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{"id":2558,"date":"2021-12-30T08:12:39","date_gmt":"2021-12-30T11:12:39","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2558"},"modified":"2022-01-27T17:31:37","modified_gmt":"2022-01-27T20:31:37","slug":"dialogo-inter-religioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2558","title":{"rendered":"Di\u00e1logo inter-religioso"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>1 Aspectos hist\u00f3ricos: di\u00e1logo e miss\u00e3o<\/p>\n<p>2 Aspectos teol\u00f3gicos: o que \u00e9 di\u00e1logo inter-religioso<\/p>\n<p>3 Aspectos conceituais: di\u00e1logo inter-religioso e di\u00e1logo interf\u00e9<\/p>\n<p>4 Aspectos cr\u00edticos: desafios ao di\u00e1logo inter-religioso<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<h5><strong>1 Aspectos hist\u00f3ricos: di\u00e1logo e miss\u00e3o \u00a0<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">As experi\u00eancias de di\u00e1logo inter-religioso t\u00eam marcado o cen\u00e1rio cultural global e tamb\u00e9m o do contexto latino-americano, em especial nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20 e nas primeiras do 21. N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil localizar na hist\u00f3ria uma refer\u00eancia do in\u00edcio dessas experi\u00eancias, mesmo porque a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de \u201creligi\u00e3o\u201d parece ser ref\u00e9m das l\u00f3gicas modernas ocidentais. Nesse sentido, no campo da f\u00e9 judaico-crist\u00e3, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel se referir a experi\u00eancias de encontros entre grupos de diferentes contextos culturais ou \u00e9tnicos ainda no per\u00edodo b\u00edblico; o mesmo se pode falar de outros per\u00edodos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, tendo como refer\u00eancia os movimentos de di\u00e1logo inter-religioso que mais impactaram as experi\u00eancias atuais, em geral se destacam dois momentos significativos. O primeiro diz respeito \u00e0s experi\u00eancias de trabalho mission\u00e1rio no campo protestante desenvolvidas ao longo do s\u00e9culo 19. As ra\u00edzes dessa preocupa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica ganharam densidade quando os esfor\u00e7os mission\u00e1rios do mundo protestante na \u00c1sia, na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina, motivados pelo liberalismo teol\u00f3gico, descortinaram as quest\u00f5es ecum\u00eanicas e, mesmo em meio \u00e0s propostas verticalistas de miss\u00e3o, suscitaram oportunidades de di\u00e1logo inter-religioso, processos de aprendizagem e a fermenta\u00e7\u00e3o de uma teologia ecum\u00eanica inter-religiosa. Tais viv\u00eancias for\u00e7osamente geraram ou refor\u00e7aram, de um lado, vis\u00f5es sect\u00e1rias e de imposi\u00e7\u00e3o cultural e, de outro, a\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas e de coopera\u00e7\u00e3o entre grupos de religi\u00f5es distintas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse segundo conjunto de viv\u00eancias \u2013 boa parte delas protagonizadas por mulheres, embora nem sempre visibilizadas \u2013 produziu forte impacto no movimento ecum\u00eanico da \u00e9poca. Tais viv\u00eancias desembocaram, no s\u00e9culo 20, na forma\u00e7\u00e3o do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que possui em suas bases constitutivas uma forte preocupa\u00e7\u00e3o com o di\u00e1logo e a coopera\u00e7\u00e3o inter-religiosos. Elas se somam \u00e0s outras duas bases do movimento ecum\u00eanico que s\u00e3o os esfor\u00e7os de unidade crist\u00e3 e os de natureza secular que ficaram conhecidos na \u00e9poca como di\u00e1logo e aproxima\u00e7\u00e3o de \u201ctodas as pessoas de boa vontade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse quadro real\u00e7ou a constata\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o somente as an\u00e1lises cient\u00edficas sobre o pluralismo religioso, mas igualmente a teologia ecum\u00eanica das religi\u00f5es, v\u00eam ganhando destaque no debate atual desde aquela \u00e9poca. Essas perspectivas, ainda que fragmentariamente, percorreram a primeira metade do s\u00e9culo 20 e desaguaram em fontes teol\u00f3gicas riqu\u00edssimas, como a do te\u00f3logo Paul Tillich, por exemplo. \u00c9 dele o c\u00e9lebre texto \u201cO significado da hist\u00f3ria das religi\u00f5es para um te\u00f3logo sistem\u00e1tico\u201d, confer\u00eancia realizada dias antes de seu falecimento e publicada em <em>The future of religions<\/em> (1966).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As experi\u00eancias mission\u00e1rias do campo protestante que real\u00e7aram a dimens\u00e3o ecum\u00eanica inter-religiosa e o espa\u00e7o de articula\u00e7\u00e3o delas no Conselho Mundial de Igrejas, especialmente em suas confer\u00eancias mission\u00e1rias, geraram novas ideias e pr\u00e1ticas (CUNHA, 2010). N\u00e3o obstante os aspectos negativos das interfaces das religi\u00f5es com a cultura e com a pol\u00edtica que geraram formas de viol\u00eancia, se procurou um olhar teol\u00f3gico e mission\u00e1rio sobre as religi\u00f5es que priorizasse a abertura dialogal presente na vida e as possibilidades de coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pressuposi\u00e7\u00e3o do movimento mission\u00e1rio ecum\u00eanico era que o di\u00e1logo aumenta a capacidade humana de autorrealiza\u00e7\u00e3o e de realiza\u00e7\u00e3o do outro (ARIARAJAH, 2011). Ele \u00e9 um reconhecimento de que o outro me permite uma transi\u00e7\u00e3o a uma nova posi\u00e7\u00e3o. Tal situa\u00e7\u00e3o estimula e possibilita as pr\u00e1ticas do fazer-se humano e ao mesmo tempo cria condi\u00e7\u00f5es para que os processos te\u00f3ricos de compreens\u00e3o da vida sejam mais completos e consistentes. \u201cQuando o di\u00e1logo \u00e9 estabelecido, n\u00e3o s\u00f3 se experimenta uma preocupa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica (quem dialoga conosco), mas tamb\u00e9m \u00e9 manifestado um compromisso pr\u00e1tico que, ademais, exige uma compreens\u00e3o m\u00fatua\u201d (SANTA ANA, 2010, p. 112). Trata-se do <em>Eu e Tu<\/em>, de Martin Buber. \u00c9 a consci\u00eancia se descobrindo a si mesma como exist\u00eancia gra\u00e7as ao outro. Essa tem sido e transparece como forte necessidade de ser uma das fontes fundamentais de inspira\u00e7\u00e3o do movimento ecum\u00eanico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal perspectiva motivou e possibilitou, nas d\u00e9cadas seguintes, uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es teol\u00f3gicas sobre os desafios da valoriza\u00e7\u00e3o do pluralismo e dos di\u00e1logos e coopera\u00e7\u00f5es inter-religiosos. Isso se deu em v\u00e1rios c\u00edrculos ecum\u00eanicos e pastorais, com boa produ\u00e7\u00e3o coletiva e com destaque para os escritos de John Hick, Christine Lienemann-Perrin, Wesley Ariarajah, Clare Amos, Julio de Santa Ana, Inderjit Bhogal e J\u00fcrgen Moltmann, entre outros. Este \u00faltimo, real\u00e7ando a esperan\u00e7a e a vis\u00e3o teol\u00f3gica protestante, expressa em v\u00e1rias iniciativas de coopera\u00e7\u00e3o inter-religiosa, mostra que o<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">conceito do <em>di\u00e1logo<\/em> apresentou-se como apropriado para definir o encontro e a conviv\u00eancia de diversas comunh\u00f5es na sociedade moderna [&#8230;] toda vida multirreligiosa tem de come\u00e7ar com um reconhecimento m\u00fatuo, que leva a ouvir uns aos outros e a falar uns com os outros. (MOLTMANN, 2004, p. 28, destaque do original)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segundo momento no campo crist\u00e3o que se seguiu a este foi o da aglutina\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias de di\u00e1logo, com um consequente refor\u00e7o dessa no\u00e7\u00e3o, feita em torno do Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano II (1962-1965), da Igreja Cat\u00f3lica. No campo cat\u00f3lico-romano, sob os influxos dos ventos renovadores desse conc\u00edlio, diversas experi\u00eancias de di\u00e1logo inter-religioso e de reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre os temas emergentes dessa aproxima\u00e7\u00e3o se fortaleceram. Te\u00f3logos como Karl Rahner, Hans K\u00fcng, Yves Congar, Edward Schillebeeckx e Raimon Panikkar, entre outros, forjaram novas perspectivas teol\u00f3gicas que, d\u00e9cadas mais tarde, passaram a ser aprofundadas e revisadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No plano eclesi\u00e1stico, o papa Paulo VI criou, em 1964, o Secretariado para os N\u00e3o\u00a0 Crist\u00e3os, que, em 1984, publicou o documento <em>Di\u00e1logo e miss\u00e3o<\/em>, no qual se declarava que o di\u00e1logo \u00e9 parte inerente e indispens\u00e1vel \u00e0 pr\u00f3pria miss\u00e3o, e n\u00e3o algo a ser acrescentado a ela. Em 1991, para celebrar os 25 anos da Declara\u00e7\u00e3o <em>Nostra Aetate<\/em>, do Conc\u00edlio Vaticano II, em coopera\u00e7\u00e3o com a Congrega\u00e7\u00e3o para a Evangeliza\u00e7\u00e3o dos Povos, o Pontif\u00edcio Conselho para o Di\u00e1logo Inter-religioso, novo nome do Secretariado para os N\u00e3o Crist\u00e3os, publicou <em>Di\u00e1logo e An\u00fancio<\/em>, no qual foram aprofundados elementos contidos no primeiro documento, indicando que nenhum an\u00fancio da f\u00e9 deve ser realizado sem base no di\u00e1logo. O documento prop\u00f5e quatro dimens\u00f5es que podem ser etapas do di\u00e1logo inter-religioso: o di\u00e1logo da vida (aproxima\u00e7\u00e3o de amizade), o di\u00e1logo do servi\u00e7o (trabalho em conjunto no compromisso social), o di\u00e1logo propriamente teol\u00f3gico, e, finalmente, o di\u00e1logo na ora\u00e7\u00e3o em comum (BARROS, 1996).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma iniciativa marcante, de Jo\u00e3o Paulo II, foi o Encontro Inter-religioso de Assis, realizado em 1986, que reuniu todos os principais l\u00edderes das igrejas crist\u00e3s e sessenta representantes de outras religi\u00f5es, para orar pela paz. Em 2016, em comemora\u00e7\u00e3o dos 30 anos do primeiro encontro, 500 representantes de diversas religi\u00f5es se encontraram na mesma cidade, al\u00e9m de cerca de 12 mil peregrinos. A Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional, organismo ligado ao Vaticano, tamb\u00e9m tem emitido documentos e declara\u00e7\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 crist\u00e3 (entendida a partir da Igreja Cat\u00f3lica) e as outras religi\u00f5es. Al\u00e9m disso, o Vaticano tem criado comiss\u00f5es internacionais de di\u00e1logo bilateral. O papa Francisco tem intensificado o di\u00e1logo com o juda\u00edsmo e com o isl\u00e3, com visitas e encontros importantes, dentre os quais o encontro com o Grande Im\u00e3 Ahmad Al-Tayyeb, do Cairo, que o inspirou na enc\u00edclica <em>Fratelli tutti<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, h\u00e1 um florescer de novas concep\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas oriundas das preocupa\u00e7\u00f5es com o encontro e o desencontro do cristianismo com as demais religi\u00f5es. Ressaltam-se no campo cat\u00f3lico as contribui\u00e7\u00f5es, majoritariamente masculinas, sobretudo de Jacques Dupuis, Michael Amaladoss, Claude Geffr\u00e9, Roger Haight e Paul Knitter. Tais vis\u00f5es est\u00e3o intu\u00eddas e fundamentadas nas pr\u00e1ticas concretas de coopera\u00e7\u00e3o e de di\u00e1logo inter-religioso, parte delas forjadas nos desafios concretos de pr\u00e1ticas mission\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto latino-americano, a perspectiva pluralista das religi\u00f5es e as pr\u00e1ticas de di\u00e1logo interpelam fortemente a teologia e os esfor\u00e7os pastorais, especialmente por sua voca\u00e7\u00e3o libertadora e pelos desafios que adv\u00eam da composi\u00e7\u00e3o cultural do continente, fortemente marcada por diferen\u00e7as religiosas que se interpenetram nas mais distintas formas. Um dos marcos dessa reflex\u00e3o e proposi\u00e7\u00e3o foi o 1\u00ba Encontro Continental da Assembleia do Povo de Deus, realizado em 1992, em Quito, Equador, com certo destaque \u00e0s indica\u00e7\u00f5es de D. Pedro Casald\u00e1liga para que, mais do que apenas o di\u00e1logo, um caminho de unidade se abrisse nas diversidades religiosas tendo em vista o servi\u00e7o da transforma\u00e7\u00e3o do mundo visando a paz e a justi\u00e7a ecossocial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses processos motivaram a Teologia Latino-Americana, dentre as suas muitas quest\u00f5es, temas e enfrentamentos pr\u00e1tico-pastorais, a elaborar uma reflex\u00e3o sobre os desafios do pluralismo religioso e das possibilidades de di\u00e1logo. O marco dessas reflex\u00f5es foi a publica\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie <em>Pelos muitos caminhos de Deus<\/em>, sob os ausp\u00edcios da Associa\u00e7\u00e3o dos Te\u00f3logos e Te\u00f3logas do Terceiro Mundo (Asett), com o trabalho de Jos\u00e9 Maria Vigil, Marcelo Barros, Diego Irarrazaval e Luiza Tomita. Trata-se de cinco volumes cujos t\u00edtulos oferecem uma ideia do processo progressivo que a tem\u00e1tica vivenciou: <em>Pelos muitos caminhos de Deus: desafios do pluralismo religioso \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o <\/em>(2003);<em> Pluralismo e liberta\u00e7\u00e3o: por uma Teologia Latino-Americana Pluralista a partir da f\u00e9 crist\u00e3 <\/em>(2005);<em> Teologia Latino-Americana Pluralista da Liberta\u00e7\u00e3o <\/em>(2006);<em> Teologia Pluralista Libertadora Intercontinental <\/em>(2008); e<em> Por uma Teologia Planet\u00e1ria <\/em>(2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m se destacam os escritos de Faustino Teixeira, desde a obra que organizou, <em>Di\u00e1logo de p\u00e1ssaros:<\/em><em> nos caminhos do di\u00e1logo inter-religioso<\/em> (1993), at\u00e9 <em>Teologia e pluralismo religioso <\/em>(2012a) e <em>Cristianismo e di\u00e1logo inter-religioso <\/em>(2014), quando estabeleceu as bases de sua teologia pluralista. Em seus trabalhos, Teixeira tamb\u00e9m real\u00e7a diferentes pr\u00e1ticas dialogais, com a recupera\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias de grupos e pessoas como Thomas Merton, Henri le Saux, Louis Massignon, o que o autor denominou \u201cbuscadores de di\u00e1logo\u201d (TEIXEIRA, 2012b). Ao seguirem um \u201cpluralismo de princ\u00edpio\u201d, mais do que reconhecimento da hist\u00f3ria, doutrinas, narrativas sagradas e concep\u00e7\u00f5es de verdade do outro, essas vis\u00f5es compreendem o pluralismo como algo que pertence ao grande Mist\u00e9rio. \u201cTodas as religi\u00f5es e espiritualidades s\u00e3o, portanto, assumidas nesta interioridade. Esta concep\u00e7\u00e3o gera atitudes de promo\u00e7\u00e3o e cuidado das diferen\u00e7as, pois cada uma contempla, medita, assimila e revela facetas do Mist\u00e9rio\u201d (PANASIEWICZ, 2020, p. 44).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Aspectos teol\u00f3gicos: o que \u00e9 di\u00e1logo inter-religioso<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em geral, os di\u00e1logos e coopera\u00e7\u00f5es inter-religiosas est\u00e3o relacionados \u00e0 maior ou menor visibilidade da import\u00e2ncia p\u00fablica das religi\u00f5es nos processos de promo\u00e7\u00e3o da paz, da justi\u00e7a e da integridade da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 fato que h\u00e1 diferentes formas e possibilidades de di\u00e1logos inter-religiosos, mas aquelas que se destacaram no cen\u00e1rio ecum\u00eanico nas \u00faltimas d\u00e9cadas possuem bases teol\u00f3gicas e religiosas firmadas nos referidos processos (SANTA ANA, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para isso, devemos pressupor a conhecida tr\u00edplice dimens\u00e3o do ecumenismo, consagrada nos setores teol\u00f3gicos e pastorais sens\u00edveis \u00e0 amplitude que as experi\u00eancias de di\u00e1logo possuem ou precisam ter: (i) a <em>unidade crist\u00e3<\/em>, a partir do reconhecimento do esc\u00e2ndalo hist\u00f3rico das divis\u00f5es e de uma preocupa\u00e7\u00e3o em construir perspectivas mission\u00e1rias ecum\u00eanicas; (ii) a <em>promo\u00e7\u00e3o da vida, <\/em>firmada nos ideais ut\u00f3picos de uma sociedade justa e solid\u00e1ria e na compreens\u00e3o de que eles podem reger a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade integrando todos os de \u2018boa vontade\u2019; e (iii) o <em>di\u00e1logo inter-religioso, <\/em>na busca incessante pela supera\u00e7\u00e3o dos conflitos, pela paz e pela comunh\u00e3o justa dos povos. Portanto, o di\u00e1logo inter-religioso n\u00e3o \u00e9 \u201cuma\u201d express\u00e3o ao lado do ecumenismo, mas o constitui em ess\u00eancia e proposta. Da mesma forma, ocorre o interesse pelo aprofundamento dos processos de humaniza\u00e7\u00e3o, da democracia, da cidadania e da defesa dos direitos humanos e da terra. Eles n\u00e3o s\u00e3o \u2013 ou n\u00e3o deveriam ser \u2013 uma op\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias e movimentos inter-religiosos, mas representam a sua base de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No debate sobre pluralismo religioso e as possibilidades de di\u00e1logo e, sobretudo, a rela\u00e7\u00e3o dessas duas dimens\u00f5es com a sociedade, seguimos, baseados no <em>princ\u00edpio pluralista <\/em>(RIBEIRO, 2020), a compreens\u00e3o de que toda e qualquer a\u00e7\u00e3o ou reflex\u00e3o sobre humaniza\u00e7\u00e3o, democracia e direitos humanos \u2013 base da coopera\u00e7\u00e3o e dos di\u00e1logos inter-religiosos \u2013 requer an\u00e1lises mais consistentes e posicionamentos mais n\u00edtidos acerca das quest\u00f5es que lhe s\u00e3o mais diretamente relacionadas. A lista n\u00e3o \u00e9 pequena, por isso destacamos o combate aos racismos, ao sexismo e \u00e0 homofobia, e a cr\u00edtica ao sistema capitalista como produtor de desigualdades sociais, viol\u00eancia e pobreza. Real\u00e7amos, como j\u00e1 referido, que n\u00e3o se trata de quest\u00f5es paralelas, uma ao lado da outra, mas, sim, de um am\u00e1lgama e entrela\u00e7amento sociocultural que necessita de permanente e profunda cr\u00edtica ao sistema econ\u00f4mico, com foco na reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o a respeito das causas das divis\u00f5es que acontecem na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto pelas hist\u00f3ricas dificuldades das religi\u00f5es no tratamento de tais quest\u00f5es quanto pela riqueza teol\u00f3gica de v\u00e1rios grupos que reagiram aos processos dominantes e se colocaram francamente a favor do aprofundamento da democracia e dos direitos, esse processo avaliativo, reflexivo e propositivo torna-se cada vez mais imperativo. Se assumido pelas diferentes religi\u00f5es e espiritualidades ou por setores delas, tornar\u00e1 os esfor\u00e7os de di\u00e1logo inter-religioso mais vi\u00e1veis, fluidos e significativos para a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal perspectiva real\u00e7a a import\u00e2ncia da vis\u00e3o pluralista. Tanto nas an\u00e1lises do quadro de pluralismo religioso quanto nas possibilidades pr\u00e1ticas de aproxima\u00e7\u00f5es inter-religiosas, em geral se leva em considera\u00e7\u00e3o a no\u00e7\u00e3o de que a vis\u00e3o pluralista nem anula as identidades religiosas, por um lado, nem as absolutiza, por outro. A perspectiva pluralista olha as religi\u00f5es em plano dial\u00f3gico, considerando cada contexto, especialmente os diferenciais de poder presentes neles. N\u00e3o se trata de igualdade de religi\u00f5es, mas de rela\u00e7\u00f5es justas, dial\u00f3gicas e propositivas entre elas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vis\u00e3o preponderante \u00e9 que cada express\u00e3o religiosa tem sua proposta salv\u00edfica e de f\u00e9, que deve ser aceita, respeitada, valorizada e aprimorada com base em di\u00e1logos e aproxima\u00e7\u00f5es m\u00fatuas. Tal perspectiva n\u00e3o anula nem diminui o valor das identidades religiosas \u2013 no caso da f\u00e9 crist\u00e3, a import\u00e2ncia de Cristo \u2013, mas as leva a um aprofundamento e amadurecimento movidos pelo di\u00e1logo e pela confronta\u00e7\u00e3o justa, am\u00e1vel e correspons\u00e1vel. Assim, a f\u00e9 crist\u00e3, por exemplo, seria reinterpretada a partir do confronto dial\u00f3gico e criativo com as demais formas de f\u00e9. O mesmo deve se dar com toda e qualquer tradi\u00e7\u00e3o religiosa e espiritualidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideramos que a vis\u00e3o pluralista, como base para os di\u00e1logos e coopera\u00e7\u00e3o inter-religiosa, supera outros modelos da teologia ecum\u00eanica crist\u00e3, como aquele que considera Jesus Cristo e a Igreja como caminho exclusivo de salva\u00e7\u00e3o; o que considera Jesus Cristo como caminho de salva\u00e7\u00e3o para as pessoas, ainda que implicitamente, o que se denominou inclusivismo; e a perspectiva relativista, na qual Jesus \u00e9 o caminho para os crist\u00e3os, ao passo que para os outros o caminho \u00e9 a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o, sem maiores esfor\u00e7os de autocr\u00edticas, revis\u00f5es e m\u00fatua interpela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a teologia crist\u00e3 \u2013 e as demais perspectivas religiosas estariam de forma similar implicadas \u2013, a concep\u00e7\u00e3o pluralista forjaria diferentes e cruciais quest\u00f5es. Uma delas seria em torno do sentido\/significado dos aspectos relativos \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 (como Cristo, a Igreja, o Reino de Deus, a salva\u00e7\u00e3o, o Esp\u00edrito Santo, a cria\u00e7\u00e3o etc.) ao pensarmos em um novo modo de fazer teologia num contexto de pluralismo e de di\u00e1logo religioso. Baseada em \u201cuma interface plurirreligiosa, a experi\u00eancia do sagrado realizada dentro do cristianismo, em outras palavras, a m\u00edstica crist\u00e3 hoje \u00e9 interpelada e chamada a aprender das experi\u00eancias m\u00edsticas de outras religi\u00f5es\u201d (BINGEMER, 2002, p. 319).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra quest\u00e3o que surge para todas as express\u00f5es de f\u00e9 gira em torno da pergunta de como o di\u00e1logo e a aproxima\u00e7\u00e3o concreta entre elas contribuem para melhor compreens\u00e3o da f\u00e9 (considerando a diversidade das tradi\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias) e melhor discernimento das consequentes implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas no mundo (LIENEMANN-PERRIN, 2005). As exig\u00eancias \u00e9ticas, com todas as variedades que cada contexto e momentos hist\u00f3ricos exigem, levaram muitos grupos a defenderem a paz entre as religi\u00f5es como pressuposto para a paz entre as na\u00e7\u00f5es (K\u00dcNG, 1993). Para isso, s\u00e3o necess\u00e1rias \u201cpontes inter-humanas\u201d, considerando que \u201co encontro com o outro proporcionar\u00e1 amplia\u00e7\u00e3o do conhecimento, da no\u00e7\u00e3o de verdade e, de maneira especial, da concep\u00e7\u00e3o do cuidado, que, para al\u00e9m da intera\u00e7\u00e3o interpessoal, atingir\u00e1 dimens\u00f5es planet\u00e1rias\u201d (PANASIEWICZ, 2020, p. 44).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa dire\u00e7\u00e3o, a coopera\u00e7\u00e3o e os di\u00e1logos inter-religiosos t\u00eam real\u00e7ado elementos-chave da viv\u00eancia religiosa e humana, como a alteridade, o respeito \u00e0 diferen\u00e7a, a hospitalidade, as vis\u00f5es dial\u00f3gicas e plurais, a coopera\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e \u00e9tica em torno da busca da justi\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a grupos empobrecidos e subjugados pelas mais diferentes formas de domina\u00e7\u00e3o e a busca do bem comum. A aproxima\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo entre grupos de distintas express\u00f5es religiosas, em geral, cooperam para que elas possam construir novas compreens\u00f5es acerca dos seus pap\u00e9is na sociedade e reconstruir suas identidades e princ\u00edpios fundantes. Da\u00ed a \u00eanfase no di\u00e1logo justo como condi\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para se construir uma identidade aut\u00eantica, levando em conta os diferenciais de poder entre cada express\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da coopera\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo, as diferentes perspectivas e express\u00f5es religiosas podem reconstruir permanentemente suas contribui\u00e7\u00f5es para o mundo dentro dos crit\u00e9rios da justi\u00e7a, da paz e da integridade da cria\u00e7\u00e3o. \u201cO di\u00e1logo inter-religioso associado ao intra-religioso, di\u00e1logo no interior de cada religi\u00e3o e espiritualidade, revela conting\u00eancias, vulnerabilidades e potencialidades, se tornando fonte de renova\u00e7\u00e3o para todas as partes envolvidas\u201d (PANASIEWICZ, 2020, p. 45). Na ess\u00eancia do di\u00e1logo, est\u00e3o o reconhecimento da alteridade e a valoriza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As possibilidades de di\u00e1logo inter-religioso requerem tamb\u00e9m abertura das pessoas e grupos envolvidos no tocante \u00e0 dimens\u00e3o existencial. \u201cEsta abertura a si e ao outro fundamenta o ideal de hospitalidade, pois acolhida e agonia ante o diferente se articulam, desafiando e estimulando novas constru\u00e7\u00f5es existenciais e religiosas\u201d (PANASIEWICZ, 2020, p. 46). De forma similar, \u00e9 poss\u00edvel pensar o encontro com o outro como express\u00e3o de espiritualidade. \u201cCompreender o outro religioso \u00e9, ent\u00e3o, um processo espiritual. \u00c9 \u00e0 medida que eu o abrigo no meu esp\u00edrito que ele passa a ter sentido para mim. O di\u00e1logo espiritual \u00e9 algo vital; compreender uma religi\u00e3o implica um tipo de viv\u00eancia no esp\u00edrito dela\u201d (WOLFF, 2016, p. 179).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais bases teol\u00f3gicas, associadas ao avan\u00e7o das investiga\u00e7\u00f5es cient\u00edficas sobre temas relativos ao pluralismo religioso, t\u00eam real\u00e7ado a import\u00e2ncia das pr\u00e1ticas de di\u00e1logos inter-religiosos. Em parte, essa \u00eanfase se d\u00e1 como resposta \u00e0 realidade sociocultural na qual encontramos, especialmente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, maior visibilidade da diferen\u00e7a religiosa, no Brasil e no mundo, e maior intensidade no debate sobre religi\u00e3o e democracia, especialmente os temas ligados \u00e0 laicidade do Estado. No entanto, o que mais tem mobilizado a aten\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios setores sociais \u00e9, sobretudo, a ambiguidade de termos, ao mesmo tempo, situa\u00e7\u00f5es conflitivas e at\u00e9 mesmo violentas entre grupos religiosos, por um lado, e busca de di\u00e1logo e coopera\u00e7\u00e3o entre express\u00f5es religiosas distintas em diferentes \u00e1reas da vida social, por outro.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Aspectos conceituais: di\u00e1logo inter-religioso e di\u00e1logo interf\u00e9<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma perspectiva conceitual que ressalta a distin\u00e7\u00e3o entre <em>di\u00e1logo inter-religioso<\/em> e <em>di\u00e1logo interf\u00e9<\/em>. Em certa medida, a primeira j\u00e1 \u00e9 consagrada na maioria dos meios religiosos e acad\u00eamicos. Na Am\u00e9rica Latina, ela tem sido trabalhada, sobretudo, por autores como Faustino Teixeira (2014) e Jos\u00e9 Maria Vigil (2006).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda, mais comum em outros continentes, possui maior densidade, pois aponta para maior dinamismo, espontaneidade e liberdade nas rela\u00e7\u00f5es entre manifesta\u00e7\u00f5es religiosas distintas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O di\u00e1logo interf\u00e9 se constr\u00f3i com encontros de pessoas e grupos com uma f\u00e9 viva e din\u00e2mica. A express\u00e3o \u2018interf\u00e9\u2019 se d\u00e1, portanto, de maneira mais ampla [&#8230;]. Quando sa\u00edmos do ethos institucional e passamos para a complexidade da vida e as intera\u00e7\u00f5es humanas a din\u00e2mica do di\u00e1logo interf\u00e9 se d\u00e1 de uma maneira org\u00e2nica e entrela\u00e7ada. (TOSTES, 2020, p. 42)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tentativa de superar os essencialismos ocidentais, que definem o que seja a religi\u00e3o, excluindo outras experi\u00eancias e alteridades \u201cn\u00e3o oficiais\u201d ou mais espont\u00e2neas, v\u00e1rios autores e autoras prop\u00f5em o uso da express\u00e3o <em>di\u00e1logo interf\u00e9<\/em>. Ela revela que \u201cas conversa\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es est\u00e3o acontecendo entre pessoas que pertencem a credos, e n\u00e3o entre religi\u00f5es em si, entre religi\u00f5es como sistemas de cren\u00e7as e pr\u00e1ticas\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 21). Tal perspectiva colocaria todos os crentes e grupos em plano similar e de horizontalidade e facilitaria di\u00e1logos mais aut\u00eanticos e justos. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 bom destacar que os di\u00e1logos acontecem em diversos n\u00edveis, \u201centre l\u00edderes religiosos em encontros ecum\u00eanicos, entre estudiosos em espa\u00e7os acad\u00eamicos e nas comunidades locais e n\u00e3o hier\u00e1rquicas\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 fato que os di\u00e1logos interf\u00e9s sempre aconteceram, especialmente nos setores populares, mas nem sempre devidamente visibilizados. Tais experi\u00eancias est\u00e3o fundamentadas nas<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">rela\u00e7\u00f5es do cotidiano, os entrela\u00e7amentos e negocia\u00e7\u00f5es de identidade da pr\u00f3pria comunidade, as uni\u00f5es e ajuntamentos para a sobreviv\u00eancia e resist\u00eancia. \u00c9 o di\u00e1logo dos leigos, das pessoas de base, que se unem e aprendem umas com as outras a din\u00e2mica da vida e f\u00e9. (TOSTES, 2020, p. 42)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, para al\u00e9m das hierarquias religiosas e dos lugares-comuns que circunscrevem o di\u00e1logo inter-religioso e que, em boa parte das vezes, mant\u00eam escondidos os diferenciais de poder que ocupam cada sujeito e cada tradi\u00e7\u00e3o na constela\u00e7\u00e3o plural das religi\u00f5es, \u201c\u00e9 imperioso para as pessoas de todos os credos trabalharem rumo a um futuro no qual a religi\u00e3o possa ser uma for\u00e7a, n\u00e3o para a destrui\u00e7\u00e3o, mas para o bem comum\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 32).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma dimens\u00e3o teol\u00f3gica de destaque e facilitadora do di\u00e1logo interf\u00e9 \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de polidoxia. Ela ganha import\u00e2ncia na medida em que, no tocante \u00e0s aproxima\u00e7\u00f5es inter-religiosas, evita interpreta\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es bipolares (do tipo ortodoxia <em>versus<\/em> heterodoxia, ou mesmo verdade <em>versus<\/em> heresia). A polidoxia \u00e9 constitu\u00edda por interm\u00e9dio da cr\u00edtica e do desmascaramento do pensamento \u00fanico e compreendida no contexto de multiplicidade, do \u201cn\u00e3o saber\u201d, t\u00edpico das experi\u00eancias apof\u00e1ticas e da relacionalidade das concep\u00e7\u00f5es religiosas de divino ou de sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de polidoxia visa a ultrapassar as vis\u00f5es dicot\u00f4micas que, em geral, inibem a efetiva\u00e7\u00e3o de um di\u00e1logo inter-religioso e cultural aut\u00eantico. Por interm\u00e9dio dela, \u00e9 poss\u00edvel expor os limites da raz\u00e3o ocidental no que se refere ao respeito ao \u201coutro\u201d. Para se abrirem caminhos \u00e0 alteridade, seria preciso, ent\u00e3o, romper com as pretens\u00f5es totalit\u00e1rias ocidentais que, por meio do pensamento ontol\u00f3gico moderno, pensam esgotar o outro no si. Nesse sentido, \u00e9 necess\u00e1rio superar concep\u00e7\u00f5es r\u00edgidas acerca das identidades religiosas, que, a partir de prerrogativas exclusivistas de superioridade, inibem o acesso ao reconhecimento de \u201cum outro\u201d que seja diferente do \u201cmesmo\u201d (PUI-LAN, 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao demonstrar que a alteridade \u00e9 uma dimens\u00e3o e uma realidade constitutiva do ser, compreendido sempre como <em>inter-ser<\/em> \u2013 ou seja, que o eu s\u00f3 \u00e9 eu por conta de sua <em>inter-a\u00e7\u00e3o<\/em> com o outro \u2013, o di\u00e1logo interf\u00e9 pode contribuir para a supera\u00e7\u00e3o de todo tipo de viol\u00eancia e para uma cultura ecum\u00eanica da solidariedade, da justi\u00e7a e da paz. O debate sobre a constru\u00e7\u00e3o de novos imagin\u00e1rios dial\u00f3gicos ganha for\u00e7a \u00e0 medida que valorizamos a concep\u00e7\u00e3o que \u201cse a religi\u00e3o quiser tornar-se uma for\u00e7a de constru\u00e7\u00e3o da paz e n\u00e3o causa de intoler\u00e2ncia e conflito, nova constru\u00e7\u00e3o e novas rela\u00e7\u00f5es com o \u2018outro diferente quanto a religi\u00e3o\u2019 devem ser buscadas\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 32).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Aspectos cr\u00edticos: desafios ao di\u00e1logo inter-religioso <\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios elementos cr\u00edticos e autocr\u00edticos emergem das pr\u00e1ticas de di\u00e1logo no contexto das avalia\u00e7\u00f5es dos movimentos ecum\u00eanicos inter-religiosos. Um dos que sobressaem adv\u00e9m das quest\u00f5es de g\u00eanero. Ouvir as vozes das mulheres \u00e9 indispens\u00e1vel, pois \u201cdesafortunadamente, em muitos encontros ecum\u00eanicos e no Parlamento Mundial de Religi\u00f5es, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres e suas vozes foram marginalizadas\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 33). Assim, uma vez que historicamente o di\u00e1logo inter-religioso tem sido predominantemente marcado pela majorit\u00e1ria presen\u00e7a masculina, \u201co desafio do g\u00eanero \u00e9 o desafio da alteridade, no qual a mulher, no di\u00e1logo, pode ser duplamente outra, se ela for mulher de outra cren\u00e7a em uma reuni\u00e3o constitu\u00edda predominantemente por homens\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as diferentes possibilidades de contribui\u00e7\u00e3o das teologias feministas para o debate sobre pluralismo e sobre o di\u00e1logo inter-religioso, destaca-se a cr\u00edtica ao universalismo crist\u00e3o e \u00e0s vis\u00f5es cristol\u00f3gicas sexistas, patriarcais, elitistas e racistas. As te\u00f3logas feministas t\u00eam refletido sobre os problemas sexistas decorrentes da vis\u00e3o religiosa monote\u00edsta e os que emergem das met\u00e1foras patriarcais utilizadas na constru\u00e7\u00e3o da imagem de Deus, incluindo as cristol\u00f3gicas (TOMITA, 2005). Tais perspectivas dogm\u00e1ticas t\u00eam exclu\u00eddo as mulheres das inst\u00e2ncias de decis\u00e3o e do poder nas esferas religiosas. Al\u00e9m disso, alguns desses dogmas tamb\u00e9m t\u00eam marginalizado homens e mulheres de diferentes ra\u00e7as e culturas, em nome de um Cristo branco, de tra\u00e7os europeus (GEBARA, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os esfor\u00e7os das vis\u00f5es teol\u00f3gicas feministas em buscarem imagens femininas de Deus s\u00e3o de muita import\u00e2ncia para os di\u00e1logos inter-religiosos. Elas est\u00e3o centradas nas express\u00f5es da f\u00e9 em uma divindade n\u00e3o androc\u00eantrica, que seja fonte de ilumina\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das formas de patriarcalismos e sexismos. O foco \u00e9 a viv\u00eancia espont\u00e2nea da f\u00e9 que promova a cura e que valorize o corpo, a sexualidade, o cuidado e a prote\u00e7\u00e3o e a responsabilidade \u00e9tica com a cria\u00e7\u00e3o e a natureza (DEIFELT, 2006).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em decorr\u00eancia da percep\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es e insufici\u00eancias dos esfor\u00e7os da \u201cboa vontade\u201d, ou seja, ciente de que n\u00e3o basta \u201cdar a voz\u201d \u00e0 outra pessoa para que o di\u00e1logo se estabele\u00e7a de forma justa e equitativa, se ressaltam dois conceitos fundamentais: os diferenciais de poder e a no\u00e7\u00e3o de apropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tocante \u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>diferen\u00e7a de poder<\/em>, \u201cmulheres de credos diferentes n\u00e3o entram no di\u00e1logo em p\u00e9 de igualdade\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 38). N\u00e3o basta nos colocarmos todos em posi\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo \u2013 a exemplo de mulheres crist\u00e3s e mu\u00e7ulmanas em torno de uma mesa \u2013 se n\u00e3o levarmos em conta o lugar de onde cada pessoa ou grupo fala e age e as diferen\u00e7as de poder a que est\u00e3o circunscritas. O que pode ocorrer \u00e9 que, em vez de privilegiar a alteridade, se reforcem as subalternidades e a domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para evitar esse tipo de equ\u00edvoco, desde a g\u00eanese dos processos de di\u00e1logo \u00e9 fundamental que sejam estabelecidas as linhas que os orientar\u00e3o, explicitando e questionando os diferenciais de poder em quest\u00e3o. Tal pr\u00e1tica visa \u00e0 descentraliza\u00e7\u00e3o e relativiza\u00e7\u00e3o do poder, de tal modo que a outra pessoa ou grupo n\u00e3o seja \u201cconstantemente for\u00e7ada a comparar-se com a norma da maioria ou com a norma dominante\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 50). Al\u00e9m disso, \u201cno di\u00e1logo interf\u00e9, os participantes que pertencem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o dominante precisam instruir-se sobre as outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas a fim de conceder a todos as mesmas condi\u00e7\u00f5es\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda contribui\u00e7\u00e3o cr\u00edtica se refere \u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>apropria\u00e7\u00e3o<\/em>. A esse respeito, \u201ca mera inclus\u00e3o de algumas vozes simb\u00f3licas, sem reconsiderar fundamentalmente as pressuposi\u00e7\u00f5es e os esquemas epistemol\u00f3gicos atuantes n\u00e3o \u00e9 verdadeira diversidade\u201d (PUI-LAN, 2015, p. 52-53). Como exemplo, poder\u00edamos citar as apropria\u00e7\u00f5es indevidas realizadas pelas v\u00e1rias express\u00f5es espirituais da Nova Era e tamb\u00e9m de grupos crist\u00e3os para com as tradi\u00e7\u00f5es nativas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje em dia, a apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita da espiritualidade ind\u00edgena d\u00e1 continuidade \u00e0s mesmas pr\u00e1ticas genocidas de seus ancestrais. Os rituais ind\u00edgenas s\u00e3o tirados do contexto e empacotados novamente para consumo e lucro dos brancos, sem respeitar a integridade deles e seu uso nas comunidades ind\u00edgenas. (PUI-LAN, 2015, p. 57)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em atividades e reuni\u00f5es inter-religiosas, \u00e9 comum, na aus\u00eancia de representantes ind\u00edgenas, a realiza\u00e7\u00e3o de momentos lit\u00fargicos com can\u00e7\u00f5es, m\u00fasicas e apresenta\u00e7\u00f5es, como uma esp\u00e9cie de lampejos da cultura ind\u00edgena. Ou seja, apropria-se da cultura ind\u00edgena mesmo que n\u00e3o se demonstrem comprometimento efetivo e responsabilidade dial\u00f3gica pelos povos nativos. Isso, em geral, ocorre por tr\u00eas raz\u00f5es b\u00e1sicas: a) a <em>nega\u00e7\u00e3o<\/em>: a partir da ideia de que os povos ind\u00edgenas est\u00e3o em extin\u00e7\u00e3o e que, por isso, seja necess\u00e1rio proteger os elementos culturais do passado para que sejam preservados na mem\u00f3ria; b) a<em> s\u00edndrome de querer ser \u00edndio<\/em>: comum em culturas brancas que fetichizam as culturas nativas e o nativo por interm\u00e9dio de imagina\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas e ut\u00f3picas \u2013 a exemplo do \u2018bom selvagem\u201d; e c) a <em>culpa em busca de reden\u00e7\u00e3o<\/em>, que leva pessoas brancas, cientes dos estragos realizados \u00e0 cultura ind\u00edgena, a se interessarem pelas culturas nativas a fim de que tenham os seus d\u00e9bitos emocionais sanados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As realidades das culturas religiosas afro-ind\u00edgenas que marcam o contexto latino-americano, mas que tamb\u00e9m est\u00e3o presentes em outros continentes, possibilitam uma revis\u00e3o da f\u00e9 e das teologias em diferentes aspectos se consideradas com uma postura de di\u00e1logo cr\u00edtico e interpelador. Isso trar\u00e1 consequ\u00eancias para as formas de coopera\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas de di\u00e1logo inter-religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre esses aspectos, \u00e9 importante destacar ao menos dois deles: o primeiro \u00e9 o alargamento da vis\u00e3o sobre a realidade, sobre o ser humano e sobre o cosmo, baseado na primazia da viv\u00eancia comunit\u00e1ria em detrimento das l\u00f3gicas doutrinais e formais, e tamb\u00e9m na maior \u00eanfase na dimens\u00e3o do despojamento e da autodoa\u00e7\u00e3o em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s formas cristol\u00f3gicas sacrificialistas. Est\u00e3o descartadas dessas vis\u00f5es as muitas idealiza\u00e7\u00f5es das referidas culturas feitas por diferentes c\u00edrculos nos campos da antropologia, da teologia e das ci\u00eancias da religi\u00e3o. No entanto, n\u00e3o se pode negar os tra\u00e7os de inclus\u00e3o e de respeito ao humano e \u00e0 natureza presentes na viv\u00eancia de na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e de povos de cultura negra (LIMA, 2006). O segundo aspecto \u00e9 que as dimens\u00f5es de subjetividade e as experi\u00eancias l\u00fadicas e rituais dos grupos religiosos afro-ind\u00edgenas, uma vez vistas como interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 teologia crist\u00e3, redimensionariam o car\u00e1ter fortemente racional nelas presente e gerariam novas s\u00ednteses entre f\u00e9 e a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de uma teologia crist\u00e3 do pluralismo religioso, estruturada nas bases do di\u00e1logo e da coopera\u00e7\u00e3o inter-religiosa, ela ser\u00e1 dialogante ou n\u00e3o ser\u00e1 teologia do pluralismo religioso; sem di\u00e1logo aberto, ela ser\u00e1 uma falsa proposta. O di\u00e1logo inter-religioso se encontrar\u00e1 prejudicado e at\u00e9 mesmo impossibilitado se for estabelecido com base em um relacionamento assim\u00e9trico entre as distintas express\u00f5es religiosas envolvidas. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade de di\u00e1logo enquanto a teologia crist\u00e3 for considerada \u201ca teologia\u201d e a teologia das heran\u00e7as africanas continuar sendo considerada \u201cmera crendice\u201d (SILVA, 2003, p. 99).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boa parte das iniciativas de di\u00e1logo ainda mant\u00e9m par\u00e2metros de reflex\u00e3o centrados no universo conceitual crist\u00e3o e n\u00e3o refletem profunda e radicalmente uma atitude dial\u00f3gica a partir \u201cde dentro\u201d das referidas culturas. Ou seja, a voz dos s\u00e1bios e s\u00e1bias das culturas afro-ind\u00edgenas ainda n\u00e3o se constitui como express\u00e3o n\u00edtida de vozes que interpelem e dialoguem com os grupos teol\u00f3gicos crist\u00e3os. Essa cr\u00edtica levaria a se ressaltar a necessidade de mudan\u00e7a de lugar teol\u00f3gico a partir das realidades das culturas religiosas afro-ind\u00edgenas e suas cosmovis\u00f5es. Trata-se de se valorizar a contribui\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es teol\u00f3gicas e de espiritualidades forjadas nas experi\u00eancias inter-religiosas que, por considerarem as culturas ind\u00edgenas e negras, desfrutam da tens\u00e3o criativa entre ritualidade e racionalidade e articulam as subjetividades do mundo afro-ind\u00edgena e a racionalidade crist\u00e3 ocidental, com vistas a uma teologia entre f\u00e9s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essa vis\u00e3o, torna-se poss\u00edvel interpretar mais adequadamente as formas religiosas tradicionais e populares nos diversos pa\u00edses, suas diversidades internas, como uma tentativa de conferir a elas o valor e o peso que possuem. Tal perspectiva abre novas possibilidades para os di\u00e1logos inter-religiosos, especialmente porque questionaria e redesenharia os imagin\u00e1rios que o pluralismo religioso cria com a m\u00e1xima \u201csomos todos iguais\u201d. Nesse sentido, da mesma forma que a reuni\u00e3o de grupos religiosos para di\u00e1logo e participa\u00e7\u00e3o social conjunta pode gerar formas veladas de domina\u00e7\u00e3o ao ocultar diferenciais de poder entre eles, a compreens\u00e3o moderna reducionista de religi\u00e3o, n\u00e3o devidamente aplic\u00e1vel aos grupos tradicionais, pode ser outra forma de artificialidade que afeta os processos de di\u00e1logo inter-religioso. Assim, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de \u201creligioso\u201d precisa ser repensada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro aspecto que tem desafiado o debate teol\u00f3gico sobre o pluralismo e sobre as pr\u00e1ticas de di\u00e1logo inter-religioso s\u00e3o as no\u00e7\u00f5es de universalismo, j\u00e1 referidas, que, em geral, s\u00e3o essencialistas e idealistas. Em geral, elas se constituem sem a devida aten\u00e7\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as e \u00e0s express\u00f5es do cotidiano e favorecem assim formas veladas de domina\u00e7\u00e3o crist\u00e3, seja no n\u00edvel pr\u00e1tico, seja no simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, outro desafio para o di\u00e1logo inter-religioso reside nas reconfigura\u00e7\u00f5es do quadro religioso e cultural latino-americano. Nesse quadro, entre tantos outros fatores, se encontra a valoriza\u00e7\u00e3o do sincretismo, outrora visto negativamente e como empecilho para o di\u00e1logo. Ele se torna ao mesmo tempo um elemento cr\u00edtico \u00e0s express\u00f5es formais e institucionalizadas de di\u00e1logo e um fator de aproxima\u00e7\u00e3o entre os grupos. N\u00e3o se trata necessariamente de uma vis\u00e3o heterodoxa; ao contr\u00e1rio, \u201cas matrizes b\u00edblico-simb\u00f3licas do Cristianismo s\u00e3o intrinsecamente abertas a novas releituras e reconceitualiza\u00e7\u00f5es\u201d (SOARES, 2003, p. 252). Isso deve acontecer em di\u00e1logo e em abertura para um processo de reformula\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica, que podem muito bem serem feitos entre e em conjunto com diferentes religi\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma teologia do sincretismo \u2013 entendida como possibilidade de se pensar a f\u00e9 dentro de um di\u00e1logo inter e intrarreligioso \u2013 possui ao menos dois aspectos como pressuposi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas: (i) express\u00e3o religiosa alguma vive em estado puro ou est\u00e1 isenta de ambiguidades, portanto pode e deve estar aberta \u00e0s outras em um processo de aprendizado; e (ii) o sincretismo, ao contr\u00e1rio do sentido negativo atribu\u00eddo ao termo na maior parte das vezes, pode ser compreendido como ressemantiza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias religiosas a partir das rela\u00e7\u00f5es aprendidas no mundo do outro. \u00c9 o que dar\u00e1 base para se indicar uma teologia interf\u00e9, que aprende das realidades religiosas de sincretismo que \u201cn\u00e3o h\u00e1 etapas rumo a esta ou aquela religi\u00e3o total, pois nenhuma f\u00e9 ou espiritualidade esgota o Sentido da Vida\u201d (SOARES, 2008, p. 213). As viv\u00eancias espirituais sincr\u00e9ticas s\u00e3o sadias provoca\u00e7\u00f5es aos conceitos enrijecidos pela l\u00f3gica dogm\u00e1tica e devem ser vistas como fonte de novidade na busca de formas novas e mais aut\u00eanticas de compreens\u00e3o da f\u00e9 tradicional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A despeito dos s\u00e9culos de abusos engendrados pelo colonialismo \u2013 e n\u00e3o obstante a viol\u00eancia dos fundamentalismos religiosos vigentes no passado e nos dias atuais \u2013, as religi\u00f5es podem contribuir efetivamente para um futuro de paz e de justi\u00e7a da sociedade global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante considerar o fato de que, historicamente, as religi\u00f5es est\u00e3o se abrindo a uma postura dialogal. Esse processo est\u00e1 marcado por for\u00e7as ambivalentes e amb\u00edguas, haja vista que se, por um lado, podemos visualizar as mais diversas for\u00e7as fundamentalistas que eclodem no seio da sociedade, por outro, encontramos simultaneamente esfor\u00e7os ecum\u00eanicos de di\u00e1logo, de coopera\u00e7\u00e3o e de constru\u00e7\u00e3o da paz de tantos organismos, f\u00f3runs, associa\u00e7\u00f5es e grupos ao redor do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Cl\u00e1udio Ribeiro<\/em>. UFJF. Texto original portugu\u00eas. Recebido: 20\/09\/2021. Aprovado: 20\/11\/2021. Publicado: 30\/12\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARIARAJAH, Wesley. <em>Repensando a miss\u00e3o nos dias de hoje. <\/em>S\u00e3o Bernardo do Campo: Editeo, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ASETT \u2013 Associa\u00e7\u00e3o dos Te\u00f3logos e Te\u00f3logas do Terceiro Mundo (org.). <em>Pelos muitos caminhos de Deus<\/em>: desafios do pluralismo religioso \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Goi\u00e1s: Rede, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ASETT \u2013 Associa\u00e7\u00e3o dos Te\u00f3logos e Te\u00f3logas do Terceiro Mundo (org.). <em>Pluralismo e liberta\u00e7\u00e3o<\/em>: por uma Teologia Latino-Americana Pluralista a partir da f\u00e9 crist\u00e3. 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Teologia crist\u00e3 do pluralismo religioso face \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es religiosas afro-americanas. In: ASETT (org.). <em>Pelos muitos caminhos de Deus. <\/em>Goi\u00e1s: Rede, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOARES, Afonso Lig\u00f3rio<em>. Interfaces da Revela\u00e7\u00e3o<\/em>: pressupostos para uma teologia do sincretismo religioso no Brasil. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOARES, Afonso Lig\u00f3rio. <em>No Esp\u00edrito do Abba<\/em>: f\u00e9, revela\u00e7\u00e3o e viv\u00eancias plurais. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TEIXEIRA, Faustino (org.). <em>Di\u00e1logo de p\u00e1ssaros<\/em>: nos caminhos do di\u00e1logo inter-religioso. 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S\u00e3o Paulo: Loyola, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TOSTES, Ang\u00e9lica. Di\u00e1logo interf\u00e9. In: RIBEIRO, Claudio; ARAG\u00c3O, Gilbraz; PANASIEWICZ, Roberlei (orgs.). <em>Dicion\u00e1rio do pluralismo religioso. <\/em>S\u00e3o Paulo: Recriar, 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VIGIL, Jos\u00e9 Maria. <em>Teologia do Pluralismo Religioso<\/em>: para uma releitura pluralista do cristianismo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WOLFF, Elias. <em>Espiritualidade do di\u00e1logo inter-religioso<\/em>: contribui\u00e7\u00f5es na perspectiva crist\u00e3. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Aspectos hist\u00f3ricos: di\u00e1logo e miss\u00e3o 2 Aspectos teol\u00f3gicos: o que \u00e9 di\u00e1logo inter-religioso 3 Aspectos conceituais: di\u00e1logo inter-religioso e di\u00e1logo interf\u00e9 4 Aspectos cr\u00edticos: desafios ao di\u00e1logo inter-religioso Refer\u00eancias 1 Aspectos hist\u00f3ricos: di\u00e1logo e miss\u00e3o \u00a0 As experi\u00eancias de di\u00e1logo inter-religioso t\u00eam marcado o cen\u00e1rio cultural global e tamb\u00e9m o do contexto latino-americano, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-2558","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-fundamental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2558","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2558"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2558\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2647,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2558\/revisions\/2647"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2558"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2558"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}