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{"id":2554,"date":"2021-12-29T20:58:32","date_gmt":"2021-12-29T23:58:32","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2554"},"modified":"2022-01-27T17:51:28","modified_gmt":"2022-01-27T20:51:28","slug":"leitura-canonica-da-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2554","title":{"rendered":"Leitura can\u00f4nica da B\u00edblia"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 A express\u00e3o leitura can\u00f4nica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Breve panor\u00e2mica hist\u00f3rica da leitura can\u00f4nica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 <em>Verbum Domini<\/em>, Bento XVI e a leitura can\u00f4nica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 A perspectiva can\u00f4nica e o di\u00e1logo ecum\u00eanico<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Questionamentos e cr\u00edticas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A leitura can\u00f4nica busca interpretar a Sagrada Escritura qual ponte entre a exegese b\u00edblica e o c\u00e2non dos livros inspirados, tendo como pano de fundo n\u00e3o somente o texto em seu contexto imediato, mas no contexto amplo em que est\u00e1 inserido como, por exemplo, profetas ou escritos paulinos ou, ainda, em seu contexto can\u00f4nico de Alian\u00e7a, Antigo ou Novo Testamento e, por fim, levando em conta toda a B\u00edblia, como obra do Esp\u00edrito Santo. Ela busca interpretar um determinado texto b\u00edblico \u00e0 luz do C\u00e2non das Escrituras, isto \u00e9, da B\u00edblia recebida como norma de f\u00e9 pela comunidade de fi\u00e9is. A partir disso, procura situar cada texto no interior do \u00fanico des\u00edgnio salv\u00edfico de Deus, objetivando chegar a uma atualiza\u00e7\u00e3o da Escritura para os dias atuais (PONTIF\u00cdCIA COMISS\u00c3O B\u00cdBLICA, 1993, p. 1326). Sob esse prisma, est\u00e1 em conson\u00e2ncia com o princ\u00edpio do ensinamento agostiniano, segundo o qual \u201cuma s\u00f3 \u00e9 a palavra de Deus que se estende por todas as Escrituras; [&#8230;] um s\u00f3 Verbo, que sendo no princ\u00edpio Deus junto de Deus, l\u00e1 n\u00e3o consta de s\u00edlabas, porque est\u00e1 fora do tempo\u201d (SANTO AGOSTINHO, 1998, p. 89).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a leitura can\u00f4nica surge, de alguma forma, como um retorno \u00e0s fontes patr\u00edsticas de hermen\u00eautica b\u00edblica, atenta \u00e0 unidade da Sagrada Escritura (ELOY E SILVA, 2010, p. 25), consciente de que o livro das Escrituras \u00e9 recebido das m\u00e3os da Igreja e interpretado no seio da f\u00e9 eclesial (GARGANO, 2000, p. 191).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora alguns autores a ela se refiram como \u201cexegese can\u00f4nica\u201d, n\u00e3o adotaremos essa express\u00e3o aqui. Por se tratar mais especificamente de uma aproxima\u00e7\u00e3o ou uma abordagem ao texto e, portanto, enquadrar-se no horizonte mais hermen\u00eautico que exeg\u00e9tico, preferimos utilizar a express\u00e3o \u201cleitura can\u00f4nica\u201d.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">1 A express\u00e3o \u201cleitura can\u00f4nica\u201d<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo \u201cc\u00e2non\u201d pode significar tanto \u201cnorma, ideal\u201d quanto \u201clista, cat\u00e1logo ou medida fixa\u201d. Aparece como sin\u00f4nimo de \u201cregra da f\u00e9 crist\u00e3\u201d em Clemente de Alexandria, em sua primeira carta (<em>1Clem <\/em>7,2), na obra <em>Stromata <\/em>(4,15,98; 6,15,124) e em Ireneu de Lion, em sua obra <em>Adversus Haereses <\/em>(III,2,1; 11,1). Para indicar os livros b\u00edblicos, o termo aparece pela primeira vez em Atan\u00e1sio, que chama de livros ap\u00f3crifos os que ele n\u00e3o considera como pertencentes ao \u201cc\u00e2non b\u00edblico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201cleitura can\u00f4nica\u201d, adotada no t\u00edtulo deste verbete, \u00e9 uma tentativa de escolher uma palavra neutra, por entender que toda aproxima\u00e7\u00e3o ao texto \u00e9 um ato de leitura, pois a primeira dificuldade, quando se trata de aproxima\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica de tipo can\u00f4nico ao texto b\u00edblico, \u00e9 a falta de consenso entre os estudiosos do assunto (ELOY E SILVA, 2014, p. 111).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto J. Sanders usa a express\u00e3o \u201ccriticismo can\u00f4nico\u201d (<em>canonical criticism<\/em>), B. Childs prefere a express\u00e3o \u201cabordagem can\u00f4nica\u201d (<em>canonical approach<\/em>). Ambos convergem, no entanto, na convic\u00e7\u00e3o de que o m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico revelou-se inapropriado para interpretar o texto b\u00edblico no que diz respeito \u00e0 compreens\u00e3o de seu horizonte teol\u00f3gico e de sua atualiza\u00e7\u00e3o ao leitor que, em todas as \u00e9pocas, busca no texto b\u00edblico a inspira\u00e7\u00e3o e a compreens\u00e3o para sua atua\u00e7\u00e3o diante de quest\u00f5es da exist\u00eancia. Alguns autores optam por usar \u201ccriticismo can\u00f4nico\u201d quando falam da proposta de Childs, mesmo sabendo que o autor desaprovava tal express\u00e3o (PARSONS, 1991, p. 255 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de um c\u00e2non b\u00edblico inclui dois ingredientes integrais, conforme a \u00eanfase que se d\u00e1:\u00a0 a forma liter\u00e1ria final da B\u00edblia (<em>norma normata<\/em>) ou a fun\u00e7\u00e3o religiosa em desenvolvimento (<em>norma normans<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Childs, com sua abordagem can\u00f4nica, fez uma op\u00e7\u00e3o hermen\u00eautica pela B\u00edblia em sua forma liter\u00e1ria final (<em>norma<\/em> <em>normata<\/em>), com \u00eanfase na compreens\u00e3o de que o texto \u00e9 um testemunho normativo de Jesus Cristo. Nesse sentido, o papel da Sagrada Escritura seria o de \u201cregra de f\u00e9\u201d que testemunha Jesus Cristo, em cuja encarna\u00e7\u00e3o encontra-se a norma para a regra de f\u00e9 da comunidade. Segundo ele, a abordagem can\u00f4nica \u00e9 pouco interessada na reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ou lingu\u00edstica das inten\u00e7\u00f5es dos est\u00e1gios pr\u00e9-can\u00f4nicos da forma\u00e7\u00e3o de uma determinada composi\u00e7\u00e3o ou cole\u00e7\u00e3o textual e, por isso, n\u00e3o possui interesse de tipo diacr\u00f4nico. Justamente por tal motivo, mesmo c\u00f4nscio de que h\u00e1 um processo can\u00f4nico, i.e., um processo din\u00e2mico de forma\u00e7\u00e3o das Escrituras Sagradas, Childs dedica-se particularmente \u00e0 dimens\u00e3o sincr\u00f4nica do per\u00edodo em que as Escrituras crist\u00e3s chegaram \u00e0 sua forma liter\u00e1ria final. A forma liter\u00e1ria final selecionada, moldada e definida pela comunidade crist\u00e3 como escritura normativa, assim como tornou-se refer\u00eancia para a mesma comunidade no passado, pode exercer o mesmo papel no presente.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">2 O m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dissemos acima, a leitura can\u00f4nica surge como uma tentativa de complementar os resultados obtidos pelo m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico. Enquanto perspectiva eminentemente diacr\u00f4nica, o m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico entende o texto b\u00edblico como cole\u00e7\u00e3o de textos antigos que, postos em conjunto, mesmo sendo unidades de origem distintas, formam o corpo da Escritura, fruto de um complexo processo. \u00c9 chamado de hist\u00f3rico porque se baseia nas fontes hist\u00f3ricas dos textos, entendendo-os como uma realidade antiga, embora n\u00e3o estagnada, por terem passado por est\u00e1gios de evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. \u00c9 cr\u00edtico por ser uma rea\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o que o antecedeu, particularmente, a de tipo aleg\u00f3rico, predominante em \u00e9poca medieval, e por arvorar uma perspectiva de leitura de cunho unicamente cient\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do que se pode sintetizar como resultado da exegese desenvolvida no s\u00e9culo XIX e primeira metade do s\u00e9culo XX, o m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico leva em conta os seguintes passos ao estudar um texto antigo: a) cr\u00edtica textual; b) an\u00e1lise lingu\u00edstica (delimita\u00e7\u00e3o, fon\u00e9tica, morfologia, sintaxe, sem\u00e2ntica); c) cr\u00edtica das fontes; d) cr\u00edtica dos g\u00eaneros liter\u00e1rios; e) cr\u00edtica das tradi\u00e7\u00f5es; f) cr\u00edtica hist\u00f3rica da reda\u00e7\u00e3o (ZIMMERMANN, 1982, p. 9-15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica textual parte do pressuposto de que nenhum texto b\u00edblico preservou o texto original. Fundamentada nos v\u00e1rios manuscritos, seguindo crit\u00e9rios cient\u00edficos, a cr\u00edtica textual tenta aproximar-se o quanto poss\u00edvel do texto considerado original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s estabelecer o texto a ser estudado, em base aos crit\u00e9rios da cr\u00edtica textual, o exegeta examina o texto partindo de seu elemento unit\u00e1rio que \u00e9 o l\u00e9xico, revisitando-o em col\u00f3quio com as unidades sint\u00e1ticas simples e complexas em busca de identificar fragmentos ou jun\u00e7\u00f5es que possibilitem acesso \u00e0 origem hist\u00f3rica do elemento constituinte do texto. Realizando tais passos, por exemplo, \u00e9 que Hermann Gunkel cunhou a express\u00e3o <em>Sitz im Leben<\/em> e Julius Wellhausen reconstruiu as camadas do Pentateuco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica das fontes busca separar, em um texto, as fontes antigas consideradas origin\u00e1rias daquelas entendidas como redacionais. Um exemplo desse trabalho, no Novo Testamento, \u00e9 a Quest\u00e3o Sin\u00f3ptica e a elabora\u00e7\u00e3o na hip\u00f3tese da Fonte dos <em>logia<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica dos g\u00eaneros liter\u00e1rios, mesclada por alguns autores com a cr\u00edtica da forma, busca identificar o tipo de texto em an\u00e1lise, associando-o a categorias que possuem uma forma liter\u00e1ria semelhante. A essa etapa pertence a identifica\u00e7\u00e3o de um texto como par\u00e1bola, ora\u00e7\u00e3o, milagre, exorcismo etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica das tradi\u00e7\u00f5es situa os textos em correntes, buscando determinar e descrever cada etapa de uma tradi\u00e7\u00e3o em seu processo de desenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica da reda\u00e7\u00e3o parte do pressuposto de que um texto n\u00e3o unit\u00e1rio tenha passado por um processo de crescimento. N\u00e3o somente indica a presen\u00e7a de v\u00e1rios extratos no texto, mas busca identificar a rela\u00e7\u00e3o entre eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota-se que o m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico configura-se como um<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">m\u00e9todo anal\u00edtico que se aproxima sistematicamente da Sagrada Escritura como se aproximaria de qualquer outro texto antigo. Trata-se, tamb\u00e9m, de um m\u00e9todo exigente e que requer grande compet\u00eancia filol\u00f3gica e hist\u00f3rica, numa an\u00e1lise em di\u00e1logo constante com outras l\u00ednguas antigas e at\u00e9 mesmo com a arqueologia. (ELOY E SILVA, 2010, p. 18)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este m\u00e9todo recebeu oposi\u00e7\u00e3o da parte de alguns estudiosos por se ocupar, demasiadamente com o aspecto passado do texto, tornando-se por demais filol\u00f3gico-arqueol\u00f3gico sem rela\u00e7\u00e3o com o presente da comunidade de f\u00e9 que se aproxima do texto b\u00edblico para dele nutrir-se no hoje de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">3 Breve Panor\u00e2mica hist\u00f3rica da leitura can\u00f4nica<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1958, Childs publica o artigo <em>Jonah: A Study in Old Testament Hermeneutics<\/em> no qual ele reconhece o valor do m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico, mas reconhece que se trata de um m\u00e9todo inadequado para a interpreta\u00e7\u00e3o do testemunho b\u00edblico teol\u00f3gico do livro de Jonas, por n\u00e3o se aproximar ao texto com \u201cos olhos da f\u00e9\u201d (XUN, 2010, p. 20). Em 1964, publicou outro artigo com o t\u00edtulo <em>Interpretation in Faith: The Theological Responsibility of an OT Commentary<\/em> no qual se encontram as principais ideias que haveriam de ser aprofundadas posteriormente, tais como as fragilidades do m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico para a compreens\u00e3o do Antigo Testamento e a necessidade de uma leitura do Novo Testamento \u00e0 luz do Antigo. Entre elas, podemos elencar: a an\u00e1lise teol\u00f3gica de um texto b\u00edblico deve pressupor a f\u00e9. Critica, assim, o estudo racional do texto b\u00edblico como ato primeiro para depois aplicar a ele a dimens\u00e3o da f\u00e9 (CHILDS, 1964, p. 438); defende que n\u00e3o \u00e9 objetivo da exegese identificar o autor dos textos ou sua data e local de forma\u00e7\u00e3o, mas identificar a inten\u00e7\u00e3o do autor divino que inspirou os textos (CHILDS, 1964, p. 441-449). A compreens\u00e3o de que todos os livros da b\u00edblia possuem um autor divino \u00e9 que lhes d\u00e1 unidade. Historicamente esses livros formam um todo para a comunidade de f\u00e9, pois assim ela os assume. Tal unidade n\u00e3o contradiz o fato de que cada livro possui sua singularidade e sua especificidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, em 1970, com a publica\u00e7\u00e3o da obra <em>Biblical Theology in Crisis<\/em>, Childs prop\u00f5e unir a B\u00edblia \u00e0 teologia como caminho para o futuro da teologia b\u00edblica. Nessa obra, ele cunhou o termo \u201cabordagem can\u00f4nica\u201d (<em>canonical approach<\/em>) e p\u00f4s o acento na forma final do texto, aceito por ele como autoridade para a comunidade de f\u00e9, o que se tornou o elemento mais emblem\u00e1tico de sua pesquisa acerca do c\u00e2non. Childs entende que a rela\u00e7\u00e3o entre o que ele chama de contexto hist\u00f3rico e contexto can\u00f4nico \u00e9 semelhante \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre a parte (a an\u00e1lise) e o todo (a s\u00edntese). Os m\u00e9todos hist\u00f3rico-cr\u00edticos s\u00e3o capazes da an\u00e1lise, mas n\u00e3o o s\u00e3o da s\u00edntese, tarefa que caberia \u00e0 \u201cabordagem can\u00f4nica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Childs baseia sua proposta metodol\u00f3gica no conceito de c\u00e2non b\u00edblico, elemento considerado fundamental para a compreens\u00e3o da unidade da b\u00edblia e, portanto, para a elabora\u00e7\u00e3o de uma poss\u00edvel teologia b\u00edblica. Diante da autoridade teol\u00f3gica do c\u00e2non, cabe ao trabalho exeg\u00e9tico encontrar a inten\u00e7\u00e3o can\u00f4nica presente nas p\u00e1ginas da Sagrada Escritura, enquanto \u201cc\u00e2non crist\u00e3o\u201d, incluindo o Antigo e o Novo Testamentos. Nessa perspectiva, ele prop\u00f5e dispor os dois testamentos em di\u00e1logo e como testemunha unificada na interpreta\u00e7\u00e3o de uma passagem espec\u00edfica em conson\u00e2ncia com o todo da revela\u00e7\u00e3o expressa na totalidade da Escritura. Em outras palavras, al\u00e9m de o trabalho exeg\u00e9tico relacionar um texto b\u00edblico \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, ele deveria, ainda, explorar a rela\u00e7\u00e3o entre o texto individual e seu contexto can\u00f4nico completo. Assim, deve-se levar em conta a realidade teol\u00f3gica do c\u00e2non, a <em>regula fidei<\/em>, a exegese pr\u00e9-cr\u00edtica (a Tradi\u00e7\u00e3o) e a interpreta\u00e7\u00e3o judaica do texto (CHILDS, 1970, p. 99-107).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Childs defende que, diversamente de outras tentativas que buscaram construir uma teologia b\u00edblica baseada em temas transversais supostamente presentes no <em>corpus biblicum <\/em>como, por exemplo, o conceito \u201cAlian\u00e7a\u201d, defendido por Walter Eichrodt; o conceito b\u00edblico de \u201cTempo\u201d, defendido por Oscar Cullman ou, ainda, o conceito \u201cHist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o\u201d, defendido por Gerhard von Rad, \u00e9 preciso basear-se n\u00e3o em \u201ctemas\u201d, mas na aceita\u00e7\u00e3o do c\u00e2non como um princ\u00edpio hermen\u00eautico formal. Para tal, diversamente dos m\u00e9todos hist\u00f3rico-cr\u00edticos que se baseiam na individua\u00e7\u00e3o dos est\u00e1gios precedentes que compuseram o desenvolvimento textual da Escritura, Childs prop\u00f5e estudar o texto a partir da forma final (ou can\u00f4nica) em que se encontra (CHILDS, 1979, p. 73). Sob esse aspecto, o professor de Yale considera o termo \u201ccan\u00f4nico\u201d, por um lado, como sin\u00f4nimo de forma final do texto e, por outro, como sin\u00f4nimo de \u201cforma normativa para os crist\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1974,\u00a0 Childs publicou um coment\u00e1rio teol\u00f3gico ao livro do \u00caxodo (<em>The Book of Exodus: A Critical, Theological Commentary<\/em>), em cuja obra p\u00f5e em pr\u00e1tica elementos de sua proposta de abordagem can\u00f4nica a um texto b\u00edblico. Para cada parte do texto, ele baseia o coment\u00e1rio em seis se\u00e7\u00f5es: 1. Tradu\u00e7\u00e3o, notas textuais e filol\u00f3gicas; 2. Hist\u00f3ria das Fontes, das formas e das tradi\u00e7\u00f5es; 3. Contexto do Antigo Testamento; 4. Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento; 5. Hist\u00f3ria da exegese; 6. Reflex\u00e3o teol\u00f3gica. Particularmente, a se\u00e7\u00e3o \u201cContexto do Antigo Testamento\u201d \u00e9 vista por Childs como elemento nuclear da obra (CHILDS, 1974, p. XIV).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1979, Childs publica <em>Introduction to The Old Testament as Scripture <\/em>e, na d\u00e9cada sucessiva, dando prosseguimento \u00e0 sua pesquisa, em 1984, ele publica <em>The New Testament as Canon: An Introduction<\/em>. Nessas duas introdu\u00e7\u00f5es, ele apresenta leituras can\u00f4nicas dos livros individuais da B\u00edblia, buscando apontar as quest\u00f5es e os problemas segundo a perspectiva diacr\u00f4nica dos m\u00e9todos hist\u00f3rico-cr\u00edticos para, depois, tratar da forma final de cada livro considerado em seus aspectos liter\u00e1rio e teol\u00f3gico como um todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1986, ele publica <em>Old Testament in a Canonical Context<\/em>, obra baseada na leitura intertextual das tr\u00eas partes da B\u00edblia Hebraica, tendo como pano de fundo o princ\u00edpio do todo veterotestament\u00e1rio como norma, revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi, no entanto, em 1992, com a publica\u00e7\u00e3o de <em>Biblical Theology of the Old and New Testaments: Theological Reflection on the Christian Bible <\/em>que Childs deu um passo significativo. Nessa obra, indica a problem\u00e1tica de a B\u00edblia Crist\u00e3 possuir v\u00e1rias formas can\u00f4nicas e o fato de a Igreja primitiva, ao usar a Septuaginta, ter uma concep\u00e7\u00e3o can\u00f4nica diversa da B\u00edblia Hebraica n\u00e3o somente na forma como normatiza a lista dos livros, mas tamb\u00e9m na forma como os interpreta ao us\u00e1-los no Novo Testamento. Prop\u00f5e que, para evitar que a teologia b\u00edblica seja entendida somente como teologia do Novo Testamento, \u00e9 preciso entender que tamb\u00e9m o Antigo Testamento \u00e9 testemunha de Jesus Cristo, n\u00e3o no sentido de uma indica\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, mas no sentido de n\u00e3o poder ser compreendido sem o Novo Testamento, no qual a pessoa de Cristo ocupa o foco central. Significativo, ainda, nessa obra, seu \u00faltimo cap\u00edtulo, no qual o autor demonstra como \u00e9 poss\u00edvel partir da exegese b\u00edblica para chegar \u00e0 teologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio do novo mil\u00eanio, Childs dedica duas obras ao profeta Isa\u00edas: <em>Isaiah, A Commentary <\/em>(2001) e <em>The Struggle to Understand Isaiah as Christian Scripture <\/em>(2004). Publica, ainda, <em>Biblical Theology: A Proposal <\/em>(2002) e deixa como \u00faltima obra, publicada um ano ap\u00f3s sua morte: <em>The Church\u2019s Guide for Reading Paul: The Canonical Shaping of the Pauline Corpus<\/em> (2008). Childs falece, aos 84 anos, em 23 de junho de 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os pontos positivos da abordagem can\u00f4nica, os autores reconhecem que se trata de uma contribui\u00e7\u00e3o significativa para corrigir as lacunas do m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico que fragmenta excessivamente o texto ao analis\u00e1-lo, para superar o hiato entre exegese e atualiza\u00e7\u00e3o pastoral da B\u00edblia na vida da Igreja e para restituir o valor teol\u00f3gico aos estudos do texto b\u00edblico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paralelamente a Childs, outro professor norte americano, da escola teol\u00f3gica de Claremont, Calif\u00f3rnia, James A. Sanders, ao estudar manuscritos da gruta 11, em suas obras <em>The Psalms Scroll of Qumr\u00e2n Cave 11 (11QPsa)<\/em>, de 1965, e <em>Cave 11 Surprises and the Question of Canon<\/em>, de 1969, nota a diferen\u00e7a entre salmos em Qumran n\u00e3o somente no quesito da ordem, que diverge do texto massor\u00e9tico, mas tamb\u00e9m identifica v\u00e1rios salmos presentes nos Manuscritos do Mar Morto e n\u00e3o constantes na B\u00edblia Hebraica. Conclui que o Salt\u00e9rio encontrado em Qumran possui tanto um car\u00e1ter est\u00e1vel por conter um texto protomassor\u00e9tico, quanto um car\u00e1ter inst\u00e1vel por conter uma vers\u00e3o do Salt\u00e9rio n\u00e3o encontrada na B\u00edblia Hebraica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele publica, no ano de 1972, sua obra <em>Torah and Canon<\/em>. Nessa obra, Sanders cunha a express\u00e3o <em>canon criticism<\/em>, express\u00e3o alterada por ele em 1984 para <em>canonical criticism<\/em> na obra <em>Canon and Community: A Guide to Canonical Criticism<\/em> com o objetivo de ler um texto a partir do c\u00e2non, mas n\u00e3o do c\u00e2non em sua forma final, como defendia Childs, mas como processo por meio do qual a comunidade chegou \u00e0 forma considerada por ela como canonicamente significativa. Enquanto Childs parte do \u201cc\u00e2non protestante\u201d, levando em considera\u00e7\u00e3o ambos os testamentos, tendo como base o texto massor\u00e9tico para o Antigo Testamento, Sanders leva em conta outros \u201cc\u00e2nones\u201d como, por exemplo, al\u00e9m do texto massor\u00e9tico que representa a Tanak judaica, os v\u00e1rios outros \u201cc\u00e2nones\u201d presentes no cristianismo, tais como o protestante, o cat\u00f3lico, o ortodoxo oriental etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sanders interessa-se, assim, pela dimens\u00e3o hermen\u00eautica da composi\u00e7\u00e3o inicial do texto can\u00f4nico, bem como de seu desenvolvimento. Ele tira a aten\u00e7\u00e3o da B\u00edblia como <em>norma normata, <\/em>transferindo-a para compreens\u00e3o de <em>norma normans<\/em>, ou seja, muda o foco da forma liter\u00e1ria para a sua fun\u00e7\u00e3o eclesial. Dessa forma, o criticismo can\u00f4nico, diversamente da abordagem can\u00f4nica, concentra-se em como um texto b\u00edblico torna-se can\u00f4nico no ato de interpreta\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, como um texto torna-se meio para ir ao encontro da vida dos fi\u00e9is, confortando-os, impulsionando-os a alguma decis\u00e3o ou at\u00e9 incomodando-os, dependendo da situa\u00e7\u00e3o vital da comunidade eclesial.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">4 <em>Verbum Domini<\/em>, Bento XVI e a leitura can\u00f4nica<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tem\u00e1tica da leitura can\u00f4nica da Escritura foi retomada durante um evento significativo da Igreja, quando no dia 14 de outubro de 2008, durante a 14\u00aa congrega\u00e7\u00e3o geral da XII Assembleia Geral do S\u00ednodo dos Bispos, Bento XVI tomou a palavra, demonstrando sua preocupa\u00e7\u00e3o quanto ao tema \u201cunidade entre exegese e teologia\u201d. Em sua fala, recorda a necessidade do recurso ao m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico, baseado no fato de que o acontecimento hist\u00f3rico \u00e9 uma dimens\u00e3o constitutiva da f\u00e9 crist\u00e3, pois ela n\u00e3o \u00e9 mitologia, mas hist\u00f3ria verdadeira. Todavia, essa hist\u00f3ria possui uma dimens\u00e3o vinculada \u00e0 a\u00e7\u00e3o divina e para tal necessita de uma abordagem metodol\u00f3gica que a compreenda em sua dimens\u00e3o pneumatol\u00f3gica. Indica, ent\u00e3o, como via de interpreta\u00e7\u00e3o do texto b\u00edblico, levar em conta a unidade de toda a Escritura, o que ele chama de \u201cexegese can\u00f4nica\u201d sem se esquecer da Tradi\u00e7\u00e3o viva de toda a Igreja e da <em>analogia fidei<\/em>. Conclui recordando que somente quando se observam os dois n\u00edveis, o hist\u00f3rico-cr\u00edtico e o teol\u00f3gico, pode-se falar de uma exegese adequada da Sagrada Escritura. Recorda particularmente que, enquanto o primeiro n\u00edvel recebeu adequada aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode dizer o mesmo do segundo (BENTO XVI, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inquieta\u00e7\u00e3o de Bento XVI j\u00e1 havia sido manifestada quando ele era prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, durante a elabora\u00e7\u00e3o do documento <em>B\u00edblia e Cristologia, <\/em>com as men\u00e7\u00f5es ao \u201cc\u00e2non da Escritura\u201d como base (PONTIF\u00cdCIA COMISS\u00c3O B\u00cdBLICA, 1984, n. 912) e, na mesma linha, e mais expl\u00edcita ainda, na segunda parte, em refer\u00eancia a \u201cO testemunho global da Sagrada Escritura sobre Cristo\u201d (PONTIF\u00cdCIA COMISS\u00c3O B\u00cdBLICA, 1984, n. 991).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posteriormente, quando em 1988, em Nova Iorque, proferiu sua <em>Erasmus Lecture<\/em> na Igreja Luterana de Saint Peter, ele se referiu ao m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico como dissecador do sentido do texto b\u00edblico e respons\u00e1vel por realizar uma \u201caut\u00f3psia hist\u00f3rica\u201d do texto, express\u00e3o antes utilizada por K\u00e4stner (RATZINGER, 1996, p. 114).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco foi produzido, nesse campo, ap\u00f3s o apelo de Bento XVI. Talvez porque a comunidade acad\u00eamica ainda tenha suas retic\u00eancias \u00e0 leitura can\u00f4nica por t\u00ea-la analisado de forma isolada e exclusiva e n\u00e3o em complementaridade com o m\u00e9todo-hist\u00f3rico cr\u00edtico, como proposto pelo pont\u00edfice (ELOY E SILVA, 2010, p. 24).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">5 A perspectiva can\u00f4nica e o di\u00e1logo ecum\u00eanico<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Particularmente Childs, com suas publica\u00e7\u00f5es, abriu perspectivas significativas para o di\u00e1logo ecum\u00eanico por meio da abordagem can\u00f4nica. Sua compreens\u00e3o da \u201cregra do C\u00e2non\u201d \u00e9 muito pr\u00f3xima da <em>regula fidei<\/em> dos Padres da Igreja, como ele pr\u00f3prio reconhece (CHILDS, 1984a, p. 67). Com isso, entende que o c\u00e2non possui autoridade teol\u00f3gica para indicar a dire\u00e7\u00e3o correta para a justa hermen\u00eautica dos textos b\u00edblicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob a mesma perspectiva, Childs \u00e9, ainda, muito pr\u00f3ximo do esp\u00edrito presente no que ensina a <em>Dei Verbum <\/em>(DV) 21 e 12.<em> DV <\/em>21 recorda que a Igreja sempre considerou, junto com a sagrada Tradi\u00e7\u00e3o, a Sagrada Escritura como regra suprema da pr\u00f3pria f\u00e9. No entanto, o ponto de contato mais not\u00e1vel na inspira\u00e7\u00e3o de Childs em desenvolver uma teologia b\u00edblica a partir do c\u00e2non encontra ponto de contato com <em>DV <\/em>12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O famoso e sempre citado texto do documento conciliar recorda a necessidade de se ler a Sagrada Escritura e interpret\u00e1-la com o mesmo esp\u00edrito com que foi escrita, levando em conta o contexto e a unidade de toda a Escritura, com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Tradi\u00e7\u00e3o viva de toda a Igreja e \u00e0 analogia da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os temas da unidade da Sagrada Escritura e da Tradi\u00e7\u00e3o viva da Igreja descritos na <em>DV <\/em>s\u00e3o, tamb\u00e9m, temas desenvolvidos nos escritos de Childs, chamados por ele de unidade da b\u00edblia e contexto da comunidade de f\u00e9 (CHILDS, 1964, p. 438). Com efeito, ele afirma que Escritura e Tradi\u00e7\u00e3o devem ser tratadas em conjunto: \u201c<em>Scripture and tradition belong together<\/em>\u201d (CHILDS, 1978, p. 53). Dir\u00e1 que, sem a compreens\u00e3o da Tradi\u00e7\u00e3o de f\u00e9 da comunidade, falta o contexto adequado para a realiza\u00e7\u00e3o da exegese que deseja alcan\u00e7ar o sentido teol\u00f3gico do texto. Por isso, defende que o c\u00e2non, de um lado, \u00e9 a base sobre a qual \u00e9 poss\u00edvel construir a teologia de toda a Escritura e a aceita\u00e7\u00e3o da unidade da B\u00edblia, e por outro, \u00e9 a chave para a realiza\u00e7\u00e3o da desejada leitura do texto em seu aspecto can\u00f4nico. Enfim, recorda, ao tratar da unidade da Escritura: ao Antigo Testamento compreende-se em sua rela\u00e7\u00e3o com o Novo. O Novo, todavia, torna-se incompreens\u00edvel sem o Antigo (CHILDS, 1992, p. 17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora Childs tenha esses pontos de contato com o pensamento cat\u00f3lico expresso na <em>DV<\/em>, \u00e9 preciso destacar que sua compreens\u00e3o de c\u00e2non exclui os livros deuterocan\u00f4nicos e tende a manter o princ\u00edpio hermen\u00eautico da <em>Sola Scriptura<\/em> o que \u00e9, muitas vezes, visto pelos estudiosos como falta de coer\u00eancia no interior de sua abordagem metodol\u00f3gica (SANECKI, 2004, p. 368-380). Isso, no entanto, n\u00e3o faz com que aluda, por exemplo, aos deuterocan\u00f4nicos, como o faz com os livros de Baruc e de Sir\u00e1cida (CHILDS, 1992, p. 743), ou expresse o ensejo de levar em conta o que chama de <em>larger canon<\/em> ao se referir \u00e0 inclus\u00e3o dos deuterocan\u00f4nicos (CHILDS, 1979, p. 666).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele mesmo dir\u00e1 que a insist\u00eancia da Igreja Cat\u00f3lica no papel decisivo da Tradi\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o da B\u00edblia Crist\u00e3 foi um correto reconhecimento do papel do uso da Escritura pela comunidade tanto na proclama\u00e7\u00e3o da Palavra quanto na celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. Dessa forma, por meio da liturgia, a Igreja Cat\u00f3lica recebeu a mensagem b\u00edblica, valorizou-a e a transmitiu.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A regra de f\u00e9 da Igreja, mais tarde expressa em credos, n\u00e3o buscou impor uma tradi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica estranha sobre as Escrituras, mas buscou preservar a unidade entre Palavra e Tradi\u00e7\u00e3o como o Esp\u00edrito continuamente avivou a verdade do evangelho a partir do qual a Igreja viveu. (CHILDS, 1992, p. 66-67. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9\u00a0 nossa.)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E concluir\u00e1 que parte da tarefa de uma teologia b\u00edblica, cuja base \u00e9 o horizonte can\u00f4nico, \u00e9 a de buscar conjugar os polos dial\u00e9ticos, historicamente representados pelo catolicismo e pelo protestantismo (CHILDS, 1992, p. 67).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">6 Questionamentos e cr\u00edticas<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre as muitas dificuldades encontradas por aqueles que estudaram a leitura can\u00f4nica est\u00e1 a de pensar que somente sob a perspectiva suscitada por Childs seja poss\u00edvel ler a B\u00edblia enquanto Sagrada Escritura em seu aspecto teol\u00f3gico. Entre seus opositores fulgura o posicionamento de que ele buscou uma simplifica\u00e7\u00e3o e uma harmoniza\u00e7\u00e3o artificial da Escritura, escolheu o texto massor\u00e9tico e a B\u00edblia Hebraica como o c\u00e2non mais adequado para se fazer exegese crist\u00e3 do Antigo Testamento, n\u00e3o se ateve suficientemente \u00e0 dimens\u00e3o hist\u00f3rica da revela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi claro e preciso em apresentar de forma consequente sua proposta metodol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">K\u00fcgler chega a chamar a abordagem can\u00f4nica de \u201cprograma neoconservador\u201d com tend\u00eancias em incorporar correntes reacion\u00e1rias \u00e0 exegese b\u00edblica (K\u00dcGLER, 2008, p. 38), o que pode levar \u00e0 \u201cdesistoriza\u00e7\u00e3o da mensagem b\u00edblica e crist\u00e3\u201d (TREBOLLE BARRERA, 1996, p. 687), j\u00e1 que o exegeta n\u00e3o precisa ler o texto em sua dimens\u00e3o hist\u00f3rica, mas somente na globalidade do c\u00e2non.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, h\u00e1 o risco de que a leitura can\u00f4nica n\u00e3o somente proclame, na linha de Roland Barthes, a morte do autor, mas tamb\u00e9m a morte do texto. Tal perigo surge quando a leitura can\u00f4nica toma como modelo a alegoria usada em escritos patr\u00edsticos, uma abordagem de atualiza\u00e7\u00e3o do texto, mas que pode p\u00f4r em risco a autoridade de seu conte\u00fado (K\u00dcGLER, 2008, p. 39), particularmente em di\u00e1logo com a situa\u00e7\u00e3o cultural, social, econ\u00f4mica e hist\u00f3rica em que o texto foi produzido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, a leitura can\u00f4nica parece n\u00e3o se diferenciar de uma teologia b\u00edblica sincr\u00f4nica e tem\u00e1tica, cujo escopo seja o de estabelecer grandes temas da Sagrada Escritura e suas rela\u00e7\u00f5es, por exemplo, com o Novo Testamento (SIMIAN-YOFRE, 2010, p. 276). Consequentemente, tal leitura corre o risco de estar inspirada mais por motivos doutrinais e pastorais que por motivos propriamente exeg\u00e9ticos, ignorando tens\u00f5es entre per\u00edcopes e livros, levando em conta uma tese estabelecida a partir n\u00e3o do texto b\u00edblico, mas de fora dele (SIMIAN-YOFRE, 2010, p. 277), entrando, assim, n\u00e3o mais em uma perspectiva exeg\u00e9tica, mas \u201ceiseg\u00e9tica\u201d (K\u00dcGLER, 2008, p.40).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Lu\u00eds Henrique Eloy e Silva. <\/em>PUC Minas\/FAJE. Texto original em portugu\u00eas. Enviado: 20\/07\/2021. Aprovado: 25\/09\/2021. Publicado: 29\/12\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">BENTO XVI, <em>Interven\u00e7\u00e3o na d\u00e9cima-quarta congrega\u00e7\u00e3o geral da XII assembleia geral ordin\u00e1ria do s\u00ednodo dos bispos<\/em>. 14 de outubro, 2008. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/speeches\/2008\/october\/documents\/hf_ben-xvi_spe_20081014_sinodo.html\">http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/speeches\/2008\/october\/documents\/hf_ben-xvi_spe_20081014_sinodo.html<\/a> Acesso em: 12 set 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S. The Canonical Shape of the Prophetic Literature. <em>Interpretation<\/em>, Richmond, v. 32, n. 1, p. 46-55, jan 1978.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 \u201cChilds versus Barr\u201d. Review of Holy Scripture: Canon, Authority, Criticism, by James Barr. <em>Interpretation<\/em>, Richmond, v. 38, n. 1. p. 66-70, jan 1984a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>Biblical Theology in Crisis. <\/em>Philadelphia: The Westminster Press, 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>Biblical Theology of the Old and New Testaments: <\/em>Theological Reflection on the Christian Bible. Minneapolis: Fortress Press,1993.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>Biblical Theology: <\/em>A Proposal. Minneapolis: Fortress Press, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>Introduction to The Old Testament as Scripture. <\/em>London: SCM Press, 1979.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>Isaiah, <\/em>A Commentary<em>. <\/em>Louisville; London; Leiden: Westminster John Knox Press, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 Jonah: A Study in Old Testament Hermeneutics. Scottish Journal of Theology, Cambridge, v. 11, n. 1. p. 53-61, mar 1958.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>Old Testament Theology in a Canonical Context. <\/em>London: SCM Press, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>The Book of Exodus: <\/em>A Critical, Theological Commentary Philadelphia: The Westminster Press, 1974.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>The Church\u2019s Guide for Reading Paul<\/em>: The Canonical Shaping of the Pauline Corpus. Grand Rapids; Cambridge: Eerdmans, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>The New Testament as Canon: <\/em>An Introduction. Philadelphia: Fortress Press, 1984b.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S.\u00a0 <em>The Struggle to Understand Isaiah as Christian Scripture<\/em>. Grand Rapids; Cambridge: W.B. Eerdmans Publishing Co., 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHILDS, B. S. Interpretation in Faith: The Theological Responsibility of an Old Testament Commentary. <em>Interpretation<\/em>, Richmond, v. 18, n. 4. p. 432-449, oct 1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ELOY E SILVA, L. H. O sentido teol\u00f3gico do Texto B\u00edblico: releitura e horizontes da interven\u00e7\u00e3o de Bento XVI durante o S\u00ednodo sobre a Palavra na Vida e na Miss\u00e3o da Igreja<em>. Horizonte Teol\u00f3gico<\/em>, Belo Horizonte, v. 10, n. 18, p. 9-27, jul\/dez 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ELOY E SILVA, L. H. A leitura can\u00f3nica do texto b\u00edblico \u00e0 luz de seu medium hermeneuticum e de seu escopo soteriol\u00f3gico. <em>Didaskalia<\/em>, Lisboa, v. 44, n. 1, p. 105-121, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GARGANO, I. A metodologia exeg\u00e9tica dos Padres. In: SIMIAN-YOFRE, H. (org.). <em>Metodologia do Antigo Testamento<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2000. p. 171-192.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">K\u00dcGLER, J. Kanonische, kirchlich, postmodern? Die Bibelwissenschaft sucht ihren Weg nach der Moderne. <em>Orientierung<\/em>, Z\u00fcrich, v. 72, n. 4, p. 38-41, Feb 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PARSONS, M. C. Canonical Criticism. In: BLACK, D. A.; DOCKERY, D. S. <em>New Testament Criticism and Interpretation<\/em>, Grand Rapids: Zondervan, 1991. p. 255\u2013298.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PONTIF\u00cdCIA COMISS\u00c3O B\u00cdBLICA, <em>De Sacra Scriptura et Christologia<\/em> (1984), Enchiridion Biblicum: Documenti della Chiesa sulla Sacra Scrittura. Bologna: Edizioni Dehoniane Bologna, 1993. n. 909-1039.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PONTIF\u00cdCIA COMISS\u00c3O B\u00cdBLICA. <em>L\u2019interpr\u00e9tation de la Bible dans l\u2019\u00c9glise <\/em>(1993), Enchiridion Biblicum: Documenti della Chiesa sulla Sacra Scrittura. Bologna: Edizioni Dehoniane Bologna, 1993, n. 1259-1560.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RATZINGER, J. Interpreta\u00e7\u00e3o B\u00edblica em crise: sobre a quest\u00e3o dos fundamentos e abordagem da exegese hoje. In: DE LA POTTERIE, I. (org.). <em>Exegese Crist\u00e3 hoje<\/em>. 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Roma: Editrice Pontificia Universit\u00e0 Gregoriana, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SANTO AGOSTINHO, <em>Coment\u00e1rio aos Salmos 101-150<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SIMIAN-YOFRE, H. La evoluci\u00f3n de la lectura e investigaci\u00f3n de los libros prof\u00e9ticos. <em>Estudios Eclesi\u00e1sticos<\/em>, v. 85, n. 333, p. 261-286, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TREBOLLE BARRERA, J.\u00a0<em>A B\u00edblia judaica e a B\u00edblia crist\u00e3<\/em>:\u00a0introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da B\u00edblia. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">XUN, C. <em>Theological Exegesis in the Canonical Context. <\/em>Brevard Springs Childs\u2019s Methodology of Biblical Theology. New York, Washington, Bern, Frankfurt, Berlin, Brussels, Vienna, Oxford: Peter Lang, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZIMMERMANN, H. <em>Neutestamentliche Methodenlehre<\/em>. Darstellung der historisch-kritischen Methode. 7. Auflage. Neubearbeitet von Klaus Kliesch. Stuttgart: Verlag Katholisches Bibelwerk, 1982.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 A express\u00e3o leitura can\u00f4nica 2 O m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico 3 Breve panor\u00e2mica hist\u00f3rica da leitura can\u00f4nica 4 Verbum Domini, Bento XVI e a leitura can\u00f4nica 5 A perspectiva can\u00f4nica e o di\u00e1logo ecum\u00eanico 6 Questionamentos e cr\u00edticas Conclus\u00e3o Introdu\u00e7\u00e3o A leitura can\u00f4nica busca interpretar a Sagrada Escritura qual ponte entre a exegese b\u00edblica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-2554","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2554","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2554"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2554\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2651,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2554\/revisions\/2651"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2554"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2554"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2554"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}