centro cultural (cultura ebla\u00edta) destru\u00edda em 1600 aC, Ugarit e mesmo Alepo. Em todos esses povos encontram-se literaturas sapienciais. Fica claro, portanto, que a sabedoria em si, \u00e0 qual pertence aquela b\u00edblica, \u00e9 mais antiga que Israel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.2.3 No modo e na meta<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No <em>Egito<\/em> a sapi\u00eancia aparece vinculada \u00e0s escolas voltadas para a aristocracia do ambiente, sobretudo, de corte. Visava a <em>educa\u00e7\u00e3o<\/em> dos pr\u00edncipes, dos vizires, dos filhos da elite, dos futuros diplomatas e escribas. Era b\u00e1sico saber escrever, ler, adquirir certo dom\u00ednio da orat\u00f3ria e ter conduta digna da corte. \u00c9 comum encontrar na literatura eg\u00edpcia de ent\u00e3o o rei ensinando ao pr\u00edncipe, ao vizir e ao escriba, transmitindo seus respectivos of\u00edcios a seus filhos ou sucessores. \u00c9 uma sapi\u00eancia marcada pela forma da <em>instru\u00e7\u00e3o<\/em> ou <em>ensinamento<\/em>, n\u00e3o raro de cunho moral. Ensina-se tamb\u00e9m a magia, predi\u00e7\u00e3o do futuro e a interpretar sonhos (SCAIOLA, 1997, p. 30). Vale destacar a vis\u00e3o positiva do p\u00f3s-morte, isto \u00e9, a vida continua. A isso se deve, por exemplo, a arquitetura eg\u00edpcia. Obviamente, do ambiente de corte, essa sapi\u00eancia espalha-se tamb\u00e9m, com menor intensidade, na vida comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na <em>Mesopot\u00e2mia<\/em>, j\u00e1 a partir dos sum\u00e9rios, s\u00e1bio, belo e forte \u00e9 o rei e a sabedoria est\u00e1 vinculada \u00e0s habilidades em volta dele, como \u00e9 o caso daquela do escriba. O rei devia administrar a justi\u00e7a e a sabedoria, dada pelos deuses, agradar o povo com boas obras, particularmente construir templos. Mas o rei era s\u00e1bio enquanto dava mostras de respeito reverencial aos deuses e fazia sua vontade. Nessa postura estava o princ\u00edpio da sabedoria. A terminologia sapiencial era aplicada n\u00e3o s\u00f3 ao rei e aos escribas, mas tamb\u00e9m ao artes\u00e3o, arquiteto, mestre, adivinho, m\u00e9dico, m\u00fasico e conselheiro. J\u00e1 dispunham de institui\u00e7\u00f5es educativas, a <em>e-dubba<\/em> = \u201ccasa das tabuinhas\u201d, e de um <em>curriculum<\/em> de estudos que consistia de alfabetiza\u00e7\u00e3o, aritm\u00e9tica, m\u00fasica, prepara\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o de documentos, composi\u00e7\u00e3o de arquivos e de cr\u00f4nicas, reda\u00e7\u00e3o, c\u00f3pia e estudos de obras liter\u00e1rias (mitos e narrativas \u00e9picas, hinos, ora\u00e7\u00f5es, cantos e lamentos). Atrav\u00e9s desse aparato, propunham ideais morais e \u00e9ticos, embora com uma vis\u00e3o um tanto negativa da exist\u00eancia. Acreditavam num <em>pante\u00e3o<\/em> antropom\u00f3rfico invis\u00edvel e tinham forte vis\u00e3o da humanidade como criada. O sofrimento e a morte atra\u00edam acentuadamente a aten\u00e7\u00e3o destes s\u00e1bios como mostra a sua literatura. Com esses elementos, os s\u00e1bios definiram o modo de pensar sum\u00e9rio. A Babil\u00f4nia tem uma sapi\u00eancia mais voltada para a adivinha\u00e7\u00e3o e ritos lit\u00fargicos. A Ass\u00edria apresenta uma literatura did\u00e1tica vinculada \u00e0 corte e aos escribas e ocupa-se tamb\u00e9m do culto e da magia (SCAIOLA, 1997, p. 32-34).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>Cana\u00e3<\/em>, mais precisamente, em Ugarit, a sabedoria n\u00e3o se afasta sensivelmente daquela mesopot\u00e2mica. Tamb\u00e9m j\u00e1 existiam escolas e se usavam as tabuinhas. De Biblos, na Siro-fen\u00edcia, o alfabeto se espalhou pelo mundo greco-romano (V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1984, p. 47). Sua sapi\u00eancia era pr\u00e1tica, caracterizada pelos conselhos. Por outro lado, a sabedoria era uma arte dif\u00edcil de conseguir. Ent\u00e3o se passa a ver nela sinal de atua\u00e7\u00e3o da divindade. \u00c9 a divindade que a concede ao rei. Para os cananeus a sabedoria \u00e9, portanto, um atributo do Deus supremo <em>El, <\/em>o pai dos deuses (CAZELLES, 1986, p. 125-6). Ora, os cananeus emprestam sua l\u00edngua e cultura a Israel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.3 Caracter\u00edsticas da sapi\u00eancia antiga<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sapi\u00eancia do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo \u00e9 mais <em>antropoc\u00eantrica<\/em>. \u00c9 um saber voltado para os dramas humanos, que se interessa pela realidade existencial, buscando responder a seus desafios e iluminar o destino humano. Logo, n\u00e3o foge, mas encara o sofrimento! N\u00e3o se reduz \u00e0 mente, ao intelecto, mas engloba o todo (hol\u00edstica). Por isso, desde a corporeidade at\u00e9 os espa\u00e7os que ocupamos s\u00e3o fontes para se fazer a experi\u00eancia desse saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>N\u00e3o \u00e9<\/em> <em>monop\u00f3lio<\/em> de ningu\u00e9m. Est\u00e1 presente em todos os povos e culturas. \u00c9 universal, <em>aberta<\/em> no tempo e no espa\u00e7o. Um dito como \u201c\u00e1gua mole em pedra dura tanto bate at\u00e9 que fura\u201d tinha, pois, sua validade na idade da pedra e continua tendo hoje (tempo). \u00c9 uma verdade para um brasileiro e para um japon\u00eas (espa\u00e7o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 \u201cecum\u00eanica\u201d. \u00c9 um saber que vale para qualquer credo e para os sem credo. Vale tamb\u00e9m para qualquer ra\u00e7a e cor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sapi\u00eancia \u00e9, de certa forma, an\u00f4nima. Normalmente, ningu\u00e9m sabe onde, quando e como surgiu e muito menos quem \u00e9 o autor de um dito ou de uma m\u00e1xima. Quando muito se diz: \u201cprov\u00e9rbio chin\u00eas\u201d, \u201csabedoria hindu\u201d, por exemplo. Mas \u00e9 a express\u00e3o de uma cultura, de um grupo ou categoria de pessoas. Por ela o coletivo fala, tem voz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e9tica da sapi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 imperativa, n\u00e3o imp\u00f5e preceitos, mas d\u00e1 conselhos, busca oferecer valores com a for\u00e7a da experi\u00eancia. Neste sentido, a sapi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 moralista nem tem penalidade (legal).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sapi\u00eancia \u00e9 dom e tarefa. \u201cN\u00e3o se nasce s\u00e1bio\u201d, j\u00e1 dizia a m\u00e1xima do eg\u00edpcio Ptah-hotep (2500-2420 aC) (ANET, 412). Esse pensamento aparece tamb\u00e9m em Sir 6,18.22.32; 50,28. Adquire-se sabedoria no confronto da capacidade cognitiva com a experi\u00eancia, bem como atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, da forma\u00e7\u00e3o permanente. \u00c9 um saber transfer\u00edvel. Eis a\u00ed o papel da tradi\u00e7\u00e3o. Por outro lado, o verdadeiro s\u00e1bio n\u00e3o cria depend\u00eancia, antes ajuda a descobrir (CRB, 1993, p. 22-23). O saber \u00e9 cont\u00ednua descoberta, aprendizagem permanente. Seu limite \u00e9 Deus. Nesta perspectiva, a sabedoria \u00e9 <em>tarefa<\/em>. A capacidade de aprender, por\u00e9m, vem de Deus, \u00e9 <em>dom<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O elefante, por exemplo, apresenta v\u00e1rias partes bem diferentes entre si, embora seja o mesmo elefante. Um cego que apalpa, por exemplo, a tromba de um elefante e um outro cego que apalpa a barriga do mesmo elefante, fazem ambos a mesma experi\u00eancia, por\u00e9m, n\u00e3o descrever\u00e3o de igual modo o elefante apalpado. De forma an\u00e1loga ao elefante \u00e9 a realidade humana com seus m\u00faltiplos aspectos. As m\u00e1ximas ou ditos sapienciais, que procuram abarcar essa realidade, tanto podem se complementar como, at\u00e9 mesmo, se contradizer. Neste sentido, a literatura sapiencial porta consigo certa ambiguidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seu ambiente \u00e9 aquele das <em>rela\u00e7\u00f5es<\/em> do dia a dia, do <em>conv\u00edvio<\/em>, e, portanto, a fam\u00edlia (a casa), a planta\u00e7\u00e3o e os animais (o campo), a natureza (a cria\u00e7\u00e3o), a porta ou pra\u00e7a (da cidade), a escola, a corte, o templo, o com\u00e9rcio (rela\u00e7\u00f5es com outros povos), o di\u00e1logo ou debate (livro de J\u00f3, por exemplo), a tradi\u00e7\u00e3o (transmiss\u00e3o oral ou escrita) e a pol\u00edtica (arte de governar). Trata-se do ambiente que os modernos chamariam de \u201csecular\u201d ou \u201cprofano\u201d. N\u00e3o \u00e9 o culto, embora a sabedoria tamb\u00e9m \u201cabre a boca na assembleia do Alt\u00edssimo\u201d (Eclo 24,2). Na verdade, a sabedoria alarga o espa\u00e7o da manifesta\u00e7\u00e3o da divindade. O s\u00e1bio israelita, em particular, entende que Deus n\u00e3o se manifesta apenas nas teofanias, nos gestos salv\u00edficos, nos or\u00e1culos, no templo e no culto, mas nessa esfera \u201csecular\u201d e na cria\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Se a ordem da cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 intimamente vinculada \u00e0 vontade do Criador, como cham\u00e1-la de secular? Al\u00e9m disso, o s\u00e1bio percebe ou descobre o extraordin\u00e1rio de Deus no ordin\u00e1rio da vida. Eis a espiritualidade sapiencial e o contributo teol\u00f3gico da sapi\u00eancia (b\u00edblica). Da\u00ed porque a dicotomia sagrado-profano seja superada na sapi\u00eancia. Distingue-se, mas n\u00e3o se separa. Nessa perspectiva, o criado e a sapi\u00eancia s\u00e3o religiosos. De igual modo, a realidade cotidiana \u00e9 lugar para a experi\u00eancia de Deus.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Enfim, \u201ca teologia sapiencial \u00e9 a primeira em apresentar a fundo a possibilidade de conhecer Deus na cria\u00e7\u00e3o\u201d (VON RAD, 2000, p. 444). Assim, uma espiritualidade <em>fuga mundi<\/em>, se n\u00e3o souber com clareza de \u201cque mundo\u201d est\u00e1 fugindo, pode se reverter, na verdade, numa espiritualidade <em>fuga Dei<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro mil\u00eanio aC, sobretudo na Mesopot\u00e2mia, come\u00e7a-se a perceber uma rela\u00e7\u00e3o entre causa e efeito, entre o agir humano e suas consequ\u00eancias, vinculados \u00e0 divindade. Em Israel, ser\u00e1 a base da Teologia da Retribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, em se tratando de m\u00e9todo, nas palavras de Lorenzin, \u201cse pode dizer que o m\u00e9todo sapiencial \u00e9 um m\u00e9todo indutivo, que parte da reflex\u00e3o sobre a vida e sobre a realidade\u201d (2013, p. 29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A<\/strong> <strong>literatura sapiencial do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo ou <em>Crescente F\u00e9rtil<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.1 No Egito<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura sapiencial eg\u00edpcia \u00e9 caracterizada como instru\u00e7\u00f5es ou ensinamentos destinados aos pr\u00edncipes, filhos das elites, vizires e futuros escribas. Trata-se de uma forma\u00e7\u00e3o voltada para o ambiente de corte. A rela\u00e7\u00e3o entre o mestre e o aprendiz era aquela de pai-filho. Entre as obras destacam-se:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) <em>Ensinamento a Kaghemni<\/em> (dat\u00e1vel no Antigo Imp\u00e9rio: 2815-2400 aC). Trata-se do vizir Kaires ensinando a seu filho o seu of\u00edcio. O filho deve ser moderado e ter controle no que fala (LORENZIN, 2013, p. 10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) <em>Ensinamento do pr\u00edncipe Herdedef <\/em>(ca. 2640 aC). Seria o mais antigo exemplo do g\u00eanero liter\u00e1rio com fins did\u00e1ticos. Inicia-se com alguns pensamentos sobre a morte (LORENZIN, 2013, p. 10). Por exemplo: \u201cAdorna tua casa na necr\u00f3pole e enriquece o teu lugar no Oeste&#8230; Uma baixa recep\u00e7\u00e3o \u00e9 para quem est\u00e1 morto, (mas) uma alta recep\u00e7\u00e3o para quem est\u00e1 vivo e tua casa da morte est\u00e1 (destinada) \u00e0 vida\u201d (ANET, 419).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) <em>Ensinamento de Ptah-hotep <\/em>(ca. 2450 aC). Ptah-hotep era vizir do rei Isesi, que viveu ca. 2500-2420 aC. Transparece nessa obra todos os \u00e2mbitos da vida e da atividade de um funcion\u00e1rio da corte. Ele deve ser exato, submisso, modesto, ter ast\u00facia na corte, autoridade em casa e prud\u00eancia \u00e0 mesa, defender a justi\u00e7a no tribunal e exercer a bondade para com os pobres (LORENZIN, 2013, p. 10). A obra pode ser considerada o manual mais antigo dedicado \u00e0 forma\u00e7\u00e3o integral de um filho da elite. Suas senten\u00e7as se aproximam do Livro dos Prov\u00e9rbios. Entre elas:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um bom discurso \u00e9 mais oculto que a esmeralda, mas ele pode ser encontrado com as serventes nas pedras de amolar. (ANET, 412)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o responda em estado de turbul\u00eancia. (ANET, 414)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) <em>Instru\u00e7\u00e3o a Meri-ka-re<\/em> (ca. 2100 aC). S\u00e3o instru\u00e7\u00f5es de um s\u00e1bio, o rei Set, ao seu filho e sucessor, o fara\u00f3 Meri-ka-re, \u00faltimo rei da 10\u00aa dinastia. Trata-se de conselhos serenos, espiritualmente elevados e nobres, mas desconhece a realidade sociopol\u00edtica da \u00e9poca. Desta sabedoria:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00ea um art\u00edfice na fala, (assim que) possas ser forte, (pois) a l\u00edngua \u00e9 uma espada para [o homem], e um discurso \u00e9 mais valioso que qualquer batalha. Ningu\u00e9m pode driblar o habilidoso de cora\u00e7\u00e3o&#8230; Aqueles que conhecem sua sabedoria n\u00e3o o atacam e nenhum infort\u00fanio ocorre onde ele est\u00e1 [&#8230;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fa\u00e7a justi\u00e7a enquanto perdurares sobre a terra. Acalme o que chora, n\u00e3o oprimas a vi\u00fava, n\u00e3o expulses um homem da terra de seu pai, e n\u00e3o prejudiques os funcion\u00e1rios em seus cargos. Esteja atento para n\u00e3o punir injustamente [&#8230;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o fa\u00e7as diferen\u00e7a entre o filho de um nobre e um homem comum, (mas) toma para ti um homem por causa do trabalho de suas m\u00e3os. (ANET, 415)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) <em>A instru\u00e7\u00e3o a Khety, filho de Duauf. <\/em>Dat\u00e1vel entre 2000-1800 aC. O pai dirige-se ao filho, enquanto o leva para a escola para tornar-se escriba. Sua instru\u00e7\u00e3o visa motivar o filho ao oficio de escriba. Faz-se, portanto, grande elogio a esse of\u00edcio, enquanto satiriza os demais. Algo semelhante sobre os of\u00edcios aparece em Eclo 38,24-34 e sobre o s\u00e1bio escriba em Eclo 39,1-11 (V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 20; LORENZIN, 2013, p. 11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">f) <em>A instru\u00e7\u00e3o <\/em>[ou <em>Livro da sabedoria<\/em>] <em>de Ani<\/em> (ca. 1450 aC). Ani \u00e9 um escriba que instrui o filho para ser escriba e, enfim, para a vida. Insiste-se na quietude, piedade pessoal e atividade ritual. O filho, Konzu-hotep, tem a mente mais aberta que o pai em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s novas correntes de pensamento. Entre as instru\u00e7\u00f5es: \u201cAs andorinhas voam, mas chega uma hora em que pousam\u201d e \u201cO \u00eaxito n\u00e3o pertence aos homens; um \u00e9 seu plano, outro o do Senhor da vida\u201d (apud V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 20-21). Esse \u00faltimo dito assemelha-se a Pr 16,9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">g) <em>A instru\u00e7\u00e3o do rei Amen-em-het<\/em> (ca. 1960 aC). O texto aparenta transmitir o conselho que Amen-em-het I, 1\u00ba fara\u00f3 da 12\u00aa dinastia, deu a seu filho. Trata-se da rea\u00e7\u00e3o de um velho e experiente governante e, como tal, transparece algo do pessimismo sombrio e do idealismo social da \u00e9poca. A espec\u00edfica historicidade do texto foi contestada em base do fato que quem est\u00e1 oferecendo o conselho \u00e9 um rei j\u00e1 morto. Este argumento pode ser v\u00e1lido, mas o texto \u00e9 hist\u00f3rico em sua aplicabilidade para nossos tempos. Amen-em-het I morreu por volta de 1960 aC. Todavia, todo o documento existente desse texto vem da 18\u00aa \u00e0 20\u00aa dinastias (1500-1100 aC) quando a instru\u00e7\u00e3o era j\u00e1 muito popular para os alunos (ANET, 418-419).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">h) <em>Amen-em-opet<\/em> (entre 1000 a 600 aC). Obra de alto n\u00edvel religioso e humano, encontrada e publicada em 1923. Ela apresenta o aspecto mais religioso da sapi\u00eancia eg\u00edpcia. S\u00e3o conselhos de um escriba ao filho ca\u00e7ula, Hor-em-maa-kheru, sacerdote em um templo do deus Min, para fazer dele um homem piedoso e fiel administrador, enfim, para que tenha \u00eaxito. Para tanto, precisa ter equil\u00edbrio e boa conduta. O modelo de homem que transparece \u00e9 o tipo \u201csilencioso\u201d (<em>gheru<\/em>), isto \u00e9, paciente, humilde e fiel a deus, oposto ao \u201cfogoso\u201d (<em>shemu<\/em>), que seria o arrogante, o ambicioso, o \u00edmpio. Algo semelhante ao comportamento do justo e do \u00edmpio da literatura sapiencial b\u00edblica (NICCACCI, 1997, p. 49-50). Pr 22,17\u201324,22 \u00e9 considerado, na opini\u00e3o comum dos estudiosos, um paralelo inspirado nesse ensinamento de Amen-em-opet. De modo particular, a frase: \u201cConsidera estes <em>trinta cap\u00edtulos<\/em>, que instruem e educam\u201d (Amen-em-opet XXVII), encontra sua equival\u00eancia em Prov\u00e9rbios: \u201cEscrevi para ti <em>trinta m\u00e1ximas<\/em> de experi\u00eancia\u201d (Pr 22,20). Essa frase b\u00edblica pode ser explicada melhor \u00e0 luz daquela. Ainda da obra de Amen-em-opet:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guarda-te de roubar de um infeliz e de atormentar quem est\u00e1 debilitado; N\u00e3o ambiciones um palmo de terra, nem ultrapasses a divisa de uma vi\u00fava. (ANET, 422)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Deus gosta mais de quem honra o pobre do que de quem adula o rico. (ANET, 424)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">i) <em>Narrativa<\/em> (ou <em>Protestos<\/em>) <em>do campon\u00eas eloquente<\/em> (ca. 2000 aC). Essa obra, assim como as duas que seguem, reflete um per\u00edodo cujo modo de pensar \u00e9 marcado pelo pessimismo e pelo cinismo (SCAIOLA, 1997, p. 31). Segundo V\u00edlchez L\u00edndez, \u201ctrata-se de um magnifico exemplo de orat\u00f3ria eg\u00edpcia. O campon\u00eas, despojado de seus bens por um ladr\u00e3o, recorre \u00e0 justi\u00e7a do pa\u00eds, exp\u00f5e o caso, que defende com nove discursos, e no final a justi\u00e7a \u00e9 feita\u201d (1999, p. 23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">j) <em>Disputa entre um homem e sua alma<\/em> (ou <em>Di\u00e1logo de um desesperado com a sua alma<\/em>). Dat\u00e1vel entre 2200-2040 aC. Segundo V\u00edlchez L\u00edndez, trata-se de um homem aborrecido com a vida, que deseja morrer. Pensa que o suic\u00eddio seja a solu\u00e7\u00e3o para seus problemas. Mas sua alma n\u00e3o quer segui-lo, pois n\u00e3o sabe o que vem depois e teme. Tem in\u00edcio um di\u00e1logo entre ele e sua alma. Ela o convence a esquecer, pois, no esquecimento, estaria o rem\u00e9dio. Ele se decide a buscar os prazeres da vida e desiste de suicidar-se (1999, p. 22). Segundo Lorenzin, a obra \u201ccontesta o otimismo do <em>Ensinamento de Herdedef<\/em>, sustentando que a sepultura \u00e9 uma amargura e um produzir pranto que torna miser\u00e1vel o homem\u201d (LORENZIN, 2013, p. 11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">k) <em>Canto do harpista<\/em>. Convida a desfrutar o agora, uma vez que, no depois, n\u00e3o h\u00e1 nada e de l\u00e1 n\u00e3o se retorna. Obviamente que o tom \u00e9 de ceticismo e pessimismo frente \u00e0 efemeridade da exist\u00eancia e da incerteza futura. A tem\u00e1tica j\u00e1 aparece nas tumbas do terceiro mil\u00eanio (LORENZIN, 2013, p. 11; V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">l) <em>As instru\u00e7\u00f5es de Ank-sesonqy<\/em> (s\u00e9c. V-IV aC). S\u00e3o ensinamentos de Ank-sesonqy ao filho. Reflete um ambiente campon\u00eas, sabedoria pr\u00e1tica com uma dose de cinismo. Seu autor aprecia a repeti\u00e7\u00e3o e frases breves. Por exemplo: \u201cQuem n\u00e3o recolhe l\u00e3 no ver\u00e3o n\u00e3o ter\u00e1 calor no inverno\u201d (apud V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 22). Talvez, Ank-sesonqy seja o mesmo Sesac que aparece em 1Rs 14,25-26; 2Cr 12,2-9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">m) <em>Onom\u00e1stico<\/em> (tamb\u00e9m chamado <em>Ensinamento de Amen-em-opet<\/em>). A obra, de um autor tamb\u00e9m chamado Amen-em-opet, mostra o interesse eg\u00edpcio pela natureza. Segundo Lorenzin:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">trata-se de outra forma sapiencial eg\u00edpcia na qual s\u00e3o enumerados todos os fen\u00f4menos naturais ou um grupo mais especializado destes, sob t\u00edtulos gen\u00e9ricos; 610 entidades organizadas hierarquicamente: objetos celestes, cidades, povos, of\u00edcios, constru\u00e7\u00f5es, tipos de regi\u00f5es, produtos agr\u00edcolas. Trata-se de uma das primeiras enciclop\u00e9dias do saber e pode constituir a chave para entender as m\u00e1ximas concernentes \u00e0s \u00e1rvores, animais, p\u00e1ssaros e peixes atribu\u00eddas a Salom\u00e3o (1Rs 5,13). (LORENZIN, 2013, p. 11-12)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podem ser vistos como exemplos b\u00edblicos destas listas enciclop\u00e9dicas ou onom\u00e1sticos: o cat\u00e1logo de pedras preciosas (J\u00f3 28,12.15-19); o cat\u00e1logo de profiss\u00f5es manuais (Eclo 38,24\u201339,11); os astros e fen\u00f4menos naturais (Eclo 43); os ciclos dos tempos e as plantas (Sb 7,17-20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2 Na Mesopot\u00e2mia<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Mesopot\u00e2mia, tr\u00eas civiliza\u00e7\u00f5es deixaram seu legado sapiencial. Primeiro foi Sumer (os sum\u00e9rios). A ela devemos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) <em>O homem e o seu deus<\/em>. Tamb\u00e9m chamada de <em>Lamenta\u00e7\u00e3o de um homem a seu Deus<\/em> ou ainda <em>J\u00f3 sum\u00e9rio<\/em> e dat\u00e1vel entre 2000-1700 aC. A obra, um ensaio po\u00e9tico, seria uma vers\u00e3o do motivo do livro de J\u00f3. Nela, uma pessoa absolutamente justa e inocente \u00e9 golpeada pela enfermidade e pelo sofrimento. \u00c9 acusado injustamente e cai na desconfian\u00e7a do rei e dos amigos, sem que a divindade reaja. Ele grita continuamente ao seu deus at\u00e9 que esse lhe responda e transforme o seu sofrimento em alegria. Uma vez atendido, ele louva deus. A causa do sofrimento, mesmo de um justo, poderia ser seu pecado, incrustrado em sua natureza humana desde que nasceu. Assim, o sofrimento seria a justa rea\u00e7\u00e3o de deus diante do pecado humano. Diferente de J\u00f3, ele confessa seu pecado. A obra ajuda a entender a posi\u00e7\u00e3o dos amigos de J\u00f3 (SCAIOLA, 1997, p. 32.63), mas n\u00e3o responde porque o ser humano nasce em estado de pecado. Falando de seu sofrimento, esse sofredor diz: \u201cMeu deus, o dia resplandece acima da terra, e para mim o dia \u00e9 sombrio&#8230; L\u00e1grimas, lamentos, ang\u00fastia e depress\u00e3o tomam conta de meu ser. O sofrimento me assola, porque sou um ser que (apenas) chora\u201d (ANET, 590).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa obra mostra-se mais madura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua hom\u00f4nima paleobabil\u00f4nica e de argumenta\u00e7\u00e3o semelhante. O ser humano n\u00e3o \u00e9 um joguete nas m\u00e3os da divindade que deve resignar-se em face \u00e0 dor. A obra sugere que, atr\u00e1s de cada sofrimento, h\u00e1 um pecado do indiv\u00edduo, ainda que inconsciente, n\u00e3o restando aos deuses outra escolha que n\u00e3o seja puni-lo (SIMIAN-YOFRE, 2005, p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) <em>Epop\u00e9ia de Gilgamesh <\/em>(ca. 2000 aC). Segundo Scaiola, trata-se do texto mais famoso de toda literatura mesopot\u00e2mica sobre o tema da morte, da qual nem o rei com sua sapi\u00eancia escapa. Ainda segundo a autora:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">nessa [obra] se descreve o falimento de toda sapi\u00eancia humana diante da morte na forma de um confronto sem sa\u00edda entre o desejo do homem e a vontade dos deuses&#8230; Em Gilgamesh, a morte aparece como o limite insuper\u00e1vel que os deuses impuseram aos viventes. A sapi\u00eancia, mesmo se orientada \u00e0 vida e ao bem-estar, desilude porque faz o homem descobrir os seus limites, que s\u00e3o os limites da condi\u00e7\u00e3o mortal. (SCAIOLA, 1997, p. 33)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme Ceresko, a obra conta a hist\u00f3ria de Gilgamesh, um antigo rei mesopot\u00e2mico que perde um grande amigo, Enkidu, por causa dos ci\u00fames de uma deusa. O rei, muito abalado com a morte do amigo e pelo confronto com a realidade da pr\u00f3pria mortalidade, p\u00f5e-se a buscar o segredo da imortalidade. Seu empreendimento n\u00e3o resulta em nada, sen\u00e3o na resignada e pac\u00edfica aceita\u00e7\u00e3o do destino humano. A s\u00e1bia Siduri, respons\u00e1vel pela bebida aos deuses, sintetiza:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gilgamesh, por que segues esse caminho? A vida que buscas, jamais encontrar\u00e1s. Quando os deuses criaram o homem, impuseram a morte \u00e0 humanidade e retiveram a vida em suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Alimenta-te, Gilgamesh, diverte-te dia e noite. Prepara, a cada dia, alguma ocasi\u00e3o agrad\u00e1vel. Dia e noite sejas folgaz\u00e3o e alegre! Enverga vestes bonitas, perfuma teus cabelos, banha teu corpo. Observa o pequeno que te pega as m\u00e3os, deixa tua esposa feliz, aconchegada ao teu peito! Porque esta \u00e9 a tarefa da (humanidade)! (apud CERESKO, 2004, p. 17)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) O mito de <em>Adapa<\/em>. Refere-se ao mais c\u00e9lebre dos sete s\u00e1bios lend\u00e1rios antediluvianos. J\u00e1 de in\u00edcio, afirma-se que o deus <em>Ea<\/em> d\u00e1 ao devoto a sabedoria, mas n\u00e3o a vida eterna. Em seguida, o mito apresenta uma reflex\u00e3o sobre a morte. Em sua trama, apresenta o ser humano que deixa escapar a chance de obter a imortalidade ou n\u00e3o consegue realizar o desejo de tornar-se imortal. Isso ocorre com <em>Adapa<\/em>, apesar de toda a sua excepcional sabedoria (SCAIOLA, 1997, p. 34).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) <em>Instru\u00e7\u00f5es<\/em> [ou <em>Preceitos<\/em>] <em>de Shuruppak.<\/em> Trata-se de uma cole\u00e7\u00e3o de ditos com instru\u00e7\u00f5es que um certo Shuruppak, sobrevivente do dil\u00favio, d\u00e1 a seu filho Ziusudra (ou Utnapushtu na vers\u00e3o ac\u00e1dica). O filho \u201cdeve seguir as orienta\u00e7\u00f5es divinas e construir um barco para salvar a vida humana e a de todas as esp\u00e9cies para que a paz seja estabelecida sobre a terra. Estes conselhos s\u00e3o semelhantes \u00e0queles de Deus a No\u00e9 nos textos b\u00edblicos (Gn 6\u201310)\u201d (BRITO, 2011, p. 21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa sabedoria: \u201cN\u00e3o prejudiques a filha de um homem livre, pois o p\u00e1tio saber\u00e1 disso\u201d (ANET, 595).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda civiliza\u00e7\u00e3o foi a Babil\u00f4nia, que apresenta a mais rica tradi\u00e7\u00e3o sapiencial do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo. Destacam-se:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) <em>Um homem e o seu deus<\/em> (ca. 1950-1530 aC). Texto paleobabil\u00f4nico, numa escritura cursiva dif\u00edcil, pr\u00f3pria da \u00e9poca. Consta de 69 linhas com a men\u00e7\u00e3o do escriba, Kalbanum. Nas primeiras 11 linhas, descreve a situa\u00e7\u00e3o de um homem miser\u00e1vel golpeado por um profundo sofrimento, embora seja amigo \u00edntimo de seu deus (linha 1). Logo de in\u00edcio, sua rela\u00e7\u00e3o com a divindade \u00e9 marcada por uma ora\u00e7\u00e3o de lamento e l\u00e1grimas. Ele n\u00e3o entende a raz\u00e3o do seu sofrimento. N\u00e3o se lembra de ter pecado. Depois a situa\u00e7\u00e3o muda e deus vem consolar seu fiel. O sofrimento humano \u00e9 responsabilidade da divindade dentro de um processo pedag\u00f3gico divino, uma esp\u00e9cie de prova. Ao final, prevalece o favor e o consolo divino (SIMIAN-YOFRE, 2005, p. 11-15). Nessa obra, a pessoa aparece como um joguete nas m\u00e3os dos deuses e, portanto, n\u00e3o deve procurar solu\u00e7\u00e3o ao problema da dor. A resposta \u00e0 quest\u00e3o do sofrimento fica um tanto aqu\u00e9m daquela da obra hom\u00f4nima sum\u00e9ria (SIMIAN-YOFRE, 2005, p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">f) <em>Poema do justo sofredor<\/em> (<em>Ludlul b\u00eal n\u00eameqi<\/em>) (ca. 1500-1200 aC). \u00c9 o texto religioso mais famoso da literatura mesopot\u00e2mica sobre o tema do justo sofredor. O poema, introduzido com a frase \u201cquero louvar [ou eu enaltecerei] o senhor da sabedoria\u201d, \u00e9 um hino de louvor a Marduk, senhor da sabedoria e deus principal do pante\u00e3o babil\u00f4nico, pelos benef\u00edcios recebidos, mais exatamente, ter sido libertado de todos os sofrimentos. Trata-se de um mon\u00f3logo, considerado o \u201cJ\u00f3 babil\u00f4nico\u201d, tal \u00e9 sua afinidade com aquela obra. Nesse mon\u00f3logo, descoberto em 1875, o devoto questiona por que Marduk permite que seu fiel sofra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um venerador de Marduk, abandonado por seu(s) deus(es) sem motivo e, golpeado por v\u00e1rios infort\u00fanios e enfermidades, lamenta o abandono: \u201cO meu deus esqueceu-se de mim e desapareceu. Minha deusa foi-se embora e permanece distante, o esp\u00edrito benevolente que sempre estava junto a mim retirou-se (I 43-45). (ANET, 596; apud V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inclusive seus parentes e amigos o abandonaram. Ora, por que seu deus permite que seu fiel venerador sofra tais infort\u00fanios? Isso abala-lhe a f\u00e9, pois parece que o culto e a devo\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazem efeito, uma vez que a enfermidade n\u00e3o cessa.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu deus n\u00e3o veio me resgatar, tomando-me pelas m\u00e3os; nem minha deusa teve compaix\u00e3o de mim ficando a meu lado. Meu infort\u00fanio estava esperando e minha parafern\u00e1lia funer\u00e1ria pronta\u201d (II 112-114) (ANET, 598; apud V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 24).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse devoto descreve seus infort\u00fanios, ignorando as acusa\u00e7\u00f5es dos opositores. \u00c9 convencido de que sua mis\u00e9ria n\u00e3o resulta de seus pecados. Assim como J\u00f3, o sofredor est\u00e1 convencido de sua inoc\u00eancia e n\u00e3o consegue entender os des\u00edgnios dos deuses: \u201cQuem pode conhecer a vontade dos deuses do c\u00e9u? Quem pode compreender os planos dos deuses do abismo? Onde os humanos aprenderam o caminho de um deus?\u201d (II 36-38) (ANET, 597; apud V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, por interven\u00e7\u00e3o de Marduk, que \u201cpode devolver a vida a quem est\u00e1 no fundo do po\u00e7o\u201d (IV 35), tem suas for\u00e7as restauradas. O fiel \u00e9 salvo de sua ang\u00fastia e reintegrado na vida religiosa e social. Ele agradece o dom da vida e da sa\u00fade a seu benfeitor (T\u00e1bua IV) diante de todos. Esse \u00e9 o foco do texto. \u00c9 not\u00e1vel como a divindade passa da indiferen\u00e7a ou ira \u00e0 compaix\u00e3o. Ali\u00e1s, Marduk, senhor da sabedoria e deus compassivo, apresenta um duplo car\u00e1ter: enfurece-se \u00e0 noite, ordena e faz pecar, mas se disp\u00f5e ao perd\u00e3o durante o dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um lado, o poema se afasta de J\u00f3 por atribuir o sofrimento mais diretamente \u00e0 ira da divindade. Por outro, deixa claro que a vida inteira e as disposi\u00e7\u00f5es de Deus s\u00e3o um verdadeiro mist\u00e9rio para a pessoa (SCAIOLA, 1997, p. 34.64; V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 23-24). O ser humano est\u00e1 em suas m\u00e3os, mas seus des\u00edgnios s\u00e3o insond\u00e1veis.<\/p>\n<p>g) <em>Teodiceia babil\u00f4nica<\/em> (ca. 1000 aC). Conhecido tamb\u00e9m como <em>Di\u00e1logo do sofredor com seu amigo<\/em> ou ainda <em>Di\u00e1logo sobre a mis\u00e9ria humana<\/em>. Trata da justi\u00e7a divina na forma de di\u00e1logo. A obra \u00e9 associada \u00e0quela de Qoh\u00e9let, inclusive chamada de <em>Qoh\u00e9let babil\u00f4nico<\/em>. \u00c9 um poema acr\u00f3stico de 27 estrofes de 11 linhas ou versos cada uma, come\u00e7ando com a mesma s\u00edlaba. Desenvolve-se o tema do sofrimento e do mal como contraste com a justi\u00e7a dos deuses. S\u00e3o eles os respons\u00e1veis pela tend\u00eancia humana ao mal (LORENZIN, 2013, p. 14).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo o poema \u00e9 um di\u00e1logo entre um homem que sofre (estrofes \u00edmpares) e seu amigo (estrofes pares). A causa do sofrimento n\u00e3o \u00e9 a enfermidade, [&#8230;] mas a situa\u00e7\u00e3o social do protagonista: \u00e9 \u00f3rf\u00e3o (I 11), pobre (VII 75), desprezado (XXIII 253) e perseguido (XXV 275). Tem-se aqui um problema filos\u00f3fico bastante conhecido nos ambientes sapienciais: por que o pobre, o desvalido, apesar de ser justo, piedoso e fiel (VII 71-73), n\u00e3o \u00e9 protegido pelos deuses; ao contr\u00e1rio, \u00e9 por eles abandonado \u00e0 pr\u00f3pria sorte e \u00e0s injusti\u00e7as da sociedade. (V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 24)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sofredor sustenta que os deuses o puniram sem motivo. Seu amigo tenta responder suas querelas, na l\u00f3gica de que o sofrimento \u00e9 consequ\u00eancia do pecado. Ele deve ter ofendido a divindade e deve esperar e acolher a retribui\u00e7\u00e3o na paci\u00eancia (SCAIOLA, 1997, p. 34). Deste modo, a quest\u00e3o desemboca no mist\u00e9rio divino. O sofredor se acalma, silencia sua queixa e acolhe sua sorte, como se v\u00ea na \u00faltima estrofe: \u201cQue me ajude o deus que me abandonou; que a deusa [que de mim esqueceu] se mostre compassiva; que o pastor [o rei], o sol do povo, apascente (seu rebanho) como caberia a um deus\u201d (XXVII) (ANET, 604).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra apresenta grande semelhan\u00e7a com J\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">h) <em>Conselhos de sabedoria<\/em> (entre s\u00e9c. XIV-XIII aC). Segundo Lorenzin, trata-se de uma cole\u00e7\u00e3o de prov\u00e9rbios (em cerca de 150 versos), cuja forma e conte\u00fado fazem lembrar aqueles b\u00edblicos. S\u00e3o admoesta\u00e7\u00f5es de um vizir ao pr\u00f3prio filho que recordam aquelas dos s\u00e1bios eg\u00edpcios e hebreus na forma de m\u00e1ximas que emergiam de constata\u00e7\u00f5es tiradas da experi\u00eancia ou mesmo dos princ\u00edpios da religi\u00e3o. Por exemplo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evita os mexeriqueiros e os pregui\u00e7osos, s\u00ea cauteloso no falar,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o uses uma linguagem inconveniente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usa bondade com os indigentes e socialmente humildes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pratica a religi\u00e3o e experimentar\u00e1s as vantagens. (LORENZIN, 2013, p. 13)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira civiliza\u00e7\u00e3o foi a Ass\u00edria. Entre suas obras, destacam-se:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">i) <em>A\u1e25iqar<\/em>. A\u1e25iqar foi conselheiro de Senaquerib (704-681 aC) e de seu filho Assaradon (680-669 aC). O poema, tamb\u00e9m classificado como novela, senten\u00e7as ou sabedoria de <em>A\u1e25iqar,<\/em> teve grande difus\u00e3o em v\u00e1rias l\u00ednguas em todo <em>Crescente F\u00e9rtil <\/em>e chegou at\u00e9<em> Elefantina <\/em>(alto Egito, s\u00e9c. VI ou V aC). Dos arquivos judaicos de Elefantina, chegou at\u00e9 n\u00f3s a vers\u00e3o aramaica. <em>A\u1e25iqar <\/em>aparece em Tb 1,21-22; 2,10; 11,18; 14,10. A sapi\u00eancia de <em>A\u1e25iqar <\/em>conta as fa\u00e7anhas desse conselheiro r\u00e9gio, \u201cexclu\u00eddo por uma cal\u00fania de certo Nadan. Condenado \u00e0 morte, \u00e9 salvo por um subterf\u00fagio. A sua est\u00f3ria emoldura conselhos, proibi\u00e7\u00f5es e exorta\u00e7\u00f5es que ele d\u00e1 ao neto. Encontram-se na obra, sobretudo, ensinamentos a respeito da discri\u00e7\u00e3o, da mod\u00e9stia, da modera\u00e7\u00e3o e da retid\u00e3o. Recomenda-se severidade e educa\u00e7\u00e3o para os filhos, usando tamb\u00e9m a vara para preserv\u00e1-los do mal\u201d (LORENZIN, 2013, p. 13). Entre suas senten\u00e7as, destacam-se as instru\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 \u201cboca\u201d:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra \u00e9 como um p\u00e1ssaro: uma vez solto, ningu\u00e9m pode (captur\u00e1-lo). (ANET, 428)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um bom jarro guarda a palavra em seu interior, mas um jarro quebrado a deixa escapar. (ANET, 429)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras obras mesopot\u00e2micas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">j) <em>Di\u00e1logo entre um amo pessimista e seu criado<\/em> (ca. 1000 aC).<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> Segundo Lorenzin:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de uma conversa\u00e7\u00e3o entre o patr\u00e3o e seu escravo. Toda atividade proposta com entusiasmo pelo patr\u00e3o \u00e9 acolhida pelo escravo com o mesmo entusiasmo. Quando o patr\u00e3o afirma que quer seguir o plano oposto, tamb\u00e9m o escravo inverte a pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o, enumerando as vantagens da nova posi\u00e7\u00e3o e as desvantagens do plano origin\u00e1rio. Conclui-se que nada \u00e9 absoluto, que n\u00e3o vale a pena fazer qualquer coisa, que a \u00fanica resposta \u00e9 a morte. A diferen\u00e7a entre esta obra e o Qoh\u00e9let est\u00e1, sobretudo, na f\u00e9 desse autor. (2013, p. 14)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00edlchez L\u00edndez sistematiza a estrutura do poema e apresenta um ulterior coment\u00e1rio:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mant\u00e9m-se rigorosamente a estrutura nas onze estrofes das doze conservadas total ou parcialmente:<\/p>\n<blockquote><p>1. Ordem do amo: \u2018Servo, obedece-me\u2019.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>2. Resposta do servo: \u2018Sim, meu senhor, sim\u2019.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>3. Conte\u00fado da ordem: \u2018Traga-me o carro [&#8230;]\u2019 etc.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>4. Resposta afirmativa do servo, justificando o desejo de seu senhor.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>5. O amo muda de parecer.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>6. Resposta do servo justificando a nova atitude do senhor.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 primeira vista, surpreende a inconst\u00e2ncia do amo, que expressa um desejo e, em seguida, muda radicalmente de opini\u00e3o. Al\u00e9m disso, \u00e9 impressionante a facilidade com que o servo se adapta \u00e0 vontade de seu amo: servilismo? Na verdade, o servo \u00e9 o \u00fanico que raciocina, porque sua personalidade situa-se num n\u00edvel mais elevado que a de seu senhor. Aparece assim a inten\u00e7\u00e3o sat\u00edrica do autor desse viv\u00edssimo di\u00e1logo, confirmada de modo magistral na \u00faltima estrofe. O amo pergunta ao servo: \u2018O que \u00e9 bom?\u2019; o que o servo responde cinicamente: \u2018Arrancar meu pesco\u00e7o, teu pesco\u00e7o e lan\u00e7\u00e1-los ao rio. Isso \u00e9 (o) bom\u2019. N\u00e3o parece boa resposta ao amo; de fato, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito carinhosa. Por isso, o amo muda de opini\u00e3o: \u2018N\u00e3o, servo, te matarei e te mandarei \u00e0 frente\u2019. A fina ironia do servo p\u00f5e um ponto final a essa s\u00e1tira entre o amo rico, por\u00e9m aborrecido da vida, e o escravo, privado de tudo, menos do duro trabalho e da sabedoria, sua \u00fanica riqueza: \u2018Ent\u00e3o, desejaria meu senhor viver ainda tr\u00eas dias mais que eu?\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O di\u00e1logo, como a vida real, ensina-nos que riqueza e sabedoria, pobreza e necessidade nem sempre est\u00e3o unidas, tampouco podem-se identificar. O livro dos Prov\u00e9rbios, a seu modo, diz-nos a mesma coisa: \u2018De que serve ao tolo ter dinheiro para comprar a sabedoria se carece de bom senso?\u2019 (Pr 17,16). (1999, p. 25-26)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 k) <em>Disputas e f\u00e1bulas<\/em>. No mundo mesopot\u00e2mico existiam tamb\u00e9m muitas f\u00e1bulas, mas delas restam apenas fragmentos. Como \u00e9 t\u00edpico desses g\u00eaneros, as plantas e os animais discutem entre si. Atr\u00e1s da aparente fantasia liter\u00e1ria, elas oferecem reflex\u00f5es sapienciais sobre a vida, fortes s\u00e1tiras da realidade social e criticam as normas pelas quais a vida na sociedade se rege (V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">l) <em>Ditos populares, conselhos e prov\u00e9rbios (ac\u00e1dicos)<\/em>. Eles sempre estiveram presentes em todos as culturas e \u00e9pocas, tamb\u00e9m na Mesopot\u00e2mia. A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu n\u00e3o fui, quem poderia ter ido a meu lado? (ANET, 425);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando as formigas s\u00e3o esmagadas, mordem a m\u00e3o de quem as fere;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em boca fechada, n\u00e3o entra mosquito (V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, 1999, p. 26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"text-indent: 36px;\">Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00e1bio do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo e, com ele, o s\u00e1bio b\u00edblico n\u00e3o aprendiam a nadar por correspond\u00eancia, nem viviam em vitrines. O confronto da intelig\u00eancia inata comum ao <em>homo sapiens<\/em> com o mundo cotidiano, com a <em>casa comum, <\/em>e com os outros, produziu maravilhas. O ser humano aprendeu a viver e a conviver, a fazer e a pensar. Pensou desde a descoberta do fogo, perscrutou os mais profundos enigmas da vida. Aos poucos, do antropocentrismo vai emergindo um teocentrismo e a sabedoria humana vai manifestando o divino j\u00e1 antes mesmo de Israel. A capacidade humana de produzir arte (<em>ars<\/em>), a necessidade de \u201carmazenar\u201d o saber para n\u00e3o esquecer, e o desejo de transmitir as descobertas \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras ou mesmo de se defender fizeram com que o s\u00e1bio verbalizasse, \u201czipasse\u201d e codificasse seu saber por escrito. Assim, a sapi\u00eancia se fez livro. Esse caminho dos povos do Antigo Oriente a B\u00edblia continuou e inovou. Nesse n\u00edvel deve ser entendida a Sapi\u00eancia em Israel ou a Sabedoria B\u00edblica do verbete a ela dedicado.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fr. Rivaldave Paz Torquato, O. Carm<\/em>. Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia (FAJE). Texto original em portugu\u00eas. Enviado: 31\/07\/2022. Aprovado: 15\/10\/2022. Publicado: 30\/12\/2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>BRITO, J. R. <em>Fa\u00e7a de sua casa um lugar de encontro de s\u00e1bios<\/em>: teologia sapiencial (TB \u2013 7). S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAZELLES, H. <em>A hist\u00f3ria pol\u00edtica de Israel<\/em>. Desde as origens at\u00e9 Alexandre Magno. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CERESKO, A. R. <em>A Sabedoria no Antigo Testamento<\/em>. Espiritualidade libertadora. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONFER\u00caNCIA DOS RELIGIOSOS DO BRASIL. <em>Sabedoria e poesia do povo de Deus<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1993. (Tua Palavra \u00e9 vida, 4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GILBERT, M.; ALETTI, J.-N. <em>A Sabedoria e Jesus Cristo<\/em> (CB \u2013 32). S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LORENZIN, T. <em>Esperti in umanit\u00e0<\/em>. Introduzione ai libri sapienziali e poetici (Graph\u00e9 4). Turim: Elledici, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NICACCI, A. <em>A casa da sabedoria<\/em>. Vozes e rostos da sabedoria b\u00edblica. S\u00e3o Paulo: Paulinas,1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRITCHARD, J. B. <em>La Sabiduria del Antiguo Oriente<\/em>. Barcelona: Garriga, 1966.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRITCHARD, J. B. (ed.) <em>Ancient Near Eastern Texts: <\/em>relating to the Old Testament<em>.<\/em> Princeton: Princeton University Press, <sup>3<\/sup>1974. [ANET]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHLFS, A. (ed.). <em>Septuaginta<\/em>. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1979.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCAIOLA, D. La Sapienza in Israele e nel Vicino Oriente Antico. In: BONORA, A.; PRIOTTI, M. et al. <em>Libri Sapienziali e altri scritti<\/em>. Turim: Elle Di Ci, 1997 (Logos CSB 4), p. 29-42.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SIMIAN-YOFRE, H. <em>Sofferenza dell\u2019uomo e silenzio di Dio nell\u2019Antico Testamento e nella letteratura del Vicino Oriente Antico<\/em> (SB 2). Roma: Citt\u00e0 Nuova, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, J. Historia de la investigacion sobre la literatura sapiencial. In: ALONSO SCH\u00d6KEL, L.; V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, J. <em>Proverbios.<\/em> Madrid: Cristiandad, 1984, p. 39-82.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00cdLCHEZ L\u00cdNDEZ, J. <em>Sabedoria e s\u00e1bios em Israel<\/em> (BL \u2013 25). S\u00e3o Paulo: Loyola, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VON RAD, G. <em>Teolog\u00eda del Antiguo Testamento I <\/em>(BEB 11)<em>.<\/em> Salamanca: S\u00edgueme, <sup>8<\/sup>2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Para Sir\u00e1cida, o s\u00e1bio \u00e9 o <em>phr\u00f3nimos <\/em>(21,21.24.25), ou seja, o disciplinado, pois a disciplina \u00e9 enfeite de ouro (v. 21), a pessoa prudente, que p\u00f5e na balan\u00e7a o que fala (v. 25). Enfim, \u00e9 pleno de bom senso, de virtude pr\u00e1tica que lhe permite deliberar e escolher bem; \u00e9 <em>pol\u00fapeiros<\/em> (v. 22), isto \u00e9, pessoa experiente, culta e modesta, amadurecida no embalo da vida; \u00e9 <em>pepaideum\u00e9nos <\/em>(v. 23), que quer dizer bem-educada, sabe adaptar-se e se orientar de modo acertado nas v\u00e1rias circunst\u00e2ncias da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Como Davi (2Sm 14,20), Salom\u00e3o (1Rs 5,9-14.21), os assessores do fara\u00f3 s\u00e3o chamados s\u00e1bios (<em>\u1e25\u0101\u1e35\u0101m<\/em>) (Gn 41,8.33.39; Ex 7,11); o rei da Ass\u00edria se diz s\u00e1bio (Is 10,12-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Para exemplos atuais: \u201c\u00e1gua mole em pedra dura, tanto bate at\u00e9 que fura\u201d; \u201cbarata esperta n\u00e3o atravessa galinheiro\u201d; \u201cquem dorme no ch\u00e3o n\u00e3o cai da cama\u201d entre tantos outros. Os prov\u00e9rbios s\u00e3o setas que apontam o rumo de uma vida correta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Conv\u00e9m lembrar que a ordem c\u00f3smica (vista antes) procede da divindade e por ela \u00e9 assegurada. \u201cTodo o mundo \u00e9 permeado da presen\u00e7a de Deus, o qual \u00e9 o respons\u00e1vel pela realidade com a qual os s\u00e1bios entram em contato. Quando faz a experi\u00eancia do mundo, Israel faz experi\u00eancia de Deus\u201d (LORENZIN, 2013, p. 208).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Conforme GILBERT \u2013 ALETTI: \u201cO longo obscuro esfor\u00e7o dos homens para encontrarem o caminho certo de sua exist\u00eancia pode ser tamb\u00e9m um lugar no qual ressoe a palavra divina. A f\u00e9 mostra ao s\u00e1bio a presen\u00e7a atuante de Deus no curso rotineiro da vida\u201d (GILBERT; ALETTI, 1985, p. 5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Tamb\u00e9m conhecida como <em>Di\u00e1logo pessimista entre o senhor e o servo<\/em> ou ainda simplesmente <em>Di\u00e1logo pessim\u00edstico.<\/em> O texto pode ser lido, sob o t\u00edtulo <em>reflex\u00f5es ac\u00e1dicas sobre a vida,<\/em> em: PRITCHARD, 1966, p. 296-298.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 A sabedoria no Oriente Antigo 1.1 O que \u00e9 a sapi\u00eancia? \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 1.1.1 Sapi\u00eancia: saber viver 1.1.2 Sapi\u00eancia: saber fazer 1.1.3 Sapi\u00eancia: saber pensar 1.2 Origem da sabedoria 1.2.1 No tempo 1.2.2 No espa\u00e7o 1.2.3 No modo e na meta 1.3 Caracter\u00edsticas da sapi\u00eancia antiga 2 A literatura sapiencial do Antigo Oriente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-2668","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2668","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2668"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2668\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2784,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2668\/revisions\/2784"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}